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O CORPO DELA E OUTRAS PARTES

Carmen Maria Machado

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Excerto

O Ponto do Marido

(Se lerem este conto em voz alta, por favor usem as seguintes vozes:

Eu: em criança, estridente, insignificante; em mulher, igual.

O RAPAZ QUE SE TORNARÁ UM HOMEM E SERÁ MEU MARIDO: forte, assente numa abundância de sorte ines­perada.

O MEU PAI: bondosa, tonitruante; como a voz do vosso pai, ou do homem que gostariam que fosse vosso pai.

O MEU FILHO: em criança, meiga, com um ligeiríssimo ceceio; em homem, como a do meu marido.

TODAS AS OUTRAS MULHERES: intermutáveis com a minha voz.)

No início, eu sei que o quero antes de ele próprio o saber. Não é assim que se fazem as coisas, mas é assim que as vou fazer. Estou na festa de um vizinho, com os meus pais, e tenho dezassete anos. Bebo meio copo de vinho branco na cozinha, com a filha adolescente do vizinho. O meu pai não repara. Tudo é suave, como uma pintura a óleo acabada de pintar.

O rapaz não está de frente para mim. Vejo-lhe os músculos do pescoço e do cimo das costas, a maneira como o corpo lhe repuxa consideravelmente as camisas com botões no colarinho, como um trabalhador jornaleiro enfarpelado para um baile, e eu sou superficial. E não é que eu não tenha possibilidade de escolha. Sou linda. Tenho uma boca bonita. Tenho umas maminhas que transbordam dos vestidos de uma maneira que parece inocente e, ao mesmo tempo, perversa. Sou uma menina bem-comportada, de uma boa família. Mas ele é um nadinha rude, como por vezes os homens são, e eu quero. Tenho a sensação de que ele poderá querer a mesma coisa.

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Uma vez, ouvi uma história sobre uma rapariga que pediu uma coisa tão abjecta ao amante, que ele contou à família dela e esta a levou à força para um sanatório. Não sei que prazer desviante ela lhe rogou, embora esteja doida por saber. Que coisa mágica poderá uma pessoa querer assim tanto, que, por causa desse desejo, a isolam do mundo conhecido?

O rapaz repara em mim. Parece querido, nervoso. Diz-me olá. Pergunta como me chamo.

Sempre quis escolher o meu momento e é este o momento que escolho.

No terraço, beijo-o. Ele retribui o beijo, suavemente a princípio, mas depois com mais força, e até me abre um pouco a boca com a língua, o que me surpreende, e julgo que a ele provavelmente também. Já imaginei muitas coisas no escuro, na minha cama, debaixo do peso da velha manta de retalhos, mas nunca isto, e gemo. Quando ele se afasta, parece alarmado. Os seus olhos saltitam por um instante e pousam no meu pescoço.

—O que é isso? — pergunta.

—Isto? —Toco na fita na parte de trás do pescoço. —Ah, é só a minha fita. —Os meus dedos deslizam ao longo de metade do seu comprimento verde e reluzente, e detêm-se no laço apertado que se encontra na parte da frente. Ele estica a mão e eu agarro-a e afasto-a.

—Não lhe deves tocar — aviso. —Não lhe podes tocar.

Antes de voltarmos para dentro de casa, ele pergunta se nos podemos ver outra vez. Digo-lhe que gostaria disso. Nessa noite, antes de adormecer, imagino-o novamente, a língua dele a abrir-me a boca, e os meus dedos escorregam sobre o meu corpo e imagino-o aí, todo ele músculo e desejo de agradar, e sei que um dia nos casaremos.

E casamo-nos. Ou melhor, fá-lo-emos. Mas, primeiro, ele leva-me de carro, no escuro, a um lago com uma margem pantanosa da qual é difícil aproximarmo-nos. Ele beija-me e aperta-me a maminha com a mão, deixando-me o mamilo duro sob a pressão dos seus dedos.

Não sei muito bem o que ele vai fazer, só quando o faz. Está duro, quente e seco, e cheira a pão e, quando me rasga, grito e agarro-me a ele como se estivesse perdida no mar. O corpo dele prende-se ao meu e empurra, empurra e, antes do fim, puxa-o para fora e acaba, com o meu sangue a molhá-lo. Fico fascinada e excitada com o ritmo, com a sensação palpável da necessidade dele, a clareza da sua libertação. A seguir, afunda-se no banco, e eu consigo ouvir os sons do lago: mergulhões e grilos, e qualquer coisa que parece o dedilhar das cordas de um banjo. O vento levanta-se, vindo da água, e arrefece-me o corpo.

Não sei o que fazer agora. Sinto o coração a bater-me entre as pernas. Dói, mas imagino que possa ser bom. Passo a mão pelo corpo e sinto ondas de prazer vindas de algum lugar distante. A respiração dele abranda e apercebo-me de que me observa. A minha pele brilha ao luar que entra pela janela. Quando o vejo a olhar, sei que consigo agarrar esse prazer, como as pontas dos meus dedos a roçarem a extremidade do cordel de um balão que quase fugiu. Puxo e gemo e surfo a onda de sensação, lenta e calmamente, mordendo a língua o tempo todo.

—Preciso de mais — diz ele, mas não se levanta para fazer nada. Olha pela janela e eu também. Lá fora, no escuro, pode andar tudo e mais alguma coisa, penso. Um homem com um gancho em vez de mão. Uma pessoa fantasmagórica à boleia, repetindo para todo o sempre a mesma viagem. Uma velha convocada das profundezas do seu espelho pelos cânticos de crianças. Toda a gente conhece estas histórias —isto é, toda a gente as conta, mesmo que não as conheça—, mas nunca ninguém acredita realmente nelas.

Os olhos dele afastam-se na direcção da água e, depois, regressam a mim.

—Fala-me da tua fita — pede.

—Não há nada para dizer. É uma fita.

—Posso tocar-lhe?

—Não.

—Quero tocar-lhe — diz. Os dedos crispam-se um nadinha e eu fecho as pernas e sento-me mais direita.

—Não.

No lago, algo abre caminho à força, rompe a água, contorcendo-se, e aterra com um chape. Ele vira-se na direcção do barulho.

—Um peixe — diz.

—Um dia —declaro—, hei-de contar-te as histórias sobre este lago e as suas criaturas.

Ele sorri-me e esfrega o maxilar. Um bocadinho do meu sangue espalha-se-lhe na pele, mas ele não repara e eu não digo nada.

—Gostava muito — responde.

—Leva-me a casa — peço. E, como um cavalheiro, ele leva-me.

Nessa noite, lavo-me. Os bocadinhos de sabão sedosos entre as minhas pernas têm a cor e o cheiro da ferrugem, mas estou mais nova do que nunca.

Os meus pais gostam muito dele. É um rapaz simpático, dizem. Será um homem bom. Interrogam-no sobre o trabalho, passatempos, família. Ele aperta a mão do meu pai com firmeza e diz baboseiras à minha mãe que a fazem guinchar e corar como uma menina. Vem visitar-me duas vezes por semana, por vezes três. A minha mãe convida-o para jantar e, enquanto comemos, cravo as unhas na coxa dele. Quando o gelado já forma uma poça na taça, digo aos meus pais que vou dar uma volta com ele pela rua. Saímos para a noite, de mãos dadas, docemente, até deixarmos de ver a casa. Puxo-o para o meio das árvores e, quando encontramos uma clareirazinha, saracoteio-me para despir os collants e, de gatas, ofereço-me a ele.

Já ouvi todas as histórias e mais algumas sobre raparigas como eu e não tenho medo de criar outras tantas. Ouço a fivela metálica das calças dele e o restolhar quando caem no chão, e sinto-o meio erecto contra mim. Imploro-lhe —«Nada de toca-e-foge»— e ele faz-me a vontade. Gemo e empurro o corpo para trás, e abrimos sulcos naquela clareira, os meus gemidos de prazer e os gemidos dele, de sorte, misturando-se e dissolvendo-se na noite. Estamos a aprender, ele e eu.

Há duas regras: ele não se pode vir dentro de mim e não pode tocar na minha fita verde. Ejacula para a terra, ping-ping-ping, como um princípio de chuva. Faço um gesto para me acariciar, mas os meus dedos, que se tinham fincado na terra debaixo de mim, estão imundos. Puxo a roupa interior e as meias para cima. Ele emite um som e aponta, e eu vejo que, por dentro do nylon, também tenho os joelhos cheios de terra. Puxo os collants para baixo e limpo-os e, depois, puxo-os novamente para cima. Aliso a saia e prendo o cabelo novamente com os ganchos. Com o esforço, um mero caracol soltou-se do cabelo dele, penteado para trás, e eu enfio-o junto dos outros. Descemos até ao ribeiro e mergulho as mãos na corrente até ficarem limpas.

Voltamos calmamente para casa, de braço dado num gesto casto. A minha mãe fez café e sentamo-nos todos na sala, enquanto o meu pai o interroga sobre o trabalho.

(Se lerem esta história em voz alta, a melhor maneira de reproduzirem os sons da clareira é inspirando fundo e retendo o ar durante um longo instante. Depois, libertem o ar de repente, deixando que o peito vá abaixo como uma torre de blocos derrubada. Repitam uma vez, e outra, encurtando o tempo entre cada inspiração e expiração.)

Sempre fui uma contadora de histórias. Quando era miúda, a minha mãe teve de pegar em mim e tirar-me de uma mercearia, porque eu não parava de berrar: «Narizes!», no corredor dos legumes. Mulheres preocupadas viraram-se e observaram-me, enquanto eu esperneava e esmurrava as costas esguias da minha mãe.

—Nabiças! — corrigiu ela, quando voltámos para casa. —Não é narizes! —Mandou-me sentar na minha cadeira, um objecto feito à medida de uma criança, fabricado especialmente para mim, até o meu pai chegar. Mas não, eu tinha visto os narizes, apêndices pálidos e ensanguentados, no meio daqueles tubérculos castanho-avermelhados. Um deles, aquele em que eu tinha tocado com a ponta do indicador, estava frio como gelo e cedeu ao meu toque como uma bolha. Quando contei este pormenor à minha mãe, algo por detrás do líquido dos seus olhos esquivou-se tão depressa como um gato sobressaltado.

—Não saias daí — disse ela.

O meu pai regressou do trabalho, ao fim do dia, e ouviu a minha história, sem deixar escapar um pormenor.

—Conheces o Sr. Barnes, não conheces?— perguntou-me, referindo-se ao senhor de idade que geria aquela mercearia.

Eu disse que o vira uma vez. Tinha o cabelo branco como o céu antes de nevar e era casado com uma senhora que desenhava os letreiros para as montras da loja.

—Porque é que o Sr. Barnes haveria de vender narizes?— perguntou o meu pai. —Onde é que os arranjaria?

Como era pequena, e não sabia nada sobre cemitérios e morgues, não consegui responder.

—E mesmo que os arranjasse em algum lugar — continuou o meu pai—, o que é que ele ganharia em vendê-los no meio das batatas?

Eles estavam lá. Eu vi-os com os meus próprios olhos. Mas, sob o foco da lógica do meu pai, senti a dúvida a desenrolar-se.

—E, mais importante ainda —disse o meu pai, chegando triunfalmente à sua derradeira prova—, porque é que ninguém reparou nos narizes a não ser tu?

Se fosse adulta, teria dito ao meu pai que há coisas verdadeiras neste mundo que apenas um par de olhos vê. Em miúda, cedi à versão dele da história e ri-me, quando me tirou da cadeira para me dar um beijo e me mandar ir à minha vida.

Não é normal uma rapariga ensinar o seu rapaz, mas eu estou apenas a mostrar-lhe o que quero, o que se desenrola por dentro das minhas pálpebras, enquanto adormeço. Ele acaba por conhecer o tremeluzir da minha expressão, quando um desejo me perpassa, e eu não lhe escondo nada. Quando me diz que quer a minha boca, o comprimento da minha garganta, ensino a mim própria a não me engasgar e a engoli-lo todo, gemendo com o gosto salgado na boca. Quando me pergunta qual é o meu pior segredo, conto-lhe que um professor me escondeu no armário até todos se terem ido embora e me obrigou a agarrá-lo lá dentro e que, depois, quando cheguei a casa, esfreguei as mãos com palha-de-aço até sangrarem, embora a recordação me deixe tão cheia de raiva e vergonha que, depois de a partilhar, tenho pesadelos durante um mês. E quando ele me pede em casamento, a poucos dias de eu fazer dezoito anos, digo sim, sim, por favor, e a seguir, num banco de jardim, sento-me ao colo dele e espalho a saia como um leque à nossa volta, para que um transeunte não se aperceba do que está a acontecer debaixo dela.

—Sinto que conheço tantas partes tuas — diz-me ele, com a mão enterrada até aos nós dos dedos, tentando não arquejar. —E agora, vou conhecê-las todas.

Há uma história que costumam contar acerca de uma rapariga que foi desafiada pelos amigos a aventurar-se num cemitério local, depois de anoitecer. A loucura dela foi a seguinte: quando lhe disseram que, se se postasse em cima de uma campa à noite, o morador do túmulo esticaria os braços e a puxaria para debaixo da terra, ela escarneceu. Escarnecer é o primeiro erro que uma mulher pode cometer.

—A vida é demasiado curta para se ter medo de parvoíces — disse ela — e eu vou-vos mostrar.

O orgulho é o segundo erro.

Ela insistiu que era capaz, porque nunca tal destino se abateria sobre si. Por isso, eles deram-lhe uma faca para espetar na terra gelada, de modo a provar a sua presença e a sua teoria.

Ela foi ao cemitério. Alguns contadores de histórias dizem que escolheu uma campa ao acaso. Eu penso que ela seleccionou uma muito antiga, uma escolha tingida pela dúvida e pela crença latente de que, se estivesse enganada, os músculos e a carne intactos de um cadáver recém-falecido seriam mais perigosos do que os de alguém que morrera séculos antes.

Ajoelhou-se na campa e enterrou a lâmina da faca até ao fundo. Quando se levantou para se ir embora a sete pés — porque não estava lá ninguém para testemunhar o seu medo—, percebeu que não conseguia fugir. Algo lhe agarrava a roupa. Gritou e caiu no chão.

De manhã, os amigos deslocaram-se ao cemitério. Encontraram-na morta em cima da campa, com a faca a prender a lã grossa da saia à terra. Morta de medo ou de frio, teria isso importância quando os pais chegassem? Ela não se enganara, mas isso já não importava nada. Mais tarde, toda a gente acreditou que ela quisera morrer, apesar de ter morrido a provar que queria viver.

Pelos vistos, ter razão era o terceiro erro, e o pior.

Os meus pais estão contentes com o casamento. A minha mãe diz que, embora actualmente as raparigas tendam a casar-se mais tarde, ela se casou com o meu pai aos dezanove anos e estava contente por o ter feito.

Quando escolho o vestido de noiva, lembro-me da história da jovem que queria ir a um baile com o namorado, mas não tinha dinheiro para uma roupa nova. Comprou um bonito vestido branco numa loja em segunda mão e, mais tarde, adoeceu e acabou por falecer. O médico que a examinou nos seus derradeiros dias descobriu que morrera por exposição a líquido de embalsamar. Descobriram que o assistente sem vergonha de um cangalheiro tinha roubado o vestido ao cadáver de uma noiva.

Julgo que a moral da história é que ser pobre mata. Gasto mais do que tencionava no vestido, mas é lindo e mais vale isso do que morrer. Quando o guardo na minha arca do enxoval, lembro-me da noiva que brincou às escondidas no dia do casamento e se escondeu no sótão, numa velha arca que se fechou e ela não conseguiu abrir. Ficou lá presa até morrer. Durante anos, as pessoas pensaram que tinha fugido, até que uma empregada encontrou o esqueleto, de vestido branco, encolhido dentro daquele espaço escuro. As noivas nunca têm um destino feliz nos contos. Os contos pressentem a felicidade e apagam-na como uma vela.

Casamo-nos em Abril, numa tarde invulgarmente fria. Ele vê-me antes do casamento, de vestido, e insiste em beijar-me profundamente e enfiar a mão dentro do corpete. Fica duro e eu digo-lhe que quero que use o meu corpo como bem entender. Rescindo a minha primeira regra, dadas as circunstâncias. Ele empurra-me contra a parede e apoia a mão no azulejo perto do meu pescoço, para se equilibrar. O polegar roça-me na fita. Ele não retira a mão e, enquanto me penetra, diz: «Amo-te, amo-te, amo-te.» Não sei se sou a primeira mulher a caminhar até ao altar da igreja de St. George com sémen a escorrer-lhe pela perna abaixo, mas gosto de pensar que sim.

A nossa lua-de-mel é uma viagem pela Europa. Não somos ricos, mas conseguimos levá-la a cabo. A Europa é um continente de histórias e, entre consumações, descubro-as. Vamos de metrópoles antigas e buliçosas a aldeias pacatas, a retiros alpinos e daí novamente para metrópoles, bebericando álcool e arrancando carne assada dos ossos com os dentes, comendo spätzle e azeitonas e ravioli e uns cereais cremosos que não conheço, mas pelos quais anseio todas as manhãs. Não temos dinheiro para dormir num vagão-cama no comboio, mas o meu marido suborna um funcionário para nos deixar usar um quarto vazio durante uma hora e, assim, acasalamos sobre o Reno, com o meu marido a prender-me à cama periclitante e a uivar como uma criatura mais primeva do que as montanhas que atravessamos. Reconheço que isto não é o mundo inteiro, mas é a primeira parte dele que estou a ver. As possibilidades são tantas, que me sinto eléctrica.

(Se estiverem a ler esta história em voz alta, façam o ruído da cama sob a tensão da viagem de comboio e do acto de fazer amor abrindo e fechando uma cadeira metálica de armar, de modo a forçar as dobradiças. Quando se cansarem disso, cantem as letras meio esquecidas de velhas canções à pessoa que estiver mais perto, pensando em canções de embalar.)

*

Paro de menstruar pouco depois de regressarmos de viagem. Digo-o ao meu marido, uma noite, quando estamos esparramados na cama, depois de nos termos cansado. Ele brilha de verdadeiro prazer.

—Um bebé — diz ele. Deita-se com as mãos por baixo da cabeça. —Um bebé. —Fica calado durante tanto tempo, que penso que adormeceu, mas, quando o observo, está de olhos abertos, cravados no tecto. Vira-se de lado e fixa-me.

—A criança também terá uma fita?

Sinto o maxilar contrair-se e a minha mão acaricia involuntariamente o laço. A minha mente saltita entre uma série de respostas e fico-me por aquela que me provoca menos raiva.

—Não há como saber — respondo, por fim.

Ele assusta-me, então, deslizando a mão à volta do meu pescoço. Levanto as mãos para o impedir, mas ele serve-se da força, agarrando-me nos pulsos com uma mão, enquanto toca na fita com a outra. Carrega na tira sedosa com o polegar. Toca no laço delicadamente, como se estivesse a massajar-me o sexo.

—Por favor — digo. —Por favor, não mexas.

Ele parece não me ouvir.

—Por favor — repito, mais alto, mas com a voz a falhar a meio.

Ele podia tê-lo feito, desatado o laço, se quisesse. Mas solta-me e vira-se de barriga para cima como se nada tivesse acontecido. Esfrego os pulsos, que me doem.

—Preciso de um copo de água — digo. Levanto-me e vou à casa de banho. Ligo a torneira e, freneticamente, verifico a fita, com as lágrimas presas nas pestanas. O laço continua bem apertado.

*

Há uma história que adoro sobre um casal de pioneiros morto por lobos. Os vizinhos encontraram os corpos deles esventrados e dispersos pela cabana minúscula, mas nunca conseguiram localizar a filha bebé, nem viva, nem morta. As pessoas dizem que viram a menina a correr com uma matilha de lobos, saltando pela terra fora, tão feroz e selvagem como qualquer um dos seus companheiros.

As notícias sobre ela propagavam-se pelas colónias da região, sempre que alguém a avistava. Ameaçou um caçador numa floresta invernal, embora talvez ele tenha ficado mais espantado do que propriamente assustado, ao ver uma menina pequenina e nua, a arreganhar os dentes e a uivar tão primitivamente, que lhe fez estremecer a carne nos ossos. Uma rapariga, à beira da idade de se casar, a tentar derrubar um cavalo. As pessoas até a viram a estraçalhar uma galinha, numa explosão de penas.

Muitos anos depois, consta que a vislumbraram a descansar nos juncos à beira de um rio, amamentando duas crias de lobo. Gosto de imaginar que elas lhe saíram do corpo, a linhagem de lobos contaminada pelo ser humano, uma só vez. Deixavam-lhe os seios em sangue, mas ela não se importava, porque eram suas e só suas. Acredito que, quando os focinhos e os dentes das crias se encostavam a ela, a menina sentia uma espécie de paz sagrada, uma serenidade que não teria encontrado em mais lado nenhum. Devia estar melhor entre elas do que sem elas. Disso, tenho a certeza.

Passam-se os meses e a minha barriga cresce. Dentro de mim, o nosso bebé nada, cheio de força, dando pontapés e empurrões, esgadanhando. Em público, sobressalto-me e cambaleio, agarrada à barriga, silvando por entre os dentes para que a Criaturinha, como lhe chamo, pare. Uma vez, tropeço num passeio pelo parque, o mesmo parque onde o meu marido me pedira em casamento no ano anterior, e caio de joelhos, arquejando e quase em lágrimas. Uma mulher que ia a passar ajuda-me a sentar e dá-me água, dizendo-me que a primeira gravidez é sempre a pior, mas que se tornam mais fáceis com o tempo.

É a pior, mas por inúmeras razões para lá do meu corpo alterado. Canto para o meu bebé e lembro-me das velhas crendices sobre a forma da barriga e o sexo da criança. Trarei eu um menino dentro de mim, igual ao pai? Ou uma menina, uma filha que suavizaria os filhos rapazes que se seguissem? Não tenho irmãos, mas sei que as raparigas mais velhas adoçam os irmãos e que eles as protegem dos perigos do mundo, um pacto que me anima o coração.

O meu corpo muda de maneiras inesperadas: tenho os seios grandes e quentes, e a barriga raiada de manchas claras, o inverso das de um tigre. Sinto-me monstruosa, mas o desejo do meu marido parece revigorado, como se a minha nova forma tivesse refrescado a nossa lista de perversões. E o meu corpo reage: na fila do supermercado, ou a receber a comunhão na igreja, sou atingida por uma necessidade nova e feroz, que me deixa escorregadia e inchada à menor provocação. Quando o meu marido chega a casa, todos os dias, traz uma lista mental de todas as coisas que deseja de mim e eu estou disposta a dar-lhas e mais, tendo estado à beira de me vir, desde o momento em que fui comprar pão e cenouras, de manhã.

—Sou o homem mais sortudo do mundo — diz ele, deslizando as mãos pela minha barriga.

De manhã, beija-me e acaricia-me e, por vezes, possui-me antes do café com torradas. Vai trabalhar com um passo vivaz. Volta para casa com uma promoção, e depois outra.

—Mais dinheiro para a minha família — diz ele. —Mais dinheiro para a nossa felicidade.

Entro em trabalho de parto a meio da noite, cada centímetro das minhas entranhas torce-se num nó obsceno e, depois, solta-se. Grito como não gritava desde a noite à beira do lago, mas pelas razões opostas. Agora, o prazer de saber que o meu bebé vem a caminho é desmontado pela dor atroz e inexorável.

Passo vinte horas em trabalho de parto. Quase arranco a mão do meu marido, gritando impropérios que não parecem escandalizar a enfermeira. O médico é de uma paciência frustrante, espreitando por entre as minhas pernas, as suas sobrancelhas brancas escrevendo-lhe na testa mensagens indecifráveis em código Morse.

—O que é que está a acontecer? — pergunto.

—Respire — ordena ele.

Tenho a certeza de que, se passar mais tempo, vou acabar por reduzir os meus dentes a pó. Olho para o meu marido, que me beija na testa e pergunta ao médico o que se passa.

—Não estou convencido de que isto vá ser um parto natural— diz o médico. —Talvez tenhamos de fazer uma cesariana.

—Não, por favor— peço. —Não quero uma cesariana, por favor.

—Se não houver movimento em breve, teremos mesmo de operar — anuncia o médico. —Provavelmente será melhor para todos. —Ele levanta os olhos e tenho quase a certeza de que pisca o olho ao meu marido, mas a dor faz a mente ver as coisas de uma maneira deturpada.

Mentalmente, faço um acordo com a Criaturinha. Criaturinha, penso, esta é a última vez que vamos ser uma equipa, só nós as duas. Por favor, não os obrigues a cortarem-me para te tirarem de dentro de mim.

A Criaturinha nasce vinte minutos depois. Têm mesmo de me cortar, mas não na barriga, como eu temia. O médico baixa o bisturi e eu pouco sinto, só um repuxar, mas talvez seja do que me deram. Quando me põem o bebé nos braços, examino o corpo enrugado da cabeça aos pés, cor de um céu poente e raiado de vermelho.

Não tem fita. Um menino. Começo a chorar e enrosco o bebé sem marca no meu peito. A enfermeira ensina-me a amamentar e é uma felicidade senti-lo a beber o leite, tocar-lhe nos dedinhos fechados, cada um deles uma virgulazinha.

(Se estiverem a ler esta história em voz alta, dêem uma faca de aparar aos ouvintes e peçam-lhes para cortar a aba tenra de pele entre o vosso polegar e o indicador. No fim, agradeçam-lhes.)

Há uma história sobre uma mulher que entra em trabalho de parto, quando o médico de serviço está cansado. Há uma história sobre uma mulher que nasceu, ela própria, demasiado cedo. Há uma história sobre uma mulher cujo corpo se agarrou ao filho com tanta força, que tiveram de a cortar para tirar a criança. Há uma história sobre uma mulher que ouviu uma história sobre uma mulher que deu à luz crias de lobo em segredo. Se pensarmos bem, as histórias têm esta característica comum de se unirem como gotas de chuva num charco. Nascem das nuvens, separadas umas das outras, mas, assim que se juntam, torna-se impossível distingui-las.

(Se estiverem a ler esta história em voz alta, afastem a cortina para ilustrar esta última questão aos vossos ouvintes. Garanto-vos que estará a chover.)

Levam o bebé para me poderem remendar no sítio onde me cortaram. Dão-me qualquer coisa que me deixa sonolenta, através de uma máscara suavemente encostada à minha boca e nariz. O meu marido brinca com o médico, enquanto me segura na mão.

—Quanto quer para dar o tal ponto adicional? — pergunta. —Oferecem essa possibilidade, certo?

—Por favor — digo-lhe. Mas as palavras saem-me arrastadas e deturpadas e provavelmente não passam de um mero gemido. Nenhum dos dois homens vira a cabeça para mim.

O médico solta uma gargalhada.

—Não é o primeiro…

Escorrego por um túnel comprido e, depois, regresso à superfície, mas coberta por qualquer coisa pesada e escura, como petróleo. Sinto que vou vomitar.

—… dizem que fica tipo…

—… tipo vir —

E, de repente, estou acordada, completamente desperta, e o meu marido desapareceu e o médico também. E o bebé, onde está o bebé…?

A enfermeira enfia a cabeça por entre a porta.

—O seu marido foi buscar um café —diz ela— e o bebé está a dormir no berço.

O médico entra atrás dela, limpando as mãos a um pano.

—Já está cosida, não se preocupe — diz ele. —Bem apertadinha, assim toda a gente fica satisfeita. A enfermeira vai-lhe explicar como será a recuperação. Vai precisar de descansar durante uns tempos.

O bebé acorda. A enfermeira levanta-o do seu cueiro e pousa-o novamente nos meus braços. É tão lindo, que até me esqueço de respirar.

Recupero um pouquinho todos os dias. Movo-me devagar e dói-me o corpo. O meu marido faz um gesto para me tocar e eu afasto-o. Quero voltar à nossa vida de antes, mas, neste momento, é mais forte do que eu. Já estou a amamentar e a levantar-me a toda a hora para cuidar do nosso filho, apesar das dores.

Um dia, satisfaço-o com a mão e, depois disso, ele fica tão contente, que percebo que o posso saciar, embora fique eu insatisfeita. Quando o meu filho faz um ano, sinto-me suficientemente sarada para receber o meu marido de volta na cama. Choro de felicidade quando me toca, quando me preenche como anseio ser preenchida há tanto tempo.

O meu filho é um bebé bem-comportado. Não pára de crescer. Tentamos ter outro filho, mas desconfio de que a Criaturinha provocou tantos estragos dentro de mim, que o meu corpo não conseguiria albergar outra criança.

—Foste um mau inquilino, Criaturinha —digo-lhe, esfregando-lhe champô no cabelo castanho e fino—, e não te vou devolver a caução.

Ele chapinha no lavatório, palrando de felicidade.

O meu filho toca-me na fita, mas nunca de uma maneira que me assuste. Encara-a como uma parte de mim e trata-a da mesma maneira que trataria uma orelha ou um dedo. Deleita-o de um modo que não passa por nenhuma espécie de desejo e isso agrada-me.

Não sei se o meu marido está triste por não podermos ter mais um filho. Ele é tão fechado em relação às suas mágoas como aberto em relação aos seus desejos. É um bom pai e adora o filho. Quando volta do trabalho, jogam à apanhada e correm pelo quintal. O menino ainda é muito pequeno para poder apanhar a bola pelo ar, mas o meu marido atira-lha pacientemente pela relva e o nosso filho apanha-a e deixa-a cair, e o meu marido faz-me sinal e grita:

—Olha, olha! Viste? Daqui a nada, ele já a consegue atirar.

De todas as histórias que conheço sobre mães, esta é a mais real. Uma rapariga americana está a visitar Paris com a mãe, quando a senhora começa a sentir-se mal. Decidem instalar-se num hotel, durante uns dias, para a mãe poder descansar, e a filha chama um médico para a examinar.

Após um exame rápido, o médico diz à rapariga que a mãe precisa de um simples medicamento. Leva a rapariga a um táxi, dá instruções ao taxista em francês e explica à jovem que o taxista a levará a sua casa, onde a sua mulher lhe dará o medicamento necessário. Andam e andam durante muito tempo de carro e, quando a rapariga chega, fica frustrada com a insuportável lentidão da mulher do médico, que cria meticulosa ...