Loading...

O VíCIO DOS LIVROS

Afonso Cruz  

0


Excerto

Feridas abertas

Partindo de uma ideia de um poeta anónimo que disse que, se fosse realmente um poeta, teria podido evitar a Segunda Guerra Mundial, Elias Canetti diz, em A Consciência das Palavras: «Esta seria, creio, a verdadeira tarefa dos poetas. Graças a um dom que foi universal e hoje está condenado à atrofia, e que precisariam por todos os meios preservar para si, os poetas deveriam manter abertas as vias de acesso entre os homens.» Estas vias de acesso entre os homens seriam a capacidade de um poeta poder transformar-se em quem quer que seja, «mesmo no mais ínfimo, no mais ingénuo, no mais impotente». E esta metamorfose deveria ser isenta de interesses, de sucesso ou prestígio, pois teria razão em si mesma e por si mesma, sendo ainda «a única e verdadeira via de acesso a outro ser humano» (que resultaria na compreensão da essência do outro).

Canetti (em La Antorcha al Oído) conta como conheceu o ódio, não por tê-lo simplesmente experimentado em si, mas por vê-lo plasmado no Outro: «Em Frankfurt, para chegar ao Museu Städel, cruzava-se o Meno. Via-se o rio e a cidade e respirava-se fundo, o que nos dava coragem para enfrentar a coisa terrível que nos esperava», que era o encontro com a obra de Rembrandt, Sansão Cego Pelos Filisteus (1636). «Com esse quadro, diante do qual fiquei parado muitas vezes, conheci o que é o ódio.» Canetti diz ter sentido algo semelhante ao que se vislumbra na expressão de Dalila no quadro de Rembrandt quando, em criança, aos cinco anos, quis atingir uma companheira de brincadeiras

Seja o primeiro a receber histórias como esta