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MATERNA DOçURA

Possidónio Cachapa  

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Excerto

Sacha G. não chegou a rei da pornografia aos vinte anos, como se costuma dizer. Pelo contrário: tinha mais de trinta, um casamento arruinado e muitas dívidas, quando teve a ideia de se dedicar à Pornografia Maternal. Nunca se soube ao certo quem inventou esta designação. Mas, fosse lá quem fosse, ele nunca lhe deu grande importância. Nesses tempos, estava longe de considerar o sexo como verdadeiramente interessante. Daí que a palavra «pornografia» não fizesse parte do seu vocabulário. Sentia, contudo, pela expressão «maternal» um certo carinho.

Logo, quando lhe apareceu esta ideia de filmar homens a rodar, nus, à volta do corpo lânguido e acolhedor das mães, não viu nisso nada de estranho. Afinal, fora o que ele fizera nos trinta anos da sua existência: girar à volta do seio materno. Pareceu-lhe ser apenas a consagração do mais interdito dos interditos ou, se preferirem, a mais natural das coisas proibidas.

Diz-se que o que mais chocou as pessoas foram as imagens dos rapazes impúberes deitados sobre o ventre de mulheres grávidas e doces. Mas não eram todos rapazes: a maioria já navegava pela idade adulta havia muito tempo. O que eles eram, era todos filhos.

Consta que os espectadores choravam ao ver os filmes. A curiosidade lúbrica que os levara, às escondidas, ao cinema transformava-se num pranto antigo e inexplicável. À noite, os homens adormeciam encolhidos, em posição fetal, enquanto as mulheres os amparavam no seu seio, embalados numa música infantil que cada um deles imaginava diferente.

– Dois anos de prisão – declarou o juiz, que nunca tinha visto nenhuma das provas de acusação. Bem lhe bastava ter lido o auto, diligentemente redigido pelo promotor. «Homens a fornicar com as mães…» Onde é que já se viu uma perversão tão indizível?! «Crianças a esfregarem-se em mulheres nuas…» Claramente, um caso de «Atentado ao Pudor»… e (Pior! Muito pior!) «Incitação ao Deboche».

Decretou-lhe dois anos, e tinha-lhe pregado com dez se não fosse o telefonema abonatório que recebeu na véspera da sentença. O Senhor Presidente ligara-lhe (o próprio, que até lhe pareceu mentira, quando a secretária o anunciou à sua secretária, que lho anunciou), a pedir que tivesse a mão leve. O homem devia ter um problema qualquer, mas que, ao que lhe tinham dito, as cassetes (nessa altura, já cassetes – faça-se aqui um parênteses para nos indignarmos, como o juiz se indignou, com a proliferação de certas invenções, como o videogravador e os filmes em cassete, ou outras coisas que estão para vir e que escapam ao C.O.N.T.R.O.L.O) não eram realmente perversas. Impudicas e descaradas, sim. Mas perversas parecia que não seriam…

– Mas, Excelência – ainda argumentou o juiz –, mulheres grávidas… nuas.

O outro cortou, seco, antes de desligar.

– Não me diga que enquanto a sua mulher esteve grávida você esteve em jejum!… Dê-lhe, no máximo, dois anos. Reduzidos, se tiver bom comportamento.

E, como acontece em todos os países democráticos, a ordem foi cumprida e os dois anos atribuídos.

Sacha entrou na Cadeia do Linhoso debaixo de um mal-entendido que lhe ia custando caro. Zé Rapa, que em tempos tinha sido dono de uma retrosaria, detinha a melhor rede de informações do exterior e espalhara a notícia de que ia entrar um «cabrão que abusava de crianças». Os pais condoídos, que alguns eram, e a falta de distracções dos outros fizeram que lhe preparassem uma «recepção».

Duas horas depois de ter entrado na sua cela, Sacha, deitado de costas, olhava o tecto, procurando analisar os seus sentimentos. Acabara de descobrir que não sentia nada de especial, que se tratava de mais uma etapa do seu percurso, quando os outros entraram. As roupas prisionais faziam-lhe comichão, mas, quando já se viveu no fundo de um respiradouro, com gente a falar francês por cima, só se pode sentir isto como um luxo.

Eram cinco da tarde quando os homens chegaram. Sacha sentou-se na cama, ligeiramente apreensivo com aquela visita. Obviamente, não lhe vinham trazer o chá. À frente, o Grunhe-à-Porco, latagão de quase dois metros e que ocupava mais espaço do que o que lhe competia. No meio, o Lesma (que veio a revelar-se um grande amigo, embora seja ainda prematuro falar disso, para mais num momento de tensão como este…) e mais dois que saíram nos meses que se seguiram e de quem Sacha nunca soube o nome. Atrás, a fechar o cortejo, o Zé Rapa, de expressão justiceira na cara, empurrando os outros para a frente.

– A gente aqui não gosta de filhos da puta que comem meninos – grunhiu o Grunhe e deu um passo.

Sacha recuou na cama.

– A gente come os filhos da puta que atacam crienças.

Sacha ia argumentar que era a segunda vez que ele dizia «filhos da puta» e que a redundância era um erro lamentável, quando ouviu um dos outros dizer:

– Parece que vamos ter de te ensinar umas coisinhas…

Sacha não lhe conseguia ver bem o rosto, porque começava a ser de noite, e a janela alta e gradeada não deixava passar muita luz. Mas sentiu-lhe o olhar frio e, pela primeira vez, teve medo.

Antes que pudesse argumentar fosse o que fosse, sentiu a manta infecta cobrir-lhe a cabeça. Braços poderosos imobilizaram-no totalmente. Numa fracção de segundo, apareceram, à luz pálida do entardecer prisional, as meias, cheias de barras de sabão, e as matracas, feitas às escondidas nas oficinas. E os primeiros golpes começaram a cair. Os seus gritos abafados não saíram daquelas quatro paredes, e, se saíssem, ninguém o viria ajudar. O Zé Rapa fizera bem o seu trabalho, e mesmo os guardas fingiriam nada ouvir. Sempre fora assim e sempre assim seria. Quem se mete com criança ou mata a mãe, paga; não pela Lei de Fora, demasiado indulgente aos olhos dos reclusos (excepto no seu próprio caso, claro: sempre injusta e pesada), mas pela Lei de Dentro. A verdadeira.

Estavam eles nisto e Sacha convencido de que não se sairia dali sem alguma coisa partida, quando entrou o Sr. Vital. Num sítio em que toda a gente se tratava por tu, unida na mesma decadência, ele era o único que guardava o título. Todos lhe chamavam Sr. Vital, e os que de vez em quando se esq

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