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O ANJO DE MUNIQUE

Fabiano Massimi  

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Excerto

Personagens

Prinzregentenplatz n.º 16

Angela Maria Raubal (Geli) estudante Anni Winter governanta Georg Winter administrador Anna Kirmair empregada Maria Reichert inquilina Minerva Dachs mãe de Maria Reichert Olga Janus (bruxa Gothel) porteira Markus Hatzke serralheiro

O Partido

Rudolf Hess secretário do NSDAP Hermann Göring secretário particular de Hitler Ernst Röhm conselheiro político Heinrich Himmler comandante das SA Reinhard Heydrich comandante das SS Joseph Goebbels responsável pelo SD (Serviços Secretos) Baldur von Schirach responsável pela propaganda Gregor Strasser responsável pela Juventude Hitleriana Franz Xaver Schwarz dirigente Julius Schreck tesoureiro Rainer Hartmann motorista de Hitler Armin Grendel segurança pessoal de Hitler agente nazi disfarçado

Munique

Zavi Tenner Siegfried Sauer director da Polícia Helmut Forster (Mutti) comissário Joseph Bauer comissário Karl Julian comissário Heinrich Müller sargento Walther Fischer médico-legista Maria Fischbauer assistente do médico-legista Rosina Zweckl médica-legista Franz Gürtner embalsamadora Friedrich Glaser ministro da Justiça Herbert Maier procurador Friedrich Bodner assistente do procurador Adolf Vogl assistente do procurador Heinrich Hoffmann professor de Música Eva Braun fotógrafo Henriette Hoffmann secretária de Heinrich Hoffmann Elfriede Samthaber (Elfi) amiga de Geli Otto Strasser amiga de Geli Ernst Hanfstaengl ex-membro do Partido Emil Maurice ex-confidente de Hitler Rosa Weiss ex-confidente de Hitler Kurt Huber membro da resistência antinazi Fritz Gerlich membro da resistência antinazi Golo Zehntner jornalista Franz Polten proprietário do Bratwurst-Glöckl Meni Keller empregado de mesa do Bratwurst-Glöckl Wilhelm Friedkin comerciante do Viktualienmarkt Magda Quandt senhorio de Sauer Lina Forster noiva de Goebbels Karoline Forster mulher de Mutti Hans Forster filha de Mutti Heinz Forster filho de Mutti filho de Mutti

Viena

Kurt Heigl músico Johann Pant pai espiritual de Geli Saul Neuhausen inspector da Polícia Nial Neuhausen professor de Arte Francesca Neuhausen comerciante do Naschmarkt

Está a morrer.

Na divisão fechada à chave, a rapariga jaz por terra em frente ao sofá, de olhos escancarados, lábios entreabertos, a pele fria, cada vez mais fria, enquanto o sangue se espalha, lento, sob o vestido.

Um pouco mais à frente, no tapete azul, a pistola agora inerte está virada na direcção da janela. Para a rapariga, era, até há pouco, apenas um objecto, um objecto qualquer. Agora é a coisa mais importante da sua vida, a meta para a qual, sem saber, se dirigira desde o princípio.

Um baque, rumor de passos. Para lá da porta bloqueada, a vida do apartamento continua a dominar, ignorando a sua presença, que rapidamente se transformará em ausência. A rapariga quer mexer-se, chamar, mas o disparo roubou-lhe toda a energia. Sobra-lhe apenas a consciência, a intervalos de que não consegue dar-se conta.

Quanto tempo demora alguém a morrer assim? Uma hora, cinco, dez? A mente da rapariga tenta associar horários e rostos, pensar se alguém e quem e quando se terá apercebido do que se passou — do que ainda se está a passar — e poderá deter-se ali.

Mas são pensamentos demasiado abstractos, e a luz continua a extinguir-se. O mundo lá fora não tem tempo para uma tola imprudente que morre sozinha no seu quarto. As poucas pessoas que a amam estão longe.

A rapariga permanece no chão, sem voz, sem fôlego, olhos fixos num céu de estuque. E, quando o frio se torna cada vez mais aceitável, espera que alguém, seja quem for, apareça para a salvar ou, pelo menos, para a consolar.

SÁBADO,

19 DE SETEMBRO DE 1931

1

Durante a noite, caíra uma chuva ligeira trazida pelas primeiras nuvens de Outono, agora iminente, mas de madrugada, nas praças e pelas ruas da velha Munique, infiltrara-se com prepotência o Föhn, o vento quente que, a intervalos imprevisíveis, soprava dos Alpes, a sul da cidade, transformando os dias mais rigorosos em instantes de Primavera.

Sentado a uma mesa ao ar livre, no meio dos quiosques do Viktualienmarkt, Siegfried Sauer, comissário criminal da Polícia da cidade, observava as árvores centenárias à sua volta. O Föhn soprava alegremente as primeiras folhas amareladas, as quais, depois de um breve voo, acabavam a navegar como barquinhos nas poças do mercado ou a enriquecer os pequenos-almoços de operários e carroceiros, entregues a würst e leberkäse logo às dez da manhã. Era um espectáculo que nunca deixava de o fascinar, desenhando-lhe no rosto um sorriso melancólico: Sauer crescera no Markt, a mãe tivera, durante décadas, uma pequena peixaria, e também ele se sentara às mesmas mesas de madeira, todos os dias da sua infância, para observar e ouvir as histórias do povo, aprendendo talvez mais desse modo do que através dos livros da escola. Apesar de tudo o que acontecera nos últimos trinta anos — o declínio do Império, a Grande Guerra, a República, o crash de Wall Street —, o mercado continuava ali, tal como os seus vendedores, com conversas sempre diferentes e sempre iguais, estação após estação.

— Bom dia, tenente! — gorjeou uma voz de mulher ao aproximar-se da sua mesa. — Hoje acordou tarde?

— Já não sou tenente, Frau Keller, como sabe — respondeu à idosa proprietária do Obersalzberg, a cervejaria mais popular do mercado.

— Mas claro, claro. Já me lembro — rebateu ela no costumeiro tom jovial. — Ainda não estou uma velha caquéctica!

Sauer sorriu. Talvez não estivesse caquéctica, mas, quanto à idade, não havia maneira de a decifrar. Nenhum dos outros proprietários se lembrava de uma época anterior a Meni Keller, que era mais do que uma instituição do Viktualienmarkt: era a sua imagem viva. Dizia-se que, em determinada época, servira Bismarck em pessoa, circunstância sobre a qual, com o tempo, haviam florescido versões mais ou menos verosímeis.

— O que me diz de uma cerveja para começar bem o sábado? Vai hoje ao Wies’n? Parece que este ano a tenda da Paulaner está uma maravilha…

— Frau Keller, sabe perfeitamente que, além de não ser tenente, mas comissário, não bebo. Sou abstémio.

— Abstémio! Oh, meu Deus! E isso cura-se? — A velha desatou a rir, olhando em volta como para obter a solidariedade dos outros clientes, todos com uma caneca de cerveja na mão. A maior parte envergava calças de pele e coletes tradicionais, enquanto as acompanhantes exibiam os Dirndl apertados na cintura e decotados no peito que haviam tornado a Baviera famosa no mundo inteiro. Apesar da crise, a Oktoberfest era honrada.

Enquanto Sauer e Frau Keller repetiam as mesmas piadas pela milésima vez, como um ritual de bom agouro a respeitar, uma mulher mais nova, também ela vestida com um Dirndl, colocou em cima da mesa do comissário uma caneca de cerâmica a fumegar.

— Doce ou salgado? — perguntou depois, sem sequer erguer o olhar.

— Salgado, Margit. Obrigado.

A mulher anuiu e retirou do cesto de vime, que trazia no braço, um brezel grande como um prato.

— Bom apetite — disse, pousando-o no centro da mesa, ao lado de um cartãozinho que tinha escrito «tenente Sauer» e de uma faca de aço. Depois, deixou também um pedaço de manteiga envolto em papel e, tal como chegara, desapareceu.

— A Margit tem um fraquinho por si, tenente — comentou a velha Meni.

— Nem sequer olha para mim — protestou Sauer, para quem aquilo, no fundo, era indiferente.

— Confie em mim. Eu conheço a minha filha — concluiu a mulher e, depois de lhe ter piscado o olho, deixou-o de volta do pequeno-almoço.

Sauer entregou-se ao brezel, que cortou no sentido do comprimento e começou a barrar com manteiga, meticulosamente, sem pressa. Passados uns instantes, um pintassilgo planou sobre a mesa e pôs-se a observar a operação com impaciência, mexendo a cabeça de vez em quando. Sauer ofereceu-lhe uma migalha de pão, e o pintassilgo mexeu de novo a cabeça com ênfase, antes de bater asas e voar.

— Caramba! — disse um homem atrás do comissário. — És mesmo um solitário. Nem os pássaros querem tomar o pequeno-almoço contigo!

— Mutti! — saudou Sauer sem se voltar. — Que ventos te trazem?

— Ventos quentes — respondeu o recém-chegado, contornando a mesa e parando à frente de Sauer. — Os antigos chamavam-lhe Favónio. Às vezes Zéfiro. Um vento alegre e irrequieto, como eu. — Sorriu, mostrando uma fiada de dentes esburacados. Depois, com um gesto de prestidigitador, fez aparecer uma cadeira de metal e sentou-se. — Importas-te? Estou com uma fome tremenda.

Sauer abanou a cabeça: claro que não se importava. Cortou o brezel ao meio, como um coração despedaçado, e deu a metade maior ao amigo.

Helmut Forster, comissário-adjunto da secção de Crimes Violentos, era, em tudo e para todos os efeitos, o seu oposto, e talvez fosse por isso que se davam tão bem, no trabalho e fora dele. Enquanto Sauer parecia um exemplo vivo do ideal nórdico — alto, louro, de olhar gélido num rosto esculpido e perfeitamente barbeado —, Mutti, com o seu metro e sessenta, mal lhe chegava aos ombros e tinha uma pele tão escura que não parecia fruto da mãe Alemanha, mas de um qualquer país mais solarengo nas margens do Mediterrâneo. Cabelos pretos e olhos castanhos, no rosto um eterno véu de barba, apesar de a fazer todos os dias, saíra da guerra com um apetite insaciável, de comida, de cerveja, de tabaco, de tudo. Era algo que se reflectia na largueza das suas camisas, bem como na leveza da sua carteira, já esgotada pelas exigências da família que constituíra com uma doce rapariga de Leste, havia quinze anos. Por esse motivo, Sauer, que nunca tinha fome e que não tinha de sustentar mulher e três filhos, dividia de bom grado as refeições com ele. Era o seu melhor amigo. Se disso tivesse precisado, ter-lhe-ia oferecido o seu vencimento.

— Esperemos que seja um sábado calmo — disse Mutti quando terminou a sua metade do brezel.

Sauer considerou a hipótese de lhe dar mais um pouco, mas depois disse para si que Lina não haveria de gostar de ver toda aquela manteiga nas veias do marido.

— Este ano, calharam-me doze, mas nunca aconteceu nada de especial. Apenas bêbedos e discussões familiares.

Mutti anuiu.

— Sim, as pessoas preferem matar-se durante a semana. O sábado e o domingo são para descansar. — Levantou o braço para Margit, num aceno. — Estou com uma destas sedes! Nunca se viu mês de Setembro tão quente! O clima está a mudar. Os velhos é que têm razão. Também entras às onze?

— Sim — respondeu Sauer, olhando para Alte Peter, a torre do relógio que se recortava como uma sentinela sobre o Viktualienmarkt. Apesar da sua veneranda idade, o Velho Pedro nunca perdia pitada, impondo as regras às torres mais novas que o circundavam. Para o comissário, que morava numas águas-furtadas que davam para o mercado, era um amigo de longa data. — Turno longo, até amanhã de manhã.

— Eu também. Sendo assim, quando sairmos, queres ir almoçar comigo?

— A Lina não se importa?

— Foi ideia dela. Diz que não apareces há muito tempo e que não se sabe como te alimentas, se é que te alimentas.

Sauer anuiu. A mulher de Mutti tinha menos dez anos do que ele e quase vinte a menos do que o marido, mas tratava ambos como se fossem rapazes, ralhando-lhes e mimando-os como uma mãe. Na verdade, o convite não lhe desagradava.

Estava prestes a aceitar a proposta quando um grito desesperado rasgou a atmosfera do Markt.

— Socorro! — gritou um homem quase sem fôlego. — Ajudem-me!

Vinha da Igreja do Espírito Santo, a correr a toda a brida, com o rosto pálido como o de um morto ou de alguém prestes a morrer. Alto, magro, com o rosto descarnado e um nariz de tamanho considerável, vestia um fato de veludo e sapatos brilhantes, mas devia ter perdido o chapéu pelo caminho. — Estou a ser seguido!

Sauer pôs-se de pé, pronto a intervir, mas viu aparecer os seguidores pelo canto norte do mercado: três homens de aspecto marcial, vestidos de castanho da cabeça aos pés, um deles com um cassetete na mão.

— Pare! — gritou o que ia mais atrás.

— Não nos escapas! — acrescentou o outro.

— SA — sibilou uma empregada a poucos metros de Sauer.

Num segundo, como se se tratasse de um procedimento de emergência repetidamente testado, a multidão do Markt reagiu como um só corpo: abriu-se apenas o suficiente para fazer passar o fugitivo, que continuou a sua corrida sem abrandar, e depois voltou a fechar-se e retomou as

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