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O HOMEM DAS CASTANHAS

Søren Sveistrup  

0


Excerto

1

Folhas amarelas e vermelhas caem por entre a luz do Sol, contra o asfalto molhado que rasga a floresta como um rio escuro e malhado. Quando o carro-patrulha branco passa, rodopiam por breves instantes no ar antes de se colarem às valas pegajosas ao longo da estrada. Marius Larsen levanta o pé do acelerador e abranda na curva, lembrando-se de que tem de comunicar ao departamento de estradas do município que precisam de mandar um varredor. Se as folhas ficarem ali muito tempo, tornarão a estrada pouco segura, e isso pode custar a vida a alguém. Marius já o disse várias vezes antes. É polícia há quarenta e um anos, chefe de esquadra há dezassete, e todos os Outonos precisa de os lembrar da mesma coisa. Mas não será hoje, porque hoje tem de se concentrar na conversa.

Marius Larsen alterna entre frequências no rádio do carro, mas não consegue encontrar o que procura. Apenas notícias sobre Gorbachev e Reagan e especulações sobre a queda do muro em Berlim. Está perto, dizem. Pode estar a chegar uma nova era.

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Já sabia há muito tempo que aquela conversa ia ter de acontecer e, no entanto, não fora capaz de a enfrentar. Agora falta apenas uma semana para o momento em que a mulher pensa que ele se vai reformar, e chegou a hora de lhe contar a verdade. Que não consegue suportar deixar o trabalho. Que organizou as coisas de forma prática e adiou a decisão. Que de qualquer forma não estava pronto para ir para casa e sentar-se no sofá a ver a Roda da Sorte, apanhar as folhas caídas no jardim ou brincar com os netos.

Parece fácil quando imagina a conversa, mas Marius sabe que ela vai ficar triste. Vai ficar desiludida e vai levantar-se da mesa e pôr-se a esfregar o fogão na cozinha e, de costas viradas para ele, vai dizer que entende. Mas não entende. Então, quando a chamada foi transmitida pelo rádio, há dez minutos, ele informou a esquadra de que ia atendê-la, só para adiar um pouco mais a conversa. Normalmente, teria ficado irritado por ter de percorrer o longo caminho pelo meio da floresta até à quinta dos Ørum só para lhes dizer que têm de controlar melhor os animais. Em várias outras ocasiões, porcos ou vacas escaparam do cercado e invadiram os terrenos do vizinho até que Marius ou um dos seus homens vieram ordenar a Ørum que tratasse do assunto. Mas hoje isso não o incomodou. Pedira, obviamente, à esquadra que ligasse primeiro, tanto para a casa de Ørum como para o seu trabalho em part-time na estação do ferry, mas, quando não obtiveram resposta em nenhum dos lugares, fizera-se à estrada e dirigira-se para lá.

Marius encontra um canal com música dinamarquesa antiga. «Den Knaldrøde Gummibåd» ecoa pelo velho Ford Escort, e Marius aumenta o volume. Saboreia o Outono e a viagem. A floresta com as folhas amarelas, vermelhas e castanhas, misturadas com os verdes das folhas perenes. A época de caça que acaba de começar. Abre a janela, e o Sol derrama a sua luz malhada no caminho por entre os troncos. Por um momento, Marius esquece a sua idade.

A quinta está em silêncio quando chega. Marius sai e bate a porta do carro, e ao fazê-lo lembra-se de que há muito tempo não ia ali. A grande quinta parece negligenciada. As janelas do estábulo estão partidas, a tinta das paredes da casa está lascada, e o baloiço abandonado no relvado descuidado quase foi engolido pelos grandes castanheiros. Por toda a quinta há folhas e castanhas caídas no chão, e estalam sob os seus pés enquanto ele se dirige para a porta da frente e bate. Depois de bater à porta três vezes e de chamar por Ørum, Marius percebe que ninguém vai abrir. Também não vê sinais de vida, por isso pega num bloco de notas, escreve um bilhete e enfia-o na caixa de correio, enquanto um par de corvos sobrevoa a quinta e desaparece atrás do tractor parado em frente ao celeiro. Marius foi até ali e não conseguiu cumprir a sua missão, e agora tem de ir à estação de ferry para falar com Ørum. Mas a irritação não dura muito tempo. No caminho de regresso ao carro, tem uma ideia. Marius nunca costumava ter este tipo de ideias, portanto deve ter sido um acaso feliz ter ido ali em vez de ir para casa ter a conversa. Para acalmar os efeitos da conversa, vai oferecer à mulher uma viagem a Berlim. Podem passar lá uma semana, sim, ou pelo menos um fim-de-semana, assim que conseguir uma folga. Vai conduzir até lá, assinalar o avanço da história, a nova era, comer knödel com chucrute, como fizeram no passado, há muito tempo, quando foram acampar em Harzen com as crianças. Só quando está quase a chegar ao carro descobre por que motivo os corvos estão atrás do tractor. Estão a rondar algo branco, pálido e disforme, e, quando se aproxima, verifica que é um porco. Os olhos do animal estão mortos, mas o corpo estremece e agita-se, como se tentasse assustar os corvos que estão pousados a comer do grande buraco que tem na parte de trás da cabeça.

Marius abre a porta da frente. A entrada está escura, e sente o cheiro de humidade e mofo e algo mais que não consegue identificar.

— Ørum, é a polícia.

Não obtém resposta, mas ouve água a correr em alguma parte da casa e entra na cozinha. A rapariga é uma adolescente. Deve ter 16 ou 17 anos. O seu corpo ainda está sentado na cadeira junto à mesa, e o que resta do seu rosto destruído repousa na tigela de papas de aveia. No chão de linóleo do outro lado da mesa está outra figura sem vida. Também é um adolescente, um pouco mais velho, com uma grande ferida aberta no peito, e a parte de trás da sua cabeça inclina-se desajeitadamente sobre o fogão. Marius Larsen fica rígido. Já tinha visto pessoas mortas, mas nunca assim, e por um momento fica paralisado antes de tirar a arma de serviço do coldre.

— Ørum?

Marius avança, chamando, agora de pistola em punho. Continua a não obter resposta. Marius encontra a vítima seguinte na casa de banho, e desta vez tem de tapar a boca para conter um vómito. A água corre da torneira da banheira, que está cheia até ao bordo. Cai para o chão e para o ralo e mistura-se com o sangue. A mulher nua, que deve ser a mãe, está retorcida no chão. Um braço e uma perna estão separados do tronco. Mais tarde, o relatório da autópsia dirá que foi repetidamente atacada com um machado. Primeiro enquanto estava na banheira e depois quando tentou escapar e caiu no chão. Também constará que inicialmente tentou defender-se com as mãos e com os pés, que, por esse motivo estão fendidos. O seu rosto está irreconhecível porque o machado foi usado para esmagar o crânio.

Marius Larsen tenta afastar-se daquela visão, mas de repente detecta um leve movimento pelo canto do olho. Há uma figura parcialmente escondida debaixo da cortina do duche, caída num canto. Marius puxa lentamente a cortina. É um rapaz. Tem os cabelos desgrenhados e deve ter 10 ou 11 anos. Está caído sem vida no meio do sangue, mas uma ponta da cortina ainda lhe cobre a boca e vibra vigorosamente. Marius inclina-se rapidamente sobre ele, afasta a cortina, pega-lhe no braço sem vida e procura a pulsação. O rapaz tem cortes e arranhões nos braços e pernas, a T-shirt e as cuecas ensanguentadas e um machado caído ao lado da cabeça. Marius encontra a pulsação do rapaz e levanta-se apressadamente.

Na sala de estar, febril, encontra o telefone ao lado do cinzeiro cheio que está caído na alcatifa, mas, quando consegue ligar para a esquadra, já encontrou calma suficiente para comunicar a mensagem. Ambulância. Homens. Depressa. Não há vestígios do Ørum. Ponham-se a caminho. Agora! Quando desliga, a primeira coisa em que pensa é em voltar a correr para junto do rapaz, mas de repente lembra-se de que deve haver mais uma criança, porque o rapaz tem uma irmã gémea. Marius olha em volta e começa a dirigir-se para o corredor e para as escadas que dão para o primeiro andar. Quando passa pela cozinha e pela porta aberta da cave, pára de repente e olha para baixo. Há um som. Um passo ou um raspar, mas depois cala-se. Marius pega novamente na pistola. Abre a porta e desce cuidadosamente os degraus estreitos até os seus pés tocarem o piso de cimento. Primeiro, precisa de se habituar à escuridão e depois vê a porta da cave aberta ao fundo do corredor. O seu corpo hesita e diz-lhe que deveria parar ali. Devia esperar pela ambulância e pelos colegas, mas Marius pensa na rapariga. Quando se aproxima da porta, percebe que foi aberta com violência. Os encaixes e as dobradiças estão no chão, e Marius entra numa sala mal iluminada pelas janelas sujas na parte superior da cave. No entanto, percebe imediatamente a presença da pequena figura escondida debaixo de uma mesa, a um canto. Marius corre para lá, baixa a arma, agacha-se e espreita.

— Está tudo bem. Já acabou.

Não consegue ver o rosto da rapariga, apenas que ela está a tremer e a encolher-se mais para o canto, sem olhar para ele.

— Chamo-me Marius. Sou da polícia e estou aqui para te ajudar.

A rapariga continua sentada e aterrorizada, como se não o ouvisse, e, de repente, Marius presta atenção à sala. Olha em volta e, lentamente, percebe para que era usado aquele espaço. Marius sente-se nauseado. Então, vê as prateleiras de madeira tortas através da porta que dá para a sala adjacente. A visão fá-lo esquecer a rapariga e aproxima-se da soleira. Marius não consegue ver quantos estão ali, mas são mais do que consegue contar. Homens e mulheres feitos de castanhas. E também animais. Grandes e pequenos, infantis e assustadores, muitos deles inacabados e disformes. Marius olha para eles, muitos e diferentes, e as pequenas figuras nas prateleiras enchem-no de incerteza, enquanto o rapaz entra pela porta atrás dele.

Por uma fracção de segundos, Marius percebe que tem de se lembrar de pedir aos técnicos para investigarem se a porta da cave foi arrombada pelo lado de dentro ou pelo lado de fora. Por uma fração de segundos, percebe que algo terrível pode ter escapado, como os animais da cerca, mas, quando se vira para o rapaz, os pensamentos passam como nuvens pequenas e confusas no céu. Então o machado acerta-lhe no maxilar, e o mundo fica escuro.

Segunda-feira, 5 de Outubro, presente

2

A voz está por toda a parte, na escuridão. Sussurra suavemente e troça dela — agarra-a quando ela cai e fá-la rodopiar ao vento. Laura Kjær já não consegue ver. Já não consegue ouvir o sussurro das folhas das árvores nem sentir a relva fria debaixo dos pés. A única coisa que resta é a voz, que continua a sussurrar entre os golpes do pau. Pensa que, se parar de resistir, a voz pode parar, mas não pára. Continua, bem como os golpes, até que ela já não consegue mexer-se. Tarde demais, repara nas pontas aguçadas de um instrumento junto ao seu pulso e, antes de perder a consciência, ouve o som eléctrico da serra que é ligada e começa a cortar-lhe o osso.

Depois disso, não sabe quanto tempo esteve ausente. A escuridão ainda lá está. A voz também, e é como se estivesse à espera de que ela regressasse.

— Estás bem, Laura?

O tom é suave e frio, e a voz soa demasiado próxima do seu ouvido. Mas a voz não espera respostas. Por um momento, removeu o que estava a cobrir-lhe a boca, e Laura Kjær ouve-se a pedir e a implorar. Não compreende nada. É capaz de fazer qualquer coisa. Porquê ela — o que fez ela?

A voz diz que ela sabe bem. Curva-se, muito próxima, e sussurra-lhe ao ouvido, e ela percebe que ele esteve à espera daquele momento. Tem de se concentrar para ouvir as palavras. Compreende o que a voz diz, mas não consegue acreditar. A dor é demasiado grande, maior que todos os ferimentos juntos. Não pode ser isso. Não pode mesmo ser isso. Ela afasta de si as palavras como parte da loucura que a rodeia. Quer erguer-se e lutar, mas o seu corpo cede, e ela soluça histericamente. Já o sabia há algum tempo, mas ao mesmo tempo não sabia, e só quando a voz lho sussurra é que percebe que é verdade. Quer gritar o mais alto que pode, mas já sente o conteúdo do estômago a subir-lhe à garganta e, quando o pau lhe toca na face, perde todas as forças e mergulha novamente na escuridão.

Terça-feira, 6 de Outubro, presente

3

O dia começa a clarear lá fora, mas, quando Naia Thulin estende a mão e o puxa para dentro de si, ele ainda está a acordar muito lentamente. Ela puxa-o para dentro de si e começa a mover-se para a frente e para trás. Agarra-lhe os ombros, e as mãos dele despertam, mas lentamente e confusas.

— Ei, espera…

Ele ainda está meio adormecido, mas Naia não quer esperar. Era isto que queria quando abriu os olhos, e faz o movimento de forma mais insistente, deslizando para trás e para a frente com mais força enquanto apoia uma mão na parede. Nota que ele se sente envergonhado, e a cabeça dele bate na cabeceira da cama, e ela ouve o som da cabeceira da cama a bater na parede, mas não quer saber. Continua e nota que ele desiste e, quando atinge o orgasmo, crava as unhas no peito dele e sente a sua dor e prazer enquanto ambos ficam rígidos.

Por um momento, ela fica imóvel a ouvir o som do carro do lixo nas traseiras. Depois rola para o lado e levanta-se da cama antes de as mãos dele terminarem de lhe acariciar as costas.

— É melhor ires antes de ela acordar.

— Porquê? Ela gosta de me ter aqui.

— Vamos. Levanta-te.

— Só se vieres viver comigo.

Ela atira-lhe a T-shirt para a cara e desaparece para a casa de banho, enquanto ele se deixa cair sobre a almofada com um sorriso no rosto.

4

É a primeira terça-feira de Outubro. O Outono chegou tarde, mas hoje o céu sobre a cidade é uma cobertura baixa de nuvens cinzentas-escuras, e começa a chover com força quando Naia Thulin corre para fora do carro e por entre o trânsito. Embora ouça o toque do telemóvel, não leva a mão ao bolso para o atender. Tem a mão pousada nas costas da filha, para poder fazê-la avançar pelas pequenas abertas no meio do trânsito matinal. A manhã tem sido movimentada. Le passou a maior parte do tempo a falar do League of Legends, um jogo que é demasiado nova para conhecer, mas que conhece muito bem e tem como ídolo uma adolescente coreana chamada Park Su.

— Tens as botas de borracha para usares se forem ao parque. E, lembra-te, é o avô que te vem buscar, mas tens de atravessar a rua sozinha. Olha para a esquerda e depois para a direita…

— E depois olho para a esquerda outra vez e tenho de me lembrar de vestir o casaco para as pessoas verem os meus reflectores.

— Fica quieta para te apertar os atacadores.

Chegaram à frente da escola, onde fica o estacionamento das bicicletas, e Thulin curva-se, enquanto Le tenta ficar quieta, com as botas dentro de uma poça.

— Quando vamos viver com o Sebastian?

— Eu não disse que íamos viver com o Sebastian.

— Porque é que ele não está lá de manhã quando passou lá a noite?

— De manhã, os adultos têm muitas coisas a fazer, e o Sebastian tem de se despachar para ir para o trabalho.

— O Ramazan teve um irmão mais novo e agora tem 15 fotografias na árvore da família, e eu só tenho três.

Thulin lança um olhar breve à filha e amaldiçoa as árvores bonitas com troncos que a professora decora com folhas de Outono e afixa nas paredes da sala de aula para as crianças e pais poderem ver. Por outro lado, sente-se sempre grata quando Le, naturalmente, conta o avô como parte da família, apesar de, tecnicamente, não ser seu avô.

— O objectivo não é esse. E tu tens cinco fotografias, se contares com o periquito e o hámster.

— As árvores dos outros não têm animais.

— Não, as outras crianças não têm tanta sorte.

Le não responde, e Thulin levanta-se.

— É verdade que não somos muitos, mas temos uma boa vida, e isso é que importa. Ok?

— Então posso ter mais um periquito?

Thulin olha para ela, pensa onde a conversa começou e onde está agora e pergunta-se se a filha não será mais esperta do que ela pensa.

— Falamos disso noutra altura. Espera um pouco.

O telemóvel começou a tocar novamente, e sabe que, desta vez, tem de atender.

— Chego daqui a um quarto de hora.

— Não há pressa — diz a voz do outro lado, e ela reconhece um dos secretários de Nylander.

— O Nylander não vai poder comparecer à reunião desta manhã, por isso vai passar para terça da próxima semana. Mas ele pediu-me que lhe dissesse que quer que saia com o agente novo hoje, para ele se ir habituando enquanto cá está.

— Mãe, vou com o Ramazan para os tempos livres da manhã!

Thulin vê a filha a correr para o rapaz chamado Ramazan. Ela acompanha o resto da família síria, uma mulher e um homem, o homem com o novo bebé ao colo, e duas outras crianças, e para Thulin são uma família-modelo, como as que se vêem nas revistas femininas.

— Mas é a segunda vez que o Nylander cancela, e só demora cinco minutos. Onde é que ele está agora?

— Infelizmente, está a caminho da reunião para discutir o orçamento. Ele quer saber qual é o assunto da reunião.

Thulin pensa, por breves instantes, em dizer-lhe que os seus nove meses no Departamento de Crimes Pessoais, o chamado Departamento de Homicídios, foram tão emocionantes como visitar o Museu da Polícia. Que o trabalho é chato, que o nível tecnológico do departamento é tão impressionante como um Commodore 64 e que deseja progredir.

— São só pequenas coisas. Obrigada.

Ela desliga a chamada e acena para a filha, que vai a correr para a escola. Nota que a chuva que começou a cair se infiltra no seu casaco e, quando começa a avançar para a estrada, sente que não pode esperar até terça-feira para ter a reunião. Corre por entre os carros, mas, quando chega ao seu e abre a porta, tem a sensação súbita de que está a ser observada. Do outro lado da passadeira, através da fileira de carros de passageiros e camiões, vislumbra uma figura. Mas, quando os carros passam, a figura desapareceu. Thulin afasta a sensação e entra no carro.

5

Os átrios grandes da esquadra fazem os passos dos dois homens ecoarem quando se cruzam com dois assistentes criminais que vão na direcção contrária. O chefe do Departamento de Homicídios, Nylander, detesta este tipo de conversas, mas sabe que é provavelmente a única oportunidade que vai ter hoje, por isso recalca a humilhação e caminha a passo com o vice-director da polícia, enquanto as frases entediantes se sucedem.

— Nylander, temos de apertar o cinto. A situação é igual para todos os nossos departamentos.

— Eu pedi mais pessoal para…

— É uma questão de timing. Neste momento, o Ministério da Justiça está a dar prioridade a outros departamentos que não o seu. Expressaram a ambição de fazer do NC3 o melhor departamento de cibercrime da Europa, e por isso estão a reter os recursos de outros departamentos.

— Não deviam ignorar o meu departamento. Temos necessidade de aumentar o pessoal nos últimos…

— Eu não desisti, mas ao menos recebeu uma ajuda.

— Eu não recebi ajuda nenhuma. Um único investigador que vai estar aqui uns dois dias porque foi mandado para casa da Europol não entra para a contabilidade.

— Ele vai ficar mais algum tempo. Depende da situação. Mas o ministério podia igualmente ter cortado o financiamento, por isso, neste momento, o melhor que temos a fazer é focar-nos nos aspectos positivos. Ok?

O vice-director da polícia parou, virou-se para Nylander para dar ênfase às suas palavras, mas Nylander quer responder que não está bem porra nenhuma. Falta-lhe pessoal, e tinham-lhe prometido que o problema ia ser resolvido, mas, em vez disso, foi deixado para trás por causa da merda do NC3, a abreviatura do chamado National Cyber Crime Center. É uma palhaçada burocrática monumental ter de colaborar com um investigador rejeitado, que caiu em desgraça em Haia.

— Tens um momento? — Thulin apareceu no pano de fundo, e o vice-director da polícia aproveita a interrupção para entrar na sala de reuniões e fechar a porta atrás de si. Nylander olha para o lugar de onde ele desapareceu por um instante, antes de se afastar pelo mesmo caminho por onde veio.

— Agora não, mas tu também não o tens. Vai falar com os guardas sobre a chamada de Husum, leva o tipo da Europol contigo e põe-no a trabalhar.

— Mas em relação à…

— Não tenho tempo para a nossa conversa agora. Eu conheço bem as tuas qualidades, mas és a pessoa mais jovem que já pôs os pés neste departamento, portanto, não te quero a levantar o nariz para tentares ser líder de grupo ou o que quer que seja que queres discutir na reunião.

— Eu não quero ser líder de grupo. Preciso de uma recomendação para o NC3.

Nylander para e olha para ela.

— O NC3. O departamento de cibercrime…

— Eu sei muito bem que departamento é. Porquê?

— Porque acho que o trabalho do NC3 é interessante.

— Ao contrário do quê?

— Ao contrário de nada. Só quero…

— Ainda agora começaste. O NC3 não contrata pessoas que estão a tentar progredir na carreira, portanto, não faz sentido candidatares-te a nada.

— Foram eles que me convidaram a candidatar-me.

Nylander tenta esconder a sua surpresa, mas percebe imediatamente que ela está a dizer a verdade. Olha para a pequena figura parada à sua frente. Que idade terá? 29, 30, à volta disso? Um pequeno pássaro estranho que não parece nada de especial, e depois lembra-se de como também ele a subestimou, antes de a conhecer verdadeiramente. Na sua avaliação da equipa, classificara os investigadores do departamento como de categoria A e B, e, apesar da idade, Thulin foi um dos primeiros nomes que anotou na categoria A, que o departamento iria consolidar, juntamente com investigadores experientes como Jansen e Ricks. E Nylander chegara mesmo a pensar torná-la líder de grupo. Não era grande fã de investigadores do sexo feminino, mas ela era mais inteligente do que a maioria e resolvia os seus casos a um ritmo que fazia os investigadores experientes parecerem parados. Thulin provavelmente considerava o nível tecnológico do departamento como estando ao nível da idade da pedra, e, uma vez que ele partilhava a mesma opinião, sabia o quanto precisava de gente como ela para fazer o departamento andar para a frente. Por isso, em duas ocasiões, usara as suas conversas para a lembrar de que ainda era nova ali e para se certificar de que ela não se ia embora.

— Quem te convidou?

— O chefe, como é que se chama? Isak Wenger.

O rosto de Nylander ensombrou-se.

— Eu gostei de trabalhar aqui, mas quero enviar a candidatura até ao final da semana.

— Vou pensar no assunto.

— Podemos combinar para sexta-feira?

Nylander começou a afastar-se. Por um breve instante, sente o olhar dela fixo no seu pescoço e sabe que ela vai visitá-lo na sexta-feira para pedir a recomendação. Foi a isto que as coisas chegaram. O seu departamento tornou-se uma incubadora da elite, dos novos favoritos do ministério, o NC3. E, assim que entrar na reunião do orçamento do seu departamento, vai confirmar uma vez mais essa prioridade sob a forma de números e das suas limitações. No Natal, três anos antes, Nylander aceitara o cargo no Departamento de Homicídios, mas coisas tinham parado, e, se não acontecesse algo depressa, não seria a oportunidade de carreira que Nylander esperava.

6

Os limpa-pára-brisas afastam a massa de água. Quando o semáforo fica verde, o carro-patrulha desvia-se da fila e dos anúncios nos autocarros a hospitais privados que oferecem novos seios, botox e lipoaspirações e dirige-se para os subúrbios.

O rádio está ligado. A tagarelice dos locutores e as músicas pop mais recentes sobre sexo, traseiros e paixões são momentaneamente substituídas pelas notícias, com o locutor a dizer-nos que estamos na primeira terça-feira de Outubro e que, portanto, é a abertura do Parlamento. A notícia principal, não surpreendentemente, é sobre a ministra Rosa Hartung, que regressou às funções depois da tragédia com a sua filha, que foi seguida por todo o país, de respiração sustida, há quase um ano. Mas, antes de o locutor continuar, o estranho ao lado de Thulin baixa o som do rádio.

— Não tens uma tesoura ou algo do género?

— Não, não tenho nenhuma tesoura.

Thulin desvia o olhar do trânsito e olha para o homem sentado ao seu lado, que tenta abrir a embalagem de um telemóvel novo. Estava de pé, a fumar um cigarro perto do carro, quando ela desceu à garagem da esquadra. Alto, magro, mas também com um ar um pouco infeliz. Cabelo fino e molhado da chuva, ténis Nike gastos e encharcados, calças finas e largas, casaco curto que também parecia ter andado à chuva. O homem não estava vestido para o clima local, e Thulin pensou que devia ter saído de Haia com as roupas que tinha vestidas. Uma mala de viagem pequena e fechada ao seu lado contribuía para essa impressão. Thulin sabia que ele tinha aparecido na esquadra ontem, porque acabara de ouvir dois colegas a falarem dele quando fora buscar o café matinal ao refeitório. Um suposto agente de ligação, destacado para a sede da Europol, em Haia, que fora subitamente dispensado e mandado para Copenhaga porque tinha feito uma asneira qualquer. O que dera origem a comentários sarcásticos dos colegas, porque a relação da polícia dinamarquesa com a Europol já estava numa situação precária depois de um não dinamarquês à abolição de algumas reservas num referendo, anos antes.

Quando Thulin o encontrou na garagem, estava absorto nos seus pensamentos, e, quando ela se apresentou, limitou-se a estender-lhe a mão e a dizer «Hess». Não era muito falador. Normalmente, ela também não era, mas a conversa com Nylander correra como o previsto. Sentia-se confiante de que a sua presença no departamento seria em breve coisa do passado, e por isso não lhe fazia mal nenhum ser simpática para o novo colega, que estava a fazer o percurso inverso. Quando entraram no carro, descrevera o que sabia do caso, mas o tipo limitara-se a assentir, mostrando apenas o mínimo interesse. Ela calculou que teria entre 37 e 41 anos, e, com o cabelo puxado para o lado, fazia-lhe lembrar um actor, mas não se lembrava de qual. Tinha um anel no dedo, possivelmente uma aliança de casamento, mas o seu pensamento instintivo foi que seria divorciado ou pelo menos que estaria em processo de divórcio. O encontro inicial dera-lhe a impressão de que estava a falar com uma parede, mas, de qualquer forma, não era coisa que pudesse arruinar o seu humor, já que estava interessada na cooperação entre polícias, algo de que ele fazia parte.

— Então, quanto tempo vais ficar cá?

— Apenas alguns dias. Estou à espera de que me digam.

— Gostas de estar na Europol?

— Sim, é bom. O tempo lá é melhor.

— É verdade que o departamento de cibercrime deles recruta os hackers que apanham?

— Não sei, não sou desse departamento. Há problema se eu me ausentar por um instante depois de visitarmos o local do crime?

— Ausentar?

— É só uma hora. Tenho de ir buscar as chaves do meu apartamento.

— Claro.

— Obrigado.

— Mas estavas a viver em Haia?

— Sim, lá ou onde quer que fosse necessário.

— E onde é isso?

— Varia. Marselha, Génova, Amesterdão, Lisboa…

O homem concentra-se na embalagem do telemóvel, que lhe resiste, mas Thulin adivinha que a sua estadia pode ser mais longa. O homem tem algo de cosmopolita. Uma espécie de viajante sem bagagem, mas que já perdeu o deslumbramento com as grandes cidades e os céus distantes. Se é que alguma vez o teve.

— Então há quanto tempo partiste?

— Vai fazer cinco anos. Empresta-me isso.

Hess abre uma caneta que está no suporte para copos e espeta o bico da caneta na embalagem.

— Cinco anos?

Thulin fica surpreendida. A maioria dos agentes de ligação de quem ouviu falar tinha contratos de dois anos. Alguns prolongavam o contrato por um período igual e faziam quatro anos. Mas nunca ouvira falar de um agente de ligação que tivesse estado fora cinco anos.

— O tempo passa depressa.

— E foi por causa da reforma da polícia?

— O quê?

— Que partiste. Ouvi dizer que muitos deixaram o departamento porque estavam insatisfeitos com…

— Não, não foi por isso.

— Então foi porquê?

— Porque sim.

Ela olha para ele. Ele retribui o olhar, e ela estuda os seus olhos pela primeira vez. O olho esquerdo é verde, o direito é azul. Ele não é antipático quando lhe responde, mas estabelece o limite e não fala mais. Thulin faz pisca e vira para um bairro de vivendas. Se ele quer armar-se em machão com um passado misterioso, pois seja. A esquadra tem tipos como ele em quantidade suficiente para formarem uma equipa de futebol.

A casa é branca e bem cuidada, e tem garagem. Está situada num bairro residencial de Husum, com colinas verdejantes e fileiras arrumadas de caixas de correio à beira da estrada. É para aqui que vem viver a classe média quando a família nuclear é uma realidade e a economia está em baixa. Muita segurança e lombas na estrada, que garantem que a velocidade não excede os 30 quilómetros por hora. Trampolins nos jardins e restos de marcas de giz no asfalto molhado. Duas crianças em idade escolar com capacetes e reflectores passam de bicicleta debaixo de chuva enquanto Thulin vira e estaciona ao lado dos carros-patrulha e dos veículos dos técnicos. Alguns residentes protegidos por guarda-chuvas conversam entre si, um pouco atrás da barreira policial.

— Tenho de atender. — Menos de dois minutos antes, Hess introduzira um cartão sim no telemóvel e enviara uma mensagem, e a resposta já está a chegar.

— Tudo bem, fica à vontade.

Thulin sai para a chuva, e Hess fica sentado e atende o telefone em francês. Enquanto ela caminha para o parque com os tradicionais mosaicos de betão, descobre que pode ter encontrado outro motivo para se querer ir embora.

7

As vozes dos dois locutores do programa matinal ecoam pela grande e bonita villa em Ydre Østerbro, enquanto introduzem mais uma conversa acompanhada de canecas de café no sofá confortável no canto do estúdio.

— E hoje é a abertura da sessão do Parlamento e o início de um novo ano. É sempre um dia muito especial, mas hoje ainda mais para uma política em particular, a socialista Rosa Hartung, que perdeu a filha de 12 anos no dia 18 de Outubro do ano passado. Rosa Hartung esteve de licença desde que a filha…

Steen Hartung estende a mão e desliga o ecrã plano suspenso na parede ao lado do frigorífico. Recolhe os seus desenhos de arquitectura e os instrumentos de escrita do chão de madeira da grande cozinha inspirada no décor rural francês, onde as tinha deixado.

— Vamos lá, despacha-te. Temos de ir logo que a mãe sair.

O filho ainda está sentado à grande mesa de refeição, a escrever no livro de matemática, rodeado de restos do pequeno-almoço. Todas as terças-feiras, Gustav encontra-o ali pouco depois das nove e todas as terças-feiras Steen tem de lhe dizer que aquela não é hora de estar a fazer trabalhos de casa.

— Mas porque não posso ir sozinho de bicicleta?

— É terça-feira, e tens aula de ténis depois da escola, por isso vou-te buscar. Já arrumaste as tuas roupas?

— Arrumei.

A pequena au pair filipina entra e pousa um saco de desporto preparado, e Steen lança-lhe um olhar grato enquanto ela começa a arrumar.

— Obrigado, Alice. Vamos, Gustav.

— Todos os outros vão de bicicleta.

Pela janela, Steen vê um grande carro preto a aproximar-se da casa e a estacionar em cima das poças de água, lá fora.

— Pai, só hoje?

— Não, vamos fazer o mesmo de sempre. O carro já chegou. Onde está a tua mãe?

8

Steen está a subir as escadas para o andar de cima quando a chama. A casa centenária tem quase 400 metros quadrados, e conhece todos os cantos, pois foi ele que a renovou. Na altura em que a compraram e habitaram, era importante terem muito espaço, mas agora tornara-se grande demais. Era demasiado. Ele procura-a no quarto e na casa de banho, antes de descobrir que a porta ao lado está entreaberta. Hesita por um momento e depois empurra a porta e olha para dentro do quarto que foi em tempos da filha.

A mulher está de casaco vestido e deitada no colchão vazio da cama encostada à parede. Steen varre o quarto com o olhar. Olha para as paredes despidas e para as caixas de cartão que estão a um canto. Depois, volta a olhar para ela.

— O carro já chegou.

— Obrigada…

Ela faz um breve aceno com a cabeça e continua sentada. Steen dá mais um passo para dentro do quarto e sente que está frio. Só agora percebe que ela tem nas mãos uma T-shirt amarela.

— Estás bem?

A pergunta é estúpida, porque ela não parece bem.

— Abri a janela ontem e esqueci-me de a fechar, e só descobri há pouco.

Ele faz um aceno compreensivo com a cabeça, embora a sua explicação não responda à sua pergunta. Ao fundo do corredor, conseguem ouvir o filho a gritar que o Vogel chegou, mas nenhum dos dois reage.

— Já não me consigo lembrar do cheiro dela.

As suas mãos apertam o tecido amarelo da T-shirt, e parece procurar algo escondido entre as fibras do tecido.

— Eu tinha de tentar. Mas não está cá. Nem em nenhuma das outras.

Ele senta-se ao lado dela.

— Talvez não faça diferença. Talvez seja melhor assim.

— Porque seria melhor…? Isto não é o melhor.

Ele não responde e nota que ela se arrepende; a voz dela suaviza-se.

— Não sei se consigo fazer isto… parece errado.

— Não é errado. É a coisa certa a fazer. Foste tu mesma que mo disseste.

O filho volta a chamá-los.

— Ela ter-te-ia dito para o fazeres. Ela teria dito que era melhor assim. Diria que és muito boa mãe.

Rosa não responde. Por um momento, só olha para a T-shirt. Depois pega na mão dele, aperta-a e tenta sorrir.

— Ok, ótimo, até logo. — O conselheiro pessoal de Rosa Hartung interrompe o telefonema enquanto ela desce as escadas para o hall.

— Cheguei demasiado cedo? Devo pedir à casa real que adie a abertura para amanhã?

Rosa sorri ao ver a energia de Frederik Vogel e pensa que há um estranho contraste naquela casa. Quando Vogel está por perto, não há espaço para sentimentalismos.

— Não, já estou pronta.

— Ainda bem. Temos de rever o programa. Houve algumas questões — mas boas, outras previsíveis e triviais…

— Discutimos isso no carro. Gustav, lembra-te, hoje o pai vai-te buscar, e liga se houver alguma coisa. Está bem, querido?

— Eu sei.

O rapaz faz um aceno cansado, e Rosa faz-lhe uma festa no cabelo antes de Vogel lhe abrir a porta.

— Também deverá cumprimentar o novo motorista, e temos de discutir uma lista de reuniões para as negociações…

Steen olha pela janela da cozinha enquanto eles partem e tenta oferecer um sorriso encorajador à mulher quando ela cumprimenta o novo motorista do ministério e entra para o banco traseiro do carro. Quando o carro se afasta da casa, Steen sente alívio.

— Vamos ou não?

É o filho que pergunta, e Steen percebe que ele já está a vestir o casaco e a calçar as botas no hall.

— Sim, estou a ir.

Steen abre o frigorífico, enceta a embalagem de garrafas pequenas, destapa uma e despeja o conteúdo na boca. Sente o álcool queimar-lhe o esófago e descer para o estômago. Guarda o resto das garrafas em miniatura na mala, bate com a porta do frigorífico e pega nas chaves do carro, que estão em cima da mesa da cozinha.

9

Há algo na casa que não agrada a Thulin. A sensação começa a ocorrer-lhe quando, de luvas calçadas e com as protecções azuis postas nos sapatos, atravessa a entrada escura, onde os sapatos da família estão alinhados por baixo do bengaleiro com os casacos. Belas fotografias emolduradas com motivos florais adornam as paredes do hall, e, quando ela entra no quarto, este parece-lhe imediatamente feminino e inocente, todo em tons de branco, à excepção das persianas de pregas de tecido cor-de-rosa, que ainda estão fechadas.

— A vítima chama-se Laura Kjær, 37 anos, assistente numa clínica dentária no centro de Copenhaga. Parece que foi dormir e foi apanhada de surpresa. O seu filho de nove anos estava a dormir no quarto ao fundo do corredor, mas aparentemente não viu nem ouviu nada.

Thulin levanta-se e olha para a cama de casal, que foi usada só de um lado, enquanto é informada por um agente mais velho de uniforme. Um candeeiro de mesa-de-cabeceira foi derrubado e está caído no tapete branco de pêlos compridos.

— O rapaz acordou numa casa vazia e não conseguiu encontrar ninguém. Fez o pequeno-almoço, vestiu-se e ficou à espera da mãe, mas, quando ela não apareceu, foi ter com a vizinha. A vizinha veio à casa, encontrou-a vazia e ouviu um cão a ladrar no pátio, onde encontrou a vítima, e depois chamou-nos.

— O pai foi contactado?

Thulin passa pelo agente, lança um olhar breve ao quarto da criança e volta para o corredor com o agente.

— Segundo a mulher do vizinho, o pai morreu de cancro há alguns anos. A vítima conheceu um homem seis meses mais tarde, e foram viver juntos para a casa dela. O homem está numa feira em Sjælland. Telefonámos-lhe quando chegámos, e deverá estar aqui em breve.

Pela porta da casa de banho, Thulin vê três escovas de dentes eléctricas alinhadas, um par de chinelos no chão de azulejo e dois roupões pendurados. Sai do corredor e entra na cozinha, e daí para uma sala onde os técnicos, com os seus fatos brancos, procuram vestígios e impressões digitais com os seus equipamentos. Os móveis são típicos para o bairro onde a casa está situada. Design escandinavo, provavelmente do Ikea e do Ilva, três individuais vazios em cima da mesa, um pequeno bouquet de Outono com decorações numa jarra, almofadas no sofá e, na mesa da cozinha, junto ao lava-louça, um único prato fundo com restos de leite e de cornflakes que supõe ser do rapaz. Na sala de estar há uma moldura digital que mostra um fluxo contínuo de fotografias da pequena família para a poltrona vazia que está ao lado. A mãe, o rapaz e provavelmente o companheiro dela. Sorriem e parecem felizes. Laura Kjær é uma mulher bonita e magra, com longos cabelos ruivos, mas há uma certa vulnerabilidade nos seus olhos calorosos e empáticos. É uma casa agradável, mas, ainda assim, Thulin não gosta dela.

— Sinais de arrombamento?

— Não. Verificámos as janelas e portas. Parece que ela viu televisão e bebeu chá antes de se ir deitar.

Thulin examina o quadro da cozinha, mas só encontra um horário escolar, um calendário, o horário de funcionamento da piscina, uma promoção para o corte de árvores, um convite para uma festa de Dia das Bruxas na associação de proprietários e uma lembrança da data de um exame na secção pediátrica do Rigshospitalet. Normalmente, é nisto que Thulin é boa: a reparar nas pequenas coisas que podem ser importantes. Porque em tempos se habituou a isso. A chegar a casa, abrir a porta da entrada e detectar os sinais que lhe diziam se era um dia bom ou mau. Mas, neste caso, não há nada em que reparar. Apenas uma família nuclear e o idílio quotidiano. O tipo de coisa a que nunca diria sim, e por um momento tenta dizer a si própria que talvez não seja a casa que lhe desagrada.

— Então e computadores, tablets, telemóveis?

— Tanto quanto pudemos perceber, nada foi roubado, e o pessoal do Genz já embalou os equipamentos e já os enviou.

Thulin assente. É possível resolver a maior parte dos casos de violência e morte por essa via. Normalmente há mensagens de texto, informação do número que ligou, e-mails ou publicações no Facebook que sugerem por que motivo as coisas acabaram como acabaram, e ela já está ansiosa por deitar a mão a esse material.

— Que cheiro é este? Vómito?

Thulin deu-se subitamente conta do odor forte e desagradável que a seguiu por toda a casa. O agente mais velho faz uma expressão culpada, e ela nota, pela primeira vez, que ele está pálido.

— Peço desculpa. Acabo de sair de lá. Pensei que já me tinha habituado a isto… mas deixe-me indicar-lhe o caminho.

— Eu posso ir sozinha. Informe-me quando o parceiro da vítima chegar.

Ela abre a porta que dá para o jardim das traseiras, enquanto o agente assente com uma expressão grata.

10

O trampolim já viu melhores dias, e o mesmo é válido em relação à pequena estufa, situada à esquerda da porta do terraço. À direita, a relva molhada sobe por trás de um anexo de metal brilhante que será certamente muito prático, mas que não faz nada pela aparência da casa branca. Thulin avança até ao fundo do jardim. Do outro lado da cerca, projectores, agentes de uniforme, técnicos vestidos de branco e ela própria vasculham por entre as árvores e arbustos com folhas amarelas e vermelhas até que chegam a um parque infantil. Uma luz pisca repetidamente sob a chuva, junto à casa de brincar, e ao longe ela vê a figura enérgica de Genz, que regista os detalhes do local do crime com a sua máquina fotográfica, enquanto dirige os seus técnicos vestidos de branco.

— Até onde já chegaste?

Simon Genz ergue o olhar da máquina fotográfica. O seu olhar é sério, mas, quando a vê, esboça um ligeiro sorriso. Genz deve estar na casa dos 30, um tipo ágil que se diz que só naquele ano já correu cinco maratonas. Também é o chefe mais jovem no departamento forense da polícia, e Thulin aprendeu a conhecê-lo como uma das poucas pessoas a quem deve dar ouvidos. Sagaz, focado em detalhes e senhor de um juízo em que ela realmente confia. A única razão pela qual o mantém a uma certa distância é porque uma vez ele lhe perguntou quando iam fazer uma corrida, e isso nunca vai acontecer. Nos nove meses que Thulin passou no Departamento de Crimes Pessoais, Genz foi a única pessoa com quem quase desenvolveu uma relação, mas a coisa menos sexy que consegue imaginar é ter uma relação amorosa com um colega.

— Olá, Thulin. Não muito longe. Está a chover muito, e já passou muito tempo desde que o crime aconteceu.

— Disseram alguma coisa acerca da hora do crime?

— Ainda não. O médico-legista está mesmo a chegar. Mas a chuva começou um pouco antes da meia-noite, e suspeito que aconteceu por volta dessa hora. Se houve marcas óbvias no terreno, foram completamente apagadas, mas não vamos desistir. Queres vê-la?

— Sim, por favor.

A figura sem vida está sentada na relva, tapada com uma coberta branca pelo Departamento Forense. Está apoiada num dos dois postes que sustentam a varanda da casa de brincar, e a cena é quase pacífica, com os tons amarelos e vermelhos das trepadeiras que dominam a vegetação no pano de fundo. Genz afasta cuidadosamente a coberta e expõe a mulher. Está caída como uma boneca de trapos e despida, à excepção das cuecas e de uma camisa de noite, que em tempos foi bege, mas que agora está ensopada em água da chuva e manchas de sangue escuro. Thulin aproxima-se e agacha-se para ver melhor. Laura Kjær tem fita isoladora preta à volta da cabeça. Entra-lhe pela boca aberta e deu várias voltas na parte de trás da cabeça e no cabelo ruivo molhado. Um olho foi vazado, o que lhe permite ver para dentro da cavidade ocular, ao passo que o outro olha em frente. A pele despida e azulada está coberta de arranhões, golpes e marcas de pancadas, e os pés descalços estão destruídos e ensanguentados. As mãos estão enterradas num pequeno monte de folhas no seu colo, atadas com tiras de plástico imediatamente acima dos pulsos. Basta uma olhadela àquela forma para Thulin perceber por que motivo o agente mais velho não aguentou. Normalmente, não lhe faz confusão ver cadáveres. O trabalho no Departamento de Homicídios exige uma abordagem pouco sentimental à morte, e, se não se for capaz disso, não se tem lugar ali. Mas Thulin nunca vira ninguém tão maltratado como a mulher que está encostada ao poste da casa de brincar.

— Claro que temos de ouvir a opinião do médico-legista, mas, na minha opinião, alguns ferimentos indicam que a dada altura ela tentou fugir do perpetrador por entre as árvores. Ou para longe da casa ou para dentro dela. Mas estava muito escuro, e ela devia estar muito enfraquecida pela amputação, que provavelmente foi feita antes de ser trazida para a casa de brincar.

— Amputação?

— Segura aqui.

Genz passa-lhe a grande máquina com flash. Aproxima-se do corpo, agacha-se e usa o lápis para levantar um pouco os pulsos da mulher. A rigidez instalou-se, e os braços endurecidos seguem o gesto de Genz de forma mecânica, e Thulin vê agora que a mão direita de Laura Kjær não estava enterrada nas folhas, como pensava. O braço termina de forma grotesca abaixo do pulso, onde um golpe torto e irregular separou os ossos e tendões.

— Por agora, estamos a supor que deve ter acontecido aqui fora, porque não encontrámos vestígios de sangue na garagem nem na casa. Claro que pedi aos meus técnicos que examinassem a garagem com todo o cuidado, especialmente para procurar a fita, as tiras de plástico, ferramentas de jardinagem ou trabalho, mas até agora não temos resultados determinantes. Da mesma forma, também pomos a hipótese de ainda não termos encontrado a mão, mas continuaremos a procurar.

— Um cão pode ter fugido com ela.

É Hess, que entrou pelo jardim e pela cerca. Olha brevemente à sua volta, enquanto treme debaixo da chuva, e Genz parece surpreendido com ele. Por algum motivo, Thulin sente-se irritada com o comentário, apesar de saber que é possível que ele tenha razão.

— Genz, este é o Hess. Vais estar connosco alguns dias.

— Bom dia. Bem-vindo. — Genz prepara-se para o cumprimentar, mas Hess limita-se a acenar com a cabeça para a casa vizinha.

— Alguém ouviu alguma coisa? Vizinhos?

Um som trovejante aproxima-se, e o comboio passa subitamente nos carris molhados, na plataforma do outro lado do parque, e Genz tem de gritar a sua resposta.

— Não, tanto quanto sei, ninguém ouviu nada! O comboio não passa com muita frequência à noite, mas passam alguns comboios de mercadorias!

O som do comboio desaparece, e Genz olha novamente para Thulin.

— Eu gostava de ter muitas pistas para vocês, mas neste momento não há mais nada que possa dizer. Nada a não ser que nunca vi ninguém tão maltratado.

— O que é aquilo?

— O quê?

— Ali.

Thulin ainda está agachada junto ao corpo e agora aponta para algo que Genz tem de se virar para ver. Atrás da mulher morta há algo suspenso da viga que forma o chão da varanda da casa de brincar, algo que balança ao vento e que foi pendurado por um cordel. Genz levanta a mão e puxa o objeto, fazendo-o balançar para trás e para a frente. As duas castanhas estão empilhadas uma na outra. A de cima é mais pequena, e a de baixo é maior. A castanha da parte de cima tem dois buracos escavados na casca que formam olhos. Na castanha de baixo, estão espetados fósforos a fazer de braços e pernas. É uma figura simples, formada por duas castanhas e quatro fósforos, perfeitamente comum, mas, por um momento, o coração de Thulin sobressalta-se, sem que seja capaz de explicar porquê.

— Um boneco de castanhas. Algo que devamos investigar?

Hess lança-lhe um olhar inocente. O humor policial clássico também é popular na Europol, e Thulin não responde. Ela e Genz trocam olhares, e Genz é interrompido por um dos seus técnicos, que tem uma pergunta para ele. Hess leva a mão ao casaco, à procura do telemóvel que entretanto começou a tocar outra vez, e ao mesmo tempo um som chama-a da casa. É o agente que ficou maldisposto a fazer-lhe sinais para deixar o jardim. Ela levanta-se. Olha em volta para o parque infantil, rodeado por árvores com folhas cor de bronze, mas já não há ali mais nada para ver. Apenas baloiços molhados e paredes de escalada e uma pista de parkour que parece triste e abandonada, apesar da presença imponente dos agentes e técnicos, que caminham debaixo de chuva enquanto vasculham a área. Thulin volta a entrar na casa. Quando passa por Hess, ele está novamente de pé ao telefone e a falar em francês, ao mesmo tempo que outro comboio passa.

11

No carro do ministério a caminho do centro, Vogel revê o programa para aquele dia. Os ministros do governo vão reunir-se em Christiansborg e depois disso vão juntos à igreja do palácio para participarem no tradicional serviço religioso. Quando este terminar, Rosa deverá ir cumprimentar o seu pessoal no Ministério dos Assuntos Sociais, que está sediado no Holmens Kanal, em frente à Praça do Palácio de Christiansborg, e depois disso deve regressar a Christiansborg a tempo da abertura oficial da sessão do Parlamento.

O resto do dia também foi cuidadosamente planeado, mas Rosa sugere algumas correcções, que actualiza no calendário do seu iPhone. Não precisa dele porque a sua secretária toma nota de tudo por ela, mas Rosa prefere assim. Ajuda-a a estar a par dos detalhes, a manter os pés na realidade e a ter uma sensação de controlo. Especialmente hoje. Mas, quando o carro se aproxima do Parlamento, deixa de ouvir Vogel. As bandeiras da Dinamarca estão hasteadas na torre do edifício, e por toda a praça há carrinhas da imprensa, e ela olha para as figuras que se preparam para fazerem as suas coberturas protegidas por guarda-chuvas e iluminadas pelos flashes dos fotógrafos.

— Asger, vamos para a entrada das traseiras.

As palavras de Vogel são recebidas com um aceno do motorista, mas Rosa não aceita a sugestão.

— Não. Eu saio aqui.

Vogel vira-se para ela, surpreso, e o motorista fita-a pelo espelho retrovisor. Só agora ela repara que, apesar da sua tenra idade, a boca do homem tem uma expressão séria.

— Se não o fizer agora, eles vão ficar aqui o dia todo. Leve o carro para a frente da entrada e deixe-me sair ali.

— Rosa, tens a certeza?

— Absoluta.

*

O carro aproxima-se do passeio, e o motorista sai a correr e abre-lhe a porta traseira. Quando ela se levanta e começa a dirigir para a grande escadaria do Parlamento, tudo parece acontecer em câmara lenta: os fotógrafos viram-se, os jornalistas começam a avançar para ela, de boca aberta e com as palavras distorcidas.

— Rosa Hartung, um momento!

Rosa é atingida pela realidade. A multidão à sua frente explode, as máquinas fotográficas começam a disparar à frente do seu rosto, e as perguntas dos jornalistas atacam-na. Rosa sobe dois degraus das escadas e olha para a multidão e assimila tudo. As vozes, a luz e os microfones, um gorro azul, puxado sobre uma testa enrugada, um braço que acena, um par de olhos escuros que tentam segui-la da última fila.

— Hartung, tem alguma coisa a dizer?

— Qual é a sensação de estar de volta?

— Pode dar-nos dois minutos?

— Rosa Hartung, olhe para aqui!

Rosa sabe que foi o tema de várias reuniões da redacção nos últimos meses e especialmente nos últimos dias, mas ninguém contava com esta oportunidade, portanto, não estão preparados, e é por isso que Rosa o faz.

— Afastem-se! A ministra tem uma declaração a fazer.

É Vogel, que se pôs à frente dela para manter as pessoas à distância. A maioria obedece, e Rosa olha para os rostos, muitos dos quais já conhece.

— Como sabem, foram tempos difíceis. Tanto eu como a minha família estamos gratos pelo apoio que recebemos. Agora inicia-se um novo ano no Parlamento, e chegou a altura de olhar em frente. Quero agradecer ao primeiro-ministro pela sua confiança, e estou ansiosa para me envolver nas tarefas políticas que temos pela frente. Espero que respeitem isso. Obrigada.

Rosa Hartung sobe as escadas atrás de Vogel, que tenta abrir o caminho para ela.

— Mas, Hartung, está preparada para regressar?

— Como se sente!?

— Qual é a sensação de saber que o perpetrador não identificou os lugares onde a sua filha…

Vogel consegue fazê-la chegar até às grandes portas, e, quando o secretário está prestes a pegar-lhe na mão junto à porta, Rosa sente-se como se tivesse sido salva de um oceano profundo.

12

— Como pode ver, mudámos um pouco a decoração, porque recebemos sofás novos, mas se quiser os antigos de volta…

— Não, está bem assim. Gosto que sejam no ...