Loading...

O QUE OS NúMEROS ESCONDEM

Tim Harford  

0


Excerto

INTRODUÇÃO

Como mentir com a estatística

O verdadeiro problema… não é provar uma falsidade, mas provar a autenticidade do objecto autêntico.

— Umberto Eco[1]

Conhece a velha história das cegonhas que entregam bebés? É verdadeira.

Posso comprová-la através da estatística.

Basta observar a população calculada de cegonhas em cada país e depois o número de bebés que nascem todos os anos. Na Europa, verifica-se uma relação inequívoca. Quanto mais cegonhas, mais bebés; quanto menos cegonhas, menos bebés.

O padrão é suficientemente sólido para derrubar as tradicionais barreiras, permitindo a publicação numa revista académica. De facto, foi publicada uma revista científica com o título «Cegonhas Entregam Bebés (p = 0,008)». Sem entrar em pormenores técnicos, todos estes zeros revelam-nos que não se trata de uma coincidência.[2]

Talvez já tenha percebido a artimanha. Grandes países europeus, como a Alemanha, a Polónia e a Turquia, têm uma elevada taxa de natalidade e muitas cegonhas. Países pequenos, como a Albânia e a Dinamarca, têm baixas taxas de natalidade e poucas cegonhas. Embora exista um padrão evidente nos dados, esse padrão não significa que as cegonhas são as responsáveis pelo aparecimento dos bebés.

Ao que parece, é possível «provar» qualquer coisa com a estatística — até que as cegonhas entregam bebés.

Com certeza que se fica com essa impressão ao ler a obra Como Mentir com a Estatística. Publicada em 1954 por um jornalista freelancer americano pouco conhecido chamado Darrell Huff, este pequeno livro espirituoso e cínico foi de pronto aclamado pela crítica do New York Times e viria a tornar-se talvez o livro de estatística mais popular alguma vez publicado, vendendo mais de um milhão de cópias.

A obra merece a popularidade e o elogio. Trata-se de um prodígio de comunicação estatística. Além disso, tornou Darrell Huff um nerd lendário. Ben Goldacre, epidemiologista e autor bestseller de Ciência da Treta, debruçou-se de forma admirável sobre como «O Huff» escrevera «uma obra de referência». O escritor americano Charles Wheelan descreve o seu livro Naked Statistics como «uma homenagem ao clássico» de Huff. A respeitada revista Statistical Science organizou uma retrospectiva sobre Huff cinquenta anos após a sua publicação.

Eu sempre fui da mesma opinião. Quando era adolescente, adorei ler Como Mentir com a Estatística. Inteligente, acutilante e ilustrado do princípio ao fim com banda desenhada divertida, o livro deu-me umas luzes sobre a manipulação estatística, revelando-me como o embuste se processa para não voltar a ser enganado.

Huff dá imensos exemplos. Começa por uma reflexão sobre o dinheiro que os licenciados de Yale ganham. Segundo um estudo de 1950, os graduados de 1924 tinham um salário médio de perto de 500 mil dólares anuais, em valores dos nossos dias. É suficientemente plausível para ser credível — afinal de contas, estamos a falar de Yale —, mas meio milhão de dólares por ano é muito dinheiro. Será deveras a média?

Não. Huff explica que este valor «improvavelmente salutar» é proveniente de dados reportados pelos próprios, o que significa que será de esperar que as pessoas exagerem os seus rendimentos por uma questão de presunção. Além disso, o estudo inclui apenas os indivíduos que se deram ao trabalho de responder e apenas os diplomados que Yale conseguiu localizar. E quem são os mais fáceis de localizar? Os ricos e famosos. «Quem são as ovelhas tresmalhadas das fileiras de Yale em “paradeiro incerto”?», pergunta Huff. Yale não perde de vista os seus diplomados milionários, mas alguns dos licenciados fracassados podem ter facilmente escapado ao crivo. Tudo isto significa que o estudo apresentará valores bastante inflacionados.

Huff aborda com vivacidade um vasto leque de crimes estatísticos, desde anúncios a pastas dentífricas baseados em estudos viciados, a mapas que mudam de significado consoante o modo como os colorimos. Nas palavras de Huff: «Os trapaceiros já conhecem estas artimanhas; as pessoas honestas têm de as aprender para se defenderem.»

Se o leitor ler a obra Como Mentir com a Estatística, acabará mais desconfiado em relação ao modo como os números nos podem induzir em erro. É um livro inteligente e instrutivo.

Porém, eu passei mais de uma década a tentar transmitir noções estatísticas e a verificar a veracidade de alegações numéricas e, ao longo dos anos, fiquei cada vez mais inquieto com o Como Mentir com a Estatística e com o que esse pequeno livro representa. O que significa para a estatística — e para nós — o facto de a obra de maior sucesso sobre o tema ser, de uma ponta à outra, um alerta para a desinformação?

Darrell Huff publicou Como Mentir com a Estatística em 1954, mas aconteceu outra coisa nesse mesmo ano: dois investigadores britânicos, Richard Doll e Austin Bradford Hill, produziram um dos primeiros estudos convincentes a demonstrar que os hábitos tabágicos provocam cancro do pulmão.[3]

Doll e Hill não o teriam conseguido sem a estatística. Os índices de cancro do pulmão tinham aumentado seis vezes no Reino Unido em apenas quinze anos; em 1950, o Reino Unido tinha a maior taxa do mundo e, pela primeira vez, os óbitos por cancro do pulmão ultrapassavam o número de mortes por tuberculose. Até para perceber que isto estava a acontecer, foi necessária uma perspectiva estatística. Nenhum médico sozinho conseguiria formar mais do que uma vã impressão.

Para demonstrar que a culpa era do tabaco, também neste caso, a estatística foi fundamental. Muitas pessoas pensavam que os veículos motorizados eram os culpados do aumento do cancro do pulmão, o que fazia todo o sentido. Na primeira metade do século XX, os veículos motorizados tornaram-s

Seja o primeiro a receber histórias como esta