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TU NãO éS COMO AS OUTRAS MãES

Angelika Schrobsdorff  

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Excerto

Hoje, 30 de Junho, dia do seu aniversário, fui buscar o livrinho fino, alto, ao meu baú do passado. É de cartolina resistente e tem uma lombada preta e dourada, com uma inscrição dourada.

VIDA

da nossa filha

ELSE

lê-se na capa.

Os cantos do livro estão um pouco desgastados, mas quanto ao resto dá a impressão de ser novo. Tem noventa e oito anos. Os primeiros caracóis da filha Else também têm noventa e oito anos e parece que foram cortados anteontem à noite. São castanhos, depois cor de mel, e finalmente, no ano de 1897, vermelho-acobreado. Serão os cabelos algo de imperecível? Não se tornam pó? Têm um toque sedoso nas pontas dos meus dedos. Quando conheci Else, a minha mãe, o cabelo dela era acobreado e forte como a crina de um cavalo. Tinha sempre um ar despenteado, mesmo quando acabava de chegar do cabeleireiro. Os caracóis fartos, cortados curtos, eram difíceis de domar. Não eram a única coisa difícil de domar nela. Gostava de ter herdado os cabelos dela e a vitalidade que tinha. Mas nestes pontos — e em vários outros — saí ao meu pai.

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Meu Deus, a quantidade de pensamentos que me assaltam ao ver o livro pequeno, vermelho, as recordações, as saudades! Saudades do passado que vivi, saudades de um passado que não vivi. Berlim por volta da viragem do século. Que ideia tenho eu dessa época? Talvez um mundo são, porque passado: eléctricos e autocarros de dois andares puxados por cavalos; paralelepípedos e candeeiros a gás; moradias sólidas, cor de café com leite e casas «senhoriais» rodeadas de grandes jardins; realejos, bancas de flores e frutas; vendedores de salsichas e de jornais; os primeiros grandes armazéns; salões de baile, cafés com violinistas, restaurantes elegantes com empregados de fraque, variedades, teatro; parques cheios de verde por todo o lado, edifícios grandiosos e sombrios, monumentos de ferro; o Kurfürstendamm e Unter den Linden, o picadeiro por onde passeiam, para cima e para baixo, cavalheiros em fato à Stresemann e senhoras com regalos de pele, chapéus decorados com flores e bustos cingidos; e em volta da cidade lagos, o rio Spree, bosques de abetos, para onde se ia de fiacre, onde se fazia piqueniques, andava de barco, bebia cerveja de trigo e se comia almôndegas em esplanadas com animadas bandas militares.

O mundo da infância da minha mãe. Será que era assim? Será que era são? Assim parece.

«Eu era a filhinha muito querida de pais carinhosos, judeus, que são os mais carinhosos de todos. Nós, o meu irmão Friedel, três anos mais novo, e eu éramos crianças felizes, a quem nada faltava», escreveu.

Os registos da mãe, Minna, no álbum da filha são escassos e imagino porquê. Minna tinha um gosto literário exigente, e o livro, que lhe fora oferecido provavelmente por um dos seus muitos parentes, estava cheio de poemas constrangedores, do estilo:

Lá fora florescem as flores

Tudo se enche de aromas e cores

E à volta de um berço que balança

Pairam anjos em celestial dança.

Ela chamava «exabundante» a uma coisa assim. Utilizava muito esta palavra. Um chapéu podia ser exabundante, uma pessoa, uma sobremesa, até um termo. As ideias que muitas pessoas, sobretudo novas, faziam do amor, por exemplo, eram completamente exabundantes. O amor entre homem e mulher não passava de uma ilusão. O único grande amor e a única felicidade de uma mulher eram as crianças e era por isso que havia casamentos, um casamento sensato, bem pensado e planeado pelos pais. Que interessava o mundo quando se tinha uma família que nos fazia sentir protegidos, que precisava de nós, para a qual tínhamos de viver e queríamos viver, do primeiro até ao último dia.

Era esta a atitude de Minna e foi esta a condição em que se casou com o alegre e caloroso Daniel Kirschner, que tinha uma barriguinha, olhos como gotas de água e um negócio grossista de vestidos, blusas e robes. Dois anos depois, nasceu Else.

O anúncio do nascimento, publicado certamente num jornal judeu, colado na primeira página do livrinho vermelho, é modesto:

DANIEL KIRSCHNER E SUA ESPOSA, MINNA,

NOME DE SOLTEIRA COHN,

têm o grato prazer de anunciar

o feliz nascimento de uma menina plena de saúde.

Berlim, 30 de Junho de 1893

Como seria ela na altura, a pequena e frágil Minna, que nunca conheci de outra maneira que não fosse com os seus vestidos pretos, de onde só espreitavam as mãos e o rosto, um rosto comprido, estreito, ensombrado pelo cepticismo e a melancolia, que se iluminava de imediato quando tinha os netos à volta dela. Continuava de luto pelo filho, disse-me a minha mãe, não conseguia ultrapassar a morte dele. Siegfried, a quem felizmente chamavam Friedel, morrera em 1918 da gripe espanhola. Nunca vi uma fotografia dele ou uma palavra dos meus avós sobre ele, pois bastaria uma menção ao seu nome para ter efeitos devastadores no estado de espírito de Minna.

Portanto, não consigo imaginar como ela teria sido quando jovem, com vestidos claros e um sorriso sobranceiro no rosto. Não, sobranceira nunca terá sido, mas de certeza que era uma pessoa satisfeita porque a vida dela, à qual não fazia exigências exabundantes, afinal se realizara num casamento sensato com um homem bom, carinhoso e no nascimento de uma criança saudável. Talvez tivesse sido até alegre ou pelo menos um pouco mais alegre, a tendência para a melancolia era algo que decerto sempre a acompanhou.

Os antepassados dela tinham vindo de Espanha e o sangue sefardita marcara-lhe as feições: o tom claro de azeitona da pele, os olhos quase negros, amendoados, o esplendor dos cabelos espessos, ondulados com que, no meu tempo, fazia uma trança de cinzento metálico presa à volta da cabeça. A letra gótica, com que registava no livro vermelho os principais progressos no desenvolvimento da filha, é tão delicada e organizada como ela. Registava aumentos de peso, vacinas, o primeiro dente, os primeiros passos, as primeiras palavras. Nas páginas intituladas «Diário», leio que a pequena Else já andava com o primeiro vestidinho aos dois meses e meio, aos nove já fazia o seu ar obstinado, com um ano tiram-lhe uma fotografia — o retrato está bem apanhado —, com um ano e meio já canta «Anna Marie», «Raposa, Roubaste o Ganso» e «Vamos Abrir os Olhinhos e Acordar», aos dois anos e três meses já sabe recitar de cor o Pedro Esgrouviado inteirinho, com quatro anos e meio vai para o jardim-escola, onde faz o seu primeiro trabalho manual, que ficou bem bonito.

Estas notas deixam já entrever claramente o percurso de vida previsto para a pequena Else. É treinada desde tenra idade para um bom casamento, em que não pode nem tem de ser outra coisa senão fêmea e mãe.

É, sem dúvida, Minna quem manda na família, e Daniel deixa que assim seja, sem protestar. Ama e respeita a esposa, que nunca lhe dá o calor e o carinho que lhe seriam mais caros do que o cumprimento impecável das suas obrigações matrimoniais. Reconhece-a como a mais inteligente e a mais culta, pois vem de uma família muito melhor do que a dele. Sigmund, o pai dela, era médico na Prússia Ocidental; Aaron, o pai dele, era padeiro junto à fronteira polaca. Ela tinha quatro irmãos e tivera uma educação esmerada; ele tinha oito irmãos e tivera de deixar a escola aos catorze anos. Ela tinha lido livros e tocado piano; ele e os oito irmãos tinham distribuído pão e cantado no coro da sinagoga. A mãe dele morrera nova, durante o décimo primeiro parto; o pai, um judeu ortodoxo, trabalhava durante o dia na padaria e, ao fim do dia, lia a Torá e estudava o Talmude até altas horas. Depois do abandono prematuro da escola, os nove filhos tinham sido lançados à vida para aprenderem, fosse onde fosse, um ofício. Tinham ido parar, todos nove, à muito prometedora cidade de Berlim e haviam construído uma existência burguesa confortável. Já idoso, também o pai se mudara para Berlim, onde passou a viver com um dos filhos. Constatou, para seu horror, que os filhos, educados na fidelidade mais estrita à lei, negligenciavam as leis do Senhor de forma tremenda e que se deixavam seduzir por um tempo sem Deus.

Só conheço uma história sobre o meu bisavô Aaron. Porventura terá sido a única que Else, na gravidade das suas consequências, nunca esqueceu. Deve ter-ma contado algures por volta dos meus treze anos, porque antes disso só pelo meu pai ouvira falar de um judeu, que era Jesus.

Portanto, aqui fica a história: aos quatro anos e meio, Else foi para o chamado jardim-escola e foi assim que teve o primeiro contacto com crianças cristãs. Eram como ela, riam como ela, brincavam como ela, faziam asneiras como ela, falavam como ela. Mas, quando se aproximou o Natal, aconteceu uma mudança. As crianças passaram a falar de uma maneira diferente da dela, só falavam de coisas de que ela nunca tinha ouvido falar: do menino Jesus e do Pai Natal, de José, Maria e dos três Reis Magos, entre eles um mouro. Falavam de prendas, de árvores de Natal, anjos, plantas de Natal e presépios com todos os adereços: o menino Jesus, Nossa Senhora e São José, o burro e o boi.

—Só parvoíces — dizia Minna quando a filha a assaltava com novidades e perguntas —, não faças caso.

Mas Else fazia caso, não pensava noutra coisa, sonhava com aquilo. Pouco antes da grande festa, colocou-se uma árvore de Natal no jardim-escola e foi enfeitada pelas crianças com cores magníficas e muitas coisas brilhantes. Ficavam diante da árvore com as mãos juntas e cantavam uma canção de Natal atrás da outra. Else, que já com um ano e meio sabia cantar «Raposa, Roubaste o Ganso», apanhou de imediato as canções e cantava-as em casa aos pais. Estremeceram ao ouvir «o menino encantador de cabelo aos caracóis» e decidiram não deixar Else ir ao jardim-escola naqueles dias tão perigosos antes das festas. Mas o mal estava feito. A menina queria uma árvore de Natal a todo o custo. Esperneou e chorou tanto tempo até que os pais, desmoralizados e também eles quase em lágrimas, arranjaram uma arvorezinha, além de umas bolas e grinaldas. Velas não havia, dado que Daniel tinha pânico de incêndios e, neste ponto, estava firmemente disposto a não ceder às goyim naches, as diversões dos não judeus. Quando por fim o pinheiro, com uma decoração escassa, ficou pronto e Else juntou as mãos e começou a cantar «Noite Feliz, Noite de Amor», tocaram à porta. Daniel, pressentindo que não era nada de bom, foi até à porta, espreitou pelo óculo e viu uma barba tratada, branca e um grande chapéu preto. Se aquilo não era um sinal do Senhor, o que seria! Foi a correr até à sala, pegou no pinheirinho e atirou-o para o arrumo das vassouras. Else atirou-se então para o chão a berrar pela árvore de Natal. O avô, que finalmente fizeram entrar, ficou parado à entrada a observar, calado e sério, a cena: a neta, possuída pelo demónio, e o filho, a quem o suor escorria pela cara, e a nora, branca como a cal. A pequena estava uma exabundante, disse Minna por fim, e também não era de admirar, com aquele frenesi todo por causa das árvores de Natal.

Árvores de Natal por todo o lado, disse Daniel, e agora a filha ardia em febre e delirava.

Meteram Else na cama, e Minna sentou-se ao pé dela a fazer-lhe festas no rosto a arder de calor, de desespero. Tentava consolá-la dizendo-lhe que havia coisas mais importantes do que árvores de Natal, e que no dia seguinte ia acender as velas do Chanucá.

No dia seguinte, Daniel pegou na filha ao colo e iniciou-a no judaísmo. Contou-lhe coisas de um templo que ficava no distante Oriente, que fora destruído, e de um povo que se havia espalhado pelo mundo inteiro. Falou-lhe de um Deus único, que não tinha barba branca e muito menos um filho. E esse era o Deus dela.

Else achou a história do menino Jesus mais bonita, e um Deus que não tinha rosto e que não tinha família também não lhe dizia nada.

Foi o primeiro salto da pequena Else na vida sagrada e, se entendera alguma coisa, era só o facto de, por motivos estranhos, ser diferente das outras crianças do jardim-escola, e por isso nunca mais teria uma árvore de Natal na sua própria casa.

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A família Kirschner vivia em Charlottenburg, na Bismarckstraße. É uma rua típica do centro de Berlim: larga, direita, comprida, nem bonita nem propriamente feia. Das casas antigas, só descobri uma, um exuberante prédio burguês, cinzento, com uma peixaria de azulejos azuis por baixo. Os prédios naquela época deviam ser parecidos com este, e é possível que a rua fosse mais estreita e as árvores mais numerosas. O andar em que Else viveu desde que nasceu até aos vinte e um anos não seria muito diferente daquele que mais tarde vim a conhecer na Grolmanstraße, que para mim encarnava o aconchego protector. Talvez fosse um pouco maior e é possível que não ficasse no rés-do-chão. Mas os móveis pesados, pretos, decorados com arabescos, fabricados para durar gerações, a vitrina com figuras de porcelana mais ou menos valiosas, os copos de cristal e os objectos sagrados, de prata, as toalhas bordadas e os cortinados franzidos decerto devem ter existido. A cozinha devia dar certamente para um pátio nas traseiras, quadrado, com relva e algumas flores plantadas, e o forno em que Minna assava o ganso e fazia bolinhas-de-berlim recheadas com compota era alimentado a briquetes. Naquela altura, a família Kirschner ainda tinha uma empregada cristã, mas não a deixavam chegar perto do forno. O que sabia uma empregada cristã da boa cozinha judia? Minna era uma dona de casa convicta, e nunca hei-de entender por que razão não legou pelo menos uma pequena parte dessa convicção à filha. Else foi incapaz, durante toda a vida, de fazer um bife comestível ou segurar uma vassoura como deve ser. A única actividade doméstica que a vi fazer uma vez foi lavar um lenço de mão, que depois colou na parede de azulejos da casa de banho para secar e ficar alisado. Aquele método impressionou-me de tal forma que ainda hoje submeto os meus lenços ao mesmo procedimento, a rir-me para os meus botões e a abanar a cabeça. Minna deve ter-se convencido de que a filha iria fazer um bom casamento, que lhe proporcionasse uma vida de dama de salão permanente e que nunca a deixasse ficar em maus lençóis, a ponto de ter de fazer trabalhos domésticos, quaisquer que fossem. Oh, como se enganou!

Else cresceu, pois, como filha de uma família judia de posses, num lar aconchegado, seguro, vigiada pelas asas abertas, os olhos atentos e os bicos afiados dos pais; e ao lado do irmão mais novo, amado e mimado, num clã com inúmeros tios e tias, primos e primas. Era e continuou a ser uma criatura feliz, saudável, de trato fácil, esfuziante de alegria de viver e peso excessivo por todas as costuras. Mas, para Minna e Daniel, todo o quilo a menos era o prenúncio de uma doença funesta, e por isso estavam sempre a ver se a pequena Else tinha de tudo o que lhe sabia bem com fartura. «Uma pessoa nova tem de comer», era a divisa deles, e com isso acabaram por ditar as bases da figura que Else mais tarde viria a ter.

Mas o facto de ser rechonchuda não abalou minimamente o seu charme. Por baixo da gordura de bebé desenhava-se um rosto encantador, com superfícies grandes, claras, uns olhos enormes, escuros, e um belo e forte nariz. O cabelo acobreado, preso numa trança, tinha o comprimento e a grossura de uma serpente gigante e tornava-lhe a vida difícil.

—Puxa a trança para a frente — dizia-lhe a mãe todas as manhãs, quando ela já ia a sair para a escola. Minna estava constantemente em cuidados com a preciosa filha, porque naquela altura andava um homem mau por Berlim, que por trás cortava as tranças às meninas.

Else aprendia a tocar piano e violino, tinha aulas particulares de francês, levavam-na à ópera e ao teatro, e ofereciam-lhe muitos livros de clássicos alemães. Frequentava uma escola cristã feminina, porque ficava muito perto de casa e os pais tinham mais medo de um dos muitos perigos da grande cidade com que podia deparar-se uma menina de tenra idade do que de ela receber uma educação não judaica. Aprendia com facilidade, não tinha de fazer grande esforço, era boa aluna e muito querida dos professores e colegas de turma. Num tempo em que uma menina de boas famílias alemãs se aprimorava na demonstração de uma elegante discrição e amabilidade feminina, Else deve ter sido uma sensação. Já nesse tempo pouco se importava com as regras da etiqueta e era um modelo de naturalidade, franqueza e impulsividade.

Uma das poucas histórias que ouvi contadas por ela acerca da sua vida impressionou-me de tal forma que ainda hoje me lembro dela, palavra por palavra:

«No fim da escola», contava ela, «a minha turma organizou uma pequena festa. Cada uma das alunas tinha de apresentar qualquer coisa e eu decidi cantar a minha canção preferida “Foi em Schöneberg, no Mês de Maio…”, porque não precisava de a ensaiar muito. Chegou o grande dia e vesti o meu vestido mais bonito, cheio de rendas, franzidos e folhinhos, que ainda me fazia mais gorda do que era, sem contar a trança farta e uma coroazinha de flores na cabeça. Bem, eu tinha dezasseis anos e nada me assustava. O salão estava cheio de professores, pais, familiares e amigos. Antes da minha apresentação, uma rapariga lindíssima, loira, tinha cantado “Margarida na Roda a Fiar”, e fiquei um pouco inquieta porque a achei impressionante e bonita, e pensei para mim: não tens grande coisa para oferecer comparado com isto, minha menina! Quando ela terminou, as pessoas bateram palmas, mas por pouco tempo e sem grande entusiasmo. Depois cantei a minha cantiguinha e fiz uns passinhos de dança a acompanhar. Foi muito bonitinho, mas nada de especial. Ainda hoje não compreendo o que deu às pessoas. Aplaudiam-me como possessos e gritavam “bravo” e “bis”. Tive de cantar tudo outra vez do princípio, e no fim tirei a coroa da cabeça e atirei-a ao público. Bem, então é que foi!»

É uma história significativa, uma espécie de leitmotiv que se repetiu pela primeira metade da vida de Else. As pessoas, tanto homens e mulheres como crianças, iam ao encontro dela, procuravam a sua proximidade, o seu calor, o seu amor, a sua amizade. Ela deu tudo isso a muitas pessoas, a muitíssimas pessoas, deu tudo sem reservas, esbanjou, muitas vezes de forma insensata.

Sempre me perguntei o que seria o segredo do fascínio dela, perguntei a pessoas amigas dela. Mas ninguém, incluindo eu, conseguiu lá chegar. É claro que tinha um rosto bonito, era inteligente, divertida, transbordava de amor, vitalidade e generosidade. Não queria saber de convenções, de cálculos ou pretensões. Mas não era só isso. Ela irradiava qualquer coisa que não é explicável através dos dotes físicos, humanos ou intelectuais.

Quando tento descrevê-la a outros ou a mim própria, acabo por chegar sempre à palavra autêntica. Num mundo da ilusão, do faz-de-conta e da hipocrisia, era tão autêntica e simples como só uma criatura da natureza pode ser. E ao mesmo tempo tinha um intelecto agudo, um pensamento muito mais rápido, flexível e independente do que as mulheres do seu tempo. Sim, ela era diferente — não só por ser judia e exercer por isso um certo encanto exótico, porventura até proibido, sobre os concidadãos alemães, mas também por ser autónoma e estar muito à frente da sua geração.

Pouco antes de morrer, escreveu-me uma última carta: «Enquanto mulher da minha geração, era algo de novo, invulgar e suspeito. Saía dos cânones, tive de ser muito forte e criar as minhas próprias leis. Ninguém me ajudou, pelo contrário; na melhor das hipóteses consideravam-me esquisita, na pior, uma degenerada.»

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Os Kirschners acompanhavam o crescimento da filha com orgulho e preocupação. A menina atraía demasiadas atenções, mostrava um interesse excessivo pelo ambiente cristão à sua volta, contactava com pessoas de quem Minna não tinha grande opinião. Por exemplo, o que a levaria tantas vezes àquela exabundante de Lilly, uma ex-colega de escola, sobre a qual viria a contar histórias extravagantes: que Lilly andava em casa com uma túnica indiana, que acendia pauzinhos de incenso e declamava poemas dos quais ela, Minna, nunca tinha ouvido um verso sequer. E os irmãos de Lilly escreviam romances.

Que graça achava ela àquilo, quis saber a mãe, aos trapos indianos ou aos romances, certamente maus?

O lado artístico, respondeu Else, livre, o ser uma coisa completamente diferente. Minna abanava a cabeça, com estranheza. Como se Else não tivesse primos e primas que chegasse, gente jovem, decente, e que também não eram burros. Um deles era até um génio das línguas, e Selma, rapariga lindíssima, tinha uma voz maravilhosa e já cantava em festas privadas. Todos eles eram mais dóceis que a filha, não tinham os disparates que ela tinha na cabeça.

Daniel, sempre crédulo, achava que aquilo ia passar-lhe, Elschen só tinha dezassete anos e era muito viva e cheia de curiosidade pela vida, como todos os jovens.

Sim, Elschen tinha curiosidade pela vida, mas sobretudo pela vida dos cristãos. Conhecia o seu próprio meio que bastasse e quanto mais velha ficava menos lhe agradava. Era o meio dos chamados judeus dos têxteis, que para os judeus da alta burguesia não eram socialmente aceitáveis e para os intelectuais judeus eram considerados uns ignorantes. Else escreveu sobre eles: «Não suportava as pessoas do nosso círculo. Negociavam todos com tecidos, couro ou peles, falavam num jargão horroroso e eram grosseiros e incultos. Diziam-me: tens de arranjar um bom partido. Ficava furiosa quando ouvia aquilo. Casar, claro, mas por amor. O bom partido era uma coisa tão judia, não suportava aquele lado judeu nestas coisas.»

Se os pais soubessem a quantidade de pensamentos terríveis que se tinham alojado na cabeça da filha, não teriam um minuto de sossego. Mas não sabiam nem muito nem pouco, não tinham sequer um vago pressentimento. Para eles, era uma coisa impensável terem-na educado o mais longe possível do cristianismo e o mais perto possível do judaísmo e ela ter-se aproximado tanto do primeiro e afastado tanto do último. Muitas coisas que a filha viria a fazer nos anos seguintes eram para eles impensáveis, e foram poupados ao longo da vida a uma completa revelação das mudanças que a filha fez. Else, para quem era completamente indiferente o que as pessoas pensavam dela, foi uma excepção tanto para os pais como para as filhas.

Mas naquela época, com dezasseis anos e ainda uma boa filha judia, o mundo grande, cristão, livre, ficava no domínio do impossível e a atracção pelo outro lado era consumida em fantasias e sonhos. Nunca lhe passaria pela cabeça pensar a sério em fugir do seu meio, mesmo que não lhe fosse agradável e por muito que não concordasse com muitas coisas. Amava os pais e o irmão, que tinha agora treze anos, um rapaz gentil e sossegado, com um talento invulgar para a matemática; estava muito ligada aos calorosos tios e tias, primos e primas; e, mesmo fazendo pouco uso da religião judaica, sentia-se em união com o Deus a que o pai chamara «o Deus dela». Do que sentia falta, e que erradamente acreditava encontrar do lado cristão, era um ambiente intelectual estimulante. Lia tudo o que conseguia requisitar na biblioteca, e nisso foi encorajada pelos pais, mas depois sentia-se só na sua necessidade de falar, discutir, de receber ensinamentos acerca daquilo que tinha lido. Minna lia exclusivamente Shake­speare e Goethe, Daniel, o jornal. Minna também só queria ver peças de teatro dos seus escritores predilectos, ao passo que Daniel preferia comédias ou peças com temas judeus. Minna gostava de ir a concertos, Daniel à ópera. Muitas vezes, não conseguiam chegar a um acordo e desistiam de ir.

Else, por ela, teria ido todas as noites à ópera, a um concerto ou ao teatro, e adoraria ter a oportunidade de explorar sozinha a cidade de Berlim.

Berlim. A cidade crescia a um ritmo estonteante, estendia-se cada vez mais para a Marca de Brandemburgo, mostrando constantemente novas facetas, cada vez mais interessantes: ruas novas, alamedas, avenidas, bairros novos, edifícios novos, novas obras de arte, armazéns novos, restaurantes e espaços de diversão novos, edifícios novos dedicados à cultura, novos meios de transporte, ruídos novos, rumores novos. Era uma cidade com dois milhões e meio de habitantes, em movimento ininterrupto, dois milhões e meio de pessoas, cada uma com uma vida diferente, com um destino diferente; pessoas que passeavam pelas ruas, que corriam, que tinham pressa, que escondiam segredos por detrás das suas janelas, dramas, nascimentos, mortes, momentos de amor, de tédio. Uma cidade com a qual Else se sentia crescer e se sentia aparentada, que queria desbravar, muito para lá dos limites criados pelo pais.

Na realidade, o que conhecia ela de Berlim? Charlottenburg e a vizinhança mais próxima, as ruas famosas onde se ia passear, os pontos de interesse, dos passeios de domingo, Potsdam e Grunewald, para onde se ia passear descontraidamente, o palácio, o parque de Charlottenburg, o jardim zoológico, o quarteirão das lojas de moda, onde o pai tinha o negócio, o café preferido dos pais, um estabelecimento gigante, com dois andares, onde se tocava música entediante e onde crianças entediantes comiam bolo. Se ela tivesse de ir, por qualquer razão, a um bairro desconhecido, que ficasse mais longe, ia acompanhada pela mãe ou pelo pai, por um tio ou tia, e iam a direito ao destino, sem olhar à esquerda ou à direita, e assim voltavam também para casa. Por vezes, ousava fazer algumas saídas até às animadas ruas comerciais, onde havia muito movimento e muito barulho: pessoas de todas as classes, desde a rapariga que fazia recados até à esposa do conselheiro de comércio, no seu casaco de peles, desde o mendigo até ao industrial mais corpulento; todo o tipo de veículos, desde a carroça puxada a cavalo até ao automóvel; lojas, desde a mais pequena até ao luxuoso armazém; locais onde se comia e bebia, desde a pequena cervejaria até ao restaurante mais faustoso.

A vida, que se desdobrava em imagens sempre novas perante ela, fascinava Else; agradavam-lhe os olhares que os homens jovens lhe lançavam. Por vezes respondia a um desses olhares, brevemente, embaraçada e com o pensamento: ai, se a mãe sabe como sou depravada!

Tenho um retrato dela dessa época. Uma rapariga nova, bonita, ainda não mulher feita, que o fotógrafo pôs em pose coquete: a trança grossa a pender sobre o ombro direito, a cabeça inclinada para a esquerda, ela a sorrir, segurando um raminho de flores apertado contra o peito. Minna deve ter achado a fotografia bem apanhada, pois exprimia a imagem que tinha da filha: uma rapariga doce, inocente e um pouco travessa, que em breve iria entrar no porto seguro do casamento e que lhe daria amor, netos e, desse modo, uma nova felicidade.

Alguns homens, judeus, é claro, começaram a cortejar Else. Um dos primos apaixonou-se perdidamente por ela e pôs todo o clã Kirschner em alvoroço. Um jovem rabino escreveu poemas a glorificar os seus olhos. Dois «bons partidos» fizeram-lhe propostas de casamento.

Else sentia-se lisonjeada com tudo aquilo, era uma mudança, era interessante, às vezes estranho, e esperava pelo amor.

—Temos tempo — dizia Minna a Daniel. — Só a partir dos vinte é que começa a ser complicado.

Else tinha dezanove anos quando conheceu Fritz Schwiefert, o grande amor e o pior partido da vida dela.

Numa longa carta, não datada e nunca enviada — até hoje não sei quando ela a escreveu —, recorda uma vez mais o começo deste amor: «Eras um cristão, um poeta, um jovem sem profissão concreta e sem dinheiro. Eras um homem para amar, um artista, mas não um marido. Os maridos tinham um aspecto muito diferente, eram muito diferentes, ofereciam coisas muito diferentes — coisas materiais, não espirituais.» Por outras palavas, Fritz, o eleito, era uma catástrofe para Daniel e Minna, como só Aaron, o piedoso avô, poderia ter antecipado. Mas o alcance total daquela catástrofe só dois anos e meio depois foi descoberto, porque Fritz e Else souberam ocultar o seu amor durante todo aquele tempo.

Começou no Verão, numa tarde de sábado, no café habitual da família Kirschner, aquele estabelecimento gigante de dois andares, onde se ouvia música entediante e pessoas entediantes comiam bolo.

Else recusara-se a princípio a ouvir pela centésima vez «Pirilampo, Pirilampo, Brilha, Brilha…», mas, quando os pais lhe disseram que o primo preferido dela, Emanuel, também ia, acabou por ir. Olhara aquela gente aburguesada e imaginara-se a si própria dali a uns anos, sentada, uma matrona gorda, a preencher o vazio com chantilly, ao lado de um «bom partido». Emanuel apareceu em companhia de um homem dos seus vinte e cinco anos, alto, magro, que apresentou como Fritz Schwiefert, seu amigo e ex-colega da universidade. Ficaram então os cinco sentados à volta da mesa redonda, com tampo de mármore, de manchas acinzentadas, em amena cavaqueira. Durante a conversa, ficou a saber-se que o senhor Schwiefert tocava piano, falava russo e escrevia poemas, além de críticas de teatro e naquele momento também um livro sobre Rilke. Enquanto Fritz falava, alegre, simpático, com uma ponta de ironia, olhava constantemente para Else, e o seu olhar, mas mais ainda as suas revelações, eram como o toque de um sino poderoso que a fazia vibrar no seu íntimo intocado.

«E ali estavas tu sentado», escreveu ela naquela carta nostálgica de recordação, «um autêntico poeta, e eu absorvia-te com olhares gulosos: o teu rosto fino, inteligente, com os olhos cinzentos, o nariz grande, a boca bonita, um pouco trocista; o teu cabelo castanho, comprido, que estava sempre a cair para cima da testa, as tuas mãos estreitas, claras.»

Minna conversava, Daniel dizia as suas piadas habituais, a orquestra tocava uma rapsódia de Paul Lincke, Emanuel era o único que percebia que estava a ponto de acontecer qualquer coisa de nefasto e tentou acordar Fritz e Else da hipnose. Não conseguiu. Estavam ali os dois sentados, não diziam nada um ao outro, olhavam-se.

«É um jovem muito simpático e culto», disse Daniel a caminho de casa, e Minna perguntou a Else porque estava tão calada, se não se tinha constipado.

Else respondeu que sim, que se sentia um pouco atacada e, ao chegar a casa, recolheu ao quarto. Olhou-se longamente ao espelho, mas o que via não a convencia. Era bonita, sim, mas não mais do que isso. Um homem como ele, um poeta, um artista, tinha necessidades que ela, uma rapariga ignorante, burguesa, nunca poderia satisfazer. Ele era uma imagem ilusória, uma alucinação que tinha despertado a sua ânsia por uma coisa «completamente diferente». Nunca mais iria vê-lo, pensava ela.

No dia seguinte, recebeu o primeiro poema dele.

«Achei-o muito bonito», escreveu ela, «mas não o entendi completamente. Havia algo de pesado, melancólico nele. Então o amor não era alegre?»

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Fritz Schwiefert vinha de uma família não burguesa. O pai, falecido havia já alguns anos, fora músico; a mãe, uma senhora franzina, muito maquilhada, era francesa. Luzie, a única irmã, mais velha, era mãe de três filhos e divorciara-se depois de o marido a ter infectado com sífilis.

Fritz, um intelectual inquieto, um sonhador talentoso, um cabeça-no-ar charmoso, espirituoso e culto, podia fazer tudo o que lhe passava pela cabeça. Fazia muitas vezes o que não devia e não fazia o que devia, mas ninguém levava a mal, tendo em conta os seus dons intelectuais e artísticos. Muito menos Else, que, na sua adoração ingénua de tudo o que era «artístico», sobrestimara em muito o imaturo Fritz.

«O que eu procurava compreender com todas as minhas forças», escreveu ela, «o que eu não largava incessantemente do pensamento era o talento artístico. Nada me podia abalar mais do que uma obra de arte, nada me incutia mais respeito e admiração do que uma pessoa talentosa. Ele intimidava-me de tal forma que eu me sentia pequenina e inferiorizada, e estava sempre a perguntar a mim própria: como é por dentro uma pessoa que sabe compor música, pintar, fazer poesia? O que pensa? Como vive?»

Receberia de Fritz uma resposta cabal e duradoura à sua pergunta. Embora demasiado tarde.

Foi para ambos o primeiro amor e, apesar de ser um amor profundo em Fritz, não tinha comparação com o de Else. Era um amor tipicamente masculino: exigente, libidinoso, ciumento, egoísta, susceptível, muitas vezes impaciente. Para Else, pelo contrário, que, na armadilha do amor paternal, dos seus cuidados e princípios, tinha permanecido uma criança, era a realização dos seus sonhos. Porque Fritz não era só o homem que amava, que a ensinara a beijar e tentara mostrar-lhe as alegrias do erotismo; era o professor que lhe dizia que livros devia ler, que música ouvir, que peças de teatro e quadros devia ver; era o guia intelectual que a introduzia à forma, corrente e conteúdo de uma obra, a ensinou a apreciar e a fazer crítica, desenvolveu mais ainda o seu gosto, instintivamente seguro; em suma, foi ele quem lhe abriu as portas para o mundo grande, magnífico do amor, da arte e da cultura cristãs.

Encontravam-se às escondidas, durante uma, duas horas, que Else conseguia encobrir junto da mãe; encontravam-se em pequenas pastelarias e em parques, sentavam-se de mãos dadas em assentos gastos, ficavam muito abraçados atrás de arbustos, sentavam-se como pássaros grandes em bancos cobertos de neve. Escreviam um ao outro, diariamente, cartas enviadas para a posta-restante, às vezes bilhetes apenas, em que asseguravam o amor de um pelo outro:

Meu Pitt, não vou escrever muita coisa, só quero dizer-te que penso em ti. Pitt, amo-te tanto! Um beijo, meu Pitt!

A tua Babushka

P. S. Faltam exactamente quarenta e nove horas para nos vermos!

Else tinha-se transformado em Babushka, Fritz em Pitt, dois novos nomes, duas pessoas novas, nascidas no maior secretismo, sem nome para o resto do mundo.

Fritz, mas sobretudo Else, enfrentavam uma situação difícil. Eles, que gostariam de poder gritar o seu amor do cimo dos telhados e falar a todos desse amor, sempre e em todas as ocasiões, estavam condenados ao silêncio. Não tinham confidentes, um refúgio, nem sequer dinheiro suficiente para passar o pouco tempo que lhes era permitido de uma forma mais agradável. E cada encontro tornava-se igual a uma corrida de obstáculos, que exigia a Else muita reflexão, imaginação, astúcia e subterfúgios.

Por quanto tempo iria ainda continuar a ser assim, perguntou Fritz mais ou menos um ano depois, num dia frio de chuva, no parque; se haviam de passar o resto da vida em pastelarias e em bancos de jardim?

Else, imediatamente amedrontada quando ele se mostrava impaciente, não sabia dar uma resposta. Pegou-lhe na mão, mas ele retirou-a e meteu-a no bolso do sobretudo.

Que não compreendia, dizia ele, como é que os pais dela podiam ser tão retrógrados. Afinal ela era uma adulta e vivia em Berlim, no século XX, e não no século XVI numa cidadezinha polaca, onde ele tivesse entrado a cavalgar, como um cossaco espadachim. Ou concordaria ela porventura com o comportamento dos pais?

Ela abanou a cabeça.

Então que fosse até casa dele, para o quarto dele, e que estivesse a marimbar-se para o primo Emanuel, se ficaria a saber pela mãe dele ou pela irmã. Ou que o levasse com ela para o apartamento dela e dissesse aos pais que estavam fartos de ficar sentados à chuva. E que já não achava piada nenhuma àquele alarido todo por causa de judeus e cristãos. Se uns se comportavam de maneira mais ou menos normal, os outros pareciam malucos, e vice-versa.

Else começou a chorar. Tinha um medo constante: medo de o irritar quando falava de coisas do dia-a-dia, medo de decepcioná-lo quando não sabia dar uma resposta inteligente a uma pergunta profunda, medo de que ficasse zangado quando o impedia de lhe desabotoar a blusa, medo de aborrecê-lo quando tinha de recusar um encontro, medo da ironia e da susceptibilidade dele, medo das pressões e do desejo dele, medo dos humores dele, que estavam sempre a mudar.

«Eras sempre diferente», escreveu ela, «às vezes eras um rapazinho, outras vezes um professor insistente, às vezes um poeta sonhador, outras vezes um comediante arrogante, às vezes um amigo compreensivo, outras vezes também um homem incompreensivo, que de repente podia tornar-se rabugento, mau, insuportável. Como eu me apercebia então da tua superioridade imensa, como me sentia indefesa e baralhada! Mas nunca me revoltei contra isso. Os artistas devem ser mesmo assim, dizia a mim própria, e o facto de não entender os processos estranhos que se passavam com eles ainda fez aumentar mais a minha admiração e o meu amor.»

Que outra coisa restava a Else senão chorar? Não podia abandonar o mundo judeu dos pais e não podia passar sem o mundo cristão do seu amado. Dois mundos num só corpo. Duas cabeças que brotavam dele. Uma aberração!

Fritz abraçou-a, beijou-a, acariciou-lhe o cabelo molhado, disse-lhe que a amava e que nenhum cristão ou judeu poderia separá-los. Else, feliz por ouvir as palavras dele e contagiada pela sua coragem, com que pretendia enfrentar cristãos e judeus, decidiu levá-lo até sua casa da próxima vez e explicar aos pais que o tinha encontrado na rua, por acaso.

Teve início uma nova fase, que correu a princípio de forma inesperadamente harmoniosa. Minna e Daniel não tinham absolutamente nada contra a amizade entre a filha e o jovem culto. Tocava piano maravilhosamente, recitava poemas magníficos de Goethe e sonetos de Shakespeare, tinha grandes conversas filosóficas com Friedel, o filho de ambos, trazia grandes obras literárias a Else, tocava com ela a quatro mãos ao piano, levava-a ao teatro e a concertos. E era capaz de ser tão imaginativo e inteligente, tão divertido e bem-humorado que mesmo Minna ria até às lágrimas.

—É mesmo de a gente se apaixonar por ele — disse ela, e Daniel acrescentou com um suspiro:

—Que pena não ser judeu.

Sim, Fritz era uma conquista enorme para a família Kirschner, era um convidado calorosamente recebido todos os dias, além disso era um jovem muito magro, que era preciso alimentar como deve ser. Viam com satisfação que Else agora pouco saía de casa e que desabrochava como mulher, bela e feliz, de maneira que não faltavam candidatos a maridos. E, apesar de ela os recusar a todos, não era assim tão grave, no sentido em que Minna e Daniel ainda não tinham encontrado entre eles o homem certo.

A ingenuidade e a boa-fé dos pais chegavam a parecer inquietantes a Else. Seria a confiança na consciência judia da filha tão inabalável que lhes escapasse o óbvio, segundo o mote «porque não pode ser aquilo que não deve ser»? Às vezes tinha pena deles e jurou para si própria: até aqui está bem, mas nem um passo mais! Era um juramento que levava muito a sério, do qual não se afastou. Enganar um bocadinho os pais, escapar-lhes, está bem, não lhes fazia mal, mas magoá-los a sério é que não, nunca.

Em Agosto de 1914, rebentou a guerra e em casa da família Kirschner, o pânico.

A filha, que acabara de fazer vinte anos, ainda não tinha entrado no porto seguro do casamento, e em tempos de guerra os homens eram poucos ou tinham coisas mais urgentes a fazer do que casar. O filho, Friedel, estava em idade de ter de cumprir o serviço militar e corria o risco de ser chamado. Os pais não conseguiam imaginar coisa pior. O que haviam de fazer para evitar uma coisa e apressar a outra?

—E esta balbúrdia toda por causa de uma bagatela — disse Minna, referindo-se ao assassinato do sucessor ao trono austríaco.

Minna e Daniel não eram pessoas de políticas, amavam a paz e, contrariamente à alta burguesia judia, não tinham enveredado pelos caminhos do nacionalismo alemão. Por conseguinte, o patriotismo deles não era dos mais elevados. A Alemanha era a sua pátria, o alemão a sua língua, alemã a sua cultura e judaica a sua consciência religiosa e familiar. Respeitavam o Kaiser por ser um imperador e, além disso, um homem sob cuja autoridade viviam, trabalhavam e estudavam, em paz e liberdade, alcançando riqueza e uma posição elevada, mantendo, ainda assim, o seu judaísmo. Era algo que acontecia raramente e eles sabiam dar o valor, estavam gratos por isso. Mas o chauvinismo era uma coisa estranha para eles. É certo que era preciso proteger o próprio país e o próprio povo quando eram atacados, mas, quando se tratava da honra e da glória de um país — ainda que fosse o próprio —, pouco lhes importava, na medida em que o bem-estar dos filhos era importante para eles.

Else tinha a mesma atitude saudável. Escreveu ela: «Não admiro o Kaiser, e sinto muita coisa pela minha pátria, mas não tenho sentimentos patrióticos. Odeio a guerra e nunca hei-de entender que uma pessoa possa ter o poder de enviar homens novos para a morte.»

É certamente o único comentário que faz acerca deste tema. Nas muitas cartas que deixou daquele tempo, a guerra nunca mais volta a ser referida.

Pergunto-me até que ponto Else tomou verdadeiramente conhecimento dela. Como decorreu fora das fronteiras alemãs e não interferiu, como acontece habitualmente hoje em dia, na vida civil, matando e devastando, pôde deixá-la de parte tranquilamente e investir todo o seu tempo, a sua energia e sentimento em Fritz. Da minha própria experiência de atravessar uma guerra mundial, sei que nenhuma guerra pode ser tão perturbadora, nenhuma paz pode trazer tanta felicidade como o primeiro amor.

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Fritz passou à reserva por ser muito míope; Friedel, o irmão de Else, foi incorporado no exército. Mas, como perceberam que as suas capacidades estavam menos no campo militar do que no da matemática, não foi enviado para a frente, permaneceu em Berlim, na administração.

A família Kirschner, a quem o medo roubou dias a fio o apetite, o sono e a fala, agradeceu a Deus com um dia de jejum e passou depois à rotina normal. De repente, acendeu-se uma suspeita em Minna. Talvez o medo pelo filho lhe tivesse aguçado os sentidos, ou o cepticismo inato levara finalmente a melhor sobre a confiança inabalável na consciência judia da filha — fosse o que fosse, Minna começou a observar Else e Fritz com o olhar de uma ave de rapina prestes a precipitar-se sobre a sua presa. E avistou o que era evidente. O interesse febril de Else não se dirigia de forma alguma apenas à cultura superior e aos dotes artísticos do jovem; da mesma forma, as visitas de Fritz não se dirigiam a toda a família, mas a um dos seus membros. A amizade inocente era uma história de amor clássica. E, embora Else não tivesse certamente cometido qualquer falta e nem em sonhos pensasse num namoro fixo, corria apesar disso o risco de desperdiçar os melhores anos da sua vida numa relação sem futuro.

Daniel, que ainda não tinha chegado à congeminação de qualquer suspeita, só via — fosse por que razão fosse — o desperdício dos melhores anos de vida, chamou a filha de parte e perguntou-lhe se ela queria estragar a vida dela e ficar solteirona. Os jovens achavam que seriam sempre novos, mas não era assim, depois dos vinte era tudo muito rápido.

Os pais concordaram que era preciso arranjar o mais depressa possível um marido para Else, e naquele momento crítico o destino interveio e ofereceu-lhes Alfred Mislowitzer. Trabalhava, tal como Daniel, na área dos têxteis, tinha ganhado fama em Frankfurt como grande homem de negócios e mudara-se havia pouco, com a mãe e as irmãs, para Berlim, onde, como ele dizia, «se faziam negócios a sério» no seu ramo. O ramo dele, como se percebeu no decurso da conversa, já era bem próspero e florescia, e na cabeça de Daniel as ideias começaram também a florescer. Causou uma impressão globalmente positiva o senhor Mislowitzer: um homem alto, pesado, de quem se adivinhava a boa alimentação, o bom alfaiate, a saúde robusta, o sentido infalível para o negócio e uma filosofia de vida conservadora, sólida. Que mais se podia querer!

Daniel informou-se sobre o estado civil, idade e orientação política da personagem globalmente positiva e também nesse campo não saiu decepcionado: solteiro, de trinta e cinco anos, fiel ao imperador.

Fumaram charutos, falaram de negócios, lamentaram a guerra e a inflação dos preços.

Daniel convidou Alfred Mislowitzer para um jantar de sexta-feira.

Else foi arranjada e abonecada por Minna e exortada por Daniel a tocar qualquer coisa ao violino depois do jantar, qualquer coisa «que tocasse o coração».

Alfred Mislowitzer apareceu vestido num fato escuro de excelente tecido, com a corrente de ouro do relógio a pender-lhe sobre o colete que se arredondava. Viu Else e a sua decisão estava tomada. Não ia receber uma oferta daquelas duas vezes.

Durante o jantar, para cuja confecção Minna não poupou nem esforços nem os melhores ingredientes, começou logo a fazer a corte. Riu e comeu muito e ruidosamente, lançando a Else ao mesmo tempo olhares profundos dos seus olhos redondos, cor de barro; não poupou os elogios, passou-lhe os mais diversos recipientes, fazendo questão de lhe tocar na mão. Não se falou de têxteis, mas das vantagens e desvantagens da vida em Berlim, sobre a consciência judaica, a boa cozinha e a família. Minna contou histórias da infância de Else, Daniel tinha algumas anedotas preparadas. Alfred Mislowitzer estava encantado. Ainda ficou mais encantado quando Else lhe tocou uma peça ao violino, para tocar o coração. À despedida, beijou-lhe a mão. O serão foi um êxito sem falhas, o destino de Else estava traçado.

Else não sabia se devia encarar aquela viragem como uma comédia ou como uma tragédia futura, se havia de rir ou chorar. E sobretudo não sabia como havia de comunicar tudo aquilo a Fritz. Por isso, decidiu calar-se e ficar à espera. Talvez acontecesse um milagre e Alfred Mislowitzer, que fizera trinta e cinco anos sem se ter casado, podia ficar de repente com dúvidas e aguardar mais uns anos. Mas o milagre não aconteceu. Pelo contrário! Tanto Alfred como os pais consideravam supérfluos todos os preparativos e partiram directamente rumo à meta. Após mais duas visitas e uma saída em conjunto até ao café preferido da família Kirschner, o senhor Mislowitzer pediu a Daniel a mão de Else, e ele deu-lha. Que coisa melhor poderia acontecer a ela e a ele! Ela conquistara um excelente partido e ele um parceiro de negócios de primeira, já que Alfred tinha decidido fazer parte da empresa do futuro sogro. Dois coelhos gordos de uma só cajadada.

Alfred Mislowitzer apareceu com uma seriedade solene. Ofereceu a Else um anel de brilhantes e um beijo. O anel tinha tanto de valioso como teve o beijo de sensaboria. Estava noiva.

Os avós, tal como os conheci, eram as pessoas mais queridas, mais condescendentes do mundo, e a minha mãe, conheci-a como a mulher que segue o seu próprio caminho sem olhar a perdas. Os pais inflexíveis, que punham o proveito material acima da felicidade humana da filha, e que praticamente a venderam, eram-me desconhecidos e misteriosos. Tal como a filha, que estava prestes a deixar-se empurrar pelos pais para um casamento que lhe teria destruído a vida. Mesmo tendo em consideração a época, a tradição judaica, as convicções de Minna e de Daniel de que os filhos e a segurança material são o objectivo e o pressuposto de um casamento feliz, custa-me entender o comportamento deles. Mas mais ainda o da jovem Else, que encontrara em Fritz tudo aquilo que amava e em Alfred tudo o que a repugnava. Portanto, como podia ela, mesmo que por pouco tempo, cometer um erro daqueles? As linhas que escreveu a esse propósito dão a entender nada mais, nada menos que a criança seduzida pela tentação da boa vida e a querer fugir ao destino da solteirona:

«Para ser sincera, a princípio até não foi assim tão mau. Até me lisonjeava. Ali estava um homem maduro, bem visto no círculo dos meus pais, que me queria conquistar e me admirava, que me ofereceu um anel valioso e uma vida segura, sem preocupações. Atraía-me a ideia de ser uma jovem mulher invejada, de andar com vestidos caros e de morar numa casa boa e fazer viagens. E com o Fritz nem sequer valia a pena pensar nisso. Ele não podia casar comigo porque não tinha dinheiro, eu não podia casar com ele por ele ser cristão, e mesmo que tivéssemos ultrapassado estas contrariedades, os meus pais nunca haveriam de permitir. Por isso, o que me restava? Passar as tardes em pastelarias de segunda, passear no bosque de Grunewald. Medo e secretismo, e por fim a sorte de uma velha solteirona.»

Sim, ela era uma criança que papagueava obedientemente as palavras dos pais, talvez até as sentisse como suas. Pois, mesmo que Else tivesse descoberto em Fritz aquilo que era «completamente diferente» e se tivesse aberto a tudo com entusiasmo, não era ainda capaz de vivê-lo. O cordão umbilical que a ligava aos pais ainda não fora cortado, e as raízes da sua educação judia ainda eram tão fortes como eram fracos os impulsos mais recentes quanto ao modo de vida cristão. Só um choque, uma separação violenta fariam de uma menina judia uma mulher independente da família e da tradição. Mas até lá ainda faltava percorrer um caminho longo, semeado de constantes recomeços e constantes recaídas.

Não foi possível manter em segredo por mais tempo o noivado com Alfred Mislowitzer, e ela viu-se na obrigação de contar a Fritz a verdade. Encontraram-se no parque do Palácio de Charlottenburg. Justamente naquele dia Fritz estava muito bem-disposto, e veio ao encontro dela a imitar o actor Alexander Moissi, cumprimentando-a com a voz aguda e quebradiça dele, e com os seus gestos dramáticos. Else, que se sentia a morrer por dentro, no corpo e na alma, só tinha um pensamento: pôr rapidamente um ponto final àquele sofrimento. Atirou-se, pois, de imediato à comunicação de que estava noiva e que casaria dali a seis meses. Ele ficou paralisado no meio de um gesto vigoroso, olhou-a nos olhos, percebeu que ela falava muito a sério e deitou as mãos à cara. Ficou na frente dela a chorar, soluçava como um rapazinho, e ela, que não conseguia suportar a dor dele, fugiu.

Naquela noite, não conseguiu dormir e no dia seguinte ficou de cama. Minna queria chamar o médico de imediato, mas Else, furiosa como a mãe nunca a tinha visto, gritou que não queria médico nenhum, nem panos húmidos, nem leite com mel, só queria que a deixassem em paz.

—Um exagero, completamente exabundante — resmungou Minna e saiu.

Ao final da tarde, tocaram à porta, era Fritz. Os Kirschners cumprimentaram-no calorosamente e pediram-lhe que entrasse. Else saiu do quarto. Estava muito pálida e envolvida pelos seus cabelos acobreados, que não tinha prendido numa trança.

—Ofélia no último acto — disse Minna e foi até à cozinha preparar o jantar, abanando a cabeça.

Fritz pegou na mão de Else, levou-a até ao piano, puxou-a para junto de si, no banco, e tocou a valsa d’O Cavaleiro da Rosa.

«Minha Babushka», cantarolou baixinho enquanto tocava, «minha Babushka…»

A partir daquele dia, vinham ambos, Alfred Mislo­witzer, o noivo, duas vezes por semana, e Fritz Schwiefert, o amado, quase todos os dias. Os Kirschners, na pia convicção de que o noivado de Else afugentara qualquer outro perigo e que Fritz agora era apenas um amigo platónico e um enriquecimento espiritual, deixavam de bom grado que isso acontecesse. Até lhes pareceu agradável que Alfred também viesse agora para apreciar os serões musicais. E, enquanto Minna bordava, sentada à mesinha da costura, Daniel fumava um charuto na poltrona de orelhas, e Alfred, enfartado com a comida pesada, dormia uma soneca noutro cadeirão, Fritz e Else tocavam piano a quatro mãos, encostavam-se um ao outro e sussurravam palavras de amor. Com o tempo, começavam a gostar cada vez mais da sua astúcia, em que Fritz via um castigo justo e Else um último acto de rebeldia antes de se fechar a porta para o mundo vasto e livre. Fritz tinha prazer em tornar Alfred ridículo aos olhos de Else, em brindá-lo com uma ironia fina, ambígua, em baralhá-lo com observações complicadas ou em assaltá-lo com uma troça malévola, com que o pobre e pesado homem não era capaz, de forma alguma, de competir. Apesar de Else ter pena dele, não conseguia reprimir uma alegria maliciosa. Em breve partilharia mesa e cama com ele, teria de ouvir as suas banalidades e sucumbir no pântano da monotonia. Portanto, ele que sofresse um bocadinho antes de começar o seu sofrimento, incomparavelmente maior. Tenho dois poemas da época desta estranha relação a três, escritos por Fritz Schwiefert e Alfred Mislowitzer no livro de visitas de Paula e Bruno Kirschner — um primo de Else. Dizem tudo sobre estes dois homens e sobre a relação entre eles.

Escreve Alfred Mislowitzer:

No ano da guerra mundial, tudo estava destruído

E por muito cinzenta que a esperança seja

Visito a família Kirschner de ânimo redivivo

Onde esqueço que o mundo trava dura peleja.

Responde Schiewert:

Ai de mim! Não sei fazer poemas!

Sou um parvo, um pobre bacoco;

Não sei contar lindas lendas

E o meu pensamento é um bocado oco.

O meu Pégaso é um cavalo cansado,

Não consegue arrastar carroça, fica parado!

Ai, se ao menos fosse mais observador

Como o Alfred Mislowitzer, esse sim, um senhor.

Quando Paula Kirschner, que vivia em Jerusalém desde 1936, me deu os poemas, tinha noventa anos. Já não fazia ideia de quem eram Alfred Mislowitzer ou Fritz Schwiefert. Mas lembrava-se muito bem da prima por afinidade: «Era tão querida», disse-me, entusiasmada, «uma autêntica criança rebelde!»

A criança rebelde era especialmente difícil de domar, e Alfred Mislowitzer — não admira — mostrou-se insatisfeito. Se aquele jovem e arrogante mandrião não podia ir parasitar para outra casa que não fosse a dos futuros sogros, perguntou ele.

Para acalmá-lo e para se verem livres do persistente Fritz, os Kirschners decidiram fazer uma viagem até Hiddensee, no mar Báltico.

Fritz, que levava o noivado de Else e casamento próximo cada dia menos a sério, sentindo-se ele próprio cada vez mais confiante, não se desfez desta vez em lágrimas, mas em fúria: se era assim, gritou ele, não queria continuar a impedir a infelicidade, pegou nos livros e nas partituras que lhe tinha emprestado e foi-se embora.

Foram até Hiddensee, e a viagem ajudou Else a esquecer um pouco o sofrimento. Adorava a proximidade da água, mas o mar — só conhecia o mar do Norte e o mar Báltico — era o mais bonito que havia. E, se estivesse sol para mais, não podia deixar de se sentir feliz no meio da infelicidade. «Quando me sinto mal», costumava dizer, «só preciso de água e sol e fico logo boa.»

Foi em pleno Verão. Estava muito sol, que se derramava como uma auréola divina sobre a ilha plana com as suas dunas, relvados e granjas brancas, com telhados de colmo. Uma leve brisa agitava as folhas das árvores, traçava linhas serpenteantes na areia, ondulava o mar. Else caminhava descalça, com a saia puxada para cima, pela praia fora, o olhar mergulhado do azul ofuscante, infinito, os pés ora enterrados na areia quente, ora banhados pela água. A trança desfez-se sobre as costas, no rosto bronzeado havia uma expressão de entrega arrebatada. Abriu a blusa até ao começo do peito, arregaçou as mangas até aos cotovelos, levantou a saia até aos joelhos, deu uns passos pelo mar fora, riu, gritou. Água, sol, ar: o seu corpo, sempre embrulhado e atado, ansiava por tudo aquilo como por amor.

Minna, Daniel e Alfred estavam sentados em espreguiçadeiras de praia. Os homens fumavam charuto e falavam de negócios. Minna bordava e ia vigiando Else, receosa.

—O que andará ela a fazer? — disse.

—Anda a apanhar peixes — gracejou Daniel.

—Faz-lhe bem passear um bocadinho — comentou Alfred.

Quando Else voltou, com os cabelos no ar, o forro da saia todo molhado, os pés cheios de areia, Minna franziu a testa.

Que fizesse o favor de abotoar a blusa, de calçar os sapatos, de fazer a trança e pôr o chapéu, ordenou ela, parecia uma selvagem — queimada e meio nua. Além do mais, ia apanhar um resfriado.

Que queria tomar banho, disse Else, entrar mesmo no mar, como as outras pessoas que estavam na praia.

Pois, era o que faltava, exclamou Minna, e Daniel acrescentou: Goyim naches.

A viagem da pequena família feliz foi fixada numa fotografia: apertados numa das espreguiçadeiras de praia, estão sentados um Daniel alegre, uma Minna a olhar com suspeição para a máquina, uma Else sorridente. Aos pés deles, descansa Alfred — apoiado nos quadris e nos cotovelos, uma espécie de lobo-marinho com um atrevido chapéu de palha.

Uma semana depois, regressaram a Berlim. A primeira saída de Else foi para ir à estação dos correios. Mas não havia nenhuma carta de Fritz. Foi uma má surpresa, é verdade, mas, como agora já havia um telefone, havia de ligar durante o dia. Não ligou. Portanto, havia de ir lá a casa ao final do dia. Não foi.

Else, que não levara a sério a ameaça de Fritz de que não queria continuar a impedir a infelicidade dela, tal como ele não levara a sério o noivado dela, viu-se de repente confrontada com a possibilidade de não voltar a vê-lo. Era uma possibilidade tão inimaginável que a excluiu de imediato. Um homem que durante dois anos suportara sucessivamente obstáculos, segredos e dificuldades, chuva e neve, as proibições dos pais dela, as sopas da mãe, as piadas do pai e ainda por cima o noivado dela, que lhe escrevera poemas, a beijara apaixonadamente e inventara as palavras mais carinhosas para ela, tinha de a amar. E um homem que a amava tinha de voltar. Portanto, esperou, esperou, até que lhe começaram a doer os músculos de tanta tensão, e a cabeça de tanto magicar. Pôs toda a força do seu desejo para trazê-lo de volta e todo o fervor das suas orações. Quando percebeu que não eram suficientes, tentou com truques supersticiosos: se eu chegar ao correio sem ter pestanejado uma única vez, vai lá estar uma carta para mim; se passarem dez homens de barba à minha janela na próxima meia hora, ele vai estar a caminho de cá; quando completar o jogo de paciências, o telefone vai tocar e é ele. Mas, por muito que completasse paciências, passassem dez homens de barba e ela não pestanejasse, não escrevia, não chegava, não ligava.

Passada uma semana, admitiu para si própria, numa noite de insónia, a verdade: ele tinha reconhecido a impossibilidade da situação, tinha-se cansado dos beijos estéreis dela, dos pais retrógrados, da afronta que era o noivo e tinha desistido. E, mesmo que ela lhe escrevesse ou ligasse, o que haveria de lhe dizer? Volta, mas não esperes que tenha mudado alguma coisa. Ou então: por favor, não me abandones até eu casar! Que belas propostas!

Com a constatação de que o tinha perdido, começou para Else um tempo de um sofrimento profundo, real.

«O mundo em que me tinhas iniciado», escreveu ela, «aquele mundo diferente, grande, fantástico, cheio de poesia e música, voltou a fechar-se para mim. Ninguém me trazia livros, ninguém me escrevia cartas, ninguém me lia poemas, ninguém tocava ao piano a valsa d’O Cavaleiro da Rosa, ninguém me levava ao teatro. Não havia ninguém com quem eu pudesse falar. A única coisa que ainda estava viva em mim era a saudade que eu tinha de ti e daquele mundo.»

Os pais queriam saber por que razão Fritz já não ia lá a casa. Porque já não lhe apetece, dizia Else, amarga.

Minna e Daniel estavam tristes por isso. Um homem tão encantador, culto, espirituoso! Tinham-se afeiçoado mesmo a ele e sentiam muito a sua falta.

O único que não sentia a falta dele era Alfred Mislowitzer. Finalmente tinha corrido com o parasita do território! Alfred florescia na mesma medida em que Else mirrava. Mal comia, mal dormia e deixou completamente de rir. Emagreceu. Os olhos dela, ainda maiores do que dantes, ficaram encovados, as maçãs do rosto ficaram salientes, as faces, chupadas. Pela primeira vez, via-se o belo recorte do seu rosto, as pálpebras altas, redondas, a linha côncava que se desenhava desde a ponta das maçãs do rosto até ao queixo. Era o rosto que teria quando tivesse muita idade. Mas não agradava nada a Alfred. Queria uma mulher gorda, alegre, de bom trato e não uma criatura cansada com o rosto minguado, que picava a comida e tocava músicas tristes ao piano.

Assim não podia ser, afirmou enfaticamente, e até ao casamento tinha de voltar a ficar tão redonda e alegre como dantes.

Levou-a a casa da família, que, recuperada das fadigas da mudança, queria conhecer a noiva o mais depressa possível.

«Moravam num apartamento asqueroso, a abarrotar de móveis de mau gosto», escreveu Else, «e a mãe era igualmente asquerosa e tinha mau gosto. Falava um alemão tingido de iídiche. Soava horrivelmente. As irmãs não eram melhores do que a mãe e todas elas me fizeram perguntas estúpidas, indiscretas. Confrontei-me com uma faceta do mundo judaico, que rejeitava profundamente e de que queria fugir, na sua pior expressão.»

A acrescentar ao luto pelo amado e pelo mundo vasto, magnífico, que lhe tinha oferecido, surgia agora o ódio do noivo e de toda aquela vida acanhada, horrível, de gueto, que ele queria impor-lhe. À perda da sua robustez e da alegria que tinha, juntou-se, como bónus, uma nova atitude, que descarregava sob a forma de comentários de desprezo, ofensas e troça. Alfred Mislowitzer achava que a sua pequena Else havia sido possuída pelo demónio. Os pais temiam que a filha pudesse ficar gravemente doente.

Daniel perguntou-lhe se ela não gostava nem um bocadinho do Mislowitzer. E Minna, pela primeira e pela última vez do lado da filha, declarou que aquele homem era um banana.

Novembro tinha entrado, dias frios e húmidos, cinzentos, noites intermináveis. A guerra tornava-se perceptível. Havia falta de carvão e géneros alimentares, cada vez mais pessoas de luto, cada vez mais notícias inquietantes da frente. A Else, não importava nada daquilo. Também sentia Inverno e guerra dentro de si, e estava a perder.

Num dia de tempestade, sentiu necessidade de ir passear para o parque do Palácio de Charlottenburg. A tempestade estava em sintonia com o que sentia. Queria senti-la no rosto, nas roupas e na pele, queria correr com ela e contra ela, queria gemer e chorar com ela.

A mãe retorcia as mãos. Ela que tivesse juízo, pelo amor de Deus, que ficasse em casa. Ia atrás da morte!

Não foi atrás da morte, mas da vida.

Numa das alamedas largas, despida de gente, viu aproximar-se uma figura magra, sem chapéu, com o tronco inclinado para a frente, a cabeça baixa. A tempestade tornava-lhe o passo mais lento, mas Else, que o tinha atrás de si, foi a correr ao seu encontro. Só a viu quando ela se pôs diante dele.

—Babushka — disse ele sem surpresa e apertou-a nos seus braços. Ela pendurou-se-lhe ao pescoço e chorou com a tempestade, chorou a competir com a chuva.

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Ali estava ele de novo, o mundo da poesia e da música, o mundo do medo e dos segredos.

Pela primeira vez, na relação que durava havia dois anos, Fritz perguntou a Else se queria casar-se com ele. Ela disse que sim sem hesitar e só de noite, deitada na cama, pensou nas consequências daquela resposta. Era como se a cabeça tivesse ido parar a um ninho de vespas e um enxame de insectos endoidecidos zumbisse à sua volta com os ferrões venenosos, prontos a atacar. Sentiu-se tentada a tomar um comprimido para dormir, para escapar àqueles pensamentos. Mas isso seria o equivalente a uma fuga e, se estava já a esquivar-se, mais depressa estaria casada com Alfred do que com Fritz. Mas isso — essa era a única certeza nela, o ponto de partida de todos os seus pensamentos — não podia acontecer. Portanto, tinha de pensar no resultado e assumir as consequências: o choque dos pais, a vergonha do clã Kirschner, a desonra do noivo rejeitado; a ruptura com o meio dela, o passo em direcção a um mundo tão sedutor e desejado como estranho e inseguro, as dificuldades de uma vida sem respaldo material, sem a mínima formação profissional ou nas lides domésticas, sem apoio e orientação; as capacidades mais do que duvidosas de Fritz para a vida prática; o seu alheamento do mundo, a distracção e a susceptibilidade, a inexperiência dela, o desconhecimento e as dúvidas acerca de si própria.

Meu Deus, como iriam ultrapassar todos aqueles obstáculos, os encargos, o medo, enfrentar Deus e o mundo? Onde haveriam de viver, de que iriam viver, como iriam comer, tanto mais que ela nem sabia cozinhar? Como haveriam sequer de fazer os necessários preparativos em completo segredo, sob pressão e medo constante de serem descobertos? Onde iria ela buscar forças para olhar os seus pobres pais olhos nos olhos, para se sentar, aparentemente despreocupada, à mesa com eles, vendo-os, indiferente, a preparar o casamento com Alfred? Como iria ela aguentar aquelas duas vidas, aguentar o sentimento de culpa, ganhar a corrida contra o tempo? E se os pais fossem mais rápidos do que ela e ela, Else, em vez de ir ter com Fritz ao registo civil, fosse parar ao altar judeu com Alfred? Voltara ao ponto inicial dos seus pensamentos, e a certeza de que aquilo nunca, mas nunca, poderia acontecer apagou dúvidas, medos e sentimentos de culpa. Adormeceu, mas na manhã seguinte todos os fantasmas importunos tinham voltado.

Aquele estado desmoralizante de se sentir empurrada de um lado e para o outro durou meses e submeteu a relação de Else e Fritz a uma dura prova. Cada um deles tinha certezas acerca do seu amor, mas não acerca do amor do outro. Cada um deles pressentia que o outro não iria conseguir encarar de frente os problemas e que iria arrepender-se da decisão. Além disso, Fritz temia que Else tivesse uma recaída por causa da pressão constante dos pais e da sua própria má consciência; Else temia que Fritz chegasse à conclusão de que se comprometia com uma mulher que não lhe chegava aos calcanhares.

Quando leio as cartas dela desse tempo é que percebo o pânico que o salto da «estreiteza judia» para o «grande mundo cristão» lhe deve ter provocado. Porque a estreiteza lhe teria pelo menos dado protecção e aconchego, ao passo que a amplitude do mundo cristão era praticamente ilimitada. Não era só o facto de aquele mundo ser completamente diferente, era a vida que era completamente diferente naquele mundo, a sua esfera pessoal era completamente diferente naquele universo, porque entrava um ser completamente diferente, masculino e não burguês, na sua esfera pessoal. Como haveria ela de estar à altura de ...