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O ERRO (OFF-CAMPUS 2)

Elle Kennedy  

0


Excerto

1

Logan

Abril

Desejar a namorada do melhor amigo é uma bosta.

Em primeiro lugar, há o factor desconforto. E é mesmo desconfortável. Não posso falar por todos os homens, mas tenho a certeza de que não há gajo nenhum que goste de sair do quarto e deparar com a miúda dos seus sonhos depois de ela acabar de passar a noite nos braços do seu melhor amigo.

Depois, há o elemento da auto-aversão. Este é garantido, porque é um bocado difícil não nos odiarmos quando temos fantasias com o amor da vida do nosso melhor amigo.

Neste momento, é o desconforto que está, definitivamente, a vencer. É preciso perceber: vivo numa casa com paredes muito finas, o que significa que consigo ouvir cada gemido rouco que se escapa da boca de Hannah. Cada arfar, cada suspiro. Cada pancada da cabeceira da cama contra a parede, enquanto outro tipo faz amor com a miúda em quem não consigo parar de pensar.

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Maravilhoso.

Estou na minha cama, deitado de barriga para cima e a olhar no tecto. Já nem sequer finjo percorrer a minha lista de músicas no iPod. Enfiei os auriculares, tencionando abafar os sons de Garrett e Hannah no outro quarto, mas ainda não carreguei no play. Suponho que me apetece torturar-me, esta noite.

Claro, eu não sou idiota. Sei que ela está apaixonada por Garrett. Vejo a maneira como olha para ele, vejo a maneira como estão juntos. Já namoram há seis meses, e nem mesmo eu, o pior amigo do planeta, posso negar que são perfeitos um para o outro.

E, que diabo, Garrett merece ser feliz. Finge-se de arrogante e convencido, mas a verdade é que é um santo. O melhor central com quem já joguei e a melhor pessoa que conheço, e estou suficientemente seguro do meu estatuto heterossexual para dizer que, se jogasse pela outra equipa? Não ia só para a cama com Garrett Graham, eu casava com ele.

É isso que torna as coisas um trilião de vezes mais difíceis. Nem sequer consigo odiar o tipo que anda com a miúda que eu quero. Não posso alimentar fantasias de vingança, porque não odeio Garrett. Nem um pouco, sequer.

Ouço o ranger de uma porta a abrir e passos no corredor, e rezo a Deus para que nem Garrett nem Hannah me venham bater à porta. O melhor é que nem abram a boca, já agora, porque ouvir as vozes deles, neste momento, só me vai deixar ainda mais lixado.

Por sorte, a sonora pancada na minha porta vem do meu outro colega de apartamento, Dean, que entra alegremente sem esperar por um convite.

— Festa na Omega Phi, esta noite. Alinhas?

Salto da cama mais depressa do que se conseguiria dizer patético, porque uma festa parece-me uma ideia absolutamente fantástica, neste momento. Embebedar-me é uma forma segura de me impedir de pensar em Hannah. Na verdade, não — eu quero apanhar uma piela e comer uma miúda. Dessa forma, se uma das actividades não me ajudar com o meu objectivo de não-pensar-na-Hannah, a outra pode servir como backup.

— Se alinho! — respondo, já à procura de uma camisa.

Enfio uma T-shirt limpa por cima da cabeça e ignoro a alfinetada de dor no meu braço esquerdo, que ainda me dói como o raio, do tremendo encontrão que levei no jogo da semana passada. Mas valeu a pena — pelo terceiro ano consecutivo, a equipa de hóquei de Briar assegurou outra vitória no Frozen Four. Suponho que o possamos considerar o perfeito hat-trick, e todos os jogadores, eu incluído, ainda continuamos a colher as recompensas de sermos tricampeões nacionais.

Dean, um dos meus colegas na defesa, diz que a nossa vitória nos assegura três vantagens: festas, louvor e rata com fartura.

É uma excelente avaliação da situação, já que tenho sido grande beneficiário das três coisas desde a nossa grande vitória.

— Vais ser o condutor da noite? — pergunto, enquanto enfio um blusão com capuz por cima da T-shirt e puxo o fecho para cima.

O meu amigo solta um ronco trocista.

— Estás a falar a sério?

Reviro os olhos.

— Pois. Onde é que eu tinha a cabeça?

A última vez que Dean Heyward-Di Laurentis esteve sóbrio numa festa foi nunca. O bacano bebe como um peixe e apanha mocas de cada vez que sai de casa, e, se alguém julga que isso afecta o seu desempenho no gelo, está muito enganado. É uma daquelas raras criaturas que conseguem andar na borga como o Robert Downey Jr. do passado e, mesmo assim, serem bem-sucedidas e adoradas como o Robert Downey Jr. do presente

— Não te preocupes, o Tuck conduz — diz-me Dean, referindo-se ao nosso outro colega, Tucker. — O maricas ainda está ressacado de ontem à noite. Diz que precisa de uma pausa.

Sim, não o posso censurar. Os treinos só recomeçam dentro de um par de semanas e temos estado todos a divertir-nos um pouco a mais para compensar. Mas é o que acontece quando se está com a excitação da vitória no Frozen Four. No ano passado, depois de ganharmos, fiquei bêbado durante duas semanas seguidas.

Não estou demasiado ansioso com a pré-temporada. Todo o trabalho de força e condicionamento que nos é exigido para ficarmos em forma é esgotante, mas torna-se ainda mais esgotante quando se está a fazer turnos de dez horas ao mesmo tempo. Mas não tenho opção. Os treinos de preparação são necessários para a próxima época, e o trabalho, bem, fiz uma promessa ao meu irmão, e por mais voltas que isso me dê ao estômago, não posso voltar atrás. O Jeff esfola-me vivo se não cumprir a minha parte do acordo.

Quando Dean e eu descemos, o nosso condutor de serviço já está à porta, à espera. Uma barba castanho-avermelhada devora todo o rosto de Tucker, dando-lhe um ar de lobisomem, mas ele está disposto a experimentar aquele novo look desde que uma miúda que conheceu numa festa, na semana passada, lhe disse que tinha cara de bebé.

— Sabes que essa barba de abominável homem das neves não te torna mais másculo, não sabes? — diz Dean, jovialmente, quando saímos pela porta.

Tuck encolhe os ombros.

— Por acaso, era mais um estilo rústico.

Rio-me.

— Bem, olha que não pareces nem uma coisa nem outra, Cara de Bebé. Pareces mais um cientista maluco.

Ele mostra-me o dedo médio enquanto se dirige para o lado do condutor da minha carrinha. Instalo-me no banco do passageiro enquanto Dean sobe para a caixa aberta, dizendo que quer apanhar ar fresco. Acho que, na verdade, só quer que o vento lhe despenteie o cabelo daquela maneira sensual que deixa as miúdas todas molhadas. Informação: o Dean é nauseantemente vaidoso. Mas também parece um modelo masculino, por isso talvez tenha o direito de ser vaidoso.

Tucker liga o motor e eu começo a tamborilar com os dedos nas coxas, ansioso por me ver a caminho. Muitos dos estudantes das irmandades irritam-me com as suas atitudes elitistas, mas não me importo de fazer vista grossa a isso porque… bem, porque se a organização de festas fosse um desporto olímpico, cada fraternidade e irmandade em Briar teria uma medalha de ouro.

Quando Tuck faz marcha-atrás para sair da estrada de acesso, o meu olhar desvia-se para o jipe de Garrett, todo polido no seu lugar de estacionamento, enquanto o dono passa a noite com a miúda mais fixe do planeta e…

E chega. Esta obsessão com Hannah Wells está mesmo a começar a dar-me a volta ao miolo.

Preciso de dar uma queca. ASAP.

Tucker está vincadamente calado durante o percurso para a Omega Phi. Também pode estar de sobrolho franzido, mas é difícil de perceber, tendo em conta de que alguém rapou todo o pêlo corporal do Hugh Jackman e o colou na cara do Tuck.

— Então, não dizes nada? — pergunto, num tom jovial.

O seu olhar desvia-se para me oferecer uma expressão azeda, depois volta para a estrada.

— Oh, vá lá. Isto é só por andarmos a meter-nos contigo por causa da barba? — pergunto, exasperado. — Porque isto vem no primeiro capítulo do Barbas para Totós, meu: se deixas crescer uma barba de lenhador, os teus amigos vão gozar contigo. Fim do capítulo.

— Não é por causa da barba — balbucia ele.

Franzo a testa.

— Pronto. Mas estás chateado com alguma coisa. — Quando ele não responde, insisto um pouco mais. — O que é que se passa contigo?

O seu olhar aborrecido encontra o meu.

— Comigo? Nada. Contigo? Tanta coisa que nem sei por onde começar. — Ele pragueja baixinho. — Tens de parar com essa merda, meu.

Agora estou genuinamente confuso, porque, tanto quanto sei, a única coisa que fiz nos últimos minutos foi estar ansioso pela festa.

Tucker repara na confusão no meu rosto e esclarece com um tom sombrio.

— Esta coisa com a Hannah.

Embora os meus ombros se contraiam, tento manter uma expressão vaga.

— Não faço ideia do que estás a falar.

Sim, optei por mentir. O que não é nada de novo para mim, na verdade. Acho que a única coisa que tenho feito desde que vim para Briar é mentir.

Claro que estou destinado ao NHL. Só quero jogar como profissional!

Adoro passar o Verão a trabalhar na oficina do meu pai. Dá uns trocos fixes!

Não estou apaixonado pela Hannah. É a namorada do meu melhor amigo!

Mentiras, mentiras e mais mentiras, porque, em cada um destes casos, a verdade é uma autêntica porcaria, e a última coisa que quero é que os meus amigos e colegas de equipa tenham pena de mim.

— Guarda as tretas para o Garrett — replica Tucker. — E já agora. Tens sorte por ele andar distraído com aquela bolha romântica em que vive, porque, se não fosse isso… De certeza que ia reparar na maneira como te tens andado a comportar.

— Sim, e que maneira é essa? — Não consigo evitar o tom nervoso, nem o defensivo contrair do maxilar. Detesto que Tucker saiba que gosto de Hannah. Detesto ainda mais que tenha decidido finalmente abordar o assunto, ao fim de todos estes meses. Porque é que não me deixa em paz? A situação já é suficientemente merdosa sem ter alguém a chamar-me a atenção para ela.

— A sério? Queres mesmo que te faça uma lista? Está bem. — Uma sombra negra flutua na frente dos seus olhos enquanto ele começa a recitar todas as coisas com as quais já me sinto tão culpado. — Sais da sala sempre que os dois entram. Escondes-te no quarto quando ela passa cá a noite. Se estão na mesma sala, ficas a olhar para ela quando pensas que ninguém está a ver. Fazes…

— Está bem — interrompo. — Já percebi.

— E nem me faças falar do teu putedo — resmunga Tucker. — Sempre foste promíscuo, mas, meu, foste para a cama com cinco miúdas esta semana.

— E?

— E é só quinta-feira. Cinco miúdas em quatro dias. Faz as contas, John

Oh, merda. Tratou-me pelo meu primeiro nome. Tucker só me chama John quando o deixo mesmo lixado.

Só que agora ele também me deixou mesmo lixado, por isso trato-o igualmente pelo nome próprio.

— E qual é o mal, John?

Sim, temos o mesmo nome. Se calhar devíamos fazer um juramento de sangue e formar um clube, ou coisa do género.

— Tenho vinte e um anos — continuo, irritado. — Estou autorizado a curtir. Não, eu devo mesmo andar a curtir, porque é isso que se faz na faculdade. Divertimo-nos, damos quecas e passamos um bom bocado antes de entrarmos no mundo real e a nossa vida se transformar numa merda.

— Queres mesmo fingir que andas com uma gaja por dia porque estás numa espécie de rito de passagem na experiência universitária? — Tucker abana a cabeça, depois solta um suspiro e suaviza o tom de voz. — Não é andando a foder a torto e a direito que vais conseguir tirá-la da cabeça, meu. Podes dormir com cem mulheres esta noite, que isso não faria qualquer diferença. Tens de aceitar que não vai acontecer com a Hannah e seguir em frente.

Ele tem toda a razão. Tenho a absoluta consciência de andar a chafurdar nas minhas próprias merdas e a comer miúdas a torto e a direito como distracção.

E estou igualmente consciente de que preciso de parar de tentar enfrascar-me para esquecer. De que preciso de abdicar daquela minúscula centelha de esperança de que alguma coisa poderá acontecer e aceitar simplesmente que não vai acontecer.

Mas talvez comece amanhã.

Esta noite? Vou cingir-me ao plano original. Embebedar-me. Dar uma queca. E que se lixe tudo o resto.

*

Grace

Quando entrei no primeiro ano da faculdade, era virgem.

Começo a pensar que ainda serei virgem quando sair.

Não que haja algum mal em se ser membro do clube da virgindade. Vou fazer dezanove anos, e então? Não sou propriamente uma velha solteirona, e de certeza que ninguém me vai cobrir de alcatrão e penas por ainda ter um hímen intacto.

Além disso, não é como se não tivesse tido oportunidades para perder a virgindade este ano. Desde que cheguei a Briar que a minha melhor amiga me tem arrastado para mais festas do que aquelas que consigo contar. Houve tipos que se meteram comigo, sim. Alguns tentaram abertamente seduzir-me. Um até me enviou uma fotografia do pénis com a legenda «É todo teu, fofa». O que foi… bom, foi super-nojento, mas tenho a certeza de que, se gostasse dele, talvez tivesse ficado, hum, lisonjeada pelo gesto? Talvez?

Mas nenhum desses tipos me atraiu. E, infelizmente, todos os que me chamaram a atenção nem sequer olharam para mim.

Até esta noite.

Quando a Ramona anunciou que íamos a uma festa numa fraternidade, não tive grandes esperanças de conhecer alguém. Parece-me que, sempre que vamos à Greek Row, a única coisa que os tipos das fraternidades fazem é tentar convencer-nos, a mim e à Ramona, a curtir. Mas esta noite conheci um rapaz de que até gostei.

Chama-se Matt, é giro e não parece idiota como os outros. Não só está mais sóbrio como consegue dizer frases inteiras, e não disse a expressão «os meus bros» nem uma vez desde que começámos a falar. Ou antes, desde que ele começou a falar. Eu não disse grande coisa, mas contento-me perfeitamente em ficar ali a ouvir, já que isso me dá tempo para admirar o seu maxilar cinzelado e a forma adorável como o cabelo louro encaracola por baixo das orelhas.

Para ser honesta, talvez seja melhor se eu não falar. Os tipos giros deixam-me nervosa. Nervosa ao ponto de ficar com a língua presa e o cérebro paralisado. Todos os meus filtros se desligam, e, de repente, estou a falar-lhes do dia em que fiz chichi nas calças no terceiro ano, numa visita de estudo a uma fábrica de xarope de ácer, ou de como tenho medo de fantoches e sofro de um ligeiro distúrbio obsessivo-compulsivo que pode levar-me a limpar o quarto de qualquer pessoa no momento em que ela desvia o olhar.

Por isso, sim, é melhor que me limite a sorrir e a acenar com a cabeça e a lançar o ocasional «ah, a sério?», para eles saberem que não sou muda. Só que, por vezes, isso não é possível, em especial quando o tipo giro em questão diz qualquer coisa que exige uma verdadeira resposta.

— Queres ir lá fora fumar isto? — Matt retira uma ganza do bolso da camisa e ergue-a na minha frente. — Eu acendia-a aqui, mas o Sr. Presidente expulsava-me da fraternidade, se o fizesse.

Abano a cabeça, pouco à vontade.

— Ah… não, obrigada.

— Não fumas erva?

— Não. Quero dizer, já fumei, mas não fumo muitas vezes. Faz-me sentir… tonta.

Ele sorri, e aparecem duas lindas covinhas na sua cara.

— Bem, é esse o objectivo da erva.

— Pois, eu sei. Mas também me deixa muito cansada. Ah, e sempre que fumo, acabo a pensar numa apresentação em Power Point que o meu pai me obrigou a ver quando tinha treze anos. Tinha um monte de estatísticas sobre os efeitos da erva sobre as células do cérebro, e como, ao contrário da crença popular, a marijuana é altamente viciante. E, depois de cada slide, ele olhava para mim e perguntava: queres perder as tuas células do cérebro, Grace? Queres?

Matt fica a olhar para mim e, na minha cabeça, há uma voz que grita: Abortar! Mas é demasiado tarde. O meu filtro interno voltou a desertar e as palavras não param de saltar da minha boca.

— Mas acho que isso nem é tão mau como o que a minha mãe fazia. Ela tenta ser fixe, por isso, quando eu tinha quinze anos, levou-me a um parque de estacionamento muito escuro, pegou numa ganza e anunciou que íamos fumá-la juntas. Parecia uma cena saída do The Wire… espera, não, eu nunca vi o The Wire. Tem a ver com drogas, não tem? Seja como for, fiquei ali sentada em pânico, convencida de que íamos ser presas, e durante o tempo todo a minha mãe ia-me perguntando como é que me estava a sentir e se estava a gostar.

Milagrosamente, os meus lábios param de se mover.

Mas os olhos de Matt já estão vidrados.

— Eeh, pois, ya. — Ele acena com a ganza. — Vou fumar isto. A gente vê-se.

Consigo conter o suspiro até ele desaparecer, depois solto o ar pesado nos meus pulmões e dou-me uma bofetada mental. Raios. Nem sei porque é que me dou ao trabalho de tentar conversar com rapazes. Começo cada conversa nervosa, com medo de fazer figuras tristes, e depois acabo por fazer figuras tristes porque estou nervosa. Condenada desde o princípio.

Com outro suspiro, desço as escadas e procuro Ramona no andar de baixo. A cozinha está cheia de barris de cerveja e rapazes da fraternidade. O mesmo na sala de jantar. A sala de estar está apinhada com rapazes muito ruidosos e muito bêbados e um mar de raparigas escassamente vestidas. Aplaudo-as pela sua coragem, porque o tempo lá fora está gelado e a porta principal esteve toda a noite a abrir e a fechar, fazendo com que o ar gelado circule pela casa. Quanto a mim, estou muito quentinha e confortável com as minhas calças de ganga skinny e a camisola justa.

Não vejo a minha amiga em lado nenhum. Com a música hip-hop a jorrar das colunas a um volume ensurdecedor, retiro o telemóvel da carteira para ver as horas e descubro que é perto da meia-noite. Mesmo ao fim de oito meses em Briar, ainda experimento uma minúscula sensação de júbilo de cada vez que fico acordada até depois das onze, que era a minha hora de deitar quando vivia em casa. O meu pai era muito rígido com a hora de recolher. Não, o meu pai era muito rígido em tudo. Duvido de que alguma vez tenha quebrado uma regra na sua vida, o que me faz perguntar como é que ele e a minha mãe conseguiram ficar casados tanto tempo. A minha mãe, de tipo espírito livre, é o total oposto do meu pai, antiquado e severo, mas, se calhar, isso só prova que aquela teoria da atracção dos opostos tem algum mérito.

— Gracie! — guincha uma voz feminina por cima da música, e, quando dou por mim, Ramona aparece e lança os braços à minha volta num forte abraço.

Quando recua, basta um olhar para os seus olhos brilhantes e faces afogueadas para saber que está embriagada. Está também tão escassamente vestida como a maior parte das outras raparigas na sala: a saia curta mal cobrindo a parte de cima das coxas, o top vermelho a revelar uma enorme quantidade de peito. E os saltos das suas botas de pele são tão altos que não percebo como consegue andar em cima deles. Mas está fabulosa, e atrai uma tonelada de olhares apreciativos, quando enlaça o braço no meu.

Tenho a certeza de que, quando nos vêem lado a lado, as pessoas coçam a cabeça e perguntam-se como podemos ser amigas. Por vezes, pergunto a mesma coisa a mim própria.

Na escola secundária, Ramona era a adorável miúda rebelde que fumava cigarros atrás do edifício, e eu era a miúda atinada que editava o jornal da escola e organizava todos os eventos de caridade. Se não fôssemos vizinhas, Ramona e eu provavelmente nunca teríamos sabido da existência uma da outra, mas o facto de caminharmos juntas para a escola todos os dias levou a uma amizade de conveniência que acabou por se tornar numa verdadeira afeição. Tão verdadeira que, quando andávamos à procura de faculdade, tivemos o cuidado de nos candidatarmos às mesmas escolas e, quando entrámos ambas em Briar, pedimos ao meu pai para falar com o gabinete de alojamento para nos atribuírem o mesmo quarto.

Mas embora a nossa amizade continue em força este ano, não posso negar que nos afastámos um pouco. Ramona anda obcecada em conhecer tipos e em ser popular. É a única coisa de que costuma falar, e, ultimamente, tenho percebido que ela… me aborrece.

Raios. Só de pensar isto fico a sentir-me uma amiga muito merdosa.

— Vi-te lá em cima com o Matt!! — sussurra-me ao ouvido. — Curtiram?

— Não — digo, pesarosa. — Acho que o afugentei.

— Oh, não. Falaste-lhe da tua fobia aos fantoches, não foi? — pergunta, antes de soltar um suspiro exagerado. — Miúda, tens de parar de revelar essas tuas cenas maradas logo ao início. A sério. Guarda isso tudo para depois, quando já namorares com o tipo e for mais difícil ele fugir.

Não consigo evitar uma gargalhada.

— Obrigada pelo conselho.

— Então, estás pronta para ir ou ficamos mais um bocado?

Olho de novo em volta da sala. O meu olhar aterra a um canto, onde duas miúdas de calças de ganga e soutien estão na marmelada e um dos tipos da Omega Phi filma a apaixonada interacção com o seu iPhone.

A visão faz-me conter um gemido. Dez dólares em como o vídeo vai acabar num daqueles sites de pornografia. E as pobres raparigas provavelmente só vão descobrir daqui a dez anos, quando uma delas estiver para casar com um senador e a imprensa começar a tentar desenterrar todo o tipo de cenas embaraçosas a seu respeito.

— Não me importo de ir já — admito.

— Tudo bem, acho que também quero ir.

Arqueio as sobrancelhas.

— Desde quando queres sair de uma festa antes da meia-noite?

Ela franze os lábios.

— Não vale a pena ficar. Já o agarraram antes de mim.

Não me dou ao trabalho de perguntar a quem se está a referir — só fala do mesmo tipo desde o primeiro dia do semestre.

Dean Heyward-Di Laurentis.

Ramona anda obcecada pelo lindo estudante mais velho desde que o viu num dos cafés perto do campus. Obcecada a sério. Arrasta-me para quase todos os jogos em casa só para ver Dean em acção. Tenho de admitir, o tipo é bom como o milho. E é também um grande jogador, de acordo com as conversas por aqui, mas, infelizmente para Ramona, Dean não sai com caloiras. Ou não vai para a cama com elas, o que é a única coisa que a minha amiga quer fazer com ele, de qualquer maneira. Ramona nunca saiu com a mesma pessoa durante mais de uma semana.

A única razão por que ela quis vir a esta festa hoje à noite foi por ter ouvido dizer que Dean também vinha. Mas, claramente, o tipo não brinca com essa regra do nada-de-caloiras. Não importa quantas vezes Ramona se atire, ele sai sempre da festa com outra pessoa qualquer.

— Deixa-me só ir à casa de banho primeiro — digo-lhe. — Encontramo-nos lá fora?

— Está bem, mas despacha-te. Disse ao Jasper que íamos embora e ele está à espera no carro.

Dispara para a porta principal, deixando-me com uma ponta de ressentimento. Que simpático da parte dela, perguntar-me se me queria ir embora quando já tinha tomado sozinha essa decisão.

Mas engulo a irritação, lembrando-me a mim mesma que Ramona sempre foi assim e que isso nunca me incomodou no passado. Honestamente, se não fosse ela a tomar decisões e a obrigar-me a sair da minha zona de conforto, eu teria passado toda a minha escola secundária no gabinete do jornal, a escrever a coluna de conselhos e a oferecer aos estudantes dicas de vida sem ter tido qualquer experiência de vida para oferecer.

Ainda assim… por vezes, gostava que Ramona, ao menos, me perguntasse o que eu penso de alguma coisa antes de decidir o que devíamos fazer.

A casa de banho do rés-do-chão tem uma longa fila, por isso ziguezagueio por entre a multidão e subo as escadas para o patamar onde Matt e eu tínhamos estado a conversar. Estou mesmo a chegar à casa de banho quando a porta se abre de rompante e uma bonita loira sai a bambolear-se.

Dá um pulo quando me vê, depois faz-me um sorrisinho empertigado e ajusta a bainha do vestido que só pode ser descrito como indecente. Consigo mesmo ver-lhe as cuecas cor-de-rosa.

Quando as minhas faces se ruborizam, desvio o olhar, embaraçada, esperando que ela chegue às escadas para levar a mão à maçaneta da porta. Mal lhe tinha tocado quando a porta se abre de novo e sai outra pessoa.

O meu olhar colide com os olhos mais azuis que alguma vez vi. Só preciso de um segundo para os reconhecer, e, quando isso acontece, o meu rosto fica ainda mais quente.

É John Logan.

Sim, John Logan. Mais conhecido como a estrela da defesa da equipa de hóquei. Sei isto não só porque Ramona tem andado a perseguir o seu amigo Dean há meses, mas porque o seu rosto sensual e cinzelado esteve na capa do jornal da faculdade na semana passada. Desde a vitória da equipa no campeonato, o jornal tem feito entrevistas a todos os jogadores, e, não vou mentir, a entrevista a Logan foi a única a que prestei qualquer atenção.

Porque o tipo é podre de bom.

Como a loira, parece sobressaltar-se quando me encontra no corredor, e, como a loira, recupera rapidamente da sua surpresa e faz-me um sorriso.

Depois puxa o fecho das calças.

Oh, meu Deus.

Não acredito que ele fez isto. O meu olhar desce involuntariamente para a sua zona púbica, mas ele também não parece incomodado com isso. Arqueia uma sobrancelha, encolhe os ombros e depois vai-se embora.

Uau. Okay.

Aquilo devia ter-me deixado enojada. Nem é preciso falar da óbvia queca na casa de banho. Só o gesto de puxar o fecho devia tê-lo transportado de imediato para o domínio do repelente.

Em vez disso, saber que ele acabou de curtir com aquela miúda na casa de banho suscita em mim uma vaga de inveja, porque não estava à espera.

Isto não significa que estou interessada em marmelada casual na casa de banho, mas…

Pronto. Estou a mentir. Estou interessada nisso mesmo. Pelo menos, com John Logan. A ideia das suas mãos e lábios em cima de mim faz com que um turbilhão de arrepios quentes me percorra a espinha.

Porque é que não posso curtir com tipos em casas de banho? Estou na faculdade, raios. Supostamente, devia estar a divertir-me e a cometer erros e a «descobrir-me». Mas, este ano, ainda não fiz a ponta de um corno. Tenho estado a viver por intermédio de Ramona, a ver a minha melhor amiga a correr riscos e a experimentar coisas novas, enquanto eu, a miúda atinada, fico de lado, agarrada à abordagem segura da vida que o meu pai me incutiu quando ainda andava de fraldas.

Bem, estou cansada de ser cautelosa. E estou farta de ser a miúda atinada. O semestre está quase a acabar. Faltam-me dois exames e um trabalho de Psicologia, mas quem diz que não posso fazer isso tudo e juntar um pouco de verdadeira diversão pelo meio?

Restam-me umas semanas para acabar o meu ano como caloira. Tenciono fazer bom uso delas.

2

Logan

Decidi acalmar-me um pouco com as borgas. E não é só porque ontem à noite fiquei tão bêbado que Tucker teve de me carregar ao ombro e levar-me para o meu quarto.

Embora esse tenha sido um importante factor no processo da tomada da decisão.

Por isso, hoje é sexta-feira e não só recusei um convite para uma festa de um dos tipos da equipa como tenho na mão o mesmo copo de uísque que servi há mais de uma hora. Também só fumei uma única passa da ganza que o Dean me está sempre a estender.

Esta noite ficámos em casa e atrevemo-nos a enfrentar o frio de Abril, enquanto nos instalamos juntos no pequeno jardim das traseiras. Dou uma passa no meu cigarro enquanto Dean, Tucker e o nosso colega de equipa, Mike Hollis, fazem circular a ganza, e estou apenas meio atento enquanto Dean recapitula a incrível sessão de sexo que teve na noite anterior. A minha mente não pára de se desviar para a minha própria incursão — a miúda da irmandade, sexy como o pecado, que me atraiu para uma das casas de banho do andar superior e fez de mim o que queria.

Podia estar bêbado, e a minha memória está um pouco difusa, mas lembro-me, definitivamente, de a ter feito vir com a mão. E lembro-me, definitivamente, de ter sido o receptor de uma bastante espectacular felação. Mas não tenciono contar a Tuck, já que, ao que parece, ele anda a controlar as minhas quecas. Sacana coscuvilheiro.

— Espera, volta atrás. Fizeste o quê?

A exclamação de Hollis arrasta-me de volta para o presente.

— Mandei-lhe uma foto da pila. — Dean diz isto como se fosse uma coisa que faz todos os dias.

Hollis fica a olhar para ele de boca aberta.

— A sério? Mandaste-lhe uma foto do teu material? O quê, como uma espécie de recordação marada?

— Não! É mais um convite para uma segunda ronda — responde Dean com um enorme sorriso.

— Como raio é que ela vai querer voltar a dormir contigo? — Hollis parece agora duvidar. — O mais provável é que te ache um idiota.

— Nem penses, meu. As gajas apreciam uma boa foto da pila. Acredita em mim.

Hollis comprime os lábios enquanto se esforça para não rir.

— Hã-hã. Claro.

Com um toque no cigarro, solto a cinza para a relva e dou outra passa.

— Só por curiosidade, o que é que constitui uma boa foto de pila? Quero dizer, estás a referir-te à luz? À pose?

Estou a ser sarcástico, mas Dean responde numa voz solene.

— Bem, o truque é manteres os tomates de fora.

Aquilo provoca uma sonora gargalhada de Tucker, que se engasga a meio do processo de beber um gole de cerveja.

— A sério — insiste Dean. — Os tomates não são fotogénicos. As mulheres não os querem ver.

Desta vez, Hollis não se consegue conter e desata a rir, a respiração a sair em nuvens brancas que ficam a pairar no ar nocturno.

– Pensaste muito nisto, meu. É um bocado triste.

Também me rio.

— Espera, é isso que fazes quando estás no teu quarto com a porta trancada? Tiras fotografias do teu pau?

— Oh, por favor, como se fosse o único que alguma vez tirei uma foto à pila.

— És o único — dizemos eu e Hollis em uníssono.

— Não me lixem. Vocês são uns mentirosos. — Dean percebe de súbito que Tucker não negou e não perde tempo a aproveitar o silêncio do nosso colega de equipa. — Ah! Eu sabia!

Arqueio uma sobrancelha e olho para Tuck, que pode ou não estar a corar por baixo dos doze centímetros de barba a crescer no seu rosto.

— A sério, meu? A sério?

Ele oferece um sorriso envergonhado.

— Lembras-te daquela rapariga com quem andei no ano passado? A Sheena? Bem, ela mandou-me uma fotografia das mamas. Disse que eu tinha de retribuir o favor.

Dean ficou de queixo caído.

— Pila em troca de tetas? Bacano, foste levado. Não são coisas nem remotamente comparáveis.

— Qual é o equivalente às mamas, então? — perguntou Hollis, curioso.

— Tomates — declara Dean, antes de aspirar profundamente a sua ganza. Solta um anel de fumo enquanto toda a gente se ri da sua observação.

— Acabaste de dizer que as mulheres não querem ver tomates — frisa Hollis.

— E não querem. Mas qualquer idiota sabe que a fotografia de uma pila requer um nu frontal em troca. — Ele revira os olhos. — É do mais vulgar bom senso.

Alguém pigarreia da porta de correr atrás de mim. Muito alto.

Dou meia-volta para deparar com Hannah ali parada, e o meu peito comprime-se com tanta força que me doem as costelas. Está de leggings e uma T-shirt de Garrett. O cabelo escuro e solto cai-lhe sobre um ombro. Está linda.

E, sim, sou um verdadeiro idiota, porque de repente estou a imaginá-la com uma das minhas T-shirts. Com o meu número estampado na frente.

Isto sou eu a aceitar e a seguir em frente.

— Hum… okay — diz ela, lentamente. — Só para verificar se não estou a perceber mal… vocês estão a falar de enviar fotografias dos vossos pénis a miúdas? — Os olhos dela dançam de divertimento enquanto percorrem o grupo.

Dean solta um ronco trocista.

— Claro que estamos. E não revires assim os olhos, Wellsy. Vais mesmo dizer-nos que o Garrett não te enviou fotografias da pila dele?

— Nem me vou dignar a responder a isso. — Ela suspira e encosta o antebraço à porta. — Nós vamos encomendar pizza. Também querem? Ah, e vamos pôr um filme na sala. É a vez de ele escolher, por isso de certeza que vai ser algum horrível filme de acção. Se quiserem ver connosco…

Tuck e Dean alinham de imediato, mas Hollis abana a cabeça com pena.

— Talvez para a próxima. O meu último exame é na segunda, por isso tenho de passar o resto do fim-de-semana a marrar.

— Iac. Bem, boa-sorte. — Ela sorri-lhe antes de se desencostar da porta e dar um passo atrás. — Se querem ter alguma coisa a dizer sobre a escolha da pizza, é melhor virem para dentro agora, se não vou carregá-la com cenas vegetarianas. Ah, e, que raio, Logan. — Os seus olhos verdes fixam-se em mim. — Pensei que tinhas dito que só fumavas em festas. Vou ter de te bater?

— Gostava de te ver a tentar, Wellsy. — O meu tom é repleto de humor, mas, assim que ela volta para dentro, o humor desvanece-se.

Estar por perto de Hannah é como levar um murro no estômago. E a ideia de ficar sentado na mesma sala que ela e Garrett, a comer pizza e a ver um filme, e vê-los todos juntinhos e apaixonados… é cem vezes pior do que aquele murro no estômago. É toda uma equipa de hóquei inteira a cair em cima de ti.

— Sabes que mais? Acho que, se calhar, vou àquela coisa do Danny, afinal. Dás-me boleia até às residências? — pergunto a Hollis. — Eu levava o carro, mas não sei se vou acabar por beber.

Dean apaga a ganza no cinzeiro em cima da tampa fechada da churrasqueira.

— Não vais acabar por beber, meu. O assistente da residência do Danny é um autêntico nazi. Patrulha os corredores e faz verificações de surpresa nos quartos. Não estou a gozar.

Não quero saber. A única coisa que sei é que não posso ficar aqui. Não consigo conviver com a Hannah e o Garrett. Pelo menos, enquanto não conseguir lidar com a minha estúpida paixão por ela.

— Então, não bebo. Só preciso de mudar de ambiente. Passei todo o dia em casa.

— Mudar de ambiente, hem? — A expressão sombria de Tucker diz-me que ele consegue ler o que estou a sentir.

— Sim — replico friamente. — Tens algum problema com isso?

Tuck não responde.

Cerro os dentes, balbucio um adeus e sigo Hollis até ao carro.

Quinze minutos mais tarde, estou no corredor do segundo andar da Fairview House, e o silêncio é tão sinistro que a minha disposição mergulha ainda mais fundo. Merda. Estou a ver que o assistente é mesmo duro. Não ouço um único ruído em nenhum dos quartos, e nem sequer posso ligar a Danny para descobrir se a festa foi cancelada, porque, na minha pressa de fugir de casa, esqueci-me de trazer o telemóvel.

Nunca tinha estado na residência de Danny, por isso deixo-me ficar no corredor por um momento, a tentar lembrar-me do número do quarto que ele me enviou há pouco. Duzentos e vinte? Ou era duzentos e trinta? Passo por cada uma das portas, a verificar os números, e o meu dilema resolve-se por si quando percebo que nem sequer existe um quarto duzentos e trinta.

Tem de ser o duzentos e vinte.

Bato com os nós dos dedos na porta. Quase de imediato, ouço passos do outro lado. Pelo me ...