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O DIA EM QUE PERDEMOS A CABEçA

Javier Castillo  

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Excerto

Capítulo 2

26 de Dezembro de 2013. Boston

Intensificaram-se os passos e a agitação lá fora. «Já aí vêm», pensou o prisioneiro. No interior do quarto ouvia-se ao fundo o que eles diziam no exterior.

— Está nesta cela? — perguntou uma voz grave do outro lado da porta.

— Sim, senhor director — sussurrou outra voz.

— Há quanto tempo está aqui? Alguém o visitou? — perguntou de novo a voz grave.

— Desde ontem de manhã, senhor director, tal como me ordenou, não foram permitidas visitas. Os jornalistas impacientam-se e querem saber tudo. Hoje de manhã uma jornalista tentou fazer-se passar por familiar para ir lá dentro vê-lo e falar com ele. Passou por todos os controlos até chegar a esta porta, onde eu próprio a expulsei. Já tomámos medidas para que isso não volte a suceder. Os vigilantes do centro foram chamados para explicarem o que aconteceu e estão neste momento a prestar declarações — respondeu a segunda voz.

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— Despeçam todos os que a deixaram passar. Além disso, quero uma lista com os nomes deles. Encarregar-me-ei pessoalmente de que não voltam a trabalhar num centro psiquiátrico para o resto da vida — respondeu, taxativa, a voz grave, em tom de comando. — Quanto a si, muito obrigado. Fez um bom trabalho. Pode retirar-se — acrescentou.

— Obrigado, senhor director, às suas ordens — respondeu a segunda voz. Depois daquelas palavras, ouviram-se uns passos que se afastavam da porta.

A partir da obscuridade do interior, a única luz que se percebia era a da soleira por baixo da porta, onde agora se podiam ver as duas sombras dos pés de quem estava do outro lado.

«Aí vem», pensou o prisioneiro. Nesse momento, o ambiente ficou em silêncio, como se o vazio se tivesse apoderado do quarto e houvesse absorvido o som.

De repente, a escuridão absoluta do interior cindiu-se com uma luz ofuscante, permitindo ver o prisioneiro, que se encontrava enroscado no chão e olhava para o director, sorrindo de modo desembaraçado. O prisioneiro vestia o uniforme branco do centro psiquiátrico e tinha a pele pálida e umas amplas e profundas olheiras. O seu cabelo era castanho-escuro e, embora o seu aspecto actual parecesse algo abatido, aquele olhar, com os seus olhos azuis, surpreendia pela sua beleza. As íris haviam-se contraído tanto com a mudança de luz que só se percebia o azul intenso daqueles olhos. O prisioneiro apertava os joelhos com os braços num canto da cela e permaneceu imóvel, apesar da expressão ameaçadora do director. O quarto branco estava acolchoado e fora concebido para os pacientes e doentes mentais mais perigosos ou que tivessem tendência para se automutilarem, e, embora até agora ele não tivesse mostrado sinais de automutilação, o director optara por proteger o paciente mais mediático da sua carreira como psicólogo.

Assim que soubera que o seu centro seria o destino temporário do «decapitador», como lhe haviam chamado na imprensa, reunira todo o pessoal do centro na cantina e explicara durante uma palestra de meia-hora a importância que tinha para todo aquele complexo psiquiátrico o tratamento, os cuidados e as precauções que se deviam levar a cabo com o novo inquilino temporário.

— Lembrem-se: enquanto a avaliação psicológica durar, teremos a imprensa à porta do centro todos os dias. Irão tentar entrar por todos os meios possíveis. Tentar conseguir uma entrevista com algum de vós ou com o próprio «decapitador». Procurarão comprar-vos, com dinheiro, viagens, qualquer coisa. Só vos faço uma advertência: uma viagem ou o dinheiro que vos ofereçam só vos irá durar vários dias, várias semanas ou até vários meses; em troca, tereis de procurar trabalho para toda a vida. Se algum de vós comentar algo na imprensa acerca do que acontece dentro do centro ou sobre o estado do novo inquilino, eu próprio me encarregarei de que não encontre trabalho em nenhum outro centro psiquiátrico — resumiu o director no fim da palestra.

O director sabia perfeitamente manejar as subtilezas da linguagem e os medos das pessoas e aproveitava a sua situação de poder no centro para manobrar o pessoal a seu bel-prazer.

Ficou a olhar fixamente o prisioneiro nos olhos, o qual continuava a oferecer-lhe um sorriso e o observava sem pestanejar. Durante um segundo, o prisioneiro sorriu mais, e aquele perfeito sorriso de dentes brancos surpreendeu-o. De certo modo, e apesar do seu aspecto pálido, o prisioneiro era atraente. Ao director fazia lembrar Tom, um antigo colega da faculdade com quem costumava estudar. Durante os anos de estudo na Faculdade de Psicologia, ambos partilhavam apontamentos, festas e mulheres. O director surpreendia-se com a facilidade com que Tom conseguia encontros com raparigas na universidade. Com um sorriso, um olhar e a sua descarada maneira de ser, Tom flirtava com raparigas que acabara de conhecer e daí a poucos minutos voltava com um post-it que trazia um nome e um número de telefone.

O prisioneiro tinha as pontas das unhas sujas, com restos de terra, e os nós dos dedos esfolados. Apresentava um ou outro arranhão nos braços e na cara. O director mirou-o de novo fixamente nos olhos. «Que tipo de pessoa decapita outra e caminha tranquilamente pela rua?», pensou o director. O olhar do prisioneiro desconcertava-o.

— Muito bem, levanta-te — ordenou.

O prisioneiro sentou-se devagar, sem desviar o olhar.

— Tenho aqui o teu processo — disse-lhe ele. — São mais de cento e cinquenta páginas. O centro de investigação da polícia elaborou um dossiê descritivo das doze horas posteriores à tua detenção. Interrogaram mais de trinta pessoas da zona em que te viram a deambular nu às doze horas da manhã do dia 24 de Dezembro — acrescentou. — A primeira chamada para a polícia foi às 12h01 da manhã, por um comerciante da Irving Street. Às 12h03 a polícia tinha recebido dezassete chamadas de gente que te tinha visto — disse ele em tom sério. — Nos últimos dois dias, não se fala de outra coisa que não seja o teu caso. Notícias, tertúlias, jornais e até redes sociais. Continuas a ser trending topic mundial no Twitter desde há dois dias. Causaste um grande rebuliço. Fazem a mesma pergunta em toda a parte: quem é o decapitador? — resumiu ele. — A mim, por outro lado, só me interessa a única pergunta que na verdade oferece respostas: por que assassinaste e decapitaste aquela mulher?

O semblante do prisioneiro não se havia alterado perante a contundência das palavras do director. Corrigiu a postura, esticou as costas, olhou fixamente para o director e sorriu.

— Já me contaram que em doze horas de interrogatório não disseste absolutamente nada. Nem sequer para pedir água. A polícia está a considerar duas hipóteses: a primeira, que és mudo e não consegues falar. Essa hipótese, descarto-a completamente. Já terias respondido por escrito ou feito algum gesto para que te déssemos algo com que escrever. E a segunda, que és mais esperto do que pareces e queres brincar com todo o departamento de polícia — acrescentou. O prisioneiro sorriu. — Pelo que vejo, mesmo depois de dois dias de isolamento numa célula de nível 1, a tua disposição para falares ou te explicares não se modificou. Acho que mais um par de dias, desta vez sem comida, talvez te ajudem um pouco mais a recuperar a fala.

O prisioneiro alterou o semblante, ficou completamente sério. Foi como se tivesse posto de lado a sua alegria e estivessem a espezinhar-lha. O director pensou que resultara. Daí a umas horas, poderia começar o exame psicológico.

— Creio que nos vamos entender na perfeição. Estou aqui para te ajudar e para fazer que a tua estadia no nosso centro seja o mais agradável possível. Se estás disposto a cooperar comigo, a entender o que aconteceu, e porquê, tudo se resolverá — disse-lhe o director.

Ao longo de anos de trabalho como psicólogo em vários centros psiquiátricos do país, usara essa mesma frase, pela mesma ordem, com doentes mentais. No seu primeiro ano como psicólogo interno de um centro no Alabama, tivera de tratar uma rapariga com esquizofrenia que tentara afogar o seu bebé no lava-louça. Os médicos pensavam que ouvia vozes que lhe diziam o que fazer. A rapariga iniciou o seu tratamento contra a esquizofrenia ao fim de seis meses de gravidez e, no primeiro aniversário do bebé, mergulhou-o no lava-louça até que o marido ouviu os gritos a partir da garagem e acorreu para o resgatar. Depois de uma semana no centro, e após somente três sessões, o Dr. Jenkins deduziu que a rapariga havia simulado a esquizofrenia para se desfazer do bebé, e do marido, de modo a fugir com um amante. O seu talento como psicólogo não passou despercebido entre os juízes e os promotores e depressa ganhou reputação suficiente para que o nomeassem director de um pequeno centro psiquiátrico a sul de Washington. Três anos depois, e na sequência de numerosos êxitos, foi nomeado director do complexo psiquiátrico de Boston, o mais prestigiado do país.

— Queres falar? — perguntou o director, na esperança de ter conseguido incutir medo na cela de isolamento.

De repente, o prisioneiro tornou a sorrir.

Capítulo 3

13 de Junho de 1996. Salt Lake

O município de Salt Lake era o destino de centenas de famílias no Verão. Nos últimos anos, a forte campanha de promoção do novo presidente do município, juntamente com o investimento na melhoria da zona costeira do lago, atraíra a classe média-alta do Leste do país de maneira a escolherem este local como destino de férias. Muitas famílias haviam adquirido as suas segundas residências na nova zona de Salt Lake, uma extensão de dois quilómetros que bordejava o lago a partir do centro da cidade. Apesar da sua nova imagem, Salt Lake não era um destino turístico por excelência, mas tinha um ar encantador que fazia lembrar Nova Orleães nos anos cinquenta. Os proprietários das grandes casas independentes em madeira branca e com grandes janelas da zona nova alugavam-nas por algumas semanas durante os meses de Verão a famílias que visitavam a cidade, ao preço de três mil dólares por semana, mais do dobro do salário mensal de um reparador de tapetes ou de um carpinteiro. Nos últimos anos, isso propiciara o auge da construção de casas na zona nova e a reabilitação das mais antigas, que se situavam perto do lago.

Salt Lake distribuía-se em forma de «C» pelo lado ocidental do lago Salgado. No centro da povoação erguia-se um pequeno campanário com uma praça central, onde, durante o Verão, se montava normalmente um pequeno mercado de coisas usadas. Duas ruas paralelas ligavam a praça central ao cais e ao lago. Ao redor da praça encontrava-se a rua Wilfred, a nova zona comercial da cidade, que, durante o dia, era um formigueiro de gente, com pequenas lojas de roupa, de móveis, de objectos antigos, e um ou outro posto ambulante de comida.

O cais ainda conservava a sua antiga estrutura de madeira e servia como ponto de atracagem para várias dezenas de pequenas embarcações de recreio. Durante a noite, esse longo cais era iluminado pelos antigos faróis, que ainda estavam a funcionar e lhe transmitiam uma luz ténue sob a qual passeavam numerosos casais.

A família de Amanda já visitava Salt Lake há vários anos, durante o Verão. Isso trazia-lhes a paz de espírito que lhes era roubada pelo stress de Nova Iorque, onde o pai dela trabalhava como jurista para um dos principais escritórios de advocacia da cidade. Este ano as férias de Verão tinham calhado em Junho, mais cedo do que nos anos anteriores, como prémio pela recente promoção do pai a sócio da firma. Steven Maslow havia-se tornado o advogado mais bem-sucedido do escritório, graças à sua imparável sequência de casos ganhos. Defendera todo o tipo de delinquentes, desde ladrões de jóias e de bancos a assassinos e políticos acusados de algum escândalo sexual. Era um advogado que conhecia as pessoas na perfeição e que gozava de uma assombrosa facilidade para reconduzir os outros ao seu ponto de vista. No âmbito pessoal, era um pai de família severo, que acreditava na disciplina e no trabalho duro. Apesar da sua severidade, adorava as duas filhas: Amanda e Carla.

Amanda tinha dezasseis anos, o seu cabelo era moreno acobreado, e os olhos cor de mel, tal como os da mãe. Tinha uns lábios finos, mas ao mesmo tempo carnudos, que, quando sorria, davam lugar a um sorriso branco que lhe marcava duas covinhas ao lado da boca. A sua irmã Carla, de sete anos, morena, com o cabelo pela altura dos ombros e ondulado, estava sempre a dizer-lhe que não sorrisse tanto, porque, se as covinhas ficassem mais marcadas, iria ver-se-lhe a língua através delas. Amanda respondia sempre o mesmo à irmã:

— É isso que eu quero! — dizia ela, sorrindo e acentuando-as ainda mais.

No táxi que tinham apanhado junto à pequena estação de comboio de Salt Lake, viajavam Amanda, Carla, o pai delas, Steven, e a mãe, Kate.

Kate, de quarenta e um anos, tinha o cabelo castanho-claro, e os olhos eram idênticos aos das filhas, de uma viva cor de mel. Tinha três sardas, que a Steven faziam lembrar o cinturão da constelação de Oríon. Kate adorava brincar com Carla, e anteriormente com Amanda, mas nos últimos tempos a sua filha mais velha parecia interessar-se mais por outras coisas do que por brincar com a irmã ou com a mãe.

O táxi em que viajavam percorria a avenida de Saint Louis, um antigo bairro francês da cidade, que ainda conservava várias lojas de vinhos onde Steven gostava de comprar garrafas com sabores peculiares para oferecer a juízes, a promotores e a colegas de trabalho. Ao fundo da avenida encontrava-se a entrada para a zona nova, que bordejava o lago, e onde se erguiam as novas casas da cidade.

— Disse-me o número 35, senhor? — perguntou o taxista.

— O 36 — corrigiu Steven.

— Exacto, o 36. Queria só pô-lo à prova — gracejou o taxista.

— Risos, risos! — gritou Carla para o pai, ao ver que este não se rira, enquanto com as mãos esticava um sorriso nos seus lábios.

— Carla, por favor, comporta-te — resmungou o pai.

— Eu só queria que tu sorrisses, papá — respondeu Carla.

— Carla, querida, já sabes que o teu pai não gosta muito de galhofa — esclareceu a mãe.

— Chegámos — interrompeu o taxista — ao número 36 da New Port Avenue.

A casa onde costumavam ficar todos os anos em Salt Lake era a pequena moradia dos Rochester, na zona antiga. Uma pequena casa de madeira com um só piso, onde pouco a pouco a pintura fora cedendo ao passar do tempo. O Sr. Rochester todos os anos inventava mil motivos para não a ter pintado. O trabalho, o mau tempo nas datas em que pensara fazê-lo, ter estado fora da cidade e até as latas de tinta terem sido extraviadas pelo serviço de entregas quando encomendara uma cor especial a uma empresa de Nova Iorque. Steven Maslow sabia perfeitamente que o Sr. Rochester não a pintava porque era um mandrião, mas mesmo assim gostava daquela casinha. Tinha um encanto peculiar. O seu pequeno alpendre fora testemunha de numerosas cenas com Kate, anos antes de as meninas nascerem, quando ele ainda se preocupava mais em viver, e sobretudo em sorrir, do que com o trabalho, os casos e os jantares da empresa.

Este ano, porém, e devido à sua promoção a sócio do gabinete, o Sr. Maslow decidira alugar durante um par de semanas uma das novas casas vitorianas da zona nova. O número 36 da New Port Avenue era uma casa de dois pisos, branca e com grandes janelões. O telhado estava pintado de azul, o mesmo azul das cortinas que se viam através das janelas. A casa ocupava um grande lote de terreno. Desde a calçada até à porta principal, um caminho de grandes lajes brancas interrompia o verde vivo do relvado do jardim. A confiança das pessoas de Salt Lake, juntamente com a escassa delinquência da zona, dava azo a que praticamente nenhuma das casas tivesse cercas. A visão da casa surpreendia as pessoas que passeavam. As suas paredes, recentemente pintadas de um branco perfeito, destacavam-se diante das restantes casas das parcelas adjacentes.

— Ena! — gritou Carla ainda dentro do táxi.

Amanda ficou a olhar para a casa, calada, sem sair do táxi. Embora este ano não lhe apetecesse nada passar duas semanas em Salt Lake, ao ver a casa entusiasmou-se. Odiava o cheiro da antiga casa dos Rochester e, além disso, este ano esperara poder desfrutar do Verão na companhia da sua colega de escola, Diane, a sua melhor amiga, com a qual partilhava a carteira e os gostos pelos rapazes, no liceu.

— 12,20 dólares? — disse Kate ao taxista enquanto tirava do porta-moedas uma nota de vinte. — Tome lá, fique com o troco. Amanda! Sai e vai ajudar o teu pai com as malas — gritou ela para a filha mais velha, que ainda não tinha saído do táxi.

Lentamente, Amanda saiu do carro e caminhou até se pôr ao lado do pai, que estava a tentar pousar as malas no passeio. Pegou nelas sem dizer uma palavra, resmungando, e arrastou-as até casa. Ao pisar uma das grandes lajes do caminho que conduzia à casa, esta estava solta e deslocou-se, fazendo que Amanda tropeçasse e quase caísse com as malas. O tropeção fez que a alça da mala ficasse presa a uma das suas pulseiras, a qual se quebrou, fazendo cair ao chão dezenas de pequenas bolinhas coloridas.

— Ahh, parti a minha pulseira por causa desta laje solta! Mas que maneira de começar!

— Amanda, pára de te queixar, é só uma pulseira — respondeu-lhe a mãe. — O teu pai trabalhou muito para conseguir umas férias bem merecidas nesta linda casa. Ou por acaso preferes passar o Verão na casa velha do senhor Rochester?

— Nem morta… — respondeu ela, irritada.

Quando se agachou para apanhar as bolinhas da pulseira, Amanda apercebeu-se de que a laje solta tinha uma pedra mesmo por baixo de um dos cantos. Debruçou-se para a retirar de lá e viu uma pequena folha de papel amarelada, manchada de terra, que fora dobrada várias vezes. Pegou nela e guardou-a no bolso.

— O que apanhaste? ­— perguntou-lhe a mãe, que a viu ficar nervosa.

— As bolinhas, mamã… — respondeu Amanda, mostrando a mão cheia de peças da pulseira.

— Deixa-as dentro de casa, vou tentar arranjar-ta.

— Está bem, mamã. Não te preocupes — assentiu Amanda, aliviada. — Carla, queres vir escolher um quarto? — perguntou ela à irmã.

— Siiiiiiiim! — gritou Carla. — Quero ficar com o maior!

— Disso nem se fala! — retorquiu Amanda, sorrindo. — Anda, vamos! — acrescentou, enquanto deixava as malas no alpendre e incitava a irmã.

Steven e Kate trocaram um olhar sério, enquanto as meninas entravam. Há anos, quando eram jovens, transmitiam paixão e alegria em cada um desses olhares. Hoje já não havia amor naquele olhar, apenas um sentimento de complacência, de conformidade e de distância, como no de dois estranhos que se cruzam na rua e que, por um segundo, pensam que já se conhecem, mas não é assim.

Capítulo 4

26 de Dezembro de 2013. Boston

À porta do complexo psiquiátrico em Boston aglutinavam-se mais de cento e cinquenta meios de comunicação acreditados. Todos esperavam alguma notícia para entrarem em antena com as breaking news. Às três horas da tarde estava prevista uma conferência de imprensa por parte do Dr. Jenkins, para os informar acerca do estado do «decapitador» e lhes fornecer dados que ajudassem a esclarecer aquilo que todos queriam saber: «Quem é?»

O Dr. Jenkins olhou para o seu relógio de pulso. Eram 9h47, e encontrava-se cara a cara com o prisioneiro na sala de isolamento.

— Eu acho que tu tens muito para contar. As motivações, muitas vezes subvalorizadas, são o motor do comportamento humano. Vivi centenas de casos em que a principal motivação para matar era o dinheiro, o poder ou o interesse em geral. Contigo, no entanto, tenho a intuição de que não foi assim. Poderias ser um pobre homem que perdeu o juízo num momento concreto, foi ultrapassado pela situação e agiu sem pensar nas consequências. Se for esse o teu caso, e isso ficar provado, poderás prosseguir a tua vida dentro de pouco tempo — explicou-lhe o Dr. Jenkins.

O prisioneiro baixou os olhos… e começou a rir-se às gargalhadas.

O Dr. Jenkins inquietou-se, e olhou em volta para ver se continuava perto da porta. O protocolo de segurança do centro estabelecia medidas de controlo do pessoal que garantiam que os médicos, e os enfermeiros, não fossem feridos por nenhum recluso. O médico acabara de se lembrar que, desde o início daquela conversa, estivera a ignorar as novas medidas de segurança que ele próprio definira.

Tais medidas haviam sido adoptadas após a morte de uma enfermeira, anos antes, quando ela fora medicar um dos pacientes. O recluso começara a sorrir para a enfermeira, ao mesmo tempo que se recusava a tomar os seus três comprimidos diários de tranquilizantes. Quando ela se aproximou, o recluso mordeu-lhe o pescoço, cortando-lhe a carótida. Morreu em poucos minutos. Quando o pessoal de segurança chegou ao quarto, encontraram o recluso vestido com a roupa ensanguentada da enfermeira e com a boca e as mãos cobertas de sangue. A enfermeira estava caída na cama, inerte, nua, e com o enfermeiro improvisado a tentar dar-lhe a medicação. Foi um verdadeiro choque no centro.

— Não pensas falar? — insistiu o director enquanto caminhava para trás em direcção à porta.

— A polícia não conseguiu tirar dele nem uma palavra, senhor director — interrompeu uma voz feminina à porta do quarto.

— Julgava que tinha deixado bem claro que me deixassem a sós com ele — respondeu o director, enquanto desviava o seu olhar para a porta.

Sob a moldura da porta encontrava-se uma jovem de cabelo moreno e pele clara, magra, dos seus trinta e poucos anos. No rosto tinha algumas sardas, que seguramente teriam sido objecto de zombaria durante a infância, mas que agora lhe conferiam uma beleza invulgar.

— Creio que irá necessitar da minha ajuda, Dr. Jenkins — disse a jovem.

O prisioneiro sentou-se no chão acolchoado, sorriu e baixou os olhos.

O director descontraiu-se. Aproximou-se da porta, olhando fixamente a jovem, com superioridade. Afastou-a da entrada e, sem mais delongas, fechou a porta, inundando de escuridão o interior da sala.

— Quem é você? — perguntou o director à jovem.

— Chamo-me Stella Hyden, perita em perfis psicológicos do FBI — respondeu ela ao mesmo tempo que sacava da identificação. — Fui enviada pelo inspector Harbour para o auxiliar na avaliação psicológica. Tenho ordens para estar presente em todos os interrogatórios e durante cada uma das entrevistas que tiver com «o decapitador».

— O inspector Harbour? Há anos que ele não interfere em nenhum dos meus casos.

— Como compreenderá, este é um caso especial. Anda meio mundo a falar do assunto. Suponho que ele há-de querer proteger as suas costas e ter um maior controlo sobre o curso das investigações — respondeu Stella.

— Não entendo, nem sequer quando tivemos por cá Larry, o violador, que açambarcou bastantes notícias na imprensa, ele me telefonou uma única vez. Suponho que o inspector vai ficando mais velho e não sabe com que há-de entreter-se — retorquiu o director.

— Telefone-lhe e negoceie com ele. Eu, entretanto, tenho de fazer o meu trabalho. Preciso do dossiê descritivo do caso e de conhecer as suas primeiras impressões — asseverou Stella. — O que pensa dele? Tem alguma ideia do nome dele ou do seu país de origem? Dadas as suas características faciais, poderia ser oriundo de qualquer país do mundo ocidental — acrescentou.

— Parece-me que está a ir depressa demais, agente — respondeu-lhe o director, ao mesmo tempo que começava a caminhar pelo longo corredor em direcção ao seu gabinete. — A única coisa que lhe posso dizer, para já, é que neste primeiro contacto que tive com ele pareceu-me invulgarmente destemido. O seu olhar não denotava qualquer arrependimento. O que mais me inquietou, sem dúvida alguma, foi aquele maldito sorriso. Ainda não percebi muito bem se ele entende a nossa língua ou se está a tentar brincar connosco — resumiu o director.

— Para que horas marcou a entrevista? Pelo que entendi, há uma conferência de imprensa às 15h00. Para dizer o quê? Ainda não sabe absolutamente nada sobre ele — inquiriu Stella, acompanhando o director no caminho para o gabinete.

— Tudo a seu tempo, agente Hyden. Ainda há coisas que tenho de entender em tudo isto. A minha conferência de imprensa pode esperar — respondeu o director.

— Por acaso tenciona cancelá-la? ­— disse Stella com nervosismo.

— Nada disso, agente. Essa conferência de imprensa será dada por si. Eu tenho de pensar que diabo há dentro da mente daquele filho da puta.

Capítulo 5

25 de Dezembro de 2013. Quebeque, Canadá

O Parque Nacional La Mauricie, no Quebeque, situa-se na zona boscosa-boreal do continente norte-americano e está repleto de pinheiros vermelhos, brancos, cinzentos e de sobreiros. Nesta época do ano, o frio da noite tinha congelado as partículas de água que se depositavam nas suas ramas, dando-lhes um tom mortiço. A densidade do bosque, com milhares de árvores por quilómetro quadrado, transformava-o num verdadeiro labirinto, que havia causado o desaparecimento de numerosos grupos de excursionistas que se aventuravam a descobrir a área sem a experiência necessária. Em 2008, e após cinquenta e quatro dias de busca, foram encontrados os restos mortais de uma família que praticava caminhada nas profundezas do bosque.

Às 16h30, pouco antes do entardecer, o silêncio do bosque do Parque Nacional apenas era acompanhado do som dos milhares de ramadas de árvores que se roçavam quando o ar as fazia mexer e do aleatório grasnido distante das aves da zona.

Algures no bosque, e a setecentos quilómetros do centro psiquiátrico de Boston, uma silhueta encapuzada saiu de uma cabana de madeira com um machado nas mãos e penetrou por entre as árvores.

Minutos depois, ouviu-se um grito dilacerante.

Capítulo 6

13 de Junho de 1996. Salt Lake

Já no interior da casa, Amanda subiu as escadas para ir escolher o quarto. A escadaria de madeira branca situava-se do lado esquerdo do vestíbulo. O branco das paredes era apenas interrompido por vários quadros de paisagens espalhados pelo átrio. A cada passo de Amanda, cada degrau de madeira rangia brevemente. Quando chegou ao piso superior, contemplou por um instante o longo corredor, com as paredes revestidas a papel, em cada lado do qual se dispunham os quartos.

Ao abrir uma das portas, Amanda deparou com um quarto espaçoso provido de uma grande janela que o iluminava e cujas cortinas azuis se agitavam com a suave brisa. O mobiliário do quarto incluía apenas uma enorme cama de madeira branca e uma escrivaninha, sobre a qual havia unicamente um pequeno candeeiro.

Não havia nada, à excepção do grande janelão, e da sua luz, que despertasse a atenção a Amanda. O seu desânimo por este ano acompanhar os pais durante as férias levara-a a preparar a mala com pouca roupa, na intenção de passar a maior parte das férias dentro de casa, no seu quarto, a sentir a falta da vida da cidade. Enquanto atirava a mala vazia para cima da cama, Amanda gritou:

— Já escolhi o quarto!

Os passos rápidos de Carla aproximaram-se em correria até ao novo quarto de Amanda. Assomou à entrada da porta e perguntou:

— Vais escolher este, Amanda? O meu é melhor!

— Que bom para ti! — respondeu ela, zombando da irmã.

Embora Amanda estivesse sempre a irritar Carla e não partilhassem nenhum interesse em comum devido à evidente diferença de idades, amava-a com todas as suas forças. Ela era a razão pela qual ainda desfrutava minimamente das férias com os pais. Não sabia como, mas Carla conseguia sempre arrancar-lhe um sorriso com o mais pequeno gesto.

No início do último ano lectivo na escola secundária, Amanda tivera algumas discussões com o professor de Educação Física, pois ele humilhara-a em frente de toda a turma por não querer subir pela corda, algo que ela considerava desnecessário para a sua educação. Quando Amanda chegou a casa, desanimada pelo que acontecera, Carla agarrou-se a uma das cortinas da sua sala e tentou trepar por ela. A meio do caminho, a cortina desprendeu-se, e Carla caiu de rabo no chão, fazendo Amanda rir-se às gargalhadas. Quando a mãe, Kate, chegou a casa e encontrou a cortina rasgada, e as duas meninas a rirem sem parar, também não conseguiu conter uma gargalhada.

Carla saiu novamente a correr pelas escadas abaixo, deixando Amanda sozinha no quarto. Abriu então as cortinas azuis e observou as vistas da casa. Dali ainda conseguia ver o táxi que os trouxera, afastando-se em direcção ao centro de Salt Lake. Em frente à casa, do outro lado da rua, havia outra, muito mais pequena, cuja fachada sucumbira à passagem do tempo. De certo modo tinha o encanto da velha casa dos Rochester. Por detrás dela, podia avistar-se um pouco mais longe o lago de Salt Lake, que estava rodeado de numerosas árvores.

Amanda largou o pequeno montinho de bolas da pulseira em cima da cama e a seguir a isso notou no seu outro bolso o papelinho que acabara de encontrar.

«Há quanto tempo poderá este bilhete estar ali escondido? Como o papel está tão gasto, poderia ter estado ali anos. Quem o terá lá deixado?», pensou Amanda enquanto o tirava do bolso.

Quando o abriu, e leu o que continha, uma torrente interna deteve-lhe o coração durante um microssegundo. Deixou cair o bilhete no chão e sentou-se na cama sem dar crédito ao que acabara de ler. Seguidamente, apanhou-o do chão e voltou a ler a mensagem outra vez: «Amanda Maslow, Junho de 1996.»

Não havia mais nada no bilhete, apenas o nome dela, a data e um estranho asterisco escrito a lápis no verso.

Amanda não parava de dar voltas ao conteúdo daquele bilhete. Como era possível que o seu nome aparecesse num papel, que sabe Deus há quanto tempo estaria ali, com a data exacta em que ela iria àquela casa pela primeira vez? Acaso estaria alguém a pregar-lhe uma partida? Nada fazia sentido. Por mais que tentasse compreender porque tivera de encontrar aquele bilhete de maneira fortuita quando se lhe quebrara a pulseira, não conseguia encontrar nenhuma razão.

Os passos de Carla continuavam a ressoar por toda a casa enquanto ela a percorria de cima a baixo. Amanda segurou o bilhete mais uma vez e assomou à janela, deixando o olhar perder-se, controlando a respiração, e tentando acalmar as pulsações. Olhou para a distância e observou de novo o lago. Havia várias embarcações vogando nele. Deu-se conta da ampla vegetação que o rodeava e fixou-se no contraste das cores das diferentes árvores. Fechou os olhos e, quando os abriu, Carla estava mesmo ao seu lado a olhar para ela e a sorrir.

— Estás bem, Amanda? A mamã diz que estás zangada porque este ano não querias vir. Se quiseres, desta vez brincamos ao que tu disseres — disse-lhe a sua irmãzinha.

— Não te preocupes, Carla. Foi só o cheiro deste sítio que me deixou um pouco maldisposta. Se calhar foi porque acabaram de a pintar — respondeu Amanda, tranquilizando-a. — Vamos ver o resto da casa juntas? — acrescentou.

— Sim! — gritou Carla, entusiasmada.

Quando desceu novamente para o piso de baixo encontrou a mãe à porta, a conversar com um casal de vizinhos que tinham vindo dar-lhes as boas-vindas e desejar-lhes uma alegre estadia durante o Verão. A mulher trazia uma tarte de arandos e entregava-a alegremente a Kate. O homem que a acompanhava, moreno, de altura mediana e com um fato já um pouco fora ...