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O EVANGELHO DAS ENGUIAS

Patrik Svensson  

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Excerto

A enguia

Ora, o nascimento da enguia: ocorre na zona noroeste do Atlântico chamada de Mar dos Sargaços, um lugar que, em todos os sentidos, é adequado justamente à génese da enguia. Na verdade, o Mar dos Sargaços é um mar que, mais do que uma área marítima claramente definida, é um mar dentro do mar. Onde começa e onde acaba não é fácil dizer, uma vez que não se deixa capturar pela medida do mundo normal. Localiza-se ligeiramente a nordeste de Cuba e das Bahamas, a leste da costa norte-americana mas é, ao mesmo tempo, um lugar em movimento. Com o Mar dos Sargaços acontece o mesmo que com os sonhos, raramente é possível dizer com toda a certeza exactamente quando se entra ou quando se sai, só se sabe que lá se esteve.

Esta volatilidade deve-se ao facto de o Mar dos Sargaços ser um mar sem fronteiras terrestres, delimitado apenas por quatro poderosas correntes. A oeste, a vivificante Corrente do Golfo; a norte, a ramificação chamada de deriva do Atlântico Norte; a leste, a Corrente das Canárias e, a sul, a Corrente Equatorial do Norte. Com cinco milhões de quilómetros quadrados, o Mar dos Sargaços move-se como um redemoinho quente e lento, dentro deste círculo fechado de correntes. O que entra aqui, nem sempre sai facilmente.

A água é de um azul profundo e límpida, em algumas zonas atinge os sete mil metros de profundidade e, à superfície, flutuam enormes tapetes de algas castanhas e pegajosas. São chamadas de «Sargassum», ou sargaço, e deram o nome ao mar. Emaranhados de vários milhares de metros de comprimento de algas grossas cobrem a superfície da água e proporcionam vida e protecção a um sem-número de criaturas: pequenos animais invertebrados, peixes e alforrecas, tartarugas, camarões e caranguejos. Mais abaixo nas profundezas, prosperam outros tipos de algas marinhas e plantas. Uma vida agitada na escuridão, como uma floresta nocturna.

É aqui que a enguia-europeia, a Anguilla anguilla, nasce. Aqui acasalam, durante a Primavera, as enguias sexualmente maduras e aqui também põem e fecundam os seus ovos. Aqui, sob a protecção da escuridão profunda, surge uma pequena criatura semelhante a uma larva, com uma cabeça ligeiramente embaraçosa de tão pequena que é, e olhos mal desenvolvidos. É chamada de larva leptocéfala e tem um corpo parecido com uma folha de salgueiro, achatado e praticamente transparente, com apenas alguns milímetros de comprimento. Este é o primeiro estádio da enguia.

A folha de salgueiro transparente dá início à sua viagem. Escoltada pela Corrente do Golfo, é levada por milhares de quilómetros através do Atlântico, em direcção às costas europeias. É uma jornada que pode levar até três anos, e durante a qual a larva cresce devagar, milímetro a milímetro, como uma bolha a inchar lentamente e, quando ao fim de todo esse tempo, atinge os litorais europeus, sofre a sua primeira metamorfose e transforma-se em enguia-de-vidro. Este é o segundo estádio da enguia.

Tal como os seus «eus» passados parecidos com folhas de salgueiro, as enguias-de-vidro são seres quase totalmente transparentes, com seis ou sete centímetros de comprimento, esguias e sinuosas, límpidas como se nem a cor, nem o pecado, tivessem ainda entrado nos seus corpos. Parecem-se, como escreveu a bióloga marinha e autora Rachel Carson, com «varetas de vidro delgadas, mais curtas do que um dedo». São frágeis e aparentemente indefesas, e são consideradas uma iguaria, entre outros, pelos bascos.

Quando as enguias-de-vidro cheg

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