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SEGREDOS OBSCUROS (SEBASTIAN BERGMAN 1)

Hans Rosenfeldt   Michael Hjorth  

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Excerto

CAPÍTULO UM

O HOMEM não era um assassino.

Repetia isso para consigo enquanto arrastava o rapaz morto pela ladeira abaixo: Eu não sou um assassino.

Os assassinos são criminosos. Os assassinos são maus. As suas almas foram engolidas pelas trevas, e eles, por numerosos motivos, acolheram e abraçaram o negrume, viraram as costas à luz. Mas ele não era mau.

Pelo contrário.

Não oferecera recentemente manifestas provas do contrário? Não pusera completamente de parte os seus pensamentos, os seus desejos, e se refreara, tudo em prol do bem-estar dos outros? Tinha oferecido a outra face – fora isso que ele fizera. A sua presença ali – naquele paul no meio de nenhures, com o rapaz morto – não dava provas adicionais de que ele pretendia fazer o que estava certo? De que tinha de fazer o que estava certo? De que jamais o tornariam a apanhar em falta? O homem parou e soltou um longo suspiro. Embora o rapaz não fosse muito crescido, era pesado. Musculoso. Muitas horas passadas no ginásio. Mas já não era preciso andar muito mais. O homem agarrou-o pelas pernas das calças, que outrora haviam sido brancas mas que agora quase pareciam negras no meio da escuridão. O rapaz tinha sangrado profusamente.

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Sim, era errado matar. O quinto mandamento: Não matarás. Mas havia excepções. Na verdade, em muitos pontos da Bíblia se justificava a matança. Havia quem a merecesse. O que era errado podia estar certo. Nada era um dado absoluto.

E se a razão que estava por detrás do assassínio não fosse egoísta? Se a perda de uma vida humana salvasse outras? Lhes desse uma oportunidade? Lhes desse uma vida? Nesse caso, certamente, o acto não poderia ser classificado como maligno. Caso a intenção fosse boa.

O homem deteve-se junto às negras águas da pequena lagoa. Habitualmente, ela tinha vários metros de profundidade, mas as chuvas recentes haviam saturado o solo e agora assemelhava-se mais a um pequeno lago no meio do matagal do paul.

O homem inclinou-se para a frente e agarrou os ombros da camisola do rapaz. Com considerável dificuldade, conseguiu colocar o corpo inerte numa posição quase erecta. Por instantes, fitou os olhos do rapaz. Qual teria sido o seu último pensamento? Teria havido sequer tempo para um último pensamento? Ter-se-ia ele apercebido de que ia morrer? Teria perguntado porquê? Teria pensado em todas as coisas que não conseguira fazer durante a sua curta vida ou nas coisas que efectivamente fizera?

Não importava.

Porque estaria ele a torturar-se desta maneira, mais do que o necessário?

Não tinha escolha.

Não podia desiludi-los.

Outra vez, não.

E, contudo, hesitou. Mas não, eles não compreenderiam. Não perdoariam. Não dariam a outra face, como ele fizera.

Deu um empurrão ao rapaz e o corpo caiu dentro de água com um sonoro chape. O homem sobressaltou-se, por não estar preparado para aquele som no meio da escuridão silenciosa.

O corpo do rapaz afundou-se na água e desapareceu.

O homem que não era um assassino regressou ao seu carro, que estava estacionado no pequeno carreiro florestal, e dirigiu-se para casa.

– Polícia de Västerås, fala Klara Lidman.

– Quero participar o desaparecimento do meu filho.

Pelo tom de voz, a mulher parecia pedir desculpa, como se não tivesse a certeza de ter marcado o número correcto ou como se, na verdade, não esperasse que acreditassem em si. Klara Lidman puxou do seu bloco de notas, apesar de a conversa estar a ser gravada.

– Pode dizer-me o seu nome, por favor?

– Eriksson, Lena Eriksson. O meu filho chama-se Roger. Roger Eriksson.

– E que idade tem o seu filho?

– Dezasseis anos. Não o vejo desde ontem à tarde.

Klara tomou nota da idade e percebeu que teria de participar o caso para que se tomassem medidas imediatas. Caso o rapaz tivesse realmente desaparecido, claro.

– Desde ontem à tarde, a que horas?

– Ele foi-se embora às cinco da tarde.

Vinte e duas horas antes. Vinte e duas horas que eram importantes quando se tratava de um desaparecimento.

– Sabe para onde ele foi?

– Sim, foi ter com a Lisa.

– Quem é a Lisa?

– É a namorada dele. Hoje telefonei-lhe, mas disse-me que ele tinha saído da sua casa por volta das dez da noite.

Klara riscou «vinte e duas» e substituíu-as por «dezassete».

– E onde foi ele a seguir?

– Ela não sabia. Julgou que tivesse vindo para casa. Mas ele não veio para casa. Passou toda a noite fora. E agora o dia já está quase a chegar ao fim.

E só agora é que telefonou, pensou Klara. Ocorreu-lhe que a mulher que estava do outro lado do telefone não parecia particularmente enervada. Parecia antes conformada. Resignada.

– Qual é o apelido da Lisa?

– Hansson.

Klara tomou nota do nome.

– O Roger tem telemóvel? Já tentou ligar-lhe?

– Sim, mas ninguém atende.

– E não tem nenhuma ideia acerca de onde ele poderá ter ido? Terá ficado em casa de algum amigo?

– Não, ter-me-ia telefonado.

Lena Eriksson calou-se por um instante e Klara presumiu que lhe tivesse faltado a voz, mas, quando a ouviu inspirar do outro lado, percebeu que a mulher estava a puxar uma longa baforada de um cigarro. Ouviu Lena soprar o fumo.

– Ele simplesmente desapareceu.

CAPÍTULO DOIS

O SONHO surgia todas as noites.

Não lhe dava descanso.

Sempre o mesmo sonho, que trazia consigo o mesmo medo. Isso irritava-o. Deixava-o louco. Sebastian Bergman era melhor do que aquilo. Mais do que qualquer outra pessoa, ele conhecia o significado dos sonhos; mais do que qualquer outra pessoa, tinha de conseguir elevar-se acima desses febris resquícios do passado. Mas, por mais preparado que estivesse, por mais ciente do verdadeiro significado do sonho, não conseguia evitar deixar-se apanhar por ele. Era como se estivesse tolhido entre o que sabia que o sonho significava e quem ele era e fosse incapaz de se mover entre ambos.

4h43 da manhã.

Lá fora, começava a clarear. Sebastian tinha a boca seca. Teria gritado? Era pouco provável, uma vez que a mulher deitada ao seu lado não despertara. Continuava a respirar serenamente, e ele avistou um seio nu meio encoberto pelos longos cabelos dela. Sebastian endireitou os seus dedos contraídos pelas cãibras sem sequer ter de pensar nisso – estava habituado a acordar com a mão direita completamente contraída após o sonho. Em alternativa, tentou lembrar-se do nome da pessoa que dormia ao seu lado.

Katarina? Karin?

Ela deveria ter-lho dito a certa altura durante a noite.

Kristina? Karolin?

Não que isso importasse verdadeiramente – não tinha qualquer intenção de voltar a vê-la –, mas esquadrinhar a memória ajudava a expulsar os últimos laivos do sonho que se parecia apegar a todos os seus sentidos.

O sonho que o perseguia há mais de cinco anos. O mesmo sonho, as mesmas imagens todas as noites. Todo o seu subconsciente no limite, a remoer a única coisa que ele não conseguia enfrentar durante o dia.

Lidar com a culpa.

Sebastian saiu vagarosamente da cama, reprimiu um bocejo enquanto tirava as suas roupas da cadeira onde as deixara várias horas antes. Enquanto se vestia, foi olhando de forma desinteressada ao redor do quarto: uma cama; dois roupeiros brancos feitos por medida, um deles com uma porta espelhada; uma singela mesa-de-cabeceira branca do IKEA sobre a qual havia um despertador e uma revista; uma pequena mesa onde estava uma fotografia da criança com que ela ficava em semanas alternadas; e mais algumas tralhas ao pé da cadeira de onde ele acabara de tirar as roupas. Umas estampas inclassificáveis nas paredes, que algum agente imobiliário mais habilidoso descrevera, sem dúvida, como sendo «cor de cappuccino», mas que, na realidade, tinham um tom de bege-sujo. O quarto era como o sexo que ele acabara de praticar ali: desprovido de imaginação e ligeiramente aborrecido, mas cumpria a função. Como de costume. Infelizmente, a satisfação não durava muito.

Sebastian fechou os olhos. Este era sempre o momento mais doloroso. A transição para a realidade. A inversão de marcha emocional. Conhecia isso muito bem. Concentrou-se na mulher deitada na cama, em particular no mamilo que estava à mostra. Qual era, afinal, o nome dela?

Sabia que se tinha apresentado quando oferecera as bebidas; fazia sempre isso. Nunca quando perguntava se o lugar ao lado estava livre ou se podia oferecer-lhe uma bebida, o que ela quisesse. Sempre que pousava o copo à frente da mulher.

– Já agora, o meu nome é Sebastian.

E que lhe respondera ela? Qualquer coisa que começava por K – estava razoavelmente convencido disso. Apertou o cinto. A fivela produziu um ténue som de aspereza metálica.

– Vais-te embora? – A voz ensonada dela, os seus olhos a procurarem o relógio.

– Vou.

– Pensei que íamos tomar o pequeno-almoço juntos. Que horas são?

– Quase cinco.

A mulher soergueu-se, apoiando-se num cotovelo. Que idade teria? Talvez uns quarenta? Afastou uma madeixa de cabelo do rosto. O sono estava a desaparecer, dando gradualmente lugar à compreensão de que a manhã que ela tinha imaginado não aconteceria. Não tomariam o pequeno-almoço enquanto liam o jornal e tagarelavam descontraidamente; não haveria um passeio dominical. Ele não queria ficar a conhecê-la melhor, nem lhe telefonaria, independentemente do que lhe dissesse.

Ela sabia tudo isso. Portanto, ele disse-lhe simplesmente:

– Então, adeus.

Sebastian nem tentou arriscar um nome qualquer. Já nem sequer tinha a certeza de que começasse por K.

Lá fora, a rua encontrava-se silenciosa sob a luz do alvorecer. O subúrbio estava adormecido e todos os sons pareciam ocorrer em surdina, como se ninguém quisesse despertá-lo. Até o trânsito da Nynäsvägen[1], que ficava a curta distância, parecia respeitosamente atenuado. Sebastian parou junto ao letreiro da encruzilhada: Varpavägen. Algures na zona de Gubbängen. Bastante longe de casa. O metro já estaria a funcionar a esta hora da manhã? Na noite anterior tinham vindo de táxi. Pararam na loja de conveniência para comprarem pão para torradas; ela lembrara-se de que não tinha nenhum em casa. Porque ele ia ficar para o pequeno-almoço, não era? Tinham comprado pão e sumo, ele e a… Que grandessíssima chatice. Como era o raio do nome dela? Sebastian pôs-se a caminhar ao longo da rua deserta.

Tinha-a ofendido, fosse qual fosse o seu nome.

Daí a catorze horas, iria até Västerås para continuar o seu trabalho. Embora isso fosse diferente: ele já não podia ofender a mulher de Västerås.

Começou a chover.

Mas que manhã tão terrível.

Em Gubbängen.

CAPÍTULO TRÊS

TUDO CORRIA mal. Os sapatos do inspector Thomas Haraldsson deixavam entrar água, o rádio dele não funcionava, e tinha-se perdido do resto da sua equipa de buscas. O sol batia-lhe em cheio no rosto, o que o obrigava a semicerrar os olhos para evitar tropeçar no mato e nas raízes que se espalhavam de forma irregular naquele terreno alagadiço. Praguejou entredentes e olhou para o relógio. Daí a duas horas, Jenny teria o seu intervalo para almoço no hospital. Entraria no carro e iria até casa, esperando que ele lá estivesse. Mas não havia qualquer hipótese. Continuaria ali no meio daquela maldita floresta.

O pé esquerdo de Haraldsson afundou-se no solo. Sentiu a peúga absorver a água fria. O ar tinha o jovem e fugaz calor da Primavera, mas o Inverno mantinha a água presa nas suas gélidas garras. Arrepiou-se e depois conseguiu retirar o pé e encontrar terreno firme.

Olhou à sua volta. O Leste devia ser para aquele lado. Não era lá que estavam os recrutas do Serviço Nacional? Ou os escuteiros? Por outro lado, poderia ter efectuado um círculo completo e perdido totalmente a noção de onde se situava o Norte. Avistou a curta distância uma pequena colina e percebeu que isso significava terreno seco, uma mancha de paraíso naquele inferno encharcado. Começou a deslocar-se nessa direcção. O pé voltou a afundar-se. Desta vez, o direito. Fantástico! Mas que grande merda.

A culpa era da Hanser.

Ele não estaria ali ensopado até meio das pernas se não fosse o facto de a Hanser querer dar a impressão de ser forte e capaz de acções decisivas. E decerto que ela precisava disso, porque no fundo não era uma polícia a sério. Era uma daquelas licenciadas em Direito que entram por cunhas e se apoderam do lugar de chefia sem sujar as mãos – ou, como no caso de Haraldsson, sem molhar os pés.

Não: se fosse Haraldsson que mandasse, isto teria sido tratado de uma maneira muito diferente. Era verdade que o miúdo estava desaparecido desde sexta-feira e que, de acordo com os regulamentos, o procedimento correcto era o de ampliar a área de buscas, sobretudo porque alguém tinha referido «actividades nocturnas» e «luzes na floresta» nas imediações de Listakärr durante esse fim-de-semana específico. Mas Haraldsson sabia, pela experiência, que aquilo era um exercício de futilidade. O miúdo estava em Estocolmo, a rir-se das preocupações da mãe. Tinha dezasseis anos. Isso era o tipo de coisa que a miudagem de dezasseis anos fazia. Rirem-se das mães.

A Hanser.

Quanto mais molhado ficava, mais Haraldsson a odiava. Ela era a pior coisa que alguma vez lhe acontecera. Jovem, atraente, bem-sucedida, política; uma representante da nova e moderna força policial.

Tinha sido assim que entrara. Quando ela havia presidido à sua primeira reunião em Västerås, Haraldsson percebera que a carreira dele tinha travado a fundo. Candidatara-se ao cargo. Quem o obtivera fora ela. Ficaria na chefia durante pelo menos cinco anos. Os cinco anos dele. A escada que conduzia ao topo tinha-lhe sido arrebatada. Em vez disso, a sua carreira começara agora a estagnar. Sentia que era uma mera questão de tempo até entrar em declínio. Era quase simbólico que ele estivesse enfiado até aos joelhos em lama malcheirosa numa floresta a nove quilómetros de Västerås.

A mensagem de texto que recebera nessa manhã dizia ALMOÇO EM CASA HOJE, em letras grandes. Isso significava que Jenny iria a casa durante a hora de almoço para fazer sexo com ele e que depois fariam sexo mais uma ou duas vezes durante o serão. Hoje em dia, as suas vidas eram assim. Jenny andava a receber tratamento para a sua incapacidade de conceber um filho e tinha organizado, em conjunto com o médico, um horário que supostamente melhoraria as possibilidades de engravidar. Hoje era um dos tais dias óptimos. Daí a mensagem de texto. Haraldsson tinha sentimentos díspares. Por um lado, apreciava o facto de a vida sexual deles ter ultimamente aumentado várias centenas por cento. De Jenny estar sempre a querê-lo. Ao mesmo tempo, não conseguia escapar à sensação de que aquilo que ela queria não era exactamente ele: era o seu esperma. Se não andasse tão desesperada por uma criança, nunca lhe teria ocorrido ir a casa durante a hora de almoço para uma rapidinha. Havia em tudo aquilo algo que se assemelhava à criação de cavalos. Logo que o óvulo iniciava a viagem em direcção ao útero, punham-se a fornicar como os coelhos. E, para ser franco, noutras ocasiões também, só por segurança. Mas hoje em dia nunca por prazer, nunca pela intimidade. O que acontecera à paixão? Ao desejo? E agora ela iria a casa durante a hora de almoço e não encontraria lá ninguém. Talvez devesse ter-lhe telefonado a perguntar se deveria masturbar-se antes de sair de casa e deixar aquilo dentro de um boião no frigorífico. Infelizmente, não tinha a certeza absoluta de que Jenny achasse a ideia assim tão má.

Tudo começara no sábado anterior.

Por volta das 15h00, uma chamada fora reencaminhada para a polícia de Västerås através do número de emergência. Uma mãe participara o desaparecimento do seu filho de dezasseis anos. Como a queixa envolvia um menor, tinha-lhe sido dada máxima prioridade. Completamente de acordo com os regulamentos.

Infelizmente, o relatório prioritário tinha ficado por ali até domingo, quando se pedira a uma patrulha que lhe desse seguimento. Isso resultara na visita de dois agentes uniformizados à mãe do rapaz por volta das 16h00. Os agentes voltaram a tomar nota dos pormenores e o relatório fora entregue quando saíram de serviço, ao fim dessa noite. Até então, nenhuma acção fora levada a cabo, para além do facto de existirem dois relatórios idênticos acerca do mesmo desaparecimento. Ambos marcados como PRIORIDADE MÁXIMA.

Só na manhã de segunda-feira, quando Roger Eriksson já estava desaparecido há cinquenta e oito horas, é que o oficial de serviço reparou que não fora tomada qualquer medida. Lamentavelmente, uma reunião sindical por causa das propostas da Administração da Polícia Nacional a respeito dos novos uniformes tinha demorado um tempo considerável, e só na segunda-feira depois de almoço é que o caso fora passado a Haraldsson. Quando ele vira a data do relatório, agradecera às suas boas estrelas por a patrulha ter ido visitar Lena Eriksson no domingo à tarde. Ela não precisava de saber que só tinham escrito mais um relatório. Não, a investigação fora iniciada no domingo, mas ainda não produzira quaisquer resultados. Era nessa versão que Haraldsson tencionava concentrar-se.

Haraldsson percebeu que necessitaria de alguma informação nova antes de ir falar com Lena Eriksson, por isso tentara telefonar a Lisa Hansson, a namorada de Roger, mas ela ainda estava nas aulas.

Fora verificar se Lena e Roger tinham cadastro oficial nos registos policiais. Havia alguns incidentes de furtos em lojas que envolviam Roger, mas o mais recente fora há cerca de um ano e era difícil estabelecer uma ligação com o desaparecimento. Sobre a mãe, nada.

Haraldsson telefonou para as autoridades locais e descobriu que Roger frequentava o Liceu Palmlövska.

Isso não é bom, pensara ele.

O Palmlövska era uma escola de preparação para a universidade que também aceitava alunos internos e estava classificada entre as melhores do país no que dizia respeito aos resultados nos exames. Os seus alunos eram dotados e altamente motivados e tinham pais ricos. Famílias com contactos. Haveriam de procurar um bode expiatório ao qual atribuíssem a culpa pelo facto de a investigação não ter sido iniciada de imediato, e não parecia nada bom que, ao terceiro dia, a polícia ainda não tivesse feito quaisquer progressos. Haraldsson decidira adiar tudo o resto. A sua carreira já chegara a um impasse e seria pouco sensato correr riscos.

Por isso, Haraldsson trabalhara arduamente nessa tarde. Fora visitar a escola. Tanto Ragnar Groth, o reitor, como Beatrice Strand, a directora da turma de Roger, exprimiram grande preocupação e perplexidade ao ouvirem dizer que Roger estava desaparecido, mas tinham sido incapazes de o ajudar. Em todo o caso, não acontecera nada de que eles tivessem conhecimento. Roger tinha-se comportado de uma maneira perfeitamente normal, frequentara a escola como de costume, na tarde de sexta-feira tivera um importante exame de Sueco, e, segundo os seus colegas, depois disso ficara bem-disposto.

Haraldsson, porém, tinha ido falar com Lisa Hansson, a última pessoa que vira Roger na tarde de sexta-feira. Frequentava o mesmo ano, e Haraldsson pedira a alguém que lha indicasse na cafetaria da escola. Era uma rapariga bonita, mas bastante vulgar. Cabelo louro escorrido, a franja presa para trás com uma simples mola de cabelo. Olhos azuis, sem maquilhagem. Uma camisa branca abotoada quase até acima, por baixo de um colete. Quando se sentara diante dela, Haraldsson pensara imediatamente na Igreja Livre. Ou na rapariga da série A Pedra Branca, que passara na televisão quando ele era novo. Perguntou-lhe se queria comer ou beber alguma coisa. Ela abanou a cabeça.

– Fale-me de sexta-feira, quando o Roger esteve em sua casa.

Lisa olhou para ele e encolheu os ombros.

– Chegou por volta das cinco e meia, estivemos sentados no meu quarto a ver televisão, e ele foi para casa por volta das dez. Bom, pelo menos, disse que ia para casa…

Haraldsson acenou com a cabeça em sinal de assentimento. Quatro horas e meia dentro do quarto dela. Dois miúdos de dezasseis anos. A ver televisão. Boa tentativa. Ou talvez ele estivesse simplesmente corroído pela vida que levava! Há quanto tempo é que ele e Jenny não passavam um serão a ver televisão? Sem uma rapidinha durante os anúncios? Meses.

– Então não aconteceu mais nada? Vocês não discutiram, não se zangaram nem nada disso?

Lisa abanou a cabeça. Roeu a unha quase inexistente do polegar. Haraldsson reparou que a cutícula estava infectada.

– Ele já tinha desaparecido desta maneira anteriormente?

Lisa tornou a abanar a cabeça.

– Que eu saiba, não, mas nós não estamos juntos há muito tempo. Não falou com a mãe dele? – Por um instante, Haraldsson julgou que ela estivesse a acusá-lo, mas depois percebeu que, evidentemente, não era esse o caso. A culpa era da Hanser. Ela levara-o a duvidar das suas próprias capacidades.

– Os meus colegas conversaram com ela, mas nós precisamos de falar com toda a gente. Para obtermos uma ideia geral. – Haraldsson pigarreou. – Como são as coisas entre o Roger e a mãe? Alguns problemas?

Lisa encolheu os ombros mais uma vez. Ocorreu a Haraldsson que o repertório dela devia ser um pouco limitado. Abanar a cabeça e encolher os ombros.

– Eles discutiam?

– Acho que sim. Às vezes. Ela não gostava da escola.

– Desta escola?

Lisa respondeu que sim com a cabeça.

– Ela achava a escola muito emproada.

E olha que nisso não se enganou, pensou Haraldsson.

– O pai do Roger vive cá?

– Não. Não sei onde vive. Nem tenho a certeza de que o Roger saiba. Nunca fala dele.

Interessante. Haraldsson tomou nota. Talvez o filho se tivesse ido embora para procurar as suas origens. Para confrontar um pai ausente. Escondendo isso da mãe. Já tinham acontecido coisas mais estranhas.

– O que acha que lhe aconteceu?

O fio dos pensamentos de Haraldsson foi interrompido. Olhou para Lisa e percebeu pela primeira vez que ela estava à beira das lágrimas.

– Não sei – respondeu. – Mas creio que ele há-de aparecer. Talvez tenha ido uns tempos para Estocolmo. Uma pequena aventura. Uma coisa dessas.

– Porque faria isso?

Haraldsson olhou para a expressão interrogativa da jovem. Para a unha roída e sem verniz numa boca sem batom. Provavelmente, não, a Menina Igreja Livre não compreenderia porquê, mas Haraldsson estava a ficar cada vez mais convencido de que este desaparecimento era, na verdade, o caso de um rapaz que fugira de casa.

– Às vezes há coisas que na ocasião parecem ser uma boa ideia. Tenho a certeza de que ele há-de aparecer. – Haraldsson ofereceu a Lisa um sorriso reconfortante, mas, pela expressão dela, percebeu que isso não dera resultado. – Prometo – acrescentou.

Antes de ir embora, Haraldsson pediu a Lisa que lhe fizesse uma lista dos amigos de Roger e das pessoas com quem convivia. Lisa ficou sentada a pensar durante bastante tempo, depois escrevinhou qualquer coisa e entregou-lhe a folha de papel. Dois nomes: Johan Strand e Erik Heverin. Um rapaz solitário, pensou Haraldsson. Os rapazes solitários fogem de casa.

Quando entrou no carro nessa tarde de segunda-feira, Thomas Haraldsson sentia-se, apesar de tudo, muito satisfeito com o dia. Manifestamente, a conversa com Johan Strand não trouxera qualquer novidade. A última vez que Johan vira Roger fora no final das aulas de sexta-feira. Tanto quanto sabia, Roger passaria depois por casa de Lisa. Não fazia ideia sobre onde poderia Roger ter ido a seguir. Erik Heverin tinha-se ausentado da escola por um período prolongado. Seis meses na Florida. Já partira há sete semanas. A mãe do rapaz aceitara um cargo de consultora nos Estados Unidos e toda a família fora com ela. Para alguns a vida não corre mal, pensou Haraldsson, tentando lembrar-se dos locais exóticos onde a sua profissão o levara. Aquele seminário em Riga foi a única coisa que lhe veio à cabeça, mas durante a maior parte do tempo estivera doente devido a uma intoxicação alimentar e a sua recordação predominante era a de ter ficado a olhar para um balde de plástico azul enquanto os colegas se divertiam à força toda.

Apesar disso, Haraldsson estava razoavelmente satisfeito. Seguira diversas pistas e, o que era mais importante, descobrira um possível conflito entre a mãe e o filho, o que indicava que dentro em pouco este caso deixaria de ser um assunto policial. A mãe não tinha usado a expressão «foi-se embora» quando lhes telefonara? De facto, tinha. Haraldsson lembrava-se de ter reagido a isso quando ouvira a gravação. O filho dela não «fugira» nem «desaparecera» – tinha «ido embora». Isso não sugeria que ele saíra de casa zangado? Uma porta que bateu, uma mãe levemente resignada. Haraldsson estava a ficar cada vez mais convencido: o rapaz estava em Estocolmo, a expandir os seus horizontes.

No entanto, só para jogar pelo seguro, achara que poderia passar por casa de Lisa e ir bater a algumas portas. A ideia era dar nas vistas, assegurar-se de que algumas pessoas o reconhecessem no caso de alguém começar a pensar como corria a investigação. Com um pouco de sorte, até poderia haver alguém que tivesse visto Roger encaminhar-se para o centro da cidade e para a estação. A seguir iria visitar a mãe dele, exercer alguma pressão para averiguar até que ponto eles, na verdade, discutiam. Bom plano, pensou, e pôs o carro em marcha.

O seu telemóvel tocou. Uma rápida olhadela ao ecrã causou-lhe um ligeiro calafrio na espinha. Era a Hanser.

– Mas que raio quer ela agora? – murmurou Haraldsson, desligando o motor. Deveria ignorar a chamada? Era uma tentação, mas talvez o rapaz já tivesse regressado. Talvez fosse isso que Hanser lhe queria dizer. Que Haraldsson sempre tivera razão. Atendeu o telefonema.

A conversa durou apenas dezoito segundos e consistiu em sete palavras por parte de Hanser.

– Onde estás tu?– Foram as três primeiras.

– No carro – respondeu Haraldsson sem faltar à verdade. – Estive na escola do rapaz a falar com alguns dos professores e com a namorada dele.

Para seu imenso desgosto, Haraldsson percebeu que estava a adoptar uma posição defensiva. A sua voz tornara-se um pouco submissa. Um pouco mais esganiçada do que era habitual. Por amor de Deus, ele tinha feito absolutamente tudo o que devia.

– Volta já para cá.

Haraldsson estava prestes a explicar-lhe onde ia e a perguntar-lhe o que havia de tão importante, mas não teve tempo para dizer nada antes de Hanser terminar o telefonema. A maldita Hanser. Pôs o carro em marcha, deu meia-volta e regressou de novo à esquadra.

Hanser foi ter com ele. Aqueles olhos gélidos. Aqueles cabelos louros que caíam com uma perfeição ligeiramente excessiva. Aquele fato que lhe assentava tão bem, sem dúvida dispendioso. Tinha acabado de receber um telefonema de uma enervada Lena Eriksson, que queria saber o que estava a acontecer, e agora era ela que fazia a mesma pergunta: O que estava a acontecer, ao certo?

Haraldsson relatou rapidamente as actividades da tarde e conseguiu mencionar, nada menos de quatro vezes, que só lhe tinham entregue o caso nesse dia depois do almoço. Se ela queria implicar com alguém, devia começar pela equipa que estivera de serviço no fim-de-semana.

– É isso que vou fazer – disse Hanser calmamente. – Porque é que não me informaste se sabias que não tinham tratado disso? É exactamente o tipo de coisa que eu preciso de saber.

Haraldsson estava ciente de que as coisas não estavam a correr como pretendia. Tentou defender-se.

– Este tipo de coisas acontecem. Por amor de Deus, eu não posso vir a correr ter contigo sempre que há algum problema. Quero dizer, tu tens coisas mais importantes em que pensar.

– Mais importantes do que garantir que começamos imediatamente a procurar uma criança desaparecida? – Ela fitou-o com uma expressão interrogadora. Haraldsson deixou-se ficar calado. Isto não estava a correr como planeara. Nem um pouco.

Isso tinha sido na segunda-feira. Agora estava ali, em Listakärr, com as peúgas todas ensopadas. A Hanser tinha carregado em força, montara inquéritos porta a porta e equipas de buscas que todos os dias eram aumentadas. Até agora, sem sucesso. No dia anterior, na esquadra, Haraldsson cruzara-se com o superintendente-chefe local e indicara-lhe casualmente que isto não sairia barato. Uma quantidade significativa de agentes a cumprirem horas extraordinárias, à procura de um miúdo que andava a divertir-se na cidade grande. Haraldsson não conseguira interpretar com precisão a reacção do oficial superior, mas, quando Roger voltasse da sua pequena excursão, o chefe haveria de lembrar-se do que Haraldsson lhe dissera. Veria quanto dinheiro a Hanser gastara. Haraldsson sorriu ao pensar nisso. Uma coisa eram os procedimentos; a intuição de um detective era algo completamente diferente. Era algo que não podia ensinar-se.

Haraldsson parou. A meio caminho do outeiro. Um dos seus pés ficara de novo atolado. Desta vez até ao fundo. Puxou-o para fora. Sem sapato. Só teve tempo de ver a lama fechar-se avidamente em torno do seu número 42 enquanto a peúga do pé esquerdo se ensopava ainda mais em água fria.

Basta.

Já chegava.

Fora a última gota.

Ajoelhado, com as mãos na lama, tirou o sapato. E a seguir ia para casa. Os outros podiam continuar a correr por ali com as suas malditas equipas de busca. Ele tinha de ir engravidar a mulher.

Uma viagem de táxi e 380 coroas mais tarde, Sebastian estava à porta do seu apartamento na Grev Magnigatan, em Östermalm[2]. Há muito tempo que tencionava livrar-se dele – o local era dispendioso e luxuoso, perfeitamente adequado a um autor e conferencista bem-sucedido, com um currículo académico e uma vasta rede de contactos sociais. Todas as coisas que ele já não era e que já não tinha. Mas como a própria ideia de desimpedir o local, de embalar e separar tudo o que acumulara ao longo dos anos, era simplesmente excessiva para si, optara, em vez disso, por fechar grandes áreas do apartamento, usando apenas a cozinha, o quarto de hóspedes e a casa de banho mais pequena. O resto podia continuar sem ser usado. À espera de… bom, de uma coisa ou outra.

Sebastian passou os olhos pela sua cama permanentemente por fazer mas decidiu ir tomar um duche. Um duche demorado e quente. A intimidade da noite anterior desaparecera. Teria sido errado sair de lá à pressa daquela maneira? Poderia ela oferecer-lhe alguma coisa se ele tivesse ficado mais algumas horas? Sem dúvida, teria havido mais sexo. E pequeno-almoço. Torradas e sumo. E a seguir? A despedida definitiva era inevitável. Aquilo nunca poderia terminar de outra maneira. Por isso, o melhor era não se porem a inventar coisas. Ainda assim… Sentia a falta daquele interlúdio de companhia que o animara durante algum tempo. Já se sentia novamente pesado e vazio.

Quanto tempo dormira ele na noite anterior? Duas horas? Duas horas e meia? Olhou-se ao espelho. Os seus olhos pareciam mais cansados do que era habitual e percebeu que dentro em pouco teria de fazer alguma coisa a respeito do cabelo. Talvez cortá-lo muito curto desta vez. Não, isso fá-lo-ia lembrar-se demasiado de como fora anteriormente. E anteriormente não era agora. Não, mas podia aparar a barba, arranjar o cabelo, talvez até fazer umas madeixas. Sorriu para consigo, o seu mais encantador sorriso. É inacreditável, mas continua a dar resultado, pensou ele.

De súbito, Sebastian sentiu-se imensamente cansado. A inversão de marcha estava feita. O vazio regressara. Olhou para o relógio. Afinal, talvez devesse ir deitar-se um bocado. Sabia que o sonho haveria de regressar, mas agora estava demasiado cansado para se preocupar com isso. Conhecia tão bem esse seu companheiro que, por vezes, nas poucas ocasiões em que dormia sem ser acordado por ele, acabava por sentir a sua falta.

Ao princípio não fora assim. Quando o sonho o atormentara durante meses, Sebastian ficara muito farto da caminhada constante, farto da dança sem fim ao redor do medo e farto da dificuldade em respirar. Começara a beber uns bons copos antes de se ir deitar. A principal maneira de resolver problemas para os homens brancos de meia-idade que tinham currículos académicos e vidas emocionais complicadas. Durante algum tempo, conseguira evitar completamente o sonho durante o sono, mas o seu subconsciente encontrara com demasiada rapidez uma maneira de ultrapassar a barreira do álcool, pelo que as bebidas nocturnas se tornaram maiores e passaram a ser consumidas cada vez mais durante a tarde para atingir o efeito pretendido. Por fim, Sebastian percebera que tinha perdido a batalha. Desistira de imediato.

Pensara que, em vez disso, viveria com a dor.

Deixá-la demorar o tempo que fosse preciso.

Sarar.

Isso também não funcionara. Após mais um período em que despertava repetidamente, começara a automedicar-se. Uma coisa que ele prometera a si mesmo nunca fazer. Mas nem sempre era possível manter as promessas – Sebastian sabia isso melhor do que a maioria, devido à sua própria experiência –, sobretudo quando somos confrontados com problemas realmente grandes. Quando isso acontece, tem de se ser mais flexível. Telefonara a alguns dos seus antigos doentes menos escrupulosos e limpara o pó ao bloco de receitas. O negócio era simples: metade para cada um.

As autoridades, claro, entraram em contacto com ele fazendo-lhe perguntas sobre a quantidade de medicamentos que começava subitamente a receitar. Sebastian conseguira justificar-se com umas mentiras bem urdidas acerca de ter «retomado as suas consultas» e de uma «intensa fase introdutória» com «doentes num estado de fluxo», embora tivesse, de facto, aumentado o número de doentes para não se tornar tão óbvio o que andava a fazer.

Para começar, limitou-se sobretudo ao Propavan, Prozac e Di-Gesic, mas os efeitos eram irritantemente pouco duradouros, e pusera-se a investigar o Dolcontin e outras substâncias baseadas na morfina.

Afinal, a autoridade médica era o menor dos seus problemas. Ele conseguia lidar com isso. Os efeitos da sua experiência eram uma outra questão. O sonho tinha desaparecido, sem dúvida. Mas também o seu apetite, a maior parte das suas palestras e a sua libido – uma experiência inteiramente nova e aterrorizante para Sebastian.

O pior de tudo, porém, era a sonolência crónica. Era como se já não conseguisse ter pensamentos completos: eram-lhe arrebatados a meio do caminho. Conseguia conduzir uma simples conversa quotidiana, com uma certa dose de esforço, mas uma discussão ou um debate mais longo estavam completamente fora do seu alcance. Quanto a análises e conclusões – nenhuma hipótese.

Para Sebastian, cuja existência fora inteiramente baseada na consciência do seu intelecto, na sua auto-imagem, na ilusão da acutilância do seu espírito, isso foi terrível. Viver uma vida anestesiada – sim, aquilo entorpecia a dor, mas amortecia muito mais coisas: a vida propriamente dita, ao ponto de ele já não conseguir encontrar-lhe nexo. Foi aí que definiu a fronteira. Sabia que tinha de efectuar uma escolha: viver com medo mas conservar a capacidade de pensar ou optar por uma vida monótona, embotada, com pensamentos semiformados. Compreendeu que provavelmente detestaria a sua existência em qualquer dos casos, pelo que optou pelo medo e parou logo com a automedicação.

Desde então não voltara a tocar em álcool nem em medicamentos.

Nem sequer tomava um analgésico quando lhe doía a cabeça.

Mas sonhava.

Todas as noites.

Porque estaria a pensar nisto?, matutou ele enquanto se contemplava ao espelho da casa de banho. Porquê agora? Há muitos anos que aquele sonho fazia parte da sua vida. Estudara-o, analisara-o. Discutira-o com o seu terapeuta. Aceitara-o. Aprendera a viver com ele.

Portanto, porquê agora?

É Västerås, pensou enquanto pendurava a toalha e saía da casa de banho completamente nu. É tudo por causa de Västerås.

De Västerås e da sua mãe. Mas hoje ele encerraria esse capítulo da sua vida.

Para sempre.

O dia de hoje poderia ser bom.

Aquele era o melhor dia que Joakim tinha desde há imenso tempo, ali, na floresta dos arrabaldes de Listakärr, e tornara-se ainda melhor quando ele fora um dos três escolhidos para receber ordens directas do agente policial que viera dizer-lhes onde deveriam ir e o que fazer. Habitualmente, as actividades dos escuteiros eram muito aborrecidas, mas de repente aquilo transformara-se numa verdadeira aventura. Joakim olhou de soslaio para o agente que estava diante de si, em especial para a arma, e decidiu que um dia havia de ser polícia. Um uniforme e uma arma. Tal como nos escuteiros, mas com sérios melhoramentos. E Deus sabia como isso era necessário. Para ser honesto, Joakim não pensava que pertencer aos escuteiros fosse a coisa mais interessante do mundo. Já não. Tinha acabado de fazer catorze anos e a actividade extracurricular, que tinha sido o seu passatempo desde os seis, começara a perder o fascínio. O feitiço quebrara-se. A vida ao ar livre, a sobrevivência, os animais, a Natureza. Não era que ele achasse que aquilo não tinha graça, mesmo que todos os rapazes da sua turma pensassem isso. Não – ele sentia apenas que já superara essa fase. Obrigado, tinha sido bom enquanto durara, mas agora era tempo para outra coisa qualquer. Alguma coisa real.

Talvez Tommy, o líder deles, pensasse o mesmo.

Talvez fosse por isso que ele tinha ido ter com a polícia e os soldados e lhes perguntara o que se passava quando tinham chegado a Listakärr.

Talvez fosse por isso que lhes oferecera os seus préstimos e os do grupo.

Fosse qual fosse a razão, o agente policial – cujo nome era Haraldsson – tinha pensado no assunto e, após alguma hesitação, chegara à conclusão de que não faria mal nenhum dispor de mais nove pares de olhos na floresta. Até podiam ficar com um pequeno sector para procederem às buscas. O agente policial pedira a Tommy para os dividir em grupos de três, para escolher um líder de cada grupo e para dizer aos líderes que lhe fossem pedir instruções. Joakim sentira-se como se tivesse ganhado a lotaria. Tinha ficado num grupo com Emma e Alice, as raparigas mais bonitas do agrupamento. E fora escolhido para líder.

Joakim regressou para junto das raparigas, que o aguardavam. Haraldsson mostrara-se muito brusco, como os detectives dos filmes de Martin Beck[3]. Joakim sentia-se deveras importante. Já conseguia imaginar a maneira como decorreria o resto do seu fantástico dia. Haveria de encontrar o rapaz desaparecido seriamente magoado. O rapaz levantaria os olhos para Joakim com aquela expressão suplicante que só os moribundos conseguem alcançar; estaria demasiado fraco para falar, mas os seus olhos diriam tudo. Joakim pegaria nele e carregá-lo-ia até junto dos outros, tal como nos filmes. Os outros haveriam de avistá-lo, sorrir-lhe, aplaudi-lo, incitá-lo, e no fim tudo acabaria por se resolver.

Regressado ao grupo, Joakim organizou a sua equipa de maneira a ficar com Emma à sua esquerda e Alice do outro lado. Haraldsson dera ordens rigorosas para que mantivessem a corrente unida, e Joakim fitou as raparigas e disse-lhes, muito sério, como era importante que se mantivessem juntos. Estava na hora de assumirem as suas responsabilidades. Após o que pareceu ser uma eternidade, Haraldsson fez-lhes sinal, e a equipa de buscas começou finalmente a mover-se.

Joakim depressa notou que era muito difícil manter uma corrente unida, embora esta consistisse em apenas três grupos de três pessoas cada um. Sobretudo quando penetraram mais na floresta e o paul os forçou a fazer desvios em relação à rota traçada, uma e outra vez. Um dos grupos descobriu que lhe era difícil manter o ritmo; o outro não abrandou e não tardou a desaparecer entre os outeiros. Tal como Haraldsson dissera. Joakim ficou ainda mais impressionado com ele. Parecia saber tudo. Joakim sorriu para as raparigas e fê-las repetir as últimas palavras de Haraldsson.

– Se encontrarem alguma coisa, gritem «Achei!».

Emma disse-lhe que sim com a cabeça, mostrando-se entediada.

– Já nos disseste isso mil vezes.

Joakim não se deixou desmoralizar pela resposta dela. Continuou a avançar com o sol a bater-lhe nos olhos, tentando manter a distância e o alinhamento, embora isso se fosse tornando cada vez mais difícil. E já não conseguia avistar o grupo de Lasse, que ainda há pouco estava ligeiramente à esquerda deles.

Ao fim de meia hora, Emma quis descansar. Joakim tentou fazê-la compreender que não podiam simplesmente parar. Acabariam por ficar para trás e perder-se dos outros.

– Quais outros? – disse Alice, sorrindo com malícia.

Joakim percebeu que já não viam os outros há algum tempo.

– Pelo som, parece que estão atrás de nós.

Calaram-se, escutaram com mais atenção. Uns sons ténues à distância. Alguém gritava.

– Não, vamos continuar – disse Joakim, embora soubesse no seu íntimo que Alice talvez tivesse razão. Tinham-se deslocado com demasiada rapidez. Ou na direcção errada.

– Nesse caso, vais sozinho – respondeu Emma, com uma expressão furiosa. Por segundos, Joakim sentiu que perdia o controlo sobre a equipa e que Emma estava a escapar-lhe por entre os dedos. E ela até lhe tinha lançado um olhar apreciativo durante a última meia hora. De repente, Joakim estava alagado em suor, e não era apenas por a sua roupa interior ser demasiado quente. Tinha andado a orientá-las para a impressionar, seria que ela não conseguia perceber isso? E agora Emma comportarva-se como se tudo fosse culpa dele.

– Tens fome? – perguntou Alice, interrompendo o fio dos pensamentos de Joakim. Tirara da sua mochila um pacote com comida.

– Não – respondeu ele um pouco depressa de mais, antes de perceber que, de facto, sentia fome. Afastou-se delas e trepou a um outeiro de modo que parecesse que tinha um plano. Emma aceitou com gratidão uma bolacha mole, ignorando completamente as tentativas de Joakim para se mostrar importante. Joakim decidiu que precisava de mudar a sua linha de acção. Respirou fundo, permitindo que o ar fresco da floresta lhe enchesse os pulmões. O céu enublara-se, o Sol desaparecera e, com este, a promessa de um dia perfeito. Regressou para junto das raparigas, decidido a amaciar o seu tom de voz.

– Por acaso até me apetecia uma sanduíche, se ainda tiveres alguma – disse ele, o mais amavelmente que conseguiu.

– Claro – respondeu Alice, sacando de um embrulho que lhe entregou. Sorriu-lhe, e Joakim percebeu que esta estratégia era melhor.

– Gostava de saber onde estamos – disse Emma, tirando do bolso um pequeno mapa. Reuniram-se em redor dele, tentando distinguir onde estavam. Era bastante difícil: o terreno não tinha propriamente características marcantes, somente outeiros, floresta e um terreno alagadiço que cedia a cada passo. Mas, afinal, eles sabiam onde tinham iniciado o percurso e em que direcção se haviam deslocado.

– Temos vindo sempre a andar para norte, portanto devemos estar nesta área – sugeriu Emma. Joakim assentiu; ficara impressionado. Emma era esperta.

– Continuamos ou esperamos pelos outros? – perguntou Alice.

– Eu acho que devíamos continuar – respondeu Joakim rapidamente, acrescentando depois: – A menos que vocês queiram esperar.

Olhou para as raparigas: Emma com os seus brilhantes olhos azuis e o rosto macio, Alice com as feições um pouco mais angulosas. Eram ambas lindíssimas, pensou ele, desejando subitamente que elas lhe sugerissem ficar à espera dos outros. E os outros haveriam de demorar muito, muito tempo a chegar.

– Eu acho que podíamos continuar. Se estamos aqui, também já não estamos muito longe do sítio onde ficámos de nos encontrar – disse Emma, apontando para o mapa.

– Sim, mas tens razão, os outros estão atrás de nós, por isso talvez devêssemos esperar por eles – sugeriu Joakim.

– Julguei que querias ser o primeiro a chegar. Quero dizer, saíste de lá como se estivesses cheio de pressa – disse Alice. As raparigas riram-se, e Joakim percebeu que era bom rir-se juntamente com raparigas bonitas. Deu uma pequena cotovelada a Alice, por brincadeira.

– Tu também não te deixaste ficar para trás.

Começaram a correr uns atrás dos outros. Primeiro, ao acaso, por entre as lagoas, e depois, quando Emma tropeçou e caiu numa delas, o objectivo passou a ser molharem-se uns aos outros o máximo possível. Foi um excelente interlúdio naquela busca algo enfadonha, e era mesmo disso que Joakim estava a precisar. Correu atrás de Emma e agarrou-lhe o braço por breves instantes. Ela esbracejou e libertou-se e tentou fugir dele a correr, mas ficou com o pé esquerdo preso numa protuberante raiz de árvore e perdeu o equilíbrio. Por um instante, pareceu que ela conseguiria manter-se em pé, mas a área em torno da lagoa estava escorregadia por causa da lama e ela caiu lá dentro, ficando com água pela cintura.

Joakim riu-se, mas Emma estava a gritar. Ele calou-se e foi para junto dela. A rapariga gritou mais alto ainda. Que estranho, pensou Joakim. Não era, certamente, caso para tanto. Era só um bocadinho de água. Depois avistou o corpo pálido a uma curta distância de Emma. Era como se estivesse deitado abaixo da superfície, à espera da sua vítima. Foi o fim da sua brincadeira infantil. Não restou nada a não ser vertigem e um pânico cego. Emma vomitou; Alice começou a soluçar. Joakim ficou imobilizado no tempo, contemplando a imagem que ficaria consigo para o resto da vida.

Haraldsson estava na cama, a dormitar. Jenny encontrava-se deitada ao seu lado, com as solas dos pés apoiadas sobre o colchão, uma almofada por baixo do traseiro. Não quisera demorar as coisas.

– É melhor despacharmos isto, para depois podermos fazer outra vez antes de eu ter de voltar para o trabalho.

Despachar isto. Haverá coisa menos estimulante nalguma língua? Haraldsson duvidava. Mas pronto, tinham despachado aquilo e Haraldsson estava a dormitar. Alguém, algures, ouvia os Abba. «Trrim-trrim.»

– É o teu telefone. – Jenny deu-lhe uma cotovelada. Haraldsson acordou, muito ciente de que não deveria estar na cama com a sua mulher. Pegou nas calças que estavam no chão e tirou de lá o telemóvel. Era a Hanser. Obviamente. Respirou fundo e atendeu.

Quatro palavras desta vez.

– Onde raio estás tu?

Hanser desligou a chamada furiosamente. Torceu um tornozelo. Nem por sombras. O que lhe apetecia era ir até ao hospital, ou pelo menos enviar lá um carro, só para provar que aquele sacana lhe estava a mentir. Mas não tinha tempo. De repente, era responsável por uma investigação de homicídio. O facto de o responsável pela equipa que andava a trabalhar em Listakärr não ter estado no local não era lá grande ajuda, nem tão-pouco o facto de ele ter concordado em integrar escuteiros menores de idade na equipa de buscas. Menores para os quais ela teria agora de arranjar assistência, já que um deles caíra dentro de uma lagoa e fizera subir um cadáver à tona quando se levantara.

Hanser abanou a cabeça. Tudo o que se relacionava com este desaparecimento tinha corrido mal. Tudo. Não podia haver mais erros. Daqui em diante, tinham de começar a fazer bem as coisas. A ser profissionais. Olhou para o telefone, que continuava na sua mão. Acabara de ter uma ideia. Era um grande passo, sem dúvida. Demasiado cedo, pensaria muita gente. Aquilo poderia vir a minar a sua liderança. Mas há muito que ela tinha prometido a si mesma que jamais recearia as decisões desconfortáveis. Havia demasiado em jogo.

Tinha morrido um rapaz.

Assassinado.

Era tempo de trabalhar com os melhores.

– Tens aqui uma chamada para ti – disse Vanja, enfiando a cabeça pela porta de Torkel Höglund. O gabinete dele, como a maior parte das suas coisas, era despojado e simples. Nada de espalhafatoso, nada de dispendioso, quase nada de pessoal sequer. Com o seu mobiliário trazido de um qualquer armazém, a sala dava a impressão de estar ocupada por um mestre-escola de uma pequena vila sem grandes meios, e não por um dos principais chefes da polícia da Suécia. Alguns dos colegas dele achavam estranho que a pessoa responsável pela unidade nacional de homicídios, conhecida por Riksmord, não tivesse qualquer desejo de mostrar ao mundo o nível a que chegara. Outros interpretavam isso de forma diferente, concluindo que o sucesso não lhe subira à cabeça. A verdade era mais simples: Torkel nunca tivera tempo. O seu trabalho era exigente; andava sempre a viajar pelo país e não era o tipo de homem que pretendesse passar o seu tempo livre a embelezar um gabinete que raramente usava.

– É de Västerås – disse Vanja, sentando-se à frente dele. – O rapaz de dezasseis anos que foi assassinado.

Torkel esperou que Vanja se acomodasse. Era evidente que ele não queria atender esta chamada em privado. Fez um sinal de assentimento com a cabeça e pegou no telefone. Desde o seu segundo divórcio, parecia-lhe que os telefonemas só tinham por tema a morte súbita. Há mais de três anos que ninguém lhe perguntava se chegaria a casa a horas de jantar, ou qualquer coisa tão gloriosamente mundana.

Reconheceu o nome: Kerstin Hanser, que dirigia a equipa do quartel-general da polícia em Västerås. Tinha-a conhecido alguns anos antes, durante um curso de formação. Era boa pessoa e, sem dúvida, boa chefe, pensara ele na época, e lembrava-se de que tinha ficado contente ao saber do novo cargo que ela fora ocupar. Agora a sua voz parecia tensa.

– Preciso de ajuda. Decidi pedir a vinda da Riksmord, e ficaria muito grata se tu pudesses vir. É possível? – O tom da sua voz era quase implorante.

Por instantes, Torkel pensou esquivar-se à pergunta. Ele e a sua equipa tinham acabado de regressar de uma desagradável investigação em Linköping, mas compreendeu que se Kerstin Hanser lhe telefonara era porque precisava mesmo de ajuda.

– Nós tratámos mal deste caso desde o início. Existe um risco de que tudo venha a rebentar-nos na cara, por isso preciso mesmo da tua ajuda – disse ela, como se estivesse a aproveitar-se da hesitação dele.

– De que se trata?

– Um rapaz de dezasseis anos. Desaparecido durante uma semana. Encontrado morto. Assassinado. Brutalmente.

– Se me enviares todo o material por correio electrónico, eu dou uma vista de olhos nisso – respondeu Torkel, olhando para Vanja, que se deslocara até ao outro telefone e o levantara.

– Billy, podes vir ao gabinete do Torkel? Temos um serviço – disse ela antes de desligar.

Era como se já tivesse adivinhado qual seria a resposta final de Torkel. Aparentemente, adivinhava sempre. Torkel sentiu-se orgulhoso e, ao mesmo tempo, um pouco agastado. Vanja Lithner era a sua aliada mais íntima na equipa. Acabara de fazer trinta anos, mas, apesar da sua tenra idade, transformara-se numa boa investigadora de homicídios durante os dois anos em que trabalhara consigo – achava-a quase irritantemente boa. Se ao menos ele tivesse sido tão bom quando tinha a idade dela. Sorriu-lhe quando concluiu a conversa com Kerstin Hanser.

– Quem manda aqui ainda sou eu – disse-lhe.

– Eu sei, estou só a reunir a equipa para que possas ouvir o que nós pensamos. Depois a decisão cabe-te a ti, como sempre – disse ela com um brilho no olhar.

– Pois, como se eu tivesse escolha quando tu ferras o dente nalguma coisa – respondeu ele, pondo-se de pé. – O melhor é eu começar a fazer as malas. Vamos para Västerås.

Billy Rosén conduzia a carrinha na E18. Com demasiada velocidade, como era costume. Há muito que Torkel tinha deixado de comentar o assunto. Concentrara-se no material acerca do rapaz assassinado, Roger Eriksson. O relatório era bastante breve e esparso, e Thomas Haraldsson, o agente de investigação, não parecia ser o tipo de homem que se esforçasse muito. Provavelmente teriam de recomeçar tudo.

Torkel sabia que este era exactamente o tipo de caso de que os tablóides gostavam de se apoderar. Não ajudava que a causa preliminar da morte – estabelecida no local em que o corpo fora encontrado – indicasse uma agressão extremamente violenta, com inúmeras facadas no coração e nos pulmões. Porém, o que mais incomodava Torkel não era isso. Era a breve frase final do relatório, uma declaração feita no local pelo médico-legista.

Um exame preliminar indica que falta a maior parte do coração.

Torkel olhava pela janela, vendo as árvores desfilar. Alguém lhe retirara o coração. Para bem de todos, esperava que o rapaz não tivesse sido um fã de hard rock nem um jogador de Warcraft demasiado dedicado. Se assim fosse, a especulação na imprensa seria uma loucura completa.

Mais louca do que o habitual, corrigiu-se ele.

Vanja levantou os olhos do seu dossier. Provavelmente, acabara de deparar com a mesma frase.

– Talvez devêssemos levar também a Ursula – disse ela, lendo-lhe os pensamentos, como sempre. Torkel fez um breve sinal de concordância. Billy olhou por cima do ombro.

– Temos algum endereço?

Torkel passou-lho e Billy introduziu-o rapidamente no GPS. Na verdade, Torkel não gostava que Billy fizesse outras coisas enquanto conduzia, mas, pelo menos, enquanto teclava o destino deles abrandava. Já era alguma coisa.

– Mais uns trinta minutos. – Billy carregou no acelerador e a grande carrinha respondeu. – Talvez consigamos em vinte, dependendo do trânsito.

– Trinta está bem. Acho sempre muito desagradável quebrarmos a barreira do som.

Billy sabia exactamente o que Torkel pensava acerca da sua condução, mas limitou-se a sorrir para o chefe através do espelho retrovisor. Boa estrada, bom carro, bom condutor. Porque não tirar todo o proveito disso? Aumentou ainda mais a velocidade.

Torkel pegou no telemóvel e ligou a Ursula.

CAPÍTULO QUATRO

O COMBOIO saiu da Estação Central de Estocolmo às 16h07. Sebastian instalou-se em primeira classe. Recostou-se no seu lugar e fechou os olhos enquanto saíam da cidade.

Antigamente, nunca conseguia ficar acordado nos comboios. Mas agora, embora o seu corpo dissesse que lhe agradaria uma hora de sono, não conseguia encontrar a paz de espírito necessária.

Tirou do bolso a carta do agente funerário, abriu-a e leu-a. Já sabia o que lá dizia. Uma das antigas colegas da sua mãe telefonara-lhe e contara-lhe que ela falecera. Acontecera de modo sereno e digno, dissera-lhe. Sereno e digno – a vida da sua mãe resumida. Não havia nada de positivo nesta resposta, pelo menos para quem se chamava Sebastian Bergman; não, para ele a vida era uma batalha, desde o primeiro momento até ao último. Quem era sereno e digno não tinha lugar neste mundo. Mortos e aborrecidos – era o que ele normalmente lhes chamava. Pessoas que viviam com um pé na sepultura. Agora já não tinha tanta certeza. Como teria sido a sua vida se ele fosse sereno e digno?

Melhor, presumivelmente.

Menos dolorosa.

Pelo menos, era nisso que Stefan Hammarström, o terapeuta de Sebastian, tentava levá-lo a acreditar. Tinham discutido o assunto numa das recentes sessões, quando Sebastian mencionara que a sua mãe falecera.

– Até que ponto haverá perigo em ser como as outras pessoas? – perguntara Stefan quando Sebastian esclarecera o que pensava acerca do «sereno e digno».

– É extremamente perigoso – respondera Sebastian. – A bem dizer, letal. Evidentemente.

Tinham passado quase uma hora inteira a discutir a predisposição genética da Humanidade para o perigo. Era um tema que Sebastian adorava.

Percebera a importância que o perigo podia ter como força motivadora, em parte através da sua própria vida, em parte devido à sua pesquisa sobre os assassinos em série. Explicara ao seu terapeuta que existiam duas verdadeiras motivações para um assassino em série: a fantasia e o perigo. A fantasia é o motor a zunir: uma presença constante, mas meramente indolente.

Muitas pessoas têm fantasias. Obscuras, sexuais, brutais, que afirmam sempre o nosso próprio ego, que destroem sempre tudo ou todos os que se interponham no nosso caminho. Nas nossas fantasias somos poderosos. Muito poucas pessoas vivem verdadeiramente as suas fantasias. As que o fazem encontraram a chave.

O perigo.

O perigo de se ser apanhado.

O perigo de se fazer o inominável.

A adrenalina e as endorfinas libertadas naquele momento proporcionam o ímpeto adicional – o combustível, a explosão que faz o motor funcionar no auge da sua capacidade. Era por isso que quem procurava sensações fortes buscava novas excitações, era por isso que os assassinos em série se tornavam assassinos em série. É difícil regressar à indolência após se ter embalado o motor. Sentido a potência. Descoberto o que nos faz sentir vivos. O perigo.

– É mesmo do perigo que você está a falar? Não é da excitação? – Stefan inclinou-se para diante quando Sebastian se calou.

– Isto é alguma aula de língua?

– Não, você é que está a fazer a palestra. – Stefan encheu um copo com água de uma garrafa que estava sobre a mesa ao seu lado e passou-o a Sebastian. – ...