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O QUE FICA SOMOS NóS

Jill Santopolo

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Excerto

I

Às vezes parece que os objectos foram testemunhas da história. Eu costumava imaginar que a mesa de madeira em torno da qual nos sentávamos durante o seminário de Shakespeare, leccionado por Kramer, no nosso último ano, era tão velha como a própria Colúmbia — imaginava que tinha estado naquela sala desde 1754, os cantos amaciados por séculos de estudantes como nós, o que, evidentemente, não podia ser verdade. Mas era isto que eu imaginava. Estudantes ali sentados durante a Guerra da Independência, a Guerra Civil, as duas Guerras Mundiais, a Coreia, o Vietname, o golfo Pérsico.

Tem graça: se me perguntares quem mais ali estava naquele dia, acho que não consigo dizer. Costumava ser capaz de recordar todos aqueles rostos com tanta clareza; contudo, treze anos passados, só me lembro de ti e do professor Kramer. Nem sequer me recordo do nome da professora assistente que apareceu tarde, afogueada, na sala de aula. Mais tarde ainda do que tu.

Kramer tinha acabado de fazer a chamada quando tu empurraste a porta. Sorriste-me, revelando brevemente a tua covinha, enquanto tiravas o boné dos Diamondbacks e o enfiavas no bolso de trás das calças. Os teus olhos pousaram rapidamente na cadeira vazia ao lado da minha, e depois também tu aterraste nela.

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— E tu és…? — perguntou Kramer, enquanto tiravas o bloco de notas e uma caneta da mochila.

— Gabe — respondeste. — Gabriel Samson.

Kramer verificou a folha que tinha à frente.

— Vamos tentar chegar a horas durante o que resta do semestre, senhor Samson — sugeriu. — As aulas começam às nove. Na verdade, vamos tentar chegar cedo.

Assentiste, e Kramer começou a falar dos temas em Júlio César.

— «Nós nos píncaros estamos prontos para o declínio» — leu. — «Há uma maré nos assuntos dos homens/ Que, na enchente, conduz à boa fortuna/ Suprimida, toda a viagem de uma vida/ Fica soterrada em marés baixas e miséria/ Agora viajamos em mar alto/ E apanharemos a corrente, na sua passagem/ Ou perderemos a boa ventura.» Confio que fizeram a vossa leitura. O que é que Brutus está a dizer sobre o destino e o livre-arbítrio neste excerto?

Lembro-me sempre daquele passo porque tantas vezes me perguntei, desde aquele dia, se tu e eu estávamos destinados a conhecer-nos no seminário de Shakespeare de Kramer. Se foi o destino ou uma decisão que nos manteve ligados todos estes anos. Ou uma combinação das duas coisas, apanhando a corrente na sua passagem.

Depois de Kramer ter falado, uns quantos alunos folhearam o texto que tinham à frente. Tu enfiaste os dedos nos teus caracóis, e depois estes voltaram ao lugar.

— Bem — começaste, e eu e o resto da turma olhámos para ti.

Mas não tiveste tempo de continuar.

Uma professora assistente, cujo nome não consigo recordar, entrou na sala, apressada.

— Desculpem o atraso — disse ela. — Um avião chocou contra uma das Torres Gémeas. Estava a dar na televisão quando me preparava para sair de casa.

Ninguém conhecia o significado destas palavras; nem ela própria.

— O piloto estava bêbedo? — perguntou Kramer.

— Não sei — respondeu a professora assistente, sentando-se à mesa. — Ainda esperei, mas os repórteres não faziam ideia do que estava a acontecer. Disseram que era um tipo qualquer de avião a hélice.

Se tivesse acontecido hoje, todos os nossos telemóveis estariam a explodir de mensagens. Os pings do Twitter e do Facebook, e as notificações do New York Times. Mas a comunicação nesses tempos ainda não era instantânea, e Shakespeare não seria interrompido. Esquecemos o assunto e Kramer continuou a falar de César. Enquanto eu tomava notas, reparei que os dedos da tua mão direita coçavam, inconscientes, o granulado de madeira da mesa. Rabisquei uma imagem do teu polegar com a unha irregular e cutícula rasgada. Ainda tenho esse caderno de notas algures — numa caixa cheia de clássicos da literatura e apontamentos sobre civilizações contemporâneas. Tenho a certeza de que o tenho.

II

Nunca me esquecerei do que dissemos quando saímos da Ala de Filosofia; embora as palavras não tivessem sido nada de especial, a conversa ficou gravada na minha memória como parte integrante daquele dia. Descemos as escadas juntos. Não propriamente juntos, mas perto um do outro. O ar estava limpo, o céu azul — e tudo mudara. Só que ainda não o sabíamos.

Ao nosso redor, as pessoas diziam:

— As Torres Gémeas desabaram!

— Não há mais aulas!

— Quero doar sangue. Sabes onde é que posso doar sangue?

Voltei-me para ti.

— O que é que se passa?

— Vivo no East Campus — disseste, a apontar para a residência. — Vamos descobrir. Chamas-te Lucy, certo? Onde é que vives?

— Na Residência Hogan — respondi. — Sim, chamo-me Lucy.

— Prazer em conhecer-te, Lucy. Sou o Gabriel.

Estendeste-me a mão. Apertei-a, e olhei-te durante o gesto. A tua covinha regressou. Os teus olhos radiavam azul. Pela primeira vez pensei: Que bonito.

Fomos para a tua residência e vimos televisão com os teus colegas, Adam e Scott e Justin. No ecrã, os corpos saltavam dos edifícios, escombros escurecidos enviavam sinais de fumo para o céu, e as Torres caíram em sequência. A devastação deixou-nos dormentes. Vimos as imagens, incapazes de reconciliar aquela narrativa com a nossa realidade. O facto de aquilo estar a acontecer na nossa cidade, a dez quilómetros de onde estávamos sentados, que aqueles corpos eram pessoas — seres humanos — ainda não registara. Pelo menos, não comigo. Parecia uma coisa tão distante.

Os telemóveis não funcionavam. Usaste o telefone da residência para ligar à tua mãe, no Arizona, e dizer-lhe que estavas bem. Eu liguei aos meus pais, no Connecticut, que queriam que eu voltasse para casa. Conheciam alguém cuja filha trabalhava no World Trade Center e ainda ninguém tivera notícias dela. E outra pessoa cujo primo tivera uma reunião ao pequeno-almoço no restaurante Windows of the World.

— É mais seguro saíres de Manhattan — disse o meu pai. — E se houver antraz? Ou outra guerra biológica qualquer. Gás neurotóxico.

Expliquei ao meu pai que o metropolitano não estava a funcionar. Provavelmente também não havia comboios.

— Eu vou buscar-te — disse ele. — Meto-me à estrada agora.

— Está tudo bem — retorqui. — Estou com amigos. Estamos bem. Eu ligo-te mais tarde. — Ainda nada daquilo parecia verdadeiro.

— Sabes — disse Scott, depois de eu ter desligado —, se eu fosse uma organização terrorista, largava uma bomba em cima de nós.

— Foda-se, Scott — refilou Adam; aguardava um telefonema do tio, que trabalhava no Departamento da Polícia de Nova Iorque.

— Ora, se pensares na coisa em teoria… — continuou Scott, mas não chegou mais longe do que isto.

— Cala-te — interveio Justin. — A sério, Scott. Não é altura para isso.

— Se calhar é melhor ir-me embora — disse-te. Não te conhecia. E tinha acabado de conhecer os teus amigos. — Os meus companheiros de residência devem estar a perguntar por mim.

— Liga-lhes — disseste tu, passando-me o telefone. — E diz-lhes que vais para o terraço da Residência Wien. Diz-lhes que podem ir lá ter contigo, se quiseres.

— Vou para onde?

— Comigo — disseste, e correste os dedos despreocupadamente pela minha trança. Era um gesto íntimo, o género de coisa que acontece depois de todas as barreiras do espaço pessoal terem sido infringidas. Tal como comer do prato de alguém sem pedir licença. De súbito senti-me ligada a ti, como se a tua mão no meu cabelo significasse algo mais do que dedos inertes, nervosos. Muitos anos mais tarde pensei nesse momento, quando decidi doar cabelo e o cabeleireiro me entregou uma trança embrulhada em plástico, de um castanho ainda mais escuro do que o habitual. Ainda que, nessa ocasião, tu estivesses a um mundo de distância, senti que te traía, como se estivesse a cortar o nosso vínculo.

Mas naquele dia, depois de me tocares no cabelo, deste-te conta do que havias feito e deixaste a mão cair no colo. Sorriste-me novamente, mas desta vez o sorriso não te chegou aos olhos.

Encolhi os ombros.

— OK — concordei.

Parecia que o mundo se desfazia em pedaços, como se tivéssemos entrado para o interior de um espelho estilhaçado, um lugar fracturado onde nada fazia sentido, onde os nossos escudos tinham caído, as paredes em ruínas. Neste lugar, não havia nenhum motivo para dizer não.

III

Apanhámos o elevador para Wien 11, e depois abrimos uma janela ao fim do corredor.

— Mostraram-me isto no primeiro ano — contaste. — É a vista mais incrível de Nova Iorque que alguma vez irás ter.

Saímos da janela para o terraço e fiquei sem ar. O fumo erguia-se do extremo sul de Manhattan. O céu estava a ficar cinzento, a cidade envolvida em cinza.

— Oh, meu Deus — exclamei. Os meus olhos encheram-se de lágrimas. Tive a imagem do que costumava ali estar. Vi o espaço negativo onde as Torres tinham estado. Finalmente percebi. — Havia pessoas naqueles edifícios.

A tua mão encontrou a minha e segurou-a.

Ficámos ali, no rescaldo da destruição, as lágrimas a correrem pelos nossos rostos, não sei durante quanto tempo. Devem ter estado outras pessoas ali connosco, mas não consigo lembrar-me delas. Só de ti. E da imagem daquele fumo. Cauterizada no meu cérebro.

— O que é que acontece agora? — murmurei por fim. Ver aquilo trouxe-me a consciência da magnitude do ataque. — O que é que se segue?

Olhaste para mim, e os nossos olhos, ainda húmidos das lágrimas, encaixaram com a espécie de magnetismo que ignora o mundo em redor. A tua mão desceu à minha cintura, e eu pus-me em bicos de pés para encontrar os teus lábios a meio caminho. Os nossos corpos juntaram-se, como se isso nos protegesse de qualquer coisa que viesse a seguir. Como se a única maneira de continuar protegida fosse deixar os meus lábios nos teus. No instante em que o teu corpo envolveu o meu, foi assim que me senti — segura, abarcada pela força e calor dos teus braços. Os teus músculos tremeram contra as minhas mãos e enterrei os meus dedos no teu cabelo. Envolveste a minha trança com a palma da mão, puxando-a suavemente e inclinando-me a cabeça para trás. E eu esqueci-me do mundo. Naquele momento, só existias tu.

Durante anos senti-me culpada. Culpada de nos termos beijado a primeira vez enquanto a cidade ardia, culpada por ter sido capaz de me perder em ti naquele momento. Mas, mais tarde, compreendi que não éramos os únicos. As pessoas confessaram-me, em sussurros, que tiveram sexo naquele dia. Que fizeram um filho. Que ficaram noivos. Que disseram «amo-te» pela primeira vez. Há alguma coisa na morte que faz as pessoas quererem viver. Naquele dia queríamos viver, e não nos culpo por isso. Deixei de nos culpar.

Quando interrompemos para recuperar o fôlego, encostei a cabeça ao teu peito. Ouvi o teu coração e a sua batida regular confortou-me.

E a batida do meu confortou-te? Ainda te conforta?

IV

Regressámos ao teu quarto na residência porque me prometeste almoço. Querias voltar ao terraço com a máquina fotográfica, a seguir, e tirar fotografias.

— Para o Spectator[1]? — perguntei.

— O jornal? Não. Para mim.

Na cozinha entretive-me a observar um monte de fotografias tuas — a preto-e-branco, tiradas um pouco por todo o campus. Eram imagens bonitas e bizarras, inundadas de luz. Imagens com um zoom tão intenso que os objectos do quotidiano pareciam arte moderna.

— Onde é que tiraste esta? — perguntei. Depois de a observar durante um bocado, dei-me conta de que era um ninho de aves visto de muito perto, embrulhado com o que pareciam ser jornais e revistas e uma redacção que alguém escrevera para uma aula de Literatura Francesa.

— Oh, essa foi incrível — contaste-me. — A Jessica Cho… sabes quem é? Costuma cantar a capella? A namorada do David Blum? Ela falou-me deste ninho que conseguia ver da janela, aonde foi parar o trabalho de casa de alguém. Fui lá ver como era. Tive de me pendurar da janela para conseguir tirar a fotografia. A Jess obrigou o David a segurar-me os tornozelos porque tinha medo de que eu caísse. Mas consegui.

Depois dessa história, passei a ver-te de maneira diferente. Eras corajoso e destemido, tinhas um compromisso com a arte. Olhando para trás, julgo que era isso que querias que eu pensasse. Na altura não me dei conta, mas estavas a tentar impressionar-me. Só pensei: Uau. Pensei: Ele é maravilhoso. Mas o que era verdade então, e continua a ser verdade hoje, é que tu encontras beleza em todo o lado. Reparas em coisas que as outras pessoas não reparam. É algo que sempre admirei em ti.

— É isto que queres fazer? — perguntei, apontando para as fotografias. Abanaste a cabeça.

— É apenas um passatempo — respondeste. — A minha mãe é artista. Devias ver o que ela consegue fazer, estas pinturas abstractas gigantes. Mas ganha a vida a pintar pequenas telas do pôr-do-sol no Arizona para os turistas. Não quero ter esse género de vida, a criar coisas que se vendem.

Encostei-me ao balcão e olhei para o resto das fotografias. A ferrugem a percolar um banco de pedra, veios rachados no mármore, corrosão num corrimão de metal. Beleza onde eu nunca a imaginaria.

— O teu pai também é artista? — perguntei.

O teu rosto fechou-se. Como uma porta a encerrar-se atrás dos teus olhos.

— Não — respondeste. — Não é.

Eu tropeçara numa falha sísmica que desconhecia. Arquivei esse assunto; estava a descobrir a paisagem que tu eras. Tinha esperança de vir a conhecer bem o terreno, que navegá-lo se tornasse uma segunda natureza para mim.

Ficaste em silêncio. Eu também. A televisão, ao fundo, prosseguia estridente, e ouvi os apresentadores das notícias falarem do Pentágono e do avião que caíra na Pensilvânia. O horror da situação tornou a atravessar-me. Pousei as fotografias. Pareceu-me perverso, naquele momento, concentrar-me na beleza. Mas, ao olhar para trás, talvez fosse precisamente a coisa certa a fazer.

— Não disseste que íamos lanchar? — perguntei, embora não estivesse com fome, embora as imagens que lampejavam no ecrã me dessem a volta ao estômago.

A porta atrás dos teus olhos abriu-se.

— Disse, sim — concordaste.

Só havia ingredientes para fazer nachos. Mecanicamente, cortei tomates às rodelas e abri uma lata de feijões com um abridor ferrugento enquanto tu dispunhas os triângulos de milho numa bandeja de alumínio descartável e ralavas queijo para dentro de uma tigela de cereais.

— E tu? — perguntaste, como se a conversa nunca tivesse cessado.

— Hum? — disse eu, empurrando a tampa da lata contra os feijões para a conseguir levantar.

— És artista?

Pousei o disco metálico na bancada.

— Não — respondi. — A coisa mais criativa que faço é escrever histórias para os meus companheiros de apartamento.

— Sobre o quê? — perguntaste tu, de cabeça a pender para um dos lados.

Baixei a cabeça, para que não me visses corar.

— Isto é constrangedor — disse eu —, mas são sobre um miniporco chamado Hamilton que entra por acidente numa universidade de coelhos.

Soltaste um riso de surpresa.

— Hamilton. Um porco — disseste. — Percebo. Tem graça.

— Obrigada — retorqui, olhando-te.

— Então é isso que queres fazer depois do curso?

Tinhas o frasco do molho salsa na mão e batias levemente a tampa contra a bancada para a soltares. Abanei a cabeça.

— Acho que não existe grande mercado para histórias sobre o porquinho Hamilton. Tenho andado a pensar numa carreira em publicidade, mas, quando o digo em voz alta, parece-me uma ideia tonta.

— Tonta porquê? — perguntaste, e o frasco abriu-se com um estalido da tampa.

Olhei para a televisão.

— Tem algum sentido? A publicidade? Se este fosse o meu último dia na terra e eu tivesse passado toda a vida adulta a inventar campanhas para vender às pessoas… queijo em fatias… ou tiras de milho… daria o tempo aqui passado por bem empregado?

Mordeste o lábio. Os teus olhos diziam: Estou a pensar no assunto. Aprendi um bocadinho mais da tua topografia. Talvez tenhas aprendido um pouco da minha.

— O que é que constitui uma vida bem passada? — perguntaste.

— É o que ando a tentar descobrir — disse eu, a cogitar enquanto falava. — Acho que pode ter a ver com deixar uma marca: num sentido positivo. Deixar o mundo um bocadinho melhor do que quando o encontrámos.

Ainda acredito nisto, Gabe. É pelo que tenho lutado toda a minha vida — e parece-me que tu também.

Vi algo florescer no teu rosto. Não tive a certeza do que significava. Ainda não te aprendera o suficiente. Mas agora conheço essa expressão. Significa que as perspectivas estão a mudar na tua cabeça.

Mergulhaste um triângulo de milho no molho e ofereceste-mo.

— Dentada? — perguntaste.

Mordi metade e tu meteste a outra metade na boca. Os teus olhos traçaram a superfície do meu rosto e viajaram pelo comprimento do meu corpo. Senti que me examinavas de diferentes ângulos e posições estratégicas. Depois roçaste a ponta dos teus dedos na minha bochecha e beijámo-nos novamente; desta vez sabias a sal e a chili.

Quando eu tinha cinco ou seis anos, desenhei na parede do quarto com um marcador vermelho. Acho que nunca te contei esta história. Enquanto eu desenhava corações e árvores e sóis e luas e nuvens, sabia que estava a fazer uma coisa indevida. Sentia-o na boca do estômago. Mas não conseguia parar — queria tanto fazer aquilo. O meu quarto tinha sido decorado a rosa e amarelo, mas a minha cor preferida era o vermelho. E eu queria que o meu quarto fosse vermelho. Precisava de que ele fosse vermelho. Desenhar na parede parecia-me ao mesmo tempo completamente certo e completamente errado.

Foi assim que me senti no dia em que te conheci. Beijar-te no meio da tragédia e da morte parecia-me ao mesmo tempo completamente certo e completamente errado. Mas concentrei-me na parte que me parecia certa, como sempre faço.

Enfiei a mão no bolso de trás das tuas calças de ganga, e tu enfiaste a tua mão no meu. Aproximámo-nos. O telefone no teu quarto tocou, mas ignoraste-o. Depois tocou o telefone no quarto de Scott. Passados alguns segundos, Scott entrou na cozinha e aclarou a garganta. Separámo-nos e olhámos para ele.

— A Stephanie está à tua procura, Gabe — disse ele. — Meti-a em espera.

— Stephanie? — perguntei.

— Não é ninguém — disseste tu, ao mesmo tempo que Scott dizia:

— A ex-namorada dele.

— Está a chorar, meu — disse-te Scott.

Pareceste dividido, os teus olhos viajavam entre Scott e eu.

— Podes dizer-lhe que ligo daqui a uns minutos? — pediste-lhe.

Scott assentiu e foi-se embora, e então tu agarraste a minha mão, entrelaçando os dedos nos meus. Os nossos olhos encontraram-se, como sucedera no terraço, e eu era incapaz de os desviar. Senti o coração bater com mais força.

— Lucy — disseste, infundindo o meu nome com desejo. — Sei que estás aqui, e sei que isto pode parecer estranho, mas eu devia ir ver se ela está bem. Estivemos juntos um ano inteiro e só nos separámos há um mês. Hoje…

— Eu compreendo — interrompi. E, estranhamente, isto fez-me gostar mais de ti, a tua preocupação com Stephanie, ainda que já não namorassem. — Seja como for, eu devia ir ter com os meus companheiros de apartamento — disse eu, embora não tivesse vontade nenhuma de partir. — Obrigada por… — Comecei a frase sem saber como a iria terminar, e depois percebi que não conseguia mesmo terminá-la.

Apertaste os meus dedos.

— Obrigado por dares outro sentido a este dia — disseste. — Lucy. Luce. Luz significa «luz» em espanhol, certo? — Fizeste uma pausa. Assenti. — Bem, obrigado por encheres um dia negro com a tua luz.

Tinhas posto em palavras o sentimento que eu não era capaz de expressar.

— Fizeste o mesmo por mim — disse eu. — Obrigada.

Tornámos a beijar-nos e foi difícil separar-me de ti. Foi tão difícil partir.

— Ligo-te mais tarde — prometeste. — Eu encontro-te na lista telefónica do campus. Desculpa-me pelos nachos.

— Fica bem — respondi. — Podemos sempre comer nachos noutra altura qualquer.

— Parece-me bem — anuíste.

* * *

E eu fui-me embora, perguntando-me se era possível que um dos dias mais horríveis que eu conhecera contivesse uma pepita de bondade. Ligaste-me passadas algumas horas, mas não tivemos a conversa que eu esperara. Disseste que tinhas pena, muita pena, mas que tu e Stephanie tinham voltado a namorar. O seu irmão mais velho tinha desaparecido — trabalhava numa das Torres Gémeas — e ela precisava de ti. Disseste que tinhas esperança de que eu compreendesse e agradeceste-me uma vez mais por trazer luz a uma tarde tão horrível. Disseste que a minha presença significara muito para ti. E pediste desculpa outra vez.

Não devia ter ficado destroçada, mas fiquei.

Não falei contigo durante o que restou desse semestre. Nem do semestre da Primavera. Mudei de lugar na aula de Kramer para não ter de me sentar ao teu lado. Mas escutei sempre que falaste da maneira como encontravas beleza na linguagem e no imaginário de Shakespeare — até nas cenas mais feias.

— «Infelicidade!» — leste, em voz alta. — «Um rio carmesim de sangue quente/ Parecido a uma fonte borbulhante agitada pelo vento/ Ergue-se e cessa entre os teus lábios rosados.» Tudo em que eu conseguia pensar era nos teus lábios e na sensação de os ter encostados aos meus.

Tentei esquecer aquele dia, mas era impossível. Não conseguia esquecer o que acontecera a Nova Iorque, à América, às pessoas nas Torres. E não conseguia esquecer o que acontecera entre nós. Mesmo hoje, quando alguém pergunta: «Estavas em Nova Iorque quando as Torres vieram abaixo?» ou «Onde é que estavas naquele dia?» ou «Como é que foi?», a primeira coisa em que penso és tu.

Há momentos que mudam a trajectória das nossas vidas. Para tantos de nós, que vivíamos em Nova Iorque, o 11 de Setembro foi esse momento. Qualquer coisa que eu pudesse ter feito nesse dia seria importante, permaneceria gravada na minha mente e marcada no meu coração. Não sei porque te conheci nesse dia, mas sei que, por causa disso, passarias a fazer parte da minha história pessoal para sempre.

V

Era Maio e tínhamos acabado de nos licenciar. Devolvemos os trajes académicos, a toga e chapéu, trocando-os por diplomas escritos em latim brasonados com os nossos nomes, o nome próprio, o nome do meio, o apelido. Entrei no Le Monde com a minha família — a minha mãe, o meu pai, o meu irmão Jason, dois avós e um tio. Sentaram-nos ao lado de uma outra família bem mais pequena: a tua.

Olhaste para cima enquanto passávamos e tocaste-me no braço.

— Lucy! — disseste. — Parabéns!

Toda eu tremi. Sentir a tua pele na minha, passados tantos meses, teve esse efeito em mim. Ainda assim, consegui dizer:

— Para ti também.

— O que é que vais fazer? — perguntaste. — Vais ficar na cidade?

Assenti.

— Arranjei um emprego em desenvolvimento de programas numa nova produtora de televisão, programas para crianças. — Não pude evitar sorrir. Passara dois meses a fazer figas para conseguir aquele trabalho. O tipo de emprego em que comecei a pensar pouco depois de as Torres terem caído, depois de reconhecer que queria fazer alguma coisa mais significativa do que trabalhar em publicidade. Um emprego que pudesse chegar à geração seguinte e tivesse o potencial de mudar o futuro.

— Programas para crianças? — disseste com um sorriso nos lábios. — Tipo Alvin e os Esquilos? E vão ter as vozes alteradas com hélio?

— Não exactamente — respondi, a rir-me um pouco, querendo dizer-te que tinha sido a nossa conversa que me ajudara, que o momento que havíamos partilhado na tua cozinha fora tão importante.

— Então e tu?

— McKinsey — respondeste. — Consultoria. Não há cá esquilos para mim.

Fiquei surpreendida. Não esperava isso, depois da nossa conversa, depois de ouvir as tuas análises na aula de Kramer. Mas o que respondi foi:

— Fantástico. Parabéns pelo emprego. Talvez nos encontremos por aí.

— Isso era bom — disseste. E eu fui sentar-me à mesa com a minha família.

— Quem era aquela? — ouvi alguém perguntar. Olhei para cima. Havia uma rapariga ao teu lado de cabelo comprido, cor de trigo, pelo meio das costas, a mão dela pousada na tua coxa. Nem tinha dado por ela por estar tão concentrada em ti.

— É só uma miúda que conheço das aulas, a Stephanie — ouvi-te dizer. O que, na verdade, era bastante certo. Mas, por alguma razão, as palavras doeram.

VI

Nova Iorque é uma cidade engraçada. Pode viver-se nela durante anos e nunca chegar a conhecer o vizinho do lado, e depois esbarrar com o teu melhor amigo ao entrar no metropolitano a caminho do trabalho. Destino versus livre-arbítrio. Talvez os dois.

Era Março, quase um ano depois do fim do curso, e Nova Iorque engolira-nos. Eu vivia com Kate no Upper East Side, naquele apartamento gigante que em tempos pertencera aos seus avós. Desde que fôramos colegas no ensino preparatório que falávamos em viver juntas. Os nossos sonhos tinham-se tornado realidade.

Eu tivera um caso de seis meses com um colega do trabalho, uns quantos engates de uma só noite e uma mão-cheia de jantares com homens que considerara não serem suficientemente bonitos ou empolgantes, embora, em retrospectiva, não houvesse nada de errado com eles. Na verdade, se tivesse conhecido Darren nessa altura, talvez pensasse o mesmo dele.

Sem a lembrança constante da Ala de Filosofia ou da residência do East Campus, deixara de pensar em ti — ou quase. Havia praticamente um ano que não nos víamos. Por vezes, contudo, lembrava-me de ti, no trabalho, quando estava a olhar para storyboards com o meu chefe, ou a reescrevermos episódios sobre aceitação e respeito. Pensei na tua cozinha e senti-me bem com a decisão tomada.

Num instante, chegámos ao dia 20 de Março e eu fazia vinte e três anos. Tinha planeado uma festa nesse fim-de-semana, mas dois dos meus melhores amigos no emprego, Alexis, o guionista, e Julia, do Departamento de Arte, como mais tarde lhes chamaste, insistiram para tomarmos um copo no meu dia de aniversário. Os três tínhamos ficado obcecados com o bar Faces & Names nesse Inverno, por causa da lareira e dos sofás. A temperatura rondava os seis graus, e calculámos que o bar acenderia a lareira se nós pedíssemos. Tínhamos ido lá algumas vezes nos últimos meses, e o empregado gostava de nós.

Julia fez-me uma coroa de papel que insistiu para eu usar, e Alexis pediu uma rodada de martínis de maçã. Sentámo-nos no sofá, em frente da lareira, a inventar coisas para celebrar antes de cada gole.

— Aos aniversários! — começou Alexis.

— À Lucy! — acrescentou Julia.

— Aos amigos! — acrescentei eu. O que descambou para «à máquina de fotocópias não ter encravado hoje!» e «aos patrões que tiram o dia porque estão doentes!» e «aos almoços grátis depois das reuniões importantes!» e «aos bares com lareira!» e «aos martínis de maçã!». A empregada aproximou-se do nosso sofá com uma bandeja com mais três martínis.

— Nós não pedimos esses — disse Julia.

A empregada sorriu.

— As meninas têm um admirador secreto. — Apontou com a cabeça para o balcão.

Ali estavas tu.

Por um momento achei que estava a alucinar. Acenaste-nos.

— Ele disse para desejar feliz aniversário à Lucy.

O queixo de Alexis caiu.

— Conhece-lo? — perguntou. — É tão giro!

Depois pegou num dos martínis que a empregada deixara na mesa à nossa frente.

— Aos rapazes giros em bares que sabem o teu nome e te mandam bebidas de graça! — fez um brinde. Depois de todos termos dado um gole, acrescentou: — Vai agradecer-lhe, aniversariante.

Pousei o martíni mas depois mudei de ideias, e levei-o comigo enquanto caminhava na tua direcção, oscilando ligeiramente nos saltos altos.

— Obrigada — e sentei-me no tamborete à tua esquerda.

— Feliz aniversário — disseste tu. — Bela coroa.

Ri-me e tirei-a da cabeça.

— Se calhar fica-te melhor a ti — respondi. — Queres experimentar? — Acedeste e esmagaste os caracóis com o papel. — Fantástico — confirmei. Sorriste e puseste a coroa no balcão à nossa frente.

— Quase não te reconheci — in ...