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VIVER SEM PLáSTICO

Will McCallum  

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Excerto

INTRODUÇÃO

— Pode dar-me um minuto de atenção? Dê uma vista de olhos a isto.

Grant Oakes, o nosso oficial de biossegurança a bordo do Arctic Sunrise, o navio quebra-gelo da Greenpeace, pega-me no braço e leva-me do refeitório até ao nosso laboratório improvisado no porão, onde montou um microscópio. Enquanto ele roda a placa de Petri sob a lente do microscópio, eu foco o objecto infractor: duro, cor-de-rosa claro, com bordas serrilhadas; obviamente, não é de origem natural. Ao que tudo indica, acabámos de encontrar o nosso primeiro fragmento de plástico nas cristalinas águas antárctidas em que estamos a navegar. Alguns colegas juntam-se a nós, e revezamo-nos a examinar o objecto. Só poderemos confirmar se é de plástico passado um mês, quando levarmos o fragmento para o nosso laboratório na Universidade de Exeter para análise, mas um leigo dificilmente acreditará que se trata de outra coisa. (Algumas semanas mais tarde, os resultados revelaram que encontráramos dois fragmentos de plástico em águas que ficam a centenas de quilómetros de locais habitados pelo homem de forma permanente.)

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A reacção no refeitório não é de surpresa, longe disso; dir-se-ia até que há algum tempo que já estávamos à espera de encontrar tais resultados. Os navios da Greenpeace têm procurado objectos de plástico no mar desde meados da década de 1990 e, nos últimos anos, a sua presença nas nossas redes de arrasto tem aumentado exponencialmente em todos os oceanos onde é praticada a navegação. Nos navios da Greenpeace, vai-se tornando um procedimento habitual, de três em três viagens, aproveitarmos todas as oportunidades, caso as condições atmosféricas e o gelo o permitam, para aplicarmos o que se convencionou chamar uma rede de arrasto tipo manta: trata-se de uma rede de malha fina, com cerca de um metro de largura na boca, com a qual tentamos apanhar plástico no mar. Da tundra gelada do Árctico às mais profundas fossas oceânicas, os cientistas encontraram objectos de plástico em quase todos os locais onde procuraram. Porque não haveríamos de encontrá-los também aqui na Antárctida, nos confins do planeta, apesar da falta de habitantes permanentes da espécie humana?

Há quase dois meses que andamos a navegar nestas águas. Estamos a trabalhar com cientistas, jornalistas e celebridades, para reforçarmos a consciencialização sobre a necessidade de protegermos esta imensidão. Trata-se de uma paisagem diferente de tudo o que já vivenciei: durante a maior parte do tempo encontra-se envolta em densa neblina, que de vez em quando se esfuma revelando cumes proeminentes e enormes glaciares que descem em cascata rumo ao mar. O principal tema de conversa a bordo é a incrível e permanente abundância de fauna selvagem à nossa volta. Basta fixarmos o olhar num troço de água durante algum tempo para, quase garantidamente, avistarmos uma barbatana de uma baleia-de-bossa a passar por um pequeno grupo de pinguins que irrompem da água por entre os icebergues retorcidos que nos cercam. É preocupante pensarmos que, mesmo estas águas geladas, repletas de animais selvagens completamente indiferentes à nossa presença, estão a começar a ser poluídas por plástico produzido do outro lado do mundo.

Não é preciso irmos até à Antárctida para chegarmos a esta triste conclusão. Todas as pessoas com quem tenho falado sobre este assunto já passaram pela experiência de encontrar um plástico intruso numa paisagem que lhes é querida. É quase impossível visitarmos as praias da nossa predilecção ou caminharmos à beira-rio sem avistarmos detritos de plástico à deriva, que se dirigem ameaçadoramente para o mar. O problema da poluição provocada pelo plástico é sentido de forma emotiva por tanta gente, devido ao facto de nos estar a afectar a todos diariamente. Desde as manchetes dos tablóides aos longos debates dos políticos no Parlamento, desde as famílias comuns que tentam livrar-se do plástico às celebridades que patrocinam produtos que supostamente serão mais amigos do ambiente, toda a gente anda a falar da necessidade de encontrarmos uma solução para a maré de plástico que aflui aos nossos oceanos.

Um pouco por todo o mundo, as pessoas estão a aperceber-se da situação ridícula em que nos encontramos: conseguimos criar um material e utilizamo-lo a uma escala inacreditável sem termos nenhum plano que nos permita lidarmos com ele posteriormente. Os talheres de plástico descartáveis, os sacos de plástico e os copos de café com revestimento de plástico tornaram-se artigos fundamentais na nossa vida: após uma única utilização, que dura escassos minutos, demoram centenas de anos a decompor-se. É insustentável continuarmos nesta senda: estamos a condenar as gerações futuras a viverem num mundo em que, por volta de 2050, o peso do plástico que vai parar ao mar poderá ultrapassar o dos peixes. Esta perturbadora estatística, conjugada com a nossa indignação colectiva devido ao excesso de embalagens e aos produtos de plástico inúteis, estão a galvanizar um movimento global que se dispõe a ir além da mera retóri ...