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O MAL SOBRE A TERRA

Mary del Priore  

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Excerto

PREFÁCIO

Um Livro Admirável

Mary del Priore, notável historiadora brasileira, com inúmeras obras publicadas, algumas delas premiadas, possui um condão muito especial: é, além de historiadora firmada, uma óptima narradora, a sua escrita encanta o leitor como se, escrevendo de um modo rigoroso, dando provas do conhecimento de uma bibliografia especializada, carreando inúmeros testemunhos coevos do período estudado, elevasse a escrita da História à condição de retrato vivencial do que, de facto, aconteceu, registo de uma representação social verdadeira. Em O Mal sobre a Terra — história do grande terramoto de Lisboa, as teorias e as metodologias históricas existem (e bastantes, sobretudo as mais recentes), mas, para o leitor, parecem invisíveis, ou melhor, ocultas sob uma encantatória capacidade de escrita narrativa, ora lírica, ora dramática, por vezes trágica, que persuade o leitor não só a acompanhar as descrições factuais do terramoto de 1755, emocionando-se com elas (acontecimento raro no livro de um historiador) como a enlevar-se inconscientemente com a beleza do português registado.

Seria muito fácil dizer que Mary del Priore escreve História como se escrevesse um romance, devemos resistir a essa tentação, que adulteraria o enorme esforço de investigação e de hermenêutica levado a cabo pela autora para a construção de O Mal sobre a Terra, publicado inicialmente em São Paulo em 2003. Não, este livro é mesmo História. Porém, sob e sobre a narração dos factos, brilha nele, não o acto efabulatório da criação romanesca, mas o acto de representação escrita da Vida. Mary del Priore tem o condão de, contra o vector dominante da investigação erudita, que paraleliza as duas dimensões, vincular, entrançar, unir, entrelaçar História e Vida, como se aquela fosse, como sempre deveria ser, a representação verdadeira desta, persuadindo o leitor a minimizar interpretações teóricas (absolutamente necessárias) e a sentir-se literalmente no interior da História, das suas rupturas, das suas circunvoluções e das suas continuidades, como se estivesse a viver a história narrada. Neste sentido, O Mal sobre a Terra dirige-se primacialmente a historiadores, que saberão aquilatar da sua qualidade, e destina-se igualmente a um público não especializado mas culto, não erudito mas letrado, que, em época de confinamento forçado devido à existência à solta de um outro mal, agora não geológico, mas biológico, que atravessa a Europa, o coronavírus, entenderá melhor a multiplicidade de emoções e os diversos sentimentos vividos pelos lisboetas naquele dia fatídico de 1 de Novembro de 1755 pelas 9:30 h: o espanto, o medo, o terror, o pânico, o sofrimento físico, a tortura mental, o bloqueamento de todos os sentidos perante a majestade do fenómeno, primeiro o tremor de terra, depois a invasão das águas do Tejo, finalmente o fogo e a constatação da total perda de bens para inúmeras famílias «sem tecto, entre ruínas» (Raul Brandão).

Ao longo de todo o livro — assim começa e assim acaba, emergindo recorrentemente —, é destacada a personalidade do francês Jacome Ratton. Mas não é ele a personagem principal do livro. Esta é Lisboa, metonímia da verdadeira personagem principal: Portugal entre os séculos XVI e XVIII, com um capítulo a fazer sobressair interpretações posteriores do terramoto e teorias sobre a existência e sentido de Portugal, desde o Marquês de Pombal a Oliveira Martins e Eduardo Lourenço.

No primeiro capítulo, proced

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