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OURO, PRATA E SILVA

Miguel Szymanski  

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Excerto

Prólogo

Num dia normal, teria passado a manhã em casa a beber chá. O quarto não tinha estores nem cortinados nas janelas e, à primeira claridade, acordava com os olhos subitamente abertos. Mas nessa manhã saíra cedo, com um termo de aço e vidro debaixo do braço, com o seu chá preferido, um darjeeling floral e leve. Comprava o chá de três em três meses, avulso, na Casa Pereira da Conceição na Baixa de Lisboa, naquele que era um dos pontos altos da sua vida social. Os velhotes que trabalhavam na loja, de quem se lembrava desde criança, já lá não estavam, o último tinha desaparecido no início do ano. Agora era uma mulher jovem que atendia os clientes, eficiente e de sorriso no rosto como uma hospedeira de bordo.

No curto caminho de casa para o armazém, cruzou-se com um homem de uma carrinha de distribuição de pão que acabara de atar uma saca de papel pardo à porta da mercearia do outro lado da rua e olhava interessado na sua direcção. Acenou-lhe de longe. A sua disposição era invulgarmente boa nessa manhã de Primavera. O sol batia-lhe na cara. Não havia mais ninguém na rua. Hesitou. O homem do pão, ao longe, retribuiu com uma expressão facial que lhe pareceu lasciva. Sim, não havia dúvida. Reprimiu a vontade de atravessar a rua e de lhe dar dois tabefes. Apetecia-lhe partir-lhe a cara. Poderia fazê-lo, se quisesse. Apesar da doença, o treino de pesos e de artes marciais, que cumpria, nos dias normais, das 15 às 19 horas, chegava e sobrava para lhe tirar o esgar nojento do rosto. Mas não queria chamar atenções sobre si. Estes não eram dias normais.

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Finalmente, era hora de pôr o plano em prática. Estava quase a chegar à entrada do velho armazém, com a sua fachada cor-de-rosa-velho e parte da tinta arrancada pelo tempo, uma construção cheia de altos-relevos e cantarias trabalhadas, um antigo depósito de mercadorias que fazia parte de uma casa senhorial. O portão estava ligeiramente recuado em relação à estrada, numa zona mais larga do passeio, em calçada portuguesa, semiescondido entre as árvores tropicais de Lisboa. Olhou para o céu azul através das ramagens verdes e frescas das tipuanas de grande porte. Em frente ao portão de madeira, trancado por um pesado cadeado, estava a data, desenhada no passeio com pedras azuladas no empedrado branco: 1922.

Tinha três dias para acabar o «quarto de hóspedes». Queria que tudo estivesse perfeito para receber o homem a quem estava destinado. Rodou a chave no cadeado de segurança que prendia a pesada corrente coberta de ferrugem. Certificou-se de que só mesmo se alguém parasse entre as duas árvores mais próximas, que ladeavam a entrada, se aperceberia de que o portão estava a ser aberto.

Organizou as ferramentas sobre uma bancada de trabalho e verificou minuciosamente a máquina de soldar. Enquanto trabalhava, repetia palavras de ódio como se fossem mantras. O suor escorria-lhe pelas têmporas. O homem que lhe destruíra a vida merecia o castigo que estava a preparar. Arrancara a melhor parte de si como quem arranca uma erva daninha, deixara um rasto de destruição que se convertera em doença. Era um assassino, não havia dúvidas. Havia dívidas, isso sim, e pagaria por elas.

A máscara de soldar em fibra vulcanizada tapava-lhe o rosto. No visor escurecido espelhava-se o espaço do armazém que parecia ser usado como garagem. O trabalho era pesado, mas sentia-o leve como uma brincadeira. Era como se fosse de novo criança, a viajar pelo seu próprio sonho numa aventura cujo desfecho decidiria.

Mesmo com a grua manual, fora um trabalho hercúleo tirar as duas primeiras placas de aço da carrinha de caixa aberta. Trabalhar sem interrupções e a sós tinha as suas desvantagens, mas as vantagens compensavam. Desprezava o conceito de equipa, de trabalho em grupo. Detestava estar com outras pessoas. Duas das paredes de aço estavam de pé, solidamente soldadas em ângulos de 90 º, e compunham o primeiro canto da cela. Olhou a obra incipiente com um misto de reverência e orgulho. Levantou a pala do visor e debruçou-se para consultar o desenho que fizera em papel vegetal. Tinha uma figura esguia e a camisa de alças brancas deixava ver os braços longos e musculados.

Fazer o sarcófago com as próprias mãos era terapêutico e calmante. E a construção em aço no meio do armazém oferecia outra vantagem: no Dia C — chamara-lhe assim por razões evidentes —, ser-lhe-ia possível tirar o prisioneiro do carro e transferi-lo para a cela sem correr o risco de alguém observar a operação.

Restava saber como o retiraria do apartamento da amante e o levaria para o carro. E o que faria com a rapariga. Por enquanto, não queria preocupar-se com as questões de logística da noite da captura. Um assunto de cada vez. O seu pai costumava dizer que devia encarar-se a vida como os condutores dos eléctricos de Lisboa, que aceleram sem hesitação pelas vielas. Bastava manter a velocidade e o rumo, que a maior parte dos obstáculos desapareceria por si na altura certa. Trabalhou nove horas seguidas sem interrupções, sem sentir cansaço. Entreteve-se a pensar no que faria a tanto dinheiro. Ao final da tarde, de boné e óculos escuros, saiu com passadas rápidas, ainda sob o efeito da adrenalina. Resolveu caminhar pelas ruas para se acalmar antes de regressar a casa. Nem se irritou com os olhares de dois homens que estavam encostados à entrada de uma mercearia.

3 de Junho, sexta-feira

Marcelo Silva aterrara em Lisboa com seis horas de atraso depois de uma pretensa ameaça terrorista em Berlim, que afinal não passara duma brincadeira de adolescentes para paralisar o aeroporto. À despedida, a tia Anne, de boquilha entalada entre os lábios azulados na cara com rugas, como uma teia de aranha, bem o avisara de que, nos tempos que corriam, era mais prudente viajar de comboio.

O táxi parou à porta do velho prédio residencial em frente ao Hotel Príncipe Real. Marcelo entrou no hall de pé-direito alto, chão de mosaico branco e o característico cheiro a humidade vegetal do Jardim Botânico, que começava nas traseiras do prédio. Abriu a porta do apartamento e, sem olhar em volta, pousou a pequena mala de viagem e abriu as portadas de madeira da janela do hall no rés-do-chão. Saiu de seguida, ansioso por esvaziar a cabeça enquanto andava a pé pela cidade depois de muitas horas sentado. Subiu a rua e as escadas da Mãe d’Água. Já no topo, acenou a dois empregados que fumavam à porta de um restaurante. Na passagem pela Praça do Príncipe Real, cumprimentou um vizinho, o velho realizador de cabelo branco curto, invariavelmente sentado a uma mesa da esplanada. Começou a descer a rua mais íngreme em direcção ao Tejo. Lá para a frente, subiria outra, na direcção oposta. Caminhava sem rumo, sem pensar em nada. Só por um breve instante registou o contraste entre Berlim e Lisboa. A primeira, um grande espaço imperial, cinzento e amplo, no centro da Europa, a segunda, um mundo de minúsculos bairros coloridos e entrelaçados à beira de um braço do Atlântico. Em Lisboa, era como se todas as pessoas quase se tocassem, ombro com ombro, ao passarem umas pelas outras. Ao longe, do outro lado da rua, pareceu-lhe ver, por entre carros e autocarros, um vulto de boné e óculos escuros a andar a passos largos ao sol. A luz encandeava-o. Protegeu os olhos. Não podia ser, àquela hora da tarde e com aquela indumentária. Afastou as memórias e seguiu caminho.

Voltou a pensar na sua decisão. Sentia-se desconfortável por deixar a liberdade de jornalista por conta própria para entrar na engrenagem do aparelho do Estado. «Vou ser o superpolícia.» Sorriu, sarcástico.

Resolvera dar um passeio pelas ruas de Lisboa antes de passar pelo seu futuro local de trabalho para entregar os papéis que faltavam. Começava já depois do fim-de-semana, mas ainda faltava um papel. Faltava sempre qualquer coisa quando era preciso entregar documentação ao Estado, um papel a dizer que não era um criminoso, um documento a comprovar que não tinha dívidas, um atestado a dizer que era um cidadão educado, certificados, cópias e declarações. A burocracia suga a energia antes de se começar a trabalhar.

Entrou por uma rua estreita, olhou para cima, para o céu azul entre as casas. Peças de roupa esvoaçavam ao sol. O receio de Marcelo era que lhe caíssem pedaços de pedra das fachadas, vasos ou uma peça dos gradeamentos das centenas de pequenas varandas enferrujadas e quase soltas. Há meia dúzia de anos, os guias turísticos ainda falavam do charme decadente de Lisboa. Com o avançar da crise, os jornalistas de viagem começaram a escrever sobre o seu «charme mórbido». E agora, enquanto o interior do país se transformava num deserto, Lisboa fervilhava de turistas em busca de exotismo, de vinho barato, de céu azul, de praias paradisíacas e de sol. Lisboa era, por instantes, ou para durar, ninguém o sabia, a nova metrópole dos temporariamente cansados de civilização, uma mistura de Istambul e Marraquexe mesmo à porta de casa, a três horas de voo de Paris, Londres ou Berlim, segura e pacata.

Por todo o lado abriam, sob os agora omnipresentes toldos pretos da moda nas entradas, novos restaurantes de luxo, bares de ostras, tascas que só serviam conservas, casas de tapas e lojas de fast food. Jovens solteiros, profissionais independentes, reformados ou casais prósperos do mundo inteiro procuravam casa em Lisboa. Entre os milhares de edifícios decrépitos, abandonados e emparedados da capital, muitos estavam a ser restaurados e lançados no mercado a preços exorbitantes que já quase nenhum português podia pagar. Nos parques, onde antes um grupo de velhotes jogava às cartas, havia agora turistas a apanhar banhos de sol deitados na relva, de fato de banho, e jovens estrangeiros a fazer piqueniques. Pelos passeios da capital via-se turistas a caminhar descalços com os sapatos nas mãos, como se o país já fosse aquilo em que se estava a transformar: um grande areal à beira-mar, um parque de diversões.

A viela por onde Marcelo se enfiara era tão estreita que as pessoas nas janelas quase podiam estender e dar as mãos de um lado da rua para o outro. O motor de um carro a acelerar fê-lo saltar para o lado e encostar-se à porta de uma casa, junto a um passeio pouco mais largo do que dois palmos de uma mão de criança. Um carro desportivo, conduzido por um jovem louro de cabelo despenteado, acelerou na sua direcção, vindo da praça ao fundo da rua, e fez-lhe uma tangente tal, que Marcelo ainda sentira a deslocação de ar provocada pelos espelhos retrovisores.

— Doido! — gritou. Encostado à parede, ainda vira, através do vidro, a cara do jovem e um ramo de rosas.

Da pequena porta verde de uma estreita casa de três andares saiu uma senhora de avental e com o cabelo apanhado. Perguntou-lhe se estava bem, se não queria um copo de água. Marcelo esticou as abas do velho casaco de linho azul-desbotado, alisou-as e declinou a oferta com palavras amáveis, finalizou com uma ligeira vénia de agradecimento e seguiu caminho.

Chegou a uma praça onde terminava o bairro degradado e começava uma zona de construções modernas, edifícios de escritórios em vidro e aço, mármore e pedra, com pórticos e colunas à volta da praça rectangular. Só um velho palacete sobrevivera, há décadas em ruínas, com tijolos vermelhos a tapar as janelas e com todas as portas e reentrâncias emparedadas, para evitar que fosse utilizado como alojamento dos sem-abrigo que vagueavam sem rumo pela cidade.

Caminhou em direcção à mais alta torre de vidro espelhado, a nova sede que reunia num só local várias autoridades policiais e institutos de supervisão económica. Começaria a trabalhar ali dentro de três dias. Levou a mão ao peito para confirmar que os papéis que tinha de entregar ainda se encontravam dobrados no bolso interior do casaco. Em frente ao edifício, os dois polícias, de uniforme e com metralhadoras presas à altura da cintura, olharam desconfiados na sua direcção.

Marcelo semicerrou os olhos, irritado, e enrugou a testa por baixo de uma mecha de cabelo desgrenhada. Eram frequentes as notícias das acções de agentes da polícia económica, que entravam, armados, em cafés e restaurantes, em lojas e pequenas empresas, às vezes por uma bagatela, outras por multas não pagas, outras ainda por causa de esplanadas sem licenciamento, horários de abertura que não eram cumpridos ou preços mal afixados. Viam tudo e cobravam por tudo. Já as autoridades de supervisão que controlavam os Bancos, as empresas cotadas na Bolsa e os crimes de colarinho branco, os polícias da Banca e da Bolsa, tinham a fama, e possivelmente o proveito, de ser mais benevolentes, quando não mesmo cegos. Agora estavam todos metidos no mesmo quartel-general, conhecido como «o instituto», tão espelhado que ninguém sabia o que se passava lá dentro. Marcelo hesitou antes de entrar no seu futuro local de trabalho.

Parou junto a um pequeno quiosque no passeio em frente ao instituto. A maior parte dos outros quiosques no centro eram agora lojas de recordações ou vendiam bebidas e tinham esplanada, como se fossem cafés. Este era uma excepção e ainda vendia jornais. Os poucos jornais portugueses estavam meticulosamente arrumados numa parede lateral, presos com molas pretas uns aos outros. «À antiga», pensou Marcelo. Durante os últimos vinte anos, trabalhara como jornalista, e aquilo era o que sobrava. Cada jornal que desaparecera era uma fase extinta da vida de Marcelo. Atrás de cada título que faltava no escaparate, via os rostos de colegas, de amigos, de amantes, caras perdidas no desemprego, emigradas, desaparecidas, caídas no alcoolismo e noutros abismos.

Sentiu que tomara a decisão certa. Mesmo no estertor final, a imprensa em Portugal continuava a ser um negócio controlado por banqueiros, empresários das mais diversas áreas, personagens com cadastro, investidores com capital de origem criminosa e testas-de-ferro de interesses obscuros.

Sabia que Lisboa não era Berlim, com dezenas de jornais que as pessoas liam em todo o lado, no metro, nas mesas de café, nas paragens de autocarro, onde as parangonas faziam cair ministros e presidentes em poucos dias. Em Lisboa, nada disso acontecia. Qualquer que fosse o escândalo revelado pela imprensa, o entretenimento nas televisões acabava por desviar as atenções. Mas Marcelo não queria viver em Berlim, queria viver em Lisboa. Se a sua intenção era contribuir para a mudança de um regime corrupto no país onde optara por morar — Marcelo admitia-o, finalmente —, teria de o fazer do lado do poder e da autoridade. Não do lado da pena enferrujada, mas do lado da espada afiada.

— Está tudo bem consigo, chefe? — perguntou-lhe o dono do quiosque, de camisa aberta até meio do peito.

Marcelo tirou dois jornais, os mais vendidos, o Expresso e o Correio da Manhã. Juntou-os às três revistas que já tinha debaixo do braço.

— O senhor é o primeiro cliente à séria que tenho hoje — disse-lhe o homem do boné com um sorriso da largura do bigode.

— Ali os seus vizinhos da superpolícia também têm de se manter informados. Ou não? — perguntou Marcelo.

— Ah, aquilo é gente como do tempo da ditadura, primeiro batem e só depois é que querem saber o que se passa.

— Veja lá o que diz, não me assuste, que na próxima segunda-feira vou começar a trabalhar com essa gente — disse Marcelo, fingindo-se surpreendido.

As pontas do bigode agitaram-se. O homem fez primeiro uma cara assustada, que mudou depois para uma expressão provocadora e finalmente se transformou em espanto.

— Ah, mas agora estou a reconhecê-lo! O senhor é o Marcelo Silva, o jornalista que queriam calar e prender naquele caso da fundação, é ou não é? Já tinha ouvido aqui uma conversa entre dois especialistas em criminalidade a comentar que o senhor doutor vinha para comandar uma unidade especial de corrida. Então vai mesmo juntar-se a eles?

— Não, não me vou juntar a ninguém. Vamos fazer coisas separadas. Eles batem nos pequenos, eu vou bater nos grandes.

O homem sorriu, meio satisfeito, meio céptico, com o lado direito do bigode torcido para cima.

— Se alguém conseguir isso, será o senhor, Dr. Marcelo. Mas cautela, que com aqueles ali não se brinca — disse, apontando para o instituto.

— Se precisar de ajuda, chamo-o a si. E pode tratar-me por Marcelo.

— Sim, conte aqui com o mestre Felizardo, de sua graça, que comigo não brincam. — O homem deixou uma mão desaparecer atrás do balcão, olhou para a esquerda e para a direita para se certificar de que ninguém estava a vê-lo e começou a gesticular no ar com uma pistola ferrugenta, grande como um ferro de engomar.

Marcelo recuou um passo.

— É bom que ninguém saiba disso, se não ainda lançam um míssil e o seu quiosque vai pelos ares.

Pagou com uma nota de cinquenta euros e encaminhou-se para a entrada do edifício. O dono do quiosque seguiu-o com o olhar e virou-se quando ouviu a voz de um jovem musculado de calções e óculos escuros que parara atrás do quiosque. «Atenção, central, T4 entra na sede.»

Uma hora antes de Marcelo entrar no prédio, José Manuel Paiva Melo, o presidente da chamada polícia da Bolsa, uma das altas autoridades alojadas no instituto, gritava, exaltado, no seu gabinete no topo do edifício.

— Nunca vi nada assim durante a minha presidência! Você faz ideia de quem é que está a falar? — repetia o homem de cabeça rapada, barba de dez dias aparada na perfeição e um vasto lenço de seda com padrão de cornucópias à volta do pescoço grosso.

Inclinou-se mais para a frente e fez uma pausa. Pela janela que ocupava todo o fundo do escritório via-se, ao longe, um navio porta-contentores a atravessar a grande mancha de água azul do estuário do Tejo. Lentamente, voltou a endireitar as costas na cadeira giratória de couro e alumínio, afrouxou o lenço sob a abundante papada debaixo do queixo e empurrou os óculos de massa como se os quisesse colar à cara. Prolongou a pausa dramática, virou a palma da mão direita para cima e aproximou-a dos óculos com os dedos flectidos, para observar de perto as unhas protegidas por uma fina camada de verniz translúcido. Ainda de sobrancelhas arqueadas por detrás dos aros de tartaruga, acumulou ar nas bochechas, com os lábios fechados. Inclinou-se de novo para a frente. De um fôlego, expeliu o ar comprimido, a bufar um sofisticado «ápú», como os falantes de língua francesa quando estão indignados.

— Faz a mais pálida ideia de quem está a falar? Isto é só para fazer figuras tristes ou está mesmo a querer arruinar a sua carreira? O Dr. António Carmona é um dos mais conceituados nomes da alta finança! O Banco de Valor Global está no ranking das sociedades financeiras mais prestigiadas da Europa. Carmona é um dos maiores proprietários rurais de Portugal. Além disso, é meu amigo pessoal! — Paiva Melo era o género de pessoa que dizia coisas como «meu amigo pessoal» ou «faleceu› em vez de «morreu».

Pegou com desdém na pasta de cartolina castanha com o logótipo da polícia da Bolsa de Valores e agitou-a na mão direita.

— Nós somos a autoridade de supervisão do mercado de valores mobiliários, não somos caceteiros à mão-armada, como os nossos novos vizinhos da polícia económica dos andares de baixo. Agora aparece-me você, que não está aqui nem há seis meses, e envia-me por correio interno este pastiche! Meia dúzia de páginas, rumores e fórmulas atabalhoadas para concluir que há «elementos que consubstanciam graves irregularidades no BVG»? Acha que nós aqui somos uma cambada de idiotas, é isso? — Atirou o relatório, que voou rente ao tampo da mesa até aterrar em equilíbrio precário no extremo mais próximo do jovem técnico, de camisa azul-clara com manchas de suor nas axilas e gravata à banda.

Antes de subir ao sexto piso da presidência e apesar de ser casual friday, pusera a gravata encarnada — guardava-a, para situações de emergência, numa gaveta do armário do seu minúsculo gabinete junto às salas técnicas na cave. Passava com rapidez a mão pelo cabelo louro artisticamente despenteado, sem manifestar intenções de pegar na pasta de cartolina. De uma forma estranha, tomava consciência das suas orelhas ou, para ser mais rigoroso, dos respectivos lóbulos. Os espaçadores de ouro introduzidos nos orifícios dos lóbulos faziam as orelhas aumentar de tamanho. Não tinha tatuagens nem nunca antes usara brincos. Sentira-se atraído pelo apelo atávico das orelhas pendentes. Orelhas ao vento, como asas. Imaginava-se uma ave. Agora estava de pé, um soldado de chumbo recortado contra o azul da superfície da água do estuário do Tejo, que se estendia a perder de vista para lá da janela panorâmica do gabinete do presidente da polícia da Bolsa.

— Não faça esse ar de anjinho, sabe que sou amigo do seu pai, mas isso não lhe dá o direito de vir para aqui atirar o barro à parede! Eu sei que o seu pai também anda preocupado consigo. Você tem aqui um cargo de responsabilidade, safa. Seja um homenzinho. Leve este simulacro de relatório daqui e vá pensar na vida, pense no futuro! Quando eu era da sua idade… — prosseguiu enquanto voltava a inspeccionar de perto as unhas envernizadas.

O jovem baixou a cara com duas grandes rosetas nas bochechas carnudas e deixou de prestar atenção. Um cão de orelhas penduradas caído em desgraça, mais ansioso do que abatido. Dentro de três horas, se houvesse muito trânsito, seriam quatro, estaria no Algarve, no apartamento da namorada. Após uma refeição à luz das velas, fariam amor «apaixonadamente», como ela dizia.

«A seguir desapareço logo», pensou. Dir-lhe-ia que tinha de estar na Quinta do Lago, na casa de férias dos pais, antes da meia-noite porque se esquecera do comando do portão ou qualquer coisa do género. Uma desculpa brilhante, suficientemente verosímil para ela acreditar. Passara toda a semana a trabalhar nas tabelas com o seu novo método de apostas de valores fraccionados e agora, sim, o seu jogo seria imbatível. Precisava de ter calma, só isso. Durante o fim-de-semana, de acordo com os seus cálculos, talvez ainda antes da meia-noite de domingo, recuperaria as perdas dos últimos três fins-de-semana. Com o novo método, a sorte seria só residual, e mesmo essa, pressentia, estava prestes a mudar. Se tudo corresse de acordo com a estratégia que delineara, sairia do casino com um lucro de cerca de trinta mil euros, com uma margem de erro de 15% e uma probabilidade de perda total inferior a 3%. Mas… e se Marion resolvesse sair de casa, se resolvesse entrar no casino, que ficava mesmo ao lado do bloco de apartamentos, e desse de caras com ele? A probabilidade de estes «se» se verificarem era muito remota, isso não ia acontecer, pensou. Se fizesse bem as coisas. Bastava isso. A rapariga estaria exausta quando saísse da joalharia no centro comercial onde trabalhava até às nove, mais ainda se a deixasse ficar em cima dele o tempo suficiente no sofá da sala. Por instantes, gozou a imagem, deitado a segurar Marion pela cintura enquanto a voz do presidente discorria em pano de fundo. «Esse Carmona e o seu BVG não me vão estragar o fim-de-semana», pensou. Enganava-se.

Já perdera demasiado tempo com os relatórios e as folhas de cálculo com os históricos das operações do Banco e as ramificações off-shore. Não queria saber do assunto, a vida era mais do que andar de fato e gravata num instituto gerido por mentecaptos a quem tentava explicar coisas básicas, que, aparentemente, não queriam perceber. Sentia-se eufórico, excitado. Não sabia se isso se devia à perspectiva do jogo ou do sexo. Estava convencido de que não era um jogador descontrolado. Os jogadores empedernidos sofriam de libido reduzida, lera isso algures. Ele não.

Menos de uma hora mais tarde, já o jovem técnico da comissão de Bolsa acelerava o seu carro pela Avenida Marquês da Fronteira, com mudanças rápidas de faixa, em direcção à velha Ponte 25 de Abril. Esquecera a repreensão do presidente e as anomalias que detectara no Banco do tal Carmona. Atrasara-se quase meia hora para comprar um ramo de rosas à namorada. Compensá-la-ia antecipadamente, para que lhe perdoasse quando batesse em retirada logo após o jantar.

Dois reclusos do Estabelecimento Prisional de Lisboa, um edifício histórico a fazer lembrar uma versão Playmobil de um castelo medieval, observavam pelas janelas de grades a passagem dos carros a caminho do fim-de-semana. Eram dois privilegiados: a cela tinha vista para a rua. Por instantes, Paulo M. fixou o olhar no Mercedes desportivo.

— Grande bomba, aquela! — comentou ao seu lado o companheiro de cela, um velho com a cara à banda, como a de quem teve uma trombose.

Paulo M. gostava do velhote que já levava oito anos atrás das grades. Não lh ...