Loading...

O BARULHO DAS COISAS AO CAIR

Juan Gabriel Vásquez  

0


Excerto

O primeiro dos hipopótamos, um macho da cor das pérolas negras e tonelada e meia de peso, caiu morto em meados de 2009. Fugira dois anos antes do antigo jardim zoológico de Pablo Escobar no vale do Magdalena, e durante esse tempo de liberdade tinha destruído cultivos, invadido bebedouros, atemorizado os pescadores e chegara a atacar os cobridores de uma criação de gado. Os franco-atiradores que o alcançaram dispararam-lhe um tiro na cabeça e outro no coração (com balas de calibre .375, pois a pele de um hipopótamo é grossa); posaram com o corpo morto, essa grande mole escura e rugosa, um meteorito acabado de cair; e ali, diante das primeiras câmaras e dos curiosos, sob uma ceiba que os protegia do sol violento, explicaram que o peso do animal não iria permitir que fosse transportado inteiro, e começaram de imediato a esquartejá-lo. Eu estava no meu apartamento em Bogotá, uns duzentos e cinquenta quilómetros ao sul, quando vi a imagem pela primeira vez, impressa em meia página de uma revista importante. Soube assim que as vísceras tinham sido enterradas no mesmo local em que a besta caiu, e que a cabeça e as patas, ao invés, foram parar a um laboratório de biologia da minha cidade. Soube também que o hipopótamo não tinha fugido sozinho: no momento da fuga fazia-se acompanhar pela sua parceira e pela sua cria — ou aqueles que, na versão sentimental dos jornais menos escrupulosos, eram a sua parceira e a sua cria —, cujo paradeiro se desconhecia por ora e cuja busca adquiriu de imediato um travo a tragédia mediática, a perseguição de umas criaturas inocentes por parte de um sistema desalmado. E num desses dias, enquanto acompanhava a caçada através dos jornais, dei por mim a recordar um homem que havia muito não fazia parte dos meus pensamentos, apesar de numa certa época nada me ter interessado tanto como o mistério da sua vida.

Durante as semanas que se seguiram, a lembrança de Ricardo Laverde passou de um assunto casual, uma dessas rasteiras que a memória nos prega, a converter-se num fantasma fiel e dedicado, sempre presente, a sua figura de pé junto à minha cama nas horas de sono, olhando-me de longe nas de vigília. Os programas de rádio da manhã e os noticiários da noite, as colunas de opinião que toda a gente lia e os bloguistas que ninguém lia, todos se interrogavam se seria necessário matar os hipopótamos extraviados, se não bastaria acorrentá-los, anestesiá-los, devolvê-los a África; no meu apartamento, longe do debate mas seguindo-o embora com um misto de fascínio e repugnância, eu pensava com uma concentração cada vez maior em Ricardo Laverde, nos dias em que nos conhecemos, na brevidade da nossa relação e na longevidade das suas consequências. Na imprensa e nos ecrãs as autoridades procediam ao inventário das doenças que um artiodáctilo pode propagar — e usavam essa palavra, artiodáctilo, nova para mim —, e nos bairros ricos de Bogotá apareciam camisolas com a legenda Save the hippos; no meu apartamento, nas longas noites de cacimba, ou caminhando pela rua rumo ao centro, eu começava a recordar o dia em que Ricardo Laverde morreu, e a obstinar-me até com a precisão dos detalhes. Surpreendeu-me o pouco esforço que fazia para evocar essas palavras ditas, essas coisas vistas ou escutadas, essas dores sofridas e já superadas; surpreendeu-me também a presteza e a dedicação com que nos entregamos ao daninho exercício da memória, que no fim de contas nada traz de bom e só serve para entorpecer o nosso normal funcionamento, à semelhança daqueles sacos de areia que os atletas atam à volta das pantorrilhas para treinar. Pouco a pouco fui-me dando conta, não sem um quê de pasmo, de que a morte daquele hipopótamo dava por terminado um episódio que na minha vida tinha começado havia um tempo, mais ou menos como quem volta a casa para fechar uma porta que por descuido ficara aberta.

E foi assim que este relato se pôs em marcha. Ninguém sabe porque é necessário recordar o que quer que seja, que benefícios nos traz ou que possíveis castigos, nem de que maneira o que foi vivido pode mudar quando o recordamos, mas recordar bem Ricardo Laverde tornou-se para mim um assunto premente. Li algures que um homem deve contar a história da sua vida aos quarenta anos, e esse prazo peremptório pende sobre mim: no momento em que escrevo estas linhas, apenas umas quantas semanas me separam desse aniversário ominoso. A história da sua vida. Não, eu não contarei a minha vida, mas apenas uns quantos dias que ocorreram há muito, e fá-lo-ei para mais com plena consciência de que esta história, como se repara nos contos infantis, já aconteceu antes e voltará a acontecer.

Que me tenha calhado a mim contá-la é o menos.

*

No dia da sua morte, no início de 1996, Ricardo Laverde tinha passado a manhã a passear pelas calçadas estreitas de La Candelaria, no centro de Bogotá, entre casas velhas com telhas de barro cozido e placas de mármore que resenham para ninguém momentos históricos, e por volta da uma chegou aos bilhares da Calle 14, disposto a disputar um par de jogos com os clientes habituais. Não parecia nervoso nem perturbado quando começou a jogar: usou o mesmo taco e a mesma mesa de sempre, a que ficava mais perto da parede dos fundos, por baixo do televisor aceso embora mudo. Concluiu três jogos, embora não recorde quantos ganhou e quantos perdeu, pois nessa tarde eu não joguei com ele, mas na mesa do lado. Porém, recordo bem, ao invés, o momento em que Laverde pagou as apostas, se despediu dos bilharistas e se dirigiu para a porta da esquina. Ia a passar entre as primeiras mesas, que costumam estar vazias pois o néon produz sombras estranhas sobre o marfim das bolas nesse ponto do estabelecimento, quando cambaleou como se tivesse tropeçado nalguma coisa. Deu meia volta e regressou ao local onde nos encontrávamos; esperou com paciência que eu terminasse a série de seis ou sete carambolas a que tinha dado início, e até aplaudiu brevemente uma às três tabelas; e depois, enquanto me via a marcar no quadro os pontos que conseguira, aproximou-se de mim e perguntou-me se não sabia onde lhe poderiam emprestar um aparelho qualquer para ouvir uma gravação que tinha acabado de receber. Muitas vezes me perguntei depois o que teria acontecido se Ricardo Laverde não se tivesse dirigido a mim, mas a outro dos bilharistas. Porém, é uma pergunta sem sentido, como tantas que nos fazemos sobre o passado. Laverde tinha boas razões para me preferir a mim. Nada poderá mudar tal facto, tal como nada mudará o que aconteceu depois.

Eu tinha-o conhecido no final do ano anterior, um par de semanas antes do Natal. Eu estava prestes a cumprir vinte e seis anos, tinha recebido o meu diploma de advogado dois anos antes e, embora soubesse muito pouco do mundo real, o mundo teórico dos estudos jurídicos não tinha para mim qualquer segredo. Depois de me licenciar com distinção — uma tese sobre a loucura como eximente de responsabilidade penal em Hamlet: ainda hoje me pergunto como consegui que a aceitassem, para não falar que a distinguissem —, tinha-me convertido no titular mais jovem da história da minha cátedra, ou assim me tinham dito os mais velhos no momento em que ma propuseram, e estava convencido de que ser professor de Introdução ao Direito, ensinar os fundamentos do curso a gerações de miúdos assustados que acabam de sair do colégio, era o único horizonte possível da minha vida. Ali, de pé sobre um estrado de madeira, diante de filas e filas de rapazinhos imberbes e desorientados e meninas impressionáveis de olhos constantemente abertos, recebi as minhas primeiras lições sobre a natureza do poder. Desses estudantes caloiros separavam-me apenas uns oito anos, embor

Seja o primeiro a receber histórias como esta