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OS HERDEIROS DA TERRA

Ildefonso Falcones  

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Excerto

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Barcelona, 4 de Janeiro de 1387

O mar estava bravo e o céu, cinzento-chumbo. Na praia, o pessoal da ribeira, os barqueiros, os marinheiros e os bastaixos[1] mostravam-se tensos; muitos esfregavam as mãos ou batiam palmas para as aquecer, ao passo que outros tentavam proteger-se do vento gélido. Quase todos se mantinham em silêncio, olhando uns para os outros e só então para as ondas que rebentavam com toda a violência. Apesar de imponente, a galera real, com trinta bancos de remadores a cada bordo, estava à mercê do temporal. Em dias anteriores, os mestres d’aixa[2], ajudados por aprendizes e marinheiros, já tinham desmontado todos os aparelhos e palamenta do navio: lemes, armamento, velas, mastros, bancos, remos… Os barqueiros levaram tudo aquilo que pudera ser separado do barco para a praia, cabendo então a vez aos bastaixos de carregar todo aquele material para os seus correspondentes armazéns. Deixaram-se três âncoras, que, presas ao fundo, seguravam agora a Santa Marta, estrutura imponente mas impotente, contra as vagas que a ela se lançavam.

Hugo, um rapaz de doze anos, de cabelo castanho e mãos e cara tão sujas quanto a camisa que lhe dava pelos joelhos, mantinha aquele seu olhar inteligente cravado na galera. Desde que trabalhava com o genovês na ribeira, já ajudara a varar e lançar ao mar muitas como aquela, mas esta era bastante grande e o temporal fazia perigar a operação. Alguns marinheiros teriam de ir a bordo da Santa Marta para içar os ferros e, em seguida, os barqueiros deveriam rebocá-la até à praia, onde a aguardava um enxame de pessoas que a arrastaria até adentro da ribeira. Aí hibernaria. Tratava-se de um labor árduo e, sobretudo, extremamente duro, mesmo recorrendo aos moitões e cabrestantes de que se serviam para puxar a nau uma vez varada na areia. Barcelona, embora fosse uma das potências marítimas do Mediterrâneo, a par de Génova, Pisa e Veneza, não dispunha de porto; não existiam abrigos nem diques que facilitassem a empresa. Barcelona não passava de uma enorme praia aberta ao mar.

– Anemmu[3], Hugo! – ordenou o genovês ao rapaz.

Hugo olhou para o mestre d’aixa.

– Mas… – tentou contrapor.

– Não discutas! – interrompeu-o o genovês. – O lugar-tenente da ribeira – acrescentou, servindo-se do queixo para apontar na direcção de um grupo de homens que se encontrava mais além – acaba de apertar a mão ao rico-homem da corporação dos barqueiros. Isso significa que chegaram a um acordo quanto ao novo preço que o rei se dispõe a pagar-lhes por conta do perigo acrescido pelo temporal. Vamos tirá-la da água! Anemmu! – repetiu.

Hugo agachou-se, agarrou a bola de ferro que continuava presa por uma corrente ao tornozelo direito do genovês e, a muito esforço, ergueu-a à altura da barriga.

– Estás pronto? – perguntou o genovês.

– Estou.

– O oficial-mestre está à nossa espera.

O rapaz carregou a bola de ferro que tolhia os movimentos ao mestre d’aixa. Foi atrás dele pela praia e passou pelo meio das pessoas que, já apercebidas do negócio, cavaqueavam, bradavam, apontavam e voltavam a bradar, nervosas, à espera das instruções do oficial-mestre. Entre a gentalha, os genoveses contavam-se em maior número, também eles feitos prisioneiros no mar e imobilizados por bolas de ferro, cada um com outro moço a seu lado que segurava nos braços tais empecilhos, enquanto eles trabalhavam como forçados nas ribeiras catalãs.

Domenico Blasio, assim se chamava o genovês que Hugo acompanhava, era um dos melhores mestres d’aixa de todo o Mediterrâneo, quiçá mesmo melhor do que o oficial-mestre. O genovês aceitara Hugo como aprendiz a rogo de miser[4] Arnau Estanyol e de Juan el Navarro, o ajudante do lugar-tenente, homem de farta pança, cabeça calva e redonda. Ao princípio, o genovês tratara-o de modo algo arisco, acima de tudo porque, mal começava a talhar madeira, parecia esquecer a sua condição de prisioneiro, tal era a paixão que este homem sentia pela construção de navios. Porém, desde que o rei Pedro, o Cerimonioso[5], firmara uma paz precária com a Sereníssima República de Génova, todos aqueles prisioneiros que trabalhavam nas ribeiras aguardavam que esta libertasse os catalães presos e igual sorte bafejasse os genoveses. A partir de então, o mestre passou a dedicar-se a Hugo e começou a ensinar-lhe os segredos de uma das profissões mais consideradas por todos os confins do Mediterrâneo: a construção de embarcações.

Hugo pousou a bola na areia e pôs-se atrás do genovês quando este se reuniu, com outros ricos-homens e mestres, à volta do oficial-mestre. Observou a praia à sua volta. A tensão era cada vez maior: o vaivém das pessoas que preparavam as ferramentas, bem como os gritos, os incitamentos e as palmadas nas costas que tentavam derrotar o vento, o frio e aquela luz ténue e brumosa, tão estranha numas terras perenemente agraciadas pelo brilho do sol. Embora o seu trabalho se limitasse a acartar a bola de ferro do genovês, Hugo sentiu-se orgulhoso por fazer parte daquele grupo. Eram já muitos os espectadores reunidos no limiar da praia, junto à fachada entre o mar e as ribeiras, que aplaudiam e gritavam. O rapaz observou os marinheiros que levavam pás para escavar a terra por baixo da galera; os que preparavam os cabrestantes, os moitões e as maromas; os que deitavam os rolos de madeira sobre os quais, previamente ensebados ou cobertos de musgo, a embarcação deveria ser arrastada; os que carregavam varas e fateixas; os bastaixos que se preparavam para puxar…

Esqueceu-se do genovês, abandonou a bola e correu na direcção do numeroso grupo de bastaixos que se juntara na praia. Foi bem-recebido, com uns quantos carolos de afecto. «Onde é que deixaste a bola?», perguntou-lhe um deles para quebrar a tensão e a seriedade dos ali reunidos. Conheciam-no, ou melhor, sabiam quem ele era devido à estima que por ele tinha miser Arnau Estanyol, o ancião que se encontrava no centro de todos, empequenecido diante dos ricos-homens da corporação dos bastaixos de Barcelona. Todos sabiam quem era Arnau Estanyol, admiravam a sua história e alguns ainda estavam vivos para relatar os muitos favores que prestara à corporação e aos seus mesteirais. Hugo pôs-se ao lado de miser Arnau, em silêncio, como se lhe pertencesse. O ancião limitou-se a passar a mão pelo cabelo do rapaz sem perder o fio à conversa. Falavam dos perigos que os barqueiros correriam ao rebocar a galera, dos riscos quando esta encalhasse na areia, longe da praia, e de chegarem até ela para lhe lançar as maromas. Poderia adernar. A ondulação era tremenda, e a maior parte dos bastaixos não sabia nadar.

– Hugo! – ouviu-se alguém gritar por cima daquela algazarra.

– Voltaste a abandonar o teu mestre? – perguntou-lhe Arnau.

– Mas ele ainda não tem nada para fazer – desculpou-se o rapaz.

– Vai ter com ele.

– Mas…

– Vai!

Sempre a acartar com a bola, Hugo seguiu o genovês pela praia enquanto este dava ordens a uns e outros. O oficial-mestre respeitava-o e o povo também; ninguém questionava a arte de Domenico como mestre d’aixa. O frenesi começou no momento em que os barqueiros conseguiram chegar à Santa Marta, prender os cabos, içar-lhe os ferros e iniciarem o reboque até à margem. Era rebocada por quatro barcas, duas por cada bordo. Alguns observavam a cena espantados; via-se-lhes a angústia nos rostos e nas mãos crispadas. Outros, a maioria, preferiam gozar o panorama enquanto os seus gritos de incitamento competiam numa algaraviada incontrolável.

– Não te distraias, Hugo! – chamou-o à ordem o genovês dado o seu atraso, pois a atenção do rapaz seguia a da populaça: uma barca prestes a naufragar e dois barqueiros que tinham caído borda fora. Conseguiriam subir?

– Mestre… – pediu sem tirar a vista dos barqueiros que lutavam para salvar os seus companheiros enquanto a Santa Marta se escapava devido às manobras daquela quarta barca.

Hugo tremia. Via diante de si a mesma tragédia que lhe haviam contado os marinheiros que estavam com o pai quando este morrera, há cerca de dois anos, engolido pelas ondas numa viagem à Sicília. O genovês percebeu-o; conhecia a história, e também se deixou envolver pelo drama que se vivia ali ao largo.

Um dos barqueiros conseguiu subir para a barca; o outro lutava desesperado no meio das vagas. Não se esqueceriam dele. A barca que puxava do mesmo bordo da galera que a primeira largou a maroma e dirigiu-se para o sítio onde os braços do barqueiro que pedia auxílio tinham desaparecido debaixo de água. Pouco depois voltaram a ver-se aqueles braços que se agitavam. Os presentes exalaram quase em uníssono o ar contido nos pulmões. Os braços, porém, tornaram a desaparecer. As correntes arrastavam o barqueiro pelo mar adentro. A primeira barca também soltou o cabo, e as duas do outro lado juntaram-se a elas ao compreenderem aquilo que pretendiam. As quatro barcas vogavam agora com energia em socorro do companheiro, ritmadas por uma força que lhes era transmitida a partir da praia: gritos, orações, silêncios.

Hugo notou que o mestre genovês crispara as mãos sobre os seus ombros, mas não se queixou da dor.

A tarefa de resgate coincidiu com o momento em que a Santa Marta, à deriva, encalhava no pequeno quebra-mar de Sant Damià. Alguns olharam para lá, mas apenas por breves instantes, para logo voltarem a prestar atenção às barcas. De uma delas avistou-se um sinal, e embora alguém o tivesse dado por bom e se ajoelhasse, para a maior parte não pareceu suficiente. E se estava errado? Mais sinais, agora de todas as barcas, alguns braços erguidos, punhos cerrados como se quisessem esmurrar o céu. As dívidas dissipavam-se: estavam de regresso. Remavam para uma praia onde todos se envolviam em risos, abraços e lágrimas.

Hugo sentiu o alívio do mestre, mas continuava a tremer. Ninguém pudera fazer nada pelo seu pai, tinham-lhes garantido. Naquele momento imaginou-o de braços erguidos a pedir ajuda, tal como acabara de fazer o barqueiro, imerso entre as ondas.

Por detrás dele, o genovês deu-lhe uma palmada carinhosa.

– O mar pode ser tão atraente como cruel – sussurrou-lhe. – Hoje talvez tenha sido o teu pai quem, lá do fundo, ajudou aquele homem.

Entretanto, as ondas continuavam a atacar a Santa Marta, desfazendo-a de encontro às rochas do quebra-mar.

– É ESTE O RESULTADO de permitir a navegação fora da época entre Abril e Outubro, como se fazia antes – explicava Arnau a Hugo.

Encaminhavam-se os dois para o Bairro de la Ribera no dia a seguir ao desastre da Santa Marta. O pessoal das ribeiras apanhava a madeira da galera que o mar devolvia à praia e procurava salvar tudo quanto fosse possível a partir do pequeno espigão de Sant Damià. Com a bola agrilhoada ao pé, o genovês não podia trabalhar ali, por isso tanto ele como Hugo desfrutaram de um dia de folga que se prolongaria pelo seguinte: a Epifania, que além disso coincidia com um domingo.

– Agora – prosseguiu Arnau as suas explicações –, as galeras são melhores, têm mais bancos e mais remos, são feitas com madeiras e ferros melhores e construídas por mestres com mais conhecimentos. A experiência fez-nos progredir na navegação e já há quem se atreva a desafiar o Inverno. Esquecem-se de que o mar não perdoa aos imprudentes.

Regressavam a Santa María de la Mar para guardar na caixa do Prato dos Pobres Envergonhados, a instituição de beneficência daquela igreja, os dinheiros arrecadados das esmolas que pediam de casa em casa. O Prato gozava de boas rendas: possuía vinhas, edifícios, oficinas, censos… Mas miser Arnau gostava de procurar a caridade das pessoas, como era obrigatório para os administradores do Prato, e, desde que acorrera em auxílio da família de Hugo a fim de paliar, em nome de Santa María de la Mar, a miséria a que a morte do chefe de família a votara, o rapaz ajudava-o na colecta com que depois socorreria aqueles que dela necessitavam. Hugo conhecia os que davam, nunca os que recebiam.

– Porquê…? – começou o rapaz por perguntar e, com um gesto de carinho, Arnau instou-o a continuar. – Porque é que um homem como vós… se dedica a pedir esmola?

Arnau sorriu pacientemente antes de responder.

– Pedir esmola para os necessitados é um privilégio, uma graça de Deus, que não pressupõe qualquer escárnio. Nenhuma das pessoas que visitámos daria uma única moeda se não fosse a homens em quem pode confiar. Os administradores do Prato de Santa María de la Mar devem ser ricos-homens de Barcelona e, com efeito, devem mendigar para os pobres. Sabes uma coisa? – Não foi preciso que Hugo negasse; miser Arnau continuou: – Nós, os administradores, não estamos obrigados a prestar contas daquilo que fazemos com os dinheiros do Prato, não só dos que recolhemos como de todos os outros. A ninguém, nem sequer ao arquidiácono de Santa María… Nem ao próprio bispo! E esta confiança deve recair sobre os ricos-homens da cidade. Ninguém sabe quem ou que família ajudei graças à caridade dos cidadãos piedosos.

Hugo costumava acompanhar miser Arnau nestas tarefas até que este conseguiu arranjar-lhe trabalho nas ribeiras, com o genovês, para que aprendesse a construir barcos e um dia se tornasse mestre d’aixa. Quando Hugo começou a trabalhar nas ribeiras, já fazia tempo que Arnau encontrara ocupação para Arsenda, a sua irmã mais nova, como criada de uma monja do Convento de Jonqueres. A religiosa aceitou vestir, alimentar e educar a garota, fazer dela uma mulher de valia e, passados dez anos, doar-lhe vinte libras para contrair matrimónio; foi isto o que constou do contrato que assinou com a monja de Jonqueres.

Embora a sua única missão fosse acartar com a bola de ferro do genovês, a ilusão com que Hugo entrou nas ribeiras e se envolveu na tarefa fascinante da construção de barcos acabou por ficar ensombrada pelas consequências que isso acarretou para Antonina, a sua mãe.

– Viver ali? Dormir? – perguntou-lhe assustado, depois de ela lhe falar da sua nova ocupação. – Porque não posso trabalhar e voltar para dormir aqui consigo, como sempre?

– Porque eu já não estarei a viver aqui – informou-o Antonina num tom de voz doce, como se só conseguisse convencê-lo.

O rapaz abanou a cabeça como quem não queria acreditar.

– É a nossa casa…

– Não a posso pagar, Hugo – antecipou-se ela. – Nesta cidade, as viúvas pobres e com filhos, somos como velhas inúteis e não temos qualquer possibilidade. Devias saber disso.

– Mas miser Arnau…

Antonina interrompeu-o de novo:

– Miser Arnau arranjou-me um trabalho no qual me vão dar roupa, cama, comida e talvez algum dinheiro. Como a tua irmã está no convento e tu nas ribeiras, que faço eu aqui sozinha?

– Não! – gritou Hugo ao mesmo tempo que se agarrava a ela.

AS RIBEIRAS REAIS de Barcelona ficavam frente ao mar. Consistiam numa construção de oito naves, suportadas por pilares e com cobertura a duas vertentes, por detrás das quais se abria um pátio suficientemente amplo para permitir a construção de galeras grandes. Atrás deste ficava outro edifício com mais oito naves, todas altas, todas diáfanas, todas aptas para construir, reparar ou guardar os barcos catalães. Esta obra magna, iniciada ainda nos tempos do rei Jaime e auspiciada depois por Pedro III, o Cerimonioso, culminava com quatro torres, uma em cada esquina do complexo.

Na correnteza de naves, torres e balsas com água para humedecer a madeira, abriam-se armazéns onde se podiam depositar todos os materiais e aprestos das galeras: madeiras e ferramentas; remos; armas: bestas, setas, lanças, gadanhas, espadas bastardas, machados, baldes de cal viva para cegar o inimigo no momento da abordagem e outros com sabão para os marinheiros escorregarem, ou com alcatrão para incendiar as embarcações contrárias; paveses, que eram os escudos alongados que se penduravam ao longo dos costados da galera para defender os remadores uma vez iniciado o combate; couros para cobrir os cascos de jeito a que o inimigo não conseguisse atear-lhes fogo; velas; bandeiras e cravos, correntes, âncoras, mastros, fanais, além de um sem-fim de outros instrumentos e aparelhos.

As ribeiras erguiam-se num dos extremos de Barcelona, o oposto a Santa María de la Mar, junto ao Convento de Framenors; porém, se os monges se encontravam protegidos pelas antigas muralhas da cidade, as ribeiras continuavam à espera de que aquelas que Pedro III mandara construir acabassem por envolvê-las e incluí-las no seu seio. Continuavam a faltar, tal como o dinheiro necessário para dar continuação à obra que pretendia rodear o novo bairro do Raval.

Antonina não o acompanhou.

– Filho, já és um homem. Lembra-te do teu pai.

Despediu-se dele fingindo-se segura, firme, apesar de contra sua vontade se manter afastada dele por um ou dois passos de distância e rogando aos céus para que miser Arnau não tardasse a levar o seu menino, de jeito a poder chorar a sua mágoa em segredo.

Arnau percebeu e empurrou Hugo suavemente pelas costas.

– Vais continuar a vê-la – comentou, enquanto o rapaz avançava com a cabeça virada para trás.

Passaram-se poucos dias até que Hugo se habituasse ao seu novo ambiente, após os quais correu pela cidade para ir ver a mãe. Miser Arnau contou-lhe que trabalhava como criada na casa de um luveiro, na rua Canals, junto ao Rec Comtal, por detrás de Santa María.

– Então, se é teu filho, põe-te daqui para fora com ele! – ordenou num tom ordinário a mulher do luveiro para Antonina, quando esta se desculpou timidamente porque a sua senhora deu com eles abraçados junto à porta. – Não serves para nada! Só sabes de peixe e pouco mais. Nunca trabalhaste numa casa rica. E tu!… – gritou ao mesmo tempo que apontava para Hugo: – Rua daqui para fora!

Depois ficou à espera, mas sempre atenta. Hugo obedeceu ao estranho olhar com que a mãe o fitou e virou-lhe as costas, acabrunhado perante a tristeza e impotência que destilava por aqueles olhos, que até há pouco tempo estavam sempre alegres e esperançosos. Antonina viu o filho afastar-se alguns passos, mas não os suficientes para que o rapaz não desatasse a chorar ao ouvir a reprimenda que ecoou pela ruela mesmo com a porta da casa já fechada.

Hugo continuou a ir à rua Canals sempre na esperança de ver a mãe. Da vez seguinte ficou parado nas cercanias da casa, mas sem ter onde se esconder entre as casas apinhadas ao longo da ruela. «O que estás aí a fazer, ó ranhoso?», berrou-lhe uma mulher da janela de um segundo andar. «Estás a ver se roubas qualquer coisa? Desaparece!» Pensando que os gritos poderiam atrair a mulher do luveiro e que a mãe levaria outra rabecada, Hugo aligeirou o passo e abandonou o lugar.

A partir daí, limitava-se a circular pela rua Canals, como se fosse ou regressasse de um sítio qualquer, demorando-se o quanto podia diante da fachada do luveiro e trauteando a cançoneta que o pai costumava assobiar. Não a conseguiu ver em qualquer uma dessas ocasiões.

Depois de deixar a rua Canals e de se refugiar no consolo que sentia por saber que a veria no domingo, na missa, Hugo dirigia-se ao bairro da Ribera e procurava por miser Arnau, ora em Santa María ora em casa deste, engavetada entre outras ocupadas por gente do mar, ou talvez no escritório, ao qual ia cada vez menos e cuja gestão depositava nas mãos dos seus funcionários. Se não o encontrava em nenhum destes sítios, ia à procura dele pelas ruas. Costumava encontrá-lo. O pessoal da Ribera conhecia bem Arnau Estanyol e a maior parte estimava-o. Hugo só precisava de perguntar por ele, na padaria da rua Ample, no açougue de la Mar, em qualquer das duas peixarias ou no queijeiro.

Durante esta época, conheceu a mulher de miser Arnau, chamada Mar. «Filha de um bastaix», afirmou o ancião cheio de orgulho. Também conheceu o filho, Bernat, um pouco mais velho do que ele.

– Tens doze? – repetiu Arnau depois de Hugo lhe ter dito uma vez mais a sua idade. – Pois Bernat já fez dezasseis. Agora está no Consulado de Alexandria, a aprender comércio e navegação. Julgo que não tarda a regressar a casa. Eu já não quero continuar a ocupar-me de negócios nenhuns. Estou velho!

– Não digais…

– Não discutas! – interrompeu-o Arnau.

Hugo nem se atreveu e assentiu, enquanto o ancião se apoiava nele e seguiam caminho. Gostava que miser Arnau se apoiasse nele. Sentia-se importante sempre que uns e outros o cumprimentavam respeitosamente, e até se divertia a retribuir as saudações, às vezes de maneira tão exagerada que chegava a desequilibrar-se tal era a mesura.

– Não deves inclinar-te tanto ante ninguém – aconselhou-o um dia Arnau.

Hugo não contestou. Arnau ficou à espera: sabia que ele não se deixaria ficar; conhecia-o bem.

– Vós podeis não vos inclinar porque sois um cidadão honrado – argumentou o rapaz –, mas eu…

– Não te deixes enganar – corrigiu-o Arnau. – Se consegui ser um cidadão honrado, talvez seja porque nunca me inclinei ante ninguém.

Nessa altura Hugo não retorquiu, mas Arnau também já não lhe prestava atenção: a sua mente vagueava pelo dia em que percorrera de joelhos o salão dos Puigs para beijar os pés de Margarida. Os Puigs, parentes dos Estanyols, enriquecidos e ensoberbecidos, tinham humilhado Arnau e Bernat, e, por culpa destes, o pai deles acabou enforcado como um delinquente vulgar na praça do Blat. Margarida odiava-o como se disso dependesse a sua vida. Apesar do tempo que entretanto se passara, um arrepio percorreu-lhe a espinha ao lembrar-se dela. Não voltara a saber deles.

Naquele dia de Janeiro de 1387, enquanto se aproximavam da Igreja de Santa María de la Mar, Hugo recordou o conselho que Arnau lhe dera perante o cumprimento exagerado que lhes fizera um homem humilde, se calhar um marinheiro. Sorriu. «Não deves inclinar-te ante ninguém.» Tantas foram as bofetadas e pontapés que recebeu por seguir tal conselho! Mas miser Arnau tinha razão: após cada briga, os rapazes das ribeiras ganhavam-lhe mais respeito, apesar de sair maltratado, como costumava acontecer sempre que media forças com os mais velhos.

Atravessavam Pla d’en Llull, por detrás da praça do Born e da Igreja de Santa María de la Mar, quando ao longe começaram a repicar uns sinos. Arnau parou, tal como muitos outros cidadãos: não eram toques de chamamento.

– Sinos dobrados – sussurrou o ancião com os olhos semicerrados. – O rei Pedro morreu.

Não acabara de dizer isto quando os sinos de Santa María troaram. A seguir foram os de Sant Just i Pastor, os de Santa Clara e os de Framenors… Não tardou que todos os sinos de Barcelona e arredores tocassem a defuntos.

– O rei!… – confirmaram os gritos nas ruas. – O rei morreu!

Hugo vislumbrou inquietação no rosto de miser Arnau; o seu olhar cansado e aquoso parecia perder-se num ponto qualquer da entrada da praça do Born. O rapaz não percebeu aquela aflição.

– Gostavas do rei Pedro?

Arnau cerrou os lábios e negou com a cabeça, em jeito de contestação.

«Casou-me com uma víbora, sua afilhada, má mulher onde as houvesse», poderia ter respondido.

– E do filho? – ouviu o rapaz insistir.

– O príncipe João? – perguntou em resposta às palavras de Hugo.

«Foi ele quem provocou a morte de uma das melhores pessoas deste mundo», teria gostado de responder. A memória de Hasdai a arder na fogueira atormentou-o fugazmente: o homem que lhe salvara a vida depois de ele ter feito o mesmo aos seus filhos, o judeu que o acolheu e enriqueceu. Tinham-se passado tantos anos!…

– É má pessoa – optou por lhe responder.

Alguém que exigiu três culpados, acrescentou para si, três homens bons que se imolaram pelos seus entes queridos e pelos da sua comunidade.

Arnau suspirou e apoiou todo o seu peso em Hugo.

– Voltemos para casa – pediu-lhe entre a confusão dos sinos, enquanto as pessoas gritavam e corriam de um lado para o outro. – Temo que, durante os próximos dias, talvez semanas, Barcelona viva tempos difíceis.

– Porquê? – perguntou Hugo, sentindo que o ancião parecia um peso morto no seu braço. Pôs-se muito direito à espera de uma resposta, mas não a obteve. – Porque dizes que viveremos tempos difíceis? – insistiu alguns passos mais adiante.

– Há alguns dias, a rainha Sibila fugiu do palácio com a família e a sua corte – explicou Arnau –, assim que teve a certeza de que o marido ia morrer…

– Abandonou o rei? – Hugo achou aquilo muito estranho.

– Não me interrompas – repreendeu-o Arnau. – Escapou porque tem medo de que o príncipe se vingue nela… O novo rei João[6] – corrigiu-se. – A rainha nunca teve o menor apreço pelo seu enteado e este culpou-a sempre por todos os seus males, pelo afastamento e até pela inimizade do pai. No ano passado, este privou-o do título e das honras de lugar-tenente do reino, uma humilhação para o herdeiro. Vai haver vingança, com toda a certeza, não faltarão represálias – augurou Arnau.

NO DIA SEGUINTE ao da morte de Pedro III, os paroquianos estavam de luto, a igreja estava de luto; a aflição era geral. Hugo acompanhou a missa dominical ao lado da mãe nos únicos momentos de liberdade que o luveiro da rua Canals concedia a Antonina. Viu miser Arnau entre a multidão, de pé, curvado mas de pé, como eles, como os humildes. Olhou para a Virgem. Miser Arnau dizia que sorria. Ele não via, mas o ancião insistia, e voltavam à igreja a horas diferentes para rezar e olhar para ela.

A Virgem do Mar nunca sorria a Hugo, mas nem por isso deixava de lhe rezar nem de lhe pedir, como fez nesse dia, que intercedesse: pela sua mãe, para que deixasse o luveiro, fosse feliz e voltasse a rir e a gostar dele como antes; para que pudessem viver juntos, com Arsenda também. Rezou pelo pai, rezou pela saúde de miser Arnau e pela liberdade do genovês. «A liberdade…», hesitou. «Se o libertam vai-se para Génova e não me ensinará a ser mestre d’aixa», disse sem conseguir evitar remorsos de consciência. «Sim. Intercede pela sua liberdade, Senhora», acabou por ceder.

Quando a comprida cerimónia chegou ao fim, Hugo e Antonina não gastaram o pouco tempo de que ela dispunha para conversar ou mimarem-se um ao outro, como faziam todos os domingos, mas antes prestaram atenção aos rumores. Na praça de Santa María, ali onde se erguia a maravilhosa fachada da igreja com a sua homenagem de bronze aos bastaixos que ajudaram a construí-la, Hugo viu miser Arnau, mas não conseguiu aproximar-se dele: as pessoas rodeavam-no ávidas de notícias, como sucedia com todos os ricos-homens que,

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