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O ENIGMA DO QUARTO 622

Joël Dicker  

5


Excerto

Capítulo 1

Paixão à primeira vista

No início do Verão de 2018, quando me instalei no Palácio de Verbier, um hotel de prestígio nos Alpes suíços, estava longe de supor que dedicaria as minhas férias a resolver um crime cometido ali, muitos anos antes.

Aquela estada era o pretexto para uma desejada pausa, depois de dois pequenos cataclismos pessoais que agitaram a minha vida. Mas, antes de vos explicar o que aconteceu nesse Verão, tenho de me deter no facto que está na origem desta história: a morte do meu editor, Bernard de Fallois.

Bernard de Fallois era o homem a quem eu devia tudo.

Devia-lhe o meu sucesso e a minha fama.

Se me chamavam o escritor, era graças a ele.

Se me liam, era graças a ele.

Quando nos cruzámos pela primeira vez, eu nem sequer era um autor publicado: foi o Bernard que fez de mim um escritor lido no mundo inteiro. Com o seu ar de patriarca elegante, ele era uma das personalidades mais fortes da edição francesa. Para mim, foi um mestre e sobretudo, apesar da diferença de sessenta anos entre os dois, um grande amigo.

O Bernard morreu no mês de Janeiro de 2018, no seu nonagésimo segundo ano de vida, e reagi ao seu desaparecimento como teria feito qualquer outro escritor: começando a escrever um livro sobre ele. Lancei-me à tarefa de corpo e alma, fechado no escritório do meu apartamento, no número 13 da avenue Alfred-Bertrand, no bairro de Champel, em Genebra.

Como sempre acontece nos períodos de escrita, a única presença humana que tolerava era a da minha assistente, Denise. Uma verdadeira fada madrinha, sempre a velar por mim. Bem-disposta por natureza, organizava a minha agenda, fazia a triagem e classificação do correio enviado pelos leitores, além de reler e corrigir o que eu fosse escrevendo. Como se tudo isto não bastasse, também enchia o frigorífico e garantia que não me faltava café. Em suma, chamava a si as funções de médica de bordo, aparecendo no meu escritório como se embarcasse num navio após uma interminável travessia, e dava-me conselhos de saúde.

— Saia daqui! — ordenava-me, com delicadeza. — Vá dar uma volta, esticar as pernas, arejar a cabeça. Há horas que está aqui fechado!

— Já fui correr esta manhã, bem cedinho — relembrava-lhe.

— Você tem é de oxigenar o cérebro a intervalos regulares! — insistia ela.

Era quase um ritual quotidiano: acabava por lhe obedecer, saindo para a varanda. Enchia os pulmões com o ar frio de Fevereiro e depois, desafiando-a com olhar divertido, acendia um cigarro. Ela protestava logo e dizia-me, num tom de consternação:

— Sabe uma coisa, Joël. Não vou esvaziar esse cinzeiro. Assim, vai aperceber-se do quanto fuma.

Todos os dias eu me sujeitava à rotina monástica que é essencial ao meu processo de escrita. Divide-se em três etapas: levantar-me de madrugada, sair para correr e escrever até à noite. Foi, por isso, indirectamente graças àquele livro que conheci a Sloane, a minha nova vizinha do lado. Desde que se mudara, há pouco tempo, todos os habitantes do prédio falavam dela. Pela minha parte, ainda não tivera oportunidade de a encontrar. Até ao dia em que, regressando da sessão diária de exercício físico, me cruzei com ela pela primeira vez. Também estava a voltar da sua corrida e entrámos juntos no prédio. Compreendi logo a razão do burburinho unânime entre os vizinhos: tratava-se de uma jovem com um encanto desarmante. Limitámo-nos a um cumprimento polido, antes de desaparecermos cada qual no seu apartamento. Atrás da minha porta, permaneci num estado de beatitude. O encontro fora breve mas suficiente para que me apaixonasse um pouco.

Daí a nada, já só tinha uma ideia na cabeça: conhecer a Sloane.

Tentei uma primeira aproximação, a pretexto da corrida. A Sloane saía para correr quase todos os dias, mas sem horários regulares. Eu passava horas às voltas no parque Bertrand, fazendo o que podia para me cruzar com ela. Depois, do nada, via-a ao longe, a percorrer um caminho entre as árvores. Na maior parte das vezes, sentia-me incapaz de a acompanhar e preferia ficar à espera dela na entrada do nosso prédio. Escondendo a impaciência, junto às caixas do correio, fingia recolher as cartas, de cada vez que um vizinho ia ou vinha, até que ela finalmente chegava. A sorrir, passava à minha frente e eu ficava derretido, assim meio aparvalhado, de tal maneira que nem tinha tempo de pensar numa coisa inteligente para lhe dizer, antes de ela entrar em casa.

Foi a porteira do prédio, a senhora Armanda, que me deu informações sobre a Sloane: era pediatra, inglesa por parte da mãe, com um pai advogado, estivera casada dois anos, antes de a coisa dar para o torto. Trabalhava nos Hospitais Universitários de Genebra e alternava os horários, ora de dia, ora à noite, o que explicava a minha dificuldade em compreender as suas rotinas.

Depois do falhanço das corridas, decidi mudar de método: confiei à Denise a missão de espiar o corredor através do olho mágico. Só tinha de me avisar logo que a visse aparecer. Assim que ela gritava («Está a sair de casa!»), eu escapulia-me do escritório, todo produzido e perfumado, e aparecia de repente no patamar, como se se tratasse de uma coincidência. Mas os nossos contactos limitavam-se a uma saudação. Geralmente, ela descia pelas escadas, o que encurtava qualquer conversa. Eu ia atrás dela, mas para quê? Chegados à rua, ela desaparecia. Nas raras vezes em que apanhava o elevador, eu ficava calado e um silêncio incómodo instalava-se à nossa volta, na cabina. Num caso como no outro, voltava logo para cima, de mãos a abanar.

— Então? — perguntava a Denise.

— Então nada — resmungava eu.

— Oh, mas você é uma desgraça, Joël! Vá lá, faça um esforço!

— É que sou um bocado tímido — explicava-lhe.

— Não me venha com essas histórias, está bem? Não me parece nada tímido nos estúdios de televisão!

— Porque quem vai à televisão é o escritor. O Joël, esse, é diferente.

— A sério, Joël, não é assim tão complicado: basta tocar-lhe à porta, oferecer-lhe um ramo de flores e convidá-la para jantar. Está com vergonha de ir à florista, é isso? Quer que eu trate do assunto?

Houve, depois, uma noite em Abril, na ópera de Genebra, onde fui sozinho assistir a uma representação do Lago dos Cisnes. Eis que, durante um dos intervalos, ao sair para fumar um cigarro, dei de caras com ela. Trocámos umas palavras e então, quando já se ouvia o toque a chamar os espectadores para o reinício do espectáculo, ela propôs que fôssemos beber um copo a seguir ao ballet. Encontrámo-nos no Remor, um café ali perto. Foi assim que a Sloane entrou na minha vida.

A Sloane era bonita, divertida e inteligente. Sem dúvida uma das pessoas mais fascinantes que alguma vez conheci. Depois da nossa conversa no Remor, convidei-a para sair várias vezes. Fomos a concertos, ao cinema. Arrastei-a para a inauguração de uma improvável exposição de arte contemporânea, que nos provocou umas valentes gargalhadas e de onde escapámos para ir jantar a um vietnamita que ela adorava. Passámos várias noites em casa dela ou na minha, a ouvir ópera, a conversar e a refazer o mundo. Eu não conseguia impedir-me de a devorar com os olhos: diante dela, ficava em estado de adoração. O modo como ela piscava os olhos e ajustava as madeixas. O sorriso suave quando se sentia incomodada. A maneira como brincava com os dedos de unhas pintadas antes de me fazer uma pergunta. Tudo me agradava nela.

Já não conseguia pensar noutra coisa. Ao ponto de descurar momentaneamente a escrita do meu livro.

— Anda com a cabeça na lua, meu pobre Joël — dizia-me a Denise, ao constatar que eu já não escrevia sequer uma linha.

— A culpa é da Sloane — explicava eu, atrás do meu computador desligado.

Ansiava pelo momento de a reencontrar e prosseguir as nossas intermináveis conversas. Não me cansava de a ouvir contar episódios da sua vida, falar das suas paixões, desejos e ambições. Gostava dos filmes de Elia Kazan e de ópera.

Certa noite, depois de um jantar bem regado numa cervejaria do bairro de Pâquis, aterrámos na minha sala de estar. A Sloane contemplava, meio no gozo, os bibelôs e os livros nas estantes que cobriam a parede inteira. Deteve-se muito tempo diante de um quadro com uma vista de São Petersburgo, que passara do meu tio-avô para mim. Depois, demorou-se junto dos alcoóis fortes do meu bar. Gostou do esturjão em relevo que decorava a garrafa de vodca Beluga. Servi dois copos, com cubos de gelo. Acendi o rádio, sintonizado na estação de música clássica que costumava ouvir à noite. Ela lançou-me o desafio de identificar o compositor da peça musical que estava a ser transmitida naquele momento. Fácil: era Wagner. Foi então, com a Valquíria em fundo, que ela me beijou e me puxou para mais perto, murmurando «quero-te» ao meu ouvido.

A nossa relação duraria dois meses. Dois meses maravilhosos, mas no fim dos quais, pouco a pouco, o meu livro sobre o Bernard voltou a ter primazia. Comecei por aproveitar as noites em que a Sloane estava de banco no hospital para avançar na escrita. Mas, quanto mais avançava, mais me ia embrenhando no livro. Uma noite, ela propôs-me sair: pela primeira vez, disse que não. «Preciso de escrever», expliquei. De início, a Sloane foi muito compreensiva. Também ela tinha um trabalho que, por vezes, a retinha mais do que o previsto.

Depois, declinei uma segunda vez. E ela voltou a não levar a mal. Espero que me compreendam: eu adorava cada instante passado com a Sloane. Mas sentia que, com ela, era para sempre e que esses momentos de cumplicidade se repetiriam indefinidamente. A inspiração para um romance, pelo contrário, podia desaparecer pouco depois de ter chegado: ou a aproveitava logo ou nada feito.

A nossa primeira discussão aconteceu numa noite em meados de Junho, quando, depois do sexo, me levantei da cama e comecei a vestir-me.

— Onde é que vais? — perguntou.

— Para minha casa — respondi, como se fosse uma coisa perfeitamente natural.

— Não passas a noite comigo?

— Não, quero escrever.

— Ai é assim, dás uma queca e pões-te a andar?

— Preciso de avançar no meu romance — expliquei, meio envergonhado.

— Mas não podes passar o tempo todo a escrever, que diabo! — enervou-se ela. — Já fazes isso todos os dias, todas as noites, até no fim-de-semana! Está a ultrapassar os limites! Já nunca propões coisas para fazermos os dois.

Senti que a nossa relação corria o risco de murchar tão depressa quanto se havia inflamado. Tinha de agir. Foi assim que, alguns dias mais tarde, na véspera de partir para uma digressão de dez dias em Espanha, levei a Sloane a jantar ao seu restaurante preferido, o japonês do Hotel des Bergues, cuja esplanada ficava no terraço do edifício, com uma vista de cortar a respiração para a baía de Genebra. Foi uma noite de sonho. Prometi à Sloane que passaria a escrever menos e a dedicar-me mais a «nós», repetindo-lhe uma e outra vez o quanto ela significava para mim. Esboçámos até um projecto de férias, em Agosto, algures na Itália, país de que ambos gostávamos particularmente. Seria na Toscânia ou na Apúlia? Decidiríamos isso quando eu voltasse de Espanha.

Continuámos à mesa até ao fecho do restaurante, já perto da uma da manhã. A noite, naquele início de Verão, estava quente. Durante todo o jantar, tive a estranha sensação de que a Sloane esperava qualquer coisa de mim. E eis que, no momento de nos irmos embora, quando estava a levantar-me da cadeira e os empregados já passavam a esfregona no chão à nossa volta, a Sloane me diz:

— Esqueceste-te, não foi?

— Esqueci-me do quê?

— Hoje era o meu aniversário…

Ao ver o meu ar aterrado, compreendeu que tinha razão. Foi-se embora, furiosa. Tentei retê-la, balbuciando desculpas, mas ela apanhou o único táxi disponível à frente do hotel, deixando-me sozinho junto à porta, como o imbecil que eu era, sob o olhar trocista dos arrumadores. No tempo que demorei a ir buscar o carro e dirigir-me ao número 13 da avenue Alfred-Bertrand, a Sloane já tinha voltado para sua casa, desligara o telemóvel e recusava-se a abrir a porta. Parti no dia seguinte para Madrid e, durante toda a minha estada por lá, as muitas mensagens e e-mails que lhe enviei ficaram sem resposta. Não soube nada dela.

Voltei a Genebra na manhã de sexta-feira, 22 de Junho, para descobrir que a Sloane rompera comigo.

Foi a senhora Armanda, a porteira, que me transmitiu a mensagem. Veio ter comigo assim que cheguei ao prédio:

— Tem aqui uma carta para si — disse-me.

— Para mim?

— É da parte da sua vizinha. Ela não quis metê-la na caixa do correio por causa da sua assistente, que controla a correspondência.

Abri imediatamente o envelope. Encontrei lá dentro apenas estas linhas:

Joël,

Não vai dar

Até um dia.

Sloane

Estas palavras atingiram-me em cheio no coração. Cabisbaixo, subi para o meu apartamento. Esperava que pelo menos a Denise conseguisse animar-me nos dias seguintes. Denise, a simpática mulher abandonada pelo marido, que a trocou por outra, verdadeiro ícone da solidão moderna. Não há nada melhor, para nos sentirmos menos sós, do que encontrar alguém ainda mais solitário! Ao entrar em casa, porém, deparou-se-me uma Denise que parecia pronta a ir embora. Ainda nem sequer era meio-dia.

— Denise? Onde é que vai? — perguntei-lhe em jeito de saudação.

— Bom dia, Joël, eu avisei que saía cedo hoje. Tenho voo às três da tarde.

— Tem voo?

— Não me diga que se esqueceu! Falámos disto antes da sua partida para Espanha. Vou passar quinze dias a Corfu, com o Rick.

O Rick era um tipo que a Denise conhecera através da Internet. De facto, nós tínhamos falado das férias dela. Uma questão que varri completamente da cabeça.

— A Sloane largou-me — anunciei.

— Eu sei, lamento imenso.

— Como assim, sabe?

— A porteira abriu a carta que a Sloane lhe deixou e contou-me tudo. Não quis dizer-lhe enquanto estava em Madrid.

— E ia partir de viagem, ainda assim? — perguntei.

— Joël, não vou cancelar as minhas férias só porque a sua namoradinha lhe deu com os pés! Além disso, tenho a certeza de que vai arranjar outra em menos de nada. O que não falta são mulheres a fazerem-lhe olhinhos. Pronto, voltamos a ver-nos daqui a quinze dias. Passa a correr, é um instante! E, depois, eu preparei tudo, fui às compras. Espreite!

A Denise levou-me rapidamente para a cozinha. Sabendo da minha ruptura com a Sloane, antecipara a minha reacção: o mais certo era ficar fechado em casa. Visivelmente preocupada com a possibilidade de eu não me alimentar devidamente durante a sua ausência, fizera provisões impressionantes. Das prateleiras da despensa ao congelador, havia comida por todo o lado.

E, então, lá se foi. Quanto a mim, fiquei absolutamente só na cozinha. Fiz um café e instalei-me no longo balcão em mármore negro, atrás do qual se alinhavam cadeiras altas, todas desesperantemente vazias. A cozinha tinha espaço para dez pessoas, mas agora estava apenas por minha conta. Arrastei-me até ao escritório, onde passei muito tempo a olhar para fotografias em que aparecia ao lado da Sloane. Peguei num cartão em papel Bristol e escrevi a palavra Sloane, seguida da data do dia terrível em que ela me deixou, acrescentando: 22/6: um dia para esquecer. Mas era impossível arrancar a Sloane dos meus pensamentos. Tudo me conduzia a ela. Até o sofá da sala, onde acabei por me espojar, me lembrava como, alguns meses antes, naquele mesmo lugar, sobre aquele mesmo tecido, começara a mais extraordinária das relações amorosas, uma relação que eu viria a destruir inapelavelmente.

Tive de me conter para não ir bater à porta do apartamento da Sloane, ou para não lhe telefonar. Mas ao início da noite, não aguentando mais, fui para a varanda e pus-me a fumar, cigarro atrás de cigarro, na esperança de que a Sloane também saísse e eu pudesse fazer com que «tropeçássemos» um no outro. A senhora Armanda, que me viu lá de baixo, quando foi passear o cão, e no regresso, uma hora mais tarde, me encontrou ainda na varanda, gritou da entrada do prédio: «Não vale a pena ficar à espera, Joël. Ela não está cá. Partiu de férias.»

Voltei para o escritório. Senti a necessidade de me ir embora. Tinha vontade de me afastar uns tempos de Genebra, para me desfazer das memórias da Sloane. Precisava de calma e de serenidade. Foi nesse momento que vi, entre os papéis espalhados na minha mesa, numa das notas sobre o Bernard, a referência a Verbier. Ele adorava ir para lá. A ideia de uma breve temporada em Verbier, aproveitando a quietude dos Alpes para me recentrar, seduziu-me logo. Liguei o computador e acedi à Internet: fui rapidamente dar à página do Palácio de Verbier, um hotel mítico, cujas fotografias, desfilando à minha frente num ápice, foram mais do que suficientes para me convencerem: o terraço cheio de sol; a piscina com hidromassagem, dominando paisagens sumptuosas; o bar com ambiente s

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