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PENAS DE PATO

Miguel Araújo  

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Excerto

Lembro-me do meu primeiro dia de aulas com a mesma nitidez com que me lembro do dia de ontem.

A casa da minha família era em Águas Santas, Maia, e o Colégio Luso-Francês ficava no Amial, Porto. Ainda era longe. Foi o meu pai que me levou, estava a chover. No caminho havia um sítio onde o pessoal encostava para comprar o jornal a um ardina que sacava Comércios do Porto semi-húmidos de dentro dum saco de oleado grosso, amarelo-vivo. Essa pequena paragem para abastecer os cidadãos de informação diária causava sempre algum engarrafamento. Foi por isso que cheguei com alguns dez minutos de atraso ao meu primeiro dia de escola. E foi durante esses dez minutos fundamentais que todos os outros vinte e tal recém-iniciados no longo calvário escolar pelo qual todos passamos criaram laços. Choro e ranger de dentes, os pais e as mães a virarem costas, «meninos, esta é a professora Antónia, digam olá», «oláááááá!», esses trâmites normais. Já eu, quando cheguei à Sala das Joaninhas, encontrei um ecossistema perfeitamente estabilizado, assente em milénios e milénios de harmonização e auto-ajuste. Grupinhos feitos, crianças a brincar e a rir, e eu, o forasteiro.

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No Colégio Luso-Francês andava-se de bata. As batas tinham o logótipo bordado, CLF. E a minha avó, sendo a minha avó, tinha tratado de fazer, ela própria, a minha bata, num azul ligeiramente diferente e com o logótipo nitidamente maior. Como eu era mais alto que os outros, mais tímido e menos esperto, de uniforme desgarrado, vi-me ali à rasca. E os outros todos na maior, a saberem de coisas que eu não sabia. Essa sensação de que o colectivo dispõe de informação que me é vedada, de que o resto das pessoas está a par de formalidades das quais só a mim é que ninguém avisou, é algo que me acompanha até hoje.

Vejo-me aflito na vida real. Meto-me numa fila e toda a gente tem um impresso na mão que só eu é que não faço ideia que era preciso ter tirado, nem onde se tira. Não consigo tratar de nada. Compro bilhetes de avião online a 12 euros, clico no OK e aparece «Parabéns, conseguiu os seus bilhetes», e no total, afinal, são 200 e tal euros. Aparece-me uma carta em casa e não a abro, nem lhe toco, deixo-a ali quietinha na esperança de que tudo se resolva por si, que as letras a dizer Ministério Público desapareçam por milagre, como as fotografias no Regresso ao Futuro 1. Numa situação que envolva senhas, impressos, reque­rimentos e papelada vária, sinto-me sempre muito aquém de todos os outros. Sou o Indiana Jones a tentar sair vivo de Ankara. É por isso que a vida me tornou num espectador dela mesma. A vida real é-me vedada por falta de esperteza e desembaraço e só me resta observar da varanda.

Foi por essas e por outras que me agarrei à viola que os meus pais me ofereceram no Natal de 1990 como um náufrago se agarra a uma bóia. Por falta de alternativa. Por uma sorte inacreditável e que nem sequer é propriamente merecida, encontrei um lugar no mundo através da música popular. Graças a ela, ando por aí como uma barata tonta de terra em terra e tenho sempre um prato de comida quente, cama e roupa lavada e a papelada toda em ordem. Não fosse isso e ainda hoje me sentava no passeio à espera que a minha mãe me viesse buscar.

Por esta sucessão de milagres, tenho mais facilidade em conceber um refrão do que a ideia de preencher uma folha de IRS. Sem ela, o mais certo era eu acabar um indigente, um pária, um inimputável. Benditos dez minutos. Bendita chuva. Bendito saco amarelo e bendita bata azul. Se não fosse o vendedor de Comércios do Porto e a máquina de costura da minha avó, o que é que havia de ser de mim.

Teseu foi o herói grego que enfrentou o minotauro e salvou a princesa Ariadne. A grande dificuldade não era propriamente enfrentar a monstruosa e bovina criatura, era mesmo atravessar o labirinto onde este ardiloso vilão mantinha cativa a desditosa princesa. Todos os que se aventuravam pelo labirinto de Dédalo acabavam por se perder. Teseu foi salvo por um fiozinho que foi largando pelo caminho e que lhe permitiu regressar ao lugar donde havia partido na sua heróica empreitada.

O fio de Ariadne é o fiozinho que permite regressar sempre ao local da partida, desfazendo o caminho que foi feito. Todos nascemos com um fiozinho de Ariadne agarrado, um frágil cordão de linha que nos prende ao lugar onde nascemos. À casa, à família, aos lugares da infância. Calcorreamos o planeta como quem se aventura por um labirinto, mas há sempre o tal fiozinho umbilical a ser constantemente recolhido pelo carreto da raiz, exercendo em cada um de nós uma força, confortável e incómoda, que puxa levezinho, constantemente.

Mas depois, com o passar do tempo, as pessoas e os lugares vão desaparecendo aos poucos, até que esse fio, de tão esticado, se parte em definitivo. Talvez seja isso a entrada na «vida adulta». Um dia reparamos e, sem dar por isso, passamos nós a ser o carreto que puxará o fiozinho de nylon que agarrará os nossos filhos à casa da partida. É quase como deixarmos de ter direito ao nosso lugar, para passarmos a ter o dever de ser o lugar de outros. Passarmos a ser eixo.

Se fizermos isso direitinho, um dia os nossos filhos recolhem o fio deles e embrulham tudo num cesto de boas lembranças, que é como as minhas são. Os meus pais, as praias de Ofir, a casa da minha avó, principalmente a casa da minha avó. Bizarra, cheia de pessoas únicas, originais, varridas. Até o fantasma dum velho havia por lá. Era uma casa de mulheres, comandada por mulheres. A normalidade que me foi oferecida logo à nascença distanciava-se muito da norma que pude mais tarde constatar na infância dos meus amigos. O vórtex implacável que puxa tudo e todos para o epicentro da norma não passou seguramente por aquela casa. Do que eu me safei.

O meu último álbum chama-se Giesta, que é o lugar onde ficava essa casa. Esse disco foi gravado na altura em que a casa dos meus avós paternos, em Águas Santas, foi vendida. O meu último tio a viver lá morreu durante as gravações. A casa da minha avó materna já não existe. As pessoas mais velhas da minha família já morreram todas. As memórias da minha infância são apenas e só isso mesmo: memórias. As últimas coisas que me poderiam eventualmente fazer voltar ao lugar onde eu nasci não existem mais. Este disco é uma homenagem a todas as pessoas da minha família que já morreram, em especial à minha avó Helena. Foi na casa dela que cresci. Mas, apesar de ser um bocado melancólico, não é um acto saudosista, porque eu não o sou.

Acho até que a língua portuguesa, tão orgulhosa da sua palavra «saudade», falha em apresentar uma palavra para o seu antónimo. Será eventualmente esse antónimo de saudade que melhor caracteriza o sentimento que eu tenho para com todas as fases anteriores da minha vida. Tal como a saudade, esse oposto de saudade não é uma coisa má. É um sentimento de que as coisas se resolveram todas, a sensação de que ainda bem que no horizonte não está nada senão o que há-de vir. A saudade, esse bicho autofágico que se mata saciando-se a si próprio, tem no sentimento que se lhe opõe diametralmente, órfão de nome, um outro bicho que se mata à fome. Na minha vida, calho de ser acometido por este último sentimento. Prezo e guardo todas as memórias das várias fases da minha vida até aqui e sinto pelo passado o exacto oposto da vontade de lá voltar.

Não trocava a minha infância por nenhuma outra. O fio de Ariadne que me prendia à Giesta pode ter partido, de tão esticado pelas andanças da vida, mas, se me quiserem levar as lembranças, vão ter que se haver com o chicote de couro que a minha avó tinha pendurado atrás da porta da despensa para correr com os gatunos.

Espero que os meus filhos possam um dia pensar o mesmo daquilo que a minha mulher e eu estamos a tentar fazer por eles.

Eu aprecio a ideia de férias mas não as férias em si. Aprecio planear as férias futuras. Aprecio a memória de férias passadas. Mas não as férias em si. Gosto de ir de férias. Mas não gosto de estar de férias.

O idílio é onde quer que uma pessoa não esteja. Aquele vórtex que nos suga para a parte de dentro da nossa vida diária faz-nos sonhar com o azul do mar, que é sempre mais azul nos nossos sonhos do que no seu azul concreto. Depois uma pessoa vai e está vento, estacionou longe, há uma picada de mosquito que dói, não tomou café ou há um filho que reclama, e o idílio era mas é a nossa casa, a nossa vida. Sonha-se com o café Moreira e com o levar os filhos à escola. Tem-se saudades de camisolas de lã e de castanhas assadas. Tem-se saudades da almofada de casa. E é neste ciclo que uma pessoa pendula. Corre-se atrás do sonho como o cão que corre em rodopio alucinado atrás da cauda. Só porque nunca a apanha. Se a abocanhasse, o que é que ele faria com o raio da cauda? Logo dela desdenharia. É só uma cauda. O que é que uma pessoa faz no Algarve? O que é que uma pessoa faz com o Euromilhões? (Eu nunca joguei o Euromilhões, tenho medo que me saia o primeiro prémio.)

O primeiro homem desceu dum galho e enfiou-se numa gruta. Acordou no dia seguinte, bocejou, esfregou os olhos e começou logo a pensar numa maneira de se pôr a andar dali para fora. Para um sítio melhor. Com mais sol. Com mais rede de telemóvel. Começou logo a tentar saltar para cima do dorso de algum equídeo. Devemos a ...