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OS MENINOS DA CAMORRA

Roberto Saviano

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Excerto

O emporcalhamento

— Estás a olhar para mim?

— Ó meu, estou-me a cagar para ti.

— Então porque é que estás a olhar?

— Olha, mano, deves estar a confundir! Eu estou-me nas tintas para ti.

Renatino estava com os outros rapazes, há bastante tempo que o tinham visado por entre a selva de corpos, mas, quando deu por isso, já estava cercado por quatro deles. O olhar é território, é pátria, olhar para alguém é entrar na sua casa sem autorização. Fitar alguém é invadir a pessoa. Não desviar o olhar é manifestação de poder.

Ocupavam o centro da praça. Uma praceta fechada num golfo de prédios, com uma única via de acesso, um único café à esquina e uma palmeira que, por si só, tinha o poder de lhe dar um ar exótico. Aquela planta assente em poucos metros quadrados de terra transformava a percepção das fachadas, das janelas e dos portões, como se tivesse vindo da Piazza Bellini com uma rajada de vento.

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Nenhum deles tinha mais de dezasseis anos. Aproximaram-se, respirando o bafo uns dos outros. Já estavam a desafiar-se. Nariz com nariz, pronta a cabeçada no septo nasal, se Briato’ não tivesse intervindo. Interpusera o seu corpo, uma muralha que marcava uma fronteira.

— Ainda não te calaste! Ainda estás a falar! Nem baixas o olhar, porra.

Renatino não baixava o olhar por vergonha. No entanto, se tivesse podido sair daquela situação com um gesto de submissão, tê-lo-ia feito com gosto. Baixar a cabeça, até ficar de joelhos. Eram muitos contra um: quando é preciso vattere em alguém, as regras de honra não contam. «Vattere», em napolitano, não é simplesmente traduzível por «bater». Como acontece nas línguas da carne, vattere é verbo que ultrapassa o seu significado. Vatte-te a tua mãe, bate-te a polícia, vatte-te o teu pai ou o teu avô, bate-te o professor primário, vatte-te a tua namorada, se o teu olhar se demora demais noutra rapariga.

Vatte-se com toda a força que se tem, com ressentimento verdadeiro e sem regras. E, sobretudo, vatte-se com uma certa e ambígua proximidade. Vatte-se em quem se conhece, bate-se em quem é desconhecido. Vatte-se em quem está próximo por território, cultura, conhecimento, em quem faz parte da nossa vida; bate-se em quem não tem nada a ver connosco.

— Fartas-te de pôr «gosto» em todas as fotos da Letizia. Pões comentários a torto e a direito e, quando venho aqui à praceta, ainda ficas a olhar para mim? — acusou-o Nicolas. E, ao falar, trespassou Renatino como um insecto com os alfinetes pretos que tinha no lugar dos olhos.

— Eu nem olho para ti. Aliás, se a Letizia põe as fotos, significa que eu posso pôr comentários e «gosto».

— E, portanto, achas que não te devia vattere?

— Estás a chatear-me os cornos, Nicolas.

Nicolas começou a empurrá-lo e a puxá-lo: o corpo de Renatino tropeçava nos pés que estavam a seu lado e ricocheteava nos corpos à frente de Nicolas, como nas tabelas de um bilhar. Briato’ lançou-o para Dragão, que o agarrou com um braço só e o atirou contra Tucano. Este fingiu atingi-lo com a cabeça, antes de o devolver a Nicolas. O plano era outro.

— Oh, que porra é essa! Oh!!!

A sua voz parecia de um animal, ou melhor, de um cachorro amedrontado. Repetia um único som, que saía como uma oração para implorar salvação.

— Oh!!!

Um som seco. Um «oh» gutural, símio, desesperado. Pedir socorro era a assinatura por baixo da sua cobardia, mas esperava que aquela vogal, que aliás era a última vogal da palavra «socorro», pudesse ser entendida como uma súplica, sem a humilhação máxima de ter de a explicitar.

À sua volta ninguém fazia nada, as raparigas foram-se embora como se estivesse prestes a começar um espectáculo ao qual não queriam nem podiam assistir. Os demais ficaram, quase fingindo não estar ali, um público que, pelo contrário, estava muito atento, mas pronto a jurar, se interpelado, que mantivera a cara no iPhone o tempo todo e que não dera por nada.

Nicolas lançou um olhar rápido para a praceta, depois, com um empurrão duro, derrubou Renatino. Este tentou levantar-se, mas um pontapé de Nicolas em pleno peito esmagou-o de novo no chão. Todos os quatro se dispuseram à sua volta.

Briato’ começou a prender-lhe as pernas, pelos tornozelos. De vez em quando, escapava-lhe uma, como uma enguia que procura voar baixo no ar, mas conseguia sempre evitar o pontapé na cara com o qual Renatino procurava desesperadamente acertar-lhe. Depois, envolveu-lhe as pernas com uma corrente, daquelas leves, que se utilizam para prender bicicletas aos postes.

— Está apertada! — disse, depois de fechar o cadeado.

Tucano cerrou-lhe as mãos com umas algemas de metal revestidas de pêlo vermelho, porventura arranjadas nalguma sex shop, e dava-lhe pontapés nos rins para o acalmar. Dragão segurava-lhe a cabeça com uma certa delicadeza aparente, como fazem os enfermeiros quando põem o colar cervical após um acidente.

Nicolas baixou as calças, virou-lhe costas e acocorou-se sobre o rosto de Renatino. Com um gesto rápido pegou nas mãos atadas para as segurar e começou a cagar-lhe na cara.

— O que te parece, Dragão? Achas que um homem de merda come merda?

— Eu acho que sim.

— Vá, já está a sair… bom apetite.

Renatino debatia-se e gritava, mas, ao ver sair a massa castanha, parou de repente e fechou tudo. Cerrou os lábios, franziu o nariz, contraiu o rosto, endureceu-o, esperando que se tornasse uma máscara. Dragão segurou a cabeça e só a largou quando o primeiro bocado caiu no rosto. E só o fez para não correr o risco de se sujar. A cabeça recomeçou a mexer-se, parecia enlouquecida, para a direita e para a esquerda, tentando afastar o bocado de merda que tinha caído entre o nariz e o lábio superior. Renatino conseguiu fazê-lo cair e voltou a gritar o seu desesperado «Oh!».

— Malta, vem aí o segundo… agarrem-no.

— Porra, Nicolas, comeste bastante…

Dragão voltou a segurar a cabeça, sempre com jeito de enfermeiro.

— Filhos da mãe! Oh!!! Oh!!! Filhos da mãe!!!

Gritava, impotente, mas calou-se assim que viu sair o segundo bocado do ânus de Nicolas. Um olho escuro e peludo, que, com dois espasmos, quebrou a serpente em dois pedaços arredondados.

— Ena pá, quase me apanhavas, Nico’.

— Dragão, queres também um bocado de tiramisù de merda?

O segundo pedaço caiu sobre os olhos. Renatino sentiu as mãos de Dragão a largá-lo e recomeçou a mover a cabeça histericamente, até ter vómitos. Depois, Nicolas pegou numa aba da camisola de Renatino e limpou o ânus, mas com calma, sem pressa.

Deixaram-no ali.

— Renati’, hás-de agradecer à minha mãe, sabes porquê? Porque me dá boa comida. Se eu comesse aquilo que a galdéria da tua mãe cozinha, agora cagava diarreia e tu tomavas um duche de merda.

Gargalhadas. Gargalhadas que queimavam todo o oxigénio na boca e os estrangulavam. Parecidos com os zurros do Trinca-Espinhas[1]. A mais banal das gargalhadas ostentadas. Gargalhadas de garotos, grosseiras, arrogantes, algo encenadas, para agradar. Tiraram a corrente dos tornozelos de Renatino, libertaram-no das algemas:

— Fica com elas, ofereço-tas.

Renatino sentou-se, segurando as algemas revestidas de pelúcia. Os outros afastaram-se, saíram da praceta vozeando e lançando-se sobre as motorizadas. Escaravelhos móveis, aceleraram sem motivo, travaram para evitar chocar uns com os outros. Desapareceram num ápice. Só Nicolas manteve os seus alfinetes pretos apontados até ao fim para Renatino. O movimento do ar desgrenhava-lhe o cabelo louro que, mais dia menos dia, já decidira, haveria de rapar à máquina zero. Depois, a motorizada onde ia à pendura levou-o para longe da praceta, e ficaram apenas silhuetas pretas.

Nuovo Maharaja

Forcella[2] é matéria de História. Matéria de carne secular. Matéria viva.

Está ali, nas rugas das ruelas que a marcam como uma cara batida pelo vento, o sentido deste nome. Forcella. Uma ida e uma bifurcação. Uma incógnita, que indica sempre de onde se arranca, mas nunca onde se chega, e se se chega. Uma rua-símbolo. De morte e ressurreição. Acolhe com o enorme retrato de São Januário pintado numa parede, que, da fachada de uma casa, observa quem entra e, com o seu olhar que toda a gente percebe, lembra que nunca é tarde para voltar a levantar-se, que a destruição, tal como a lava, se pode deter.

Forcella é uma história de recomeços. De cidades novas sobre cidades velhas, e de cidades novas que se tornam velhas. De cidades barulhentas e apinhadas, feitas de tufo e piperno[3]. Pedras que têm erguido todos os muros, traçado todas as ruas, modificado tudo, incluindo as pessoas que sempre trabalharam com esses materiais. Ou melhor, cultivaram. Pois diz-se que o piperno se cultiva, como se fosse um renque de videiras para regar. Pedras que se vão esgotando, porque cultivar a pedra significa consumi-la. Em Forcella também as pedras estão vivas, também elas respiram.

Os prédios estão colados a outros prédios, as varandas beijam-se realmente em Forcella. E com paixão. Mesmo quando entre elas passa uma rua. E quando não são as cordas da roupa a ligá-las, são as vozes que apertam a mão, que se chamam para dizer umas às outras que aquilo que passa lá em baixo não é asfalto, mas um rio atravessado por pontes invisíveis.

Sempre que, em Forcella, passava pelo Cippo[4], Nicolas sentia a mesma alegria. Lembrava-se de quando, dois anos antes, que mais pareciam dois séculos, tinham roubado a árvore de Natal na Galleria Umberto I e a tinham trazido para ali, bem erguida, com todas as suas bolas reluzentes, que já não reluziam, por não haver corrente para as alimentar. Fora assim que ganhara a atenção de Letizia, que, ao sair de casa na manhã do dia 23 de Dezembro, ao virar da esquina, tinha visto surgir a ponta, como nas fábulas, em que se semeia à noite e, ao nascer do Sol, eis que cresceu uma árvore que toca no céu. Naquele dia, ela tinha-o beijado.

Fora buscar a árvore à noite, com o grupo todo. Tinham saído de casa mal os pais se tinham ido deitar, e os dez, suando até não poder mais, tinham-na carregado aos seus ombros de garotos, procurando não fazer barulho, praguejando em voz baixa. Depois, tinham-na atado às motorizadas: Nicolas e Briato’, com Estava-a-Dizer e Dentinho à frente, os outros atrás, para manterem o tronco levantado. Tinha caído uma forte chuvada e não tinha sido fácil atravessar de motorizada os lamaçais e os verdadeiros rios de água vomitados pelos esgotos. Tinham as motorizadas, mas não a idade para as conduzir, mas tinham nascido ensinados, como eles diziam, e conseguiam desenrascar-se melhor do que os mais velhos. Porém, não tinha sido fácil sobre aquele véu de água. Pararam várias vezes para recuperar o fôlego e ajeitar as cordas, mas acabaram por conseguir. Tinham erguido a árvore dentro do bairro, tinham-na levado por entre as casas, por entre as pessoas. Até onde pertencia. Depois, à tarde, os falcões[5] da polícia tinham vindo recuperá-la, mas já pouco importava. A proeza estava alcançada.

Nicolas deixou o Cippo para trás com um sorriso e estacionou ao pé da casa de Letizia, queria pegar nela e levá-la ao bar. Mas ela já tinha visto as publicações no Facebook: as fotos de Renatino sujo de merda, os tweets dos amigos a proclamarem a humilhação dele. Letizia conhecia Renatino e sabia que ele gostava dela. O seu único pecado tinha sido o de pôr uns «gosto» nalgumas fotos suas, depois de ela ter aceitado a amizade: uma falta imperdoável, aos olhos de Nicolas.

Nicolas apareceu ao pé de sua casa, não a chamou pelo intercomunicador. O intercomunicador é um instrumento usado apenas pelo carteiro, pelo guarda municipal, pelo polícia, pela ambulância, pelo bombeiro, pelo desconhecido. Mas, quando se trata de chamar a namorada, a mãe, o pai, um amigo, a vizinha autorizada a sentir-se parte da família, grita-se: está tudo aberto, escancarado, tudo se ouve, e, se não se ouvir, é mau sinal, algo aconteceu. Nicolas esganiçava-se de lá debaixo:

— Leti’! Letizia!

A janela do quarto de Letizia não dava para a rua, mas antes para uma espécie de saguão sem luz. A janela para a rua para a qual Nicolas estava a olhar iluminava um amplo patamar, espaço comum de diversos apartamentos. As pessoas que passavam pela escada do prédio ouviam aqueles chamamentos e batiam à porta de Letizia, sem sequer esperar que ela abrisse. Batiam e continuavam a subir: era o código. «Estão-te a chamar.» Quando, ao abrir, não via ninguém, Letizia sabia que quem a procurava estava na rua. Mas, naquele dia, a voz de Nicolas era tão alta, que ela o ouviu do quarto. Acabou por se debruçar do patamar, incomodada, e berrou:

— O melhor que tens a fazer é sair daqui. Não vou contigo a lado nenhum.

— Vá lá, desce, despacha-te.

— Não desço, não.

Na cidade é assim. Toda a gente sabe que alguém está a discutir. Tem de saber. Cada insulto, cada voz, cada agudo ribomba por entre as pedras das ruelas, acostumadas às escaramuças entre namorados.

— Que mal é que o Renatino te fez?

Nicolas, entre incrédulo e satisfeito, perguntou:

— Já te chegou a notícia?

No fundo, bastou-lhe ouvir que a sua namorada estava informada. As façanhas de um guerreiro passam de boca em boca, são notícia antes de se transformarem em lenda. Olhava para Letizia à janela e sabia que a sua proeza continuava a ecoar, por entre rebocos gretados, caixilhos de alumínio, goteiras, terraços e, ainda mais acima, por entre antenas e parabólicas. E foi ao olhar para ela encostada ao parapeito, com o cabelo ainda mais encaracolado depois do duche, que recebeu uma mensagem de Agostino. Uma mensagem urgente e sibilina.

A discussão acabou assim. Letizia viu-o montar na motorizada e arrancar num chiar de pneus. Um minotauro: meio homem, meio rodas. Conduzir, em Nápoles, é ultrapassar em todo o lado, não há barreiras, sentidos proibidos, zonas pedonais. Nicolas ia ter com os outros ao Nuovo Maharaja, o bar de Posillipo. Um estabelecimento de diversão imponente, com uma varanda debruçada sobre o golfo. A estrutura poderia viver mesmo só daquela varanda, que alugavam para casamentos, primeiras comunhões, festas. Desde criança, Nicolas sentira-se atraído por aquela construção branca erguida no meio de uma rocha de Posillipo. Nicolas gostava do Maharaja por ser arrojado. Estava enroscado nas rochas como uma fortaleza inexpugnável; tudo era branco, os caixilhos, as portas, até as persianas. Olhava para o mar com a majestade de um templo grego, com as suas colunas imaculadas que pareciam sair directamente da água e que sustentavam a varanda precisamente onde Nicolas imaginava ver a passear os homens em que ele se queria tornar.

Nicolas tinha crescido passando ao seu lado, observando as filas de motos e carros estacionados no exterior, admirando as mulheres, os homens, a elegância e a ostentação, jurando a si mesmo que havia de lá entrar a qualquer custo. Era a sua ambição, um sonho que tinha contagiado os amigos, que, a certa altura, lhe colaram aquele nome: «Marajá». Poder lá entrar, não nas vestes de empregado de mesa, nem por um favor concedido por alguém, como que para dizer: «vá, dá uma volta e desaparece»; ele e os outros queriam ser clientes, e dos mais respeitados. Quantos anos haveria de levar, perguntava-se Nicolas, para se dar ao luxo de passar o serão e a noite lá dentro? O que teria de fazer para lá chegar?

O tempo ainda é tempo quando se pode imaginar, e porventura imaginar que, poupando durante dez anos, ganhando um concurso, com alguma sorte e fazendo todos os possíveis, talvez… Mas o ordenado do pai de Nicolas era o de um professor de Educação Física e a mãe tinha uma pequena loja, uma engomadoria. As estradas traçadas pelas pessoas do seu sangue precisariam de um prazo impensável para entrar no Maharaja. Não. Nicolas tinha de o fazer já. Aos quinze anos.

E tinha sido tudo simples. Tal como são cada vez mais simples as opções importantes, das quais não se pode voltar atrás. É o paradoxo de todas as gerações: as opções reversíveis são as mais ponderadas, meditadas e pesadas. As opções irreversíveis acontecem por decisão imediata, geradas por um impulso instintivo, aceites sem resistência. Nicolas fazia aquilo que faziam todos os outros da mesma idade: tardes na motorizada frente à escola, selfies, obsessão por ténis — para ele, tinham sido sempre a prova de que era um homem com os pés bem assentes na terra; sem aqueles sapatos nem se sentia um ser humano. Até que, num certo dia de há uns meses, em finais de Setembro, Agostino falara com Copacabana, um homem importante dos Striano de Forcella.

Copacabana abordara Agostino por ser seu parente: o pai de Agostino era seu fratocucino, isto é, primo direito.

Agostino fora a correr ter com os amigos à saída da escola. Chegara com a cara corada, mais ou menos da mesma cor viva do cabelo. Ao longe, do pescoço para cima, parecia estar a pegar fogo: não era por acaso que lhe chamavam Fósforo. Arquejando, contou-lhes tudo, tintim por tintim. Nunca esqueceriam aquele momento.

— Estão a ver quem ele é?

Na verdade, só tinham ouvido falar no nome.

— Co-pa-ca-ba-na! — soletrara. — O chefe de zona da família Striano. Diz que precisa de ajuda, precisa de rapazes. E que paga bem.

Ninguém se entusiasmara muito. Nem Nicolas, nem os outros do grupo reconheciam no criminoso o herói, como acontecia com os meninos da rua de antigamente. Não queriam saber como é que se juntava dinheiro, o importante era juntá-lo e ostentar. O importante era ter carros, roupa, relógios, ser desejado pelas mulheres e invejado pelos homens.

Só Agostino sabia mais da história de Copacabana, nome que lhe vinha de um hotel comprado nas praias do Novo Mundo. Mulher brasileira, filhos brasileiros, droga brasileira. A torná-lo grande, a impressão e a convicção de que estava em condições de hospedar quem quer que fosse no seu hotel: de Maradona a George Clooney, de Lady Gaga a Drake, e publicava fotos com eles no Facebook. Podia desfrutar da beleza das coisas que possuía para atrair quem quer que fosse. Tudo isto o tinha tornado o mais visível dos filiados numa família em grande dificuldade como era a dos Striano. Copacabana nem precisava de lhes ver a cara, para decidir que podiam trabalhar para ele. Há já quase três anos, depois da detenção de Dom Feliciano, o Nobre, passara a ser o único líder de Forcella.

Saíra-se bem do julgamento contra os Striano. A maior parte das acusações apresentadas contra a organização dizia respeito ao período em que ele estava no Brasil, e conseguira escapar à acusação de associação criminosa, a mais perigosa para ele e para aqueles como ele. Era o juízo de primeira instância. O Ministério Público ia recorrer. Por isso, Copacabana estava em apuros, precisava de voltar a arrancar, de encontrar rapazes frescos a quem confiar alguns negócios e de mostrar que sobrevivera ao golpe sofrido. Os seus rapazes, a sua paranza, os Cabeludos, eram bons, mas imprevisíveis. É assim quando se sobe muito e muito depressa, ou, pelo menos, se pensa ter chegado lá. White, o chefe, mantinha a disciplina, mas estava sempre a snifar. A paranza dos Cabeludos só sabia disparar, não abrir uma praça. Para o novo começo, era preciso material mais maleável. Mas quem? E quanto dinheiro pediria? De quanto dinheiro haveria de dispor? Os negócios e o próprio dinheiro não têm cheiro. Uma coisa é o dinheiro para investir, outra é o dinheiro no bolso. Se vendesse mesmo só uma parte do hotel que possuía na América do Sul, Copacabana poderia pagar a mesada a cento e cinquenta homens, mas era dinheiro seu. Para investir na actividade era preciso dinheiro do clã, e esse faltava. Forcella estava debaixo de olho: o Ministério Público, os debates televisivos e até os políticos se interessavam pelo bairro. Mau sinal. Copacabana tinha de reconstruir tudo: não restava ninguém para levar por diante os negócios em Forcella. A organização tinha rebentado.

Por isso, fora falar com Agostino: pusera-lhe uma pequena dose de droga debaixo do nariz, assim, de chofre. Agostino estava fora da escola e Copacabana perguntara-lhe:

— Quanto tempo levas a passar um tijolo como este?

Passar fumo era o primeiro passo para ser traficante, embora, para merecer esse título, a aprendizagem fosse longa: passar fumo significava vendê-lo aos amigos, aos parentes, aos conhecidos. A margem de lucro era muito limitada, mas não havia praticamente riscos.

Agostino arriscara:

— Sei lá, um mês.

— Um mês? Isto aqui acaba numa semana.

Agostino mal tinha idade para a motorizada, que era o que interessava a Copacabana.

— Traz-me todos os teus amigos dispostos a trabalhar um pouco. Todos os amigos de Forcella, os que vejo parados diante do bar de Posillipo. Já chega de ficarem ali de tomates na mão… não achas?

Fora assim que tudo começara. Copacabana marcava encontro num prédio à entrada de Forcella, mas nunca estava lá. No seu lugar, estava sempre um homem rápido com as palavras, mas de cabeça lenta. Chamavam-lhe Alvaro por ser parecido com Alvaro Vitali[6]. Estava na casa dos cinquenta anos, mas aparentava ter muito mais. Quase analfabeto, passara mais anos na cadeia do que fora dela: cadeia, muito novo, nos tempos de Cutolo[7] e da Nova Família; cadeia na época da luta sangrenta entre os cartéis do bairro Sanità[8] e de Forcella, entre os Mocerino e os Striano. Escondera armas, fora incumbido do controlo das ruas. Vivia com a mãe num basso[9], nunca progredira na carreira, pagavam-lhe uns tostões e ofereciam-lhe umas prostitutas eslavas, com quem se encontrava obrigando a mãe a ir para a casa dos vizinhos. Mas era alguém em quem Copacabana confiava. Cumpria bem as tarefas: acompanhava-o no carro, entregava, em lugar dele, as embalagens de fumo a Agostino e aos outros rapazes.

Alvaro mostrara-lhes onde haviam de ficar. O apartamento onde guardavam o fumo era no último andar. Eles tinham de vender lá em baixo no átrio. Não era como em Scampia[10], onde havia grades e barreiras; nada disso, Copacabana queria uma venda mais livre, menos blindada.

A sua tarefa era simples. Chegavam ao local pouco antes de o vaivém começar, para dividirem pessoalmente as várias doses de fumo. Alvaro juntava-se a eles para fazer algumas caganitas e pedras grandes. Pedras de dez, de quinze, de cinquenta. Depois, juntavam o haxixe no habitual papel de alumínio para o ter à mão; a erva, por sua vez, era embalada em saquinhos de papel. Os clientes entravam no átrio do prédio de motorizada ou a pé, pagavam e iam-se embora. O mecanismo era seguro, pois o bairro contava com vigias contratados por Copacabana, e com uma quantidade de pessoas que, da rua, denunciavam polícias, carabinieri e brigadas fiscais à paisana e fardados.

Faziam-no depois das aulas, mas às vezes nem sequer iam à escola, pois eram pagos à tarefa. Os cinquenta, cem euros por semana faziam diferença. E tinham um único destino: a Foot Locker. Tomavam de assalto a loja. Entravam em formação tartaruga, como se quisessem destruí-la, e, uma vez lá dentro, dispersavam. Tiravam t-shirts às dezenas, às quinzenas de cada vez. Tucano vestia umas por cima das outras. Just Do It. Adidas. Nike. Os símbolos desapareciam e eram substituídos num segundo. Nicolas tinha levado três Air Jordan de uma vez. Altos até ao tornozelo, brancos, pretos, vermelhos, bastava terem o Michael, para os arrebatar com uma só mão. Também Briato’ se tinha atirado às botas de basquetebol, queria umas verdes, com a sola fluorescente, mas, quando pegou nelas, Lollipop deteve-o com um: «Verdes? És paneleiro, por acaso?» E Briato’ largou-as e atirou-se aos casacos de basebol. Yankees e Red Sox. Cinco por equipa.

Assim, pouco a pouco, todos os rapazes que se encontravam diante do Nuovo Maharaja tinham começado a passar fumo. Dentinho tentara ficar de fora, aguentara cerca de dois meses, depois começara a vender algum fumo no estaleiro onde trabalhava. Lollipop levava fumo para o ginásio. Também Briato’ começara a trabalhar para Copacabana, teria feito qualquer coisa que Nicolas lhe pedisse. O mercado não era gigantesco, como nos anos 80 e 90: primeiro, Secondigliano[11] tinha absorvido tudo, depois tinha-se afastado de Nápoles, fixando-se em Melito. Mas agora estava a deslocar-se para o centro histórico.

Alvaro chamava-os e pagava-lhes todas as semanas: quem mais vendia, mais recebia. Conseguiam sempre mais uns trocos com alguma falcatrua fora da praça do tráfico, partindo umas caganitas ou enganando uns amigos ricos ou particularmente parvos. Mas não em Forcella. Aí, o preço era fixo e a quantidade, certa. Nicolas fazia poucos turnos, pois vendia nas festas ou até aos alunos do pai, mas começara a trabalhar mesmo bem só na altura em que a sua escola, o Liceu Artístico, fora ocupada pelos estudantes. Começara a passar fumo a toda a gente. Nas salas de aula sem professores, no ginásio, nos corredores, nas escadas, nas casas de banho. Onde quer que fosse. E os preços aumentavam com o aumento das noitadas na escola. Só que tinha de aturar também as discussões políticas. Uma vez chegara a pegar-se, por ter dito durante uma reunião:

— Para mim, o Mussolini era um gajo sério, aliás, todos aqueles que se fazem respeitar são sérios. Também gosto do Che Guevara.

— Tu nem devias pronunciar o nome do Che Guevara — avançara um tipo de cabelo comprido e camisa aberta.

Tinham-se pegado, empurrado, mas Nicolas estava-se nas tintas para aquele betinho da Via dei Mille, que nem andava na mesma escola. O que é que ele percebia de respeito e seriedade? Quem é da Via dei Mille tem o respeito por nascimento. Para quem é da baixa de Nápoles, o respeito tem de se conquistar. O colega estava a falar em categorias morais, mas, para Nicolas, que de Mussolini só tinha visto algumas fotos e um ou dois vídeos na televisão, isso nem existia e acertara-lhe com uma cabeçada no nariz, como que para dizer: é assim, merdas, que te explico que a História não existe. Justos e injustos, bons e maus. Todos iguais. No seu mural de Facebook, Nicolas tinha-os alinhado: o duce a gritar de uma janela, o rei dos Gauleses a inclinar-se perante César, Muhammad Ali a ladrar contra o seu adversário estendido no chão. Fortes e fracos, era essa a verdadeira distinção. E Nicolas sabia de que lado ficar.

Ali, naquela sua privadíssima praça de tráfico, conhecera Peixe Mole. Enquanto fumavam uns charros, viram aquele rapaz que conhecia a palavra mágica:

— Ei, já te vi em frente ao Nuovo Maharaja!

— Sim, o que é que tens a ver com isso? — respondera Nicolas.

— Eu também ando por lá. — Depois, acrescentara: — Ouve isto, ouve esta música.

E iniciara Nicolas, que até então só tinha ouvido música pop italiana, ao hip-hop americano mais duro, daquele maldito, no qual, do vómito incompreensível de palavras, de vez em quando surgia um «fuck» para repor a ordem.

Nicolas gostou imenso daquele tipo; era atrevido, mas tratava-o com respeito. Por isso, quando, com o fim da ocupação do liceu, também Peixe Mole começara a passar fumo na sua escola, apesar de não ser de Forcella, de vez em quando deixavam-no trabalhar no prédio.

Era inevitável que, mais cedo ou mais tarde, fossem apanhados. Precisamente na altura do Natal, tinha havido uma rusga. Era o turno de Agostino. Nicolas estava a chegar naquele momento para o revezar e não tinha dado por nada. O vigia tinha sido batido em velocidade. Os polícias à paisana tinham fingido mandar parar um carro para o revistar e, a seguir, tinham-lhes caído em cima enquanto eles tentavam livrar-se do fumo.

Tinham chamado o pai de Nicolas, que, chegado à esquadra, demorara sobre o filho um olhar vazio, que progressivamente se enchera de raiva. Nicolas mantivera durante muito tempo os olhos baixos. Mas, quando resolveu levantar o olhar, fê-lo sem humildade e o pai aplicou-lhe dois estalos, um com a palma, outro com o dorso da mão, poderosíssimos, de antigo tenista. Nicolas não pronunciara uma única sílaba, só lhe tinham subido aos olhos duas lágrimas que eram de dor, não de desgosto.

Só então entrara a mãe, enfurecida. Surgira a ocupar todo o vão da porta, os braços abertos, as mãos nas ombreiras como se tivesse de suportar a esquadra. O marido pusera-se de lado para lhe deixar a cena. E ela preenchera-a. Aproximara-se de Nicolas, lentamente, em passo de fera. Quando já estava em cima dele, como que para o abraçar, soprara-lhe ao ouvido:

— Que vergonha, que scuorno. — E continuara: — A quem é que te juntaste? A quem?

O marido ouvira, mas sem perceber, e Nicolas recuara com um puxão tão violento, que o pai voltara a cair-lhe em cima, esmagando-o contra a parede:

— Aqui está. O traficante. Mas como raio é possível?!

— Traficante, uma ova — dissera a mãe, puxando o marido para um lado. — Que vergonha!

— E tu achas — rebentara Nicolas — que o meu guarda-fato se transformou na montra da Foot Locker do pé para a mão? A trabalhar numa bomba de gasolina aos sábados e domingos?

— Grande estupor. Agora vais para a cadeia — dissera a mãe.

— Qual cadeia?

E ela dera-lhe um estalo, mais fraco do que o do pai, mas mais claro, mais sonoro.

— Cala-te. A partir de agora não sais mais, só controlado — dissera ela, e virada para o marido: — O traficante não existe, está bem? Não existe e não deve existir. Tratamos disto aqui e vamos para casa.

— Malditos sejam os santos, malditos — limitara-se a murmurar o pai. — Agora até tenho de pagar ao advogado!

Nicolas voltara para casa escoltado pelos pais como se eles fossem dois carabinieri. O pai mantinha o olhar em frente, apontado a quem os ia acolher: Letizia e Christian, o filho mais novo. Haviam de olhar para o desgraçado, haviam de olhar atentamente para a cara dele. A mãe, por sua vez, estava ao lado de Nicolas, de olhos baixos.

Mal avistara o irmão, Christian apagara o televisor e levantara-se de um salto, queimando a distância entre o sofá e a porta em três passos, para lhe estender a mão como tinha visto fazer nos filmes: mão, braço e depois ombro contra ombro, como dois bros, como dois irmãos. Mas o pai fulminara-o, levantando o queixo. Nicolas esforçara-se por não rir diante daquele irmão de quem era o ídolo e pensara que naquela noite, no quarto, teria matéria para satisfazer a sua curiosidade. Iriam falar até altas horas da noite, depois Nicolas esfregaria o seu cabelo à escovinha como sempre fazia antes de lhe desejar uma boa noite.

Também Letizia queria abraçá-lo, mas para lhe perguntar: «Quem foi? Porquê?» Sabia que Nicolas passava fumo, e era claro que o pingente que lhe oferecera no seu aniversário devia ter sido bastante caro, mas não pensava que a situação se tivesse tornado tão grave, embora não fosse realmente grave.

Passara a tarde seguinte a espalhar-lhe nos lábios e nas faces o creme Nivea. «Para desinchar», disse-lhe. Eram essas delicadezas que tinham começado a uni-los. Ele tinha vontade de a comer, dizia-lhe: «Sinto-me como o vampiro de Twilight!», mas a virgindade dela era demasiado importante. Aceitava que devia ser ela a decidir tudo, por isso fartavam-se de trocar beijos, estratégias paralelas de acariciamentos, horas a ouvir música com um auricular para cada um.

Da esquadra, foram todos mandados para casa como arguidos em liberdade, incluindo Agostino, que, apanhado em flagrante durante o turno, arriscava a pena maior. Passaram dias a fio a tentar lembrar-se daquilo que tinham escrito nos chats, pois os telemóveis tinham sido apreendidos. No fim, a opção fora simples: Alvaro assumiria a culpa. Copacabana construiu uma denúncia e os carabinieri encontraram no basso toda a mercadoria. Assumiu também a responsabilidade de ter sido ele a dar o fumo aos rapazes. Quando Copacabana lhe comunicou que ia ser preso, respondeu: «Não! Outra vez? Que chatice.» Nada mais do que isso. Em troca, ia receber um pagamento mensal, uns trocos, mil euros. E, antes de ir para Poggioreale[12], uma ­rapariga romena. Mas pedira para se casar com ela. E Copacabana respondera-lhe simplesmente: «Vamos ver o que se pode fazer.»

Entretanto, tinham arranjado outros smartphones por poucos euros, coisas roubadas, para recomeçarem a reunir o grupo. Tinham imposto a si próprios não escreverem nada sobre o sucedido no chat que acabavam de reabrir, sobretudo uma coisa que todos tinham pensado, mas que só Estava-a-Dizer conseguira exprimir por palavras:

— Malta, mais cedo ou mais tarde, Nisida espera-nos. E, se calhar, é lá que vamos parar.

Cada um deles imaginara pelo menos uma vez a viagem rumo à cadeia juvenil, na carrinha celular da polícia. Atravessar o desembarcadouro que liga a ilhota a terra firme. Entrar e sair, passado um ano, transformados. Prontos. Homens.

Para alguns, era algo que tinha de acontecer, nem que se deixassem apanhar por um delito menor. Aliás, depois de saírem, não lhes faltaria tempo.

Naquela circunstância, porém, tinham-se portado bem, os rapazes tinham mantido a boca fechada e, segundo parecia, não tinham emergido provas dos chats. Por isso, ­Nicolas e Agostino tinham finalmente conseguido de Copacabana o convite para entrarem no Nuovo Maharaja. Mas Nicolas queria um pouco mais: ser apresentado ao chefe de zona. Agostino arranjara coragem para o pedir pessoalmente a Copacabana, que respondera: «Claro, quero conhecer os meus meninos.» E Nicolas e Agostino tinham entrado no Nuovo Maharaja acompanhados pelo próprio Copacabana.

Nicolas via-o pela primeira vez. Imaginara-o velho e, pelo contrário, era um homem com pouco mais de quarenta anos. No carro, a caminho do bar, Copacabana disse que estava muito satisfeito com o trabalho deles. Tratou-o como seus pony express, mas com alguma gentileza. Nicolas e Agostino não ficaram incomodados, a sua atenção concentrou-se no serão que os esperava.

— Como é? Como é lá dentro? — perguntavam.

— É um estabelecimento de diversão — respondia ele, mas eles sabiam perfeitamente como era. Tinham-se documentado no YouTube, que mostrava eventos e concertos. Com aqueles «como é?», os dois rapazes queriam saber como era estar lá dentro, ter uma sala reservada, como era estar no mundo do Nuovo Maharaja. Como era pertencer àquele mundo.

Copacabana fê-los passar por uma entrada reservada e levou-os ao seu privé. Tinham-se vestido a rigor, anunciado o acontecimento aos pais e aos amigos, como se tivessem sido convidados para a mais importante das cortes. Em certo sentido era assim, a elite de Nápoles, os betinhos, reuniam-se todos ali. O bar poderia ser uma sinfonia ao kitsch, um panegírico ao mau gosto. Não era. Conseguia encontrar um equilíbrio elegante entre a melhor tradição costeira de majólicas de cores suaves e uma citação quase brincalhona do Oriente: aquele nome, Maharaja, Nuovo Maharaja, devia-se a uma enorme tela no centro do espaço, trazida da Índia, pintada por um inglês que, a seguir, se estabelecera em Nápoles. O bigode, o corte dos olhos, a barba, as sedas, o sofá macio, um escudo com o desenho de uma gema e uma Lua virada para norte. A vida de Nicolas começara ali, fascinado pelo enorme desenho do marajá.

Durante todo o serão, Nicolas e Agostino encheram os olhos com as pessoas presentes, com a música de fundo, com o rebentar das garrafas de espumante abertas a seguir. Todos passavam por ali. Era o lugar onde os homens de negócios, do desporto, os notários, os advogados, os juízes encontravam a mesa onde se sentarem e se conhecerem, o copo de cristal com o qual fazerem brindes. Um lugar que transportava imediatamente para longe da tasca, do restaurante típico, do lugar da impepata di cozze[13] e da pizza familiar, do lugar aconselhado pelo amigo, do espaço onde se vai com a mulher. Um lugar onde se podia encontrar qualquer pessoa sem precisar de justificações, pois era como cruzar-se com ela casualmente na praça. Era normal encontrar pessoas novas no Nuovo Maharaja.

Entretanto, Copacabana falava e falava, e na cabeça de Nicolas desenhava-se uma imagem nítida, que juntava à apresentação dos pratos e aos hóspedes elegantes a música de uma palavra. Lazarat. O seu chamamento exótico.

A erva albanesa tinha-se imposto com força. Copacabana tinha, de facto, duas actividades: uma, legal, no Rio e outra, ilegal, em Tirana.

— Um dia hás-de me levar — dizia-lhe Agostino, esticando-se para pegar no enésimo copo de vinho.

— É a maior plantação que há no mundo, rapaz. Erva por todos os lados — respondia Copacabana, referindo-se a Lazarat. Tinha-se tornado a plataforma de onde sacava a maior quantidade de erva possível. Copacabana contava como tinha conseguido mercadoria tão importante, mas não era claro como a transportava da Albânia para Itália, assim, sem dificuldade: as vias marítimas e aéreas da Albânia não eram seguras. Os carregamentos atravessavam o Montenegro, a Croácia, a Eslovénia e conseguiam entrar no Friul. Nas suas palavras, era tudo muito confuso. Agostino, aturdido pelo mundo ofuscante que girava à sua volta, ouvia e não ouvia aquelas histórias. Nicolas, pelo contrário, nunca teria parado de as escutar.

Cada carregamento significava montes de dinheiro e, quando o dinheiro se transforma em enchente de um rio, não há como escondê-lo. Algumas semanas após a noitada no Nuovo Maharaja, tinha arrancado a investigação da Comissão Antimáfia. Todos os jornais falavam disso: tinham apanhado um dos braços-direitos de Copacabana e fora emitido um mandado de captura. Só lhe restou andar a monte. Desapareceu, talvez estivesse na Albânia, talvez tivesse conseguido ir para o Brasil. Não voltaram a vê-lo durante muitos meses. A praça em Forcella esgotou as reservas.

Agostino tentava perceber, mas, com Copacabana sabe-se lá onde, e Alvaro na prisão, era impossível.

— Mas a paranza do White está a trabalhar… Pela saúde da minha mãe, aposto que eles arranjaram maneira de receber a erva — desabafou Lollipop.

Para Nicolas e os seus, tornara-se um problema saber onde ir buscar a mercadoria, com quanta ficar, como a vender, que turnos praticar. As praças da cidade estavam nas mãos das famílias. Era como que um mapa refeito com nomes novos, e cada nome correspondia a uma conquista.

— E agora? O que é que fazemos? — perguntou Nicolas. Estavam na salinha, uma terra-de-ninguém nascida da união do bar, da tabacaria, da sala de jogos e apostas. Recebia toda a gente. Uns, de nariz empinado, a praguejar contra um cavalo demasiado lento; outros, num banquinho com o nariz dentro de uma chávena de café; outros, ainda, a esbanjarem o dinheiro do ordenado nas slot machines. E ainda Nicolas e os seus amigos e também os Cabeludos. White drogara-se, estava claramente com uma moca de cocaína, que já não inalava pelo nariz, mas, cada vez mais, injectava. Jogava matraquilhos, sozinho contra dois dos seus, o Cocorocó e o Selvagem. Saltava de uma manete para outra, parecia possuído. Muito loquaz, mas atento a tudo, a cada palavra que lhe pudesse chegar por acaso aos ouvidos. E tinha captado aquele «E agora? O que é que fazemos?» de Nicolas.

— Querem trabalhar, criaturas? Ah! — disse, sem parar de jogar. — A partir de agora, vão trabalhar nas substituições. Vão da minha parte, vão trabalhar para uma ou outra praça que precise…

Aceitaram a contragosto, mas não tinham alternativas. Após a saída de cena de Copacabana, a praça de Forcella estava definitivamente fechada.

Passaram a trabalhar para todos os que tinham buracos para tapar. Marroquinos presos, pushers com febre, rapazes pouco confiáveis afastados do serviço. Trabalhavam para os Mocerino do bairro Sanità, para os Pescecane do Cavone, às vezes iam até Torre Annunziata dar uma ajuda aos Vitiello. O lugar onde vendiam tinha passado a ser móvel. Às vezes, era a Piazza Bellini, outras vezes a estação. Chamavam-nos à última hora, o seu número de telemóvel na mão de toda a escumalha camorrista da zona. Nicolas fartou-se; aos po ...