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O CéU é NOSSO

Luke Allnutt

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Excerto

1

Antes de se ir embora, ela lia freneticamente. Na sua cadeira preferida; na cama, recostada num monte de almofadas. Os livros transbordavam da sua mesa-de-cabeceira, empilhavam-se pelo chão. Preferia os policiais estrangeiros e lia-os de enfiada, com os lábios castamente franzidos, o rosto rígido, imóvel.

Por vezes, eu acordava a meio da noite e via que a luz continuava acesa: Anna, uma silhueta dura, sentada com as costas direitas, como sempre tinha ensinado. Não dava mostras de perceber que eu tinha acordado, embora me virasse para ela, e continuava de olhos fixos no livro, a virar páginas como se estivesse a empinar para um teste.

Ao princípio, eram apenas os suspeitos do costume vindos da Escandinávia — Henning Mankell, Stieg Larsson —, mas depois foi avançando: o noir alemão da década de 1940, uma série tailandesa passada na Phuket dos anos 1960. As primeiras capas eram-me familiares — os tipos de letra e concepções eram os habituais nas maiores editoras — mas em breve se foram tornando mais esotéricas, com composição tipográfica estrangeira e tipos de encadernação diferentes.

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E depois, um dia, Anna foi-se embora. Não sei onde estão agora aqueles livros. Tenho-os procurado, para ver se alguns terão encontrado lugar nas minhas prateleiras, mas nunca descobri nenhum. Imagino que os tenha levado consigo, enfiados num dos seus sacos de lixo divididos por códigos de cores.

Os dias após a sua partida são como uma bruma. A memória de uma anestesia. Cortinas corridas e vodca pura. Um silêncio inquietante, como quando as aves se silenciam antes de um eclipse. Lembro-me de ficar sentado na sala, de olhos fixos num copo de cristal, a perguntar-me se a expressão «dedos de vodca» quereria dizer na horizontal ou na vertical.

Havia uma corrente de ar a soprar pela casa. Por debaixo das portas, por entre as rachas nas paredes. Creio que sabia de onde vinha. Mas não podia lá ir. Não podia ir ao andar de cima. Porque já não era a nossa casa. Aquelas divisões não existiam, como se adultos com segredos as tivessem proclamado proibidas. Por isso, limitava-me a ficar sentado no rés-do-chão daquela velha casa morta, com o vento a enregelar-me o pescoço. Eles tinham partido, e o silêncio sangrava sobre todas as coisas.

Oh, de certeza que ela adoraria ver-me neste momento, enfiado neste canto escuro de um barzinho imundo — apenas eu, uma televisão com a imagem a falhar e um tipo que se faz passar por surdo a vender chaveiros da Disney que brilham no escuro. A porta de entrada do bar tem um buraco, como se alguém a tivesse tentado derrubar ao pontapé, e, através do plástico transparente que o cobre, consigo ver alguns miúdos, no parque de estacionamento, a fumar e a fazer proezas com uma velha BMX.

«Eu bem te disse.» Ela não o diria em voz alta, tinha demasiada classe para isso, mas estaria ali, na sua cara, aquele quase imperceptível erguer de uma sobrancelha, o prenúncio de um sorriso.

Anna sempre tinha pensado que eu era um pouco grosseiro, que nunca conseguira apagar de mim o bairro camarário. Lembro-me de quando lhe contei que o meu pai costumava passar os sábados à tarde na casa de apostas. Um educado divertimento, aquele sorrisinho arrogante. Porque nunca ninguém na sua família frequentava sequer um pub. Nem no Natal, perguntei-lhe uma vez. Não, disse ela. Podiam tomar um copo de xerez depois do almoço, mas nada mais do que isso. Não, o que costumavam fazer era sair para tocar os sinos.

Já está escuro e não me lembro de ter visto o Sol descer. Um carro faz inversão de marcha lá fora e os faróis varrem o interior do bar como os focos de uma prisão. Volto para o balcão e peço outra caneca. Algumas cabeças viram-se para mim, mas evito-lhes os olhares, os inescrutáveis acenos.

Um pescador corpulento está empoleirado num banco, virado na direcção da porta. Está a contar uma anedota racista sobre uma mulher infiel e o arrancar de um único pêlo púbico, e lembro-me de já a ter ouvido uma vez, depois da escola, num beco no lado oriental de Londres para onde as pessoas atiravam revistas pornográficas e latas de Cola vazias. Os clientes habituais riram-se da anedota, mas a empregada do bar ficou calada e virou-lhes as costas. Na parede atrás dela há pin-ups do Sun e jornais emoldurados do dia após o 11 de Setembro.

— Quatro libras e dez, amor — diz a empregada, pousando a cerveja. Tenho as mãos a tremer e experimento alguma dificuldade em abrir a carteira, deixando cair todos os trocos sobre o balcão.

— Desculpe — digo —, mãos frias.

— Eu sei — replica ela —, está um gelo, lá fora. Espere aí que eu ajudo. — Recolhe as moedas e depois, como se eu fosse um frágil pensionista, conta o resto do dinheiro sobre a minha mão aberta. — Pronto. Quatro e dez.

— Obrigado — digo, um pouco envergonhado, e ela sorri. Tem um rosto bondoso, de um tipo que não se vê muitas vezes em sítios como este.

Quando ela se baixa para descarregar a máquina de lavar louça, sorvo um longo trago de vodca da minha garrafinha de bolso. É mais simples do que pedir um shot com cada caneca, o que me marca como um sério consumidor e faz com que me mantenham debaixo de olho.

Volto para a minha mesa e reparo numa rapariga sentada na outra ponta do bar. Antes, vira-a sentada com um dos homens, um dos amigos do pescador, mas agora ele foi-se embora, arrancando com um guinchar de pneus do seu carro quitado. Ela parece vestida para uma saída à noite, de saia curta, um pequeno top brilhante, as pestanas espetadas e escuras.

Espreito a empregada, para verificar se não estou a ser observado, e bebo mais um gole de vodca. Sinto aquela conhecida vibração, aquela triste e pequena paz. Olho a mulher sentada ao balcão. Está agora a beber shots e a conversar aos gritos com a empregada, que julgo ser sua amiga. Quando se ri, quase cai do banco, e é por pouco que consegue equilibrar-se e recuperar o fôlego.

Vou ter com ela daqui a pouco. Daqui a um copo ou dois.

Abro o Facebook, franzindo os olhos para conseguir ver o ecrã. O meu perfil é estéril, sem fotografias, apenas uma silhueta masculina, e nunca «gostei», nem comentei, nem desejei a ninguém um feliz aniversário, mas entro todos os dias, percorro páginas, critico, percorro páginas, critico, bafientas janelinhas sobre as vidas de pessoas que já não conheço, com todos os seus nasceres e pores-do-sol, as suas viagens pelas Terras Altas, a interminável sucessão de pratos tailandeses e tostas de abacate instagramados, a abissal presunção dos seus jantares de sushi.

Respiro fundo, depois bebo mais um gole de cerveja e outro de vodca. Tenho pena daquela gente. De todas aquelas prostitutas de tragédia, com as suas Tricolores e arcos-íris, a mudar as fotografias de perfil consoante aquilo com que, supostamente, deveríamos todos estar preocupados hoje — os refugiados, as últimas vítimas de um ataque terrorista nalgum lugar remoto. Todos os seus hashtags e comovidas publicações sobre «o dar», só porque, uma vez, ajudaram a construir uma escola em África no seu gap year e beijaram a mão castanha de um pedinte com as suas bocas cor de pérola.

Mudo de posição na mesa para ver a rapariga ao balcão. Pediu outro copo e está a rir-se, quase a cacarejar, enquanto vê um vídeo no seu telemóvel, a apontar para ele, a tentar chamar a atenção da empregada.

Volto para o meu telefone. De vez em quando obrigo-me a olhar as fotografias dos filhos de outras pessoas. Suponho que seja como aquele impulso de arrancar uma crosta recém-formada, não a largando enquanto não se forma um metálico rubor de sangue. O murro no estômago com os recém-nascidos; putos sem os dentes da frente no primeiro dia de escola, com as suas mochilas e casacos demasiado grandes; e depois as férias na praia, com os seus castelos e fossos de areia e os gelados caídos no chão. Sapatos grandes e sapatos pequeninos, alinhados no tapete.

E depois as mães. Oh, estas mães do Facebook. A maneira como falam, como se tivessem inventado a maternidade, como se tivessem inventado o útero, dizendo a si mesmas que são diferentes das suas próprias mães porque comem quinoa, e usam tranças africanas, e partilham no Pinterest ideias de trabalhos manuais para miúdos recalcitrantes.

*

Volto para o balcão e coloco-me junto da mulher embriagada. Já com bebida suficiente dentro de mim, sinto-me melhor, e as minhas mãos pararam de tremer. Sorrio e ela olha para mim, a cambalear no seu banco, a estudar-me de alto a baixo.

— Queres uma bebida? — ofereço alegremente, como se já nos conhecêssemos.

Vejo um clarão de surpresa nos seus olhos vidrados. A rapariga, que estava descaída sobre o balcão, esforça-se por se endireitar no seu assento.

— Rum com cola — diz, recuperando o seu ar confiante, e desvia o olhar de mim, tamborilando com os dedos sobre o balcão.

Enquanto peço as bebidas, ela finge estar a fazer qualquer coisa no seu telefone. Consigo ver-lhe o ecrã, ela está apenas a abrir aplicações e mensagens ao acaso.

— Chamo-me Rob, já agora — digo.

— Charlie — diz ela. — Mas toda a gente me trata por Charls.

— És de cá? — pergunto.

— De Camborne, nascida e criada — responde, virando o corpo para mim. — Mas agora estou na casa da minha irmã. — Os seus olhos são como línguas de lagartos, a dardejar na minha direcção quando pensa que não estou a ver.

— Aposto que nunca ouviste falar de Camborne, pois não?

— Não é uma região de minas?

— Sim. Mas agora já não. O meu pai trabalhou em South Crofty até serem encerradas — diz a rapariga, e reparo no sotaque da Cornualha. A inflexão descendente, o suave rolar dos erres.

— E tu?

— Londres.

— Londres. Muito bem.

— Conheces Londres?

— Já lá estive uma ou duas vezes — diz, desviando de novo o olhar para a outra ponta do bar enquanto fuma uma longa passa no seu cigarro.

É mais nova do que julguei, a meio da casa dos vinte, e tem o cabelo castanho-avermelhado e feições suaves e juvenis. Há na rapariga qualquer coisa vagamente descontrolada, qualquer coisa que não consigo identificar, que vai para além da bebida, para além dos borrões em volta dos olhos. Parece deslocada no The Smugglers, como se tivesse fugido de uma festa de casamento e acabado ali.

— Estás cá de férias, então?

— Qualquer coisa do género.

— E estás a gostar de Tintagel? — pergunta.

— Só cheguei hoje. Vou amanhã ao castelo. Estou no hotel aqui mesmo ao lado.

— É a primeira vez que aqui vens, então?

— Sim.

É mentira, mas não lhe posso falar de quando ali estivemos. Nós os três, no final de um húmido Verão britânico, agasalhados contra o vento, com gabardinas por cima dos calções. Lembro-me de Jack desatar a correr pela relva ao lado do parque de estacionamento e de Anna ficar assustada — «dá-me a mão, Jack, dá-me a mão» —, não fosse ele aproximar-se demasiado da berma. Lembro-me de quando subimos o trilho íngreme e sinuoso até ao topo da falésia e depois, sem mais nem menos, houve uma abertura no tempo, uma trégua quase bíblica, quando a chuva parou, as nuvens dispersaram e apareceu um arco-íris.

«Arco-íris, arco-íris», gritou Jack, a pular de um pé para o outro, as folhas a dançar à sua volta como fadinhas do fogo. Depois, foi como se alguma coisa lhe tivesse tocado, ou sussurrado ao ouvido, e ele ficou imóvel, a olhar a coluna de luz que rasgava as nuvens, enquanto o arco-íris se desvanecia no céu azul.

— Estás bem?

— O quê? Sim, estou — digo, bebendo um gole da minha caneca.

— Estavas a quilómetros daqui.

— Ah, desculpa.

Ela não diz nada, bebe metade do seu rum com cola e agita o gelo no copo.

— Não é mau, Tintagel — diz. — Eu trabalho na aldeia, numa das lojas de recordações. A minha amiga trabalha aqui. — Aponta para a empregada do bar, aquela com o rosto bondoso.

— É um bar simpático.

— Sim — diz ela. — É melhor aos fins-de-semana, e às terças-feiras há karaoke.

— Cantas?

A rapariga solta um pequeno ronco de riso.

— Cantei uma vez e jurei para nunca mais.

— É pena, gostava de ver — repliquei, a sorrir, sustentando o seu olhar.

Ela ri-se e retribui o sorriso, depois desvia timidamente o olhar.

— A mesma coisa? — pergunto. — Vou tomar mais um.

— Então, não vais beber mais daí? — Estende uma mão e dá-me uma palmadinha no bolso do casaco, para tactear a garrafa de bolso.

Estou aborrecido por a rapariga me ter visto e, quando começo a pensar no que dizer, ela toca-me suavemente no braço.

— Não estavas a ser propriamente muito subtil, amigo. — Olha para o pulso e depois percebe que não tem o relógio, por isso consulta as horas no seu telefone.

— Então, vá. Um último copo — diz, a rir-se baixinho para si mesma, e debate-se para descer do banco com a sua saia muito justa.

Vejo-a dirigir-se para a casa de banho — uma jornada que anuncia castamente — e distingo o contorno da sua roupa interior por baixo da saia, a marca do banco alto nas suas coxas.

Quando regressa, cheira a perfume, retocou a maquilhagem e prendeu o cabelo. Pedimos uns shots e começamos a conversar e a partilhar golinhos da minha garrafa, e depois ela mostra-me vídeos de cães no YouTube, porque a família é criadora de Leões da Rodésia, e, a seguir, imagens de câmaras de vigilância de pessoas à porrada, pessoas a serem atiradas ao chão na rua, porque um dos seus amigos em Camborne era kick-boxer, mas agora estava preso por agressão.

Depois ergo o olhar e é tudo um borrão, um CD a falhar, as luzes todas acesas, e ouço o áspero choro de um aspirador e pergunto-me se terei adormecido, desmaiado, mas Charlie continua ali ao meu lado, e vejo que estamos agora a beber vodca com Red Bull. Olho-a e ela sorri com os olhos húmidos e ébrios, e começa a rir-se outra vez, a apontar para a amiga, a empregada de bar, que está carrancuda e a empurrar o aspirador ao longo da alcatifa.

E depois saímos, passando por uma breve e pequena farsa em que ela disse que achava que era melhor ir para casa, e começamos a caminhar de braço dado ao longo da High Street deserta, a soltar risinhos, e chius, e subimos as escadas do seu pequeno apartamento por cima da loja de recordações onde trabalha. Quando chegamos ao alto das escadas, ela olha para mim, a boca a formar um coração, e sinto uma vaga de desejo embriagado, por isso puxo-a para mim e começamos a beijar-nos, a minha mão a introduzir-se debaixo da sua saia.

*

Quando terminamos, ficamos deitados no seu pequeno colchão no chão, sem nos olharmos nos olhos, as cabeças enterradas no pescoço um do outro. Quando estivemos abraçados pelo que parece uma quantidade de tempo aceitável, atravesso o corredor à procura da casa de banho. Busco às apalpadelas o interruptor, mas não é a casa de banho que encontro, é um quarto de criança. Enquanto o quarto de Charlie é esparso, não mobilado, este parece um expositor de uma loja. Um candeeiro em forma de aeroplano espelhado por um stencil gigante na parede. Caixas organizadas cheias de brinquedos. Uma secretária com lápis de cor e pilhas de papel. E depois, afixados num placard, certificados e diplomas do futebol, e do judo, e de superestrela na escola.

Ao lado da cama está uma luz de presença e não consigo impedir-me de a ligar. Vejo-a lançar luas e estrelas de um azul- -pálido para o tecto. Dirijo-me para a janela e inspiro o vago cheiro a amaciador de tecidos e champô infantil. Ao canto, vejo uma pequena lanterna amarela, igual à que Jack tivera. Tomo-lhe o peso nas mãos, sentindo o plástico duro, a borracha resistente, os grandes botões concebidos para dedos jovens e inábeis.

— Olá — diz Charlie, e sobressalto-me e dou um pulo. O seu tom é quase, mas não chega a ser, uma pergunta.

— Desculpa — gaguejo, a sentir-me, de súbito, muito sóbrio, as minhas mãos a começarem a tremer. — Estava à procura da casa de banho.

Ela baixa o olhar para as minhas mãos e percebo que ainda estou a segurar a lanterna.

— O meu filhote — diz, com uma lua do candeeiro de presença a dançar-lhe no rosto. — Ficou esta noite na casa da minha irmã, por isso é que fui para a borga. — Endireita o papel e os lápis, deixando-os alinhados com a borda da secretária. — Acabei de lhe montar o quarto — diz, pondo qualquer coisa na gaveta da mesa-de-cabeceira. — Tive de vender montes de coisas para o pagar, mas ficou bonito, não ficou?

— Está lindo — digo, porque está mesmo, e ela sorri e ficamos assim por algum tempo, a ver os planetas e as estrelas dançarem em volta do quarto.

Sei que Charlie me quer perguntar uma coisa: se tenho filhos, se gosto de crianças, mas eu não quero responder, por isso beijo-a e ainda sinto o sabor a vodca e cigarros. Penso que ela não se sente à vontade a beijar-me aqui, no quarto do filho, quando se afasta de mim, tira-me a lanterna da mão e coloca-a cuidadosamente na prateleira. Desliga a luz de presença e conduz-me para fora daquela divisão.

De volta ao seu colchão individual, dá-me um pequeno beijo terno no pescoço, como eu daria a um filho ao desejar as boas-noites, vira-se e adormece sem dizer uma palavra. Deixou o seu flanco nu exposto e o quarto está frio, por isso prendo-lhe o cobertor por baixo do corpo, e isso lembra-me Jack. Bem aconchegadinho. Bebo o que resta da minha garrafa de bolso e fico deitado à pálida luz ambarina, sem dormir, a ouvi-la respirar.

2

A manhã está fria mas soalheira. Desço do parque de estacionamento, passo pela loja de recordações Magic Merlin e pelos placards que publicitam percursos do Rei Artur e dois cream teas[1] pelo preço de um. Com o equipamento fixo nas costas, dirijo-me para uma depressão de terra e depois atravesso uma pequena passadeira de rocha que liga o ilhéu à ilha principal. À minha direita, há uma vertente de erva que desce para a berma do penhasco, pontuada com tocas de coelho e ocasionais zonas de areia.

Não dormi na casa de Charlie. Ela mudou de posição na cama quando saí, e consegui imaginá-la, com um olho aberto, fingindo-se adormecida, à espera do clique da fechadura. A hospedaria ficava apenas umas portas abaixo. Era estranho dormir num hotel quando vivia tão perto, mas queria poder beber sem ter de me preocupar com a viagem de carro para casa.

Avanço pelo trilho rochoso com a cabeça a latejar, o sabor a Red Bull ainda no meu hálito. Caminhando mais devagar à medida que a inclinação se acentua, subo os íngremes degraus de madeira até às ruínas, o saco com a máquina fotográfica a pesar-me no ombro. Perto da berma, sinto as gotículas do mar na pele e paro para descansar. A maré sobe agora rapidamente, varrendo sem piedade castelos de areia e algas deixados por uma enchente anterior.

Subo mais a colina até ao local do antigo miradouro. Não há turistas aqui em cima, apenas o vento e os gritos das gaivotas. Encontro uma zona mais plana e pouso a minha prancha de madeira para prender o tripé e o seu peso adicional impedir que se desloque. Fixo a lente e depois prendo a máquina e verifico a rotação.

As condições são perfeitas. O mar, areia e vegetação são demasiado vívidos, irreais; à luz da manhã, parecem as cores do arco-íris de uma criança. De costas para o mar, vejo a curvatura natural das colinas, a lenta descida para o vale em direcção à vila de bricabraque. É um lugar incrivelmente visceral. Ali de cima, quase posso estender um braço e passar a mão sobre a terra, sentindo as saliências e reentrâncias como se lesse braille.

O vento começa a crescer, e sei que preciso de começar. Preparo as primeiras imagens do panorama, apontando para terra a nordeste, e vou girando lentamente o disco do tripé, parando a intervalos regulares para disparar, até perfazer os 360 graus.

Quando a máquina termina o seu suave zumbido, verifico o ecrã de LCD para confirmar se tenho todas as imagens e depois arrumo o meu equipamento e volto a descer para o parque de estacionamento.

A casa fica a uma hora de viagem ao longo da costa. A aldeia está deserta, quando a atravesso. A loja do canto continua fechada, encerrada para a época baixa. Depois de deixar para trás a igreja, sigo pela estrada sinuosa por entre as dunas, passo pelo centro de informações do National Trust e a seguir subo a estrada de terra até à berma do penhasco e à casa.

Não foi apenas a solidão da casa que me atraiu, foi a forma como se escontrava exposta, à mais pura mercê dos elementos. Empoleirada num afloramento rochoso, do outro lado da baía de St Ives, é o único edifício à vista. Não há qualquer abrigo, qualquer vale que detenha o feroz vento atlântico. Quando a chuva vergasta as janelas, quando os ventos marítimos se recusam a abrandar, a casa estremece e parece disposta a precipitar-se para o mar.

Assim que entro pela porta, encho um grande copo de vodca. Depois vou para o meu escritório no andar superior e fico a olhar pela janela da mansarda que dá para a baía. Abro os meus perfis no OKCupid e no Heavenly Sinful para ver se tenho alguma mensagem. Encontro uma de «Samantha», uma mulher com quem ando a falar há algumas semanas.

«Ei, desapareceste. Ainda interessado num encontro?»

Olho as suas fotografias, um tédio de sapatos de couro, e chapéus-de-chuva descartados, e asas de avião, e corações desenhados em cappuccinos, e ali está uma das suas férias algures, e sou recordado de que «Samantha» é bonita, uma morena magra e com cabelo de rato.

«Tu é que desapareceste! E, sim, adorava encontrar-me…»

Ligo a máquina fotográfica e começo a descarregar as imagens de Tintagel. Quando termino, vejo-as rapidamente, feliz por verificar que estão bem alinhadas e não necessitam de muitos retoques. Passo-as para o programa que escrevi e o software começa a colar as imagens, os pixéis a fundirem-se como pele em renovação.

A luz é algo impossível de prever. Por vezes, saio com a máquina e penso que a luz está boa, mas depois as fotografias parecem todas com grão ou sobreexposição. Hoje, porém, é perfeita. O mar cintila, a erva nas falésias é tão verde e densa como o feltro de uma mesa de bilhar. Ao longe, consigo ver o desmaiado contorno da Lua.

Quando o programa acaba de processar o panorama e todas as imagens estão unidas como uma tapeçaria de Bayeux em miniatura, envolvo a imagem final numa camada de código, para que as pessoas a possam girar e fazer zoom. Quando tudo isto está pronto, carrego a imagem no meu site, «O Céu É Nosso».

Surpreende-me que o site se tenha tornado tão popular. Começou por ser um passatempo, algo para ocupar as minhas tardes. Mas o link foi rapidamente partilhado em fóruns de fotografia amadora. As pessoas escreviam-me a fazer perguntas sobre a minha técnica e o equipamento que usava. O site foi mencionado num artigo do Guardian sobre fotografia panorâmica. «Simples e belo», escreveu o autor, e senti uma rara vaga de orgulho.

Há quem me pergunte, por vezes, nos comentários ou nos emails que me enviam: «O que significa O Céu É Nosso? É referência a alguma coisa?» E a verdade é que não sei o que lhes dizer. Porque desde que saí de Londres que essas palavras andam às voltas na minha cabeça, e não faço ideia da razão.

Quando saio para um passeio nas dunas ou me sento na minha secretária a ver o mar, sussurro estas palavras para mim mesmo — o céu é nosso, o céu é nosso. Acordo ao som dessas quatro palavras e adormeço a ouvi-las, como se fossem um mantra ou uma oração que me foi incutida em criança.

A imagem acabou agora de ser carregada e espreito pela janela, a beber a minha vodca, já à espera do ping. Demora um pouco mais do que o normal. Dez minutos em vez dos habituais cinco. E depois lá vem. Um comentário — sempre o primeiro, pelo mesmo utilizador.

Swan09.

Lindo. Continua o bom trabalho.

Os comentários são sempre assim — «Lindo», «Fantástico», «Fica bem» — e sempre tão imediatos, após a publicação da imagem, que assumo que o utilizador instalou alguma espécie de alerta.

A noite começa a cair e, antes de ir para a cama, sirvo-me de outra vodca. Sinto o apelo do sono, os efeitos anestésicos do álcool, e quero apressá-lo, aproximá-lo ainda mais.

Por vezes, gosto de pensar que é Jack que está a comentar as fotografias. Sei que as reconheceria, porque são todas de locais onde ele esteve, sítios que viu com os seus próprios olhos. Box Hill, o London Eye, um miradouro em South Downs. E, agora, Tintagel.

Só para garantir que ele se lembra, que não esquece os sítios onde estivemos, deixo-lhe mensagens, parágrafos de texto ocultos no código, invisíveis para os visitantes, legíveis apenas pelos olhos do programador — e, espero, pelos seus. São, suponho, as coisas que lhe diria se pudesse. As coisas que lhe diria se ela não mo tivesse levado.

Tintagel

lembras-te, jack, quando voltámos para o parque de estacionamento e tu caíste nas silvas e ficaste ferido. nas duas mãos, papá, nas duas mãos. pequenos vergões vermelhos nas palmas. por isso beijei-te os dedos para fazer desaparecer os dói-dóis e tu abraçaste-me, encostando o rosto ao meu pescoço. eu lembro-me, nunca me vou esquecer. os teus beijos, como secretos sussurros. as sardas no teu rosto. os teus olhos, calorosos como água superficial.

SEGUNDA

PARTE

1

— Não pareces nada de Ciência Informática — disse ela.

Um pouco tocado, começara a falar com ela ao balcão de um bar de estudantes em Cambridge. Era aquele purgatório pós-exames, pré-resultados, um tempo ocioso beijado pelo sol, em que espremíamos ao máximo o que restava dos nossos dias de estudantes.

— Porque não ando de pasta e com uma T-shirt do Senhor dos Anéis?

Ela sorriu, não cruelmente, mas como quem percebe, como se aquele fosse o tipo de piadas que já ouvira a respeito de si própria. Quando se virou de novo para o balcão para tentar pedir uma bebida, olhei-a de relance. Era baixa, com o cabelo preto bem afastado do rosto. As suas feições eram fortes mas suavizadas pela palidez da pele.

— Chamo-me Rob, já agora.

— Anna — respondeu. — Prazer em conhecer.

Quase me ri. Ela soava tão formal que não percebi se estava a fazer uma piada ou não.

— Então, o que é que estás a estudar? — gaguejei, a tentar pensar em qualquer coisa para dizer.

— Economia — disse Anna, a olhar para mim através das lentes dos óculos.

— Ah, fixe.

— Não, o que devias dizer agora era que eu também não pareço uma economista.

Olhei o seu cabelo bem penteado, tão preto que era como olhar para um espelho, a sua mala a transbordar de livros, a alça presa à perna do banco onde estava sentada. Sorri.

— O que foi?

— A verdade é que até pareces, um pouco — disse. — Mas num bom sentido, quero eu dizer.

Os olhos dela cintilaram e vi-a abrir a boca como se fosse dizer alguma coisa, algo que a divertisse, mas depois mudasse de ideias.

Sabia que ela era amiga de Lola, a pessoa cujo aniversário estávamos a comemorar. Pareciam-me amigas improváveis. A pseudo-hippy Lola, que adorava dizer a toda a gente que tinha esse nome por causa daquela canção dos Kinks e a cantava sempre a pedido. Lola, que era conhecida na cidade como a rapariga que se despira no meio do baile de Verão.

E esta Anna, com as suas roupas práticas e sapatos confortáveis. Já a tinha visto pelo campus, muitas vezes com um instrumento musical às costas. Não pendurado de qualquer maneira sobre um ombro, mas cuidadosa e firmemente preso. Parecia caminhar sempre com pronunciada determinação, como se tivesse um compromisso muito urgente.

— Então, e o que é que vais fazer com o teu curso de Ciência Informática? — quis saber.

Fiquei atrapalhado e olhei para os meus amigos, na máquina de quiz, sem saber como responder a uma pergunta que eu julgaria normalmente reservada a pessoas que estudavam História Antiga. Havia qualquer coisa quase eduardina em Anna — as suas vogais franzidas e consoantes impecáveis. Ela falava com a precisão e a conduta de uma personagem num livro de Enid Blyton. Um pouco requintada, um pouco puritana.

— Mapas — respondi.

— Mapas?

— Mapas online.

Anna não disse nada. O seu rosto estava inexpressivo, ilegível.

— Já ouviste falar deste novo Google Maps?

Abanou a cabeça.

— Tem-se falado um pouco dele, recentemente. Estou a programar software relacionado com isso.

— Vais trabalhar numa dessas empresas, então? — perguntou Anna.

— Não. Vou fundar a minha empresa.

— Ah — fez ela, tocando suavemente a borda do seu copo vazio. — Parece-me ambicioso, embora, para dizer a verdade, não perceba muito dessas coisas.

— Posso ver o teu telefone?

— Perdão?

— Posso mostrar-te o que quero dizer…

Anna pareceu confusa e revistou a sua mala para depois me estender um velho Nokia.

Sorri.

— O que foi? — disse ela, o seu sorriso a revelar duas covinhas quase simétricas nas suas faces. — Faz tudo o que preciso.

— Tenho a certeza que sim — respondi, retirando-lho, a minha mão a roçar os seus dedos. — Bom, imagina, no futuro, que vais ter aqui um ecrã muito maior, talvez táctil, e com um mapa algures. As pessoas, todas as pessoas, vão poder adicionar coisas ao mapa, restaurantes, as suas rotas de corrida, o que quiserem. Por isso, estou a trabalhar em software que te permite fazer isso mesmo, acrescentar coisas, personalizar o mapa tal como o queres.

Anna pareceu perplexa e tocou o ecrã azul do seu Nokia.

— Parece-me interessante — comentou —, mesmo que eu seja um bocado avessa à tecnologia. Ainda vai dar para enviar mensagens escritas?

— Vai — respondi, rindo-me um pouco. Ela estava tão séria, com um ar tão impávido, que não percebi se estava a brincar.

— Óptimo. Que alívio. Então, também és amigo da Lola?

— Sim, mais ou menos — confirmei. — Conheci-a no primeiro ano. Ela vivia no meu corredor.

— Ah — disse Anna. — Então és esse Rob.

Esse Rob. Tentei recordar-me. Teria feito alguma coisa quando estava bêbado? Lembrava-me de ter conversado com Lola uma noite no Fez, alguns semestres antes. Ela não parara de falar sobre a sua infância em Kensington como se fosse uma maldição, uma sineta de leproso à volta do pescoço. Achara-a cansativa, uma seca, mas não me parecia que tivesse sido indelicado.

— Esse Rob? — perguntei, com um sorriso de nervosismo.

— Ah, não, foi só porque a Lola falou de ti — disse Anna casualmente, a tentar de novo atrair a atenção do empregado de balcão. — Disse que eras uma espécie de génio dos computadores, um miúdo esperto, e saído de um bairro camarário, ainda por cima. — Quando disse «bairro camarário» arfou e fez uma expressão de simulado ultraje. — Disse que era maravilhoso que tivesses oportunidade de vir para aqui como todos nós — disse Anna com um pequeno risinho.

— Que simpático da parte dela — comentei, a sorrir. — O rapaz saiu-se bem.

— Perdão?

— O rapaz saiu-se bem.

— O que é que queres dizer com isso?

— Ah, é uma referência do futebol.[2]

— Oh, desculpa, não ligo ao desporto — disse ela como se fosse uma categoria no Trivial Pursuit.

O bar estava a ficar cada vez mais cheio e fomos sendo empurrados para mais perto um do outro, os nossos braços nus a tocarem-se ocasionalmente. Num lado do seu pescoço, havia um pequeno sinal de nascença com a forma de um coração. Fiquei perdido, por um momento, a olhar o suave grão da sua pele, quando os olhos dela captaram os meus.

— Então, de onde é que conheces a Lola? — apressei-me a perguntar, desviando o olhar.

— Andámos na escola juntas — disse Anna vagamente, como se estivesse a pensar noutra coisa qualquer.

— Em Roedean?

— Sim.

Calculara que Anna fosse fina, mas não fina ao nível da Roedean.

— E tu?

— E eu o quê? — disse ela. Soava tensa, subitamente na defensiva.

— Depois de terminarmos isto, quero eu dizer.

— Ah, já percebi. Contabilidade — disse Anna, sem uma pausa. — Tenho cinco ofertas de trabalho na City, e vou decidir, no final da semana, qual delas vou aceitar.

— Uau, fixe.

— Não propriamente fixe, mas é o que eu faço. Ou, melhor, o que vou fazer. — Fez um sorriso débil. — Nunca mais vamos conseguir uma bebida, pois não?

— Não. Em especial agora. — Fiz um aceno com a cabeça na direcção de um grupo de homens com camisolas de râguebi. Um deles estava apenas de cuecas e óculos de protecção.

— Pois — disse Anna, e virou a cara. De súbito, parecia desinteressada, e imaginei-a a abrir caminho de volta para junto dos seus amigos e eu nunca mais a voltaria a ver.

— Queres sair um dia destes? — perguntei.

— Sim — disse ela quase de imediato, e a sua resposta foi tão rápida que pensei que não tinha compreendido.

— Eu queria dizer…

— Desculpa — disse ela —, devo ter feito confusão, pensei que me tinhas convidado para sair.

— Sim. Convidei — disse, inclinando-me um pouco mais para ela para a conseguir ouvir com o barulho da música por trás.

— Muito bem — disse ela, a sorrir de novo, e cheirava a sabão e a cabelo acabado de lavar.

— Desculpa, está muito barulho aqui. Então, posso ficar com o teu número de telefone, ou email, ou coisa do género?

Anna deu um pequeno passo atrás e percebi que estava quase encostado a ela.

— Sim, mas só com uma condição.

— Okay — respondi, ainda a pensar no seu comentário a respeito do «esse Rob». — Qual é?

— Devolves-me o meu telefone.

Baixei o olhar e percebi que ainda tinha o seu Nokia na mão.

— Oh, merda, desculpa.

Ela sorriu e guardou o telemóvel na mala.

— Tudo bem — disse. — É Anna Mitchell-Rose, Yahoo.co.uk. Tudo junto. Dois LL em Mitchell, sem pontos.

Uma semana depois, o cinema. Enquanto víamos os trailers, sentia o calor do corpo dela e queria aproximar-me mais e tocar-lhe, pôr a mão na sua perna nua. Olhei-a de relance algumas vezes, com esperança de que se virasse para mim e os nossos olhos se encontrassem, mas ela mantinha os olhos presos no ecrã, as costas tão direitas como se estivéssemos sentados numa igreja, os óculos de leitura com armações grossas empoleirados no nariz. O único movimento que fazia era

retirar silenciosamente uns doces do seu saco de Pick’N’Mix. Vi-a contá-los quando os comprou: cinco na fileira de cima, cinco na de baixo.

Tive dificuldade em ficar quieto no filme, que era sobre um insuportável vagabundo que andava à boleia pela América do Norte e acabou por morrer no Alasca. Mal podia esperar pelo fim. Anna, contudo, parecia estar a gostar — a julgar pela sua imobilidade, pelos olhos fixos no ecrã.

Quando o filme terminou, pensei que ela podia ser daquelas pessoas que se sentam num silêncio reverente até ao passar dos últimos créditos, mas, assim que o ecrã ficou preto, Anna levantou-se e pegou no casaco.

— Então, o que é que achaste? — perguntei, enquanto descíamos rapidamente as escadas para o bar do cinema.

— Detestei — disse Anna. — Cada minuto.

— A sério?

— Sim. Foi absolutamente horrível.

No pequeno bar no átrio, sentámo-nos a uma mesa ao lado de um piano antigo.

— Que engraçado — comentei. — Pensei que estavas a gostar.

— Não, odiei. O homem era muito desagradável. Andar a viajar de um lado para o outro, sem dizer nada à família. Não se preocupava minimamente com as outras pessoas, só pensava nele.

Minimamente. Imaginei-me por um momento a apresentá-la aos meus amigos no bairro camarário.

— Então, não achaste fixe quando ele renunciou a todos os bens e queimou o dinheiro todo? — perguntei, achando graça espicaçá-la. Anna tirou os óculos, limpou-os com um pequeno pano e voltou a guardá-los numa caixa de aspecto antigo.

— O que raio é que isso teve de «fixe»? — disse, as faces a afoguearem-se. Depois pestanejou um pouco, como se precisasse de voltar a pôr os óculos. — Ah, estás a gozar — disse, sorrindo. — Já percebi. Mas, a sério. A família trabalhou duramente para ter aquelas coisas todas e ele foi livrar-se de tudo, por causa de… por causa de uma entediante filosofia adolescente. Foi puramente, puramente egoísta. — De repente, pareceu um pouco envergonhada e parou de falar enquanto a empregada trazia as nossas bebidas.

— Tu gostaste do filme, foi? — recomeçou, quando voltámos a ficar sozinhos.

— Não — respondi. — Detestei.

Anna fez um enorme sorriso.

— Boa. Ainda bem.

— O que era aquilo que ele estava sempre a dizer às pessoas? «Torna cada dia um novo horizonte.»

— Céus, sim — disse Anna. — Esse lixo New Age.

— E sabes o que é mais engraçado?

— O quê?

— A única coisa… a coisa que ele mais queria fazer, que era viver de maneira selvagem, bem, não foi muito bom nisso, pois não? Ele falhou.

— Exacto — disse Anna, a rir, os olhos azuis a cintilar à luz alaranjada do bar. — Céus, tens razão, até nisso o homem era uma porcaria. E a verdade é que, se tivesse ouvido os conselhos das pessoas que percebiam do assunto, pessoas que tinham experiência de vida no deserto… os especialistas em desertos, por exemplo, ainda podia estar vivo.

— Especialistas em desertos?

— Sim, especialistas em desertos — disse ela, a olhar-me com severidade. — Acho que deve ser esse o nome oficial que eles têm.

Olhei para Anna, que estava a beber um gole da ...