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SOBRE O POLITICAMENTE CORRECTO

Manuel Monteiro  

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Excerto

À laia de introdução

A consulta da base de dados de jornais e revistas dos Estados Unidos da ProQuest permitiu a Moira Weigel verificar que a expressão politically correct raramente foi usada na imprensa antes de 1990. Nesse ano, porém, surge mais de 700 vezes. Em 1991, mais de 2500.[1] O presidente George W. Bush, discursando na Universidade do Michigan, em Maio de 1991, já falava do perigo da censura do Politicamente Correcto.

É verdade que alguns atacam a censura do Politicamente Correcto de modo oportunista? Sim. Figuras como Trump, ­Bolsonaro ou Marine Le Pen, que não são conhecidas pelo seu inexcedível amor à liberdade de expressão, têm manifestado aversão ao Politicamente ­Correcto. Para não maçar o leitor com todas as citações destas ou de outras figuras sobre o Politicamente Correcto nem com frases antidemocráticas, pró-censura, racistas, xenófobas (o racismo absoluto não poderá ser xenófobo, porquanto defenderá uma união «racial»), machistas, vejamos apenas o exemplo de Bolsonaro. Recém-empossado, afirmou: «Vamos libertar o povo do socialismo e do politicamente correto.»[2] ­Contudo, são também de Bolsonaro as frases — «Eu prefiro ter um filho viciado [a ter] um filho homossexual», «Nem passa pela minha cabeça [ter um filho homossexual»] com uma boa educação», «Senegaleses, Haitianos, Iranianos, Bolivianos e tudo o que é escória do mundo, né? E agora está chegando os filhos também aqui»[3]. E outras há de semelhante jaez sobre os Negros, as mulheres, bem como inúmeras declarações elogiosas da ditadura militar.

Há, todavia, uma extrapolação perigosíssima do parágrafo anterior: quem é contra, ou tão-somente critica, o Politicamente Correcto está do lado do racismo, da homofobia, do machismo e por aí fora. É o risco que Umberto Eco assinalou: a discriminação daqueles que não seguem as regras do Politicamente Correcto.[4] E essa discriminação pode cindir aqueles que lutam pelos direitos dos mesmos grupos.

Nos Estados Unidos, em 2018, um estudo exaustivo, publicado em livro com o título Hidden Tribes: A Study of America’s Polarized Landscape [«Tribos Ocultas: Um Estudo sobre o Ambiente Polarizado dos Estados Unidos»], revelou que 80 % dos Estado-Unidenses entendem que o Politicamente Correcto foi demasiado longe. O estudo tipificou sete tribos: Activistas Progressistas, Liberais Tradicionais, Liberais Passivos, Politicamente Descomprometidos, Moderados, Conservadores Tradicionais e Conservadores Convictos.

O número de «Conservadores» que vêem o Politicamente Correcto como um problema é maior do que a média. A tribo dos «Activistas Progressistas» (8 % dos Estado-Unidenses) é aquela que revela menor preocupação com o Politicamente Correcto. Os «Activistas Progressistas» manifestam uma grande preocupação com a desigualdade e a pobreza, estando particularmente despertos para a discriminação de género, etnia, entre outras. Três quartos desta tribo não acreditam que a meritocracia funcione nos Estados Unidos e 69 % têm vergonha de ser «americanos». Ainda assim, 30 % dos «Activistas Progressistas» pensam que o Politicamente Correcto foi demasiado longe. Dos «Activistas Progressistas», 50 % são do sexo masculino; 80 % são «Brancos» (o estudo tipificou outras categorias: «Negros», «Hispânicos», «Asiáticos», «Nativos Americanos», «mestiços» e «outros»); 60 % têm entre 30 e 64 anos (30 % entre 30 e 44 anos, 30 % entre 45 e 64 anos); e são a tribo, das sete tipificadas, com mais habilitações académicas e cujos agregados familiares dispõem de um maior rendimento anual (aquela com as maiores percentagens nos escalões entre os 50 000 e os 99 999 dólares e no escalão máximo do estudo: com mais de 100 000 dólares)[5].

O estudo revela ainda que, considerando todas as tribos, os «Brancos» não têm, sobre o Politicamente Correcto, uma opinião diferente da opinião da média dos «Negros», «Hispânicos», «Asiáticos», «Nativos Americanos», «mestiços» e «outros»: 80 % dos Estado-Unidenses consideram ser o Politicamente ­Correcto um problema do país, e 79 % dos Brancos pensam o mesmo — o que obriga à reflexão: como podem os grupos que o Politicamente Correcto quer defender ver nele um problema? Não quer isto dizer que não haja uma percepção diferente do problema do racismo nos diferentes grupos — por exemplo, os Afro-Americanos sentem o racismo como um assunto bem mais dramático do que a média. Em matéria de sexismo, 57 % dos Estado-Unidenses entendem ser mais difícil para uma mulher ter êxito na carreira profissional e 69 % consideram existir problemas de sexismo muito, ou algo, sérios no país. Uma última observação: 81 % entendem que há problemas graves de racismo nos Estados Unidos e 80 % vêem o Politicamente Correcto como um problema. Como justificar tais números? Estarão as pessoas a pensar em aspectos muito diferentes quando evocam o Politicamente Correcto, dado que o mesmo não foi definido no estudo? Ou ­julgarão as pessoas preocupadas com os problemas graves do racismo (e também do sexismo, cerca de 70 %) não ser o Politicamente Correcto o remédio eficaz? Ou, pior do que isso, entenderão que o Politicamente Correcto poderá até agravá-los?

Sobre o entendimento do que é o Politicamente Correcto, falemos de Bernie Sanders. Numa entrevista à MSNBC[6], o candidato do Partido Democrata contra Hillary Clinton, a propósito da vitória de Trump, afirmou que as pessoas estavam fartas da velha retórica politicamente correcta e ensaiou uma tentativa de mostrar que não era politicamente correcto: fê-lo criticando a política comercial do país. O entrevistador perguntou aos elementos do público se, quando ouviam falar de Politicamente Correcto, pensavam na política comercial do país. Pediu que levantassem a mão. Ninguém levantou. A seguir, fez o mesmo exercício perguntando se, quando pensavam no Politicamente Correcto, o associavam à forma como se podia, ou não, falar de certos grupos dos Estados Unidos. Todos levantaram a mão.

Origem da expressão

O livro Politically Correctness — A History of Semantics and Culture [«Politicamente Correcto — Uma História de Semântica e de Cultura»], de Geoffrey Hughes, ao explicar as raízes do conceito de Politicamente Correcto, refere que a doutrina comunista do século XX, mormente a maoista, frisava a ideia da «linha correcta» do partido e da necessária luta contra a «linha incorrecta». Vejamos um exemplo.

Resolução de Mao Tsé-tung, intitulada «A Correcção de Ideias Equivocadas no Partido», de Dezembro de 1929: «Há várias ideias não-proletárias na organização do Partido Comunista, no Quarto Exército Vermelho, que dificultam em muito a aplicação da linha correcta do Partido.»

Enquanto parte de certa retórica comunista do século passado,

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