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POR AMOR à LíNGUA

Manuel Monteiro  

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Excerto

O pleonasmo é uma figura de estilo. Sucede que o estilo — na vida, na arte, na linguagem — pressupõe duas coisas: intenção e originalidade.

Camões, no Canto V da célebre epopeia, escreveu: «Vi, claramente visto, o lume vivo/Que a marítima gente tem por santo [...].» A intenção pleonástica do primeiro verso é inequívoca para quem tenha um átomo de sensibilidade literária. O verso ganha evocação visual com o pleonasmo (que as vírgulas enfatizam). A repetição sonora («vi», «visto», «vivo») concorre também, neste caso, para a expressividade do verso. De igual modo, no magnífico soneto camoniano em que o sujeito poético amaldiçoa o dia em que nasceu, desejando que este «moura e pereça», pobre daquele que apontar, contentinho, o pleonasmo como defeito do poema.

Também ninguém duvidará da intenção pleonástica de Manuel Bandeira, no Poema só para Jaime Ovalle: «Chovia./Chovia uma triste chuva de resignação.» Alguém pensará que o autor se esqueceu de que acabou de empregar «Chovia» duas vezes?

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O verso de Gertrude Stein «uma rosa é uma rosa é uma rosa é uma rosa», além de ultracitado, foi sendo, até aos dias de hoje, continuamente modificado e adaptado para inúmeras realidades. A estrutura mantém-se hodiernamente em muitas construções frásicas — e isso acontece porque houve intenção e originalidade no verso de Stein.

Tal estrutura ou cadência poderá parecer óbvia, mas, como em tantas criações na linguagem (e na arte), note-se que o génio está muitas vezes em criar o que, depois de criado, nos leva a estranhar como é que ninguém se havia lembrado... (Numa conversa entre George Steiner e Lobo Antunes publicada na revista Ler, Steiner diz algo extremamente lúcido a este respeito: «Lolita é um milagre. Antes de Lolita[,] elas não existiam; depois do livro, estão em todas as esquinas. Ele criou o que já lá estava. E criar o que já existe é um milagre raro. De um momento para o outro, vemo-las em todo o lado, nas suas minissaias, mas foi ele quem viu primeiro aquilo que nós não teríamos podido ver sem ele.»)

Voltemos ao assunto do pleonasmo. A poesia não é a única morada do pleonasmo. Sinta a musicalidade, a sequência expressiva e melódica do passo de Camilo Castelo Branco, em O Santo da Montanha, e pergunte a si próprio se o pleonasmo advém de uma inadvertência ou de uma intenção: «Ora, pois, primo Baltasar, parece-me que são horas de vir vindo o jantar.»

Analisemos agora outra figura de estilo, de modo que o critério da intenção fique mais claro. Detenhamo-nos no oximoro, que o E-Dicionário de Termos Literários, de Carlos Ceia, define cristalinamente, nas palavras de Carlos Serra, como um caso de linguagem em que «ambos os termos se excluem, a fim de revelar que a conciliação de contrários é possível e, por vezes, indispensável para se exprimir a verdade». Exemplos como «lúcida loucura», «bondade cruel», «eterno instante», «música silenciosa» nada têm que ver com «crise/tragédia/desastre/catástrofe humanitária», expressões ubíquas na linguagem jornalística.[1] Po­rquê? Porque quem emprega tais expressões confunde humanitário (em prol da humanidade, filantropo) com humano. Não há um conhecimento a priori que depois é intencionalmente subvertido — trata-se somente de uma palavra tomada numa acepção incorrecta. Em suma, de ignorância e macaqueação.

Temos igualmente de distinguir o pleonasmo que nasce da ignorância ou da inadvertência, o pleonasmo não intencional, o pleonasmo vicioso do pleonasmo intencional e criativo.

Muitos estarão de sobreaviso quanto ao «subir para cima» e ao «descer para baixo»[2], mas poucos reparam no «entrar dentro» — «entrou dentro do carro», «entrou dentro de casa», «entrei dentro do metro». E para fechar o quadrado: «sair para fora».

Depois de aprendermos com solidez a diferença entre «há» e «à», deveríamos aprender a não usar «há» com «atrás», mormente na escrita. É algo tão simples e são, todavia, tantos, tantos, tantos os exemplos diários de preeminentes figuras públicas que debitam «Há duas horas atrás», «Há duas semanas atrás», «Há um ano atrás». Basta remover «atrás»: «Foi há duas semanas.» Já o disse a inúmeras pessoas e não encontrei ainda ninguém que usasse a expressão tendo dado conta do pleonasmo, como não encontrei ninguém que, depois de saber do pleonasmo, não quisesse deixar de o usar. Se escrever «dois anos antes, estava em Paris» (por exemplo), não cairá no pleonasmo. De igual modo: «O senhor defende essa posição, mas, um ano atrás, defendia exactamente o contrário.»

O elemento de formação «auto-» faz parte dos pleonasmos da moda. (Quase não o encontramos com feição pleonástica em textos mais antigos.) Que faz ele quando tem associado «-se» (ou «-me» ou «-te» ou «-nos»)? Lemos e ouvimos «ele, que se auto-intitula...», «autocondenou-se», «autoproclama-se», «autodesigna-se», «auto-afirmou-se», «autoflagelou-se», «autopenitencio-me». Por este andar, chegaremos ao «auto-suicídio». Veja, de ora em diante, em cada caso, se, ao remover «auto», perderá um átomo de significado.

A palavra «diferentes» é também um caso curioso. Que acrescenta ela em frases como «A equipa tem jogadores de doze nacionalidades diferentes», «A Rita fala sete línguas diferentes»? Talvez a ambiguidade de que as nações e as línguas sejam bastante diferentes umas das outras — quando não é isso que se pretende transmitir.

Nos livros, aparecem constantemente personagens descritas como tendo «quarenta anos de idade». Para quê «de idade»? Dirão muitos leitores: «Ah!, mas poderia ser o número de anos de casamento, de experiência profissional.» E se fosse de outra coisa, acaso o autor não o referiria?! O mesmo podemos dizer da expressão «sorriso nos lábios», que, além de pleonástica, se tornou numa locução estereotipada — numa imagem gasta, desprovida de viço. «Mas poderia ser um sorriso nos olhos», contrapõem alguns. E novamente a pergunta: se o sorriso fosse num sítio que não os lábios, o autor não o referiria? Também podemos calar o estômago, o que não nos impede de assinalar o «cala a boca». «Chapéu na cabeça» — a mesmíssima coisa. Se a personagem tivesse o chapéu na mão ou na mala (por exemplo), o autor não diria apenas que o Francisco andava na rua de chapéu, mas que andava na rua com o chapéu na mão ou na mala. A propósito de cabeça... «decapitar a cabeça», «maluco da cabeça», «demente mental» (neste último, além do pleonasmo, quem ler com o ouvido, e não apenas com o cérebro, detectará uma desagradável repetição sonora).

Quantas «surpresas inesperadas» encontramos! Quando muito, «Que surpresa tão inesperada», porquanto introduz um grau de surpresa. Ou talvez melhor: «Foi uma surpresa total/inimaginável!» (Por exemplo. Na língua, há sempre muitas soluções, ao contrário do que acontece na matemática.) A expressão «surpresa inesperada» obriga à pergunta: se não fosse inesperada, seria uma surpresa? O problema do grau verifica-se igualmente na expressão «planear antecipadamente» — planear antecede (do verbo anteceder, que significa «vir ou estar antes de») a acção que se pretende realizar. Pode, contudo, planear-se com muita ou pouca antecedência.

«Elos de ligação» — uma caterva deles. Se não fosse de ligação, não seria elo. Leia-se o sentido figurado de «elo» nos dicionários. Qual a construção mais elegante, mais lírica: «elo do amor» ou «elo de ligação do amor»? Na língua, menos — muitas vezes — é mais.

A coabitação dos verbos continuar e permanecer é outra armadilha pleonástica. Continua a permanecer entre os Portugueses... Outra é a do advérbio possivelmente com o verbo poder. Possivelmente, poderá haver aqui...

Existe ainda grande propensão para o pleonasmo com a palavra «mesmo» (ou «mesma», «mesmos», «mesmas») e o verbo manter: O João mantém a mesma atitude de sempre. E atenção ao verbo conter: O fenómeno contém em si mesmo...

O pleonasmo pode ser extremamente subtil. Fulano prorrogou por mais seis meses o contrato... Que está ali «mais» a fazer? Nada. Quer o autor dizer que antes já tinha prorrogado por seis meses? Nunca ou quase nunca. E se assim fosse... prorrogou novamente por seis meses. Ouvimos e lemos sempre este tipo de construção frásica com «mais». Assimilamos acriticamente e ­perpetuamos (no tempo, diria o Senhor Pleonasmo) esta e outras construções que outros assimilarão acriticamente e perpetuarão... e assim sucessivamente.

«Padrão comum»? O padrão é algo comum a um determinado conjunto. E os «sintomas indicativos» quando, pelo contexto da frase, se percebe muitas vezes que, se não estivesse lá «indicativos», o significado seria irrefragavelmente o mesmo: Saiba se está grávida — conheça os sintomas indicativos da gravidez. E que dizer do omnipresente «monopólio exclusivo»? Se não fosse exclusivo, não seria monopólio. Não se fala de monogamia exclusiva.

E o «abalo sísmico»? Sismo já significa abalo. Temos: tremor de terra, abalo de terra, abalo telúrico, terremoto, terramoto, sismo.

Marca de imaturidade literária é pôr as personagens a exultar ou rejubilar de alegria, ou utilizar uma das expressões mais gastas do nosso idioma: «a multidão de pessoas». Verdade que «multidão» não tem necessariamente de ser de pessoas, mas, além de o ser em 99,9 % dos textos, a singela omissão das «pessoas» não convidará o leitor a pensar em batatas. Sucede o mesmo com «compleição física». Compleição é quase sempre utilizada na acepção física e o contexto permitirá discernir o caso raro em que não seja. Para quê «de compleição física atlética»? Elida-se. Elegância, brevidade, leveza. Pôr as palavrinhas todas revela insegurança — e subestima o leitor, assume uma relação paternal com ele.

Quase ninguém dá conta do pleonasmo «protagonista principal». Etimologicamente, protagonista é o «que combate na primeira fila; que ocupa o primeiro lugar; personagem principal» (José Pedro Machado). «Proto-» é um elemento que veio do grego e exprime a ideia de «primeiro», «primitivo». Mesmo um dicionário digital muito propenso à consagração pelo uso continua a registar «protagonista» como a personagem mais importante, a personagem principal, a figura principal. Já vem do teatro grego clássico. A mais e não uma das mais importantes. A principal e não uma das principais.

Protagonista

Nome 2 géneros

1 . LITERATURA personagem mais importante do teatro grego clássico, em torno da qual se constrói todo o enredo

2. principal personagem de uma obra literária, filme, série televisiva, etc.

3. figurado figura principal num acontecimento; promotor

Em querendo empregar o adjectivo «principal», largue o protagonista e abrace a personagem (ou a figura).

Outro pleonasmo é o «habitat[3] natural», que, quanto ao mais, é um estafado lugar-comum. Na linguagem corrente, habitat é o ambiente ou lugar natural. Fulano está no seu habitat. Ponto.

E temos «desfecho final», «avançar para a frente», «recuar para trás», «unanimidade absoluta/total» (unanimidade, relativa a todos)[4], «hemorragia de sangue», «eu pessoalmente», «tenho um amigo meu», «na minha opinião pessoal», «parece-me a mim», «oco por dentro», «enfrentar de frente», «encarar de frente» (a não ser um monstro metuendo que tenha a cara nas costas), «labaredas de fogo», «ambos os dois», «adiar para depois/mais tarde», «estreou-se pela primeira vez»[5], «preferir mais/antes» (confusão e contaminação com o verbo querer), «metades iguais» (metade é cada uma das duas partes iguais em que se divide um todo; ainda que se compreenda que, como muitos empregam metade sem o sentido de «parte igual», muitos empreguem tal expressão para transmitir maior precisão), «aviso prévio» (ainda que, no direito laboral, tal conceito esteja consagrado), «dueto musical» (se não fosse «musical», não seria «dueto»; para nomear um conjunto de dois: «par», «parelha», «dupla», «casal»), «as relações bilaterais entre estes dois países» (tire lá o «dois»), «défice negativo», «superavit positivo», «panorama geral» (leia-se o sentido figurado de «panorama» nos dicionários — o significado «geral» aparece, explícito ou implícito, quase invariavelmente), «comparecer pessoalmente»[6] (a não ser que seja por videoconferência ou sessão espírita), «egoísmo pessoal», «hall de entrada»[7] (além da redundância, evite-se o anglicismo: «átrio», «vestíbulo» chegam e sobram), «o país está a arder em chamas», «viúvo(a) da(o) falecida(o) Tal», «sussurrou/murmurou em voz baixa», «o amanhecer do dia» (o amanhecer é o nascer do dia), «manchete principal» (a manchete é o título principal da primeira página do jornal ou da capa da revista), «experiência empírica» (empírica — relativa ao empirismo — doutrina baseada exclusivamente na experiência).

Tais expressões, além de pleonásticas, têm uma frequência elevadíssima na escrita e na oralidade («oco por dentro» é, das enumeradas, a menos frequente), ou seja, são lugares-comuns, locuções estereotipadas. O escritor deve fugir de tais micróbios do estilo[8], algo que analisaremos no próximo capítulo.

Em suma, o autor que queira usar o pleonasmo deverá tentar manejar as palavras e produzir pleonasmos novos com o cunho inequívoco da intenção. A linguagem agradece.

Não se pretende aqui proibir o uso de todas as expressões inventariadas — o objectivo é fazer o leitor reparar no que não reparou, de modo que, de ora em diante, se optar por tais pleonasmos, o faça em plena consciência. Lembre-se de que a ênfase não nasce exclusivamente do pleonasmo. Cuidado ainda com os fanáticos que fazem da caça ao pleonasmo o assunto mais importante da escrita (não só não é como há pleonasmos perfeitamente legítimos), descobrindo até inexistentes pleonasmos por hipercorrecção: grande/esmagadora maioria não é um pleonasmo, ainda que certas fontes digitais o decretem, como se fosse proibido adjectivar a maioria — nas eleições, não há maiorias relativas e absolutas?

Bem sei que muitos poderão fazê-lo para, respectivamente, acentuar a expressividade e eliminar uma possível ambiguidade de leitura, mas permitam-me acrescentar aqui os «factos reais» (e os «factos verídicos») e o «até ao dia 31 inclusive» — se fosse até ao dia 30, seria... espantosamente... até ao dia... 30. Muito difícil será combatê-los, e mais difícil ainda será combater «a certeza absoluta». Admito que num diálogo em que surja a pergunta «Tens a certeza?», a resposta mais enfática/automática seja: «Absoluta.» Sublinhe-se apenas que a certeza ou é absoluta ou não é certeza. A certeza não tem graus. A certeza não tem um grão de dúvida. Dois mais dois igual a quatro — está certo. Verifique ainda se, nas construções frásicas com os verbos criar e inventar e a palavra «novos», adulterará o sentido com a remoção de «novos». E, para fechar este parágrafo específico dos pleonasmos-aceitáveis-e-compreensíveis-mas-evitáveis, encerre-se este conjunto com os pequenos pormenores, que tanto podem significar «ninharias», «minudências», como aspectos importantes que passaram despercebidos.

A escrita cresce em maturidade e elegância quando conseguimos, sem perder um átomo de informação, eliminar palavras que estão a mais. É um exercício de paciência e sensibilidade. Não se resume à luta contra o pleonasmo.

Temos o amigo zeugma para não repetir termos anteriormente mencionados. «Fechou as duas portas. Primeiro, a da sala. Depois, a da cozinha.» Só o escritor medroso escreverá: «Fechou as duas portas. Primeiro, fechou a porta da sala. Depois, fechou a porta da cozinha.» Um exemplo que costuma ser dado quando se trata de zeugmas: «A vida é um grande jogo e o destino, um parceiro temível.» (Érico Veríssimo.) A repetição do «é» mataria parte da beleza.

O autor de escrita policial começa a obra com a frase: «Três corpos jaziam na neve.» O revisor propõe-lhe que a frase fique ainda mais curta: «Três corpos na neve.» O autor concorda. O editor também. E o leitor deste capítulo?

Prefere ler, numa obra literária, «O Sol[9] ao nível dos morros» ou «O Sol está ao nível dos morros»? O meu paladar literário diz-me: elida-se o­-verbo­-que­-todos­-sabem­-estar­-lá­-não­-estando. Brevidade, leveza, poesia. A supressão pode traduzir-se ainda noutra vantagem: a harmonia musical da frase.

Exemplo de elegância, de supressão intencional: «como se alguém à sua espera no outro lado dos pinheiros»[10]. Só um ser desprovido de poesia dirá: «Falta um verbo!»

Não por acaso, quase todos os escritores confessam que, na fase da revisão, se dedicam mais a elidir do que a acrescentar palavras.

A obra deve emergir, aos olhos e ouvidos do leitor, compacta, enxuta, limpa, polida. E esse esforço colossal de vassourar as palavras excedentárias, de repelir ou dosear as repetições, de sacrificar plumas e adornos (por mais belos que sejam) em favor da articulação do todo; tudo isso, enfim, deve ser tão, tão trabalhado... que, no acto da leitura, não se sinta o esforço de quem escreveu.

O capítulo está quase a terminar. Fique com as palavras de outros. Truman Capote, quando se tratava da escrita, acreditava mais na tesoura do que no lápis. E não se esqueça das últimas palavras do texto (cuja autoria gera controvérsia) em que o autor pede desculpa por ter escrito uma carta tão longa, explicando não ter tido tempo para a escrever curta.

Etimologicamente, pleonasmo é um excesso, uma superabundância.

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Adjectivos e lugares-comuns

Analisam-se aqui os perigos do adjectivo. O adjectivo é um «amigo» que está sempre a seduzir-nos, mas de quem devemos desconfiar em todas as ocasiões. Vamos de mão dada com ele ao longo das linhas e, quando olhamos para trás, temos um exército de adjectivos que nos sorriem maleficamente. É difícil ler textos com voz própria. A maior parte são cópias de cópias de cópias de cópias de cópias. Uma das razões para que tal aconteça: a omnipresença de adjectivos e advérbios. Os adjectivos e os advérbios concorrem, bastas vezes, para que o texto seja insulso para o paladar literário exigente, porquanto aparecem sempre pospostos aos mesmos substantivos e verbos. Acaso alguém ri da mesma piada depois de a ouvir milhares de vezes?

Parcimónia na adjectivação

A crítica literária denuncia muitas vezes «o excesso de adjectivos», mas nunca li uma que referisse a «falta de adjectivos». O conjunto de escritores que pregaram contra os adjectivos é extenso — entre outros, Voltaire, Twain, Pound, Orwell, Hemingw­ay. Para Voltaire, o adjectivo e o substantivo eram inimigos mortais.[11] Em Portugal, uma das mais frequentes críticas a António Lobo Antunes foi sempre o excesso de adjectivos (algo que o autor veio doseando ao longo das obras). Baptista-Bastos, por exemplo, depreciou-o, numa entrevista ao suplemento ­Ípsilon do jornal Público, de 2007, chamando-lhe «armário de adjectivos». O próprio Lobo Antunes contou à Visão, em 2007, a sua vontade de rasura do adjectivo: «Corrijo os livros tantas vezes e, mesmo assim, fico sempre com a sensação que os deveria ter corrigido ainda mais, que lhes devia ter dado mais uma volta ou duas. Há sempre um “que”, um “mas”, um advérbio ou um adjectivo a mais.» Os escritores, não raro, apregoam a sua maior maturidade literária exibindo o argumento da menor ­utilização de adjectivos. Na edição e na revisão de textos, procura-se que haja menos e não mais adjectivos. Porquê este problema com o adjectivo?

Tentemos arrumar os perigos do adjectivo. Qualquer obra literária é uma experiência partilhada entre cada um dos leitores e o autor.[12] Na caracterização das personagens, deve ser o leitor quem — pelas acções, diálogos, pensamentos — vai desenhando cada uma das personagens. Quando o narrador decreta que determinada personagem é «corajosa», «bondosa», «inteligente», o leitor fica diminuído debaixo da ordem do autor/narrador: a personagem é assim e nenhum leitor poderá concebê-la de outra forma. Vejamos um passo de Manuel Tiago (pseudónimo de Álvaro Cunhal), em A Casa de Eulália: «cem por cento comunista, cem por cento espanhola, cem por cento mulher». (O próprio substantivo «mulher» é empregado como se adjectivasse, como se dissesse «feminina».)[13]

Regra de ouro: o texto literário — ao contrário de um manual de instruções, de um edital ou do folheto informativo de um medicamento — deverá ter subtexto. Que é o subtexto? É o conjunto de palavras que estão escritas e que não constam do texto.

O afunilamento interpretativo é um dos perigos do adjectivo, mas há outros.

Uma frase adjectivada é, muitas vezes, mais frouxa do que uma metáfora ou comparação sem adjectivos. Transformemos a metáfora do celebérrimo verso camoniano «Amor é fogo que arde sem se ver» num verso com adjectivos, deixando o leitor fazer o seu juízo: Amor é fogo ardente e invisível. Analisemos agora uma comparação. Noah Lukeman, em As Primeiras Cinco Páginas, dá o exemplo da troca de uma frase adjectivada por uma comparação sem adjectivos. «Ele dirigia um escritório eficiente, organizado» por «Ele dirigia o escritório como se dirigisse um navio». Qual concita a imaginação do leitor? Qual convida o leitor a parar e evocar uma imagem? Qual tem maior probabilidade de se incrustar na memória? Outro exemplo de Lukeman: «pode substituir “Era um homem alto, pesado, corpulento” por “Era um homem com a constituição de um urso”». (Nenhum adjectivo nesta imagem.)

Uma crítica que pode ainda ser feita ao adjectivo: a sua ocasional inutilidade. Todos temos inúmeras evocações pessoais e intransmissíveis, e, por mais que o autor esmiúce todos os recantos do que descreve, forçando o leitor a ver como ele quer que veja, isso não acontece, porque não somos autómatos programados para representar mentalmente da mesma forma todas as palavras ou sequências de palavras. Quando lemos, as nossas associações pessoais a um substantivo — a um jardim ou a um quarto, uma praia, uma noite — sobreexcedem muitas vezes os adjectivos-plumas que adornam tais realidades.[14]

Outro perigo do adjectivo reside em este ser, de vez em vez, um grande chapéu, um atalho preguiçoso nas descrições. Imagine uma pessoa que se senta em Lisboa, com uma caneta e um bloco de notas, com o propósito de descrever a manhã que se lhe apresenta e o que nela acontece. Se escrever que está «uma bela manhã», não saberemos o que distingue aquela «bela manhã» da de Praga — ou da de qualquer outro lugar naquele dia ou de qualquer outra manhã desde que o mundo é mundo. Entre ziliões de manhãs, que torna aquela manhã única? Aquele grande chapéu, aquele atalho preguiçoso impede a descrição de descer e aterrar (de a arranhar sequer) na realidade concreta, específica, singular, nos pormenores únicos que tornam aquela manhã diferente de todas as outras. Claro que a descrição poderá continuar depois da «bela manhã» inicial, mas, se o escrevente carregar na adjectivação, é certo e seguro que a singularidade acabará esmagada debaixo dos adject ...