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O AVESSO DA PELE

Jeferson Tenório   

5


Excerto

2.

Você caminha até ao fundo da sala onde está o aluno que levantou a mão e, ao se aproximar, ele diz que precisa sair. Você percebe que o rapaz não parece bem. Ele está pálido e com os olhos vermelhos. A turma está em silêncio, alguns atentos aguardando a reação do professor. No entanto, antes mesmo que você pense em dizer algo, o menino projeta o corpo para a frente e vomita em cima de você. Agora a turma inteira olha na sua direção. Alguns riem. O rapaz tosse e ainda vomita mais um pouco. É o seu segundo ano naquela escola e, dentre muitas coisas vividas ali, naquele dia você aprendeu que, quando um aluno pálido, com olhos vermelhos, levanta a mão pedindo para sair durante uma prova, é bom não chegar muito perto e deixá-lo ir. Depois de o rapaz ser atendido, você vai até ao banheiro, evitando olhar para a própria camisa, porque não quer identificar que tipo de alimento seu aluno ingeriu no café da manhã, mesmo que o cheiro nauseabundo lembre algo como café com leite. Nesse momento, você recorda das vezes em que teve ânsia de vómito na escola. Foram muitas, aliás. O estômago sempre foi a parte mais sensível do seu corpo. Quando você tinha doze anos, sentiu, pela primeira vez, aquilo que anos mais tarde aprenderia a chamar de ansiedade. No início, era apenas um incómodo, mas logo surgia o suador nas mãos, os tremores, os calafrios e por fim a náusea. Na sexta série, você teve seu primeiro ataque de ansiedade por causa de um buraquinho no assoalho e também porque ouviu do professor de ciências que o sol iria explodir dali a alguns tantos bilhões de anos. Seu corpo estremeceu quando você soube que o fim do mundo era real. Então você passou semanas sofrendo pela humanidade, pelos astros, pelos planetas e pelo sistema solar. Passou a sofrer por aqueles que viriam depois, sofreu antecipado por todas as gerações seguintes. A morte tomou um contorno cósmico e assombroso para o qual você não estava preparado. Lembrou-se também do dia em que, aos vinte e um anos, parou na frente do espelho e entendeu que a vida era caótica e não tinha muito sentido. Você volta. Seus alunos não estão mais fazendo a prova. E ainda paira o azedume de vómito no ar. Já mandaram chamar alguém da limpeza, mas você sabe que vai demorar, porque aquela é uma escola pública da periferia de Porto Alegre e há poucos funcionários ali. Há poucos recursos. Os alunos estão inquietos e tudo que querem é que você cancele a prova. Mas é preciso ser duro. Você tem trinta anos e precisa mostrar que é um professor experiente e durão. Façam a prova e aguentem no osso. Se isso aqui fosse um quartel, vocês iriam ver o que é bom prà tosse. Na verdade, você não consegue ser um professor durão e também nunca serviu no Exército. Aos dezoito anos tinha uma úlcera no estômago que te impediu de servir. Você lembra de quando um sargento mandou você e os outros garotos tirarem a roupa e depois disse para todos ficarem de quatro, e após instantes vocês se entreolharam e alguns até chegaram a fazer menção de baixar e ficar de quatro como ele havia mandado, mas logo em seguida ouviram a risada sarcástica do sargento dizendo que era só uma brincadeira e que era para porem a roupa de volta, porque todos vocês iam jurar a bandeira. Disse ainda que o Exército precisava de homens fortes e não de mariquinhas magricelas iguais a vocês. Na época, seu estômago

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