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OLIVE KITTERIDGE

Elizabeth Strout  

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Excerto

A Farmácia

Durante muitos anos, Henry Kitteridge trabalhou como farmacêutico na povoação vizinha e, todas as manhãs, conduzia em estradas cobertas de neve, ou de chuva, ou de Verão, época em que os rebentos das framboesas silvestres despontavam nos arbustos espinhosos ao longo do último troço da vila, antes de ele virar para a estrada mais larga que levava à farmácia. Já reformado, continua a acordar cedo e lembra-se de que as manhãs costumavam ser a sua parte preferida do dia, como se o mundo fosse um segredo seu, os pneus ressoando suavemente debaixo de si e a luz emergindo por entre o nevoeiro matutino, o breve vislumbre da baía à sua direita, depois os pinheiros, altos e esguios, e ele seguia quase sempre com a janela entreaberta, porque adorava o cheiro a pinho e o ar carregado de maresia e, no Inverno, adorava o cheiro do frio.

A farmácia era um edificiozinho de dois andares colado a outro que albergava uma loja de ferragens e uma pequena mercearia. Todas as manhãs, Henry estacionava nas traseiras, junto dos grandes contentores de metal, entrava na farmácia pela porta dos fundos e, depois, ia acender as luzes, aumentar a temperatura do termóstato ou, se fosse Verão, ligar as ventoinhas. Abria o cofre, punha dinheiro na caixa registadora, destrancava a porta da frente, lavava as mãos e vestia a bata branca. O ritual era agradável, como se a velha loja — com as suas prateleiras de pastas dentífricas, vitaminas, cosméticos, adereços para o cabelo e até agulhas de costura e cartões de felicitações, a par com botijas de água quente de borracha vermelha e peras de irrigação — fosse uma pessoa regrada e resoluta. E qualquer aborrecimento que tivesse sucedido em casa, qualquer mal-estar por a sua mulher sair da cama, amiúde, de madrugada e zanzar pelas assoalhadas, noite escura, tudo isso regredia como a maré, quando ele atravessava o espaço seguro da sua farmácia. De pé, nos fundos, entre as gavetas e as filas de comprimidos, Henry alegrava-se quando o telefone começava a tocar, quando a Sr.ª Merriman vinha buscar o seu medicamento para a tensão ou o velho Cliff Mott chegava para tomar o seu digitálico, alegrava-se quando preparava o Valium para Rachel Jones, cujo marido a abandonara na noite em que a filha nascera. Fazia parte da natureza de Henry ser um bom ouvinte e eram muitas as vezes, durante a semana, em que dizia «Meu Deus, lamento imenso» ou «Olhe que maravilha!».

Por dentro, sofria da ansiedade silenciosa de um homem que assistira duas vezes na infância aos esgotamentos nervosos de uma mãe que, tirando isso, cuidava dele com determinação. E, portanto, se porventura, embora fosse raro, um cliente ficasse aflito por causa de um preço ou exasperado com a qualidade de uma ligadura elástica ou de um saco de gelo, Henry fazia os possíveis por rectificar rapidamente a situação. Durante muitos anos, teve a Sr.ª Granger a trabalhar para si; o marido era pescador de lagosta e ela parecia carregar dentro de si a brisa fria do mar alto, mostrando-se pouco disposta a agradar a um cliente desconfiado. Ele tinha de ficar de orelha em pé enquanto despachava receitas, para se certificar de que ela não estava na caixa registadora a menosprezar uma queixa. Por mais de uma vez, teve noção de que fazia o mesmo em casa, para garantir que a sua mulher, Olive, não era demasiado dura com Christopher, por causa de um trabalho de casa ou de uma tarefa doméstica que ele não cumprira; a sensação de estar atento a tudo, a necessidade de zelar para que toda a gente se sentisse satisfeita. Sempre que se apercebia de rispidez na voz da Sr.ª Granger, descia do seu posto nos fundos da loja e avançava para o centro, para falar pessoalmente com o cliente. Tirando isso, a Sr.ª Granger fazia bem o seu trabalho. Ele apreciava que ela não fosse faladora, mantivesse o inventário da farmácia sempre actualizado e quase nunca faltasse por doença. O facto de ela ter morrido durante a noite, enquanto dormia, causou-lhe espanto e um certo sentimento de responsabilidade, como se tivesse deixado escapar, tendo trabalhado com ela durante anos, algum sintoma que eventualmente se tivesse revelado e que ele, distribuindo comprimidos, xaropes e injecções, poderia ter tratado.

— Um ratito — disse a sua mulher, quando ele contratou a rapariga nova. — Parece tal e qual um rato.

Denise Tibodeau tinha umas bochechas redondas e uns olhinhos que espreitavam através dos óculos de aros castanhos.

— Mas um rato simpático — disse Henry. — Um rato giro.

— Não se pode chamar giro a quem não consegue ter as costas direitas — ripostou Olive. Era verdade que os ombros estreitos de Denise metiam para dentro, como que pedindo desculpa por qualquer coisa. A rapariga tinha vinte e dois anos e acabara de se licenciar pela universidade pública de Vermont. O marido também se chamava Henry, e Henry Kitteridge, quando conheceu Henry Tibodeau, ficou cativado com o que se lhe afigurou uma espécie de excelência despretensiosa. O rapaz era vigoroso e de feições robustas, com um brilho nos olhos que parecia conceder-lhe um resplendor tremeluzente ao rosto banal e honesto. Era canalizador e trabalhava para um tio que tinha um negócio próprio. Ele e Denise estavam casados havia um ano.

«Não me agrada a ideia», respondeu Olive, quando ele sugeriu convidar o jovem casal para jantar. Henry não insistiu mais. Foi numa época em que o filho — que ainda não exibia os sinais físicos da adolescência — se tornara, de repente, tenazmente intratável e o seu humor trespassava o ar como um veneno e, ao mesmo tempo, Olive parecia tão mudada e mutável como Christopher, entregando-se ambos a duras e devastadoras discussões que se tornavam, igualmente de repente, um manto de intimidade silenciosa da qual Henry, ignorante, atordoado, se sentia excluído.

Mas, parado no parque de estacionamento das traseiras, ao cair de um dia quase no final do Verão, enquanto falava com Denise e Henry Tibodeau, e o Sol se aninhava por detrás dos abetos, Henry Kitteridge sentiu um desejo tão grande de estar na presença daquele jovem casal, com os seus rostos virados para si numa expressão de interesse acanhada mas ansiosa, enquanto ele relembrava os seus tempos na universidade, muitos anos antes, que disse: «Olhem, a Olive e eu gostávamos que fossem lá a casa jantar, um dia destes.»

No regresso a casa, ao passar de automóvel pelos pinheiros altos, pelo vislumbre da baía, pensou nos Tibodeaus a conduzirem na direcção oposta, até à sua casa móvel nos arredores da povoação. Imaginou a casinha pré-fabricada, aconchegante e arrumada — porque Denise era uma pessoa de hábitos metódicos — e idealizou-os a partilharem os acontecimentos do respectivo dia. Denise diria qualquer coisa do estilo: «Ele é um patrão compreensivo.» E Henry responderia: «Gosto bastante dele.»

Estacionou no acesso a sua casa, que não era propriamente um acesso, apenas um troço de relva no cimo da colina, e viu Olive no jardim.

— Olá, Olive — disse, encaminhando-se para ela. Teve vontade de a abraçar, mas ela tinha um negrume que parecia postar-se a seu lado como um conhecido que se recusava a ir embora. Ele disse-lhe que os Tibodeaus iam lá jantar a casa. — Faz todo o sentido — rematou.

Olive limpou o suor que se lhe acumulara por cima do lábio superior e virou-se para arrancar um molho de cebolinhos.

— Então, assim seja, Sr. Presidente — ripostou. — Dê as suas ordens à cozinheira.

Na sexta-feira à noite, o casal seguiu-o até casa e o jovem Henry cumprimentou Olive com um aperto de mão.

— Bela casa que aqui tem — disse ele. — Com esta vista sobre o mar. O Sr. Kitteridge disse que a construíram juntos.

— Pois construímos.

Christopher sentou-se de través à mesa, curvado numa deselegância adolescente, e não respondeu quando Henry Tibodeau lhe perguntou se praticava algum desporto no liceu. Henry Kitteridge sentiu despontar dentro de si uma fúria inesperada; teve vontade de gritar com o miúdo, cuja falta de educação denotava, a seu ver, algo de desagradável que não se esperava encontrar em casa dos Kitteridges.

— Quando se trabalha numa farmácia — disse Olive a Denise, pousando diante dela um prato de feijão guisado com molho de tomate —, fica-se a saber os segredos de toda a gente da terra. — Olive sentou-se em frente dela e deslizou um frasco de ketchup na direcção da rapariga. — Tem de se saber manter a boca fechada. Mas, pelos vistos, isso é coisa que a Denise sabe fazer.

— A Denise tem noção — disse Henry Kitteridge.

O marido de Denise interveio:

— Ah, sim. Se há pessoa em quem se pode confiar é na Denise.

— Acredito que sim — respondeu Henry, passando ao rapaz um cesto com pãezinhos. E, por favor, trate-me por Henry. É um dos meus nomes preferidos — acrescentou. Denise riu-se baixinho; ela gostava de si, pensou Henry, dava para perceber que sim.

Christopher afundou-se ainda mais no assento.

Os pais de Henry Tibodeau viviam numa quinta no interior e, por isso, os dois Henrys falaram sobre colheitas e feijão-verde e o facto de o milho não ser tão doce nesse Verão, devido à escassez de chuva, e como fazer uma boa cama de espargos.

— Ai, pelo amor de Deus! — exclamou Olive, quando, ao passar o ketchup ao jovem, Henry Kitteridge o derrubou e o ketchup espirrou como sangue espesso para cima da mesa de carvalho. Tentando pegar no frasco, fez com que este rolasse e acabou por ficar com ketchup nas pontas dos dedos e na camisa branca.

— Deixa — ordenou Olive, levantando-se. — Não mexas mais, Henry. Pelo amor de Deus. — E Henry Tibodeau, porventura ao ouvir o próprio nome dito num tom tão ríspido, recostou-se, com ar abalado.

— Credo, que porcaria eu fiz — disse Henry Kitteridge.

Como sobremesa, receberam todos uma tacinha azul com um

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