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UMA CASA EM MOSSUL

Paulo Moura  

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Excerto

INTRODUÇÃO

A guerra da Síria, o nascimento da Al-Qaeda do Iraque, a crise dos refugiados e o surto do terrorismo já eram sinais suficientemente inquietantes da fragilidade do mundo, uma espécie de limiar do Apocalipse a que chegámos após demasiados erros, ilusões, imprudências e arbitrariedades.

A sensação que tenho é a de que vi tudo isto aproximar-se, desde a Argélia e o Afeganistão, a loucura da guerra do Iraque, o crescer do fundamentalismo islâmico, a esperança e o perigo da Primavera Árabe. Passo a passo, construímos o nosso Inferno.

Mas o Estado Islâmico parece ser de outra natureza. Pela dimensão da sua barbárie, do seu horror, dir-se-ia tratar-se de uma surpresa da História. Algo que ninguém poderia ter previsto, um ser estranho à própria Humanidade, como o nazismo.

Não é o caso. O califado de Mossul ergueu-se levando simplesmente às últimas consequências o que há muito vinha sendo enunciado. Mas a sua capacidade de estranhamento reside precisamente nessa frontalidade legítima, de espelho, com que se nos impõe. Os verdadeiros jornalistas sabem que, muitas vezes, o mais familiar é o que mais custa a compreender.

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O Estado Islâmico é, provavelmente, de todas as realidades do século XXI, a mais difícil de compreender. Talvez um dos maiores desafios de sempre. Nas regiões que controla, e que até há pouco tempo incluíam grande parte dos territórios do Iraque e da Síria, é impossível entrar. Um jornalista só chega quando os jihadistas já partiram ou foram aniquilados. Se chegar antes será ele aniquilado fisicamente ou, se não fisicamente, decerto como jornalista. O Estado Islâmico é uma imagem que se desvanece quando lhe tentamos tocar.

Eu quis aproximar-me o mais possível. Criei a minha base em Erbil, fiz incursões pelo Curdistão iraquiano, até Slimani e outras cidades junto à fronteira do Irão, aproximei-me da Síria ee das zonas habitadas pelos yazidis. Atravessei a Turquia, tive encontros secretos com sírios em Istambul. Finalmente, entrei em Mossul Ocidental, quando os combates ainda decorriam. O governo de Bagdade anunciou a libertação da cidade do domínio do Estado Islâmico enquanto, ao mesmo tempo, dava ordens para matar todos os resistentes, todos os suspeitos de serem, ou terem sido, resistentes, incluindo as suas famílias, incluindo as suas crianças.

Foi nesses dias que me instalei numa casa em Mossul Ocidental. Não uma casa qualquer. A mansão de Hassan Ali, o pai de Khaled, um jovem que conheci na minha primeira visita à cidade, foi construída sobre um dos maiores cemitérios do Iraque. Precisamente na zona do cemitério onde, junto a uma linha de caminho-de-ferro desactivada, nos últimos meses do seu regime, a um ritmo de duas vezes por dia, o Estado Islâmico procedeu à matança de centenas, se não milhares, de supostos opositores. Executava-os à beira da cova onde eles iam caindo, uns em cima dos outros. Quando cheguei, as marcas ainda estavam frescas no solo, viam-se sulcos entre os blocos que cederam um pouco, formando concavidades de terra mole.

A família de Hassan Ali colocou a minha cama, sem colchão, num pátio ao ar livre situado entre a casa e a vala comum ainda por abrir. E foi ali, em noites de calor escaldante, moscas, cavalos e cães selvagens, que escrevi este livro. Quando cheguei a Lisboa editei, acrescentei, organizei o texto, mas o lugar da escrita, o ponto de vista, a minha casa, foi ali, rente ao palco do massacre, na fornalha de Julho e da guerra.

Foram dias de absoluta loucura, entre as vagabundagens pela cidade destruída, os fins de tarde na quinta com vista para as aldeias pejadas de snipers escondidos e, mais ao longe, as montanhas do Sinjar, onde o genocídio dos yazidis mal terminara as suas fases finais; as conversas com Hassan Ali e os filhos sobre as minhas hipóteses de ser raptado (talvez por eles) e vendido ao Estado Islâmico; os ralis a grande velocidade pelos trilhos poeirentos do cemitério, com o sobrinho de Khaled, de seis anos, ao volante do jipe do avô.

É provável que essa atmosfera tenha impregnado as páginas que se seguem, que são muito mais o relato da minha experiência do que a análise rigorosa do Estado Islâmico como fenómeno político, religioso ou militar.

Em vários pontos da narrativa recordei episódios, reportagens ou entrevistas de outros momentos e lugares, por me parecer que se integravam no fluxo reflexivo. Foi o caso, por exemplo, da entrevista com o escritor J. G. Ballard, sobre a necessidade da violência, que realizei em Londres em 2004. Ou dos encontros, em Madrid, em 2007 e 2011, com o jornalista espanhol Antonio Salas, que se infiltrou em grupos terroristas islâmicos.

Os nomes das pessoas citadas no livro são verdadeiros, excepto, por motivos de segurança, os de Khaled, o seu amigo motorista, Walid, os irmãos — Mohamed e Akhram —, o pai, Hassan Ali, a mulher, Sham, e a prima, Lava. No capítulo «Quando os advogados vão à guerra», apenas são verdadeiros os nomes de Bill Wiley e de Chris Engels. Também não pode ser revelado o nome da cidade europeia onde se situa o quartel-general da CIJA e a «sala das provas» onde a organização reúne os documentos que poderão levar à condenação, em tribunal, por crimes contra a Humanidade, dos líderes do Estado Islâmico e do regime sírio.

A viagem que deu origem a este livro foi possível graças à Bolsa de Exploração Nomad. É a generosidade e a visão de pessoas como Tiago Costa e os seus companheiros da agência Nomad e do espaço Manifesto que vão assegurar a sobrevivência da reportagem séria e das grandes narrativas sobre o nosso mundo.

De certo modo, esta foi uma viagem a um país desaparecido. O Estado Islâmico, na sua componente política e territorial, está praticamente derrotado. Mas não como força e como ideia.

É previsível que o seu terrorismo e capacidade de fascínio e recrutamento continuem, noutros lugares, sob outras formas, tal como era previsível a sua emergência num mundo iníquo e desorientado. Está demonstrado que os grandes movimentos da História são aqueles que ninguém foi capaz de prever. Mas isso é, apesar de tudo, a nossa maior esperança.

Março, 2018

PRIMEIRA PARTE

«ZONA LIBERTADA»

«MADAME, MR. PAULO. MADAME!»

Vivo aqui. Esta é a minha morada em Mossul Ocidental nos últimos dias da batalha. Durmo na rua. À noite, a temperatura desce um pouco. Mas estes 47 ºC são bem mais difíceis de suportar do que os 52 que o termómetro do carro costuma marcar, de um modo constante, durante o dia. Difíceis por causa do vento, que corre do lado do cemitério e vem eivado de ruína e morbidez. Não é mais que um fedor que ataca insidiosamente, sem colisão, envolvendo o corpo e activando uma espécie de jogo mental.

O que está do outro lado? O que se passa por trás da trincheira de sombra? Que matéria exala este vapor? É um erro confiar nos sentidos. O olfacto é um reflexo do que não conseguimos ver. O que ouvimos é palpável como um exército de zombies. E as imagens, essas que deixam um azedume na boca que não desaparece, são tão reais como as palavras, o nosso verdadeiro sexto sentido.

Aqui, neste lugar mais desabrigado do que a rua, a imaginação é exorbitante como nos mundos primitivos. Ficamos aguilhoados pelo medo, pela consciência do perigo. Totalmente desprotegidos, em puro estado de alerta, em puro estado humano.

Não consigo dormir. Passou uma semana e quase não preguei olho, flagelado pelo calor e os mosquitos. O cansaço acumula-se, traz os nervos à superfície. São noites medonhas, intermináveis. De vez em quando os animais aproximam-se, sem qualquer receio. Primeiro os cavalos.

Antes de me atirarem para aqui vi, espreitando por cima do muro, o pai e o irmão de Khaled a lavarem, com uma mangueira, a bosta dos cavalos do chão de cimento irregular. Suspeitei vagamente de que me reservavam aquele pátio a céu aberto nas traseiras da casa, embora me recusasse a acreditar. Não teriam coragem, pensei.

Agora, mal a noite se instala, a égua e o potro regressam a casa. Chegou a haver um macho mas, segundo Khaled, os guardas do Estado Islâmico capturaram-no e mataram-no. Resta uma família desmembrada e taciturna, atraída na minha direcção por uma displicente curiosidade.

O mais jovem estabeleceu contacto logo na primeira noite, precisamente quando tentava fechar os olhos. Saltei da cama de ferro, sem colchão, ao sentir-lhe os beiços frios a roçarem-me a cara. O meu susto fê-lo dar um passo atrás, mas era claro que não tencionava ir embora. A mãe aproximou-se a seguir, sem me atribuir muita importância. Apenas queria ver se estava tudo bem, se não havia problemas com o novo habitante do estábulo.

Desde então, ficámos juntos. Eu e os cavalos, numa coabitação serena e silenciosa, sem ponta de hostilidade. Acabei por me habituar à sua presença, confiante e afectuosa, que se tornou o único conforto destas noites sobressaltadas.

Em certos momentos, quando as explosões e as rajadas de metralhadora soam na escuridão, se vislumbram relâmpagos ao longe, irisados de fumo e poeira metálica, e o chão treme debaixo dos pés, fitar os meus cavalos faz-me bem. É como se a sua beleza, o pêlo claro e limpo, a sua calma imperturbável no meio da destruição, os movimentos plácidos e estranhamente fora da realidade, me salvassem da loucura.

Eles são a minha casa e estão ao meu lado, ao contrário dos cães, que sinto que pertencem ao mundo exterior, em comunicação com o perigo e o desconhecido. Só vejo um, mas são dezenas.

O que aparece anda sempre por aí, mesmo durante o dia. Finge ser da casa, mas tudo nele é ambiguidade e artolice rafeira. Desde o início que não me deixou uma boa impressão. Andava de lado, sem olhar para mim, desengonçado e tinhoso, pingão e cómico, como um cão desenhado por uma criança.

O resto da matilha estaria, por certo, nas imediações, mas não se aproximava. Eu sabia que havia cães selvagens a toda a volta porque várias vezes, durante a noite, desatavam a ladrar desalmadamente, como se os estivessem a matar. Imaginava-os envolvidos em lutas ferozes, uns com os outros, ou com alguma espécie de invasores, e pensava: «Vem aí alguém. É agora.» O rapto de jornalistas era o desporto-rei nas zonas do Estado Islâmico (EI) e eu estava ali, mesmo a jeito.

Quando conheci Khaled, na margem oriental do Tigre, junto à ponte de Hawi al-Kaneesa, prometeu-me que podia ficar em casa dele, em Mossul Ocidental. Trabalharia comigo como tradutor, seríamos transportados pelos meandros da cidade destruída no carro de um amigo. Tudo isto, mais o alojamento, por cento e cinquenta dólares diários. Excelente negócio para uma zona de guerra.

Dias depois regressei à cidade e, após inúmeras tribulações para entrar na área ainda fustigada pelos combates entre as forças iraquianas e o Estado Islâmico, instalei-me na fabulosa quinta de Hassan Ali, o pai de Khaled. A família mostrava-se satisfeita com a derrota iminente dos jihadistas. Entre outras coisas, explicavam, era inadmissível o modo como tratavam as mulheres.

Na primeira noite dormi numa bela sala com ar condicionado e almofadas no chão. Todos os homens da casa também ali ficaram. No dia seguinte, porém, Khaled fez-me saber que tencionavam mudar-me para outro lugar, onde eu «estaria mais à vontade». Agradeci, disse que não valia a pena, mas Khaled insistiu. Voltou para a casa onde vivia com a mulher e os filhos, e eu fiquei sozinho com o pai, o irmão e as respectivas famílias, que não falavam inglês.

Às nove da noite, Hassan Ali apontou-me a porta de saída. «Mr. Paulo. Madame!» No pátio das traseiras tinham colocado uma cama de ferro com uma tábua em vez de um colchão, e uma mesa de plástico. Perante o meu desapontamento, o velho iraquiano repetia: «Madame!»

Todos os dias, à mesma hora, ouvia o grazinar de homens, mulheres e crianças do outro lado da parede enquanto jantavam juntos. Mais tarde, Hassan Ali ou Mohamed, o seu filho mais novo, levavam-me comida. Claramente, os restos do seu repasto. A seguir, pai e filho, alternadamente, sentavam-se comigo durante uma boa meia hora, tentando fazer conversa em árabe. Era evidente que sentiam remorsos por me terem mandado para ali. Mas não havia maneira de o evitar. As mulheres da casa, que na primeira noite ficaram escondidas não sei onde, precisavam de circular intramuros sem se cruzarem comigo. A isso se deveu a minha expulsão, explicaria Khaled.

Durante a noite, sempre que começa o alarido desvairado dos cães, é impossível não pensar que chegou a minha hora. Estou aqui em exposição, uma espécie de mascote numa montra, em saldo para todo o tipo de ressabiados do Estado Islâmico ou raptores em busca de resgates chorudos. No entanto, a hospitaleira família não tem como proteger-me. Hassan Ali, que percebe a indignação nos meus olhos, limita-se a dizer, mortificado: «Madame, Mr. Paulo. Madame!»

«AS MULHERES SÃO COMO OS CAVALOS»

Hassan Ali é especialista em mulheres. Longe de lhe contestarem a competência, todos parecem dela fazer uso com grande proveito, principalmente os filhos. Os três tiveram casamentos arranjados, com esposas indicadas por Hassan. Nenhum está arrependido. Mal fizeram dezasseis anos, o pai tratou de arrumá-los. As raparigas estavam escolhidas desde tenra idade e são todas da família. Primas direitas em dois dos casos. Nem Khaled, nem Mohamed ou Akhram tiveram voto na matéria.

Quando lhes perguntei se o amor não tinha qualquer importância, olharam-me como se estivesse a dizer algo completamente estúpido. O amor? O que era isso em comparação com a sabedoria do pai? A probabilidade de um casamento assente no amor — ou qualquer outro sentimento juvenil — correr mal era muito maior do que a de um baseado na sabedoria. Este era o argumento mas não a verdadeira razão por que aceitaram a escolha do pai. Essa era a obediência. «Acima de tudo, tenho respeito pelo meu pai», disse Khaled. «Nunca lhe desobedeceria. Nem questionaria as suas decisões. Ele é o meu pai. Ele sabe o que é melhor para mim.»

Estávamos sentados no grande relvado frente à casa vermelha e sobranceiro à quinta, que se estende num vale arborizado e verde, enxertado na aridez barrenta do cemitério. Ao final da tarde, quando o calor se dissipou um pouco, foi colocada uma mesa grande junto à cerca para lá da qual pastavam as vacas e os cavalos. O sistema de rega automática mantinha a vegetação viçosa e fresca em contraste com, junto ao portão, o cenário dos três carros carbonizados pelos bombardeamentos. Por trás via-se a pequena aldeia e, mais ao longe, as montanhas, por cima das quais o Sol descia lentamente, com meneios alourados.

Foi o meu primeiro jantar com a família, quer dizer, com a parte masculina da família. O primeiro e o último antes de ser expulso para o curral, mas ainda não o sabia.

«Eu percebo de mulheres», disse Hassan Ali depois de uma abundante e condimentada refeição de tagine de frango. Já tinha escurecido e falávamos da quinta e da família, dos últimos anos de vida difícil no Iraque. O som de uma explosão ouvia-se de vez em quando, ao longe. «É fácil. As mulheres são uma combinação de sangues e, se conhecermos os progenitores, não nos enganamos.»

E não havia dúvida de que Hassan conhecia os progenitores, uma vez que eles eram, no caso, os seus próprios irmãos e irmãs. «As mulheres são como os cavalos», concluía o velho iraquiano, recostado na cadeira de plástico. «Se a mãe não era uma mulher séria e recatada, é pouco provável que a filha o seja. Portanto, se conhecermos a mãe… Nunca falha.»

Não falhou no casamento de Khaled com Sham, sua prima direita, ele com dezasseis anos, ela com quinze. Em menos de dez anos, tiveram cinco filhos e poucas razões de queixa, diz Khaled. Mas agora acha que está na altura de casar de novo. Só há pouco tempo reparou nesta outra prima, Lava, que acabou de fazer dezasseis anos. Falou um pouco com ela durante um jantar de família e ficou logo apaixonado. «Sinto que foi feita para mim», pode dizer agora Khaled, porque já falou com o pai acerca do assunto. O casamento foi aprovado. Hassan Ali voltou a aplicar o método geralmente usado com os cavalos e concluiu pela positiva. Não foi difícil porque os cálculos eram basicamente os mesmos do casamento anterior: Lava é filha, não da sua irmã, mas do seu irmão.

Este ponto entusiasma muito Khaled. «Ela é mesmo minha prima», diz, com um enlevo quase místico. E foi difícil perceber o que queria dizer com aquilo, uma vez ela era tanto prima como a outra. «Lava é mesmo minha prima direita», recusava-se ele a perceber que Sham também o era. Peguei num papel e desenhei uma espécie de árvore genealógica, com um boneco a representar o pai e duas setas paralelas que indicavam o irmão e a irmã e, destes, as respectivas filhas. Mesmo assim, Khaled não via o paralelismo. As setas que partiam do tio pareciam-lhe mais curtas do que as provindas da tia. «Ela é mesmo minha prima direita porque é filha do irmão do meu pai.»

Esse irmão já está informado das intenções do sobrinho, e a data do casamento só não foi logo marcada devido à actual situação de insegurança na cidade. Ficou decidido esperar até que Khaled termine o curso de Língua e Literatura Inglesa que frequenta na Universidade de Mossul.

O adiamento devia ter agradado a Sham, mas a verdade é que a pôs mais nervosa. Sabe que terá de partilhar o marido com outra mulher ou, no futuro, com mais três. Sempre soube. Mas agora que essa perspectiva se torna mais real, começa a desesperar.

Enquanto eu, Khaled e Walid, o seu amigo motorista, percorremos Mossul, de carro, em busca das mais tremebundas histórias de massacres e bombardeamentos, de jugo e opressão sob a égide do EI, Sham não pára de telefonar. Khaled ouve os seus lamentos durante longos períodos, sem se dar ao trabalho de fazer grandes contra-argumentações. Vai sorrindo e soltando uns comentários entre o brincalhão e o irritado, com piscadelas de olho para mim e para o amigo. Na sua perspectiva isto não passa de um jogo, uma briga doméstica sem grande importância.

No entanto, pela veemência febril que se pressente do outro lado da linha, é evidente que Sham está em agudo sofrimento. E tudo piora quando a família de Lava, que anda de casa em casa porque a sua foi destruída por uma bomba, vai viver temporariamente com Khaled. Durante o dia, quando os homens saem para trabalhar, Sham e Lava ficam em casa, com as crianças, numa espécie de estágio para o futuro harém.

Khaled não larga o telefone enquanto trabalhamos, o que, por vezes, me exaspera, não apenas porque não se concentra no que estamos a fazer mas, principalmente, pelo tom leviano e galhofeiro com que fala com a mulher. Por várias vezes deixamos pendurado alguém que está a relatar um testemunho dramático porque Khaled tem de atender o telefone. Ficamos ali parados, com os entrevistados, por vezes uma família ou um grupo numeroso reunido de propósito numa sala despida e abafada, a olhar para mim, sem podermos continuar a conversa porque o tradutor tenta acalmar os ciúmes da mulher com cochichos, larachas e risinhos aparvalhados.

Uma vez, disse a Khaled que queria entrevistar as amigas da mulher dele. Andava farto de falar apenas com h ...