Loading...

O HOMEM MAIS RICO DO MUNDO

Jonathan Conlin  

0


Excerto

INTRODUÇÃO

TRAÇAR A LINHA

Todos os mapas têm a sua lenda. O mapa associado ao Acordo da Linha Vermelha de 31 de Julho de 1928 não constitui excepção. Este acordo foi o momento em que as companhias que conhecemos como BP, Total, ExxonMobil e Royal Dutch­-Shell uniram esforços no Médio Oriente. Em lugar de disputarem entre si o domínio do petróleo da região, viriam a colaborar num empreendimento conjunto: a Turkish Petroleum Company. A TPC foi o bebé de Calouste Gulbenkian, ou antes a sua «casa», fundada em 1912. Em 1914, o Ministério dos Negócios Estrangeiros britânico dera-lhes a sua bênção: potências rivais iriam cooperar não só nas províncias otomanas ricas em petróleo de Mossul e Bagdade, mas em todo o «Império Otomano na Ásia».

Contudo, em 1928, o «Império Otomano na Ásia» era uma recordação distante. O império desabara na Primeira Guerra Mundial, desencadeando uma vaga de violência genocida que matou um milhão dos compatriotas arménios de Gulbenkian. Uma miscelânea de mandatos e protectorados franceses e britânicos estavam a evoluir para novos estados-nação que hoje conhecemos como Iraque, Jordânia e Arábia Saudita. Assim, previsivelmente, quando foi necessário definir o «Império Otomano na Ásia» tal como fora em 1914, os negociantes de petróleo que estavam em Ostend, nesse dia, em 1928 confrontavam-se com uma situação crítica.

Tudo foi confuso até que Calouste Gulbenkian interveio:

Quando a conferência parecia prestes a fracassar, ele voltou a produzir uma das suas ideias luminosas. Pediu um grande mapa do Médio Oriente, pegou num grosso lápis vermelho e traçou vagarosamente uma linha em torno da área central.

«Este era o Império Otomano que eu conheci em 1914», declarou. «E seria de esperar que eu o conhecesse: nasci nele, vivi nele e prestei serviço nele. Se alguém estiver mais informado, que tome a palavra […].»

Os sócios de Gulbenkian na TPC observaram o mapa e aprovaram-no. Este relato, extraído da biografia de 1957, por Ralph Hewins, prossegue: «Gulbenkian erguera uma organização para o petróleo do Médio Oriente que durou até 1948: mais uma fantástica proeza de um só homem, nunca ultrapassada nos grandes negócios internacionais.»[1]

Em 1916, o Acordo Sykes-Picot pusera procônsules imperiais lastimavelmente mal informados a trinchar a Síria, o Iraque e a Jordânia mediante um conjunto de linhas rectas, linhas que não tiveram em consideração a geografia física ou humana. O exemplo mais significativo é talvez o «Espirro de Churchill», o recorte triangular na fronteira sul da Jordânia que teria resultado presumidamente de distracção momentânea do estadista em 1921. No relato de Hewins, o gesto de Gulbenkian é mais perfeição sem esforço do que um espirro, e é acompanhado por afirmação de uma perícia de que careciam outros em volta da mesa, perícia resultante de experiência pessoal e profissional. Contudo, o tom e a gravidade do narrador conferem a Gulbenkian a autoridade do estadista para determinar o destino de milhões de uma penada.

Ao longo da sua vida, Gulbenkian evitou diligentemente a imprensa, a ponto de hoje aqueles que reconhecem o nome confundirem o reservado Calouste com o seu filho Nubar, sempre à procura de exposição; os londrinos, em particular, recordam afectuosamente o táxi guiado por motorista de Nubar. O secretismo de Calouste já antes tornou difícil apurar até factos básicos a respeito da sua família, educação e carreira. Muitos contemporâneos e alguns historiadores equipararam esse secretismo a duplicidade e não a modéstia. É habitual ver Gulbenkian referido como um «tenebroso manipulador arménio», uma figura «detestada» cuja influência, como os seus 5 por cento, derivou «da pródiga distribuição de subornos»[2].

Outras histórias do petróleo foram mais amáveis. Na sua história da indústria petrolífera, The Prize, galardoada com o Pulitzer, Daniel Yergin mostra Gulbenkian ao nível dos grandes Rockefeller, Getty e Mattei, como «um dos grandes criadores-flibusteiros do petróleo»[3]. Se Calouste Gulbenkian é hoje conhecido, é-o como o homem que traçou a linha vermelha, um momento crucial na indústria do petróleo e do Médio Oriente. O Acordo da Linha Vermelha de 1928 incorporava a pretensão pessoal de Gulbenkian a 5 por cento do petróleo da TPC, uma pretensão que ele transferiu posteriormente para uma empresa, a Partex, que ainda hoje subsiste.

No entanto, num escrutínio mais aprofundado, a lenda desmorona-se. Embora o mapa tenha certamente estado presente até à fase final das negociações que culminaram em Ostend, Gulbenkian manifestou pouco interesse por ele. O mapa não é mencionado nas memórias que ditou para circulação privada em 1945. Ele nem sequer esteve em Ostend nesse dia fatídico. O episódio é um dos muitos mitos inventados pelo filho de Calouste, que nos diz mais a respeito dos sentimentos de Nubar pelo pai (orgulho, ressentimento, por vezes, afeição) do que do próprio homem.

Prescindir da lenda da linha vermelha pode parecer temerário para um biógrafo. No entanto, é importante reconhecer que os outros que estavam à volta daquela mesa eram impérios poderosos e empresas multinacionais, servidas por centenas de empregados, apoiadas por exércitos de soldados e marinheiros, bem como por contribuintes fiscais e accionistas. Dificilmente eles iriam deixar Gulbenkian, um indivíduo sem empresa ou Estado por trás, rabiscar linhas vermelhas nos seus mapas. Gulbenkian lutara duramente para levar os seus conflituosos parceiros britânicos, franceses e americanos a aceitarem coabitar na sua «casa», e derrotara com êxito tentativas reiteradas de afastá-lo. Contudo, ele não estava particularmente preocupado com o rumo da linha vermelha em si mesma. Nem era estilo seu pronunciar discursos bonitos. Trabalhou como facilitador de bastidores, um intermediário entre os mundos dos negócios, da diplomacia e da alta finança, uma figura muito diferente e mais interessante do que o Gulbenkian da lenda.

Como uma aranha no centro de uma indústria internacional petrolífera e financeira emergente, Gulbenkian manteve impérios e multinacionais como reféns durante mais de cinquenta anos. No entanto, não teria chegado a deter tanto poder se não fosse um negociador e um arquitecto financeiro excepcionalmente dotado. Produtores de petróleo da Califórnia ao Cáucaso procuravam-no pela sua habilidade para angariar capital nos mercados bolsistas de Nova Iorque, Londres e Paris. Ele desempenhou um papel importante, ainda que não reconhecido antes, ao ajudar a Royal Dutch-Shell e a Total a estabelecerem-se como protagonistas no ramo do petróleo.

As intermediações de Gulbenkian apresentaram as companhias de petróleo norte-americanas ao Médio Oriente e levaram a Royal Dutch-Shell para a América, bem como para o México, a Venezuela e a Rússia. A indústria petrolífera embrionária que Gulbenkian encontrou no início da sua carreira, em 1900, estava dominada por um único produtor e uma única companhia: os Estados Unidos e a Standard Oil. Aquando da sua morte, em 1955, a indústria petrolífera mundial já não era um monopólio americano, mas um cartel internacional. Os membros deste cartel, chamados «Sete Irmãs», produziam cada um petróleo originário de vários países. Várias «irmãs» novas apareceram desde então. Contudo, a estrutura da indústria petrolífera de produção, integração e parcerias multinacionais continua a ser a mesma: a teia tecida por Gulbenkian permanece.

Nascido em Istambul em 1869, Gulbenkian chegou à maioridade no Império Otomano, para ver o mundo que lhe era familiar ser dilacerado pelo genocídio e pela guerra. Não foi o único arménio otomano a encontrar refúgio no Ocidente. No entanto, foi o único a prosperar extraordinariamente neste mundo estranho. Longe de o desencorajar, a destruição da sua pátria e uma personalidade solitária tornaram-se chaves para o seu sucesso: como homem reservado sem lealdades a qualquer império, Estado ou companhia, Gulbenkian pôde apresentar-se como o mais honesto dos intermediários. Para os «ocidentais», ele era uma fonte fiável de informação sobre o Médio Oriente. Para os «orientais», alguém a quem recorrer quando queriam saber o que andavam a magicar as Grandes Potências e as suas poderosas companhias petrolíferas. Isto foi tão verdade no caso do sultão Abdul Hamid II, em 1900, como nos do xá do Irão e de Ibn Saud, da Arábia Saudita, quatro décadas mais tarde. Gulbenkian era um diplomata simultaneamente ao serviço dos impérios otomano e persa. Até mesmo Estaline procurou o conselho de Gulbenkian, recompensando-o com obras de Rembrandt do famoso Museu do Hermitage. Nenhuma outra figura dos negócios na história da indústria petrolífera exerceu tanta influência, em tão larga escala e durante tanto tempo.

A história de Gulbenkian é de oportunidade. Quer olhemos retrospectivamente para a Primeira Guerra Mundial e o Acordo de Sykes-Picot há um século, ou consideremos a guerra em curso pelo controlo no Iraque, ou debates persistentes sobre capitalismo, política e identidade, Gulbenkian está escondido mesmo debaixo dos nossos narizes, a desafiar-nos a decifrar a fonte da sua riqueza e influência fabulosas. Como foi que um homem que nada sabia de geologia e que nunca visitou o Iraque, a Arábia Saudita ou qualquer dos Estados do Golfo reivindicou 5 por cento da produção de petróleo do Médio Oriente? Tendo assegurado esse prémio, como foi que conseguiu conservá-lo, tornando-se assim o homem mais rico do mundo? Como foi que um tímido solitário lançou pontes sobre os fossos entre o Oriente e o Ocidente que hoje parecem intransponíveis?

Gulbenkian construiu um palácio fabuloso em Paris que encheu com tesouros, não só quadros do Hermitage mas moedas gregas, antiguidades egípcias, tapetes persas, faiança Iznik e netsuke, botões japoneses minuciosamente esculpidos. Actualmente, as suas colecções estão depositadas em Lisboa, em anexo à sede da fundação que tem o seu nome e que continua a ser uma das fundações mais ricas do mundo. No entanto, pessoalmente, o grande coleccionador nunca dormia no seu palácio — vivia em hotéis. Tinha quatro passaportes diferentes e desejava que a sua fundação fosse igualmente internacional na sua ambição. Este espírito cosmopolita de independência reflectiu-se no mundo anterior a 1914 de circulação ilimitada de capital, tecnologia e pessoas. Esta globalização retraiu-se em seguida até à década de 1980. Agora a maré está de novo em refluxo: a liberdade de iniciativa e a liberdade de movimento estão sob ataque da direita e da esquerda. Disputas comerciais são engendradas. Sinistros «cidadãos de nenhures» são inventados. E as aclamações e os votos afluem. Decerto que Gulbenkian, o derradeiro «cidadão de nenhures», tem algo importante para nos contar neste momento da história.

Nas palavras recentes da Al Jazeera, Gulbenkian foi «o primeiro facilitador, intermediário e negociador do petróleo»[4]. Contudo, além de negociador, financeiro, coleccionador e diplomata, era também homem de família. Aqui revelado pela primeira vez, o vasto arquivo pessoal de Gulbenkian permite-nos avaliar o custo da incessante actividade dele para os que amava. A solicitude dele como marido, pai e avô levaram-no a sujeitar a sua família a uma vigilância e controlo inexoráveis. Em momentos distintos, a mulher, o filho e a filha tentaram libertar-se. O filho chegou a levar Gulbenkian a tribunal. Nenhum logrou escapar a essa outra teia, a do dinheiro, do poder e da afeição que Gulbenkian tecera em torno deles. Há, portanto, muitos Gulbenkian a descobrir para lá do do Acordo da Linha Vermelha.

Na década de 1920, a linha que mais preocupava Gulbenkian era a que separava a Turquia do novo Estado do Iraque. Apesar de ser «turca», as relações da TPC com os turcos eram medíocres. O regime mandatário britânico no Iraque era mais propenso a confirmar os direitos da companhia ao petróleo de Mossul. Assim, para a TPC era crucial que as jazidas de petróleo ficassem do lado iraquiano de qualquer fronteira entre a Turquia e o Iraque.

Depois de a Conferência de Lausana de 1923 não ter conseguido chegar a um acordo, a fronteira em questão foi submetida à Liga das Nações. A Liga nomeou um antigo primeiro-ministro da Hungria, o conde Pál Teleki, para dirigir uma comissão de inquérito. Em Junho de 1925, Gulbenkian propôs conseguir que os mapas de Teleki fossem desenhados de modo a que as jazidas petrolíferas de Mossul ficassem do lado «direito» (iraquiano) da fronteira. O cartógrafo de Teleki, explicou ele aos seus colegas da TPC, era o antigo cartógrafo otomano, um arménio chamado Zatik Khanzadian. Khanzadian conhecia o papel de Gulbenkian na TPC e abordara-o por intermédio de um amigo mútuo da escola, Aram­-Djevhirdjian:

Khanzadian conhece todos os meandros e recantos daquele lugar e, como os outros membros [da comissão] não são cartógrafos, cabe-lhe a ele configurar o mapa de acordo com determinadas instruções relativas às posições topográficas; é-me dito que ele pode tomar as opções que quiser, e assim Khanzadian deseja entrar em contacto pessoal e confidencial comigo, confiando na minha posição e nome para conservar tudo [em segredo]. Ele está desejoso de saber quais são os pontos que a nossa companhia gostaria que permanecessem do lado do Iraque.[5]

Para quê incomodarem-se com convenções, protocolos e tratados quando as fronteiras internacionais podiam ser dispostas à nossa maneira por apenas duas mil libras (cem mil libras esterlinas)? Outros poderiam ir para a linha de partida. Gulbenkian ia directo à meta.

PRIMEIRA PARTE

APRENDIZ, 1869-1914

«Ainda que toda a Constantinopla se mobilizasse em fúria contra mim, a minha reputação não sofreria, pois não é na Turquia que estou empenhado em brilhar.»

C. S. GULBENKIAN

CAPÍTULO UM

ISTAMBUL, 1869

A história da vida de Calouste Gulbenkian é muitas coisas, mas não uma história de alguém que construiu fortuna do nada. Mais velho de três irmãos, Calouste nasceu em 1869, numa abastada família arménia otomana de Istambul, a capital do vasto Império Otomano. Para o pequeno Calouste, viajar entre a Europa e a Ásia teria sido rotina, pois a família estava instalada de ambos os lados do Bósforo. A casa da família e a primeira escola de Calouste, Aramyan-Uncuyan, ficavam do lado asiático da cidade, em Kadiköy[6]. Os escritórios e armazéns da família estavam sediados do lado europeu. As férias eram passadas nas Ilhas dos Príncipes, no adjacente Mar de Mármara.

Uma das primeiras imagens que temos de Calouste mostra-o de pé, numa posição algo rígida e em trajos europeus, junto de outras duas pessoas em vestuário tradicional da Mesopotâmia, que os sultões otomanos tinham conquistado no começo do século XVI. O par à direita são provavelmente familiares, talvez membros da família Kouyoumdjian de Bagdade. Os Gulbenkian eram comerciantes e cambistas, em comunicação regular com associados nas principais cidades otomanas, como Izmir, Beirute e Bagdade, e até de mais longe, em territórios que haviam antes sido otomanos, como a Bulgária e o Egipto, mas também Marselha e Manchester. Exportavam algodão em bruto, lã, pêlo de angorá e ópio do império, e importavam tecido de Manchester, artigos de vidro de França e querosene de Baku. Os escritórios Gulbenkian ocupavam várias salas no Büyük Valide Han, um vasto complexo de oficinas, armazéns e escritórios construído no século XVII que ainda se ergue entre o Grande Bazar e a Estação de Sirkeci, o terminal do Expresso do Oriente.

Embora vivessem várias centenas de milhares de arménios otomanos em Istambul (representando 15 por cento da população total), a elite mercantil da comunidade arménia (os amiras) era composta por umas meras 165 famílias[7]. Como era natural, os membros desta casta de mobilidade extraordinária casavam continuamente entre si. A mãe de Calouste, Dirouhi, já era uma Gulbenkian antes de casar com Sarkis Gulbenkian[8]. O irmão mais novo de Calouste viria a casar com uma Kouyoumdjian. Fosse qual fosse a natureza do relacionamento entre Calouste e o homem de kaffiyeh[*], é, no entanto, claro que tais visitantes dificilmente teriam parecido exóticos para o jovem Calouste, que crescia na grande casa da Rua Ibis Lorando.

Além destes arménios, na casa de Kadiköy também residiam turcos, gregos e talvez até um ou dois franceses. Era função deles ocuparem-se da lavagem da roupa, cozinhar as refeições, fazer café para Sarkis (ele só tinha de bater palmas para que lhe levassem uma chávena acabada de preparar) e levar e trazer Calouste da escola aos ombros. Embora estes criados não fossem membros da Igreja Arménia, era comum no período otomano que fiéis de diferentes credos cumprissem os dias sagrados uns dos outros.

Com a importante excepção da igreja paroquial, a escola era o único ambiente verdadeiramente segregado que Calouste teria conhecido naquela cidade imperial multiétnica. Aulas e serviços eram ministrados em arménio. Os Gulbenkian podiam escrever-se entre si em turco, mas usavam o alfabeto arménio quando o faziam (a combinação conferia uma segurança acrescida às suas comunicações). No entanto, a nível oficial, a comunidade arménia, ou millet, era identificada como sendo de segunda classe: isenta de algumas obrigações civis, como o serviço militar, mas sujeita a determinados impostos e restrições a que não estavam obrigados os súbditos não-arménios do sultão. Muitos dos amiras da cidade optavam por cidadania estrangeira para escaparem a estas restrições e beneficiarem de protecções especiais e isenções tributárias que eram alargadas a estrangeiros ao abrigo de convenções bilaterais, as chamadas «capitulações»[9].

Uma anedota de família regista a consciência que os amiras tinham de que, não obstante toda a sua riqueza, os modos alla franga (de estilo francês) e o trajar I˙ngilizhârî (de estilo inglês), continuavam a ser cidadãos de segunda classe. Reza essa história que, um dia, o criado que levava o café a Sarkis, ou kahveci, não apareceu quando o amo bateu palmas. Descobriu-se que o desgraçado serviçal adormecera no posto. Sarkis ordenou aos outros criados que o castigassem. Infelizmente, o criado morreu dos ferimentos, o que levou Sarkis a ter um acesso de fúria: «Vur dedik öldür demedik» (que em turco significa: «Disse-vos que o sovassem, não que o matassem»). A tirada a rimar entrou para a memória da família e era citada sempre que alguém perdia o sentido de perspectiva[10].

Teria a história sido engraçada se o servidor de café fosse arménio? É provável que não. Teria um bey ou um paxá turco — ou seja, alguém de classe alta — achado piada se a mesma coisa acontecesse na sua casa? É provável que não. Se tal coisa acontecesse, suspeita-se que apenas suscitaria uma leve irritação, sobretudo se o criado fosse bom a preparar café ao gosto do seu senhor, como era o servo de Sarkis. Porém, não seria decerto algo que merecesse tornar-se lendário na família.

Talvez a anedota fosse engraçada porque implicava uma espécie de inversão. Numa cidade extremamente estratificada como Istambul, havia abundância de hamals (moços de fretes) e de outras pessoas consideradas substituíveis pelos seus vizinhos abastados. Em contrapartida, notava-se claramente um certo tremor quando um arménio rico descartava um turco pobre.

Filhos do Senhor da Rosa

Os Arménios viviam em Istambul desde o século XI, vários séculos antes de chegarem os Otomanos. No entanto, os Gulbenkian eram de certa maneira recém-chegados. Os irmãos Sarkis e Serovpe tinham chegado por volta de 1850, vindos de uma cidade muito mais pequena na Anatólia Central: Talas. Embora não existam provas de que Calouste alguma vez lá tivesse ido, não haveria dúvidas no espírito da família de que Talas era a «terra». Os Gulbenkian eram os residentes mais prósperos de Talas, que contava com cerca de 800 lares arménios, 900 gregos e 500 turcos. Eram proprietários da maior casa (15 divisões), eram os maiores exportadores de jehri (uma planta colhida para fabricar corantes) e eram donos das lojas mais elegantes na «Pequena Alexandria», a rua comercial de Talas[11]. Construíram as duas escolas arménias e o ginásio da cidade, e pag

Seja o primeiro a receber histórias como esta