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NO JARDIM DO OGRE

Leila Slimani  

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Excerto

Há uma semana que ela resiste. Há uma semana que não fraqueja. Adèle tem-se portado bem. Em quatro dias, correu trinta e dois quilómetros. Foi de Pigalle aos Campos Elísios, do Museu de Orsay a Bercy. Correu de manhã nas margens desertas do rio. À noite, no boulevard Rochechouart e na Praça de Clichy. Não bebeu álcool e deitou-se cedo.

Mas, nessa noite, sonhou e, depois, não foi capaz de voltar a adormecer. Um sonho húmido, interminável, que se introduziu nela como um sopro de ar quente. Adèle já não consegue pensar em mais nada. Levanta-se, bebe um café muito forte na casa adormecida. De pé, na cozinha, muda o peso do corpo de um pé para o outro. Fuma um cigarro. No duche, tem vontade de se arranhar, de rasgar o corpo em dois. Bate com a testa na parede. Quer que a agarrem, que lhe partam o crânio contra o vidro. Assim que fecha os olhos, ouve os barulhos, os suspiros, os gritos, os golpes. Um homem nu que arqueja, uma mulher que se vem. Gostaria de ser um mero objecto no meio de uma horda, ser devorada, chupada, engolida de um trago. Gostaria que lhe beliscassem as mamas, que lhe mordessem a barriga. Quer ser uma boneca no jardim de um ogre.

Não acorda ninguém. Veste-se no escuro e não se despede. Está demasiado nervosa para sorrir a quem quer que seja, para iniciar uma conversa matinal. Adèle sai de casa e percorre as ruas vazias. Desce as escadas do metro Jules-Joffrin, de cabeça baixa, nauseada. Na plataforma, um rato passa a correr por cima da biqueira da sua bota e sobressalta-a. Na carruagem, Adèle olha em redor. Um homem de fato barato observa-a. Tem uns sapatos pontiagudos mal engraxados e mãos peludas. É feio. Poderia servir. Tal como o estudante que abraça a namorada e lhe dá beijos no pescoço. Tal como o cinquentão de pé, encostado ao vidro, que lê sem levantar os olhos para ela.

Adèle pega num jornal datado da véspera que estava no banco à sua frente. Folheia-o. Os títulos confundem-se, ela não consegue concentrar-se. Pousa-o, exasperada. Não pode continuar ali. O coração martela-lhe no peito, falta-lhe o ar. Afrouxa o cachecol, fá-lo deslizar pelo pescoço encharcado de suor e pousa-o num banco vazio. Levanta-se, abre o casaco. De pé, com a mão no puxador da porta, a perna assolada por tremores, está pronta para saltar.

Esqueceu-se do telefone. Senta-se novamente, esvazia a carteira, deixa cair um estojo de base, puxa um sutiã no qual se enredaram os seus auscultadores. Não foi prudente, aquele sutiã, pensa. Não se pode ter esquecido do telefone. Se o fez, terá de voltar a casa, arranjar uma desculpa, inventar qualquer coisa. Mas não, ali está ele. Sempre ali esteve, ela é que não o viu. Arruma a carteira. Tem a impressão de que toda a gente a observa. Que a carruagem inteira troça do seu pânico, das suas faces a arder. Abre o telefonezinho com tampa e ri-se ao ver o primeiro nome.

Adam.

Seja como for, já está tudo lixado.

Ter vontade é, por si só, fraquejar. O dique rebentou. De que serviria conter-se? A vida não seria melhor por isso. De momento, raciocina como uma opiómana, como uma jogadora de cartas. Está tão contente por ter resistido à tentação durante uns dias, que se esqueceu do perigo. Levanta-se, empurra o trinco pegajoso para cima, a porta abre-se.

Estação Madeleine.

Atravessa a multidão que avança como uma vaga para se enfiar na carruagem. Adèle procura a saída. No boulevard des Capucines, desata a correr. Faz com que ele lá esteja, faz com que ele lá esteja. Diante dos grandes armazéns, pensa em desistir. Podia apanhar o metro ali, a linha 9, que a levaria directamente ao escritório, a horas para a reunião da redacÃ

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