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MENTIRAS CONSENTIDAS (SEBASTIAN BERGMAN 6)

Hjorth & Rosenfeldt  

4


Excerto

Outubro chegara e trouxera o Inverno consigo.

Fora um ano singular, em termos meteorológicos.

A Primavera só começara verdadeiramente no final de Maio. Tinha caído neve tanto nos chapéus de feltro dos estudantes finalistas, durante a celebração tradicional e muito frequentada da noite de Santa Valburga, como nos desfiles consideravelmente menos movimentados do 1.º de Maio, na tarde seguinte. O Verão fizera-se esperar até ao final de Junho e, na semana a seguir ao solstício, a temperatura passara, pela primeira vez, ligeiramente dos vinte graus, mas, por outro lado, o calor mantivera-se até meados de Setembro.

Depois, quase não houvera Outono.

No dia 8 de Outubro, ela estava de volta. Um manto fino como pó branco surpreendera os habitantes de Uppsala, quando, nessa manhã, subiram as persianas. Pouco mais de quatro meses sem neve dera, naturalmente, pano para mangas aos que negavam as alterações climáticas.

«Não me parece nada que o planeta esteja a ficar mais quente, se querem que vos diga.»

«Mas ninguém te perguntou nada», era o que Klara tinha vontade de responder de cada vez que ouvia a frase já gasta e via o sorrisinho de satisfação que habitualmente a acompanhava.

As alterações climáticas eram bem reais.

Três anos de Ciências do Ambiente, em Lund, e um mestrado em Desenvolvimento Sustentável, em Uppsala, davam a Klara essa certeza. Anos de investigação pelo mundo deixavam as coisas bem claras, independentemente do que se pudesse ver da janela da cozinha, em Outubro.

«Mas está mesmo frio», pensou Klara ao sair do edifício onde decorria o curso, poucos minutos antes das nove da noite, e apertou a gabardina demasiado fina. Como de costume, ficara até mais tarde para limpar e arrumar as coisas, depois de o último aluno sair.

Estofamento de móveis.

Das 18h30 às 20h30, com início a 15 de Setembro.

Nove sessões.

Naquela noite, encontraram-se para a quinta sessão. Klara sentia uma grande satisfação ao observar a evolução de todos os participantes. Adorava organizar aqueles cursos.

Era o quarto ano.

Antes de começar a descer a rua östra ågatan, confirmou mais uma vez que a porta atrás de si estava trancada. O frio fazia-a estugar o passo. O seu telemóvel tocou. Klara retirou-o do bolso e respondeu com um pequeno sorriso de surpresa.

—Então, amor, não estás a dormir?

—Quando é que vens para casa? – perguntou Victor com a voz sonolenta. Klara viu-o sentado no sofá, com o seu pijama do Homem Aranha, os dentes escovados, o cabelo despenteado, a lutar para manter os olhos abertos.

—Estou a ir para o carro agora, por isso, chego daqui a quinze, vinte minutos. Querias alguma coisa especial?

—A ferida.

Na semana anterior, antes de a neve cair, durante uma aula de Educação Física na escola, o filho participara numa prova de orientação e, ao tropeçar, caíra em cima de uma espécie de sucata enferrujada que alguém deixara na floresta e cortara-se na barriga da perna. Precisara de cinco pontos. O penso tinha de ser mudado todas as noites.

—Não pode ser o pai a fazer isso?

—Tu sabes fazer melhor.

Klara suspirou em silêncio. Era sempre bom ser apreciada e desejada, mas ela e Zach tinham dividido a licença parental em partes iguais e ele estivera tão presente quanto ela durante os primeiros anos do filho, por vezes até mais, mas, mesmo assim, quando se tratava de… de quase tudo, na verdade, Victor chamava mais pela mãe. Klara percebia que Zach ficava um pouco magoado por ser sempre a segunda escolha.

—Mas eu agora não estou em casa e tu tens de ir dormir – tentou convencê-lo Klara enquanto virava para a rua Ångkvarnsgatan.

—Então e a ferida?

—Deixa o pai tratar disso e vai-te deitar. Se estiveres acordado quando eu chegar e não estiver bem, faço-o outra vez.

A sugestão foi recebida em silêncio, como se o menino de oito anos estivesse a tentar perceber se estava a ser, de alguma forma, enganado.

—Combinamos assim? – perguntou-lhe Klara.

—Está bem…

—Boa. Um beijinho, até amanhã.

Klara terminou a chamada e voltou a colocar o telefone no bolso, mas não retirou a mão. Estava mesmo frio.

Teria feito a coisa acertada?

Se Victor estivesse acordado quando ela chegasse a casa, se lhe mudasse o penso, isso não seria admitir que Zach não o fazia tão bem quanto ela? Deveria ter sido mais dura? Deveria ter dito que era o pai que ia tratar do penso e que o que ele tinha de fazer era deitar-se a seguir, ponto final?

Não lhe apresentar alternativas.

Recusar-se a mudar o penso outra vez.

Provavelmente.

«Na melhor das hipósteses, Victor estará a dormir quando eu chegar a casa e poderei assim evitar o problema», pensou Klara enquanto virava para o parque de estacionamento.

Havia seis lugares no pátio interior quadrangular. Dois pertenciam à associação educativa. O seu Polo azul, na esquina mais distante, era o único carro que continuava ali.

Klara deteve-se.

Estava escuro.

Mais escuro do que o habitual.

Os edifícios em volta, às escuras àquela hora, eram todos de escritórios e associações. Costumava ser assim, mas, naquela noite, até os dois candeeiros das fachadas exteriores estavam apagados. Klara não sabia onde se encontravam os interruptores, mas pensou que alguém devia tê-los desligado por engano.

Contudo, não era esse o caso, constatou ao aproximar-se do carro enquanto os seus olhos se adaptavam devagar à escuridão. Exactamente por baixo da estrutura de ferro que segurava um dos candeeiros, junto à fachada e próximo do seu carro, viu estilhaços de vidro.

O candeeiro estava partido.

Ou ter-se-ia, de alguma forma, soltado do suporte, caído e partido ao embater no pavimento? Mas, uma vez que ambas as luzes estavam fundidas, provavelmente alguém se divertira a parti-las. Apesar de Klara ainda se considerar nova, deu por si a pensar: «Coisas de adolescentes, de certeza.» Talvez fosse mais um desejo. Que o vandalismo e outros comportamentos desregrados estivessem apenas ligados a uma certa imaturidade. Os sinais em toda a sociedade apontavam cada vez mais para que não fosse isso.

Klara retirou do bolso as chaves do carro. Os piscas do Polo acenderam e apagaram duas vezes e os espelhos retrovisores deslizaram para a posição de condução com um zumbido suave. Estava prestes a colocar a mão no puxador da porta, certamente gelado, quando um ruído chamou a sua atenção e um arrepio instintivo lhe percorreu o corpo.

Passos leves atrás de si.

Não estava sozinha.

Num abrir e fechar de olhos, viu uma sombra negra reflectida na janela do carro.

Distorcida. Grande. Próxima.

Sem pensar, Klara deu um passo rápido para o lado, ao mesmo tempo que se virou. Em vez de conseguir aproximar-se pelas suas costas, o grande vulto escuro acabou ao seu lado, contra o carro. Teve tempo de reparar no capuz preto e na cara coberta, antes de o som a surpreender, alto e penetrante.

Como um alarme.

Klara demorou alguns segundos a aperceber-se de que era ela quem gritava.

A figura à sua frente pareceu sobressaltar-se com a intensidade da sua voz. Mas isso só deu mais força a Klara.

Nem lhe passou pela cabeça tentar fugir, correr dali para fora.

Defender-se-ia.

A qualquer preço.

Algures no seu subconsciente, pairava a informação que ouvira sobre oferecer a maior resistência possível num eventual ataque e foi isso, exactamente, o que Klara fez. Socou e pontapeou. Debateu-se com os braços e as pernas . Acertaram no corpo do atacante. Com força. Uma e outra vez. Cega e furiosamente. Ao mesmo tempo que continuava a gritar.

Klara não soube quanto tempo aquilo durou, talvez alguns segundos, mesmo que lhe tivesse parecido muito mais tempo, até ver o atacante recuar alguns passos e deixar o local a correr na direcção da entrada do parque de estacionamento e depois para a esquerda, para a rua Ångkvarnsgatan.

Klara ficou onde estava. A respiração ofegante, entrecortada. Teve tempo para pensar que os gritos deviam ter-lhe danificado algo na garganta, antes de as forças a abandonarem e ela deslizar para o chão, quase sem sentir o frio e a humidade que de imediato atravessaram as suas calças. A respiração ofegante transformou-se num gemido surdo. Olhou fixamente para o chão. Em seguida, viu, no asfalto, junto ao carro, um pequeno objecto comprido.

Uma seringa cheia de líquido.

Ia ser anestesiada.

Anestesiada e violada.

Exactamente como Ida.

Sentiria falta da Riksmord?

Vanja apercebeu-se de que se colocava muitas vezes aquela questão. Como naquele preciso momento, enquanto preparava uma chávena de chá na cozinha do pequeno apartamento de duas assoalhadas, na avenida Norbyvägen, que um dos colegas de ­Uppsala lhe subarrendara. Por um ano, para começar, enquanto ele trabalhava em Haia numa parceria com a União Europeia contra o tráfico de seres humanos. Cinquenta e dois metros quadrados onde Vanja não conseguia, de repente, apontar um único móvel ou objecto escolhido por ela, se tivesse mobilado ou decorado o apartamento sozinha, à excepção talvez da televisão de setenta e cinco polegadas que dominava a parede em frente do sofá gasto de pele preta. Quando se arrendava um espaço já mobilado, era assim. Vanja aguentaria aquilo durante um ano. Se ficasse mais tempo, teria de arranjar outra coisa. Algo próprio.

Sentiria falta da Riksmord?, pensou enquanto retirava a saqueta de chá de dentro da chávena com uma imagem da Guerra das Estrelas e a atirava para o lava-loiça.

Não da unidade em si, nem mesmo do trabalho. O que estava a fazer em Uppsala era, no mínimo, igualmente interessante. Não obstante, sentia falta dos colegas. Depois de estar longe deles há alguns meses, apercebia-se agora de que eram mais seus amigos do que colegas de trabalho. Talvez os seus únicos amigos.

À excepção de Sebastian, portanto.

Sebastian não era um amigo.

Vanja abriu o frigorífico, deitou leite na chávena e levou-a para a pequena sala de estar, onde o seu computador portátil estava ligado em cima da mesa de vidro fumado do IKEA.

Prometera a Torkel que regressaria.

Quando conseguisse pôr a sua vida em ordem.

Fosse o que fosse que isso quisesse dizer.

Continuava sem manter nenhum contacto com Anna. Nesse aspecto, nada se alterara. A mãe mentira-lhe a vida inteira e quando, finalmente, a verdade viera à luz, traíra Vanja novamente, ao contactar Sebastian nas suas costas. E, ainda pior, fora para a cama com ele.

Tinha falado com Valdemar algumas vezes. Telefonemas breves e impessoais sobre a mudança, a nova cidade e os novos colegas. Não a fora visitar. Embora Valdemar tivesse deixado Anna para poder reparar a sua relação com Vanja e tivesse sido o seu pai durante toda a sua infância – aquele de quem ela fora mais próxima e que amara mais do que a qualquer outra pessoa –, não tinham conseguido reaproximar-se.

Isso magoava-a.

Deixava-a zangada.

O facto de Sebastian ter conseguido destruir uma das poucas coisas que tinham mesmo significado alguma coisa na sua vida. Talvez conseguissem aproximar-se um do outro novamente, nos seus novos papéis. Porém, a investigação que decorria sobre os crimes económicos e a tentativa de suicídio de Valdemar ainda representava um obstáculo, apercebeu-se Vanja.

Era tudo uma confusão.

A sua vida.

Muito, muito longe de estar em ordem.

A única coisa que realmente funcionava era a sua relação com Jonathan. E era cada vez melhor. A viagem de férias, que começara em Copenhaga e os levara a mais cinco países da Europa, fora tudo o que Vanja esperara. Jonathan mostrara uma certa preocupação por Vanja precisar apenas de companhia, não necessariamente dele, mas não levara muito tempo até essa preocupação se revelar infundada. Depois do Verão, Jonathan falara sobre um futuro em conjunto como se fosse a coisa mais natural do mundo.

Jonathan não ficara empolgado com a mudança de Vanja para Uppsala, porém, estavam apenas a quarenta minutos de comboio um do outro e Vanja ia a Estocolmo sempre que podia. Quando lá ia, ficava em casa dele, pois subarrendara o seu apartamento da rua Sandhamnsgatan.

Por isso, tudo estava bem com Jonathan, e a Sebastian não o via desde que ele a deixara na garagem subterrânea do edifício de Waterfront, há mais de três meses. Vanja sabia que ele ficara ferido, numa louca viagem d

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