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O QUE QUERES SER?

Maria João Viegas   Marta Monteiro  

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Excerto

ANTES DE COMEÇARES A LER

O Que Queres Ser (quando fores grande)? é uma pergunta a que nenhum de nós pode escapar se crescer em qualquer país do mundo ocidental. Surge pela primeira vez ainda cedo, por vezes antes da escola primária, habitualmente por graça. No entanto, chega uma altura em que é a sério. Um dia todos têm de tomar uma decisão e, de repente, o mundo parece reduzir-se a Ciências, Artes, Economia ou Humanidades, ainda que os nossos interesses não se pareçam encaixar completamente em nenhuma destas áreas.

Quando a opção não é óbvia, como escolher? Seguir os conselhos de alguém ou atirar uma moeda ao ar? E será que aquelas quatro áreas são as únicas opções disponíveis? Esta escolha pode determinar o que vais fazer para o resto da vida, por isso, é importante tomar uma decisão refletida, que te permita seguir a carreira mais adequada para ti — que é, no fundo, aquela que fará com que te sintas mais feliz e realizado.

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Fórmulas mágicas? Não temos. No entanto, se tens entre 14 e 18 anos e não sabes ainda O Que Queres Ser, acreditamos que este livro pode ajudar-te a descobrir qual a melhor profissão para ti, seja ela mais técnica ou mais intelectual. Se és um dos felizardos que já sabe o que quer ser, convidamos-te na mesma a ler e a confirmar que estás a fazer a escolha certa. E se te parece que este livro tem muitas páginas, não te iludas. Há páginas em branco que deverão ser escritas por ti ao longo dos desafios que te vamos lançando. Prometemos que vai valer a pena.

AOS PAIS

Há um momento inevitável em que os vossos filhos, ainda adolescentes, estarão prestes a tomar uma decisão que terá um grande impacto na sua vida adulta: vão escolher a área em que irão prosseguir os estudos ou a profissão em que querem formar-se. Se alguns jovens estão plenamente esclarecidos e seguros acerca da sua vocação, outros há — em muito maior número, arriscamos dizer — que, pelo contrário, se veem perdidos no momento de fazer uma escolha de carreira. Sem contar com aqueles que julgam saber a profissão que querem seguir, mas, na realidade, não se informaram devidamente e estão equivocados acerca da sua escolha. Para piorar a situação, as ferramentas disponíveis para ajudar os jovens nesta tomada de decisão têm grandes limitações e são, com frequência, pouco esclarecedoras.

A nossa experiência como professoras no ensino secundário e superior tem-nos mostrado inúmeros casos de escolhas de curso falhadas e de uma angustiante incerteza acerca da própria vocação. Os próprios critérios de decisão para as opções académicas são, grande parte das vezes, preocupantes: fortemente dominados pela opinião dos amigos, pelos estereótipos criados pelos meios de comunicação social e absolutamente despidos de uma pesquisa criteriosa de informação em fontes fidedignas. O resultado é, muitas vezes, problemático: os jovens descobrem que não tomaram a melhor decisão já após terem ingressado no ensino superior e acabam por deixar cadeiras para trás, perder anos ou até mudar de curso porque se sentem profundamente desiludidos e desmotivados. Além de uma perda do seu próprio tempo, o investimento financeiro feito pelas famílias acaba por ser também desperdiçado, sem esquecer os muitos que não têm possibilidade de voltar atrás e reajustar as suas escolhas académicas, acabando por ver as suas opções muito limitadas no mercado de trabalho e tantas vezes obrigados a aceitar empregos desajustados aos seus talentos e vocação. Naturalmente, esta é uma situação indesejável tanto para os próprios, que não se sentem felizes nem realizados no trabalho que desempenham, como para as empresas ou instituições que procuram, acima de tudo, trabalhadores motivados e eficientes.

O facto de sermos recorrentemente confrontadas com estas situações no desempenho do nosso trabalho como professoras alertou-nos para este problema e motivou-nos a elaborar uma solução. Após um aceso debate de ideias, foi-se tornando cada vez mais clara e consensual a necessidade de criar uma forma de levar os jovens a tomar uma decisão que tivesse em conta o que eles são, o que eles gostam, o que eles valorizam e, ao mesmo tempo, que fosse esclarecedora acerca das profissões que lhes interessam. E o resultado está aqui.

O Que Queres Ser? destina-se a jovens a partir dos 14 anos, que se encontrem na fase em que têm de escolher a área de estudo ou a profissão que querem seguir. Após uma breve introdução onde são abordados e discutidos alguns pontos que consideramos cruciais no processo de escolha de carreira, vamos desafiar o leitor a resolver uma série de exercícios que, progressivamente, o vão guiar naquilo a que chamámos de «viagem». O ponto de partida é uma reflexão sobre eles mesmos, sobre as suas preferências, os seus talentos, os seus valores e convicções, numa abordagem dinâmica e muito diferente dos métodos habituais, que toma a forma de exercícios ou jogos. Consolidada esta reflexão, os jovens terão facilidade em reduzir o seu leque de escolhas e selecionar as profissões mais adequadas ao seu perfil. Os exercícios finais irão ajudá-lo a confirmar se as escolhas que fez são ajustadas e correspondem às suas expetativas ou se, pelo contrário, devem ser repensadas. Realizámos ainda um conjunto de várias entrevistas a profissionais, tão diversos como cirurgião veterinário, eletricista, jornalista financeiro, designer de moda, escritor ou foodie, entre outros, que ilustram bem como a escolha de carreira pode ser orientada de forma a abrir caminho para novas oportunidades e não tem de seguir estereótipos nem tendências.

Uma escolha feita com sentido crítico, colocando as perguntas adequadas e refletindo sob diversos pontos de vista, pode evitar muitas desilusões. E, no que toca ao destino profissional dos nossos jovens, quanto mais cedo for possível intervir para evitar desilusões, melhor. Acreditamos que este livro é uma ferramenta de grande valor para ajudar os jovens a fazer uma escolha de carreira mais informada. Se, no futuro, eles forem felizes na sua profissão, serão com certeza mais produtivos, terão mais oportunidades de progressão e crescimento profissional e, em última análise, estarão a contribuir para uma sociedade melhor. Acima de tudo, e porque a profissão não é tudo mas é uma parte substancial das nossas vidas, serão pessoas mais felizes.

Eles não sabem, nem sonham,

que o sonho comanda a vida,

que sempre que um homem sonha

o mundo pula e avança

como bola colorida

entre as mãos de uma criança.

Excerto do poema «Pedra Filosofal»,

António Gedeão in Movimento Perpétuo, 1956

INTRODUÇÃO

Durante a infância é possível «querer ser tudo». Começamos por querer ser bombeiros, polícias, médicos, surfistas, fadas boas ou super-heróis. Tudo é possível e é isso que importa.

Há quem tenha a sorte de saber desde muito cedo o que quer ser quando for grande e, realmente, acabar por vir a sê-lo um dia mais tarde. No entanto, para muitas pessoas, esses primeiros sonhos desvanecem-se e deixam um vazio por preencher.

Chega, então, um dia em que é a sério: entre os 14 e os 18 anos, pais, professores e o próprio sistema educativo exigem-nos que tomemos uma decisão que pode vir a condicionar o resto da nossa vida: temos de escolher uma profissão, a nossa, aquilo que vamos fazer para sempre ou, pelo menos, durante muito tempo.

Vivemos, contudo, num período de constantes e drásticas mudanças a nível económico, político, tecnológico, social e pessoal, o que dificulta a visão de como será o mundo dentro de dez ou vinte anos. Porém, é neste momento que nos é exigido escolher uma profissão ou carreira e essa decisão não pode ser adiada, ainda que, dentro de poucos anos, as profissões existentes hoje possam estar obsoletas ou tenham, simplesmente, deixado de existir. Se há vinte anos não era fácil fazer essa escolha, hoje em dia a dificuldade é ainda maior.

Muitos tomam esta decisão com base nas opiniões dos pais, amigos ou namorados. Há ainda quem escolha uma profissão na perspetiva de poder vir a ganhar muito dinheiro. Outros escolhem uma determinada carreira por acharem que isso lhes trará admiração alheia, que serão vistos como alguém importante ou muito inteligente. Por fim, há ainda quem escolha uma profissão por a achar pouco exigente.

No entanto, poucos escolhem a profissão com o conhecimento de que é exatamente isso que gostam de fazer e para a qual têm vocação. Mesmo quem escolhe a sua profissão por esses motivos, descobre frequentemente que estava enganado e percebe que, afinal, não se sente feliz ou realizado naquela área ou a desempenhar aquele tipo de funções.

Hoje em dia, uma vida de trabalho dura, seguramente, mais de trinta anos. Conseguem imaginar a frustração e a tristeza de, durante trinta anos, dia após dia, terem de se levantar da cama de manhã para ir fazer um trabalho que não vos dá prazer ou no qual não se sentem suficientemente bons? Conseguem imaginar a frustração e a tristeza de quem sente, dia após dia, ao longo de trinta longos anos, ter feito a escolha errada? Trinta anos de trabalho são muitos dias, muitas horas.

Há quem trabalhe uma vida inteira sem nunca chegar a perceber qual é a sua profissão de sonho.

Não queremos que isso aconteça contigo. Por isso, escrevemos este livro: para te ajudar, de uma forma muito simples e clara, a perceber quais são as melhores opções para ti. Acreditamos que, para chegares até elas, é fundamental que faças uma reflexão acerca de determinados aspetos que as pessoas normalmente só tendem a considerar mais tarde, depois de concluído o curso ou até mesmo depois de terem começado a trabalhar. Vamos começar por clarificar alguns conceitos básicos, como o valor do trabalho, o papel do trabalhador na sociedade e o valor do dinheiro, até chegarmos ao ponto de te ajudarmos a conheceres-te a ti próprio: vamos levar-te a refletir sobre o que é, para ti, o sucesso, a descobrir o teu propósito de vida e, finalmente, a identificar o campo em que mais gostarias de trabalhar.

Preparado? Vamos então começar.










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Tens de escolher o que queres ser?

Perante a pergunta: O Que Queres Ser?, todos pensamos automaticamente no que queremos fazer na vida a nível profissional. Ponderamos sobre o emprego que gostaríamos de ter ou sobre o trabalho que gostaríamos de desempenhar no futuro. Emprego e trabalho são duas palavras comuns, usadas quando se fala de profissão ou ofício. No entanto, apesar de ambas as palavras serem usadas frequentemente com o mesmo sentido, emprego e trabalho são conceitos profundamente diferentes.

Trabalho vai para além da necessidade financeira, da dependência de um ordenado ao final do mês que nos garanta a subsistência. É algo muito maior: trabalho pode ser um caminho para a realização pessoal. O trabalho dos atletas e dos artistas são exemplos que ilustram bem como o trabalho está estreitamente relacionado com projetos, objetivos e sonhos, acabando por ser definido pelo que somos ou ambicionamos ser enquanto indivíduos. Outro exemplo: o trabalho que nós desempenhamos como professoras está intimamente ligado à visão que temos do ensino, do que ele deve ser e da mensagem que achamos relevante transmitir aos alunos. Esta visão pode diferir da de outros professores que, de acordo com as suas convicções e personalidades, irão executar o seu trabalho — ensinar — de maneira diferente da nossa.

Nas sociedades atuais, as pessoas cooperam através do seu trabalho, cada uma executando o seu ofício. Por esta razão, trabalho está ainda relacionado com o legado que cada um pretende deixar ao mundo e com a forma como cada um se sente feliz a contribuir para o bem da sociedade em que vive. Desta forma, existem pessoas que valorizam muito o ambiente e desenvolvem as suas carreiras no sentido de encontrar soluções para os problemas das alterações climáticas; outras privilegiam diretamente as pessoas e dedicam-se a prestar auxílio a doentes ou indivíduos carenciados, como é o caso dos médicos, enfermeiros, socorristas ou assistentes sociais; outros preferem deixar o seu contributo sob a forma de edifícios, pontes ou estradas; existem também as pessoas que contribuem na definição das políticas que regem as sociedades, o que pode ter um impacto muito grande na vida de todos.

Em contrapartida, emprego é uma atividade desempenhada por mera necessidade financeira. De acordo com a definição no dicionário, trata-se de uma ocupação remunerada. Está obrigatoriamente relacionada com o trabalho que desempenhamos. Porém, o inverso não é necessariamente verdade: trabalho pode não estar relacionado com emprego, na medida em que podemos desenvolver projetos com uma finalidade útil ou simplesmente lúdica que consideramos extremamente interessantes, mas que não nos dão nenhum rendimento financeiro. Os dirigentes dos escuteiros ou os músicos de um grupo amador são um bom exemplo disso.

Se perguntares aos adultos à tua volta se, na eventualidade de ganharem o Euromilhões, permaneceriam nos seus empregos atuais, provavelmente, a esmagadora maioria responder-te-ia que não, que iriam finalmente fazer o que lhes dá gozo. A razão para tal prende-se com o facto de que ter um emprego que nos garanta subsistência é, na realidade, bem diferente de ter um trabalho que nos garanta o mesmo e, para além disso, ainda nos traga realização pessoal por sabermos estar a contribuir para um bem comum a partir dos nossos talentos e das nossas paixões.

As pessoas verdadeiramente realizadas e felizes profissionalmente não colocam a hipótese de um dia deixarem de trabalhar, pois consideram que o seu trabalho faz parte da sua maneira de ser e de viver a vida. Já dizia Confúcio: «Escolhe um trabalho de que gostes e não terás que trabalhar nem um dia na tua vida.»

Não é, contudo, verdade que o trabalho nos define como pessoas. Cada um de nós é o resultado do casamento entre o que está escrito no nosso ADN e do ambiente que nos rodeia que, em conjunto, determinam a nossa personalidade, talentos, valores e crenças. Com este arsenal poderosíssimo de recursos, nós podemos desempenhar uma multiplicidade de funções (leia-se trabalhos ou profissões), dando-lhes um cunho muito específico — o nosso. Quando o resultado desse trabalho é gratificante, sentimo-nos realizados e compelidos a dedicarmo-nos mais e melhor àquela causa. No fundo, gera-se um ciclo vicioso em que há um reforço positivo da nossa satisfação. E como essa satisfação tem um impacto tão profundo na nossa vida, podemos ter a ilusão de que a nossa profissão nos define, quando, na realidade, é o contrário: é a nossa maneira de ser que nos define como profissionais.

É importante ainda salientar que cada pessoa tem capacidade para desempenhar diferentes tipos de funções e, por conseguinte, pode potencialmente exercer diferentes profissões. É por isso que um médico também pode ser professor numa universidade de Medicina; um engenheiro pode ser bombeiro; um agricultor também pode ser músico; um técnico de análises clínicas pode ser blogger. Algumas pessoas podem sentir-se compelidas a dedicar-se a uma só profissão, enquanto outras, tendo vários interesses, não conseguem escolher um só caminho, gerindo o seu tempo de forma a conseguirem desenvolver vários projetos em simultâneo, muitas vezes de naturezas muito distintas.

Esta capacidade de adaptação a diferentes funções e ambientes, bem como o desenvolvimento de múltiplas competências, são algo de grande valor no mundo profissional. A evolução da tecnologia e o modo como a economia funciona no mundo já nos fez perceber que muitas das profissões atuais se encontram em vias de extinção e também que muitas outras, que ainda nem imaginamos, irão surgir no futuro. Os próprios modelos de trabalho estão em constante evolução. Há poucos anos atrás seria garantido arranjar um emprego e alcançar estabilidade financeira após terminar um curso universitário. Havia os «empregos para a vida». Hoje em dia isso já não é assim. Conseguir um contrato de trabalho não é trivial e, para além deste modelo, existem outras formas de trabalhar auferindo uma remuneração. É até possível trabalhar numa empresa a tempo inteiro a partir de casa! Apesar de, nas últimas décadas, a especialização dos trabalhadores em áreas específicas ter sido muito incentivada, a re ...