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O LIVRO QUE GOSTARIA QUE OS SEUS PAIS TIVESSEM LIDO

Philippa Perry  

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Excerto

PARTE UM

O Nosso Legado Como Pais

Pode ser um lugar-comum, mas é verdade: as crianças não fazem o que dizemos — fazem o que nós fazemos. Antes de considerarmos o comportamento dos nossos filhos, é útil — essencial, até — olhar para os seus primeiros modelos. E um deles é você.

Esta parte do livro centra-se em si, porque será uma figura da maior importância na vida do seu filho. Nesta secção, vou dar-lhe exemplos de situações em que o passado pode afectar o presente, no que toca à sua relação com o seu filho. Vou mostrar-lhe como os filhos podem espoletar em nós sentimentos do passado que não interpretámos devidamente e que interferem nas nossas acções. Vou também referir-me à importância de escutar a nossa voz interior crítica, para não transmitirmos muitos dos seus efeitos nocivos à geração seguinte.

O passado persegue-nos (assim como aos nossos filhos)

Uma criança precisa de afecto e de aceitação, de contacto físico, da presença física dos pais, de amor e de limites, de compreensão, de interacção com pessoas de todas as idades, de experiências tranquilizantes e de uma grande parte da atenção e do tempo dos pais. Ah! Então é assim simples: o livro pode acabar aqui. Mas não pode, porque surgem obstáculos. A vida pode criar-nos obstáculos: circunstâncias, assistência à infância, dinheiro, escola, trabalho, falta de tempo e ocupações em excesso… e esta não é, como sabe, uma lista exaustiva.

Mas o maior obstáculo é, muitas vezes, o que nos foi transmitido quando éramos bebés e crianças. Se não analisarmos o modo como fomos criados e o legado que tal representa, o passado pode prejudicar-nos. Talvez já tenha dado por si a dizer algo como: «Abri a boca e o que ouvi foram as palavras da minha mãe.» Claro que se essas palavras o tivessem feito sentir-se desejado, amado e seguro quando era criança, não haveria qualquer problema em repeti-las. No entanto, tratam-se muitas vezes de palavras que produziram o efeito contrário.

São vários os factores que podem interferir nas nossas relações, entre eles a nossa falta de autoconfiança, o nosso pessimismo, as nossas defesas, que bloqueiam o que sentimos, e o medo de sermos dominados pelas emoções. Ou, no que se refere especificamente aos nossos filhos, pode ser aquilo que nos irrita na sua maneira de ser, as expectativas ou os receios que temos em relação a eles. Somos apenas um elo numa cadeia que atravessou milénios e que se estende para o futuro.

A boa notícia é que pode dar uma nova forma ao seu elo, o que beneficiará a vida dos seus filhos e a dos seus netos, e pode iniciar esse processo agora. Não tem de fazer tudo o que lhe fizeram a si; pode rejeitar aquilo que não o ajudou. Se é pai ou mãe, ou se vai sê-lo em breve, pode recordar a sua infância e familiarizar-se com ela, analisar o que lhe aconteceu, como isso o fez sentir na altura e como o faz sentir agora. E depois de analisar essa herança, pode reter apenas aquilo que lhe for útil.

Se na sua infância e adolescência foi, essencialmente, respeitado como um indivíduo único e valioso, se lhe deram um amor incondicional, se teve atenção positiva suficiente e relações gratificantes com a sua família, recebeu as bases necessárias para criar relações positivas e funcionais. Com este ponto de partida, terá certamente compreendido que pode desempenhar um papel positivo na sua família e na sua comunidade. Se se revê nesta descrição, é pouco provável que o exercício de analisar a sua infância seja doloroso.

Se não teve uma infância como esta — como acontece a muitos de nós —, olhar para trás poderá provocar-lhe desconforto emocional. Penso que é necessário tornarmo-nos mais conscientes desse desconforto, para estarmos mais atentos e para nos impedirmos de o transmitir. Uma grande parte do que herdámos encontra-se à margem da nossa consciência. Isso torna, por vezes, difícil saber se estamos a reagir aqui e agora ao comportamento do nosso filho, ou se as nossas reacções têm origem no passado.

Penso que a história que se segue ajudará a ilustrar o que quero dizer. Foi-me contada por Tay, uma mãe dedicada que é também psicoterapeuta e que dá formação na sua área de especialidade. Estou a mencionar os dois papéis de Tay para deixar claro que até as pessoas mais autoconscientes e bem-intencionadas podem recuar emocionalmente no tempo e dar por si a reagir ao passado, quando julgam estar a reagir ao presente. Esta história começa quando Emily, filha de Tay, então com quase sete anos, gritou à mãe que não conseguia sair de uma estrutura para trepar, pedindo-lhe que a ajudasse.

Disse-lhe que descesse sozinha e, quando ela respondeu que não era capaz, senti-me subitamente furiosa. Achei que ela estava a ser ridícula — podia facilmente descer sozinha. Gritei-lhe: «Desce imediatamente!»

Ela acabou por conseguir. Depois, tentou dar-me a mão, mas eu continuava furiosa, e não aceitei, e ela começou a chorar.

Quando chegámos a casa e preparámos o lanche juntas, ela acalmou-se e eu pus o episódio para trás das costas, dizendo para comigo: «Caramba, os miúdos são difíceis.»

Uma semana mais tarde: estamos no jardim zoológico, onde há outra estrutura para trepar. Ao vê-la, senti uma onda de culpa. Percebi que a Emily também estava a pensar no que acontecera na semana anterior, porque me olhou com uma expressão quase receosa.

Perguntei-lhe se queria brincar na estrutura. Desta vez, não fui sentar-me num banco a olhar para o telemóvel; fiquei de pé junto à estrutura, a observá-la. Quando ela achou que não conseguia sair, estendeu-me os braços, a pedir ajuda. Então, encorajei-a.

—Põe um pé aqui e o outro aqui, agarra-te ali e vais conseguir sair sozinha. — E assim foi.

—Porque não me ajudaste da última vez? — perguntou-me, quando pousou os pés no chão.

Pensei um pouco e disse-lhe:

—Quando eu era pequena, a avó tratava-me como se eu fosse uma princesa e levava-me ao colo para todo o lado, estava sempre a dizer-me para «ter cuidado». Aquilo fazia-me sentir incapaz de fazer o que quer que fosse sozinha e acabei com falta de autoconfiança. Não quero que isso te aconteça e foi por isso que não te ajudei na semana passada quando me pediste que te tirasse da estrutura. E lembrei-me de quando tinha a tua idade e não me deixavam descer sozinha. Fiquei cheia de raiva e descarreguei-a em ti, e foi injusto.

A Emily olhou para mim e disse:

—Ah, pensei que não te importavas.

—Oh, nada disso — disse-lhe. — Importo-me, mas naquele momento não sabia que estava zangada com a avó e não contigo. E

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