O Letreiro
Tommy Guptill teve, em tempos, uma quinta de produção de leite, herdada do seu pai, a três quilómetros da cidade de Amgash, no Illinois. Foi há muitos anos, mas, por vezes, Tommy ainda acordava de noite com o mesmo medo que sentiu na noite em que a sua exploração ficou destruÃda num incêndio. A casa também ardeu por completo; não ficava longe das vacarias e o vento soprou as fagulhas na sua direcção. A culpa foi dele —sempre achou que a culpa foi sua—, porque naquela noite não verificou se as máquinas de ordenha estavam devidamente desligadas, e foi aà que o fogo começou. Uma vez ateado, propagou-se furiosamente a todo o lado. Perderam tudo excepto a moldura de latão do espelho da sala de estar, que ele encontrou nos escombros no dia seguinte e deixou onde estava. Fez-se uma colecta: durante várias semanas, os seus filhos foram para a escola com a roupa dos colegas, até Tommy se recompor e reunir o pouco dinheiro que tinha; vendeu a terra ao agricultor vizinho mas não lhe rendeu muito dinheiro. Então, ele e a esposa, uma mulher baixa e bonita chamada Shirley, compraram roupa nova e Tommy também comprou uma casa, e Shirley, de um modo admirável, conseguiu manter-lhe o ânimo enquanto tudo isto se desenrolava. Tiveram de comprar casa em Amgash, uma vila dilapidada, e os seus filhos passaram a frequentar a escola aà em vez de em Carlisle, onde foram admitidos porque a sua quinta ficava mesmo na zona que dividia as duas vilas. Tommy empregou-se como contÃnuo na rede escolar de Amgash; a estabilidade do emprego agradava-lhe e nunca seria capaz de trabalhar na quinta de outra pessoa, não tinha estômago para isso. Na altura, tinha trinta e cinco anos.
Agora os miúdos estavam crescidos, eles próprios tinham filhos também crescidos, e ele e Shirley ainda viviam na sua casinha; ela plantou flores em redor da casa, o que era invulgar naquela vila. Aquando do incêndio, Tommy ficou muito preocupado com os filhos; deixaram de viver numa casa que recebia visitas de estudo —todos os anos, na Primavera, os alunos do quinto ano de Carlisle tiravam um dia para isso e comiam os respectivos almoços junto às vacarias, nas mesas de madeira que aà havia, depois percorriam as vacarias para ver os homens a ordenharem as vacas, a substância branca e espumosa a subir e a passar por cima deles através dos tubos de plástico transparentes— e passaram a ver o pai como o homem que varria o «pó mágico» que era atirado para cima do vomitado de um miúdo qualquer que tinha ficado maldisposto nos corredores, vestido com umas calças cinzentas e uma T-shirt branca com Tommy bordado a vermelho.
Bem. Todos eles sobreviveram a isso.
Naquela manhã, Tommy conduziu devagar em direcção à vila de Carlisle para tratar de uns assuntos; era um sábado de Maio ensolarado e faltavam poucos dias para a sua mulher fazer oitenta e dois anos. À sua volta apenas havia campos a perder de vista, o milho recém-semeado e também a soja. Vários campos ainda estavam castanhos porque tinham sido lavrados para a sementeira, mas sobretudo havia o céu, azul e alto, com algumas nuvens dispersas junto ao horizonte. Passou pelo letreiro junto à estrada que ia dar a casa dos Barton; ainda dizia COSTURA E ARRANJOS, embora a mulher que costurava e fazia arranjos, Lydia Barton, já tivesse morrido há muitos anos. A famÃlia Barton fora proscrita, mesmo numa vila como Amgash, devido à sua pobreza extrema e bizarria. Agora, o filho mais velho, um homem chamado Pete, vivia aà sozinho, a filha do meio a duas vilas de distância e a mais nova, Lucy Barton, tinha fugido há muitos anos e acabou a viver em Nova Iorque. Tommy ficou algum tempo a pensar em Lucy. Em todos aqueles anos em que ficou na escola depois das aulas, sozinha na sala de aula, desde a quarta classe até ao último ano do liceu; foram precisos muitos anos para conseguir olhar para ele nos olhos.
Naquele momento Tommy conduzia pela zona onde ficava a sua quinta —hoje em dia apenas havia campos de cultivo, não restava um único sinal da quinta— e pensou, como fazia muitas vezes, na sua vida naquele tempo. Fora uma vida boa, mas ele não lamentava o que tinha acontecido. Não fazia parte da natureza de Tommy lamentar fosse o que fosse, e na noite do incêndio —por entre o seu medo galopante— compreendeu que tudo o que lhe importava neste mundo era a mulher e os filhos, e pensou que havia pessoas que passavam uma vida inteira sem o saber de um modo tão claro e constante como ele o sabia. No seu Ãntimo, considerava o fogo um sinal de Deus para manter aquela bênção bem próxima de si. No seu Ãntimo porque não queria que o vissem como um homem que inventava desculpas para uma tragédia; e não queria que ninguém —nem sequer a sua querida mulher— pensasse que o fazia. Mas naquela noite sentiu, enquanto a sua mulher protegia os filhos do outro lado da estrada —ele apressara-se a tirá-los de casa quando viu que a vacaria estava em chamas— e ele via as labaredas enormes a agitarem-se no céu nocturno e depois ouviu os terrÃveis mugidos das vacas a morrerem, sentiu muitas coisas, mas só quando o telhado da casa cedeu, se abateu sobre a própria casa, mesmo por cima dos quartos e da sala de estar do andar de baixo, com todas as fotografias dos filhos e dos seus pais, ao ver aquilo acontecer sentiu —inegavelmente— o que só poderia descrever como a presença de Deus e compreendeu por que motivo os anjos sempre foram retratados como seres alados, porque foi essa sensação —o som de asas a esvoaçar, ou nem sequer um som, e então foi como se Deus, que não tinha rosto, mas era Deus, se tivesse encostado a ele e transmitido sem palavras— muito depressa, fugazmente—, uma mensagem que Tommy entendeu como: Está tudo bem, Tommy. E, nesse momento, Tommy compreendeu que estava tudo bem. Era algo para lá da sua compreensão, mas estava tudo bem. E assim foi. Tommy pensava com frequência que os seus filhos se tornaram mais compassivos porque tiveram de andar na escola com crianças pobres e não oriundas de lares como aquele em que nasceram. Desde então, por vezes sentia a presença de Deus, como se uma cor dourada estivesse muito próxima dele, mas nunca mais se sentiu visitado por Deus como naquela noite, e como sabia muito bem o que as pessoas diriam daquilo, decidiu não o revelar a ninguém até morrer— o sinal de Deus.
Contudo, nas manhãs de Primavera como aquela, o cheiro da terra lembrava-lhe o cheiro das vacas, a humidade das suas narinas, o calor das suas barrigas e as vacarias —tinha duas—, e então deixava a mente divagar por entre retalhos de cenas que lhe vinham à memória. Talvez por ter acabado de passar pela casa dos Barton pensou no homem, Ken Barton, o pai daquelas crianças pobres e Âtristes que por vezes trabalhava para Tommy, e depois pensou —como fazia com mais frequência— em Lucy, que foi para a universidade e acabou a viver em Nova Iorque. Tinha-se tornado escritora.
Lucy Barton.
Ao volante, Tommy abanou a cabeça ao de leve. Sabia muitas coisas porque foi contÃnuo naquela escola durante mais de trinta anos; sabia das gravidezes das raparigas e das mães bêbadas e dos cônjuges adúlteros, pois ouvia os alunos a comentarem em pequenos cÃrculos nas casas de banho ou junto ao refeitório; em vários sentidos ele era invis
