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QUARENTENA - UMA HISTóRIA DE AMOR

José Gardeazabal  

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Excerto

Dia 1

Tudo Azul

Ontem decidimos separar-nos. De um dia para o outro, a doença lá fora agravou-se e o mundo está apavorado. Um dos dois, talvez eu, lembro-me mal, contactou um infetado. As autoridades obrigaram-nos a uma quarentena. Tínhamos decidido que um de nós faria a mala e abandonaria o apartamento. Nem Mariana nem eu tivemos coragem para anunciar a separação eminente. Escondi a minha mala, como um objeto doente. Caímos antes da queda, e agora? Se nos olharem neste instante, veem-nos de olhos esbugalhados de tanta visão.

Penduraram-nos um selo do lado de fora da porta.

Um Casal

0 Filhos

O algarismo é um insulto, naturalmente. 0 filhos soa mais absoluto que zero filhos, e nós dois já não somos 1 casal, quanto mais Um Casal.

— Não sentes que de repente é tudo amarelo, castanho?

— Tudo cinzento — respondo.

Até aqui sempre tentámos ver as coisas juntos, e a cores.

— Amarelo, castanho, qualquer cor.

— Cinzento — repito.

A nossa relação desapareceu pelo efeito preguiçoso do tempo — e agora isto: dão-nos mais tempo, os dois trancados no mesmo espaço. Todos deviam poder escolher entre um espaço fechado e um tempo bastante longo. Nós não escolhemos, ofereceram-nos numa bandeja menos espaço e um tempo muito, muito longo. Estamos confinados.

Mariana sentou-se.

— Tende piedade de nós.

— Estás a rezar?

— Não, estou a pensar.

A autopiedade, essa palavra estranha, cercou-nos imediatamente, como uma rede de pesca, uma presença prática, uma oficina de automóveis. Esta casa foi um dos nossos melhores momentos, escolhida e mobilada a dois como o melhor da vida. Esta casa era o nosso filho, uma mãe de cimento a velar por nós, por cima e por baixo. Quando discutíamos, a casa cercava-nos e ali ficava, sabia da nossa antiga alegria. É uma casa com coluna, tronco e membros. Costelas, olhos, janelas e uma boca fechada a que chamamos porta.

Ouvimos a porta a fechar-se por dentro, à volta do estômago vazio do apartamento. Regressamos ao interior da barriga da casa, cruzamo-nos a meio do corredor com ar de quem procura a estrada menos viajada, Mariana a escolher uma estrada e eu a outra.

— Passa. Não tens perguntas a fazer?

— Não.

— Passa.

Mariana diz que quer um quarto só para si e eu quero um quarto só para mim. Somos duas Virginia Woolf a viver no mesmo apartamento, obrigadas a entender-se, uma Woolf escritora e uma Woolf que toca piano mas desafina. Dói muito, a música má dos outros. Não temos cave nem sótão, sonho exilar-me no sótão, eu, que nunca sonhei com sótãos, ou emigrar para a varanda, onde poderei simular felicidades domésticas dia e noite, à chuva e ao frio, narrar histórias de amor improvável aos poucos seres humanos que passam na rua.

Mariana? É muito bonita. Eu? Não possuo a elegância necessária para ser imortalizado. Lembro-me de como Mariana é, como Mariana era. Bonita. Eu conheci toda a inteligência dos músculos femininos de Mariana, toda a sua beleza lúcida de rapariga, de mulher Mariana.

Há algum tempo que nos afundávamos em consolações, num diálogo de afogados, sem palavras. Todas as nossas propriedades privadas imaginárias desapareceram e ficámos expostos, nus, um frente ao outro, reduzidos ao cheiro cru, todos os sentidos menos um, exilados em parte incerta depois de nos abandonarem os lábios e a língua, o peito, as unhas e os dedos. Somos dois, agora. Somos os pobres c

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