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MENTIRAS CONSENTIDAS (SEBASTIAN BERGMAN 6)

Hjorth & Rosenfeldt  

4


Excerto

Outubro chegara e trouxera o Inverno consigo.

Fora um ano singular, em termos meteorológicos.

A Primavera só começara verdadeiramente no final de Maio. Tinha caído neve tanto nos chapéus de feltro dos estudantes finalistas, durante a celebração tradicional e muito frequentada da noite de Santa Valburga, como nos desfiles consideravelmente menos movimentados do 1.º de Maio, na tarde seguinte. O Verão fizera-se esperar até ao final de Junho e, na semana a seguir ao solstício, a temperatura passara, pela primeira vez, ligeiramente dos vinte graus, mas, por outro lado, o calor mantivera-se até meados de Setembro.

Depois, quase não houvera Outono.

No dia 8 de Outubro, ela estava de volta. Um manto fino como pó branco surpreendera os habitantes de Uppsala, quando, nessa manhã, subiram as persianas. Pouco mais de quatro meses sem neve dera, naturalmente, pano para mangas aos que negavam as alterações climáticas.

Seja o primeiro a receber histórias como esta

«Não me parece nada que o planeta esteja a ficar mais quente, se querem que vos diga.»

«Mas ninguém te perguntou nada», era o que Klara tinha vontade de responder de cada vez que ouvia a frase já gasta e via o sorrisinho de satisfação que habitualmente a acompanhava.

As alterações climáticas eram bem reais.

Três anos de Ciências do Ambiente, em Lund, e um mestrado em Desenvolvimento Sustentável, em Uppsala, davam a Klara essa certeza. Anos de investigação pelo mundo deixavam as coisas bem claras, independentemente do que se pudesse ver da janela da cozinha, em Outubro.

«Mas está mesmo frio», pensou Klara ao sair do edifício onde decorria o curso, poucos minutos antes das nove da noite, e apertou a gabardina demasiado fina. Como de costume, ficara até mais tarde para limpar e arrumar as coisas, depois de o último aluno sair.

Estofamento de móveis.

Das 18h30 às 20h30, com início a 15 de Setembro.

Nove sessões.

Naquela noite, encontraram-se para a quinta sessão. Klara sentia uma grande satisfação ao observar a evolução de todos os participantes. Adorava organizar aqueles cursos.

Era o quarto ano.

Antes de começar a descer a rua östra ågatan, confirmou mais uma vez que a porta atrás de si estava trancada. O frio fazia-a estugar o passo. O seu telemóvel tocou. Klara retirou-o do bolso e respondeu com um pequeno sorriso de surpresa.

—Então, amor, não estás a dormir?

—Quando é que vens para casa? – perguntou Victor com a voz sonolenta. Klara viu-o sentado no sofá, com o seu pijama do Homem Aranha, os dentes escovados, o cabelo despenteado, a lutar para manter os olhos abertos.

—Estou a ir para o carro agora, por isso, chego daqui a quinze, vinte minutos. Querias alguma coisa especial?

—A ferida.

Na semana anterior, antes de a neve cair, durante uma aula de Educação Física na escola, o filho participara numa prova de orientação e, ao tropeçar, caíra em cima de uma espécie de sucata enferrujada que alguém deixara na floresta e cortara-se na barriga da perna. Precisara de cinco pontos. O penso tinha de ser mudado todas as noites.

—Não pode ser o pai a fazer isso?

—Tu sabes fazer melhor.

Klara suspirou em silêncio. Era sempre bom ser apreciada e desejada, mas ela e Zach tinham dividido a licença parental em partes iguais e ele estivera tão presente quanto ela durante os primeiros anos do filho, por vezes até mais, mas, mesmo assim, quando se tratava de… de quase tudo, na verdade, Victor chamava mais pela mãe. Klara percebia que Zach ficava um pouco magoado por ser sempre a segunda escolha.

—Mas eu agora não estou em casa e tu tens de ir dormir – tentou convencê-lo Klara enquanto virava para a rua Ångkvarnsgatan.

—Então e a ferida?

—Deixa o pai tratar disso e vai-te deitar. Se estiveres acordado quando eu chegar e não estiver bem, faço-o outra vez.

A sugestão foi recebida em silêncio, como se o menino de oito anos estivesse a tentar perceber se estava a ser, de alguma forma, enganado.

—Combinamos assim? – perguntou-lhe Klara.

—Está bem…

—Boa. Um beijinho, até amanhã.

Klara terminou a chamada e voltou a colocar o telefone no bolso, mas não retirou a mão. Estava mesmo frio.

Teria feito a coisa acertada?

Se Victor estivesse acordado quando ela chegasse a casa, se lhe mudasse o penso, isso não seria admitir que Zach não o fazia tão bem quanto ela? Deveria ter sido mais dura? Deveria ter dito que era o pai que ia tratar do penso e que o que ele tinha de fazer era deitar-se a seguir, ponto final?

Não lhe apresentar alternativas.

Recusar-se a mudar o penso outra vez.

Provavelmente.

«Na melhor das hipósteses, Victor estará a dormir quando eu chegar a casa e poderei assim evitar o problema», pensou Klara enquanto virava para o parque de estacionamento.

Havia seis lugares no pátio interior quadrangular. Dois pertenciam à associação educativa. O seu Polo azul, na esquina mais distante, era o único carro que continuava ali.

Klara deteve-se.

Estava escuro.

Mais escuro do que o habitual.

Os edifícios em volta, às escuras àquela hora, eram todos de escritórios e associações. Costumava ser assim, mas, naquela noite, até os dois candeeiros das fachadas exteriores estavam apagados. Klara não sabia onde se encontravam os interruptores, mas pensou que alguém devia tê-los desligado por engano.

Contudo, não era esse o caso, constatou ao aproximar-se do carro enquanto os seus olhos se adaptavam devagar à escuridão. Exactamente por baixo da estrutura de ferro que segurava um dos candeeiros, junto à fachada e próximo do seu carro, viu estilhaços de vidro.

O candeeiro estava partido.

Ou ter-se-ia, de alguma forma, soltado do suporte, caído e partido ao embater no pavimento? Mas, uma vez que ambas as luzes estavam fundidas, provavelmente alguém se divertira a parti-las. Apesar de Klara ainda se considerar nova, deu por si a pensar: «Coisas de adolescentes, de certeza.» Talvez fosse mais um desejo. Que o vandalismo e outros comportamentos desregrados estivessem apenas ligados a uma certa imaturidade. Os sinais em toda a sociedade apontavam cada vez mais para que não fosse isso.

Klara retirou do bolso as chaves do carro. Os piscas do Polo acenderam e apagaram duas vezes e os espelhos retrovisores deslizaram para a posição de condução com um zumbido suave. Estava prestes a colocar a mão no puxador da porta, certamente gelado, quando um ruído chamou a sua atenção e um arrepio instintivo lhe percorreu o corpo.

Passos leves atrás de si.

Não estava sozinha.

Num abrir e fechar de olhos, viu uma sombra negra reflectida na janela do carro.

Distorcida. Grande. Próxima.

Sem pensar, Klara deu um passo rápido para o lado, ao mesmo tempo que se virou. Em vez de conseguir aproximar-se pelas suas costas, o grande vulto escuro acabou ao seu lado, contra o carro. Teve tempo de reparar no capuz preto e na cara coberta, antes de o som a surpreender, alto e penetrante.

Como um alarme.

Klara demorou alguns segundos a aperceber-se de que era ela quem gritava.

A figura à sua frente pareceu sobressaltar-se com a intensidade da sua voz. Mas isso só deu mais força a Klara.

Nem lhe passou pela cabeça tentar fugir, correr dali para fora.

Defender-se-ia.

A qualquer preço.

Algures no seu subconsciente, pairava a informação que ouvira sobre oferecer a maior resistência possível num eventual ataque e foi isso, exactamente, o que Klara fez. Socou e pontapeou. Debateu-se com os braços e as pernas . Acertaram no corpo do atacante. Com força. Uma e outra vez. Cega e furiosamente. Ao mesmo tempo que continuava a gritar.

Klara não soube quanto tempo aquilo durou, talvez alguns segundos, mesmo que lhe tivesse parecido muito mais tempo, até ver o atacante recuar alguns passos e deixar o local a correr na direcção da entrada do parque de estacionamento e depois para a esquerda, para a rua Ångkvarnsgatan.

Klara ficou onde estava. A respiração ofegante, entrecortada. Teve tempo para pensar que os gritos deviam ter-lhe danificado algo na garganta, antes de as forças a abandonarem e ela deslizar para o chão, quase sem sentir o frio e a humidade que de imediato atravessaram as suas calças. A respiração ofegante transformou-se num gemido surdo. Olhou fixamente para o chão. Em seguida, viu, no asfalto, junto ao carro, um pequeno objecto comprido.

Uma seringa cheia de líquido.

Ia ser anestesiada.

Anestesiada e violada.

Exactamente como Ida.

Sentiria falta da Riksmord?

Vanja apercebeu-se de que se colocava muitas vezes aquela questão. Como naquele preciso momento, enquanto preparava uma chávena de chá na cozinha do pequeno apartamento de duas assoalhadas, na avenida Norbyvägen, que um dos colegas de ­Uppsala lhe subarrendara. Por um ano, para começar, enquanto ele trabalhava em Haia numa parceria com a União Europeia contra o tráfico de seres humanos. Cinquenta e dois metros quadrados onde Vanja não conseguia, de repente, apontar um único móvel ou objecto escolhido por ela, se tivesse mobilado ou decorado o apartamento sozinha, à excepção talvez da televisão de setenta e cinco polegadas que dominava a parede em frente do sofá gasto de pele preta. Quando se arrendava um espaço já mobilado, era assim. Vanja aguentaria aquilo durante um ano. Se ficasse mais tempo, teria de arranjar outra coisa. Algo próprio.

Sentiria falta da Riksmord?, pensou enquanto retirava a saqueta de chá de dentro da chávena com uma imagem da Guerra das Estrelas e a atirava para o lava-loiça.

Não da unidade em si, nem mesmo do trabalho. O que estava a fazer em Uppsala era, no mínimo, igualmente interessante. Não obstante, sentia falta dos colegas. Depois de estar longe deles há alguns meses, apercebia-se agora de que eram mais seus amigos do que colegas de trabalho. Talvez os seus únicos amigos.

À excepção de Sebastian, portanto.

Sebastian não era um amigo.

Vanja abriu o frigorífico, deitou leite na chávena e levou-a para a pequena sala de estar, onde o seu computador portátil estava ligado em cima da mesa de vidro fumado do IKEA.

Prometera a Torkel que regressaria.

Quando conseguisse pôr a sua vida em ordem.

Fosse o que fosse que isso quisesse dizer.

Continuava sem manter nenhum contacto com Anna. Nesse aspecto, nada se alterara. A mãe mentira-lhe a vida inteira e quando, finalmente, a verdade viera à luz, traíra Vanja novamente, ao contactar Sebastian nas suas costas. E, ainda pior, fora para a cama com ele.

Tinha falado com Valdemar algumas vezes. Telefonemas breves e impessoais sobre a mudança, a nova cidade e os novos colegas. Não a fora visitar. Embora Valdemar tivesse deixado Anna para poder reparar a sua relação com Vanja e tivesse sido o seu pai durante toda a sua infância – aquele de quem ela fora mais próxima e que amara mais do que a qualquer outra pessoa –, não tinham conseguido reaproximar-se.

Isso magoava-a.

Deixava-a zangada.

O facto de Sebastian ter conseguido destruir uma das poucas coisas que tinham mesmo significado alguma coisa na sua vida. Talvez conseguissem aproximar-se um do outro novamente, nos seus novos papéis. Porém, a investigação que decorria sobre os crimes económicos e a tentativa de suicídio de Valdemar ainda representava um obstáculo, apercebeu-se Vanja.

Era tudo uma confusão.

A sua vida.

Muito, muito longe de estar em ordem.

A única coisa que realmente funcionava era a sua relação com Jonathan. E era cada vez melhor. A viagem de férias, que começara em Copenhaga e os levara a mais cinco países da Europa, fora tudo o que Vanja esperara. Jonathan mostrara uma certa preocupação por Vanja precisar apenas de companhia, não necessariamente dele, mas não levara muito tempo até essa preocupação se revelar infundada. Depois do Verão, Jonathan falara sobre um futuro em conjunto como se fosse a coisa mais natural do mundo.

Jonathan não ficara empolgado com a mudança de Vanja para Uppsala, porém, estavam apenas a quarenta minutos de comboio um do outro e Vanja ia a Estocolmo sempre que podia. Quando lá ia, ficava em casa dele, pois subarrendara o seu apartamento da rua Sandhamnsgatan.

Por isso, tudo estava bem com Jonathan, e a Sebastian não o via desde que ele a deixara na garagem subterrânea do edifício de Waterfront, há mais de três meses. Vanja sabia que ele ficara ferido, numa louca viagem de carro com uma bomba no interior, com algumas costelas e um braço partidos, segundo Ursula. Vanja não sabia mais do que isso.

E, mais do que isso, também não queria saber.

Quanto menos espaço Sebastian Bergman ocupasse na sua vida, melhor. Estava certa de que o mesmo se aplicava a todas as outras pessoas.

Então, deixou de pensar nele, afundou-se no sofá e voltou a concentrar-se na transcrição da denúncia de Therese Andersson à Polícia, enquanto sorvia pequenos goles da bebida escaldante.

A queixosa deixa uma festa, no número 23 da rua Molngatan, pouco antes da uma e meia da manhã, no dia 4 de Outubro, e decide ir a pé para casa, na rua Almqvistgatan, a pouco mais de um quilómetro dali. Foi pela rua pedonal até à praça Liljefors Torg e, quando passou pela escola de Liljefors, ouviu passos cada vez mais perto e depois alguém a agarrou por trás e sentiu uma picada no pescoço.

Vanja, a denunciante, sabia que não podia esperar que todas as denúncias fossem transcritas numa linguagem perfeita, estava até bastante segura de que as que o eram representavam uma minoria, e aquela era bem a prova disso. Procurou pelo nome de quem a redigira. Inspector estagiário Oscar Appelgren. Ou seja, alguém ainda em formação. Mas, uma vez que a linguística não fazia parte do plano de estudos da Academia de Polícia, as probabilidades de aquilo melhorar eram bastante baixas. Vanja suspirou profundamente e continuou a ler.

Depois disso, não se lembra de nada até acordar deitada no chão, entre alguns arbustos, ao lado da rua pedonal. A saia estava puxada para cima, os collants rasgados e a queixosa tinha uma espécie de saco na cabeça. A queixosa levanta-se e vai para a rua Vaksalagatan, onde pede ajuda. Então já eram mais ou menos duas e meia.

O hospital chama a Polícia e um exame médico mostra um sangramento genital, depois de penetração, e restos de esperma. Uma análise ao sangue mostra restos de Flunitra­zepam no sangue.

Vanja fechou o documento excessivamente descritivo, pegou na chávena de chá e recostou-se no sofá.

Ataque seguido de violação na forma consumada.

Estes casos representavam uma proporção mínima das queixas de violação registadas anualmente. Na grande maioria dos casos, as vítimas e os agressores eram conhecidos ou próximos e o crime acontecia em casa de um deles. Porém, os primeiros recebiam muita atenção dos media, o que levava as pessoas a acreditar que aconteciam com mais frequência do que na realidade. Até àquele momento, pouco se escrevera sobre o que acontecera a Therese. Não obstante, essa atenção aumentaria se alguém começasse a interessar-se seriamente pelo assunto.

A verdade é que ela não era a primeira vítima.

Vanja voltou a inclinar-se para a frente, pousou a chávena na mesa e pegou no relatório do Instituto Nacional de Medicina Legal e Ciências Forenses.

Não dava muito mais informação.

Pegadas de um sapato de ginástica da marca Vans, modelo UA-SK8-Hi MTE, marcadas na terra, por baixo dos arbustos, e o ADN extraído da amostra de esperma, mas o agressor não aparecia em nenhuma base de dados. Por outro lado, as provas eram compatíveis com outras relativas a uma violação ocorrida apenas um mês antes.

Ida Riitala, trinta e quatro anos de idade.

Atacada no antigo cemitério no dia 18 de Setembro.

A mesma cidade, o mesmo modus operandi.

Um agressor que a atacara por trás injectara um líquido anestésico no pescoço da vítima, colocara-lhe um saco de juta na cabeça e levara a cabo a agressão enquanto a vítima estava inconsciente.

O telefone tocou e Vanja lançou um olhar rápido para o visor.

A sua nova chefe. Anne-Lie Ulander.

Eram quase nove e meia. O que significava mais trabalho. Vanja atendeu a chamada.

—Olá, diz.

A conversa durou pouco mais de trinta segundos antes de Vanja desligar o computador, levantar-se e deixar o apartamento. Se tinham alguma dúvida de que estavam a lidar com um violador em série, agora tinham deixado de as ter.

Havia uma terceira vítima.

Klara estava encolhida no sofá. Apesar de ter três camadas de roupa na parte superior do corpo e de estar enrolada numa manta, sentia frio. Parecia não conseguir aquecer. Como se o frio do pátio interior escuro a tivesse seguido até casa, como uma segunda pele. Agarrava com firmeza na chávena de chá com as duas mãos enquanto contemplava a mulher com o bloco de notas, sentada na outra ponta do sofá, inclinada para a frente.

Anne-Lie Ulander. Comissária da Polícia Judiciária.

Klara achou que ela mais parecia uma advogada famosa, de alguma série televisiva norte-americana, com o seu vestido vermelho elegante, simples mas indubitavelmente caro, e o cabelo escuro que lhe dava pelos ombros, com um penteado descontraído, mas que Klara desconfiava não o ser de facto.

—Roupa preta, capuz na cabeça e algo que lhe cobria a cara. Recorda-se de mais alguma coisa em relação a ele?

Klara encarou o olhar compassivo de Anne-Lie e abanou a cabeça.

—Tem alguma ideia da altura dele?

Klara reflectiu alguns segundos. Ao mesmo tempo que estava segura de que nunca conseguiria esquecer o que acontecera, pois os acontecimentos daquela noite ficariam registados para sempre na sua mente, as memórias pareciam-lhe estranhamente imprecisas e incoerentes. Como se o seu cérebro estivesse a tentar protegê-la, não permitindo que se lembrasse de muitos detalhes.

—Não sei. Mais alto do que eu.

—E que altura tem?

—Um metro e sessenta e nove.

Anne-Lie tomou nota da última informação no curto relato de Klara sobre o desenrolar dos acontecimentos no pátio interior. Assim que Vanja chegasse, iria para o local do crime. Carlos já lá estava e era um bom agente, mas não podiam dar-se ao luxo de cometer o mais pequeno erro. Três ataques no espaço de um mês. Havia um homem muito perigoso à solta pelas ruas.

—Ele acordou quando eu cheguei a casa – disse Klara, em voz baixa. Anne-Lie levantou os olhos das suas notas e seguiu o olhar de Klara até à cozinha, onde um homem estava sentado à mesa com um rapaz, que vestia um pijama do Homem Aranha, ao colo. – Tinha adormecido, mas deve ter-nos ouvido, percebeu que se passava alguma coisa…

—Quer que fale com ele?

Klara desviou os olhos do marido e do filho e, com ar inquisitivo, virou-se para Anne-Lie.

—Para lhe dizer o quê?

—Que idade tem?

—Oito.

—Posso dizer que estamos a falar consigo, porque viu uma coisa, não porque lhe aconteceu alguma coisa. Desdramatizar um pouco a nossa presença.

—O Zach já o fez. Disse-lhe que uns adultos maus estavam a lutar à porta da escola e eu fiquei um pouco assustada…

Klara parou de falar quando ouviu a porta da rua abrir-se e sentiu todo o corpo ficar tenso. Anne-Lie reparou na sua reacção e pôs-lhe uma mão no braço para a tranquilizar.

—É a minha colega – explicou-lhe. Klara virou-se para a porta da sala de estar e, com o olhar, seguiu a mulher mais nova que entrou na sala e se apresentou como Vanja Lithner.

—Klara Wahlgren – respondeu com a voz rouca. Doía-lhe a garganta cada vez mais. Algo devia estar magoado. Talvez devesse ir ao hospital. Embora não o tivesse feito na altura, logo de seguida. Como, na verdade, não lhe acontecera nada.

Pelo menos, não aquilo que poderia ter acontecido.

Voltou a sentir um calafrio e bebeu mais um gole de chá. A bebida quente não conseguiu mitigar as dores na garganta nem aquecê-la, mas Klara continuou a beber. Chá de camomila, da sua chávena «Melhor mãe do mundo», sentada no sofá depois de chegar a casa do curso.

Era o normal.

Estava segura.

A nova agente da Polícia despiu o casaco e sentou-se, ao mesmo tempo que lhe perguntava como estava. Klara limitou-se a encolher os ombros. Como estava? Não sabia. Os pensamentos atropelavam-se. Sentia-se completamente esgotada, agora que a adrenalina já não lhe inundava o sangue, mas, mesmo assim, parecia que o corpo continuava em estado de alerta extremo.

Anne-Lie levantou-se do sofá e entregou o seu bloco de notas a Vanja.

—Tenho de ir ao local do crime, mas a minha colega Vanja substitui-me. – Pegou num cartão-de-visita e colocou-o em cima da mesa de centro. – Se precisarem de ajuda, alguma pergunta que queiram fazer, entrar em contacto com o hospital, seja o que for, é só ligar.

—Obrigada.

Por um instante, Anne-Lie colocou a mão no ombro de Klara, antes de dirigir a Vanja um «Falamos mais logo» e deixar a sala e o apartamento. Klara viu-a sair. Na parede ao lado da porta que dava para o corredor, estava pendurada uma fotografia. Ela, Zach e Victor. No ano anterior, em Creta. Tinham encontrado uma pequena aldeia, chamada Loutro, no lado sul da ilha. Não havia caminhos para lá, era preciso ir de barco. Cerca de cinquenta casas espalhadas em semicírculo em volta da baía de águas transparentes. Alguns pequenos restaurantes e hotéis. Havia muito pouco para fazer, além dos banhos de mar e de sol e de se relaxar.

As férias perfeitas.

A vida perfeita.

Será que alguma vez conseguiria sentir isso novamente?

Por baixo da moldura, estava uma poltrona que ela própria estofara. Deixou o olhar repousar no padrão florido, quando se lembrou de algo. Já pensara naquilo na altura, quando estivera sentada no chão, mas depois esquecera-se.

—Foi o mesmo que atacou a Ida?

Vanja olhou-a, surpreendida, levantando os olhos do bloco de notas.

—A Ida Riitala?

Klara assentiu.

—Foi o mesmo atacante?

—Conhece-a? – perguntou Vanja, imediatamente interessada, em vez de lhe responder. Na melhor das hipóteses, o facto de duas das vítimas se conhecerem poderia ajudar a limitar a busca do agressor. Ainda que também pudesse não ter qualquer significado. Poderia ser uma mera coincidência. Mas… e se tivesse partido as luzes da fachada e esperado por ela? Porém, não sabiam ao certo se tinha sido o agressor a parti-las. Talvez tivesse simplesmente visto Klara sair da associação educativa, tivesse decidido segui-la, a tivesse visto entrar no pátio interior vazio e escuro e aproveitado a oportunidade.

Contudo, ela conhecia Ida Riitala.

—Como é que a conhece?

—Costumávamos cantar no mesmo coro. Somos amigas. – Calou-se, mas parecia que tinha algo mais para dizer. Vanja esperou. – Pelo menos, no Facebook – continuou Klara depois de parecer ponderar no tipo de relação que tinham realmente. – Não nos encontramos com muita frequência…

—E uma Therese Andersson, também conhece? – quis saber Vanja.

—Não, quem é?

—É mais ou menos da sua idade, trabalha como consultora de medicina preventiva, mora na rua Almqvistgatan com o seu companheiro Milo Pavic.

Klara abanou a cabeça.

—Tenho aqui uma fotografia.

Vanja costumava ter no telemóvel fotografias dos que faziam parte das suas investigações. Não estava certa de isso ser inteiramente compatível com as leis e regras relativas à protecção de dados pessoais, mas era prático e ajudava-a no seu trabalho, por isso, nem se preocupara em inteirar-se da legislação.

Percorreu a galeria até encontrar uma fotografia de Therese e mostrou-a a Klara, que, depois de lançar um olhar rápido para o visor, voltou a abanar a cabeça.

—É por isso que vieram as duas aqui? – Fez um gesto com a cabeça para o lugar no sofá onde Anne-Lie estivera sentada. – Pensei que talvez viesse algum… sabe o que quero dizer, um polícia normal, pelo menos. Estamos sempre a ouvir que vocês não têm tempo nem recursos para todas as investigações.

Vanja reprimiu um suspiro audível. Estava cansada de ver que a confiança na Polícia era cada vez menor e que, de ano para ano, a imagem de uma instituição ineficaz, com poucos recursos e, nalguns casos, incompetente, se cimentava cada vez mais junto do público. Mesmo que, em certos casos, infelizmente, isso fosse verdade.

—Os crimes violentos têm prioridade, mas, sim, estamos aqui porque pensamos que a pessoa que a atacou pode já ter atacado outras mulheres aqui em Uppsala.

—Como no caso do Homem de Haga.

Desta vez, Vanja não conseguiu reprimir o suspiro. Ela própria pensara o mesmo quando recebera a chamada de Anne-Lie.

O chamado Homem de Haga, condenado por duas tentativas de homicídio, quatro violações, duas das quais com extrema violência, e dois casos de tentativa de violação, mas suspeito de mais uns quantos ataques na cidade de Umeå, entre 1998 e 2005. Sete anos. Sete anos até conseguirem apanhá-lo.

Demasiadas vítimas.

Demasiado sofrimento.

Demasiado medo.

—Vamos apanhá-lo muito antes de se assemelhar ao caso do Homem de Haga. – Não havia dúvida nenhuma de que Vanja estava a ser sincera ao proferir aquelas palavras. Klara pareceu não reagir, deixou apenas o olhar vaguear de novo para a cozinha. Até à família.

—Já estamos a terminar? – perguntou a Vanja. – Já começa a ficar tarde…

—Claro, se não se lembra de mais nada…

—Não.

—Se se lembrar, é só ligar – respondeu Vanja, levantando-se e vestindo o casaco.

Klara também se levantou, mas não fez nenhum gesto que mostrasse que acompanharia Vanja à porta. Em vez disso, foi para a cozinha e, sem proferir uma única palavra, pegou no filho, que estava meio a dormir. Ele envolveu-a com os braços e afundou o nariz no seu pescoço. Zach levantou-se e, com uma mão suave nas suas costas, dirigiram-se os três para o quarto.

A pequena família.

Klara perguntou-se se alguma vez voltaria a sentir sono.

Se alguma vez teria coragem de fechar os olhos. Se ousaria descontrair-se.

Naquele momento, parecia-lhe impossível.

Carlos Rojas tiritava de frio e, sem parar de bater com os pés no chão fora do perímetro vedado, observou os elementos da Polícia Científica a movimentarem-se cuidadosamente em volta do único carro estacionado no pequeno pátio interior. Vestira-se com bastante roupa quando recebera a chamada. Gorro, luvas, cachecol, várias camadas de roupa por baixo do casaco, até tinha ido buscar sapatos mais quentes ao sótão.

Mesmo assim, estava com frio.

As pessoas que ouviam o seu nome e viam o seu cabelo e tez escura pensavam que era por ser espanhol, que não estava habituado ao clima nórdico. O que não era verdade. Vivera na Suécia toda a sua vida. A mãe conhecera o pai numa viagem de férias a Málaga, trinta e oito anos antes, e mudara-se com ela para a Suécia, onde tinham tido Carlos e as suas duas irmãs. Por isso, não era por ter passado a infância na Espanha soalheira que fazia que não estivesse bem preparado para o frio. Era simplesmente assim.

E não era apenas no Inverno.

Sentia sempre frio.

Bateu palmas com as mãos cobertas pelas luvas e deu alguns saltos rápidos. Não surtiu efeito nenhum.

Carlos soube que Anne-Lie estava a chegar, ainda antes de a ver. Nos seis anos em que trabalhara com ela, como sua chefe, aprendera a reconhecer o som dos seus passos. Sempre de sapatos ou botas de salto alto.

Sempre bem vestida.

Estilo simples, clássico, caro.

As suas roupas transmitiam uma autoridade evidente.

Aquela noite não era excepção. As botas pretas pelo joelho, o vestido vermelho visível por baixo do sobretudo preto de botões duplos, da marca Hope, e o colorido cachecol de pura lã à volta do pescoço. A moda era um interesse que partilhavam. Carlos não conseguia compreender as pessoas que não se interessavam por ela. O que alguém vestia dizia mais sobre essa pessoa do que a maioria pensava ou talvez quisesse admitir. Não tinha nada que ver com dinheiro. O estilo não precisava de ser caro. Ou se tinha ou não se tinha. Como, por exemplo, a sua nova colega, Vanja Lithner: boa polícia, uma pessoa muito correcta, mesmo que não tivesse grandes dotes sociais, mas era evidente que não dedicava nem três minutos por semana a pensar na roupa que deveria vestir ou comprar.

—Estás com frio? – perguntou-lhe Anne-Lie quando se aproximou dele e viu os seus ombros encolhidos.

—O que é que achas?

—Acho que vais ter um Inverno difícil, ainda só estamos em Outubro – respondeu-lhe com um sorriso antes de se virar para o cenário do pátio interior. – O que temos até agora?

—Pegadas. Parecem ser da mesma marca e tamanho que nos outros sítios, mas, desta vez, ele deixou cair a seringa.

—Conseguiremos localizá-lo através dela?

—Temos de esperar para ver.

—Encontraram algum saco de juta?

Carlos abanou a cabeça. Anne-Lie virou-se e olhou para os dois lados da rua.

—Não há câmaras de vigilância?

—Nenhuma aqui nesta rua, mas há uma na rua Östra ­Ågatan. Já requisitei todas as as gravações a partir das 20h30.

—Óptimo.

—E mais uma coisa…

—O quê?

—Os candeeiros na fachada. Telefonei às pessoas que têm os lugares reservados ali. – Carlos apontou novamente para o pátio iluminado pelos técnicos. – Um tal Frederik Filipsson veio buscar o carro e saiu pouco depois das oito, dizendo que estavam os dois a funcionar.

—Então, ele esperou por ela.

—Parece que sim.

—Porque a conhecia.

—Pode tê-la seguido durante algum tempo. Ela estaciona aqui todas as quintas-feiras e volta sempre mais ou menos à mesma hora. Exactamente como Ida Riitala, que fazia sempre o mesmo desvio pelo cemitério depois dos treinos.

Anne-Lie suspirou de novo. Virou as costas a Carlos e olhou na direcção do canal do rio Fyrisån e do campo de futebol universitário, para lá das águas escuras e geladas. Adorava o seu trabalho. Em todos os aspectos, mas não queria dedicar-se a isso. Tinham de resolver o caso, e depressa. O ideal era que Anne-Lie pedisse amostras de ADN a todos os homens de Uppsala com mais de quinze anos.

—Três casos em menos de um mês.

Era uma constatação. Ainda assim, Carlos respondeu.

—Exacto.

—Ele não vai parar.

—Pois não.

—As mulheres vão ficar com medo de andar na rua.

—Com mais medo.

Anne-Lie assentiu. Era a realidade e um problema social. As mulheres tinham medo de andar sozinhas na rua. Em todas as cidades, em todo o lado. De acordo com um estudo do Instituto de Prevenção Criminal, mais de um quinto das mulheres já alguma vez na vida evitara sair de casa por medo. A liberdade de movimentos das mulheres ficava condicionada e as suas possibilidades limitadas. Isso quando a situação era «normal».

Sem haver um violador em série à solta.

—Temos de fazer tudo o que estiver ao nosso alcance – disse Anne-Lie, e virou-se novamente para Carlos.

—Queres mais pessoal?

—Quero outro pessoal.

E, com este comentário, foi-se embora. Carlos continuou a ouvir os seus saltos altos, mesmo depois de a ter perdido de vista. Não sabia ao certo o que ela quisera dizer com «outro pessoal», mas tinha a certeza de que o descobriria em breve.

Quando Anne-Lie decidia uma coisa, era isso que se fazia.

—Já estás despachado?

Billy ouviu a pergunta vinda do outro lado da porta da casa de banho, mas não fez caso. Limpou a condensação do espelho, inclinou-se para a frente por cima do lavatório e observou o seu próprio reflexo.

Como fizera naquele dia.

Naquela manhã de Junho. Quando acordara no sofá com uma ressaca monumental. Parecia-lhe que fora há uma eternidade. A mesma cara, um espelho diferente.

Em casa dela. Em casa de Jennifer.

Antes de se lembrar…

A água escorria-lhe do cabelo molhado, ficava um instante nas sobrancelhas e gotejava pelas faces. Encarou o seu próprio olhar. Olhou no mais fundo dos seus olhos. O espelho da alma, como diziam os poetas. Mas, se assim fosse, os seus revelariam a verdade e, por enquanto, isso não acontecia. Os seus olhos eram bondosos, diziam-lhe. My costumava dizê-lo. «Tens uns olhos bondosos.» Não lhe diziam nada sobre a necessidade obscura que se escondia no seu âmago, como uma serpente faminta. Nada sobre os pensamentos de domínio e controlo que trazia dentro de si há algum tempo, mas que ultimamente conseguia reprimir. Depois do que acontecera com Jennifer. Billy não costumava entregar-se a pensamentos filosóficos profundos, todavia, nos últimos tempos, não conseguia deixar de se perguntar: quem era ele, na verdade?

Em quem se tornara? No que se tornara?

O jogo de squash da tarde, do qual normalmente saía esgotado, deixara-o transtornado. Não o jogo em si, mas o que acontecera a seguir no balneário. O colega que acabara de lhe vencer três sets consecutivos (11-8, 11-8, 12-10) saíra do duche e sentara-se ao seu lado no banco, com a toalha ainda enrolada à volta da cintura e o cabelo molhado. Billy decidira tomar duche em casa. Estava mais aborrecido com a derrota do que queria admitir. Três sets consecutivos, essa merda não lhe acontecia há anos. Talvez estivesse a ficar doente ou algo do género.

—Conheces a Jennifer, não conheces? A Jennifer Holm­gren? – perguntara-lhe o colega enquanto procurava o desodorizante no saco de ginástica. Billy ficara petrificado, todos os pensamentos sobre o jogo evaporaram-se imediatamente do seu cérebro. Aquele era terreno minado. O que se passara?

—Sim, trabalhámos juntos algumas vezes. Porque perguntas?

Aquilo era verdade, mas não era a verdade toda. Longe disso. Também tinham ido para a cama algumas vezes. Mais vezes do que as que tinham trabalhado juntos. E, a última vez, tinha acabado em desgraça.

—Ouviste o que aconteceu?

—Não, o quê?

Bateram à porta da casa de banho ao mesmo tempo que a abriram. Nunca trancavam as portas. My achava desnecessário; uma vez que só viviam os dois ali, sabiam automaticamente se a casa de banho estava ocupada ou não. Billy sobressaltou-se em frente ao espelho, como se tivesse sido apanhado a fazer algo que não devia. O que não estava muito longe da verdade.

—O que estás a fazer fechado aqui dentro?

—Nada.

—Preciso de lavar os dentes, vou deitar-me daqui a bocado.

My entrou na casa de banho, pegou na sua escova de dentes eléctrica e colocou uma bola de pasta na cabeça redonda.

—Viste o link que te mandei?

My enfiou-se entre ele e o lavatório, abriu a torneira e colocou a escova dos dentes por baixo. Billy forçava-se para se focar no aqui e agora. Obrigava-se a parecer implicado e interessado na conversa.

—Sim, acho que sim. Qual deles?

—Hoje só te enviei um. De Töreboda. – Soava como se estivesse deitada numa cadeira de dentista, tentando manter a espuma de pasta dos dentes dentro da boca enquanto falava. – A casa de madeira branca com praia privada.

Billy assentiu como se se tivesse lembrado, agora que ela falava disso. Até podia ser que, naquele dia, My só lhe tivesse enviado um link, mas a verdade era que Billy já não abria todos os mails que ela lhe enviava. De qualquer maneira, ela acabaria por fazer um determinado roteiro para um fim-de-semana próximo para irem ver algumas casas e acabariam por comprar a que ela escolhesse. Billy apenas teria de parecer interessado.

Falaria sobre remodelações e sobre aquilo que poderiam fazer no terreno.

Acompanhá-la-ia ao Banco e certificar-se-ia de que conseguiam um empréstimo.

Havia de assentir, sempre com um sorriso, quando My dissesse como os seus futuros filhos iam gostar de ali passar os Verões.

Iria realmente desejar que assim fosse.

Que tivessem um futuro juntos. Billy amava My. E tinha realmente feito um esforço ao longo dos últimos meses. Para pôr tudo atrás das costas. Para se tornar naquele que fora. Naquele por quem My se apaixonara. O rapaz simples, simpático e descomplicado.

Não era tarde demais, tentou convencer-se a si próprio.

My queria uma casa de Verão e costumava conseguir o que queria. Tinham-se conhecido numa festa do solstício de Verão, há pouco mais de um ano. Em Outubro, My sugerira que fossem viver juntos e, em Maio desse ano, onze meses depois de se terem visto pela primeira vez, tinham casado.

Em Junho, Billy fora-lhe infiel.

Com Jennifer.

Jennifer, que sabia.

Que algo acontecera no seu interior quando fora obrigado a disparar mortalmente sobre Edward Hinde, para salvar Vanja, e Charles Cederkvist, para se salvar a si próprio. Como retirara prazer daquela sensação intoxicante. O poder de decidir sobre a vida e a morte.

Jennifer, que o compreendia.

Que o ajudara a viver as suas fantasias de controlo, superioridade física e domínio associados ao sexo e ao prazer físico. Que mantivera a serpente satisfeita e a ele equilibrado.

Até se embebedar.

Até acabar tudo em desgraça.

Apercebeu-se de que não dissera nada em relação à casa de madeira branca em Töreboda. My cuspiu para o lavatório e olhou-o com uma expressão muito séria.

—O que é que se passa?

—Nada.

—De certeza? Estás um bocado estranho desde que chegaste do treino.

Claro que ela tinha reparado. Era esse o seu trabalho. Analisar as pessoas, interpretá-las e levá-las a alcançar o seu potencial máximo. E era boa no que fazia.

Era boa para ele. Billy não queria mentir-lhe. Não obstante, My não precisava de saber tudo. Uma meia verdade não era uma mentira.

—Lembras-te da Jennifer? Aquela com quem trabalhei algumas vezes…?

Claro que My se lembrava. Billy falara dela algumas vezes e My sabia que também se encontravam fora do trabalho.

—Sim, o que é que ela tem? – respondeu.

—Acham que pode ter-se afogado.

—O quê?

—Em França. Num acidente de mergulho, lembras-te?, ela fazia desportos radicais.

—Meu Deus, que horror! – exclamou My, envolvendo-o num abraço. – Tenho tanta pena, sei que eras amigo dela.

—Sim, pois era…

Ficaram alguns segundos de pé, abraçados em silêncio, antes de My se soltar um pouco para o olhar nos olhos.

—Mas só acham que ela se afogou? Não encontraram o corpo?

—Não, mas encontraram a roupa dela à entrada de umas grutas. Acho que deve depender do que se passou, mas se houver muitas correntes e assim…

My exalou um suspiro profundo, esticou-se e deu-lhe um beijo leve nos lábios.

—Fico tão triste…

Billy não percebeu se My se referia a ele ou a Jennifer quando o abraçou novamente, à laia de consolo. Ela nunca saberia toda a verdade e, por mais horrível que aquilo parecesse, com Jennifer morta em França, Billy podia pôr toda a história para trás das costas. Começar a convencer-se de que aquilo nunca acontecera. Recomeçar do zero.

Não era tarde demais.

Sala.

Havia, ou pelo menos tinha havido, ali uma mina de prata.

Isso era tudo o que Sebastian sabia sobre a cidade onde, de momento, se encontrava. Isso e que havia um hotel de duas estrelas a cinco quilómetros da cidade, num grande edifício acinzentado de quatro pisos que nem sequer pretendia parecer ­atractivo, nem por dentro nem por fora. O quarto tinha provavelmente alguns metros quadrados a mais para ser considerado um roupeiro. Quatro paredes pintadas num tom amarelo-nicotina, que só fazia que parecessem sujas, e cujo único elemento decorativo era uma reprodução barata de um quadro de Carl Larsson, numa moldura ordinária. Um banco servia de mesa-de-cabeceira num dos lados da cama estreita. Uma pequena televisão antiga, numa prateleira de canto, aos pés da cama. Nem se tinham dado ao incómodo de esconder os cabos eléctricos, nem da televisão nem dos dois candeeiros. E uma casa de banho onde Sebastian, com alguma dificuldade, conseguia virar-se sem bater em nenhuma das paredes. Claro que, nos tempos que corriam, era difícil gerir uma livraria, mas que corresse assim tão mal… Agora era só aceitar sem reclamar, como o responsável da livraria lhe dissera, quando as dificuldades do livro em formato físico tinham surgido em conversa, no dia em que Sebastian lá fora falar com ele.

Lutar e aceitar sem reclamar.

Sebastian tinha, sem dúvida, aceitado a situação.

Talvez estivesse até resignado, mas ninguém o podia impedir de reclamar.

Já não fazia parte da equipa da Brigada de Homicídios. Torkel acabara por se cansar. Ou, melhor dizendo, Vanja acabara por se cansar dele, pelo que Torkel fora obrigado a escolher. E acabara por escolher Vanja. O que não era de estranhar. Sebastian teria feito o mesmo, naquela situação. O que era realmente estranho era terem deixado Sebastian lá ficar um ano e meio. Ele não tinha propriamente feito um esforço para ser nomeado funcionário do mês, se se quisesse pôr as coisas nesses termos.

Vanja. A sua filha.

Não a via desde Junho.

Recordava-se da sensação que tivera quando a deixara na garagem subterrânea do edifício da Waterfront e saíra dali com uma bomba no carro: julgou que era a última vez que a veria.

Que ela desapareceria da sua vida.

Para sempre.

E, agora, parecia ser esse o caso. Durante muito tempo, tivera esperança de que ela o fosse visitar para saber como estava, mas nunca aparecera. Era evidente que não queria ter nenhum contacto com ele.

Por culpa dele. Obviamente.

Como de costume.

Tinha tido tantas oportunidades com ela e nunca aproveitara nenhuma.

Estava perfeitamente consciente de que fazia sempre as escolhas erradas, de que tornava as coisas piores para si próprio. Porém, cada vez que sentia algo parecido com felicidade ou, pelo menos, quando se sentia em paz, era consumido pelos sentimentos de culpa.

Acabara por largá-la.

A sua outra filha.

Agarrara a pequena mão, mas acabara por deixá-la ser levada pela água.

Sebastian não merecia.

Era errado, não tinha dúvida, mas saber que algo era errado e fazer qualquer coisa em relação a isso eram duas coisas diferentes. Portanto, continuou.

Nem sequer participara no trabalho posterior à investigação do último caso da equipa. O assassino dos reality shows, David Lagergren, o homem que matara para acicatar a opinião pública contra a estupidificação e infantilização da sociedade actual, mas que acabara como terrorista. O julgamento tivera lugar em Setembro e, sem surpresas, David Lagergren fora condenado a prisão perpétua. Sebastian suspeitou de que demoraria algum tempo a definirem um prazo específico para a pena.

O único aspecto positivo do caso Lagergren fora o facto de, durante as diligências, Sebastian ter colaborado numa parte importante da investigação e ter desempenhado um papel central na busca e detenção do assassino. O trajecto de carro completamente louco, que acabara com uma explosão na baía de Riddarfjärden, também não o prejudicara, traduzira-se até em algumas participações em programas de televisão e noticiários durante um Verão muito parco em notícias. A sua antiga editora voltara a contactá-lo em Agosto. Tinha surgido um certo interesse pelos livros de Sebastian sobre Edward Hinde e agora queriam saber se ele poderia considerar escrever um novo? Talvez sobre David Lagergren? Sebastian recusara-o de forma decidida mas educada. Não queria contribuir para que aquele homem conseguisse mais atenção mediática, uma vez que havia outras pessoas que o interessavam mais.

Como Ralph Svensson, por exemplo.

O homem que assassinara quatro mulheres, por ordem de Hinde.

Mulheres com quem Sebastian tivera uma curta relação, basicamente sexual.

O homem que também assassinara o velho amigo e colega de Sebastian, Trolle Hermansson.

A editora adorara a ideia. Uma continuação natural dos primeiros livros e, além disso, relacionada com o próprio autor, o que poderia tornar a obra mais pessoal e intimista. Sebastian não tinha qualquer intenção de a tornar nem pessoal nem intimista, mas aceitara de bom grado um pagamento antecipado e começara a trabalhar. Passara dias em casa, no escritório que, durante muitos anos, estivera inutilizado. Passara muito tempo a fazer uso apenas do quarto de hóspedes, da cozinha e da casa de banho, porque o resto da casa lhe trazia demasiadas lembranças de outros tempos.

De tempos mais felizes.

Da época feliz.

A única de que conseguia lembrar-se.

Da que passara com Lily e a sua filha. Não tinham vivido ali durante muito tempo, porque depois de se casarem tinham ido viver para Colónia, na Alemanha, mas sempre tinham estado ali juntos. Sabine tivera um quarto para si. Vanja também lá dormira algumas vezes.

Então, ainda não o odiava.

Antes de ele estragar tudo.

O Aprendiz seria o título do novo livro, com o subtítulo O legado de Edward Hinde. Até agora, Sebastian dedicara-se apenas à fase de pesquisa e à preparação para a primeira entrevista com Ralph, marcada para a semana seguinte.

Tinha muito que fazer.

Lançou um olhar ao portátil que estava em cima da cama, mas rejeitou a ideia. Tal como deveria ter feito quando a editora o contactara para propor uma pequena tournée literária, com sessões de autógrafos. Seis locais espalhados pelo país, em duas semanas. Coincidiria com uma edição limitada das primeiras obras em formato de bolso.

Sebastian concordara com a ideia.

E era por isso que se encontrava agora naquele deprimente quarto de hotel, em Sala.

A única livraria da cidade era também a anfitriã da sessão de leitura e autógrafos. Uma loja grande e bem abastecida, a poucos passos da praça central. Com pessoas que pareciam genuinamente contentes por Sebastian ter vindo. Quarenta pessoas no público, talvez quarenta e cinco. A maior parte eram mulheres, claro, como na maioria dos eventos culturais, independentemente da região do país onde decorressem.

Não que Sebastian tivesse algo a reclamar em relação a esse aspecto.

Quando queria, era bem-sucedido junto das mulheres. E, grande parte das vezes, era isso que queria. Quase sempre, até.

A corte, a sedução e o sexo posterior eram das poucas coisas que ainda conseguiam entusiasmá-lo.

Preencher o vazio temporariamente. Mitigar a dor.

Como sempre, o público da livraria tinha-se mostrado atento e interessado. Principalmente uma mulher, de uns cinquenta anos, que se sentara à direita do palco provisório. Fora a primeira a colocar questões quando o público fora convidado a participar e, a seguir, colocara-se na fila para conseguir os dois livros autografados. Eram da edição mais antiga, reparara Sebastian, comprados antes de o seu envolvimento no caso do assassino dos reality shows o lançar temporariamente para a ribalta.

—Pode dedicar à Magda – dissera-lhe com um sorriso que, pelo menos para Sebastian, podia ser interpretado como de admiração. Uma fã, o que tornava tudo mais fácil.

—«Magda» é a senhora? – perguntara-lhe Sebastian, retribuindo-lhe o sorriso.

—Sim, sou eu. Também pode escrever uma dedicatória mais pessoal, se não se importar – continuara a mulher, com o olhar fixo no dele.

Sebastian escrevera praticamente um pequeno conto na página da dedicatória e continuara a conversar com ela enquanto assinava as cópias das outras pessoas que aguardavam na pequena fila. No final, saíram juntos da livraria e ela perguntara-lhe onde estava hospedado. Sebastian contara-lhe e Magda lamentara. Havia melhores hotéis em Sala.

Era bom que assim fosse, respondera Sebastian.

Pelo bem da cidade.

Os seus pensamentos foram interrompidos pelo som vindo do computador. Uma chamada Skype. Não precisou de olhar para o monitor para saber quem era. Ponderou, por alguns instantes, se estaria com vontade de falar com ela; concluiu que sim e atendeu a chamada. Ursula apareceu no ecrã.

—Olá, não te acordei, pois não?

—Não, não estava a dormir – respondeu Sebastian, e sentiu que fizera bem em atender a chamada. Ficou contente por ver Ursula.

—Onde é que estás? – perguntou ela depois de estudar o ecrã à sua frente e não reconhecer o que via por detrás dele.

—Num hotel de merda em Sala.

—O que é que estás aí a fazer?

—Uma parte do livro. E tu, o que é que estás a fazer?

—Ainda estou no escritório.

—Pois, estou a ver.

Sebastian reconheceu a parede atrás de Ursula. Estava sentada na sala de reuniões no terceiro piso, aquela a que chamavam sempre «a Sala». O lugar fixo no edifício da Brigada de Homicídios onde costumavam compilar toda a informação relativa aos casos em que estavam a trabalhar. Sebastian deu por si a sentir falta daquilo. Falta de tudo. Do trabalho e dos colegas. Uma sensação inútil, na verdade, pois estava bastante seguro de que nunca mais voltaria àquele sítio.

—Continuas sem muito que fazer?

—Estou a ajudar o grupo dos casos não resolvidos com uma coisa.

O que significava que a equipa da Brigada de Homicídios não tinha nenhum novo caso e que, portanto, ela continuava sem ter vida pessoal. Sebastian percebeu que não devia continuar a insistir naquele assunto. Ursula telefonara-lhe tão tarde para conversar. Pensava nele. Devia estar agradecido por alguém o fazer. Ainda que a gratidão e o abandono de certos assuntos não fossem o seu forte.

—Então, o Torkel não está aí?

Ursula sorriu, inclinou-se para diante e baixou ligeiramente a voz, o que pareceu completamente desnecessário a Sebastian, pois tinha dificuldade em acreditar que ela não estivesse sozinha no escritório àquela hora. Sozinha na Sala estava de certeza.

—Ele sai do trabalho às cinco em ponto, todos os dias, desde que foi morar com a Lise-Lotte.

Sebastian reparou que, pelo menos, Ursula não dissera «aquela Lise-Lotte», o que era um progresso, mas pare ...