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SEROTONINA

Michel Houellebecq  

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Excerto

É um pequeno comprimido branco, oval, divisível.

Cerca das cinco horas da manhã, por vezes seis, acordo, a necessidade está no seu apogeu, é o momento mais doloroso do meu dia. O meu primeiro gesto é ligar a cafeteira eléctrica; na véspera, enchi o reservatório de água e o filtro de café moído (regra geral, Malongo, continuo a ser exigente com o café). Só acendo um cigarro depois de ter dado um gole; é um constrangimento que me imponho, um êxito quotidiano que se tornou o meu principal motivo de orgulho (é preciso reconhecer que as cafeteiras eléctricas são muito rápidas). O alívio do primeiro bafo é imediato, de uma violência inacreditável. A nicotina é uma droga perfeita, uma droga simples e dura, que não oferece qualquer prazer, que se define unicamente pela privação e pela cessação da privação.

Uns minutos mais tarde, depois de dois ou três cigarros, tomo um comprimido de Captorix com um quarto de água mineral — regra geral, Volvic.

Tenho quarenta e seis anos, chamo-me Florent-Claude Labrouste e detesto o meu primeiro nome, penso ter origem no desejo de o meu pai e a minha mãe homenagearem, cada um por seu lado, dois membros da minha família; é tanto mais lamentável que nada tenho, aliás, a censurar aos meus pais, foram para todos os efeitos pais excelentes, fizeram o melhor por me dar as armas necessárias na luta pela vida e, se por fim falhei, se a minha vida desemboca na tristeza e no sofrimento, não os posso culpar, é antes um lamentável encadeamento de circunstâncias ao qual terei oportunidade de regressar — e que constitui mesmo, a bem dizer, o motivo deste livro —, não tenho absolutamente nada a censurar aos meus pais, excepto este pequeníssimo, lamentável mas pequeníssimo, caso do nome próprio, não só acho a combinação Florent-Claude ridícula como desgosto dos próprios elementos, e em suma considero o meu primeiro nome um falhanço absoluto. Florent é demasiado suave, demasiado próximo do feminino Florence, num sentido quase andrógino. Não corresponde de todo ao meu rosto de traços vigorosos, sob determinados ângulos brutais, que foi frequentemente (por algumas mulheres, pelo menos) considerado viril e nunca, mas mesmo nunca, o rosto de um larilas botticelliano. Quanto a Claude, nem vale a pena falarmos disso, faz-me imediatamente pensar nas Claudettes, e vem-me logo à cabeça a imagem pavorosa de um vídeo vintage do Claude François a ser passado em loop num serão de bichas velhas, assim que ouço o nome Claude.

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Mudar de nome próprio não é difícil, enfim, não quero dizer de um ponto de vista administrativo, quase nada é possível de um ponto de vista administrativo, a administração tem como objectivo reduzir as vossas possibilidades vitais ao máximo, quando não consegue simplesmente destruí-las, do ponto de vista da administração um bom administrado é um administrado morto, quero dizer de um ponto de vista do uso: basta um tipo aparecer com um nome próprio novo, que, ao fim de alguns meses, ou mesmo de algumas semanas, toda a gente já se habituou, nem lhes passa pela cabeça que, no passado, pudessem ter tido um nome diferente. A operação, no meu caso, teria sido ainda mais fácil, dado que o meu segundo nome próprio, Pierre, correspondia perfeitamente à imagem de firmeza e de virilidade que queria passar ao mundo. Mas nada fiz, continuei a deixar que me chamassem este primeiro nome repulsivo, Florent-Claude, tudo o que consegui de algumas mulheres (da Camille e da Kate, mais precisamente, mas lá voltarei, lá voltarei) é que se limitem a Florent, da sociedade em geral nada obtive, neste ponto, como em quase todos os outros, deixei-me levar pelas circunstâncias, fiz prova da minha incapacidade de retomar as rédeas da vida, a virilidade que parecia emanar do meu rosto quadrado com arestas duras, dos meus traços burilados, não era senão um logro, uma burla pura e simplesmente — da qual, verdade seja dita, eu não era responsável, Deus tinha disposto de mim mas eu não era, não era na verdade, nunca tinha sido nada senão um cobarde inconsistente, e tinha já quarenta e seis anos e não fora capaz de gerir a minha própria vida, enfim, parecia deveras plausível que a segunda parte da minha existência acabasse por ser, à imagem da primeira, um frouxo e doloroso desabamento.

Os primeiros antidepressivos conhecidos (Cipralex, Prozac) aumentavam a taxa de serotonina no sangue inibindo a sua recaptação pelos neurónios 5-HT1. A descoberta no início de 2017 do Capton D-L abriria caminho a uma nova geração de antidepressivos, com um mecanismo de actuação finalmente mais simples, pois tratava-se de favorecer a libertação por exocitose da serotonina produzida ao nível da mucosa gastrointestinal. Desde o final de 2017 que o Capton D-L passou a ser comercializado com o nome Captorix. Mostrou-se logo de uma eficácia surpreendente, permitindo aos doentes integrar com uma facilidade renovada os ritos maiores de uma vida normal no seio de uma sociedade evoluída (higiene, vida social reduzida à boa vizinhança, tarefas administrativas simples), sem nunca estimular, ao contrário dos antidepressivos da geração precedente, a tendência de suicídio ou automutilação.

Os efeitos secundários indesejáveis mais frequentemente observados do Captorix são as náuseas, a diminuição da libido e a impotência.

Nunca tinha tido náuseas.

A história começa em Espanha, na região de Almería, exactamente cinco quilómetros a norte de El Alquián, na N340. Estávamos no início do Verão, a meio de Julho, seguramente, em finais da década de 2010 — quer-me parecer que o presidente da República era o Emmanuel Macron. Fazia imenso calor, como sempre no Sul de Espanha nesta estação. Era início da tarde e o meu Mercedes G350 TD todo-o-terreno estava estacionado no parque da bomba da Repsol. Acabara de encher o depósito de gasóleo e bebia uma Coca-Cola Zero com vagareza, apoiado na carroçaria, vencido pela morosidade crescente da ideia de que a Yuzu chegaria no dia seguinte, quando um Volkswagen carocha estacionou em frente da bomba de ar.

Duas miúdas de vinte anos saíram do carro, e mesmo ao longe dava para ver que eram deslumbrantes, nestes últimos tempos tinha-me esquecido de que as miúdas podem ser deslumbrantes, chocou-me, como uma espécie de reviravolta exagerada, artificial. O ar estava tão quente, que parecia animado por uma espécie de vibração, e o mesmo se passava com o asfalto do parque de estacionamento, eram as condições ideias para o aparecimento de uma miragem. As miúdas eram no entanto reais, e senti algum pânico quando uma delas começou a andar na minha direcção. Tinha cabelos compridos castanho-claros, ligeiramente ondulados, e à volta da testa uma fita de couro com motivos geométricos coloridos. Uma faixa de algodão branco tapava-lhe mais ou menos os seios e a saia, muito curta e ondulante, igualmente em algodão branco, parecia pronta a subir à mínima brisa — não corria aragem. Deus é clemente e misericordioso.

Ela estava calma, sorridente, e não parecia de todo ter medo — o medo, para sermos claros, estava do meu lado. Havia no olhar bondade e alegria — soube desde o primeiro olhar que ela só tivera experiências boas de vida, com animais, pessoas e mesmo empregadores. Porque se dirigia a mim, jovem e desejável, naquela tarde de Verão? Ela e a amiga queriam verificar a pressão dos seus pneus (ou melhor, dos pneus do carro). É uma medida prudente, recomendada pelos organismos de protecção rodoviária em quase todos os países civilizados, assim como nalguns outros. Esta miúda era não somente desejável e bondosa, era igualmente prudente e sábia, a minha admiração por ela crescia a cada segundo. Podia recusar-lhe ajuda? Evidentemente que não.

A amiga dela era mais conforme ao modelo que se esperaria de uma espanhola — cabelos profundamente negros, olhos castanho-escuros, pele mate. O visual era menos hippie cool, enfim, parecia uma miúda bastante cool ainda assim, mas menos hippie, e um brinco de prata na narina esquerda conferia-lhe um pequeno toque de putéfia, a faixa que lhe recobria os seios era multicolor, tinha um grafismo agressivo e estava repleta de slogans que podíamos qualificar de punk ou de rock, não me lembro da diferença, digamos slogans de punk-rock, para simplificar. Contrariamente à amiga, estava de calções e era pior ainda, não sei porque é que fazem calções tão apertados. Era impossível não ficar hipnotizado pelo cu dela. Era impossível, não pude evitar, mas depressa me reconcentrei na situação. A primeira coisa a saber, expliquei, era a pressão de enchimento desejável, em função do modelo do carro: normalmente estava inscrita numa pequena placa metálica soldada no interior da porta dianteira esquerda.

A placa encontrava-se mesmo no sítio que indicara e senti que a consideração delas pelas minhas competências viris aumentara. O carro não estava muito carregado — surpreendentemente, tinham pouca bagagem, dois pequenos sacos de viagem que deveriam conter umas tangas e os habituais produtos de beleza —, uma pressão de 2,2 kbars era mais que suficiente.

Restava proceder à operação de enchimento propriamente dita. Assim de repente, constatei que a pressão do pneu dianteiro da esquerda era apenas de 1,0 kbar. Falei-lhes com seriedade, mesmo com a ligeira severidade que a minha idade permitia: tinham feito muito bem em se me dirigir, mesmo a tempo, corriam perigo, sem saber: o subenchimento podia causar perdas de aderência, perturbações na direcção, o acidente, mais cedo ou mais tarde, era quase certo. Elas reagiram com emoção e inocência, a morena pousou uma mão sobre o meu antebraço.

Há que reconhecer que estes aparelhos são uma seca, é preciso estar atento aos silvos emitidos pela máquina e muitas vezes tactear, antes de colocar a ponteira no pipo, é mais fácil fazer amor, mais intuitivo, tinha a certeza de que elas concordariam comigo nesse assunto, mas não estava a ver como abordá-lo, enfim, enchi o pneu dianteiro da esquerda, e logo o traseiro da esquerda, e elas agachadas ao meu lado, seguindo-me os gestos com extrema atenção, chilreando na língua delas uns «chulo» e «claro que sí» e eu entreguei-lhes a mangueira, intimando-as a se ocuparem dos restantes pneus, sob a minha paterna supervisão.

A morena, mais impulsiva, eu sentia-o bem, avançou sem demoras para o pneu direito da frente, e aí a coisa complicou-se muito, uma vez que ela se ajoelhou, as nádegas nos calções justíssimos, de uma redondeza perfeita e que se moviam à medida que ela tentava controlar a ponteira, penso que a outra partilhava da minha angústia, até me passou brevemente um braço pela cintura, um braço de irmã.

Chegou o momento do pneu traseiro direito, de que se encarregou a de cabelo castanho-claro. A tensão erótica era menos intensa, mas uma tensão amorosa sobrepunha-se-lhe devagar, visto que sabíamos os três ser o último pneu, elas não teriam outra escolha, agora, senão retomarem o seu caminho.

Entretanto, ficaram comigo alguns minutos, entrelaçando agradecimentos e gestos graciosos, e a atitude delas não era inteiramente teórica, pelo menos é o que penso agora, a muitos anos de distância, quando calha lembrar-me de que já tive vida erótica. Perguntaram-me pela nacionalidade — francesa, creio não o ter mencionado —, o que achava da região — sobretudo se conhecia lugares fixes. Num sentido, sim, havia um bar de tapas que servia uns pequenos-almoços copiosos, mesmo à frente da minha residencial. Havia também uma discoteca pouco mais longe, que, sendo generosos, podíamos qualificar de fixe. E havia o meu quarto, podia-lhes ter dado guarida, pelo menos por uma noite, e sobre isso tenho a sensação (mas fantasio, certamente, à lembrança) de que teria sido bem fixe. Mas não digo nada disto, faço uma síntese, explicando-lhes em traços largos que a região era agradável (o que era verdade) e que me sentia lá feliz (o que era mentira, e a chegada da Yuzu não ia melhorar as coisas).

Arrancaram finalmente, fazendo grandes gestos com as mãos, o Volkswagen carocha deu meia-volta no parque de estacionamento e meteu-se na via de acesso à estrada nacional.

Nesse momento, várias coisas podiam ter acontecido. Se estivéssemos numa comédia romântica, eu teria, após alguns segundos de hesitação dramática (importantes, neste momento, os recursos do actor, acho que Kev Adams poderia tê-lo feito), enfim, teria saltado para dentro do meu Mercedes todo-o-terreno e rapidamente teria apanhado o carocha na auto-estrada, e ultrapassá-lo-ia fazendo uns acenos com o braço meio tontos (como fazem os actores das comédias românticas), elas teriam encostado na faixa de emergência (bem, numa comédia romântica clássica haveria, com toda a probabilidade, uma única miúda, sem dúvida a de cabelos castanhos), e ter-se-iam dado vários actos humanos enternecedores entre o sopro dos camiões que nos teriam passado de raspão a poucos metros. Nesta cena, o argumentista teria tido toda a vantagem em caprichar no texto.

Estivéssemos num filme porno, a continuação teria sido ainda mais previsível, mas a importância do diálogo, menor. Todos os homens desejam miúdas novas, ecologistas e apreciadoras de trios — enfim, quase todos os homens, eu certamente.

Estávamos na realidade, pelo que voltei para a residencial. Tinha uma erecção, o que não surpreendia, dado o desenrolar da tarde. Tratei dela pelos meios habituais.

Aquelas duas miúdas novas, e muito especialmente a de cabelo castanho, podiam ter dado um sentido à minha estada em Espanha, e a conclusão banal e decepcionante da minha tarde não fez senão sublinhar de forma cruel uma evidência: não tinha nenhum motivo para estar ali. Comprara este apartamento com a Camille, e para ela. Era na altura em que considerávamos projectos de casal, a implantação familiar, um moinho romântico na Creuse ou o diabo a quatro, talvez a concepção de crianças fosse a única coisa que não considerámos — e, ainda assim, ficou por pouco. Foi a minha primeira aquisição imobiliária e, até agora, caso isolado.

O lugar agradou-lhe logo. Era uma pequena estância naturista, calma, afastada dos enormes empreendimentos turísticos que se estendem da Andaluzia ao Levante, e nos quais a população era essencialmente constituída por reformados do Norte da Europa: alemães, holandeses, um ou outro escandinavo, claro que os inevitáveis ingleses, mas curiosamente não havia belgas, embora tudo na estância — a arquitectura dos pavilhões, a disposição dos centros comerciais, o mobiliário dos bares — parecesse reclamar a sua presença, enfim, era verdadeiramente um lugar para belgas. A maior parte dos residentes tinha feito carreira no ensino, no funcionalismo no sentido lato, profissões intermédias. Terminavam agora a vida de forma pacífica, não eram os últimos na hora do aperitivo e passeavam como bonomia as suas nádegas caídas, os seus seios redundantes e as suas pilas inactivas do bar à praia, da praia ao bar. Não arranjavam confusões, não estavam na origem de qualquer conflito de vizinhança, estendiam com civismo uma toalha nas cadeiras de plástico do No Problemo, antes de mergulharem, com exagerada atenção, na vistoria de um menu assaz curto (era uma cortesia não escrita, no recinto da estância, evitar, pela colocação de uma toalha, o contacto entre o mobiliário de uso colectivo e as partes íntimas, possivelmente húmidas, dos consumidores).

Outra clientela, menos numerosa mas mais activa, era constituída pelos hippies espanhóis (adequadamente representada, dava-me conta com um certo pesar, pelas duas miúdas que me tinham pedido ajuda com os pneus). Um breve excurso pela História recente de Espanha não será sem utilidade. Com a morte do general Franco, em 1975, a Espanha (a juventude espanhola, mais precisamente) viu-se confrontada com duas tendências contraditórias. A primeira, saída directamente dos anos sessenta, prezava acima de tudo o amor livre, a nudez, a emancipação dos trabalhadores e esse tipo de coisas. A segunda, que viria a impor-se definitivamente nos anos oitenta, valorizava pelo contrário a competição, o porno, o cinismo e as stock-options, enfim, simplifico mas é necessário simplificar, senão não chegamos a lado nenhum. Os representantes da primeira tendência, cuja derrota já estava antecipadamente programada, retiraram-se pouco a pouco para as reservas naturais, como esta modesta estância naturista onde eu tinha adquirido um apartamento. Mas tinha essa derrota programada, finalmente, acontecido? Alguns fenómenos muito posteriores à morte do general Franco, como o movimento dos indignados, podiam sugerir o contrário. Como podia, mais recentemente, a presença daquelas duas miúdas na estação da Repsol de El Alquián, naquela perturbadora e funesta tarde — seria o feminino do indignado uma indignada? tinha eu estado então na presença de duas encantadoras indignadas? não o saberei nunca, não soube aproximar a minha vida da delas, poderia tê-las convidado a visitar a minha estância naturista, elas ver-se-iam no seu elemento natural, talvez a morena acabasse por partir mas eu teria sido feliz com a de cabelo castanho, enfim, na minha idade as coisas tornam-se um pouco turvas, as promessas de felicidade, mas durante muitas noites depois do encontro sonhei que a de cabelo castanho me tocava à porta. Regressara para me levar consigo, a minha errância neste mundo terminara, ela regressara para salvar num só gesto a minha pila, o meu ser e a minha alma. «E na minha casa, livre e audaciosamente, penetra com mestria.» Em alguns dos sonhos, dizia-me que a sua amiga morena esperava no carro para saber se podia subir e juntar-se a nós; mas esta versão dos sonhos tornou-se cada vez menos frequente, o cenário simplificou-se e, no final, já não havia sequer cenário, imediatamente depois de eu lhe abrir a porta entrávamos num espaço luminoso e impossível de descrever. Estas divagações duraram dois anos e tal — mas não antecipemos.

No imediato, na tarde do dia seguinte, tinha de ir buscar a Yuzu ao aeroporto de Almería. Ela nunca cá viera, mas eu tinha a certeza de que ela ia detestar o sítio. Pelos reformados nórdicos, só tinha desprezo, pelas hippies espanholas, nojo, e nenhuma destas duas categorias (que coabitavam sem grande dificuldade) se encaixava na sua visão elitista da vida social e do mundo em geral, nenhuma destas pessoas tinha qualquer classe, e aliás eu também não tinha qualquer classe, tinha dinheiro, uma quantidade razoável de dinheiro, na sequência de circunstâncias que relatarei talvez quando houver tempo, e uma vez dito isto, tudo quanto no fundo havia para saber sobre a minha relação com a Yuzu ficava dito, devia naturalmente deixá-la, era evidente e jamais nos devíamos ter juntado, só que ainda me faltava algum tempo, muito tempo, para retomar as rédeas da minha vida, como já disse, e na maior parte do tempo era incapaz de o fazer.

Encontrei facilmente um lugar no aeroporto, sendo o parque sobredimensionado, aliás, tudo na região era sobredimensionado, previsto à medida de um êxito turístico colossal que nunca aconteceu.

Há meses que não dormia com a Yuzu e não contava voltar a fazê-lo, sob pretexto algum, por diferentes razões que explicarei sem dúvida mais tarde, no fundo não percebia por que razão tinha organizado estas férias e já estava a pensar, enquanto esperava num banco de plástico nas chegadas, encurtar-lhes a duração — tinha previsto duas semanas, uma semana seria mais do que suficiente, mentiria em relação às minhas obrigações profissionais, acerca disso aquela vaca nada poderia dizer, dependia inteiramente do meu dinheiro, e isso sempre me conferia alguns direitos.

O avião proveniente de Paris-Orly chegaria no horário previsto, e a sala das chegadas, agradavelmente climatizada, estava quase deserta — o turismo afundava-se cada vez mais em Almería. No momento em que o painel electrónico informou que o avião acabara de aterrar, quase me levantei para me dirigir ao parque de estacionamento — ela não fazia ideia da minha morada, não me conseguiria encontrar. Rapidamente voltei a mim: um dia teria de regressar a Paris, nem que fosse por razões profissionais, o meu trabalho no Ministério da Agricultura, no qual tinha aliás praticamente quase tanta vontade de estar como com a minha companheira japonesa, estava de facto a passar um mau momento, há gente que se mata por menos.

Estava, como era hábito, impiedosamente maquilhada, quase uma pintura, o batom escarlate e a sombra violeta sublinhavam a sua tez pálida, a sua pele «de porcelana», como se diz nos romances de Yves Simon, lembrei-me nesse momento que ela nunca se expunha ao sol, pois os japoneses consideram a pele lívida (enfim, uma pele de porcelana, para o dizer nos termos de Yves Simon) o pináculo da distinção, ora que fazer numa estância balnear espanhola se nos recusamos apanhar sol, este projecto de férias era decididamente absurdo, trataria naquela mesma noite de modificar as reservas, uma semana era já demasiado, porque não guardar uns dias na Primavera para ver as cerejeiras em flor em Quioto?

Com a de cabelo castanho, tudo teria sido diferente, ela destapar-se-ia na praia sem ressentimento e sem desdém, como uma obediente menina de Israel, não ficaria incomodada pelos pneus das reformadas gordas alemãs (tal era o destino das mulheres, ela sabia-o, até ao advento de Cristo glorioso), ofereceria ao sol (e aos reformados alemães, que não perderiam pitada) o espectáculo glorioso das suas nádegas perfeitamente redondas, da sua passarinha cândida mas depilada (porque Deus permitiu o adorno) e eu entume­ceria novamente, entumeceria como um mamífero, mas ela não mo chuparia logo ali na praia, tratava-se de uma estância naturista familiar, ela evitaria chocar as reformadas alemãs que faziam posições de hatha yoga na praia ao nascer do Sol, entretanto eu teria sentido que ela me desejava e a minha virilidade seria como que regenerada, mas ela esperaria que estivéssemos dentro de água, a uns cinquenta metros da margem (o declive da praia era muito ligeiro) para oferecer as suas partes húmidas ao meu falo triunfante, e mais tarde jantaríamos um arroz con bogavantes num restaurante de Garrucha, o romantismo e a pornografia não mais estariam apartados, a bondade do Criador ter-se-ia manifestado com força, enfim, os meus pensamentos divergiam mas ainda consegui fingir uma vaga expressão de contentamento ao ver a Yuzu entrar na sala de chegadas no meio de uma horda compacta de mochileiros australianos.

Ensaiámos um beijo, enfim, as nossas bochechas roçaram-se e já era sem dúvida demasiado, ela sentou-se de imediato, abriu o necéssaire (cujo conteúdo era estritamente conforme às normas impostas às bagagens de mão por todas as companhias aéreas) e começou a retocar a maquilhagem sem prestar qualquer atenção ao tapete de distribuição das bagagens — manifestamente, era a mim que calhava albardar com elas.

Conhecia bem as bagagens dela, eram de uma marca célebre de que me tinha esquecido, Zadig et Voltaire ou Pascal et Blaise, o conceito, qualquer que fosse, era a reprodução no tecido de um daqueles mapas renascentistas em que o mundo aparecia representado de uma forma muito aproximada mas com legendas vintage do tipo «Aquy haverá tygres», enfim, eram malas chiques, a sua exclusividade era reforçada por não terem sequer rodinhas, contrariamente às vulgares Samsonite para quadros médios, pelo que era mesmo necessário albardar com elas, tal como as malas das senhoras elegantes da era vitoriana.

Como todos os países da Europa Ocidental, a Espanha, comprometida com um processo mortal de aumento da produtividade, suprimira pouco a pouco os empregos menos qualificados que outrora tinham contribuído para tornar a vida um pouco menos desagradável, condenando de um só golpe a maior parte da população ao d ...