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O CASTIGO DOS IGNORANTES (SEBASTIAN BERGMAN 5)

Hans Rosenfeldt   Michael Hjorth  

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Excerto

– TRINTA SEGUNDOS a partir de agora.

Mirre já praticamente nem se dava conta do clique metálico que o cronómetro fazia ao iniciar. Quanto tempo duraria isto? O que dissera o homem?

Iria fazer-lhe sessenta perguntas.

Em qual iam? Mirre não fazia a mais pequena ideia, parecia-lhe que estavam naquilo há uma eternidade, e continuava a tentar perceber o que se passara.

– Queres que repita a pergunta?

O homem estava muito próximo, do outro lado da mesa, a sua voz calma e grave.

A primeira vez que Mirre ouvira aquela voz fora há pouco mais de duas semanas, quando haviam falado um com o outro por telefone. O homem ligara-lhe e apresentara-se como Sven Cato, jornalista freelance. Queria fazer uma entrevista. Ou melhor, um retrato. Mirre não ganhara, mas fora um dos participantes que obtivera mais publicidade e atenção nas redes sociais. As pessoas tinham formado opinião sobre ele apenas com base no que haviam visto, e Sven queria aprofundar um pouco essa imagem; mostrar outros lados, a pessoa por detrás. Poderiam encontrar-se?

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E assim fora; encontraram-se no hotel Kurhotellet, onde Sven pagou o almoço. Decidiram pedir uma cerveja cada um, apesar de passar pouco das onze e meia de uma terça-feira. Mas era Verão, dia livre. Sven colocara um pequeno gravador em cima da mesa, entre os dois, e começara a fazer perguntas. Mirre respondera.

Agora o homem à sua frente interpretava aparentemente o seu silêncio como um sim.

– A que categoria pertencem as palavras que descrevem relações entre pessoas, coisas e locais, como por exemplo «em», «para», «frente» e «no».

– Não sei – respondeu Mirre, apercebendo-se de quão exausto soava.

– Ainda faltam dez segundos para acabar o tempo de reflexão.

– Não sei! Não sei responder às suas malditas perguntas!

Gerou-se um silêncio durante alguns segundos, seguido de um clique quando o cronómetro parou e de mais outro quando voltou ao zero.

– Próxima pergunta: Como se chamava a embarcação utilizada por Cristóvão Colombo na viagem em que descobriu a América, em 1492? Trinta segundos a partir de agora.

Clique.

O cronómetro recomeçou a contagem decrescente.

A entrevista correra bem. Apesar de Sven ter a mesma idade, ou ser ainda mais velho, que o pai de Mirre e de não acompanhar tudo, parecia verdadeiramente interessado. Fora agradável falar com ele. Quando Mirre regressara de uma ida à casa de banho, Sven pedira uma segunda cerveja para cada um.

Fora essa de certeza. A segunda cerveja. Devia ter posto alguma coisa nela, pois, ao fim de pouco tempo, Mirre começara a sentir-se mal. A perder a concentração, a sentir-se fraco.

Sven oferecera-se para o levar a casa. Saíram do restaurante e dirigiram-se ao parque de estacionamento. E depois acordara ali. A cabeça contra o tampo duro da mesa.

Conseguira sentar-se direito, mas levara alguns segundos a tomar consciência de que não via nada. Quando tentara retirar o que lhe tapava os olhos, percebera que apenas conseguia mexer as mãos alguns centímetros. E ouvira um som metálico ao fazê-lo: correntes, algemas.

Começara a gritar e a puxar as algemas, mas calara-se quando ouvira a voz familiar.

– Ninguém consegue ouvir-te, e não vais conseguir soltar-te.

Mais gritos. O que se passa? Que raio estás a fazer? Ameaças e apelos intercalados. Mais ameaças do que apelos.

– Acalma-te. Podes ir-te embora daqui a mais ou menos meia hora. Partindo do princípio de que és aprovado, claro.

– O que queres dizer com aprovado? – perguntara Mirre. – Aprovado em quê?

Sessenta perguntas. Trinta segundos de reflexão para cada uma; um terço das respostas tem de estar certo.

– O que acontece se assim não for? – questionara Mirre.

– Vamos então começar – respondera o homem, que, provavelmente, nem se chamava Sven Cato. – Primeira pergunta: O que quer dizer o acrónimo OTAN? Trinta segundos a partir de agora.

O clique do cronómetro seguido de um tiquetaque mais suave, mas mais rápido, da contagem decrescente dos segundos.

Mirre não dera importância nenhuma às primeiras dez ou quinze perguntas. Continuara apenas a puxar as algemas, a perguntar que raio estava o homem a fazer, o que queria, a jurar que lhe lixaria a vida facilmente por isto ou que lhe daria tudo o que poderia querer, desde que o soltasse.

Ameaças e apelos.

O homem não se deixara influenciar. Continuara a fazer as suas perguntas com a mesma voz calma, iniciara o cronómetro, perguntara se deveria repetir a pergunta e esperara pela resposta. Passado algum tempo, referira objectivamente que as hipóteses de aprovação estavam a diminuir drasticamente e que Mirre faria melhor em tentar concentrar-se um pouco mais e ameaçá-lo um pouco menos.

Então Mirre começara a escutá-lo.

– O que é um número primo?

– Que animais são designados por The Big Five?

– Em que década se formou a ilha Surtsey, ao largo da costa sul da Islândia?

– Como se chama a unidade do Sistema Internacional utilizada para medir a intensidade da luz?

Fora talvez a meio que Mirre se apercebera de um som crepitante quando se movia. Plástico – estava sentado sobre plástico; um assento macio, almofadado, embrulhado em plástico. No mundo de Mirre, havia apenas dois motivos para isso.

Um era o assento ser novo.

Outro era o plástico servir de protecção.

Protecção contra manchas. Salpicos. Sangue.

Com uma descarga exponencial de adrenalina, decidiu que iria sobreviver a isto. Fazer o sacana ver. Tentou ouvir com atenção, tentou pensar – tinha de conseguir a maldita aprovação.

– Em que estado americano se situa a cidade de Chicago?

– Qual o símbolo químico do fósforo?

– Quem foi coroado rei da Suécia depois de Óscar I?

Pergunta após pergunta, sempre com o mesmo tom de voz calmo e grave. Mirre não sabia uma única das malditas respostas.

– Última pergunta: a que família pertence o glutão?

Clique.

A que família? Qual família? Mirre sabia como se dizia glutão em inglês. Wolverine. Vira todos os filmes da Marvel alguma vez feitos. Mas família?

– Queres que repita a pergunta?

– Não.

Silêncio. O tiquetaque suave, mas rápido. Clique.

– E acabou-se o tempo. Então vamos lá ver…

Mirre suspirou e pousou a cabeça sobre a mesa. Era impossível ter acertado em vinte perguntas. Nem sequer respondera a tantas.

Ao ouvir o homem erguer-se do outro lado da mesa, levantou lentamente a cabeça do tampo, seguindo-o pelo som. Parecia-lhe que estava a aproximar-se. De repente, Mirre sentiu algo frio e metálico contra a testa.

– Estás reprovado – disse o homem, que, obviamente, não se chamava Sven Cato.

Mirre nem teve tempo de desviar a cabeça, antes de o ar comprimido da pistola sacrificial fazer disparar a pequena vara metálica que, imediatamente, lhe atravessou o osso frontal, até penetrar no cérebro.

TODA A SUA VIDA estivera rodeada de mentiras. Invisíveis. As sombras haviam estado presentes durante mais de trinta anos, sem nunca as ter descoberto. Mas agora já não, agora via-as por toda a parte. Para onde quer que se virasse, encontrava-as.

As mentiras e as traições. Ninguém lhe dissera a verdade, ninguém. Nem Anna, nem Valdemar ou Sebastian. Mãe, pai e pai.

Mas agora recusava-se a pensar em qualquer um deles como sua família. Era demasiado afectuoso e não tencionava proporcionar-lhes isso. Agora, eram apenas pessoas com nome, nada mais.

Anna. Valdemar. Sebastian.

A sua vida começara a desintegrar-se passo a passo. Uma investigação policial sobre crimes económicos levara à detenção de Valdemar. Assumira desde o início que ele era inocente, vítima de circunstâncias infelizes. Afinal, tratava-se do seu pai. Mas ele confessara, e o seu mundo perdera o centro de gravidade.

Na altura não sabia que aquilo era apenas a ponta do icebergue.

O verdadeiro abismo abrira-se quando descobrira que ­Valdemar não era o seu pai biológico. Essa revelação quase a ­destruíra. Tentara freneticamente navegar pela sua nova realidade e descobrir a verdade. Confrontara Anna, sem nunca ter imaginado a sua capacidade de dissimulação.

Inventara um pai.

Um homem morto.

Mais uma mentira.

Vanja conseguia compreender o motivo pelo qual Anna não lhe contara a verdade sobre Valdemar. Compreender e talvez até apreciar. Ele fora, na prática, o seu pai durante toda a sua vida, o melhor pai que conseguia imaginar. Porquê retirar-lho? Porquê estragar a relação entre ambos quando não havia qualquer necessidade de o fazer?

E agora? Quando já sabia quem ele era ou, melhor dizendo, quem não era. Porquê continuar com as mentiras? Porquê recusar-lhe a verdade agora? Não era possível nem explicar, nem defender ou compreender, e o resultado tornou-se uma frieza imensa entre as duas. Um gelo emocional permanente que Vanja não sentia qualquer necessidade de tentar descongelar.

Não fora ela quem mentira.

Ela era inocente.

E depois, quando tudo à sua volta já estava fora de equilíbrio, Sebastian Bergman saíra repentinamente das sombras.

Ele era seu pai.

Fora por isso que procurara a divisão nacional de homicídios, a Riksmord, novamente.

A força impulsionadora era clara como a água; todas as suas acções tinham apenas um objectivo: aproximar-se mais dela, tornar-se seu amigo.

Sebastian acordara-a a meio da noite depois do casamento de Billy. Vanja continuara meio a dormir quando ele dissera que tinha algo para lhe contar e que não, não podia esperar. Ela não soubera ao certo o que esperava ouvir quando se sentara ao seu lado na cama por fazer, mas certamente não aquilo que ouvira, isso era mais que certo.

– Sou teu pai, Vanja – dissera, ao dar-lhe as mãos.

Esforçara-se pelo menos por lhe contar as coisas com alguma consideração. Tentara ser o mais sensível possível, explicara como descobrira e que, quando soubera, não quisera prejudicar a relação com Valdemar, que Anna o proibira, que, apesar de tudo, sempre quisera o melhor para ela.

Sebastian parecera-lhe sincero, e Vanja estava-lhe agradecida por isso. Todavia, isso não alterava nada na realidade – uma traição era uma traição.

Tinham brincado com a vida dela. Como naquele filme com o Jim Carrey, The Truman Show.

Tudo fora teatro, e todos haviam sido actores, excepto ela.

Ela, que sempre fizera questão de se reger pela racionalidade e pela lógica, perdera o pé. Era como se se encontrasse numa casa onde todas as portas davam para um novo beco sem saída. Por mais que procurasse, não conseguia encontrar escapatória.

Metera baixa médica durante duas semanas e ficara fechada em casa, a tentar controlar as emoções. Porém, isso não ajudara, apenas fizera que se desse conta de quão sozinha realmente estava.

Durante toda a vida adulta, focara a sua energia em duas coisas: o trabalho e a família.

Ser boa polícia. Ser boa filha.

Agora, sem família, só lhe restava o trabalho.

Mas aí também se encontrava o homem que revelara ser seu pai. Os seus dois mundos colidiam. Não conseguia livrar-se dos pensamentos que a perseguiam, em lado algum. Mas era disso que estava a precisar.

De construir uma vida para lá das sombras.

Uma vida própria. A sua.

Só não fazia ideia de como o poderia fazer.

NORMALMENTE, o volume de ruído, quando perto de duzentos alunos se reuniam à volta dos cacifos, ao longo das paredes, era completamente diferente. Mas as férias de Verão tinham começado na quinta-feira anterior, e Lise-Lotte González estava agora sozinha na escola silenciosa. Algum trabalho administrativo ficara por completar nas semanas anteriores ao final do ano lectivo, e ela decidira dedicar todo o tempo que fosse necessário até o terminar, para depois poder estar livre, com a consciência tranquila. No dia anterior, estivera no escritório apenas algumas horas, até que o bom tempo a fizera desistir, mas hoje decidira ficar até, pelo menos, às quatro da tarde.

Na realidade não lhe fazia diferença adiar as férias uma semana ou duas. Até era bom conseguir trabalhar concentrada, sem telefones a tocar, colegas a interromper e uma caixa de e-mail a encher-se rapidamente.

Por volta das duas, decidiu fazer uma pausa merecida. Dirigiu-se à sala de professores vazia, ligou a chaleira eléctrica e preparou uma chávena de Nescafé. Remexeu nas gavetas por baixo da bancada e encontrou uma caixa com bolachas de amêndoa velhas. Teriam de servir.

Depois da pequena pausa, decidiu dar um passeio. Gostava de passear pelas salas acabadas de renovar da sua escola.

Era assim que pensava nela.

Como a sua escola.

O que não correspondia à realidade. A escola Hildingskolan era o mais recente estabelecimento de ensino do grupo Donner a ser aberto para turmas do sexto ao nono ano.

E estavam a ter sucesso.

Uma boa afluência de alunos, boa reputação; todos os professores eram efectivos, e os resultados nacionais haviam ficado bem acima da média. Assim sendo, Lise-Lotte tinha a certeza de que a direcção do grupo não se arrependera em momento algum de lhe terem dado o cargo de directora.

Dobrou uma esquina e chegou ao corredor onde se ensinavam principalmente as disciplinas de ciências naturais. Lise-Lotte parou repentinamente. Uma das portas brancas novas, que, contra qualquer prognóstico, haviam sobrevivido o semestre inteiro sem terem sido escrevinhadas, estava entreaberta. Deveriam estar todas trancadas, uma vez que as salas tinham químicos, ácidos, botijas de gás e outros materiais caros e perigosos lá dentro.

No momento em que estava prestes a fechar a porta, resolveu dar uma vista de olhos dentro da sala.

O que era aquilo?

Abriu completamente a porta e confirmou o que lhe parecera ter visto: à esquerda do quadro interactivo estava uma figura sentada, em tronco nu, de costas para a sala.

– Desculpe?

Nenhuma reacção. Lise-Lotte entrou na sala.

– Desculpe, está tudo bem?

Continuava sem resposta, nada que indicasse que a pessoa a ouvira, sequer. Estaria sob o efeito de alguma coisa? A julgar pela posição em que se encontrava sentado na cadeira, parecia inconsciente ou, pelo menos, num sono profundo.

Lise-Lotte avançou por entre as mesas, com as cadeiras ordenadamente empilhadas de pernas para o ar, à espera de que o ano lectivo recomeçasse, dali a oito semanas.

– Está tudo bem? Está a ouvir-me?

Tratava-se de um jovem, em boa forma, tatuado. Mas o que era aquilo que tinha na cabeça? Um cone de papel ou o que seria? E o que tinha nas costas? Lise-Lotte só desejava que, se estivesse drogado ou inconsciente, não fosse com algo que tivesse encontrado na sala de química. Daria muito mau aspecto se um adolescente da localidade tivesse conseguido arrombar a porta e se tivesse drogado ou envenenado na sua escola.

Lise-Lotte parou novamente e, com uma expressão de surpresa e desconfiança, viu o que o rapaz tinha colado nas costas.

Duas folhas de papel.

Formato A4.

E com qualquer coisa escrito. Manchas de sangue nos pontos onde estavam fixadas, com grampos grandes, na pele nua. Lise-Lotte receou o pior enquanto dava os últimos passos e se inclinava para ver o rosto do rapaz.

Se os olhos fixos não fossem sinal suficiente de que o jovem estava morto, o pequeno orifício redondo que tinha na testa não deixava qualquer lugar para dúvidas.

VANJA ESTAVA SENTADA no sofá do gabinete de Torkel, à espera.

Ou chegara adiantada ou ele estava atrasado.

Provavelmente a primeira hipótese, pois Torkel era conhecido pela sua pontualidade. Vanja apercebeu-se de que estava nervosa, sem perceber porquê.

Torkel já sabia a verdade sobre Sebastian, ela contara-lhe quando ele lhe telefonara a perguntar como estava. Torkel não sabia porque metera baixa. Devia pensar que era uma gripe ou algo passageiro. Como era natural, ficara surpreendido, mas também se mostrara compreensivo e dissera-lhe para tirar o tempo que fosse preciso e que sabia onde ele se encontrava, se quisesse falar com alguém.

E era disso que precisava agora.

Não tinha mais ninguém e apercebera-se de que, sozinha, não chegaria a lado nenhum.

Através da parede de vidro, viu Torkel aproximar-se. Levantou-se imediatamente e tentou acalmar-se, maldizendo ao mesmo tempo esse movimento instintivo. Era com Torkel que ia falar. O seu amigo e mentor, e os acontecimentos dos últimos tempos não o haviam alterado.

Tudo iria correr bem.

Ele estava do seu lado.

Então por que se comportava como uma criança de primeiro ano, chamada à sala do director?

A alguns metros do gabinete, Torkel reparou nela, sorriu amigavelmente e acenou-lhe, mas Vanja ficou com a sensação de ter visto alguma preocupação nos seus olhos. Veio-lhe então à cabeça que ele poderia estar tão nervoso como ela em relação a esta reunião.

Torkel não sabia por que motivo ela estava ali.

Pensaria que estava prestes a perdê-la?

Estaria efectivamente a perdê-la? Por que razão estava realmente ali?

Nem ela própria sabia responder. Perdera o controlo. Não era típico dela. Era por isso que estava nervosa.

– Olá, Vanja, que bom ver-te outra vez! – disse Torkel ao entrar e aproximar-se dela para lhe dar um abraço. – Como tens passado?

– Não muito bem. – Vanja sentiu, de repente, um grande alívio por ter alguém que era importante para ela a fazer-lhe aquela pergunta. Alguém que se importava com ela. – Não consigo assimilar tudo.

– Compreendo – respondeu Torkel calmamente, ao mesmo tempo que a agarrou pelos ombros, à distância dos braços. – Tem sido demasiado para ti.

– Sim, é verdade…

Torkel esboçou um ligeiro sorriso e apertou-lhe mais os ombros, antes de a soltar e se ir sentar numa das poltronas para as visitas. Fez um gesto com a cabeça para que Vanja se sentasse no sofá à sua frente.

– Tive um encontro rápido com o Sebastian ontem – disse-lhe quando ela se instalou. – Ele também não tem aparecido muito por aqui.

– Disseste-lhe que sabias? – perguntou Vanja.

Torkel abanou a cabeça. O que pensava realmente dele? Ela pedira-lhe que não contasse. E devia saber que ele nunca trairia a sua confiança dessa maneira.

– Como fazemos agora? – continuou ele e inclinou-se para a frente, repousando os cotovelos nos joelhos e juntando as mãos. – Como queres fazer? Tu é que decides.

Vanja encarou o seu olhar amigável e aberto e desejou conseguir dar uma resposta melhor.

– Não sei.

– Ele nem sequer é efectivo, só tem um contrato de consultor. Posso rescindi-lo hoje, se quiseres.

Vanja ficou surpreendida e sem saber muito bem o que dizer, nem sequer equacionara essa possibilidade. Sentia que Sebastian fazia parte da equipa, exactamente como ela própria. E, de repente, tinha a possibilidade de o alterar. De se desfazer dele.

Mas não era simples.

Uma parte de si nunca mais queria vê-lo. Outra parte estava mais insegura, mais confusa.

– Não sei – conseguiu, por fim, dizer. Era a ausência de resposta que parecia utilizar cada vez mais. A que deixava aos outros a responsabilidade de tomar as decisões.

– Posso despedi-lo imediatamente, é contigo – repetiu Torkel.

Vanja assentiu com a cabeça, agradecida, embora a incerteza fosse tão grande como a gratidão. Se não maior.

Vanja não odiava Sebastian Bergman, não estava tão zangada com ele como estava com Anna e Valdemar. Muito pelo contrário. Na verdade, não lhe desejava nada de mal. Tinham alcançado alguma confiança, um com o outro, uma parte dela até gostava dele.

– Tenho de pensar. De certa maneira, parece-me uma solução demasiado fácil – disse-lhe.

– Às vezes, o mais fácil é o melhor – respondeu Torkel.

Certo, embora isso fosse o mesmo que tentar fugir às dificuldades. Escondê-las debaixo de um tapete. E não era ela. Ela não queria evitar os problemas. Queria resolvê-los. Frontalmente. Ou pelo menos tentar, antes de desistir.

Recusou com a cabeça.

– Deixa-o ficar. Se mudar de ideias, aviso-te.

Torkel assentiu. No entanto, era impossível decifrar, pelo seu rosto, o que realmente pensava da decisão que Vanja tomara. Ia acrescentar alguma coisa quando o toque de um telefone o interrompeu, e, desta vez, não havia dúvidas em relação à sua expressão. Irritação. Levantou-se e contornou a secretária, ao mesmo tempo que levantava o auscultador do telefone fixo.

– Disse que não queria ser incomodado – respondeu secamente. Depois ouviu e pegou num bloco que estava em cima da mesa e numa caneta. – De onde disseste que ela estava a ligar?

Torkel começou a escrever. Vanja levantou-se do sofá. Não sabia quem ligava nem de onde, mas percebeu que acabavam de receber um novo caso.

SEBASTIAN NÃO PERCEBIA muito bem como fora parar à ilha de Adelsö. Ou melhor, amaldiçoava-se por se ter permitido ir parar a Adelsö. Era verdade que jogava sempre no campo contrário, mas, de modo geral, tinha a inteligência suficiente para se certificar de que sairia facilmente de um sítio, quando precisasse. De preferência, antes de a mulher com quem dormira acordar. Atribuía desta vez a responsabilidade de não ter sido tão precavido ao facto de o seu vício ter atingido um pico, nos últimos tempos. A necessidade de seduzir tinha mais ou menos tomado conta da sua existência.

Depois dos acontecimentos em Värmland.

Depois de Maria e da sua filha Nicole.

A menina testemunhara o assassinato dos primos, da tia e do tio maternos e recusara-se a falar, quando a polícia a encontrara. Sebastian encarregara-se de a ajudar a ultrapassar o trauma. Durante esse tempo, apegara-se à menina e à mãe. Demasiado. Elas tinham ido viver para sua casa. Haviam formado uma pequena família. Nicole preenchera o vazio deixado pela sua filha morta.

Não era saudável.

Não era suportável.

E assim fora.

Acabara com Maria a mostrar-lhe claramente que nunca mais o queria ver.

Mas Sebastian queria vê-las a elas.

Assim, reservara algum tempo a tentar encontrá-las. Não fora muito difícil, tinham-se mudado do apartamento de Enskede para uma pequena vivenda geminada na área de Åkersberga. Sebastian fora até lá, mas, já à porta, hesitara.

O que faria?

O que podia fazer?

Queria explicar-se. Dizer o que elas significavam para ele. Quanto queria tê-las por perto outra vez. Que elas, de alguma maneira, o haviam feito sentir-se mais completo do que alguma vez se sentira, desde o dia a seguir ao Natal de 2004.

No entanto, mentira-lhes. E a si mesmo. Ou, como Vanja dissera, aproveitara-se delas no seu momento de maior vulnerabilidade. Maria também o sabia, portanto, o que esperara ganhar ao aparecer de repente nas suas vidas, de novo? Nada. E, por isso mesmo, deixara-as. Deixara o bairro de casas geminadas.

Deixara Maria e Nicole.

Voltara a refugiar-se nas ligações sexuais esporádicas e sem sentido.

Como a da ilha de Adelsö.

O sonho despertara-o pouco antes das seis. Como de costume, tinha o punho direito firmemente cerrado. Esticou lentamente os dedos, ao mesmo tempo que se apercebeu de que não fazia sentido levantar-se e tentar escapar. Mesmo que soubesse o caminho, o que não sabia, não tinha vontade nenhuma de andar a pé sete quilómetros até um ferry para, a seguir, ser obrigado a andar uma eternidade de autocarro, até estar de regresso a Estocolmo. Então permaneceu deitado, a olhar para o tecto, até ouvir a mulher ao seu lado, Kristina… qualquer coisa, acordar. No mesmo instante em que ela abriu os olhos, Sebastian sorriu-lhe e acariciou-lhe rapidamente o rosto.

– Bom dia.

Ela espreguiçou-se e, quando se preparava para fazer deslizar uma mão por baixo do cobertor, Sebastian atirou-o para o lado e levantou-se.

– Vou tomar banho. Importas-te que use uma toalha?

Kristina pareceu-lhe um pouco desiludida com aquela fuga rápida, mas ele não podia de maneira nenhuma pensar novamente em sexo. Era a tensão, o desafio de controlar o cenário de sedução, jogar o jogo, que o levava a conseguir, por um curto período, esquecer a dor e a culpa que lentamente o envenenavam. Era disso que precisava. Sem isso, o sexo era mera tortura.

Quando saiu do duche, Kristina preparara-lhe o pequeno-almoço. Sebastian não tinha fome, tentava sempre evitar estas situações a todo o custo. A falsa sensação de proxi­mi­dade, a ilusão de terem algo em comum – apesar de, se dependesse dele, nunca mais se verem novamente – causava-lhe arrepios.

– Queres dar um passeio depois do pequeno-almoço? – perguntou Kristina, ao mesmo tempo que punha manteiga no pão aquecido no microondas.

– Não, quero que me dês boleia até ao ferry – respondeu Sebastian, sinceramente. – Ou, melhor ainda, até ao centro da cidade.

Kristina pousou a faca da manteiga e sorriu-lhe, um pouco surpreendida, como se o que acabava de ouvir não fizesse minimamente parte dos seus planos para aquele dia.

– Ontem à noite disseste que não tinhas muita pressa de voltar hoje.

– Ontem à noite teria dito qualquer coisa para te levar para a cama.

Era verdade, mas dizê-lo, nesta situação, teve consequências.

A consequência positiva foi que o pequeno-almoço indesejado terminou imediatamente.

A negativa foi que Kristina não tinha a menor intenção de o levar de carro nem até à esquina.

Portanto, Sebastian passeava-se agora por algo chamado circunvalação de Adelsö, na esperança que aquele caminho o levasse até ao cais.

O seu telemóvel tocou.

Deu por si a desejar que fosse Vanja.

Há quase um mês, na noite depois do casamento de Billy, sentira-se obrigado a contar-lhe o que já sabia desde há algum tempo.

Que era seu pai.

Naturalmente, Vanja ficara chocada. De início, não quisera acreditar e depois, quando finalmente se convencera que ele lhe estava a dizer a verdade, pedira-lhe que se fosse embora. Não no sentido de «nunca mais te quero ver», mas por necessidade de ficar sozinha.

Precisava de tempo para digerir.

De certeza que o iria contactar.

Não o fizera.

Sebastian conhecia-a suficientemente bem para saber que, para a relação de ambos, já de si bastante frágil e muito recente, ter alguma hipótese de sobrevivência, tudo teria de decorrer segundo as condições de Vanja. Teria de ser ela a estabelecer o ritmo. O menor sinal de insistência da sua parte faria que ela se virasse contra ele, para sempre.

Assim, Sebastian estava sozinho.

Não se dava bem sozinho.

Por esse motivo, passeava agora por Adelsö.

E não era Vanja quem estava a ligar. Era Torkel.

Estava na altura de voltar ao trabalho.

URSULA SURPREENDEU-SE ao ver a colega mais nova entrar pelas portas do terminal. Torkel não tinha a certeza se Vanja iria com eles, mas, aparentemente, conseguira convencê-la. Ursula compreenderia perfeitamente se Vanja tivesse optado por deixar passar este caso. Nem ela sabia se queria voltar a trabalhar com Sebastian. Não só por ele ser um mentiroso viciado em sexo, mas porque agora revelara ser pai de Vanja.

Ursula tinha as suas próprias razões.

Perdera o olho direito pelo facto de estar perto dele.

Os dois sozinhos em casa dele.

Respirava-se tensão sexual no ar.

Talvez mais qualquer coisa, pelo menos do lado dela, embora nunca o admitisse. Uma ex-namorada com uma pistola apontada contra o óculo da porta. Depois, Sebastian nem sequer a visitara no hospital. Pedira umas desculpas esfarrapadas e pretendera que retomassem as coisas onde as haviam deixado. Como se nada tivesse acontecido.

Ursula virou-se para Torkel, que estava uns passos atrás.

– O Sebastian também vem?

– Sim, disse que vinha.

– E a Vanja, acha bem?

– Sim.

– Não podemos ir a votos? – perguntou, ao mesmo tempo que cumprimentava Vanja com a mão, que parara mesmo antes das portas de vidro e os procurava com o olhar.

Vanja acenou de volta e aproximou-se dos dois, com a sua mala preta de cabine que levava sempre consigo, surpreendentemente cheia, na opinião de Ursula. Talvez um pouco mais pálida do que o normal. E também parecia ter perdido alguns quilos.

– Há problema em ele vir connosco? – perguntou Torkel, e Ursula sentiu que ele a olhava de forma inquisidora.

Havia algo no seu tom de voz… Pensava que ele já ultrapassara o facto de ela ter estado em casa de Sebastian, quando fora atingida. Que os ciúmes iniciais eram um capítulo encerrado. Mas talvez não. Apesar de tanto ela como Sebastian terem garantido que fora um encontro inocente. Um jantar agradável. Mais nada.

– O Sebastian é sempre um problema – respondeu, encolhendo os ombros para desdramatizar a situação.

– Para ti pessoalmente?

Claramente nada encerrado.

– Não – respondeu ela com um suspiro. – Não mais do que o habitual – acrescentou.

Vanja chegou ao pé deles, e Ursula, para surpresa das duas polícias, deu-lhe um abraço. Nunca abraçava ninguém. Nem a própria filha.

– Olá, querida, como estás? – perguntou-lhe.

Vanja olhou-a meigamente. Agradecida pela atenção inesperada.

– Estou melhor. Vai fazer-me bem voltar a trabalhar.

Virou-se para Torkel e desviou a conversa da sua vida privada para o trabalho.

– Só tive tempo de dar uma vista de olhos rápida pelo relatório preliminar no táxi – disse, desculpando-se um pouco. – Sabemos mais alguma coisa?

– Não muito – respondeu Torkel. – Dois homicídios. Espectaculares. Idênticos. As vítimas foram mortas um tiro no meio da testa, encontradas em salas de aula, com um cone de papel na cabeça e uma espécie de… teste, cravado nas costas. A primeira em Helsingborg, na semana passada. A segunda anteontem, em Ulricehamn.

– Então o assassino está em movimento?

– Parece que sim – disse Torkel. – Infelizmente, o relatório preliminar da polícia de Helsingborg tem algumas falhas.

Ursula abanou a cabeça.

– Então vamos começar nos dois sítios, como sempre – disse, com um certo sarcasmo.

– Ainda não sabemos. Também há bons polícias fora da ­Riksmord – retorquiu Torkel.

– Pena nunca os ter conhecido – contra-atacou Ursula, com um sorriso. – Sei que gostas de defender os saloios, mas até tu tens de reconhecer que o relatório da polícia de Helsingborg estava uma desgraça.

Olhou para Vanja procurando encorajamento, mas descobriu que a colega tinha a sua atenção concentrada noutro sítio. Ursula virou-se e viu o que Vanja já notara. Sebastian transpunha as portas giratórias com a calma de quem não tem qualquer preocupação na vida. Atrás dele, Ursula viu Billy sair de um táxi e apressar-se em direcção às portas.

O grupo já estava todo reunido…

Ao ver Vanja, Sebastian, parou, e de repente o seu ar despreocupado pareceu esfumar-se.

– Vou falar com ele – sussurrou Vanja e largou a mala.

– Queres que vá contigo? – perguntou-lhe Torkel, num tom de voz quase paternal.

– Não é preciso.

Começou a dirigir-se a Sebastian, que também pousou a sua mala, num gesto claro de que tencionava esperar por ela. Billy passou por ele, acenou-lhe discretamente com a cabeça e continuou na direcção de Torkel e Ursula, sem parar. Sebastian sabia dos segredos obscuros que se escondiam por detrás daquela fachada de indiferença. Sabia aquilo que Billy escondia. Mas, naquele momento, apreciava o facto de o colega agir como se nada se passasse. Tinha de se concentrar na filha.

– Olá, Vanja – disse, calmamente, quando ela ainda se encontrava a alguns metros de distância. – Não sabia ao certo se também virias.

– Mas vim.

– Tinhas dito que me ias contactar…

Vanja deu os últimos passos e aproximou-se tanto que ele conseguia sentir o aroma do seu champô. Parecia-lhe que ela tentava criar uma bolha de privacidade no meio de toda a confusão.

– Passei pela rua Grev Magnigatan, hoje – começou por dizer baixinho, para que nenhuma de todas aquelas pessoas que estavam por perto pudesse ouvir do que estavam a falar. – Mas tu não estavas em casa.

– Pois não, estava em casa de… um amigo.

Sebastian amaldiçoou-se novamente por ter ido parar a Adelsö. Se não tivesse saído da área metropolitana, provavelmente não se teria desencontrado de Vanja.

– Tu não tens amigos – constatou Vanja, com uma brusquidão desnecessária. – Deves ter andado foder a alguém – continuou, para demonstrar novamente que o conhecia demasiado bem.

Sebastian percebeu que havia momentos melhores e piores para mentir. Este era um dos piores.

– Desculpa – respondeu-lhe com sinceridade. – Não sabia que ias passar lá por casa. Devias ter ligado antes.

– Foi uma decisão espontânea – disse Vanja com um encolher de ombros. – Tinha estado a falar com o Torkel e queria que soubesses que contei a todos os membros da equipa a nossa… a nossa relação de parentesco.

– Que eu sou teu pai?

Vanja olhou-o com uma certa frieza. Era tão fácil para ele, tão difícil para ela… Não era justo.

– Gostas de referir-te a ti próprio assim, não gostas?

– Sim, gosto – assentiu Sebastian. – Tenho orgulho em ti. Mas, se te perturba, deixo de o fazer.

Olhou em volta pelo terminal. Um pouco adiante estavam Torkel, Ursula e Billy, os três uns ao lado dos outros, a olhar na direcção dele e de Vanja. Sebastian ficou com a sensação de que pelo menos dois deles, se não os três, preferiam que ele virasse costas e voltasse para casa. Que os deixasse para sempre. Mas não se importava com o que eles pensavam. A única pessoa que realmente importava era a que tinha à sua frente.

– Faço o que quiseres, só não quero perder-te – admitiu, ao mesmo tempo que, sem reflectir, esticou a mão e agarrou a dela. Para sua surpresa, ela não a retirou. – Não estavas preparada para isto – continuou com franqueza. Esta poderia ser a conversa mais importante que alguma vez teria. Talvez a mais importante da sua vida. Não pensava deitar tudo a perder por se distanciar emocionalmente. – Compreendo que estejas zangada comigo. Zangada com toda a gente. Percebo…

Fez uma pausa. Mediu as palavras. Era como estar em cima de uma ponte instável a tentar manter o equilíbrio. Com um precipício de cada lado, de onde, a qualquer momento, a filha o podia empurrar para o vazio.

– O meu maior medo, desde que descobri quem tu és, tem sido esta situação, estarmos frente a frente, e tu decidires virar as costas. Não me permitires aproximar. Andava aterrorizado só de pensar nisso. Ando aterrorizado ao pensar nisso.

Inspirou profundamente antes de continuar. Não fazia a menor ideia se estava a conseguir chegar a ela. O rosto de Vanja não deixava transparecer nada do que estava a pensar. Mas continuava a segurar-lhe a mão.

– Mas a vida é tua. Tem de ser uma escolha tua.

Parou de falar. Havia mais coisas que queria dizer, mas era demais, coisas demasiado grandes para abordar num aeroporto ruidoso e cheio de vida. Então aguardou. Um tempo que lhe pareceu uma eternidade.

– Podes continuar a ser meu colega – acabou por responder Vanja. Calma e contida. – A outra parte… – Calou-se. Também ela parecia medir bem as palavras. Olhou-o intensamente com os seus belos olhos azuis. – Tu não és meu pai. Não dessa maneira, não da maneira «vamos festejar juntos o Natal e ofereço-te flores no Dia do Pai».

Sebastian assentiu com a cabeça. Parecia estar a correr melhor do que ousara esperar.

– Não consigo lidar com isto agora – continuou Vanja, como se esperasse que ele se opusesse. – Talvez nunca venha a conseguir. Podemos ser apenas colegas. Achas que consegues?

Sebastian suspirou profundamente de alívio. Ela parecia pelo menos aceitar uma pequena parte dele, e uma pequena parte era melhor do que nada.

– Vou fazer o melhor que conseguir – respondeu com dignidade.

– Faz melhor do que o melhor que conseguires – disse Vanja, conseguindo esboçar-lhe um pequeno sorriso. – Já vi o melhor que consegues fazer.

E com estas palavras afastou-se e regressou para junto dos outros.

Uma voz no altifalante anunciava que os passageiros do voo para Gotemburgo deveriam deslocar-se para a porta de embarque número 37. Sebastian voltou a pegar na mala e seguiu a colega.

COMO DE COSTUME, Billy ignorou todos os limites de velocidade e câmaras de trânsito, durante os pouco mais de oitenta quilómetros entre o aeroporto de Landvetter e Ulricehamn, o que lhes permitiu observar o lago Åsunden em toda a sua extensão, menos de quarenta e cinco minutos depois de se terem sentado no carro, à porta do terminal das chegadas. Sebastian pensava recordar-se de ter havido uma batalha importante nas águas geladas daquele lago, em algum momento da história. Mas não fazia a mais pequena ideia de quando, entre que contendentes, quem ganhara e que consequências isso tivera.

Passaram pela extremidade sul do lago e por um grande parque de campismo que fervilhava de vida, e o GPS informou-os de que deviam virar à direita, e novamente à direita em Boråsvägen, uma rua que, aos olhos de Sebastian, era exactamente igual ao resto das ruas principais de todas as cidades de província que visitara. Muita vegetação. Casas antigas que alternavam com algumas lojas e pequenas indústrias. Depois, surgiram alguns blocos de vivendas do lado direito, que, pelo menos dos andares superiores, deviam ter boa vista para o lago e, provavelmente, preços em linha com isso. E, finalmente, chegaram à esquadra da polícia. Ao sol do meio-dia, parecia de construção recente. O andar térreo era de tijolo, e o de cima estava rebocado e pintado de amarelo. Toldos verdes e o emblema da polícia de cada lado da entrada. Billy virou à esquerda e estacionou junto a um relvado circular, onde três pedras estavam encostadas umas às outras, no que parecia um Stonehenge em miniatura.

– Torkel Höglund? – ouviram alguém perguntar, atrás deles, quando saíram do carro.

Todos se voltaram e viram uma mulher nos seus quarenta e cinco anos aproximar-se, ao mesmo tempo que apontava com a mão, que segurava a chave de um carro, para trás de si e que os piscas de um Passat verde, mais abaixo no estacionamento, acendiam. – Eva Florén, Polícia de Borås, região de Västra Götland. Fui eu que vos liguei hoje de manhã.

Torkel apertou-lhe a mão estendida e apresentou os restantes membros da equipa.

– Acabei de chegar da medicina legal, em Gotemburgo – continuou Eva, ao mesmo tempo que os dirigia para o interior do edifício. – Temos uma identificação segura por parte do pai da vítima.

Guiou-os através da recepção, onde dois polícias fardados estavam atrás do balcão, a olhar cada um para o seu ecrã. Não havia nenhum visitante. Um passar de cartão de segurança e depois o zumbido de um trinco de porta, e estavam no interior da esquadra.

– Alguém quer café? – perguntou Eva ao passarem pela copa, onde tudo, desde bancadas, armários e mesas, era feito de madeira clara.

Uma ilha de cozinha curva, com um armário pendurado do tecto, separava o canto com o congelador e o frigorífico, o lava-louça, a máquina de café, o microondas e as bancadas de trabalho do resto da sala, onde umas cadeiras estofadas a fúcsia rodeavam a mesa. Havia cortinados brancos com bolas coloridas em todas as janelas. Alguém se empenhara bastante em tentar criar na sala um ambiente de trabalho moderno, e com bastante sucesso.

– Sim, obrigado! – respondeu Sebastian à oferta de café, enquanto todos os outros recusaram. – Simples, mas de preferência com um cubo de açúcar, se houver.

Vanja lançou-lhe um olhar. Era evidente que havia a possibilidade de apenas lhe apetecer um café, mas ela pressentia que a resposta afirmativa e o sorriso caloroso que se lhe seguira eram o início de uma tentativa de sedução da inspectora de Borås, que acabava de tirar uma chávena de uma das prateleiras com uma mão onde eram bem visíveis tanto um anel de noivado como um de casamento. Não que isso fizesse alguma diferença para Sebastian.

– Muito obrigado – disse, quando Eva, no minuto seguinte, lhe estendeu a chávena com a bebida fumegante.

Novamente um sorriso, e Vanja reparou com um suspiro entediado que Sebastian fizera de propósito para que a sua mão tocasse levemente na de Eva, ao receber a chávena. Se antes tivera dúvidas, agora haviam-se esbatido por completo. Na realidade, não era nada de novo, e era até aquilo que já esperava de Sebastian, mas o seu comportamento incomodava-a muito mais agora, que sabia quem ele era. Pensar nele apenas como colega de trabalho numa situação como aquela não estava a ser fácil. Perguntou-se se deveria abordar o assunto com ele.

Eva dirigiu-os à sala de reuniões da esquadra. Quadro branco numa das paredes, cadeiras de estofo fúcsia iguais às da cozinha, os mesmos cortinados brancos com bolas nas janelas.

– Esta será a vossa sala. É a única que temos aqui. Se precisarem de mais alguma coisa, terão de ir ao nosso escritório, em Borås.

As mesas estavam agrupadas duas a duas, em três filas, viradas para o quadro branco, em vez de estarem todas juntas no meio da sala, como a equipa da Riksmord estava habituada a ver nas salas que punham à sua disposição.

– Serve perfeitamente – disse Torkel. – É maior do que os que normalmente nos dão.

– Agora está com ar de sala de aula, com as mesas assim em fila – continuou Eva, em jeito de desculpa. – Mas podem dispô-las como quiserem.

Sentaram-se. Ursula, Vanja e Torkel ocuparam a fila da frente. Sebastian e Billy colocaram-se atrás deles. À sua frente, todos tinham uma pasta verde-escura.

– Tiveram tempo para estudar o material? – perguntou Eva.

– Alguns mais do que outros, mas gostaríamos muito de ouvir a tua explicação – respondeu Torkel.

Eva assentiu com a cabeça, abriu uma pasta idêntica à que eles tinham à sua frente e mostrou-lhes uma fotografia de um jovem musculado, que sorria para a câmara, descontraidamente.

– Miroslav Petrovic, vinte e um anos, foi encontrado morto no laboratório de química da escola Hildingskolan, ontem à tarde – começou Eva.

– Mirre – exclamou Billy, como se, de repente, tivesse visto um velho conhecido.

– Sim, era assim que lhe chamavam.

– Não tinha associado até agora – continuou Billy, abanando a cabeça.

– O que é que não tinhas associado? – questionou Torkel, observando Billy com curiosidade.

– Ficou em terceiro lugar no programa Paradise Hotel – respondeu Billy, como se isso explicasse tudo.

Os outros contentaram-se com a resposta.

– Ontem, de manhã, recebemos a informação de que um homicídio semelhante tivera lugar em Helsingborg, na semana passada – prosseguiu Eva. – Foi então que decidimos contactar-vos.

– Patricia Andrén – acrescentou Torkel.

– Exacto, embora isso seja praticamente tudo o que sabemos. Foi encontrada numa escola, cone de papel na cabeça, alvejada na testa e com uma espécie de teste agrafado ao corpo, precisamente como o Petrovic. Um relatório mais detalhado vem a caminho, espero eu.

– Óptimo – assentiu Torkel. – O que mais sabemos sobre o Petrovic, para além de que está morto?

– Como já foi dito, uma pequena celebridade depois da participação naquele reality show. Segundo o pai, Gabriel Petrovic, o filho ia encontrar-se com um jornalista para uma entrevista, na terça-feira passada. À hora de almoço. Não foi visto desde então.

– O pai sabia o nome do jornalista? – quis Vanja saber, participando pela primeira vez na reunião.

– Sim, Sven Cato. Há seis pessoas com esse nome na Suécia. Ninguém o usa como nome próprio.

– Algum deles é jornalista? – continuou Vanja, bem consciente da resposta que ia ouvir. Se fosse assim tão simples, não teriam chamado a equipa da Riksmord.

– Não. Estamos a verificar, obviamente, mas partimos do princípio de que é um nome falso.

– Sabemos se realmente se encontraram e, se sim, onde? – concluiu Vanja.

– Ainda não. Por enquanto, temos conseguido manter a sua identidade longe da imprensa, por isso ainda não começámos a receber pistas por parte dos cidadãos.

– E terá sido a melhor opção? – perguntou Torkel, com um claro descontentamento na voz. Petrovic teria provavelmente sido assassinado há mais de quarenta e oito horas. Os dois primeiros dias eram importantes. As informações de testemunhas sobre terça-feira seriam cada vez menos valiosas, quanto mais tempo esperassem.

– Provavelmente não, mas foi um pedido do pai.

Torkel soltou um suspiro, pesaroso, e assentiu. Era sempre difícil tomar uma decisão nesses casos.

– Se a imprensa não chegar lá antes, amanhã temos de divulgar a informação. Temos de conseguir mapear as suas últimas horas, o mais rigorosamente possível.

– Esta investigação agora é sua – assentiu Eva. – Poderá divulgar quando quiser. Eu só queria explicar o motivo para não o termos feito até este momento.

– E a escola? – Ursula interrompeu a discussão. – Algumas pistas?

Eva abanou a cabeça ao começar a falar, o que, por si só, era resposta suficiente para Ursula.

– A sala de aula foi o local onde o encontrámos, mas não é o local do crime.

– E o resto da escola?

– Uma porta no rés-do-chão fora forçada. Mas nada aponta para que ele tenha sido assassinado ali.

Nada que a polícia local de Ulricehamn tenha encontrado aponta para que tenha sido assassinado ali, quis Ursula corrigir, mas lembrou-se de que Torkel lhe pedira para guardar para si própria a sua total desconfiança face às capacidades da polícia local.

– Alarmes? – resolveu perguntar em vez disso, apesar de julgar já saber a resposta.

Um novo assentir de cabeça. Ursula suspirou.

– Quero dar uma vista de olhos.

– Claro que sim, levo-te quando tivermos terminado aqui.

Seba ...