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O úLTIMO ADEUS

Kate Morton  

5


Excerto

1

Cornualha, Agosto de 1933

Chovia copiosamente e a bainha do seu vestido estava salpicada de lama. Teria de o esconder mais tarde; ninguém podia saber que ela saíra.

Nuvens tapavam a Lua, um golpe de sorte que ela não merecia. Caminhou o mais depressa que conseguiu no meio da densa escuridão da noite. Viera antes para cavar o buraco, mas só agora, a coberto do negrume, poderia terminar o trabalho. A chuva perfurava a superfície do lago de trutas e tamborilava implacavelmente na terra que o rodeava. Alguma coisa saiu disparada do meio dos fetos ali perto, mas ela não vacilou, não parou. Passara a vida inteira a entrar e a sair daqueles bosques e conhecia o caminho de cor.

Quando tudo acontecera, ela considerara a hipótese de confessar, e num primeiro momento talvez tivesse falado. No entanto, deixara passar a oportunidade e agora era tarde de mais. Tinham acontecido demasiadas coisas: as equipas de busca, os polícias, os artigos nos jornais a pedir informações. Ela não podia contar a ninguém, não havia maneira de remediar a situação e não podia esperar perdão. A única coisa que lhe restava era enterrar a prova.

Chegou ao local que escolhera. O saco, com a caixa no interior, era surpreendentemente pesado e foi um alívio pousá-lo. De gatas, afastou a camuflagem de fetos e ramos. O cheiro do solo encharcado era avassalador, a ratos do campo e cogumelos, a outras coisas em putrefacção. Uma vez, o pai dissera-lhe que gerações tinham andado por aqueles bosques e sido enterradas muito fundo naquela terra pesada. Sabia que o pai gostava de pensar assim. A continuidade da Natureza consolava-o e ele acreditava que a estabilidade do longo passado tinha o poder de aliviar problemas do presente. Em alguns casos, talvez fosse verdade, mas não desta vez, não com estes problemas.

Baixou o saco para dentro do buraco e, durante uma fracção de segundo, a Lua pareceu espreitar atrás de uma nuvem. Lágrimas ameaçaram correr-lhe pelo rosto quando tapava o buraco com terra, mas não as deixou cair. Chorar, aqui e agora, seria uma indulgência que se recusava permitir a si mesma. Alisou o chão, bateu com as mãos na terra e pisou com toda a força com as botas, até ficar sem fôlego.

Pronto. Estava feito.

Passou-lhe pela cabeça que devia fazer alguma coisa antes de sair daquele lugar solitário. Alguma coisa em relação à morte da inocência, aos remorsos profundos que nunca mais a deixariam: mas não fez nada. Essa vontade fê-la sentir-se envergonhada.

Voltou depressa pela floresta, tendo o cuidado de evitar a casa dos barcos e as recordações que ela lhe trazia. Quando chegou a casa, amanhecia e a intensidade da chuva diminuíra. A água do lago batia nas margens com um leve chapinhar, e o último dos rouxinóis cantou uma melodia de despedida. As toutinegras e outras aves canoras começavam a despertar e um cavalo relinchou ao longe. Ela não sabia na altura, mas nunca mais se livraria deles, daqueles sons; eles segui-la-iam deste lugar, deste momento, invadindo os seus sonhos e pesadelos, recordando-lhe para sempre o que fizera.

2

Cornualha, 23 de Junho de 1933

Era do Quarto Mulberry que se tinha a melhor vista do lago, mas Alice decidiu que a janela da casa de banho teria de servir. O Sr. Llewellyn ainda estava na margem do rio com o seu cavalete de pintor, mas retirava-se sempre cedo para descansar e ela não queria arriscar um encontro. O velhote era bastante inofensivo, mas também excêntrico e carente, especialmente nos últimos tempos, e ela temia que a sua presença inesperada no quarto dele transmitisse uma mensagem errada. Alice franziu o nariz. Em tempos gostara imenso dele, quando era mais nova, e ele dela. Agora, aos dezasseis anos, era estranho pensar nas histórias que ele lhe contava, nos pequenos desenhos que lhe fazia e que ela guardava como verdadeiros tesouros, na aura de encantamento que ele deixava atrás de si como uma canção. De qualquer modo, a casa de banho ficava mais perto que o Quarto Mulberry, e, como seria uma questão de minutos até a mãe perceber que não havia flores nas salas do rés-do-chão, Alice não podia perder tempo a subir as escadas. Quando um bando de criadas percorreram o corredor, apressadas, a limpar o pó, ela esgueirou-se pela porta e correu para a janela.

Mas onde estava ele? Alice sentiu um aperto no estômago e passou do entusiasmo ao desespero num instante. As suas mãos quentes encostaram-se ao vidro e o olhar varreu a paisagem mais abaixo: rosas beges e cor-de-rosa, com pétalas brilhantes como se tivessem sido polidas; preciosos pêssegos pendendo na parede abrigada da horta; o longo lago prateado a reflectir a luz do meio da manhã. Toda a propriedade fora aparada e enfeitada até atingir um estado de perfeição impossível, e no entanto ainda havia azáfama por toda a parte.

Músicos contratados dispunham as cadeiras douradas no coreto contemporâneo e a grande tenda, ainda não completamente montada, enfunava-se ao sabor da brisa de Verão enquanto as carrinhas dos fornecedores de comidas e bebidas iam levantando pó na alameda de acesso à casa. A única nota de imobilidade no meio de todo aquele turbilhão de actividade era a avó deShield, pequena e curvada no banco de jardim de ferro forjado à saída da biblioteca, perdida nas suas memórias cheias de teias de aranha e totalmente alheada das lanternas redondas de vidro que estavam a ser penduradas nas árvores à sua volta…

De repente, Alice inspirou fundo.

Ele.

O sorriso iluminou-lhe o rosto sem que ela conseguisse impedi-lo. Felicidade, deliciosa felicidade repleta de estrelas, quando o avistou na pequena ilha no meio do lago, com um grande tronco equilibrado num ombro. Num impulso, ergueu uma mão para lhe acenar, mas foi um impulso disparatado porque ele não estava a olhar para a casa. E, mesmo que estivesse a olhar, não retribuiria o seu aceno. Ambos sabiam que tinham de ser muito cuidadosos.

Os seus dedos encontraram a madeixa de cabelo que caía sempre junto da orelha e enrolaram-na, para trás e para a frente, vezes sem conta. Gostava de o observar assim, em segredo. Fazia-a sentir-se poderosa, não como quando estavam juntos, quando ela lhe trazia limonada à horta ou conseguia escapulir-se para o surpreender quando ele estava a trabalhar nas zonas mais recônditas da propriedade; quando lhe fazia perguntas sobre o seu romance, sobre a sua família, sobre a sua vida, e ela lhe contava histórias e o fazia rir e tinha de se esforçar para não se perder nos lagos dos seus profundos olhos verdes salpicados de dourado.

Enquanto o olhava, ele curvou-se, parando para equilibrar o peso do tronco antes de o pousar no seu lugar, em cima dos outros. Era um homem forte, e isso era bom. Alice não sabia bem porquê, apenas que era importante para si no mais profundo e inexplorado do seu âmago. As suas faces estavam quentes, estava a corar.

Alice Edevane não era tímida. Já conhecera outros rapazes. Não muitos, era verdade — com excepção da tradicional festa do Solstício de Verão, os seus pais eram famosos pela sua reserva, preferindo a companhia um do outro —, mas de vez em quando conseguia trocar algumas palavras subreptícias com os rapazes da aldeia ou com os filhos dos caseiros, que tiravam os bonés e baixavam os olhos e seguiam os pais pela propriedade. No entanto, isto… isto era… bem, era apenas diferente, e ela sabia como podia parecer louco, como era tão horrivelmente parecido com o tipo de coisa que Deborah, a sua irmã mais velha, diria, mas era a mais pura das verdades.

O seu nome era Benjamin Munro. Ela articulou as sílabas em silêncio, Benjamin James Munro, de 26 anos, nos últimos tempos domiciliado em Londres. Não tinha dependentes, dedicava-se muito ao trabalho e não era um homem dado a conversas de circunstância. Filho de arqueólogos, nascera no Sussex e crescera no Extremo Oriente. Gostava de chá verde, do cheiro do jasmim e dos dias quentes que deixavam adivinhar chuva.

Ele não lhe contara nada daquilo. Não era um desses homens afectados que passavam a vida a falar sobre si mesmos e sobre as suas façanhas, como se uma rapariga fosse apenas um rosto bonito emoldurado por um par de ouvidos atentos. Em vez disso, ela escutara, observara e deduzira, e, quando a oportunidade surgira, esgueirara-se para o armazém e vira o livro de registo dos funcionários. Alice sempre se imaginara uma detective e, como não podia deixar de ser, presa atrás de uma página com as cuidadosas anotações do Sr. Harris sobre as plantações, tinha encontrado a candidatura de Benjamin Munro. A carta em si era curta, escrita com uma caligrafia que a sua mãe teria deplorado, e Alice lera tudo com muita atenção, decorando as partes importantes, encantada com a forma como as palavras conferiam profundidade e cor à imagem que ela criara e guardava só para si, como uma flor presa entre duas páginas. Como a flor que ele lhe dera no mês anterior.

— Olhe, Alice… — O caule era verde e frágil na sua forte mão enluvada — a primeira gardénia da estação.

A recordação fê-la sorrir. Enfiou a mão no bolso para acariciar a superfície macia do seu bloco de apontamentos com capa de pele. Era um hábito que lhe ficara da infância e com o qual deixava a mãe enfurecida desde que, quando fizera oito anos, recebera o primeiro bloco de apontamentos. Como adorava aquele caderninho castanho-escuro! Como o pai fora inteligente ao escolhê-lo para ela. Com uma seriedade que Alice admirava e apreciava, ele dissera-lhe que também escrevia um diário. Ela escrevera o seu nome completo — Alice Cecilia Edevane — devagar, sob o olhar atento da mãe, na pálida linha a sépia no frontispício, e sentiu de imediato que agora era uma pessoa mais real do que antes.

A mãe opunha-se ao hábito que Alice tinha de acariciar o livro no bolso porque a fazia parecer «matreira, como se estivesse a tramar alguma coisa», uma descrição que Alice decidira que não a incomodava nada. A desaprovação da mãe não passava de um bónus; Alice teria continuado a tocar no seu bloco de apontamentos mesmo que esse gesto não fizesse aquele leve franzir de sobrolho aparecer no encantador rosto de Eleanor Edevane; fazia-o porque o seu bloco de apontamentos era um marco, uma lembrança de quem era. Para além de ser o seu maior confidente e, como tal, uma verdadeira autoridade em Ben Munro.

Já passara quase um ano inteiro desde que o vira pela primeira vez. Chegara a Loeanneth no final do Verão de 1932, durante aquele glorioso período de seca em que, passado o grande entusiasmo do Solstício de Verão, nada mais havia para fazer a não ser renderem-se ao calor soporífico. Um espírito divino de indolente tranquilidade descera sobre a propriedade, de tal maneira que até a mãe, grávida de oito meses e sempre com uma tonalidade cor-de-rosa muito brilhante na pele, começara a desabotoar os seus punhos de botões de pérolas e a arregaçar as mangas de seda até ao cotovelo.

Naquele dia, Alice estava sentada no baloiço por baixo do salgueiro, balançando-se ociosamente e a reflectir sobre o seu Problema Importante. Se prestasse atenção, ouviria sons da vida familiar à sua volta — a mãe e o Sr. Llewellyn a rirem ao longe enquanto os remos do barco batiam na água com um ritmo preguiçoso; Clemmie murmurando em voz baixa enquanto andava em círculos pelo prado, com os braços esticados como asas; Deborah a contar à avó Rose todos os escândalos da recente Temporada de Londres — mas Alice estava concentrada em si mesma e não ouvia nada a não ser o ténue zumbido dos insectos de Verão.

Estivera no mesmo lugar durante quase uma hora e nem sequer reparara na mancha cada vez maior de tinta preta que a sua nova caneta de tinta permanente estava a deixar no vestido de algodão branco, quando ele se materializou do escuro bosque e saiu para o caminho de acesso inundado de luz. Trazia uma mochila de lona sobre um ombro e o que parecia um casaco na mão. Caminhava com passos firmes e musculosos, cujo ritmo a fez abrandar o balanço do baloiço. Observou o seu avanço, com a corda a fazer pressão contra a bochecha enquanto se esforçava para ver para lá dos galhos caídos do salgueiro.

Por um capricho da geografia, as pessoas não chegavam inesperadamente a Loeanneth. A propriedade situava-se no fundo de um pequeno vale rodeado de encostas densamente arborizadas, com roseiras bravas emaranhadas, como têm de ser as casas nos contos de fadas. (E também nos pesadelos, embora, naquela altura, Alice não tivesse qualquer motivo para pensar assim.) A ancestral casa da mãe era o soalheiro espaço da família, onde tinham vivido muitas gerações de deShields. E no entanto aqui estava ele, um estranho no meio deles, e foi quanto bastou para quebrar o encantamento daquela tarde.

Alice tinha uma propensão natural para a curiosidade —, as pessoas diziam-lhe isso desde sempre e para ela era um elogio; era uma característica à qual pretendia dar bom uso — mas o seu interesse naquele dia deveu-se mais à frustração e a uma vontade súbita de ser distraída do que à curiosidade. Passara o Verão inteiro a trabalhar febrilmente num romance de paixão e mistério, mas três dias antes chegara a um impasse. A culpa era da sua heroína, Laura, que, depois de capítulos dedicados a ilustrar a sua rica vida interior, se recusava agora a colaborar. Confrontada com a chegada de um cavalheiro alto, moreno e bonito, com o elegante nome de Lorde Hallington, perdera de repente toda a inteligência e garra e tornara-se, decididamente, desinteressante.

Enquanto observava o homem jovem a subir o caminho de acesso à casa, Alice decidiu que Laura teria de esperar. Havia outros assuntos que reclamavam a sua atenção.

Um ribeiro estreito serpenteava com ruído pela propriedade, deliciando-se com a breve pausa soalheira antes de ser, inexoravelmente, levado para a floresta, e uma ponte de pedra, legado de algum tio-avô muito antigo, ligava as margens, permitindo o acesso a Loeanneth. O desconhecido parou quando chegou à ponte. Devagar, virou-se para trás, para o caminho por onde viera, e pareceu olhar para alguma coisa que tinha na mão. Um pedaço de papel? Ou seria apenas uma ilusão provocada pela luz? Algo na forma como inclinou a cabeça, na forma como olhou para a floresta cerrada sem pressa de se voltar, mostrou deliberação, e Alice semicerrou os olhos. Era uma escritora; compreendia as pessoas; percebia vulnerabilidade quando a via. Qual seria o motivo de tamanha indecisão? Ele virou-se de novo, dando uma volta completa, e levou uma mão à testa enquanto o seu olhar percorria o caminho orlado de cardos até ao local onde se erguia a casa, atrás dos teixos que eram os seus leais guardiões. Não se mexeu, nem sequer parecia respirar, e depois, enquanto Alice o observava, pousou a mochila e o casaco, endireitou os suspensórios nos ombros e soltou um suspiro.

E foi então que Alice teve uma das suas rápidas certezas. Não sabia de onde vinham estes conhecimentos sobre os estados de espírito das outras pessoas, apenas que chegav

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