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O HOMEM MAIS RICO DO MUNDO

Jonathan Conlin  

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Excerto

INTRODUÇÃO

TRAÇAR A LINHA

Todos os mapas têm a sua lenda. O mapa associado ao Acordo da Linha Vermelha de 31 de Julho de 1928 não constitui excepção. Este acordo foi o momento em que as companhias que conhecemos como BP, Total, ExxonMobil e Royal Dutch­-Shell uniram esforços no Médio Oriente. Em lugar de disputarem entre si o domínio do petróleo da região, viriam a colaborar num empreendimento conjunto: a Turkish Petroleum Company. A TPC foi o bebé de Calouste Gulbenkian, ou antes a sua «casa», fundada em 1912. Em 1914, o Ministério dos Negócios Estrangeiros britânico dera-lhes a sua bênção: potências rivais iriam cooperar não só nas províncias otomanas ricas em petróleo de Mossul e Bagdade, mas em todo o «Império Otomano na Ásia».

Contudo, em 1928, o «Império Otomano na Ásia» era uma recordação distante. O império desabara na Primeira Guerra Mundial, desencadeando uma vaga de violência genocida que matou um milhão dos compatriotas arménios de Gulbenkian. Uma miscelânea de mandatos e protectorados franceses e britânicos estavam a evoluir para novos estados-nação que hoje conhecemos como Iraque, Jordânia e Arábia Saudita. Assim, previsivelmente, quando foi necessário definir o «Império Otomano na Ásia» tal como fora em 1914, os negociantes de petróleo que estavam em Ostend, nesse dia, em 1928 confrontavam-se com uma situação crítica.

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Tudo foi confuso até que Calouste Gulbenkian interveio:

Quando a conferência parecia prestes a fracassar, ele voltou a produzir uma das suas ideias luminosas. Pediu um grande mapa do Médio Oriente, pegou num grosso lápis vermelho e traçou vagarosamente uma linha em torno da área central.

«Este era o Império Otomano que eu conheci em 1914», declarou. «E seria de esperar que eu o conhecesse: nasci nele, vivi nele e prestei serviço nele. Se alguém estiver mais informado, que tome a palavra […].»

Os sócios de Gulbenkian na TPC observaram o mapa e aprovaram-no. Este relato, extraído da biografia de 1957, por Ralph Hewins, prossegue: «Gulbenkian erguera uma organização para o petróleo do Médio Oriente que durou até 1948: mais uma fantástica proeza de um só homem, nunca ultrapassada nos grandes negócios internacionais.»[1]

Em 1916, o Acordo Sykes-Picot pusera procônsules imperiais lastimavelmente mal informados a trinchar a Síria, o Iraque e a Jordânia mediante um conjunto de linhas rectas, linhas que não tiveram em consideração a geografia física ou humana. O exemplo mais significativo é talvez o «Espirro de Churchill», o recorte triangular na fronteira sul da Jordânia que teria resultado presumidamente de distracção momentânea do estadista em 1921. No relato de Hewins, o gesto de Gulbenkian é mais perfeição sem esforço do que um espirro, e é acompanhado por afirmação de uma perícia de que careciam outros em volta da mesa, perícia resultante de experiência pessoal e profissional. Contudo, o tom e a gravidade do narrador conferem a Gulbenkian a autoridade do estadista para determinar o destino de milhões de uma penada.

Ao longo da sua vida, Gulbenkian evitou diligentemente a imprensa, a ponto de hoje aqueles que reconhecem o nome confundirem o reservado Calouste com o seu filho Nubar, sempre à procura de exposição; os londrinos, em particular, recordam afectuosamente o táxi guiado por motorista de Nubar. O secretismo de Calouste já antes tornou difícil apurar até factos básicos a respeito da sua família, educação e carreira. Muitos contemporâneos e alguns historiadores equipararam esse secretismo a duplicidade e não a modéstia. É habitual ver Gulbenkian referido como um «tenebroso manipulador arménio», uma figura «detestada» cuja influência, como os seus 5 por cento, derivou «da pródiga distribuição de subornos»[2].

Outras histórias do petróleo foram mais amáveis. Na sua história da indústria petrolífera, The Prize, galardoada com o Pulitzer, Daniel Yergin mostra Gulbenkian ao nível dos grandes Rockefeller, Getty e Mattei, como «um dos grandes criadores-flibusteiros do petróleo»[3]. Se Calouste Gulbenkian é hoje conhecido, é-o como o homem que traçou a linha vermelha, um momento crucial na indústria do petróleo e do Médio Oriente. O Acordo da Linha Vermelha de 1928 incorporava a pretensão pessoal de Gulbenkian a 5 por cento do petróleo da TPC, uma pretensão que ele transferiu posteriormente para uma empresa, a Partex, que ainda hoje subsiste.

No entanto, num escrutínio mais aprofundado, a lenda desmorona-se. Embora o mapa tenha certamente estado presente até à fase final das negociações que culminaram em Ostend, Gulbenkian manifestou pouco interesse por ele. O mapa não é mencionado nas memórias que ditou para circulação privada em 1945. Ele nem sequer esteve em Ostend nesse dia fatídico. O episódio é um dos muitos mitos inventados pelo filho de Calouste, que nos diz mais a respeito dos sentimentos de Nubar pelo pai (orgulho, ressentimento, por vezes, afeição) do que do próprio homem.

Prescindir da lenda da linha vermelha pode parecer temerário para um biógrafo. No entanto, é importante reconhecer que os outros que estavam à volta daquela mesa eram impérios poderosos e empresas multinacionais, servidas por centenas de empregados, apoiadas por exércitos de soldados e marinheiros, bem como por contribuintes fiscais e accionistas. Dificilmente eles iriam deixar Gulbenkian, um indivíduo sem empresa ou Estado por trás, rabiscar linhas vermelhas nos seus mapas. Gulbenkian lutara duramente para levar os seus conflituosos parceiros britânicos, franceses e americanos a aceitarem coabitar na sua «casa», e derrotara com êxito tentativas reiteradas de afastá-lo. Contudo, ele não estava particularmente preocupado com o rumo da linha vermelha em si mesma. Nem era estilo seu pronunciar discursos bonitos. Trabalhou como facilitador de bastidores, um intermediário entre os mundos dos negócios, da diplomacia e da alta finança, uma figura muito diferente e mais interessante do que o Gulbenkian da lenda.

Como uma aranha no centro de uma indústria internacional petrolífera e financeira emergente, Gulbenkian manteve impérios e multinacionais como reféns durante mais de cinquenta anos. No entanto, não teria chegado a deter tanto poder se não fosse um negociador e um arquitecto financeiro excepcionalmente dotado. Produtores de petróleo da Califórnia ao Cáucaso procuravam-no pela sua habilidade para angariar capital nos mercados bolsistas de Nova Iorque, Londres e Paris. Ele desempenhou um papel importante, ainda que não reconhecido antes, ao ajudar a Royal Dutch-Shell e a Total a estabelecerem-se como protagonistas no ramo do petróleo.

As intermediações de Gulbenkian apresentaram as companhias de petróleo norte-americanas ao Médio Oriente e levaram a Royal Dutch-Shell para a América, bem como para o México, a Venezuela e a Rússia. A indústria petrolífera embrionária que Gulbenkian encontrou no início da sua carreira, em 1900, estava dominada por um único produtor e uma única companhia: os Estados Unidos e a Standard Oil. Aquando da sua morte, em 1955, a indústria petrolífera mundial já não era um monopólio americano, mas um cartel internacional. Os membros deste cartel, chamados «Sete Irmãs», produziam cada um petróleo originário de vários países. Várias «irmãs» novas apareceram desde então. Contudo, a estrutura da indústria petrolífera de produção, integração e parcerias multinacionais continua a ser a mesma: a teia tecida por Gulbenkian permanece.

Nascido em Istambul em 1869, Gulbenkian chegou à maioridade no Império Otomano, para ver o mundo que lhe era familiar ser dilacerado pelo genocídio e pela guerra. Não foi o único arménio otomano a encontrar refúgio no Ocidente. No entanto, foi o único a prosperar extraordinariamente neste mundo estranho. Longe de o desencorajar, a destruição da sua pátria e uma personalidade solitária tornaram-se chaves para o seu sucesso: como homem reservado sem lealdades a qualquer império, Estado ou companhia, Gulbenkian pôde apresentar-se como o mais honesto dos intermediários. Para os «ocidentais», ele era uma fonte fiável de informação sobre o Médio Oriente. Para os «orientais», alguém a quem recorrer quando queriam saber o que andavam a magicar as Grandes Potências e as suas poderosas companhias petrolíferas. Isto foi tão verdade no caso do sultão Abdul Hamid II, em 1900, como nos do xá do Irão e de Ibn Saud, da Arábia Saudita, quatro décadas mais tarde. Gulbenkian era um diplomata simultaneamente ao serviço dos impérios otomano e persa. Até mesmo Estaline procurou o conselho de Gulbenkian, recompensando-o com obras de Rembrandt do famoso Museu do Hermitage. Nenhuma outra figura dos negócios na história da indústria petrolífera exerceu tanta influência, em tão larga escala e durante tanto tempo.

A história de Gulbenkian é de oportunidade. Quer olhemos retrospectivamente para a Primeira Guerra Mundial e o Acordo de Sykes-Picot há um século, ou consideremos a guerra em curso pelo controlo no Iraque, ou debates persistentes sobre capitalismo, política e identidade, Gulbenkian está escondido mesmo debaixo dos nossos narizes, a desafiar-nos a decifrar a fonte da sua riqueza e influência fabulosas. Como foi que um homem que nada sabia de geologia e que nunca visitou o Iraque, a Arábia Saudita ou qualquer dos Estados do Golfo reivindicou 5 por cento da produção de petróleo do Médio Oriente? Tendo assegurado esse prémio, como foi que conseguiu conservá-lo, tornando-se assim o homem mais rico do mundo? Como foi que um tímido solitário lançou pontes sobre os fossos entre o Oriente e o Ocidente que hoje parecem intransponíveis?

Gulbenkian construiu um palácio fabuloso em Paris que encheu com tesouros, não só quadros do Hermitage mas moedas gregas, antiguidades egípcias, tapetes persas, faiança Iznik e netsuke, botões japoneses minuciosamente esculpidos. Actualmente, as suas colecções estão depositadas em Lisboa, em anexo à sede da fundação que tem o seu nome e que continua a ser uma das fundações mais ricas do mundo. No entanto, pessoalmente, o grande coleccionador nunca dormia no seu palácio — vivia em hotéis. Tinha quatro passaportes diferentes e desejava que a sua fundação fosse igualmente internacional na sua ambição. Este espírito cosmopolita de independência reflectiu-se no mundo anterior a 1914 de circulação ilimitada de capital, tecnologia e pessoas. Esta globalização retraiu-se em seguida até à década de 1980. Agora a maré está de novo em refluxo: a liberdade de iniciativa e a liberdade de movimento estão sob ataque da direita e da esquerda. Disputas comerciais são engendradas. Sinistros «cidadãos de nenhures» são inventados. E as aclamações e os votos afluem. Decerto que Gulbenkian, o derradeiro «cidadão de nenhures», tem algo importante para nos contar neste momento da história.

Nas palavras recentes da Al Jazeera, Gulbenkian foi «o primeiro facilitador, intermediário e negociador do petróleo»[4]. Contudo, além de negociador, financeiro, coleccionador e diplomata, era também homem de família. Aqui revelado pela primeira vez, o vasto arquivo pessoal de Gulbenkian permite-nos avaliar o custo da incessante actividade dele para os que amava. A solicitude dele como marido, pai e avô levaram-no a sujeitar a sua família a uma vigilância e controlo inexoráveis. Em momentos distintos, a mulher, o filho e a filha tentaram libertar-se. O filho chegou a levar Gulbenkian a tribunal. Nenhum logrou escapar a essa outra teia, a do dinheiro, do poder e da afeição que Gulbenkian tecera em torno deles. Há, portanto, muitos Gulbenkian a descobrir para lá do do Acordo da Linha Vermelha.

Na década de 1920, a linha que mais preocupava Gulbenkian era a que separava a Turquia do novo Estado do Iraque. Apesar de ser «turca», as relações da TPC com os turcos eram medíocres. O regime mandatário britânico no Iraque era mais propenso a confirmar os direitos da companhia ao petróleo de Mossul. Assim, para a TPC era crucial que as jazidas de petróleo ficassem do lado iraquiano de qualquer fronteira entre a Turquia e o Iraque.

Depois de a Conferência de Lausana de 1923 não ter conseguido chegar a um acordo, a fronteira em questão foi submetida à Liga das Nações. A Liga nomeou um antigo primeiro-ministro da Hungria, o conde Pál Teleki, para dirigir uma comissão de inquérito. Em Junho de 1925, Gulbenkian propôs conseguir que os mapas de Teleki fossem desenhados de modo a que as jazidas petrolíferas de Mossul ficassem do lado «direito» (iraquiano) da fronteira. O cartógrafo de Teleki, explicou ele aos seus colegas da TPC, era o antigo cartógrafo otomano, um arménio chamado Zatik Khanzadian. Khanzadian conhecia o papel de Gulbenkian na TPC e abordara-o por intermédio de um amigo mútuo da escola, Aram­-Djevhirdjian:

Khanzadian conhece todos os meandros e recantos daquele lugar e, como os outros membros [da comissão] não são cartógrafos, cabe-lhe a ele configurar o mapa de acordo com determinadas instruções relativas às posições topográficas; é-me dito que ele pode tomar as opções que quiser, e assim Khanzadian deseja entrar em contacto pessoal e confidencial comigo, confiando na minha posição e nome para conservar tudo [em segredo]. Ele está desejoso de saber quais são os pontos que a nossa companhia gostaria que permanecessem do lado do Iraque.[5]

Para quê incomodarem-se com convenções, protocolos e tratados quando as fronteiras internacionais podiam ser dispostas à nossa maneira por apenas duas mil libras (cem mil libras esterlinas)? Outros poderiam ir para a linha de partida. Gulbenkian ia directo à meta.

PRIMEIRA PARTE

APRENDIZ, 1869-1914

«Ainda que toda a Constantinopla se mobilizasse em fúria contra mim, a minha reputação não sofreria, pois não é na Turquia que estou empenhado em brilhar.»

C. S. GULBENKIAN

CAPÍTULO UM

ISTAMBUL, 1869

A história da vida de Calouste Gulbenkian é muitas coisas, mas não uma história de alguém que construiu fortuna do nada. Mais velho de três irmãos, Calouste nasceu em 1869, numa abastada família arménia otomana de Istambul, a capital do vasto Império Otomano. Para o pequeno Calouste, viajar entre a Europa e a Ásia teria sido rotina, pois a família estava instalada de ambos os lados do Bósforo. A casa da família e a primeira escola de Calouste, Aramyan-Uncuyan, ficavam do lado asiático da cidade, em Kadiköy[6]. Os escritórios e armazéns da família estavam sediados do lado europeu. As férias eram passadas nas Ilhas dos Príncipes, no adjacente Mar de Mármara.

Uma das primeiras imagens que temos de Calouste mostra-o de pé, numa posição algo rígida e em trajos europeus, junto de outras duas pessoas em vestuário tradicional da Mesopotâmia, que os sultões otomanos tinham conquistado no começo do século XVI. O par à direita são provavelmente familiares, talvez membros da família Kouyoumdjian de Bagdade. Os Gulbenkian eram comerciantes e cambistas, em comunicação regular com associados nas principais cidades otomanas, como Izmir, Beirute e Bagdade, e até de mais longe, em territórios que haviam antes sido otomanos, como a Bulgária e o Egipto, mas também Marselha e Manchester. Exportavam algodão em bruto, lã, pêlo de angorá e ópio do império, e importavam tecido de Manchester, artigos de vidro de França e querosene de Baku. Os escritórios Gulbenkian ocupavam várias salas no Büyük Valide Han, um vasto complexo de oficinas, armazéns e escritórios construído no século XVII que ainda se ergue entre o Grande Bazar e a Estação de Sirkeci, o terminal do Expresso do Oriente.

Embora vivessem várias centenas de milhares de arménios otomanos em Istambul (representando 15 por cento da população total), a elite mercantil da comunidade arménia (os amiras) era composta por umas meras 165 famílias[7]. Como era natural, os membros desta casta de mobilidade extraordinária casavam continuamente entre si. A mãe de Calouste, Dirouhi, já era uma Gulbenkian antes de casar com Sarkis Gulbenkian[8]. O irmão mais novo de Calouste viria a casar com uma Kouyoumdjian. Fosse qual fosse a natureza do relacionamento entre Calouste e o homem de kaffiyeh[*], é, no entanto, claro que tais visitantes dificilmente teriam parecido exóticos para o jovem Calouste, que crescia na grande casa da Rua Ibis Lorando.

Além destes arménios, na casa de Kadiköy também residiam turcos, gregos e talvez até um ou dois franceses. Era função deles ocuparem-se da lavagem da roupa, cozinhar as refeições, fazer café para Sarkis (ele só tinha de bater palmas para que lhe levassem uma chávena acabada de preparar) e levar e trazer Calouste da escola aos ombros. Embora estes criados não fossem membros da Igreja Arménia, era comum no período otomano que fiéis de diferentes credos cumprissem os dias sagrados uns dos outros.

Com a importante excepção da igreja paroquial, a escola era o único ambiente verdadeiramente segregado que Calouste teria conhecido naquela cidade imperial multiétnica. Aulas e serviços eram ministrados em arménio. Os Gulbenkian podiam escrever-se entre si em turco, mas usavam o alfabeto arménio quando o faziam (a combinação conferia uma segurança acrescida às suas comunicações). No entanto, a nível oficial, a comunidade arménia, ou millet, era identificada como sendo de segunda classe: isenta de algumas obrigações civis, como o serviço militar, mas sujeita a determinados impostos e restrições a que não estavam obrigados os súbditos não-arménios do sultão. Muitos dos amiras da cidade optavam por cidadania estrangeira para escaparem a estas restrições e beneficiarem de protecções especiais e isenções tributárias que eram alargadas a estrangeiros ao abrigo de convenções bilaterais, as chamadas «capitulações»[9].

Uma anedota de família regista a consciência que os amiras tinham de que, não obstante toda a sua riqueza, os modos alla franga (de estilo francês) e o trajar I˙ngilizhârî (de estilo inglês), continuavam a ser cidadãos de segunda classe. Reza essa história que, um dia, o criado que levava o café a Sarkis, ou kahveci, não apareceu quando o amo bateu palmas. Descobriu-se que o desgraçado serviçal adormecera no posto. Sarkis ordenou aos outros criados que o castigassem. Infelizmente, o criado morreu dos ferimentos, o que levou Sarkis a ter um acesso de fúria: «Vur dedik öldür demedik» (que em turco significa: «Disse-vos que o sovassem, não que o matassem»). A tirada a rimar entrou para a memória da família e era citada sempre que alguém perdia o sentido de perspectiva[10].

Teria a história sido engraçada se o servidor de café fosse arménio? É provável que não. Teria um bey ou um paxá turco — ou seja, alguém de classe alta — achado piada se a mesma coisa acontecesse na sua casa? É provável que não. Se tal coisa acontecesse, suspeita-se que apenas suscitaria uma leve irritação, sobretudo se o criado fosse bom a preparar café ao gosto do seu senhor, como era o servo de Sarkis. Porém, não seria decerto algo que merecesse tornar-se lendário na família.

Talvez a anedota fosse engraçada porque implicava uma espécie de inversão. Numa cidade extremamente estratificada como Istambul, havia abundância de hamals (moços de fretes) e de outras pessoas consideradas substituíveis pelos seus vizinhos abastados. Em contrapartida, notava-se claramente um certo tremor quando um arménio rico descartava um turco pobre.

Filhos do Senhor da Rosa

Os Arménios viviam em Istambul desde o século XI, vários séculos antes de chegarem os Otomanos. No entanto, os Gulbenkian eram de certa maneira recém-chegados. Os irmãos Sarkis e Serovpe tinham chegado por volta de 1850, vindos de uma cidade muito mais pequena na Anatólia Central: Talas. Embora não existam provas de que Calouste alguma vez lá tivesse ido, não haveria dúvidas no espírito da família de que Talas era a «terra». Os Gulbenkian eram os residentes mais prósperos de Talas, que contava com cerca de 800 lares arménios, 900 gregos e 500 turcos. Eram proprietários da maior casa (15 divisões), eram os maiores exportadores de jehri (uma planta colhida para fabricar corantes) e eram donos das lojas mais elegantes na «Pequena Alexandria», a rua comercial de Talas[11]. Construíram as duas escolas arménias e o ginásio da cidade, e pagaram para reconstruir a igreja arménia em pedra. Onde quer que se instalasse, em Nova Iorque ou Nice, esperava-se que um Gulbenkian continuasse a pagar a sua comparticipação dos custos correntes dessas instituições da família, que continuasse a remeter fundos para «casa» para serem distribuídos entre os necessitados.

Empoleirada numa serrania de pedra calcária cinzenta-arroxeada abaixo do Monte Erciyes, Talas está voltada para a cidade muito mais vasta de Kayseri, a fervilhar na planície quente lá em baixo. Quando a grande exploradora britânica Gertrude Bell passou por Talas, em 1909, os companheiros advertiram-na para que não se distraísse. O guia dela, Fattish, e o zaptieh (polícia) destacado para a proteger trocaram histórias admonitórias:

«Certo dia [disse o zaptieh], o diabo veio a Kaisarîyeh. «Khush geldi», disse o povo, «que seja bem-vindo», e mostraram-lhe as ruas e os bazares da cidade, as mesquitas e os khâns, todos eles. Quando ele ficou com fome, apresentaram-lhe comida até estar bem saciado, mas quando se levantou para partir, procurou a capa e o cinto e tinham desaparecido. O diabo não está a salvo dos ladrões de Kaisarîyeh.»

«Deus fê-los patifes», disse Fattish.

«Que podemos fazer?», comentou o zaptieh filosoficamente […] «o mundo é um só.»

«Muito viajam eles», prosseguiu Fattish. «Encontramo-los em todas as cidades.»[12]

Mais de um século depois, outro viajante para Kayseri (o autor) deteve-se para admirar a igreja arménia. Um transeunte abordou-o. «Se gosta», disse, a apontar para a igreja, «podemos vender-lha.»

Se os kayserianos eram famosos como vigaristas, então os arménios kayserianos eram particularmente hábeis a detectar novas oportunidades. Eram também conhecidos pelo seu gosto pelas disputas, graças à já antiga contenda entre os Melkonianos e os Frenkianos, a versão para os arménios kayserianos dos Montagues e dos Caputelos, que forçava todos os arménios da região a tomarem partido. Os arménios abastados que dispunham de carruagens deslocavam-se com frequência de um lado para o outro, ansiosos por trocarem o calor abrasador do Verão de Kayseri pelos frescos pomares e bosques de Talas.

Por cima da entrada de Vart Badrikian, a escola para rapazes em Talas, havia uma lápide em que estava inscrito como:

A nobre prole de Gulbenk, da estirpe de Vart Badrik, quatro filhos que seguiram o bom caminho com amor, o mais velho Avedik, os mais novos Gullabi, Kalousd, Kerovpe, com as irmãs Marina e Serpouhi, e pela alma do seu irmão Hovhannes, dedica esta escola à nação neste mês de Outubro de 1847.

Nascido em Talas, em 1800, Gullabi Gulbenkian foi avô de Calouste Gulbenkian. Vart Badrik era o senhor da guerra de quem todos os Gulbenkian afirmavam ser descendentes: «Gül benk» é a versão turquificada de Vart Badrik, ou «Senhor da Rosa».

Vart Badrik governara a costa sul do Lago Van no século XI, quando essa região era parte do principado arménio de Vaspourakan. Quando Vaspourakan foi integrado no Império Bizantino, em 1021, as suas principais famílias arménias e respectivos servidores foram deslocados para oeste, para a Capadócia. Apesar de Vart Badrik ter uma reputação temível, é provável que isso não tenha proporcionado ao deveras tímido e introvertido Calouste muito em termos de credibilidade no pátio da escola. «Benk» tem parecenças com a palavra persa benek, que significa «marca de nascença» — parecenças desconfortáveis para Calouste, que era convenientemente tratado por «bexigoso» na escola.

Em 1847, a «nação» a que os Gulbenkian dedicaram a sua escola não era um Estado-nação nem sequer uma causa política. O último dos reinos arménios fora conquistado pelos Mamelucos em 1375, e a partir daí os arménios da Anatólia prosseguiram as suas vidas (por vezes muito prósperas) como súbditos do Império Otomano, tal como os seus pares étnicos arménios haviam feito enquanto súbditos dos impérios Bizantino, Persa e Mogol — ascendendo ocasionalmente a altos cargos imperiais. Neste contexto, «nação» referia um conjunto de instituições através das quais os arménios otomanos governavam a sua comunidade, como um dos millets, ou grupos étnicos, em que estavam divididos os súbditos do sultão.

Os Arménios estiveram entre os primeiros povos a converter-se ao cristianismo, e a lealdade à Igreja Arménia e ao ritual arménio, a par da língua arménia, conservavam a coesão da comunidade em circunstâncias desfavoráveis. Como seria de esperar num amira arménio otomano, Calouste sentia-se confortável com esta «nação» sentida intimamente e nunca exprimiu o desejo de ressuscitar uma «pátria» nacional. A lealdade ao sultão era outro vínculo que os arménios otomanos partilhavam. A lealdade era trocada por protecção no reino do sultão, pelo direito de praticar a sua religião e por determinados outros privilégios.

Se era este o acordo, o sultão deixaria de cumpri-lo após 1895, sujeitando os seus súbditos arménios a vagas coordenadas de violência. Como recordou um antigo residente de Talas: «Nos anos de 1915-1916, os arménios foram exterminados. Massacraram alguns e exilaram outros. Os turcos apropriaram-se dos campos e das casas deles. Desta maneira, tornaram-se senhores do lugar.»[13] As igrejas e a escola foram profanadas, delapidadas pela pedra. Até a lápide com a inscrição da escola de rapazes teria desaparecido, não fosse ter sido comprada pelo único residente arménio que lá restou, pelo preço de cem ovelhas. A ocidente, a população arménia de Istambul caiu acentuadamente, de 25 por cento em 1914 para 8,5 por cento em 1920[14]. Não obstante, a mundividência de Gulbenkian mal se alterou. Mesmo em 1923, ele continuava a descrever a posição da sua família no seio desse sistema em termos não reformulados — e dirigindo-se nada menos do que a um antigo ministro dos Jovens Turcos. «Nós, que fomos em todos os momentos súbditos muito leais e amigos do país», escreveu Gulbenkian, mereciam mais do que serem perseguidos, o que no caso dele incluiu o confisco das propriedades da família em Istambul. «É algo que me deixa profundamente ressentido», prosseguia, «tendo em conta as minhas relações e a minha posição. Dificilmente se pode ignorar o facto de que procurei sempre, em cada ocasião, o renascimento do nosso país, e acredito ter dado muitas provas disso no passado.»[15]

O «renascimento do nosso país» era o objectivo das chamadas reformas Tanzimat, introduzidas pelo sultão Abdul Mecid em 1839. Este programa de largo alcance e extremamente ambicioso procurou modernizar o sistema tributário do império, a economia, as Forças Armadas e a administração, e até substituir a miscelânea de comunidades étnicas autogovernadas por uma sociedade e identidade otomana unitária. As reformas continuaram sob a tutela do sucessor de Abdul Mecid, Abdul Aziz, mas interromperam-se em 1876, com a acessão ao trono de um conservador de linha dura, Abdul Hamid II. Filho da Tanzimat, Gulbenkian continuou a ter esperança de que este «renascimento» pudesse concretizar-se — e conservou-a durante mais tempo do que os seus congéneres arménios otomanos.

A Canção de Ninar de Gladstone

Ao contrário dos millets arménios e gregos, os turcos e os árabes otomanos pouco tinham feito para tirar proveito das oportunidades que traziam as reformas Tanzimat. As famílias muçulmanas estavam relutantes em expor os filhos aos programas mais amplos e às novas ideias propostas pelo regime, ou pelos missionários norte-americanos que administravam escolas gratuitas por todo o império (incluindo em Talas)[16]. Preferiram enviar os seus filhos para madraças, onde adquiriam algumas aptidões além de recitar de cor passagens do Corão. As esperanças de que as reformas educativas promovessem o surgimento de uma burguesia muçulmana foram um desapontamento. Os turcos e os árabes otomanos foram lentos a adoptar os hábitos alla franga que os Gulbenkian tinham abraçado em meados do século XIX: o uso de vestuário de estilo ocidental, comer de pratos individuais à mesa (em vez de uma travessa comunitária no chão), servir as mulheres primeiro (em lugar dos homens) e por aí em diante[17].

Arménios e gregos continuavam a dominar tanto o comércio internacional como o interno e a indústria de todos os sectores. Afinal, até mesmo num sistema tão mercenário como o Império Otomano, era preciso ter alguma inteligência prática para deter uma concessão de cobre, querosene ou travessia fluvial. Tinha de se compreender a tecnologia básica e a vertente financeira, interpretar a contabilidade e ter a percepção dos mercados internacionais e de como funcionavam. Mesmo que não se percebesse a química subjacente à refinação do crude para produzir querosene, nem o funcionamento de um barco a vapor, tinha de se dominar as línguas e a diplomacia para contratar e gerir aqueles que o percebiam, fossem eles russos, escoceses ou franceses. Turcos e árabes não viam essas competências como importantes. Para a grande maioria dos súbditos do sultão, incluindo agricultores e pastores arménios na planície de Adana ou em torno do Lago Van, não eram provavelmente muito úteis. Havia trabalho que chegasse para preencher as horas diurnas, sem a preocupação com barcos a vapor, máquinas de separação de algodão ou mesmo estirpes aperfeiçoadas de ovelhas angorá.

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Muito viajados, muito cultos, poliglotas e educados para o comércio, os Gulbenkian e os amiras de Istambul, seus pares, estavam em posição perfeita para canalizar o investimento e a tecnologia da Europa Ocidental e pô-los a funcionar por todo o Império Otomano. Que estivessem interessados num verdadeiro cosmopolitismo otomano, numa nova cultura que pudesse suplantar a arménia que possuíam, é bastante menos evidente. Depois de 1875, o aparecimento de uma política revolucionária arménia despertou os sonhos havia muito adormecidos de uma «Pátria Nacional Arménia». Estes desenvolvimentos desafiaram a pretensão dos amiras e da Igreja Apostólica Arménia de liderar a comunidade arménia. Diferentes membros do clã Gulbenkian foram atraídos em diferentes direcções. Enquanto os da geração de Sarkis se debatiam para perceber o que se passava, para a geração de Calouste pensamentos de temeridades em prol da pátria podiam ser deveras empolgantes.

Assim, nos anos que se seguiram a 1875, vários factores levaram alguns arménios otomanos a iniciar a busca de um protector para substituir o sultão. No leste da Anatólia, um factor óbvio a empurrá-los nesse sentido foi a indiferença do sultão para com a opressão dos arménios. Um factor correspondente de atracção foi a investida russa sobre o vizinho Cáucaso. Durante décadas, os russos tinham actuado como guardiões das igrejas ortodoxas. Havia uma vasta comunidade arménia em Tbilissi que aproveitou muito bem esta movimentação russa para sul. Os mesmos túneis, estradas e caminhos-de-ferro que serviram para projectar o poderio russo para o Cáucaso, podiam ser usados pelos negociantes arménios como os Mantachev para exportar tapetes, querosene e outros produtos para os mercados russos. Os russos também trouxeram paz e estabilidade, o que era sempre bom para o negócio. Os cossacos russos transplantaram, ou simplesmente eliminaram, os canatos insignificantes das montanhas e colinas que há séculos andavam a assaltar as caravanas arménias. Muitos arménios de leste viam a Rússia como uma hegemonia em que podiam confiar[18]. Se dispusessem de meios, enviavam os seus rapazes para serem educados em Tartu (agora Estónia, na altura parte do Império Russo) e para São Petersburgo.

No entanto, a Anatólia Oriental ficava muito longe de Istambul; os arménios de oeste e de leste falavam dialectos diferentes. Os arménios ocidentais olhavam para a Grã-Bretanha, a grande rival da Rússia. Olhavam em particular para um homem, William Ewart Gladstone, fundador e consciência do Partido Liberal, que desempenhou quatro vezes o cargo de primeiro-ministro entre 1868 e 1894. O carisma e a habilidade retórica de Gladstone valeram-lhe uma adesão quase de culto na década de 1870. Gladstone encorajou a sua audiência (com direito de voto ou não) a fazer da política algo em que podia investir todas as suas convicções e valores morais cristãos, algo suficientemente poderoso para submeter os acontecimentos à sua vontade quase divina.

Como muitos membros da Igreja Alta Anglicana com tendências tractarianas, Gladstone interessara-se muito pela teologia e a liturgia das igrejas ortodoxas. Na década de 1840, ele chegou a ter esperança de reunificar as igrejas cristãs do Leste e do Oeste. Em vez de ter sido condenada pela Reforma a não ser mais do que uma casa teológica de transição, a Igreja Anglicana poderia tornar-se o centro de uma verdadeira Igreja Católica (no sentido de universal). As esperanças de restaurar a unidade da Igreja desfizeram-se em 1870, quando a Igreja Católica Romana, encabeçada pelo papa Pio IX, rejeitou um caminho conservador e ultramontano. Não obstante, Gladstone conservou uma forte afinidade com a igreja arménia e com outras igrejas orientais. Os arménios eram, antes de mais, companheiros cristãos.

Em Outubro de 1875, chegaram notícias à Grã-Bretanha de que uma tentativa de rebelião de cristãos ortodoxos na Herzegovina estava a ser violentamente reprimida pelo sultão. Em Junho do ano seguinte, relatos de atrocidades otomanas tinham incitado uma campanha pública. A Grã-Bretanha via-se havia muito como o paladino de nações em início de vida a fugir ao jugo imperial, a defender os gregos na sua guerra de independência do sultão. Ganhava-se vantagem quando havia um rosto para associar a essas campanhas, alguém que pudesse ser levado em digressão pela Grã-Bretanha, ao som de aclamações pela união, como Garibaldi e Kossuth (ambos rebeldes perante o Império Austro-Húngaro) tinham sido na década de 1860. No caso dos chamados «Horrores Búlgaros», esse líder foi o próprio Gladstone. Em Setembro de 1876, surgiu o panfleto dele, Os Horrores Búlgaros e a Questão do Oriente, seguido por um circuito palestrante pela Grã-Bretanha.

Em 1878, o Congresso de Berlim reuniu-se para redesenhar o mapa dos Balcãs, à luz da derrota do Império Otomano na Guerra Russo-Turca. Ao contrário dos montenegrinos, dos sérvios, dos búlgaros e de outros povos balcânicos, os arménios não eram provenientes da parte europeia do Império Otomano, nem procuravam a independência; queriam apenas segurança. O patriarca arménio de Istambul, Mhrtich Khrimian, viajou para Berlim em 1878, mas foi-lhe recusado acesso às deliberações formais do Congresso. O Artigo 61.º do Tratado de Berlim foi, ainda assim, saudado como uma vitória arménia. Ao abrigo desse artigo, o sultão aceitou a nomeação de dois monitores britânicos que superintenderiam o bem-estar das comunidades arménias nas províncias, ou vilayets, da Anatólia Oriental. Infelizmente, nem os britânicos nem o sultão levaram esse artigo muito a sério e ficou por implementar. Uma vez de regresso a Downing Street, em 1880, Gladstone pouco fez para pressionar o sultão.

É verdade que tinha muito com que se ocupar. Em 1886, enquanto Gulbenkian frequentava a escola em Londres, Gladstone fazia pairar o «Papagaio de Hawarden», um balão experimental a propor a autodeterminação para a Irlanda. O «Papagaio» produziu ondas de choque em toda a Grã-Bretanha, destruindo o Partido Liberal. Quando Gladstone começou a denunciar o tratamento dispensado pelos otomanos à comunidade arménia em 1890, ele e o seu Partido Liberal eram uma força esgotada. Quase cego e com pouco tempo restante neste mundo, em 1894, Gladstone era capaz de incitar os fiéis a uma justa fúria[19]. Quando convidado por activistas como o infatigável James Bryce, uma lista impressionante de bispos, lordes e membros do Parlamento mostrou-se disposta a integrar comités de organizações filantrópicas arménias como a Associação Anglo-Arménia (fundada em 1893). Contudo, já não era muito claro o que significava realmente este clamor e fúria. Ouvir a velha cantilena familiar e escandalizar-se com relatos tétricos de atrocidades ameaçava tornar-se em não mais do que um exercício cortês de se entusiasmar a si mesmo.

Desafortunadamente, a comunidade arménia na Grã-Bretanha e a comunidade arménia ocidental em geral não se aperceberam de que, de Gladstone, em 1876, até Edward Grey, em 1896, os políticos pouparam a sua retórica mais promissora para períodos em que não ocupavam cargos. Um exercício de piedade, boas maneiras e arengar gladstoniano foi recebido como um compromisso da parte do governo de Sua Majestade de intervir. Quando o engenheiro dos caminhos-de-ferro Henry Barkley chegou a Kayseri em 1890, na sua viagem através da Anatólia, todos os arménios com que se encontrou supuseram que ele fosse um posto avançado do Exército britânico, vindo para cumprir toda a retórica. «Vocês são claramente o povo mais rico do mundo», observou um arménio de Talas, «portanto, se não vêm governar-nos como deviam, têm pelo menos a obrigação de nos ajudar, enquanto cristãos, com gastos de uns vinte ou trinta milhões na construção de estradas, caminhos-de-ferro, pontes e outras obras úteis.»[20]

Patriotas Prudentes

Outros arménios otomanos não iam esperar pelos russos, pelos britânicos, pelos americanos, nem por mais ninguém. Emancipar-se-iam por meio do socialismo revolucionário, fomentado por partidos arménios bem organizados com as suas próprias redes internacionais. O Partido Revolucionário Hunchakiano foi fundado em 1887, seguindo-se-lhe três anos depois a Federação Revolucionária Arménia, ou Partido Dashnak. Para amiras como os Gulbenkian, eram desenvolvimentos execráveis e perturbadores. A par da nostalgia por uma yerkir, ou pátria, Arménia, estes partidos estavam preparados para advogar a violência na prossecução dos seus objectivos. Nas palavras de uma proclamação de 1891, encabeçariam um despertar do povo arménio adormecido «de arma na mão». A empolgante ocupação pelos Dashnak do Banco Imperial Otomano em Istambul, no ano de 1896, demonstra como eram sérias tais proclamações. A contenda entre os Dashnak e os Hunchak podia ser igualmente violenta.

Todos esses partidos apelavam para um vasto grupo de agricultores arménios entalados no meio, com pouca disponibilidade ou propensão para ideologia e que conheciam a verdadeira yerkir, que era algo bastante diferente da pastoral romântica divulgada por aqueles que nunca tinham cultivado a terra. Sem os meios para exprimir ou disseminar a sua própria posição política, esta comunidade central continuava a ser uma espécie de espelho, a reflectir as crenças daqueles que para ela apelavam. A partir de meados da década de 1890 em diante, essas comunidades isoladas suportaram o peso da violência otomana. Nalguns casos, como em Zeyton, retaliaram, encorajados pelos Dashnak e pelos Hunchak, que raramente estavam em posição de oferecer qualquer outra forma de apoio.

Que representavam todos aqueles discursos tonitruantes, manifestos partidários e actos ousados de violência para os Gulbenkian? Que significavam para Calouste, uma criança de Istambul da era da Tanzimat e, posteriormente, estudante em Londres durante o terceiro mandato de Gladstone? Para os amiras, representavam outras tantas ameaças à regularidade dos negócios e não muito mais. Tal indiferença levou os historiadores arménios dos séculos XX e XXI a descrever os amiras como arménios para propaganda, sem «substância» patriótica. A generosidade amira para com a sua comunidade pode até ser vista como uma compensação pela culpa. O cunhado de Gulbenkian afirmou que a contribuição dele para causas arménias fora «insignificante» e que ele não fora «um bom arménio»[21].

Alguns amiras deram por si a ser encarados como colaboradores. As observações de Harutyun Paxá Dadian (1830-1911) são reveladoras a este respeito. Educado em Paris, Dadian era originário de uma família arménia irrepreensível (ligada aos Gulbenkian por casamento) e trabalhou para o Ministério dos Negócios Estrangeiros otomano a partir de 1848, ascendendo até se tornar vizir em 1887. Criticado pela sua folha de serviços numa fase tardia da vida, Dadian respondeu que «por mais perigosa a posição em que se encontre uma população como a nossa, é nosso dever trabalhar fielmente em prol do Estado, evitar a insurreição e prevenir assim uma retaliação terrível. Não será o patriotismo prudente ainda patriotismo?» Para um arménio a escrever em 2002, tratava-se de uma «desculpa cobarde». Tanto a filantropia dos Gulbenkian como a dos Dadian foram casos de «arménios de propaganda» a salvar consciências assaltadas por sentimentos de culpa[22].

Os Gulbenkian não viam as identidades arménia e otomana como incompatíveis. Os rótulos eram interdependentes: como podiam os arménios percepcionar-se a si mesmo como o «fiel millet» sem um sultão a quem ser leal? Talvez esta identidade tivesse pouca consistência. A lealdade consistia largamente naquilo que não se fazia (revoltar-se, pegar em armas, tentar converter outros), e não no que se fazia. A moda do vestuário e hábitos europeus ocidentais acrescentavam uma dimensão cosmopolita adicional. Por vezes, também isto parecia assentar de um modo um pouco bizarro. Na fotografia com os seus primos de Bagdade, as vestes de estilo britânico do pequeno Calouste ficam um pouco largas nalgumas partes do corpo. Uma infância passada neste mundo cosmopolita, numa casa com criados britânicos e franceses, com parentes a passarem regularmente por lá nas suas viagens entre as filiais remotas dos negócios da família, deverá ter enformado a mentalidade de Calouste. Poderá não o ter formado para ser um «bom arménio», mas decerto que o preparou para o papel que ele desempenharia no mundo dos negócios internacionais.

CAPÍTULO DOIS

MARSELHA, LONDRES E BAKU, 1883-1888

Os Gulbenkian descreviam a sua família como «oriental», algo que interpretavam como patriarcal. As crianças eram criadas por amas, preceptores e governantas, e tinham acesso limitado aos pais. O pai era uma figura distante e reverenciada cuja palavra era lei. Providenciavam para que os filhos se instruíssem sobre os negócios a trabalhar para parentes no estrangeiro ou noutro lugar do império. Também combinavam casamentos: os filhos do sexo masculino deviam casar com arménias com idêntico nível social, e não oddar, ou não-arménias; as filhas eram feitas casar entre as idades de 13 e 16 anos. Primos e parentes mais afastados eram sempre bem-vindos nas casas uns dos outros, fosse de visita ou para estadias muito mais prolongadas.

Calouste conservou um dos livros de cópias da correspondência enviada pelo pai que dá uma ideia de como funcionava uma família como a dele. Nessas cartas, redigidas com a mistura habitual de vocabulário turco e alfabeto arménio, desvanece-se a distinção entre criados e parentes. Ambos são tratados por nomes familiares, alguns em francês («Monsieur Jacques»), alguns em turco («Haci Hanim» ou «Senhora Peregrina», um título habitualmente atribuído a quem tivesse realizado a peregrinação, ou hajj, a Jerusalém). Um preceptor ou outro servente da casa podia servir várias gerações da mesma família. Quando envelheciam, não eram dispensados, mas cuidados e, muitas vezes, desempenhavam o papel de juízes não oficiais de recurso em disputas familiares. Isto aconteceu certamente com o «Barão» Setrak Devgantz, que foi preceptor de Calouste, e posteriormente também do filho único dele, Nubar. Nalguns casos, esses serventes eram na verdade parentes afastados que estavam a passar por tempos difíceis.

Em Outubro de 1883, Sarkis enviou o seu filho mais velho para o Ocidente, para viver com o seu cunhado, Hagop Selian, em Marselha. Tendo terminado os estudos na escola arménia em Kadiköy, Aramyan-Uncuyan, teria sido normal para Calouste seguir para a frequência do Lycée Saint-Joseph ou do Robert College, as principais escolas secundárias de Istambul, respectivamente administradas por franceses e americanos. A decisão de optar por uma escola e uma universidade inglesas dá a entender que o negócio de Sarkis estava a correr muito bem, permitindo-lhe imitar o exemplo dado pelos amiras muito ricos, que haviam passado a enviar os seus rapazes para Eton e Harrow.

Contudo, a carta de Sarkis para Selian, domiciliado em Marselha, sugere outra razão:

Não queremos enviá-lo para um internato, porque o Calouste tem sempre pesadelos. Ele dormiu no quarto da mãe até ao momento em que partiu para Marselha […] Não consegue exprimir-se. A mãe mima-o sempre e, por isso, ele é nervoso e tímido. Mal diz uma palavra. Na Turquia, era incapaz de dizer «olá» a uma rapariga; julgo que ele considera isso imoral. Enviámo-lo para a Europa na esperança de lhe mudar o carácter.[23]

Calouste foi acompanhado pelo «Barão» Devgantz. O duo foi fotografado pouco depois da chegada. Ter Devgantz com ele ajudou indubitavelmente Calouste a fazer a difícil transição de um ambiente conhecido, caloroso e de língua turca para algo menos familiar. Devgantz também estava lá para relatar a Sarkis o progresso de Calouste e para garantir que ele se mantinha longe do álcool e do Joliette, o bairro de diversão em Marselha[24].

Sendo um dos portos mais importantes do Mediterrâneo, Marselha era o ponto de entrada natural para aqueles que viajavam para França a partir de Istambul — pelo menos até ser inaugurada a ferrovia do Expresso do Oriente, em 1888. A sua importância como centro comercial determinou que tivesse já uma comunidade arménia considerável em 1884, incluindo a família Selian, que também era originária de Talas. A par dos seus estudos formais na École de Commerce e das suas lições com Devgantz, é de presumir que Calouste ajudasse um pouco nos escritórios de Selian e Gulbenk, o que lhe proporcionou o seu primeiro e verdadeiro contacto com o ramo de negócios do pai.

Em Marselha, Calouste adquiriu as aptidões básicas para a actividade, como contabilidade na École de Commerce. Dada a importância do francês como veículo educado de comunicação, é provável que Calouste tenha recebido algumas noções do idioma quando chegou a Marselha. Entretanto, aperfeiçoara-o e passava as tardinhas a iniciar-se no inglês. Almoçava num hotel. Em lugar de ver nisso um desperdício de dinheiro, Sarkis aprovava-o: poupava tempo. O individualista em Calouste veio a apreciar a eficiência e o anonimato da vida de hotel em tenra idade (tinha apenas 14 anos), além de se eximir à tagarelice repetitiva, a cozinheiros temperamentais e a outras tribulações de comer na própria casa. No entanto, é provável que, em 1884, Calouste apreciasse a possibilidade de falar em turco com os seus parentes nos serões. Seria mais difícil entabular conversas assim em Londres.

Tempos de Escola

No Verão de 1884, Calouste viajou para Londres, desta vez sem Devgantz. Agindo a conselho de sócios da firma londrina W. H. Cole & Co., Sarkis decidira inscrever o filho no King’s College School[25]. Claramente, Henry Cole, o seu filho Alfred Clayton (um futuro governador do Banco de Inglaterra), e um certo Sr. Baxter (também da W. H. Cole & Co.) conheciam bem Sarkis e interessaram-se activamente pelo bem-estar do filho dele. «Caloost» foi devidamente integrado na turma do quinto ciclo do Sr. Greare e disponibilizaram-lhe alojamento na casa em Ealing do capelão, o reverendo Henry Balcher[26].

O King’s College School comprimia-se na cave de King’s College, a universidade fundada em 1829. Os dois estabelecimentos partilhavam um director e vários outros professores, além do edifício, e era comum os alunos da escola «irem lá para cima» — isto é, transferirem-se para a universidade. A entrada principal dava para a Strand, que era desde havia muito uma das mais movimentadas vias públicas de Londres. A ala principal estendia-se a sul para o talude de Victoria, sobranceiro ao Tamisa. Sendo um estabelecimento relativamente recente, a escola não dispunha da dotação financeira de outras escolas privadas de Londres, como Westminster e St. Paul. Não obstante, as propinas não eram baratas pelos padrões da época.

Todos os alunos tinham de estudar Teologia, Matemática, Língua Inglesa, Literatura e História. Além disso, a Escola Superior estava dividida num lado «Clássico», que administrava uma formação de estilo Oxbridge[*] em Estudos Clássicos, e um lado «Moderno», concebido para preparar rapazes para o Departamento de Ciências Aplicadas do King’s College, bem como para os exames da função pública e «Profissões Mercantis». Calouste foi admitido no lado «Clássico», não obstante o pai ter declarado querer somente que ele «aperfeiçoasse o inglês e o francês, terminasse o ensino secundário e regressasse para trabalhar como homem de negócios»[27].

A cave do King’s estava sobrepovoada. O campo desportivo da escola ficava a alguma distância e, tirando isso, havia apenas um estreito pátio onde espairecer. Era um grave inconveniente nessa era de «cristianismo muscular», em que os desportos das escolas privadas adquiriram uma adesão quase de culto, venerados pelos traços viris de carácter que se supunha instilarem. Era difícil imaginar os enredos de novelas como Tom Brown no Colégio (1857) — nesse exemplo, com base numa Escola de Râguebi — a ser transposto para uma cave da Strand.

Os aspectos mais desagradáveis da vida na escola privada eram claramente visíveis no King’s. Numa carta remetida para casa, Calouste relatou que um rapaz fora «assassinado» por colegas no corredor que atravessava o centro do edifício[28]. Charles Fisher Bourdas, de 12 anos, morrera alguns dias antes, nove dias depois de receber «uma boa dúzia de golpes […] de punho» de outros alunos da escola[29]. Esses rapazes formavam regularmente um túnel na extremidade do corredor, onde podiam apanhar os rapazes mais novos quando regressavam do refeitório para a sala de aula, esmurrando-os quando tentavam atravessá-lo. Já moribundo na cama, com ambas as pernas paralisadas, Bourdas recusou delatar aqueles que o tinham agredido. Era contra o código de honra da escola[30]. No escândalo desencadeado por essa morte, o código foi considerado «um sistema de terrorismo» pelo ministro do Interior, Sir William Harcourt[31].

Embora os registos daquele tempo da escola incluam alguns outros nomes não europeus, Calouste, como aluno interno, estava provavelmente mais exposto a tais hostilidades do que os alunos externos, como era Bourdas. Um rapaz mais velho, Edward Wakefield, recordou posteriormente ter observado «o esforço diligente para atormentar um miúdo ao longo de meia hora», além de ter «enfiado no caixote do lixo um calmeirão que apanhei a martirizar um rapazito enfezado de aparência judaica que afinal era filho do barão Rothschild». Meter um rufia no caixote do lixo em lugar de o denunciar era a virilidade Tom Brown no seu melhor. A verdade e a ficção sobrepunham-se totalmente: Wakefield explicou que a tentativa de supliciar um rapaz não se devia «a crueldade, mas à leitura atenta das novelas da vida escolar»[32].

No número 63 de Warwick Road, a moradia em Ealing do reverendo Belcher, só residiam quatro internos. Calouste ocupou o lugar deixado vago por Joseph Kamauoha, um dos elementos de um grupo de havaianos bem-nascidos que haviam sido enviados pelo rei Kalakaua para serem educados na Grã-Bretanha[33]. Embora não fosse ave de arribação tão estranha como Kamauoha, Calouste confrontava-se com as mesmas expectativas e riscos elevados. O trabalho dele era conservar a cabeça baixa e assimilar o mais rapidamente possível. Jantava todos os dias no Gatti’s, estabelecimento da Strand, às seis e meia da tarde, e depois ia a pé para casa atravessando os parques e deitava-se às oito. Os outros internos esperavam que Belcher se fosse deitar antes de se escaparem para o music hall. Regressavam derreados pela madrugada, precisamente quando Calouste acordava para fazer seis horas de leitura antes de ir para as aulas[34]. Com saudades de casa, Calouste habituou-se a passar os sábados com os Balian, uma família arménia famosa por fornecer os arquitectos que desenharam muitos dos palácios do sultão Abdul Hamid II. Embora Sarkis ficasse grato a Khosrov Balian pela sua hospitalidade, não queria que o filho fosse um fardo e acabou por dar ordem a Calouste para que deixasse de os importunar[35].

A mãe, Dirouhi, não escrevia pessoalmente a Calouste, pelo que as suas opiniões e instruções tinham de ser veiculadas pelas cartas do marido. Não havendo metropolitano em Istambul, além de um pequeno funicular a ligar Galata e Pera, preocupava Dirouhi pensar que o seu filho de 16 anos ia todos os dias para a escola pela District Line. Ele não devia saltar de um comboio em movimento[36]. «A tua mãe diz que não deves trabalhar tanto», acrescentou Sarkis em Outubro de 1884, «mas eu penso que deves trabalhar ainda mais.»[37] Em Novembro, Calouste pediu ao pai autorização para viajar para Marselha e passar o Natal com os Selian. Foi-lhe recusada. Ele suplicou. «Não irás passar o Natal a Marselha. Nunca! Nunca! Nunca! Deves ficar na casa de Belcher e estudar», ameaçou Sarkis[38].

Ao que parece, Calouste andava a ser atormentado por colegas internos. Ele telegrafou ao pai que ficava «de coração destroçado» só de pensar em passar o Natal sozinho em Londres. Sarkis cedeu e dez dias depois Calouste chegou a Marselha[39]. Durante as férias, chegaram a Istambul através dos Selian relatos dos abusos a que Calouste fora sujeito em casa de Belcher, e Sarkis concordou que Hagop Selian devia acompanhar Calouste quando este voltasse para Londres e investigar. Tendo a princípio recusado acreditar nos relatos de Calouste, acusando-o de difamar Belcher, Sarkis concordou que Calouste devia mudar-se de Warwick Road. Podia viver com os Balian até à Páscoa[40].

Ciências Aplicadas

Em Janeiro de 1885, Calouste «foi lá para cima», para o Departamento de Ciências Aplicadas do King’s College, apesar de apenas ter passado um período na escola[41]. Sarkis continuou a hesitar quanto à direcção que os estudos do filho deviam tomar. Estaria Calouste em Londres para adquirir fluência em inglês e outras aptidões relevantes para o negócio de importação e exportação da família? Ou estaria lá para adquirir conhecimento das novas ciências cuja utilidade não era tão óbvia no imediato? Quando Calouste exprimiu pela primeira vez interesse em estudar Geologia e Engenharia Mecânica, em Outubro de 1884, o pai respondeu-lhe, com exactidão, que tais matérias eram «desconhecidas na Turquia». Todavia, Sarkis pensava que essas disciplinas podiam ser úteis no futuro e satisfazia-o que o filho avançasse.

Um mês depois, Sarkis mudou de ideias: Calouste devia abandonar qualquer intenção quanto à Engenharia e à Geologia, e só estudar Inglês, Francês e Matemática no King’s College. Às tardinhas podia fazer Literatura Inglesa, História Inglesa e Direito Comercial. Não haveria procura para mais nada. Calouste conseguiu que o pai aquiescesse quanto à Geologia, mas Engenharia Mecânica era demasiado «sujo». Um Gulbenkian não se deixava ficar coberto de óleo a trabalhar em máquinas[42]. Este debate tinha claramente tanto que ver com prestígio como com conhecimento «útil».

Em Julho de 1885, o período terminou e Calouste deixou Londres para passar as férias em casa, viajando com passagem por Viena, uma jornada que demorou cinco dias. Os pais já não o viam havia um ano e meio. Os irmãos, Karnig e Vahan, tinham agora 15 e 7 anos, respectivamente. Ele escreveu a Cole, aparentemente a primeira carta que escreveu em inglês:

Tinha prometido escrever-te pouco depois da minha chegada a Cons­tantinopla e informar-te dos meus entretenimentos e de como vim sozinho na viagem. Aproveito agora esta oportunidade para cumprir a minha promessa.

Sabes que não sou um inglês e que só passei dez meses a dominar o pouco que pude assimilar; sei que darás por alguns pequenos erros que eu possa cometer, sobretudo dizendo-te eu que esta é a minha primeira tentativa de te escrever no meu próprio estilo e composição, e como resultado de dez meses de estudo árduo em Inglaterra.

Depois de ter dito «Adieu and au revoir» a Inglaterra no sábado de manhã (dia 17 do mês passado), após algumas horas a navegar na mesma manhã, surgiu à vista o litoral de «La Belle France». Atravessámos depois a Alemanha vitoriosa, a Grande Áustria, a recém-civilizada Áustria e a pobre Bulgária.

Decorridos alguns dias, o Danae velejou com uma brisa fresca rumo a Bizâncio. Pela manhã, levantei-me muito cedo para contemplar o espectáculo que nos oferecia a beleza do Bósforo. Não sou capaz de te descrever essa beleza sobrenatural que sei que não te é desconhecida.

Assim cheguei são e salvo na quinta-feira de manhã. Falar-te-ei noutra carta acerca de como passo o meu tempo e acerca da Arménia (tudo o que sobre ela possa dizer-te). O meu pai e a minha mãe enviam-te os seus melhores cumprimentos.

Afectuosamente teu

Calouste S. Gulbenkian

P. S.: Escrevi esta carta no dia 25 deste mês, mas ficou esquecida no escritório.[43]

A carta é uma salgalhada encantadora de frases que Gulbenkian se orgulhava de ter captado em conversa («são e salvo»), expressões tomadas de empréstimo do seu manual de inglês («estilo e composição») e bons mots que visavam sem dúvida dar ares de viajante experiente e educado. Embora o inglês dele viesse a tornar-se fluente, ainda em adulto cometia ocasionalmente erros, normalmente quando tentava citar um coloquialismo inglês ou maneira de dizer com que engraçara. Por exemplo, nooks and corners tornou-se crooks and corners[*].

Mais tarde na vida, Calouste foi também culpado de inflacionar as classificações que recebera no King’s. Afirmava ter obtido um «Grau de Primeira Classe em Engenharia». Um tal grau não existia naquela altura. Em comparação com a França, e sobretudo com os estados alemães, a ­Grã-Bretanha fora lenta a criar faculdades de ensino superior de ciência e engenharia. Oxford só abriu um departamento de estudo de Engenharia em 1908. O objectivo do Departamento de Ciências Aplicadas do King’s não era conferir graus especializados, mas oferecer «um sistema de educação geral de carácter prático para jovens que venham a integrar-se em profissões como Engenharia Civil, Telegrafia, Topografia, Arquitectura e os ramos superiores de Técnicas de Fabrico»[44].

O que Calouste obteve de facto foi o estatuto de associado do Departamento de Ciências Aplicadas, atribuído no final do primeiro semestre de 1887, graças a ter vencido o prémio de Física do 2.º ano (ex-aequo) e os prémios de Física e de Física Prática do 3.º ano. Embora os dois prémios bastassem para adquirir o estatuto de associado, ele também foi galardoado com Certificados de Mérito no 2.º ano de Mecânica e Artes de Construção, bem como com um Certificado de Distinção no 3.º ano de Física[45]. A par dessas disciplinas, também estudou química prática, geologia, desenho geométrico e desenho mecânico, topografia e uma actividade simplesmente conhecida por «Oficina». Havia mais de cento e cinquenta prelecções por semestre para assistir, com exames no final do ano. Em Julho de 1887, ele também se submeteu a um exame externo, estatal, em magnetismo e electricidade, obtendo um certificado de habilitações avançadas (primeira classe), uma qualificação independente[46].

Num momento mais tardio da sua vida, Gulbenkian também afirmou ter estudado com Ernest Rutherford, o pioneiro neozelandês de física nuclear, bem como o grande William Thomson, Lorde Kelvin, que ajudou a formular a segunda lei da termodinâmica[47]. Thomson foi cumulado de honrarias e chegou a dar o seu nome a uma unidade de medida (o kelvin, usado para medir a temperatura absoluta). Contudo, Rutherford não se mudou para Inglaterra antes de 1907 e Thomson nunca ensinou em Londres. Embora a alusão a Rutherford fosse pura invenção, no caso de Kelvin, Gulbenkian estava a confundir William Thomson (físico) com o seu antigo professor John M. Thomson (químico). Este último era muito menos distinto[48].

Se Gulbenkian teve um mentor no King’s College, foi o físico Herbert Tomlinson (1845-1931), cujo nome também podia ser confundido com o de Thomson. Nessa Idade de Ouro, importantes cientistas como T. H. Huxley eram também oradores públicos carismáticos, competentes a atrair e a cativar a atenção de leigos com a sua retórica e com exemplos cuidadosamente preparados. Também Tomlinson era conhecido por manifestações huxleyescas de proficiência. «Era tradição que na sua última lição sobre o som, que ministrava no final do curso de Física, concluísse a tocar o God Save the Queen deixando cair blocos afinados de madeira na devida sucessão sobre a secretária.»[49] A investigação de Tomlinson acompanhava as necessidades da indústria, em lugar de ser física «pura»[50]. Se Gulbenkian pensasse prosseguir os estudos em Paris (como afirmou mais tarde), seria presumivelmente numa investigação semelhante à de Tomlinson e com recurso aos contactos de Tomlinson.

A indústria do petróleo e as ciências que com ela se relacionavam estavam ainda na infância nesse período. Embora Gulbenkian estudasse Geologia e Física Prática no King’s College, esses cursos dedicavam-se mais ao carvão e ao vapor do que ao petróleo e à electricidade. Ao estudar esses tópicos, a par de vários outros, Gulbenkian não aprofundou muito. Isso era algo que não o desqualificava de forma alguma para ser «homem do petróleo». Dos seus contemporâneos na indústria do petróleo, só Sir John Cadman (presidente da Anglo-Persian) era formado em Geologia, pela Universidade de Durham, em 1899. O King’s proporcionou a Gulbenkian conhecimento suficiente em matemática, engenharia, geologia e física para poder falar de forma inteligente sobre petróleo, e até para explicar os princípios subjacentes que, por exemplo, faziam funcionar uma turbina a vapor ou um gerador. Mais do que isso era desnecessário. Foi a finança que veio a fasciná-lo, não a ciência.

O processo de descobrir, extrair e refinar petróleo era uma arte, não uma ciência. Enquanto o querosene continuasse a ser o produto predominante, pouca motivação havia para as empresas investirem nos seus próprios laboratórios e em formação universitária. O progresso não era feito no laboratório, mas no campo, por tentativa e erro, e uma boa parte de sorte. Tendo em conta o elevado custo dos erros, em vidas, dinheiro e danos ambientais, é extraordinário que tenha levado tanto tempo a dominar os princípios subjacentes. Esta perspectiva a curto prazo reflectia os meios financeiros limitados disponíveis para os homens do petróleo. O trabalho posterior de Gulbenkian permitiria à indústria adoptar uma perspectiva a mais longo prazo, facultando aos empresários do petróleo acesso aos mercados de capitais e construindo colaborações internacionais estáveis.

Pangloss em Baku

Tendo concluído a sua formação em Londres, supõe-se que Gulbenkian tenha passado o Natal de 1887 em Istambul, permanecendo lá até Setembro de 1888, quando partiu para Baku. A viagem para Batumi levou três dias em navio a vapor. Gulbenkin apanhou depois o comboio transcaucasiano no sentido leste, para Kutaisi e Tbilissi, onde permaneceu por quinze dias, antes de prosseguir para Baku, do lado do Cáspio. Após dez dias a explorar a cidade, e os campos petrolíferos e refinarias circundantes, apanhou o comboio de regresso a Batumi[51].

Esta viagem com duração de um mês constituiu a base do relato La Transcaucasie et la Péninsule d’Apchéron: Souvenirs de voyage (1891). A perspectiva do narrador é a de um turista francês culto a viajar para satisfazer a sua própria curiosidade. Revela pouco da experiência tida por este jovem arménio otomano, e muito das suas pretensões. «Conhecemos todos a passagem em Xenofonte relativa a Kerassunde», escreve Gulbenkian em determinado passo, com toda a confiança jovial de alguém com 19 anos que nunca dominou o grego clássico. Não obstante toda a insistência de que está a «comunicar ao leitor as minhas impressões como turista em lugar das minhas conclusões como explorador», o autor de La Transcaucasie não exibe frivolamente a sua erudição.

O navio de Gulbenkian mal deixara o porto de Istambul quando «nos» vimos a passar em revista a literatura disponível sobre a arqueologia, a antropologia, a geologia, a história e a história natural do Cáucaso. Gulbenkian cita regularmente obras publicadas em francês, inglês, alemão e russo (sendo os dois últimos idiomas tão estranhos para ele como o grego clássico)[52]. Determinado a criar a impressão de que era na verdade (ao contrário da sua modesta auto-apreciação) um «explorador», estas referências dão a entender que grande parte de La Transcaucasie foi colhida numa biblioteca de Paris depois da viagem.

Entre esses trechos eruditos, é-nos oferecido muito em matéria de paisagem e mitologia. Com o seu golpe de vista para o pitoresco e a sua atenção à cor, as descrições paisagísticas de Gulbenkian seguem de perto o modelo das que se encontram nos relatos de viagem de Théophile Gautier e Alexandre Dumas[53]. Estas descrições, bem como as longas discussões sobre a vida das aves foram severamente criticadas pelo arqueólogo Georges Perrot, da École Normale Supérieure em Paris. Gulbenkian mostrara os arredores a Perrot quando da passagem deste último por Istambul, e pedira-lhe conselhos quanto à preparação e publicação do seu manuscrito. Perrot foi impiedoso nas suas críticas do rascunho, que precisava de ser «reescrito da primeira à última linha». Ele combinou as coisas com uma destacada editora francesa, a Hachette, e arranjou um aluno de doutoramento, Samuel Chabert, para se ocupar da revisão exaustiva[54].

Suspeita-se que os leitores teriam ficado surpreendidos se soubessem que o autor não estava na verdade a chegar a Istambul pela primeira vez. Teria Calouste ouvido sequer «os timbres sonoros do muezim a chamar os fiéis para a oração da manhã» depois de uma infância passada na cidade? Seria que «os trajos orientais» e o vestuário «pitoresco e tão bonito» dos nativos ainda o surpreendiam de facto? Nunca saberemos. Talvez Gulbenkian acreditasse, com Gautier, que «para se viajar por um país, tem de se ser estrangeiro»[55].

Mesmo numa viagem de quatro semanas que raramente se afastava dos hotéis que pontuavam a nova via-férrea, Gulbenkian terá decerto tido muitas experiências que não chegaram a figurar no livro. É possível que ele tenha sido enviado em trabalho por Sarkis. A S. & S. Gulbenkian negociava querosene do Cáucaso, entre muitas outras coisas. Poderá ter havido patrícios Gulbenkian que Calouste poderia visitar no percurso. Na Geórgia, como noutros lugares, encontravam-se arménios estabelecidos desde havia muito como consultores, tradutores e banqueiros de principelhos locais e de outros notáveis. Em 1890, eles controlavam a duma, ou parlamento, de Tbilissi, e tinham construído as maiores fábricas de cigarros, correeiros e fiações de seda da cidade[56]. Em termos culturais, Tbilissi continuou a ser um dos mais importantes centros da comunidade arménia, com o seu próprio teatro e tradição literária arménia.

Um dos pilares da comunidade arménia em Tbilissi era Alexander Mantashyantz, mais conhecido por Alexander Mantachev. Filho de um comerciante de têxteis de Tbilissi, em 1866, Alexander fora enviado a Manchester, onde o algodão otomano era tecido em pano para reexportação (incluindo de novo para o império). A partir da década de 1830, vários clãs arménios abastados tinham ali estabelecido bases de operações, enviando muitas vezes para lá filhos aos 16 anos. Na altura em que Mantachev chegou, uma comunidade pequena, mas próspera, crescera no que era agora a terrível cidade vitoriana das fábricas propulsionadas a vapor e do frenesim orientado para o lucro.

Em 1872, Mantachev regressou a Tbilissi, abriu um armazém de têxteis e seguiu as pisadas do pai, integrando a duma. Com a colonização russa chegaram os primeiros bancos modernos da cidade, e Mantachev não perdeu tempo e entrou para a direcção do Banco Nacional Russo de Tbilissi e do Banco Comercial, vindo a tornar-se presidente deste último, bem como o seu maior accionista. Como o grande Andrew Mellon de Pittsburgh, Mantachev de Tbilissi entrou no ramo do petróleo através de um dos seus credores, Mikael Aramyants, que se endividara pesadamente para investir em vagões-tanque dos caminhos-de-ferro que transportassem o seu petróleo para o mercado. Por um processo semelhante de aquisição de acções em troca de empréstimos que não estavam a ser liquidados, Mantachev adquiriu uma participação noutra companhia petrolífera arménia, a A. Zatouroff. Em 1899, ele rebaptizou a empresa A. I. Mantachev & Co[57]. Numa fase mais tardia da sua vida, Mantachev veio a ser um dos mais ricos magnatas arménios do petróleo.

Ao chegar a Baku em Novembro de 1888, Gulbenkian encontrou poucas paisagens. Pareceu-lhe que o antigo centro persa decaíra tristemente e a nova «Cidade Branca» era monótona, «sem teatro, sem música, sem verdura, sem água, nem mesmo qualquer terra onde as plantas pudessem medrar»[58]. Ao fim de dois dias, pôs-se a caminho para explorar os campos petrolíferos da península de Absheron, bem como o centro refinador de Tchernagorod, a «Cidade Negra». Foi-lhe emprestada uma carruagem por um negociante arménio de petróleo, Hovhannes Zovianoff. Uma vez refinado em querosene, o petróleo de Zovianoff seria transportado por caminho-de-ferro em vagões-tanque até Batumi, para ser transferido para tambores metálicos. Embalados num caixote de madeira, dois desses bidões de 18 litros compunham uma «caixa». A par do pud russo, a caixa era a principal unidade de medida utilizada na indústria petrolífera. Encontrar fornecimento de folha metálica e, em particular, de madeira para esses contentores era uma dor de cabeça constante, literalmente um gargalo que estrangulava a produção.

Os maiores produtores em Baku eram os Nobel. Família emigrada da Suécia, os Nobel de São Petersburgo criaram uma empresa de engenharia, armamento e munições cuja fábrica em Ijevsk fornecia as Forças Armadas russas. Em 1873, Robert Nobel visitou Baku para comprar madeira para coronhas de espingarda e acabou seduzido pelo potencial do petróleo. Os Nobel fundaram a sua companhia petrolífera, a Branobel, em 1879. Um capital accionista inicial de 3 milhões de rublos foi quintuplicado em apenas doze anos[59]. Recursos financeiros abundantes, organização excelente e investimento em investigação por Dmitri Mendeleiev (que formulou a tabela periódica dos elementos) e por outros conferiram à Branobel uma vantagem significativa sobre as centenas de operadores arménios, russos e «tártaros» (Azeri), mais pequenos, que se debatiam com equipamento de má qualidade e financiamento conseguido no dia-a-dia.

O objectivo da Branobel era o mercado doméstico, que servia através de uma rede cerrada de reservatórios e filiais de vendas por todo o Império Russo. Os produtos dos Nobel, que incluíam vaselina e lubrificantes, bem como querosene e mazut (petróleo pesado, para a ignição de motores de comboios e navios), eram transportados através do Mar Cáspio para Novorossisk e depois feitos subir o rio Don em barcaças. Em 1877, a Branobel lançou o primeiro navio petroleiro, o Zoroastro. Em 1888, a Branobel tinha 25 mil empregados e possuía metade dos vagões-tanque que percorriam a ferrovia Baku-Batumi. Empregador exemplar pelos padrões da época, a Branobel fornecia muito melhor alojamento do que qualquer empresa equivalente, além de praticar um sistema de poupança e partilha de lucros com os seus trabalhadores. As instalações eram portentos de tecnologia e havia circuitos guiados para visitantes estrangeiros. Parece extremamente provável que Gulbenkian tenha aproveitado essa oportunidade. Não será necessário dizer que a Branobel era profundamente temida e alvo de ressentimento de todos os outros produtores e refinadores de Baku[60].

Os Nobel confrontavam-se com um concorrente estrangeiro na Rothschild Frères, a filial em Paris da famosa dinastia bancária. Em 1886, dois anos antes da viagem de Gulbenkian, essa companhia fez uma aquisição a dois russos, Bunge e Palashkovski, que tinham fundado a Sociedade Batoum de Petróleo e Comércio, conhecida pelo seu acrónimo russo, Bnito[61]. Os Rothschild relançaram-na como Société Commerciale et Industrielle de Naphte Caspienne et de la Mer Noire, com o modesto capital de um milhão de rublos. Como banco, faltava o conhecimento técnico aos Rothschild. Embora a Société Caspienne possuísse os seus próprios campos e refinaria nos arredores de Baku, bem como uma frota de petroleiros no Mar Negro, os Rothschild não procuraram adquirir mais. Em lugar disso, alargaram avultadas linhas de crédito a todos os novos operadores, a taxas de juro moderadas. Os empréstimos foram reembolsados em querosene e aqueles que os tinham contraído foram interditos de vender através de outros intermediários. Enquanto a Branobel se concentrava na Rússia, a Société Caspienne servia os mercados de exportação: Europa Ocidental, Índia e Extremo Oriente. Graças à falta de fontes rivais de capital necessário para investir em novas instalações de processamento, vagões-tanque e navios petroleiros, muitos aceitaram a oferta da Rothschilds[62].

Numa indústria dividida entre aquilo a que chamamos agora actividades «a montante» (encontrar e extrair petróleo), de intermediação (transportá-lo) e «a jusante» (refiná-lo, distribuí-lo e comercializá-lo), uma companhia tem de controlar apenas uma fase para controlá-las a todas. Isto foi amplamente demonstrado pela Standard Oil de John D. Rockefeller, fundada em 1870 para explorar os campos petrolíferos do noroeste da Pensilvânia. Rockefeller alavancara o seu controlo sobre as refinarias e caminhos-de-ferro para controlar as variações de preço e pressionar os proprietários dos poços a entregar as suas operações à Standard em troca de acções da companhia. Àqueles que aceitassem era prometido o fim da volatilidade e incerteza, o fim «dessa política cruel de não conseguir lucros». Aqueles que recusassem as modestas propostas dos braços-direitos dos Rockefeller eram encostados à parede. A táctica empregue apoiava-se no secretismo e na impiedade: um refinador que resistisse podia ver-se confrontado com uma «fome de barris», uma misteriosa interrupção no fornecimento dos barris necessários para expedir os seus produtos.

«O nosso plano», prometeu Rockefeller, tornaria «o negócio do petróleo seguro e lucrativo». Ao manter-se afastada da fase de perfuração do negócio, a Standard evitava os riscos associados (poços secos), ao mesmo tempo que auferia lucros robustos com a refinação, o transporte e a comercialização. Em meados da década de 1880, a Standard controlava aproximadamente 90 por cento da capacidade refinadora dos EUA e 80 por cento do mercado norte-americano nas vendas dos produtos refinados. Como seria de esperar, a Standard já enfrentava acusações dos rivais de comportamento anticompetitivo, por exemplo, nos descontos e outras reduções de preço que garantira nos caminhos-de-ferro[63]. No entanto, estritamente falando, a Standard Oil Company não era proprietária da rede de companhias que estavam sob o seu domínio; nessa altura era ilegal uma sociedade possuir acções de outra. Em lugar disso, os títulos eram detidos «in trust», fiduciariamente, pela companhia em prol dos seus accionistas, ao abrigo do Acordo de Consórcio da Standard Oil de 1882. Decorridas poucas décadas, trust tornou-se sinónimo de inspirador de desconfiança, popularmente associado a práticas empresariais nebulosas que deixavam, presumivelmente, os consumidores à mercê de oligarcas com políticos no bolso.

Graças a descobertas na península de Abcheron, a produção russa nos dez anos anteriores decuplicara, chegando a 23 milhões de barris em 1888[64]. Estava em construção um oleoduto a ligar Baku a Batumi. Nobel expulsara a Standard do mercado russo e começava a procurar outras vias de escoamento da Europa Ocidental. A reacção inicial da Standard foi descer os preços. Contudo, em lugar de recuarem, em 1888, Nobel e a Rothschild criaram ambas companhias de comercialização na Grã-Bretanha. A Standard foi compelida a imitá-las, fundando a Anglo-American. As três iniciaram empreendimentos conjuntos com distribuidores noutros países europeus, mais um passo para se tornarem companhias internacionais. A viagem de Gulbenkian a Baku coincidiu assim com um ponto de viragem crucial no mundo da indústria do petróleo: o princípio de uma mudança de uma indústria dominada pela produção da Standard e da American (pensilvaniana na sua maioria) para a actual indústria, dominada por um punhado de companhias com produção dispersa pelo mundo. Os poços naturais de Baku deram o impulso a esta mudança.

Claro que, em comparação com os reservatórios e refinarias de hoje, os que Gulbenkian teria visto em 1888 eram rudimentares. A península de Abcheron era uma manta de retalhos feia, malcheirosa e perigosa de pretensões rivais, riscada por oleodutos de três polegadas de diâmetro. Os «tanques» eram compostos por paredes de terra escavadas no solo, entre as quais se acumulava o crude, que se evaporava vagarosamente e reflectia o céu como se fosse um espelho de obsidiana. A primeira geração de «refinarias» não passava de destiladores de bancada, grandes panelas gloriosas em que o crude tinha de ser cozinhado por lotes, em vez de fluir continuamente por eles e ser decomposto nos seus diversos componentes.

Graças à natureza cerosa do crude de Baku, eram necessárias quantidades abundantes de ácido sulfúrico para o «lavar». Embora Mendeleiev e outros químicos russos a trabalhar para os Nobel fizessem importantes avanços na direcção da refinação contínua e do fraccionamento por pressão na década de 1880, o processo requeria novo equipamento e conhecimento especializado, daí que o seu uso não se disseminasse[65]. A partir do momento em que o querosene se separasse e fosse extraído, os resíduos pesados tinham de ser raspados antes que o destilador pudesse ser novamente usado. Para poupar tempo, isto era muitas vezes feito enquanto o interior do destilador estava ainda extremamente quente, fazendo descer por meio de cordas homens bem envolvidos em protecção para cinzelar a crosta. Embora, em 1880, fosse já claro que o crude também continha lubrificantes úteis e fuelóleo pesado (mazut), muitos operadores queimavam ou simplesmente descartavam tudo excepto um produto: o querosene, usado para iluminação. Tendo em conta que o rendimento médio em querosene do crude de Baku era de uns meros 30 por cento, o desperdício era colossal[66].

Em 1878, seis perfuradores trazidos da Pensilvânia aprofundaram os primeiros poços abertos na península, traçando uma linha divisória entre o método antigo de escavar poços com pás e esperar que o crude se infiltrasse neles[67]. «Perfurar» implicava elevar e deixar tombar uma pesada broca de aço na extremidade de um cabo comprido, fazendo a pausa ocasional para extrair a rocha triturada com recurso a um êmbolo tubular. Num certo sentido, o simples volume de crude na península de Abcheron a profundidade reduzida (em comparação com o da Pensilvânia) desencorajava a inovação. Graças a camadas de gás, este crude estava muitas vezes sob pressão considerável e por isso não exigia ser bombeado. Porém, esta pressão tanto podia ser uma maldição como uma bênção. Os operadores em pequena escala tinham muitas vezes de se esforçar para controlar os jorros espontâneos, deixando que corressem incontidos durante semanas a fio. Devido ao metano que irrompia frequentemente com o crude, eram de uma frequência calamitosa as explosões acidentais e os incêndios. A força de trabalho que suportava estas condições eram os tártaros. Russos ou arménios pouco reparavam neles, excepto quando um forte ressentimento eclodia em agitação. A indústria caucasiana do petróleo era um espectáculo de desperdício e desordem. Quando Gulbenkian visitava os campos, levava uma guarda armada.

Para um turista, o ponto alto de uma visita à península era o templo do fogo zoroastriano, na planície de Surakhani, para onde tinham confluído peregrinos parses ao longo de séculos, a fim de prestar culto ao «fogo eterno», uma chaminé ...