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SE O DISSERES NA MONTANHA

James Baldwin  

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Excerto

Olhei o futuro

E interroguei-me.

Toda a gente sempre disse que quando John crescesse seria pregador, como o pai. E tantas vezes isso foi dito que, sem sequer ter pensado no assunto, John acabou por acreditar que assim seria. Mas, até à manhã do seu décimo quarto aniversário, nunca pensou seriamente no assunto e, nessa altura, já era demasiado tarde.

As suas memórias mais antigas — de certo modo, as suas únicas memórias — eram as da pressa e da animação dos domingos de manhã. Nesses dias, acordavam todos ao mesmo tempo; o pai, que não tinha de ir trabalhar e os fazia rezar antes do pequeno-almoço; a mãe, que se vestia bem nesse dia e quase parecia jovem, com os seus cabelos desfrisados e, na cabeça, a touca branca bem ajustada que constituía o uniforme das mulheres pias; o irmão mais novo, Roy, que andava muito calado porque o pai estava em casa; Sarah, que usava uma fita vermelha no cabelo e era acarinhada pelo pai; e a bebé, Ruth, vestida de cor-de-rosa e branco e levada para a igreja ao colo da mãe.

A igreja não ficava muito longe, quatro quarteirões pela Lenox Avenue acima, numa esquina perto do hospital. Foi nesse hospital que a mãe esteve quando Roy, Sarah e Ruth nasceram. John não se lembrava muito bem da primeira vez em que a mãe ali ficou, para ter Roy; as pessoas contam que ele não parou de chorar durante a ausência da mãe; ele recordava apenas o suficiente para ter medo de cada vez que a barriga da mãe começava a inchar, sabendo que sempre que o inchaço começava só acabava com ela a ser levada para longe dele e a regressar com um desconhecido. E, de cada vez que isso acontecia, ela também se tornava mais desconhecida. Em breve, ela iria embora outra vez, disse Roy — ele sabia muito mais dessas coisas do que John. John observou a mãe atentamente, não notou inchaço ainda, mas uma manhã ouviu o pai rezar pelo «pequeno viajante que em breve estaria entre eles», e foi assim que soube que Roy dizia a verdade.

Todos os domingos de manhã, desde que se conseguia lembrar, a família Grimes atravessava daquela maneira as ruas no seu caminho para a igreja. Ao longo da avenida, os pecadores observavam-nos: olhos baços, rostos baços, os homens ainda vestiam as roupas de sábado à noite, entretanto enrugadas e empoeiradas; e as mulheres de vozes ásperas e vestidos brilhantes e justos, cigarros entre os dedos ou presos firmemente ao canto da boca. Falavam e riam e lutavam uns com os outros, e as mulheres lutavam como os homens. Ao passar por esses homens e por essas mulheres, John e Roy olhavam rapidamente um para o outro; John embaraçado e Roy divertido. Quando crescesse, Roy seria como eles, se o Senhor não lhe mudasse o coração. Aqueles homens e aquelas mulheres com quem se cruzavam aos domingos de manhã tinham passado a noite em bares ou em bordéis, ou nas ruas, ou em terraços ou em vãos de escadas. Tinham bebido. Tinham ido da injúria ao riso, da cólera à luxúria. Uma vez, ele e Roy tinham visto um homem e uma mulher na cave de um edifício abandonado. Fizeram aquilo de pé. A mulher quis cinquenta cêntimos e o homem sacou de uma navalha.

John nunca mais olhou; sentira medo. Mas Roy viu-os muitas vezes e contou a John que já tinha feito o mesmo com umas raparigas do outro quarteirão.

E a mãe e o pai, que iam à igreja aos domingos, também o faziam, e às vezes John ouvia-os no quarto ao lado, por cima do barulho das corridas das ratazanas, dos guinchos das ratazanas, e da música e dos palavrões do lupanar, no rés-do-chão.

A igreja deles chamava-se Templo do Baptismo pelo Fogo. Não era a maior igreja do Harlem, também não era a mais pequena, mas John foi levado a acreditar que era a melhor e a mais sagrada. O pai era o deão principal nessa igreja — não eram senão dois, o outro era um negro, redondo, a que chamavam deão Breathwaite —, fazia o peditório e por vezes pregava. O pastor, o reverendo James, era um homem genial e bem alimentado com o rosto como uma lua negra. Era ele quem pregava nos domingos de Pentecostes, quem presidia à cerimónia e ungia e curava os doentes.

Aos domingos de manhã e aos domingos à noite, a igreja estava sempre cheia; nos domingos especiais estava cheia todo o dia. A família Grimes chegava em grupo, sempre um pouco atrasada, normalmente a meio da catequese de domingo, que começava às nove horas. Esse atraso era sempre culpa da mãe — pelo menos aos olhos do pai; ela parecia incapaz de se arranjar a si e às crianças a tempo, e por vezes ficava mesmo para trás e só aparecia no serviço da manhã. Mesmo quando chegavam juntos, separavam-se depois de passarem as portas, o pai e a mãe sentavam-se na catequese dos adultos, que era dada pela irmã ­McCandless; Sarah ia para a das crianças, John e Roy sentavam-se na intermédia, dada pelo irmão Elisha.

Quando era muito novo, John não prestava atenção à catequese e esquecia-se constantemente da passagem dos Evangelhos que era suposto ter estudado, o que lhe valia a ira do pai. Quando se aproximava do décimo quinto aniversário, com toda a pressão da Igreja e de casa a conduzi-lo ao altar, esforçou-se por parecer mais sério e, por isso, fazia-se notar menos. Mas distraía-se com o seu novo professor, Elisha, o sobrinho do pastor que acabara de chegar da Geórgia. Não era muito mais velho do que John, apenas dezassete anos, mas já era pregador. John passava toda a aula de olhos postos em Elisha, venerando-lhe o timbre da voz, mais profundo e másculo do que o seu, admirando a magreza, a graça, a força e a pele muito negra de Elisha no seu fato domingueiro, perguntando-se se alguma vez seria tão santo quanto ele. Com isto, não seguia a lição, e quando, por vezes, Elisha parava para lhe fazer uma pergunta, John ficava envergonhado e confuso, sentia as palmas das mãos húmidas e o coração a bater como um martelo. Elisha sorria e repreendia-o com gentileza e a aula continuava.

Roy também nunca sabia as lições da catequese, mas com ele era diferente — ninguém esperava de Roy o que era esperado de John. Todos rezavam para que o Senhor mudasse o coração de Roy, mas era de John que se esperava que fosse bom, que fosse um bom exemplo.

Quando a catequese terminava, havia uma curta pausa antes do serviço da manhã. Nesse intervalo, se o tempo estivesse bom, os mais velhos podiam sair à rua para conversar. As irmãs estavam quase sempre vestidas de branco da cabeça aos pés. As crianças mais pequenas, naquele dia, naquele lugar, e oprimidas pelos mais velhos, esforçavam-se por brincar sem parecerem desrespeitosas para com a casa de Deus. Por vezes, nervosas ou perversas, gritavam, atiravam ao chão os livros dos cânticos ou começavam a chorar, o que levava os pais, homens e mulheres de Deus, à necessidade de lhes mostrar — por modos mais meigos ou mais severos — que as regras eram as de uma morada sagrada. As crianças mais velhas, como John ou Roy, podiam vaguear um pouco pela avenida, mas não ir muito longe. O pai nunca tirava John e Roy de vista, caso contrário Roy desapareceria entre a catequese e o serviço religioso para não regressar.

O serviço de domingo começava quando o irmão Elisha se sentava ao piano e entoava um cântico. John tinha a sensação de que esse instante e essa música o acompanhavam desde que começara a respirar. Parecia-lhe nunca ter existido um tempo sem esse momento em que toda a igreja estava como que em pausa — as irmãs de branco, cabeças erguidas, os irmãos de azul, as cabeças para trás. Os véus brancos das mulheres como coroas a cintilar no ar carregado, enquanto as cabeças de carapinha dos homens brilhavam — o farfalhar dos vestidos e o murmúrio cessavam, as crian

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