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YANG SHENG

Dra. Wenqian Chen

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Excerto

Cheguei a Portugal em 1992, e apesar de Lisboa ser então a cidade mais desenvolvida do país, lembro-me bem da primeira grande diferença intercultural que notei na primeira vez que saí à rua de manhã cedo, na altura do nascer do sol, para fazer aquilo que sempre fiz na China a essa hora, o meu exercício matinal, ao ar livre, claro. Para nós, orientais, o desporto é uma forma de nos equilibrarmos com a Natureza, por isso faz sentido que seja feito ao ar livre, com os pés no chão, em contacto com a terra, com o que nos rodeia, perto do rio, do mar ou de um espaço verde, com o vento a bater na cara, a sentir a Natureza em todo o seu esplendor. E quem já foi à China e saiu cedo à rua sabe do que estou a falar, porque viu certamente esta rotina.

Mas quando o tentei fazer em Portugal, lembro-me de que não tinha como. Não havia espaços próprios para fazer exercício na rua, e as pessoas olhavam para mim como se estivesse a fazer algo absolutamente estranho. Cheguei até a ter receio e achar que era pouco seguro estar à beira-mar sozinha às sete da manhã, mesmo que fosse apenas para fazer exercício. Apesar de ser oriental e de haver diferenças físicas óbvias entre mim e um português, o mesmo se passando com a arquitetura que me rodeava — Portugal é, obviamente, muito diferente da China —, esta foi a grande diferença que notei e aquela que mais me fez sentir deslocada quando cheguei. Nessa época, não havia em Portugal uma preocupação em nos equilibrarmos e correspondermos à energia da Natureza, da qual todos fazemos parte.

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Hoje, após mais de vinte anos de consultas na minha clínica — o Centro de Terapias Chinesas (CTC) — e mais de trinta de vida profissional, é curioso verificar o quanto isso mudou nas últimas décadas. Hoje, noto uma verdadeira diferença. Existem muitos espaços perto da Natureza, seja rio ou mar, e até novos espaços verdes na cidade para fazer exercício, e existe um hábito, cada vez maior, de os portugueses os utilizarem, muitas vezes logo pela manhã. O que não significa que todos o façam com a consciência de que estão a corresponder à Natureza, apesar de muitos reconhecerem os seus benefícios. No meu consultório, tenho muitos pacientes que passaram a fazer exercício de manhã cedo, antes de ir para o trabalho, por uma questão de agenda, mas dizem que com isso se sentem muito melhores ao longo do dia, sem saberem explicar bem o porquê.

A verdade é que cada vez mais existe um conhecimento e uma consciência sobre estes temas em que a mudança de pequenos hábitos pode tornar a vida um pouco melhor. É também para isso que este livro pretende contribuir.

Hoje é claro para mim que há cada vez mais pessoas à procura de novos caminhos para cuidar do seu equilíbrio físico, mental e emocional, com diversos exercícios como meditação, Yoga, Tai Chi Chuan ou Qigong, entre outros, e alimentação saudável. O que é bom. Mas nem sempre o fazem da forma mais correta, ou seja, nem sempre de forma a corresponder à lei da Natureza. Por exemplo, muitas vezes achamos que estamos a comer de forma saudável, mas isso não é verdade. O mesmo acontece com o exercício. Nos últimos anos, têm chegado à nossa clínica cada vez mais casos deste tipo, de pessoas que julgam estar a levar uma vida saudável, muitas vezes com uma alimentação prescrita a rigor por um nutricionista, mas que as levou a um estado de saúde em alguns casos grave e até de risco de vida. Cometer exageros como o de comer saladas cruas em grande quantidade, em alguns casos extremos até carne e peixe crus, como a dieta crudívora ou o vegetarianismo radical, deixar de comer pão de farinha de trigo, arroz, massa e passar apenas a ingerir alimentos integrais, ou deixar de comer a maioria destes alimentos e passar a comer apenas sementes e farinhas, produtos cada vez mais fáceis de encontrar na zona dos produtos dietéticos e biológicos, como alfarroba, chia, espelta, entre outros, e fazer deles a única base da sua alimentação, são erros que podem custar caro.

A verdade é que a maioria destes alimentos são dificilmente assimilados pelo nosso organismo e por isso não fazem parte da lista que durante milhares de anos constituiu a base da alimentação humana. Esta seleção natural, que percorreu a História da Humanidade, aconteceu por alguma razão e não podemos ignorá-la.

Não quero com isto dizer que estes produtos sejam maus de todo. Podem ser uma boa opção, embora com conta, peso e medida, mas, por exemplo, para quem comete excessos e tem distúrbios alimentares, consequência precisamente desses excessos, não são os melhores. Mas podem ser bons produtos para quem tem tendência a comer demais, por exemplo, uma vez que estes alimentos, sendo de difícil digestão, dão a sensação de saciedade e dificultam a assimilação dos restantes alimentos, o que diminui os danos dos excessos. Mas isso deve ser sempre controlado e vigiado, para que se reduza quando os níveis de saúde melhoram, como, por exemplo, o nível do colesterol, a tensão ou o peso.

O caminho que deveria levar a uma vida melhor conduz, por vezes, a doenças graves. E muitas pessoas procuram-me precisamente por isso. Porque, ao contrário do que acontecia em 1992, vejo hoje uma quase obsessão pelo saudável, quer na alimentação quer no desporto, mas sem aquilo que para a Medicina Tradicional Chinesa é fundamental, um equilíbrio, entre corpo e mente, entre nós e a Natureza. Nós somos «criaturas» da Natureza, e por isso temos que seguir a lei da Natureza como todos os seres, essa é a forma natural das coisas acontecerem.

A Medicina Tradicional Chinesa é holística. Corpo e mente constituem elementos indissociáveis, influenciando-se mutuamente e repercutindo-se no nosso bem-estar. Mas é mais do que uma doutrina, é uma filosofia de vida.

Muitos pacientes que chegam à clínica comem de forma «saudável», fazem exercício físico regularmente, preocupam-se com o seu bem-estar. Mas isso nem sempre corresponde à lei da Natureza.

Dou-vos um exemplo de algo que hoje se tornou uma moda e que aos olhos da MTC é contra a lei da Natureza. Vejo muitas pessoas a correr à noite, e a fazer exercício encharcadas em suor no inverno. Segundo as regras da MTC, o inverno e a noite são alturas de armazenamento da nossa energia para o próximo ano e para o dia seguinte. O desporto deve fazer-se de manhã, com o nascer do sol, e deve ser adaptado a cada estação do ano, bem como a cada etapa da nossa vida. Uma pessoa de 50 anos não deve fazer desporto da mesma forma que uma pessoa de 20 anos. Os exercícios que fazemos no verão não devem ser os mesmos que fazemos no inverno. Por isso, é tão importante respeitar a Natureza e perceber como nos devemos equilibrar com ela.

Muitos dos meus pacientes vêm ao CTC depois de uma desilusão com a abordagem da medicina ocidental, seja em que patologia for. Depois de analisar o pulso e/ou língua para fazer o diagnóstico, numa primeira explicação, quando lhes falo dos seus desequilíbrios e proponho tratamentos como a acupunctura ou a fitoterapia para reequilibrar, alguns julgam-se perante soluções esotéricas e têm dificuldade em perceber como agulhas ou ervas, mas, especialmente, agulhas, e somente agulhas, lhes serão fisicamente úteis. Após alguma hesitação — e porque vivem momentos de aflição — experimentam, e ficam surpreendidos com os resultados, na maioria dos casos, imediatos.

É após esta primeira etapa que surgem o interesse, as perguntas e as horas de conversa. Para explicar esta ciência milenar, não existem horas que cheguem, e muitas curiosidades ficam por esclarecer. Pedem-me bibliografia, sítios onde podem obter mais informações sobre a MTC, sobre como equilibrar o corpo e a mente, ou como nos devemos relacionar com a Natureza. Foi para responder a estas necessidades que decidi escrever este livro.

Os livros editados em Portugal, e noutros países que não a China, sobre MTC são maioritariamente técnicos, cheios de terminologia nem sempre fácil de entender para o público em geral. E a parte mais interessante fica muitas vezes por contar.

A ideia deste livro é explicar de forma simples, e em discurso direto, como a MTC vê este equilíbrio, tão fundamental para orientais e cada vez mais procurado por ocidentais. Nestas páginas, convido-vos a conhecer um pouco dos fundamentos da MTC e a perceber como podemos aplicar no nosso dia a dia, e, até, hora a hora, esta filosofia de vida. Como mudando pequenos hábitos e gestos podemos aprender a viver em harmonia com a Natureza, com mais saúde e tranquilidade.

Aqui pode encontrar pequenas dicas de como organizar melhor as 24 horas do dia, e o que é mais apropriado para cada fase da vida e cada estação do ano.

O desafio é experimentar. Estou certa de que verá diferenças notórias.

Capítulo I

Quando, na década de 1990, decidi viver na Europa, falar em Medicina Tradicional Chinesa (MTC) era, para a maioria das pessoas, o mesmo que falar num mundo distante e esotérico, com métodos de cura estranhos. Tive mesmo quem procurasse a nossa clínica na expetativa de encontrar uma bola de cristal e alguém que pudesse prever o futuro. No entanto, precisamente nessa altura começava a haver um maior fascínio e vontade de conhecimento pelo Oriente e por esta medicina milenar.

O mundo evoluiu e a informação é hoje muito maior e mais acessível, permitindo a qualquer pessoa saber facilmente o que é a MTC e como funciona, mas, mesmo assim, para algumas pessoas ainda é algo no mínimo estranho e difícil de compreender.

Na verdade, a MTC baseia-se em fundamentos muito simples. Tem como base o reconhecimento das leis fundamentais da Natureza, que aplicam o mesmo funcionamento ao organismo humano, e a sua interação com o ambiente segundo os ciclos da Natureza. E procura aplicar esta abordagem tanto no tratamento de doenças ou desequilíbrios, bem como na manutenção da saúde através de diversos métodos.

Na realidade, a medicina chinesa dedica-se à saúde e não à doença, mais à prevenção do que ao tratamento. Ou seja, pensamos no equilíbrio da pessoa e não no diagnóstico. E isso é o que nos diferencia da medicina ocidental.

Um paciente que venha à clínica, não precisa de dizer qual é o seu problema, basta-me ver a língua e tomar-lhe o pulso. A partir daí vamos tratá-lo a pensar na sua saúde como um todo e não num problema em particular. Se estiver em equilíbrio e harmonia, não existe espaço para a doença. Por isso, habitualmente focamo-nos no seu equilíbrio, na sua saúde e na causa do desequilíbrio existente, e não no desequilíbrio em si, ou seja, na doença.

Isto é algo que, para quem está habituado a conviver apenas com a medicina ocidental, pode fazer alguma confusão. Razão pela qual tive de me habituar a deixar falar os meus pacientes, porque nem todos compreendem este método. Embora seja este o método tradicional da Medicina Chinesa, e de eu o praticar durante muito tempo, apercebi-me de que gerava alguma ansiedade nos nossos pacientes e passei a deixá-los falar e desabafar sobre a razão que os trouxera à clínica.

Tivemos um exemplo bem ilustrativo disto, uma paciente estrangeira que chegou ao nosso consultório com diversos problemas de saúde e que tinha já sido observada em vários países. Chegou até nós já com dificuldade em trabalhar e em fazer a sua vida normal. Comecei por lhe fazer o diagnóstico através do pulso e coloquei de seguida duas agulhas. Sentiu um alívio imediato e ficou bastante melhor. Mas, quando chegou a altura de pagar o tratamento, ficou muito descontente, porque, apesar de nos ter procurado por conhecer os excelentes resultados da clínica, achou que a médica não tinha falado com ela e não tinha ouvido a sua história, e que duas agulhas não justificavam o valor da consulta. Apesar de pagar, deixou um comentário bastante negativo nas redes sociais sobre a sua experiencia na clínica. Quando nos apercebemos desse comentário, fizemos questão de contactá-la para saber como estava e, sem grande surpresa, soubemos que estava muito melhor, sentia-se como não se sentia há anos. Algo envergonhada, pediu se podia regressar aos tratamentos, o que para nós, enquanto médicos e terapeutas, fez obviamente todo o sentido, uma vez que a nossa função é a de melhorar a vida dos nossos pacientes. Não só voltou, como é até hoje nossa paciente regular.

Muitas vezes, os pacientes ficam também muito impressionados por aplicarmos agulhas na barriga ou no braço para tratar um problema no joelho ou no tornozelo, por exemplo, ou de colocarmos agulhas nos pés para tratar problemas de sinusite ou enxaquecas. Sobretudo, porque normalmente as dores desaparecem quase por completo na primeira sessão. São métodos estranhos para um ocidental, mas perfeitamente banais para um oriental. E embora ainda exista muito desconhecimento, há hoje um maior interesse por esta medicina milenar, que, de facto, tem feito a diferença na vida de muitas pessoas.

Para muitas pessoas, ser saudável é tão só ter saúde. Mas, aos olhos da MTC, é um pouco mais do que isso. Algo que para um ocidental até pode ser difícil de entender, e difícil de explicar para os especialistas de MTC. Mas vamos tentar, até porque acreditamos que esta visão é benéfica para todos os seres, oriundos de qualquer parte do mundo. Na explicação de Jing, Qi, Shen vamos perceber melhor o que significa para a MTC cuidar da saúde.

Viver de acordo com a Natureza é um dos princípios base da cultura e da filosofia da Medicina Tradicional Chinesa (MTC). Parece fácil, mas a verdade é que hoje em dia não acontece com a maior parte de nós.

Vivemos em ritmos distintos aos da Natureza. Já não precisamos do verão para nos bronzearmos, fugimos ao frio do inverno com aquecimento e temos alimentos de todas as épocas ao nosso dispor ao longo de todo o ano. Atrevo-me mesmo a dizer que poucos ainda se lembram sequer das alturas de cultivo de cada legume ou fruto. A Natureza, para muitos de nós, nasce já embrulhada em celofane, em vastas maternidades industriais, e surge nas prateleiras dos grandes hipermercados, limpa, polida, e pronta a consumir.

Especialistas de todo o mundo e das mais variadas ciências têm vindo a alertar para os efeitos perversos deste afastamento da nossa matriz natural. Razão pela qual o consumo de suplementos alimentares tem proliferado na busca de colmatar uma falta de nutrientes que deveriam ser fáceis de obter numa alimentação adequada. Porque, por vezes, não temos tempo, noutras sobrepõe-se o culto da beleza e da perfeição, e na maioria das vezes não temos os conhecimentos que devíamos ter sobre como alimentar o nosso corpo.

Todos nós já nos confrontámos com algumas destas questões:

Horários trocados — cada vez temos mais responsabilidades e desdobramo-nos para cumpri-las, a nível profissional e familiar. Acordamos cedo e dormimos tarde. Somos um dos povos da Europa que mais tarde janta e se deita, comemos quando temos tempo e onde é possível, e passamos a vida a sonhar que as 24 horas de cada dia se multipliquem.

Ansiedade — fruto do stress a que somos sujeitos por estarmos sempre a correr, é frequente sofrermos de ansiedade, seja momentânea ou, muitas vezes, crónica. É difícil distanciarmo-nos dos problemas quando parece que o mundo vai explodir a cada instante.

Dietas – a exigência de correspondermos aos padrões de beleza, ou de nos mantermos «saudáveis» numa rotina louca, leva a que procuremos dietas que corrijam a aparência e os hábitos alimentares. No entanto, muitas das dietas da moda têm por objetivo o «milagre» de reduzir o nosso peso no menor tempo possível. Muitas vezes, cortam vastas gamas de alimentos, colmatando a sua ausência com um excesso de outros ou de suplementos alimentares. Decisões que muitas vezes acabam por nos deixar doentes.

Exercício físico — é ótimo que estejamos a despertar coletivamente para a importância de manter uma vida ativa, e o número de praticantes de desporto tem aumentado nos últi ...