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TU NãO éS COMO AS OUTRAS MãES

Angelika Schrobsdorff  

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Excerto

Hoje, 30 de Junho, dia do seu aniversário, fui buscar o livrinho fino, alto, ao meu baú do passado. É de cartolina resistente e tem uma lombada preta e dourada, com uma inscrição dourada.

VIDA

da nossa filha

ELSE

lê-se na capa.

Os cantos do livro estão um pouco desgastados, mas quanto ao resto dá a impressão de ser novo. Tem noventa e oito anos. Os primeiros caracóis da filha Else também têm noventa e oito anos e parece que foram cortados anteontem à noite. São castanhos, depois cor de mel, e finalmente, no ano de 1897, vermelho-acobreado. Serão os cabelos algo de imperecível? Não se tornam pó? Têm um toque sedoso nas pontas dos meus dedos. Quando conheci Else, a minha mãe, o cabelo dela era acobreado e forte como a crina de um cavalo. Tinha sempre um ar despenteado, mesmo quando acabava de chegar do cabeleireiro. Os caracóis fartos, cortados curtos, eram difíceis de domar. Não eram a única coisa difícil de domar nela. Gostava de ter herdado os cabelos dela e a vitalidade que tinha. Mas nestes pontos — e em vários outros — saí ao meu pai.

Meu Deus, a quantidade de pensamentos que me assaltam ao ver o livro pequeno, vermelho, as recordações, as saudades! Saudades do passado que vivi, saudades de um passado que não vivi. Berlim por volta da viragem do século. Que ideia tenho eu dessa época? Talvez um mundo são, porque passado: eléctricos e autocarros de dois andares puxados por cavalos; paralelepípedos e candeeiros a gás; moradias sólidas, cor de café com leite e casas «senhoriais» rodeadas de grandes jardins; realejos, bancas de flores e frutas; vendedores de salsichas e de jornais; os primeiros grandes armazéns; salões de baile, cafés com violinistas, restaurantes elegantes com empregados de fraque, variedades, teatro; parques cheios de verde por todo o lado, edifícios grandiosos e sombrios, monumentos de ferro; o Kurfürstendamm e Unter den Linden, o picadeiro por onde passeiam, para cima e para baixo, cavalheiros em fato à Stresemann e senhoras com regalos de pele, chapéus decorados com flores e bustos cingidos; e em volta da cidade lagos, o rio Spree, bosques de abetos, para onde se ia de fiacre, onde se fazia piqueniques, andava de barco, bebia cerveja de trigo e se comia almôndegas em esplanadas com animadas bandas militares.

O mundo da infância da minha mãe. Será que era assim? Será que era são? Assim parece.

«Eu era a filhinha muito querida de pais carinhosos, judeus, que são os mais carinhosos de todos. Nós, o meu irmão Friedel, três anos mais novo, e eu éramos crianças felizes, a quem nada faltava», escreveu.

Os registos da mãe, Minna, no álbum da filha são escassos e imagino porquê. Minna tinha um gosto literário exigente, e o livro, que lhe fora oferecido provavelmente por um dos seus muitos parentes, estava cheio de poemas constrangedores, do estilo:

Lá fora florescem as flores

Tudo se enche de aromas e cores

E à volta de um berço que balança

Pairam anjos em celestial dança.

Ela chamava «exabundante» a uma coisa assim. Utilizava muito esta palavra. Um chapéu podia ser exabundante, uma pessoa, uma sobremesa, até um termo. As ideias que muitas pessoas, sobretudo novas, faziam do amor, por exemplo, eram completamente exabundantes. O amor entre homem e mulher não passava de uma ilusão. O único grande amor e a única felicidade de uma mulher eram as crianças e era por isso que havia casamentos, um casamento sensato, bem pensado e planeado pelos pais. Que interessava o mundo quando se tinha uma família que nos fazia sentir protegidos, que precisava de nós, para a qual tínhamos de viver e queríamos viver, do primeiro até ao último dia.

Era esta a atitude de Minna e foi esta a condição em que se casou com o alegre e caloroso Daniel Kirschner, que tinha uma barriguinha, olhos como gotas de água e um negócio grossista de vestidos, blusas e robes. Dois anos depois, nasceu Else.

O anúncio do nascimento, publicado certamente num jornal judeu, colado na primeira página do livrinho vermelho, é modesto:

DANIEL KIRSCHNER E SUA ESPOSA, MINNA,

NOME DE SOLTEIRA COHN,

têm o grato prazer de anunciar

o feliz nascimento de uma menina plena de saúde.

Berlim, 30 de Junho de 1893

Como seria ela na altura, a pequena e frágil Minna, que nunca conheci de outra maneira que não fosse com os seus vestidos pretos, de onde só espreitavam as mãos e o rosto, um rosto comprido, estreito, ensombrado pelo cepticismo e a melancolia, que se iluminava de imediato quando tinha os netos à volta dela. Continuava de luto pelo filho, disse-me a minha mãe, não conseguia ultrapassar a morte dele. Siegfried, a quem felizmente chamavam Friedel, morrera em 1918 da gripe espanhola. Nunca vi uma fotografia dele ou uma palavra dos meus avós sobre ele, pois bastaria uma menção ao seu nome para ter efeitos devastadores no estado de espírito de Minna.

Portanto, não consigo imaginar como ela teria sido quando jovem, com vestidos claros e um sorriso sobranceiro no rosto. Não, sobranceira nunca terá sido, mas de certeza que era uma pessoa satisfeita porque a vida dela, à qual não fazia exigências exabundantes, afinal se realizara num casamento sensato com um homem bom, carinhoso e no nascimento de uma criança saudável. Talvez tivesse sido até alegre ou pelo menos um pouco mais alegre, a tendência para a melancolia era algo que decerto sempre a acompanhou.

Os antepassados dela tinham vindo de Espanha e o sangue sefardita marcara-lhe as feições: o tom claro de azeitona da pele, os olhos quase negros, amendoados, o esplendor dos cabelos espessos, ondulados com que, no meu tempo, fazia uma trança de cinzento metálico presa à volta da cabeça. A letra gótica, com que registava no livro vermelho os principais progressos no desenvolvimento da filha, é tão delicada e organizada como ela. Registava aumentos de peso, vacinas, o primeiro dente, os primeiros passos, as primeiras palavras. Nas páginas intituladas «Diário», leio que a pequena Else já andava com o primeiro vestidinho aos dois meses e meio, aos nove já fazia o seu ar obstinado, com um ano tiram-lhe uma fotografia — o retrato está bem apanhado —, com um ano e meio já canta «Anna Marie», «Raposa, Roubaste o Ganso» e «Vamos Abrir os Olhinhos e Acordar», aos dois anos e três meses já sabe recitar de cor o Pedro Esgrouviado inteirinho, com quatro anos e meio vai para o jardim-escola, onde faz o seu primeiro trabalho manual, que ficou bem bonito.

Estas notas deixam já entrever claramente o percurso de vida previsto para a pequena Else. É treinada desde tenra idade para um bom casamento, em que não pode nem tem de ser outra coisa senão fêmea e mãe.

É, sem dúvida, Minna quem manda na família, e Daniel deixa que assim seja, sem protestar. Ama e respeita a esposa, que nunca lhe dá o calor e o carinho que lhe seriam mais caros do que o cumprimento impecável das suas obrigações matrimoniais. Reconhece-a como a mais inteligente e a mais culta, pois vem de uma família muito melhor do que a dele. Sigmund, o pai dela, era médico na Prússia Ocidental; Aaron, o pai dele, era padeiro junto à fronteira polaca. Ela tinha quatro irmãos e tivera uma educação esmerada; ele tinha oito irmãos e tivera de deixar a escola aos catorze anos. Ela tinha lido livros e tocado piano; ele e os oito irmãos tinham distribuído pão e cantado no coro da sinagoga. A mãe dele morrera nova, durante o décimo primeiro parto; o pai, um judeu ortodoxo, trabalhava durante o dia na padaria e, ao fim do dia, lia a Torá e estudava o Talmude até altas horas. Depois do abandono prematuro da escola, os nove filhos tinham sido lançados à vida para aprenderem, fosse onde fosse, um ofício. Tinham ido parar, todos nove, à muito prometedora cidade de Berlim e haviam construído uma existência burguesa confortável. Já idoso, também o pai se mudara para Berlim, onde passou a viver com um dos filhos. Constatou, para seu horror, que os filhos, educados na fidelidade mais estrita à lei, negligenciavam as leis do Senhor de forma tremenda e que se deixavam seduzir por um tempo sem Deus.

Só conheço uma história sobre o meu bisavô Aaron. Porventura terá sido a única que Else, na gravidade das suas consequências, nunca esqueceu. Deve ter-ma contado algures por volta dos meus treze anos, porque antes disso só pelo meu pai ouvira falar de um judeu, que era Jesus.

Portanto, aqui fica a história: aos quatro anos e meio, Else foi para o chamado jardim-escola e foi assim que teve o primeiro contacto com crianças cristãs. Eram como ela, riam como ela, brincavam como ela, faziam asneiras como ela, falavam como ela. Mas, quando se aproximou o Natal, aconteceu uma mudança. As crianças passaram a falar de uma maneira diferente da dela, só falavam de coisas de que ela nunca tinha ouvido falar: do menino Jesus e do Pai Natal, de José, Maria e dos três Reis Magos, entre eles um mouro. Falavam de prendas, de árvores de Natal, anjos, plantas de Natal e presépios com todos os adereços: o menino Jesus, Nossa Senhora e São José, o burro e o boi.

—Só parvoíces — dizia Minna quando a filha a assaltava com novidades e perguntas —, não faças caso.

Mas Else fazia caso, não pensava noutra coisa, sonhava com aquilo. Pouco antes da grande festa, colocou-se uma árvore de Natal no jardim-escola e foi enfeitada pelas crianças com cores magníficas e muitas coisas brilhantes. Ficavam diante da árvore com as mãos juntas e cantavam uma canção de Natal atrás da outra. Else, que já com um ano e meio sabia cantar «Raposa, Roubaste o Ganso», apanhou de imediato as canções e cantava-as em casa aos pais. Estremeceram ao ouvir «o menino encantador de cabelo aos caracóis» e decidiram não deixar Else ir ao jardim-escola naqueles dias tão perigosos antes das festas. Mas o mal estava feito. A menina queria uma árvore de Natal a todo o custo. Esperneou e chorou tanto tempo até que os pais, desmoralizados e também eles quase em lágrimas, arranjaram uma arvorezinha, além de umas bolas e grinaldas. Velas não havia, dado que Daniel tinha pânico de incêndios e, neste ponto, estava firmemente disposto a não ceder às goyim naches, as diversões dos não judeus. Quando por fim o pinheiro, com uma decoração escassa, ficou pronto e Else juntou as mãos e começou a cantar «Noite Feliz, Noite de Amor», tocaram à porta. Daniel, pressentindo que não era nada de bom, foi até à porta, espreitou pelo óculo e viu uma barba tratada, branca e um grande chapéu preto. Se aquilo não era um sinal do Senhor, o que seria! Foi a correr até à sala, pegou no pinheirinho e atirou-o para o arrumo das vassouras. Else atirou-se então para o chão a berrar pela árvore de Natal. O avô, que finalmente fizeram entrar, ficou parado à entrada a observar, calado e sério, a cena: a neta, possuída pelo demónio, e o filho, a quem o suor escorria pela cara, e a nora, branca como a cal. A pequena estava uma exabundante, disse Minna por fim, e também não era de admirar, com aquele frenesi todo por causa das árvores de Natal.

Árvores de Natal por todo o lado, disse Daniel, e agora a filha ardia em febre e delirava.

Meteram Else na cama, e Minna sentou-se ao pé dela a fazer-lhe festas no rosto a arder de calor, de desespero. Tentava consolá-la dizendo-lhe que havia coisas mais importantes do que árvores de Natal, e que no dia seguinte ia acender as velas do Chanucá.

No dia seguinte, Daniel pegou na filha ao colo e iniciou-a no judaísmo. Contou-lhe coisas de um templo que ficava no distante Oriente, que fora destruído, e de um povo que se havia espalhado pelo mundo inteiro. Falou-lhe de um Deus único, que não tinha barba branca e muito menos um filho. E esse era o Deus dela.

Else achou a história do menino Jesus mais bonita, e um Deus que não tinha rosto e que não tinha família também não lhe dizia nada.

Foi o primeiro salto da pequena Else na vida sagrada e, se entendera alguma coisa, era só o facto de, por motivos estranhos, ser diferente das outras crianças do jardim-escola, e por isso nunca mais teria uma árvore de Natal na sua própria casa.

estrella

A família Kirschner vivia em Charlottenburg, na Bismarckstraße. É uma rua típica do centro de Berlim: larga, direita, comprida, nem bonita nem propriamente feia. Das casas antigas, só descobri uma, um exuberante prédio burguês, cinzento, com uma peixaria de azulejos azuis por baixo. Os prédios naquela época deviam ser parecidos com este, e é possível que a rua fosse mais estreita e as árvores mais numerosas. O andar em que Else viveu desde que nasceu até aos vinte e um anos não seria muito diferente daquele que mais tarde vim a conhecer na Grolmanstraße, que para mim encarnava o aconchego protector. Talvez fosse um pouco maior e é possível que não ficasse no rés-do-chão. Mas os móveis pesados, pretos, decorados com arabescos, fabricados para durar gerações, a vitrina com figuras de porcelana mais ou menos valiosas, os copos de cristal e os objectos sagrados, de prata, as toalhas bordadas e os cortinados franzidos decerto devem ter existido. A cozinha devia dar certamente para um pátio nas traseiras, quadrado, com relva e algumas flores plantadas, e o forno em que Minna assava o ganso e fazia bolinhas-de-berlim recheadas com compota era alimentado a briquetes. Naquela altura, a família Kirschner ainda tinha uma empregada cristã, mas não a deixavam chegar perto do forno. O que sabia uma empregada cristã da boa cozinha judia? Minna era uma dona de casa convicta, e nunca hei-de entender por que razão não legou pelo menos uma pequena parte dessa convicção à filha. Else foi incapaz, durante toda a vida, de fazer um bife comestível ou segurar uma vassoura como deve ser. A única actividade doméstica que a vi fazer uma vez foi lavar um lenço de mão, que depois colou na parede de azulejos da casa de banho para secar e ficar alisado. Aquele método impressionou-me de tal forma que ainda hoje submeto os meus lenços ao mesmo procedimento, a rir-me para os meus botões e a abanar a cabeça. Minna deve ter-se convencido de que a filha iria fazer um bom casamento, que lhe proporcionasse uma vida de dama de salão permanente e que nunca a deixasse ficar em maus lençóis, a ponto de ter de fazer trabalhos domésticos, quaisquer que fossem. Oh, como se enganou!

Else cresceu, pois, como filha de uma família judia de posses, num lar aconchegado, seguro, vigiada pelas asas abertas, os olhos atentos e os bicos afiados dos pais; e ao lado do irmão mais novo, amado e mimado, num clã com inúmeros tios e tias, primos e primas. Era e continuou a ser uma criatura feliz, saudável, de trato fácil, esfuziante de alegria de viver e peso excessivo por todas as costuras. Mas, para Minna e Daniel, todo o quilo a menos era o prenúncio de uma doença funesta, e por isso estavam sempre a ver se a pequena Else tinha de tudo o que lhe sabia bem com fartura. «Uma pessoa nova tem de comer», era a divisa deles, e com isso acabaram por ditar as bases da figura que Else mais tarde viria a ter.

Mas o facto de ser rechonchuda não abalou minimamente o seu charme. Por baixo da gordura de bebé desenhava-se um rosto encantador, com superfícies grandes, claras, uns olhos enormes, escuros, e um belo e forte nariz. O cabelo acobreado, preso numa trança, tinha o comprimento e a grossura de uma serpente gigante e tornava-lhe a vida difícil.

—Puxa a trança para a frente — dizia-lhe a mãe todas as manhãs, quando ela já ia a sair para a escola. Minna estava constantemente em cuidados com a preciosa filha, porque naquela altura andava um homem mau por Berlim, que por trás cortava as tranças às meninas.

Else aprendia a tocar piano e violino, tinha aulas particulares de francês, levavam-na à ópera e ao teatro, e ofereciam-lhe muitos livros de clássicos alemães. Frequentava uma escola cristã feminina, porque ficava muito perto de casa e os pais tinham mais medo de um dos muitos perigos da grande cidade com que podia deparar-se uma menina de tenra idade do que de ela receber uma educação não judaica. Aprendia com facilidade, não tinha de fazer grande esforço, era boa aluna e muito querida dos professores e colegas de turma. Num tempo em que uma menina de boas famílias alemãs se aprimorava na demonstração de uma elegante discrição e amabilidade feminina, Else deve ter sido uma sensação. Já nesse tempo pouco se importava com as regras da etiqueta e era um modelo de naturalidade, franqueza e impulsividade.

Uma das poucas histórias que ouvi contadas por ela acerca da sua vida impressionou-me de tal forma que ainda hoje me lembro dela, palavra por palavra:

«No fim da escola», contava ela, «a minha turma organizou uma pequena festa. Cada uma da

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