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PRINCíPIO DE KARENINA

Afonso Cruz  

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Excerto

Da janela da sala, viam-se os ciprestes que ladeavam o caminho até à entrada da propriedade, bem como a velha figueira que quando dava fruto se enchia de pardais e estorninhos, como se também os pássaros fossem figos. E, no céu, suspensas no seu voo, várias gralhas. A sala da nossa casa era de pedra, não por causa das paredes, mas porque tudo era sólido, ali dentro tudo era granito, as palavras, o ar, a majestade dos móveis, os anos escondidos nas fissuras do edifício, a paisagem do outro lado das janelas, que rasgavam as paredes de alto a baixo. O meu pai, claro, ficava sempre de costas para as janelas, porque era assim que ele tratava o mundo exterior, com desprezo.

Tirava o cachimbo e acendia-o com uma brasa da lareira, servia-se de uma aguardente velha, passava o indicador pelo bigode.

Eu observava-o com atenção, estudava todos os detalhes dos seus movimentos e quando estava sozinho imitava-os diante do espelho de corpo inteiro do guarda-fatos de carvalho do meu quarto. Cada gesto dava-me uma espécie de tranquilidade, a mesma que o meu pai aparentava ter, mesmo sabendo-se cercado pelo estrangeiro e pelos bárbaros que o habitam.

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A imagem que guardo dele é a de um homem sentado com as pernas cruzadas, a encher o cachimbo, a pendurá-lo nos lábios, a fungar com frequência, a envolver a própria cara com o fumo do tabaco, de olhar altivo, desapegado e ao mesmo tempo cansado, como se o mundo que estava para lá da sua pele o agoniasse. Mas a mais palpável das suas características psicológicas, tão material quanto um músculo ou uma perna, era a advertência contra o exterior (com o indicador e o polegar sobre as pálpebras fechadas), contra tudo a que ele chamava estrangeiro e que não se limitava a uma fronteira geográfica, mas sobretudo moral:

— Ouça, menino: se alguns lugares são geograficamente acessíveis, são, no entanto, moral e psicologicamente aberrantes. Um homem de bem não deve sair do seu espaço, deve deixar a selva para os selvagens. Imagine o que era isto, menino, cheio de brutossauros de dentes afiados. A selva para as bestas, para os primitivos e para aqueles homens sem gravata, como é que se chamam?, artistas modernos. Dizem que comem sanduíches. A única coisa boa num artista é a arte antiga, o resto deve evitar-se, pois é uma doença. Escute, menino, um homem de bem não deve jamais sair do seu espaço, um homem sem as suas roupas, sem os seus criados, sem a sua família, sem os seus tapetes e naturezas-mortas, não é nada. Lembre-se, menino, que nós não somos só nós, somos a civilização, e, mal viajamos, deixamo-la para trás. Um passo fora e somos uns macacos. O que nos protege da animalidade são as paredes, as cortinas, as janelas, os cadeirões, isto que vê à sua volta é a muralha contra os mongóis, contra os turcos, contra o mundo.

— Mas Paris é longe. O Dr. Vala diz que é a cidade mais civilizada do mundo.

— Paris é civilizada para os parisienses, para nós é um embrutecimento em forma de cidade, nada se compara à casa onde vive, não há cidade nenhuma que possa ombrear com um espaço doméstico. Paris é um animal selvagem para nós. Só aqui dentro, no interior sagrado desta casa, somos plenamente humanos.

— Nem na igreja?

— Na igreja também, desde que seja perto de casa e tomemos todas as precauções necessárias para atravessar o espaço que vai do nosso lar ao de Deus. São alguns metros, mas podem matar-nos moralmente. Um pequeno descuido e já andamos de quatro, sem qualquer noção de ética.

— Acontece assim tão rápido?

— Há uma fera terrível lá fora. É tão simples quanto isto.

Eu pensava, na altura, que essa fera era uma alegoria, como aquelas dos evangelhos que ouvia na missa, com pastores, pães, peixes, ovelhas, filhos pródigos, sementes, essas coisas, mas depois comecei a sentir, uma sensação tão háptica quanto tocar nas brasas da lareira e queimar-me, que de facto existia uma fera terrível que rondava a casa e que tanto mal me poderia fazer. Quanto mais me afastava da casa, mais medo sentia, e até cheguei a fazer uma equação do medo (era muito bom a matemática, nas contas, como se dizia), que era o produto da distância (em metros) a que me encontrava de casa multiplicado pelo tempo (em segundos) passado no exterior do lar (Ph = d.t) As unidades do medo eram expressas em deimos e phobos (que é a milésima parte de um deimos e cujo baptismo se deveu ao fascínio que sentia por um livro de mitologia da biblioteca do meu pai. Enfim, o mero final da rua provocava-me pânico. O meu objectivo, aos oito anos, era chegar aos subúrbios sem morrer de medo pelo caminho.

Havia breves e raros momentos em que a nossa casa sorria, quando de manhã a criada da Mealhada abria as janelas, para arejar a casa, e as cortinas esvoaçavam. Ou quando eu me reclinava nos acordes, como se fossem divãs, que a minha mãe tocava ao piano. Ouvia as notas ao longe, atravessando o longo corredor da casa. Imaginava que as composições que ouvia eram a banda sonora da minha vida e fazia tudo àquele ritmo, saltitava ao mesmo tempo que certas notas, movia-me à velocidade da música, à velocidade do som. O pai nutria pelos acordes (em que eu me reclinava como se fossem almofadas ou nadava como uma carpa vermelha) o sentimento oposto, tenho a sensação de que a música o aleijava. Quando a minha mãe se alongava na prática, ele aproximava-se e dizia «um pouco de silêncio, por favor», e a casa, de repente, ficava triste e as cortinas deixavam de esvoaçar.

Além das horas matutinas ao piano, a minha mãe passava algum tempo, habitualmente depois do almoço, a cantar as canções da rádio, cujas letras diziam que era bom deitar cedo e cedo erguer, que os pobres são mais felizes, que a humildade enche a barriga, esse tipo de arrazoado, e eu ficava a vê-la e a ouvi-la, fascinado com os trinados a meia-voz e o tremor delicado dos lábios. A minha mãe falava pouco, por isso tudo o que dizia era precioso, e, quase sempre sob a aparência humilde da simplicidade, o conteúdo das frases era inusitado e ao mesmo tempo profundo. Posso, admito, pela raridade das conversas com ela, ter exagerado e engrandecido o que me disse e que recordo com o filtro do tempo, da maturidade, sobredimensionando agora o que de facto ouvi. Como dizia, a minha mãe passava horas a cantar as canções da rádio e um dia confessou-me que cantava, não necessariamente porque gostava muito das canções, mas porque gostava de cantar com milhares de pessoas. Na altura não percebi, mas hoje consigo imaginar a quantidade de mulheres, sim, especialmente mulheres, que, a passar a ferro, a lavar, a embalar os filhos, a cozer o feijão, a tricotar, a quantidade de mulheres que interrompiam o choro, que olhavam pela janela, que fechavam os olhos, a quantidade de mulheres que, ao mesmo tempo que a minha mãe, cantavam a mesma canção que ouviam na rádio. Ela devia sentir uma espécie de comunhão, uma união estranha e subtil, uma fraternidade invisível que interrompia as suas dores para cantar uma canção em uníssono. Ela, quando sintonizava o rádio, era para se sintonizar com as outras mulheres.

Não tinha o desejo de mudar o mundo, queria apnas fazer parte dele.

O Dois Metros era o meu melhor amigo. Chamavam-lhe assim porque era muito alto para a idade. Não haveria de se verificar um crescimento proporcional à expectativa gerada até aos doze ou treze anos, mas a alcunha ficou, apesar de, em adulto, ter apenas conquistado a humilde altura de um metro e sessenta e quatro.

— Vou, dentro de dois dias, talvez três, mas não mais do que isso, partir numa missão perigosíssima.

— E que missão é essa? — perguntou-me o Dois Metros.

— Na devida altura ficarás a saber. Todos ficarão a saber.

Na noite em que anunciei a minha missão ao Dois Metros, a conversa ao jantar poderia ter-me dissuadido da demanda.

Lembro-me muito bem dessa refeição em que o Dr. Vala disse à mesa que as batatas vinham da América do Sul. As emoções, positivas ou negativas, são uma máquina de impressão. Todos os acontecimentos tendem a desvanecer-se, mas a emoção grava-os na pedra da realidade, da nossa realidade, ou melhor, as emoções transformam memórias em pedra, como os heróis que são recordados em estátuas. A minha alma andava às voltas com a expectativa da missão, fragilizada pelo receio do desconhecido, e ouvir que aquilo que eu comia, aquilo que metia na boca, vinha de tão longe, fez-me mal à barriga. O cheiro das batatas cozidas estragava-me o nariz, aquele cheiro quase doce, que fazia as janelas da copa transpirarem, continha a imoralidade da distância. E nós alimentávamo-nos dessa coisa. Olhei de soslaio para o meu pai, tentando perscrutar alguma reacção sua que confirmasse aquilo que eu acabara de perceber, a imoralidade de certa comida que mastigávamos e engolíamos. Aquilo que era o nosso combustível para brincar, ler, escrever, pensar, amar estava contaminado, vinha de longe, senão da Cochinchina, pelo menos da América do Sul. O meu pai permanecia impassível e soberano, como aliás era sua pose e seu costume, e, sem qualquer asco pelo que levava à boca, mastigava, engolia, empurrava com vinho.

— O que se passa com o menino? — perguntou.

Eu saí a correr da mesa, sem responder, para despejar na retrete o que tinha na boca. Fiquei ali a tremer.

Ouvi o meu pai chamar-me e voltei à mesa, receoso. O Dr. Vala explicava que a planta da batata era originária da América do Sul, eu tremia, mas que antigamente não comiam o tubérculo, eu tremia, servia apenas para decorar jardins franceses, eu tremia, porque dá uma flor bonita, e a Sr.a Vala, que bem dito, meu querido, como é culto e erudito e sabe coisas tão belas, e o doutor continuava, antes os pobres comiam castanhas, depois entraram as batatas na gastronomia, eu tremia, e a Sr.a Vala, como é que sabe estas coisas todas?, e o doutor, o Van Gogh até pintou um quadro, eu tremia, até que ganharam o protagonismo que se vê, a Sr.a Vala bateu palmas. Eu tremia.

— O que é que se passa? O menino está pálido.

Estava, efectivamente. Como se enfia na boca uma coisa de tão longe, com um oceano Atlântico pelo meio, como se mastiga aquela distância toda? Desatei a chorar e a criada da Mealhada levou-me para o quarto, despiu-me e deitou-me.

A minha mãe abraçava-me todas as noites quando eu me deitava, depois de a criada da Mealhada prender os lençóis na cama e sair para aquecer na chaleira a água destinada à higiene íntima, a que na altura se chamava «lavar por baixo». Todas as noites, a minha mãe, ao inclinar-se sobre mim, parecia despedir-se. Acho que ela sentia mesmo isso, que por cada dia que passava havia uma parte de mim ou dela que ia embora.

Massajava-me o pé deformado. Fazia-o com uma dedicação que eu não compreendia. Para mim, a deformação física era algo que queria fazer desaparecer, que queria que ninguém notasse, e o que para mim era motivo de extrema vergonha para ela parecia ser motivo de adoração, considerando o modo como passava as mãos pela pele, pela deformidade, com lentidão, demorando-se mais no pé boto do que a beijar-me a testa. Tenho também a sensação de que nesses instantes chorava baixinho, mas não era de tristeza, era outra coisa (não tenho, porém, a certeza se estas recordações são fidedignas ou se foram construídas mais tarde, depois das nossas tragédias, porque a memória que tenho delas não passa de registos confusos, embotados pela emoção, em que não sou capaz de detalhar quase nada).

Por causa da missão que me havia imposto naquele Outono, recordo contudo uma dessas despedidas que talvez tenha servido de eixo matricial para as recordações das outras noites. Estava nervoso com o que me esperava e, em vez de ficar parado como habitualmente, constrangido pela vergonha do meu pé grotesco, não só o movi ligeiramente enquanto a minha mãe passava a s ...