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MARé ALTA

Pedro Vieira  

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Excerto

I

Horas de grande aflição e pavor na cabeça dos homens que nunca souberam lidar com a vida que chega, e eis as mulheres que os põem na ordem, ao som de negaças e encontrões e ameaças de bancos enfiados pelos cornos abaixo.

— Foge daqui, homem de Deus.

A casa escalda de emoções e frenesi e Ana geme cada vez mais baixinho. Faltam-lhe as forças que sempre a acompanharam e, agora que o momento decisivo se aproxima, o homem que não se cala.

— Diz-lhe que saia daqui, antes que aconteça uma desgraça, Rosa.

Abílio raspa-se da divisão, que transborda bacias, mulheres que se acotovelam, suores frios e quentes, à vez, e fecha a porta com estrondo. Cá fora, Augusto dá-lhe o consolo possível.

— Deixa-as lá tratar do assunto, há coisas que só elas sabem.

— Eu sei, senhor Augusto, mas que sentido faz um homem de braços cruzados?

— Às vezes, mais valia que os homens se deixassem estar quietos.

— Não o reconheço, senhor Augusto. Isso nem parece seu.

Seja o primeiro a receber histórias como esta

— Cala-te e anda tomar um copo de aguardente, deixa-as em sossego.

— Sabe que não posso, a Ana ainda se zanga comigo.

— Ela agora tem mais em que pensar, homem. E, se achas que a aguardente é coisa de gente fraca de cabeça e de vontades, bebemos um gole do malte escocês que tenho para ali guardado.

— Não sei apreciar essas coisas raras. Devia guardá-lo para si.

— Deixa-te de escusas e anda mas é dar conta dele enquanto podemos.

Então vá preparando os copos, que eu já vou.

— Caramba, que temos o mundo virado do avesso. O senhor às ordens do servo. Bom, bebamos a isso também.

Dobra-se a noite entre o 7 e o 8 de Dezembro e o senhor Augusto, que nada sabe do que se passa na capital, a quilómetros de distância, nem do homem que se fará anunciar como presidente-rei até que pólvora, ressentimento e fogo tratem de o mandar para o Hades, está mergulhado neste mistério da morte e da vida que agora desponta no lugar de Molhos, à mercê do céu que troveja, sacudindo paredes e crenças, e da chuva que fustiga portas e janelas e mentes inquietas. Neste momento, Augusto goza da boa disposição que uma criança à beira de chegar empresta a uma casa, trocando pilhérias com o caseiro-quase-pai. Quando souber da notícia do golpe em Lisboa, acabará por encolher os ombros, como tem feito muitas vezes, desde que o seu sonho de progresso defendido na Rotunda começou a esboroar-se entre lutas fratricidas e erros de palmatória. Quem com ferros mata, com ferros morre.

— Falta-nos a lucidez, Abílio.

— E isso é coisa que se compre, por acaso? Se fosse, bastava juntar uns tostões…

— Não, mas é coisa que podemos moldar. Tu próprio precisas de aprender a manejá-la. Onde é que foste, para apareceres aqui assim encharcado? Agora precisas de dois copos de aguardente, em vez de um. Ou pior, ainda me secas a garrafa escocesa. Tu não me digas que…

— Olhe, não me mandasse afastar-me do quarto.

— Eu estava do lado de fora, foram elas que te deram guia de marcha. Além disso, que é que uma coisa tem a ver com a outra?

— O senhor sabia que a telha tinha de ser virada.

— Homem, e vais para cima do telhado da igreja com esta borrasca? Sujeito a seres queimado por um raio.

— A criança tem de sair. Fazemos o que temos de fazer para ajudar.

— Homessa, já não me bastava ter a tua mulher a rezar por causa de umas ovelhas doentes, ainda tenho de te ouvir a ti com essas paler…

A fala do senhor Augusto é interrompida por um choro vivo de menino acabado de sair do ventre da mãe, aquele impulso primordial que traz berros de desconforto e de estupor, antecipando as armadilhas e as curvas apertadas da existência. Esta noite mesmo, temos um homem triunfante que derruba o governo, anunciando o nascimento do Império da Lei, ignorando que, antes cedo do que tarde, as moiras hão-de trocar-lhe as voltas, deixando-o estendido às mãos de um homem armado de revólver niquelado e vontade de aço, à porta da estação de todas as danações. São assim os ciclos da vida nesta terra de brasa. Esteja em causa a pátria ou a sorte de um filho de criados, é preciso abrir caminho entre gritos desde a nascença, para espantar invejas e encostos e maus-agoiros. É preciso dar conta dos maltes raros da Escócia enquanto podemos. O cordão foi cortado e atado por Rosa, que ampara o desconforto do menino acabado de chegar. Embrulha-o naquela manta de burel, tecida a partir da lã oferecida pelo rebanho, que se viu livre da morte certa graças às preces de Ana a Santo Amaro, a São Torcato e a São Silvestre, e a outros que ajudassem aqueles bichos a lutar pela sobrevivência.

— Uma mulher orando pela vida de umas bestas, onde é que já se viu?

— É a sua bolsa que fica a ganhar, senhor Augusto, se elas se tiverem nas patas.

Rosa tem o carrapito todo desfeito pelos suores e pela tensão do momento, mas preocupa-se apenas em passar alguns cabelos por trás das orelhas, evitando o contacto destes com o bebé que acabou de chegar e que já é um ai-jesus. Pois que, se o menino sofrer de cócegas nos primeiros momentos, condena-se-lo a uma presença de tolo nesta passagem terrena, refém de chistes e pouco tino. Ana inspira e expira fundo, com os olhos postos nas madeiras largas do chão. Do rosto fez caleidoscópio, tantas as cores que lhe passaram pela fronte, e agora aterra numa lividez de fim da linha. Resiste a abandonar o banco parideiro, uma vez que dos dedos se fizeram garras, que teimam em não largar tão cedo as asas de madeira cobertas de pó, sinal de pouco uso e lembranças apagadas. Da fúria da natureza que a todo o momento se regenera no corpo e alma dos recém-chegados, sobra apenas uma respiração a compasso. Bagas de suor que lhe toldam a fronte, que lhe ensopam a camisa de dormir emprestada pelo senhor Augusto, peça de enxoval da falecida senhora dona Arminda, que o Senhor a tenha em eterno descanso. Rosa vai domando o pranto do pequeno com desembaraço quando, de súbito, sai da boca de Ana uma voz de comando.

— Abram a porta. Chamem o pai.

Ainda não pegou no menino ao colo, limita-se a fitar o chão que não lhe pertence, há-de querer recolher à sua condição de serviçal o mais depressa possível, é preciso atalhar caminho, detesta gozar de estatuto por empréstimo. Ana e o pequeno terão tempo para se abraçarem e repelirem, destino reservado às mães de rapazes que ontem e hoje fazem delas Senhoras das Dores desde tenra hora, corações cravejados de punhais antes que a terra dê mais que uma quinzena de voltas ao Sol, Jocastas de trazer por casa amaldiçoadas pelas ideias dos antigos. A pequena Alma sai lesta para o corredor, chamando:

— Senhor Abílio, ó senhor Abílio. Quer fazer o favor de entrar?

Abílio galga os metros de corredor como um corisco e entra na maternidade caseira, cortesia do senhor Augusto, no seu encalço em passo lento. Graças à boa vida que levam em Molhos, à ilharga da boa vontade e amizade do dono da casa, podem dar-se ao luxo de trazer o menino ao mundo como se de fidalgos se tratassem, com comodidades e parteiras, longe do bulício dos hospitais das cidades, infestados de putas e indigentes que não sabem fechar as pernas à desgraça. Só os miseráveis e os monarcas é que precisam de médicos nestes momentos. Palavra de patrão, difícil de contestar. Abílio avança para a mulher com as mangas da camisa arregaçadas, os botões abertos, quer dar-lhe um abraço de pele com pele, antes que o pequeno dê sinais das primeiras fomes. Ana é o seu mundo e o filho acabado de chegar vem habitá-lo, depois de anos de espera e de boatos de madres secas. Depois de amparar a mulher exausta nos braços, arrancando uma Pietà invertida, Abílio transporta o menino entre o colo de Rosa e o de Ana, a manta servindo de aconchego permanente, e já o senhor Augusto espreita da ombreira da porta, soltando um:

— Temos varão.

E Ana, cortando cerce:

— Temos o que Deus quis.

— Nem tu deixarias que fosse de outra maneira, rapariga. Vá, um brinde ao Todo-Poderoso, então.

Augusto sente-se muito bem-disposto, graças à aguardente produzida com a ajuda de Abílio, mestre na arte de amansar bagaços e espíritos que entontecem os mais incautos. Homem de iluminismos, concede, sem o admitir, que este momento é também um sacudir da escuridão que paira sobre a Quinta do Tojal, desde que Arminda deu à luz o pequeno Afonso, faz doze luas novas, morrendo para se tornar mãe.

— Era de baptizá-lo já — acaba de sugerir Rosa, livre dos deveres do parto mas ciosa dos deveres das gentes.

— Coitado do pequeno, deixem-no viver um bocado sem o sufoco da Santa Madre Igreja —, casquinou Augusto, valendo-lhe olhares aflitos de Abílio, que conhece de cor as intenções de Ana.

— Nunca se sabe o que pode acontecer, Deus nos livre, mas assim ficava o assunto tratado.

— Se é essa a vossa vontade, quem sou eu para contrariá-la?

— É a nossa vontade, sim, senhor Augusto.

Aos poucos, Ana vai recuperando forças e cores e as rédeas da situação, o pequeno recebe o primeiro alimento, o discernimento regressa a galope de cavalo, e Rosa anda ali de roda para cumprir o sacramento que Afonso poderia ter recebido ainda no ventre da mãe, se Augusto o tivesse permitido. Melhor sorte teve o infante Eugénio, salvo do fogo do inferno ou do limbo eterno ainda dentro do corpo da malograda Dona Maria II, que rendeu a alma a Deus no momento de entregar ao reino o seu décimo primeiro filho, nado-morto. Mas Augusto nunca se comoveu com a aflição das realezas.

— Deixem de pôr os olhos no exemplo dessa maralha, que eles nunca quiseram pôr os olhos em vós. A sorte da ralé nunca os comoveu.

— Estava só a dar um exemplo, senhor Augusto.

— Vá, que é que é preciso? Por favor, não me tragam padres para dentro de casa.

— Eu posso fazer, senhor Augusto. As parteiras têm per­missão.

— Pois bem, trate disso, então.

— Senhor Augusto.

É Abílio quem o interpela agora, a voz num fio, os olhos ainda assim determinados.

— Diz lá.

— Fazíamos muito gosto que fosse o… está a perceber, não está?

— Estou a perceber o quê, homem?

— Gostávamos que nos fizesse o favor de…

— Desembucha, caramba. A aguardente enrolou-te a língua?

— Queremos que seja o padrinho dele — desvenda Ana na sua voz sem rodeios nem temores. — Isto se estiver disposto a ter compadres da nossa cepa.

— E qual é a vossa cepa, Ana, senão a minha? Pois se vivemos todos aqui.

— O senhor percebe o que eu quero dizer.

— Está bem, chega de debates, não se contraria uma mulher acabada de parir e com um filho nos braços. E o que vamos chamar ao pobre infeliz, baptizado sem seu próprio consentimento e apadrinhado sem querer?

— Augusto, claro. Nem podia ser de outra maneira. — Abílio di-lo com convicção e sem receios, Ana tem esse efeito sobre si, dar-lhe de bandeja descaramentos e coragem e moral em bicos dos pés.

— É da tradição, também, senhor Augusto — corrobora Rosa.

Augusto reflecte durante uns segundos, sente-se um tudo-nada grogue e dominado pela boa disposição. Afinal, acaba de brotar mais uma esperança, entre bátegas de água, os suores de Rosa e os dentes cerrados de Ana. Augusto antecipa um companheiro para o próprio filho. Alguém com quem crescer. Com quem dividir grandes feitos e amarguras que se lhes atravessem no caminho, quando ele próprio, Abílio ou Ana, não estiverem para acudir.

— Então, estamos assentes? — pergunta Ana de supetão, querendo evitar a todo o custo que o filho esteja desprotegido, porque o diabo é tendeiro, assenta arraiais em qualquer lugar que sinta à mercê.

— Vá, faça lá as rezas ao pequeno. Felizmente, depois serão vocês a contar-lhe da sua fraca sorte.

II

— Vou chamar o Vicente. Ele há-de querer ver o pequeno.

— Vai lá. Se tem mesmo de ser.

— Ana, então? É teu irmão, mulher. Tem de conhecer o sobrinho.

— Ele tem é de ter juízo. Se não se põe fino, ainda vai desta pra melhor antes de ver o rapaz a gatinhar.

— Ele tem jeito para a canalha, sabes bem.

— O que eu sei é que ele… cala-te boca.

— Anda, não te ponhas a pregar com ele. É teu irmão e não te sobra mais nenhum.

— Vai, então. E volta depressa. E cuidado com a chuva, que ainda ficas doente.

— Agora sou pai, é preciso mais do que uma gripe para me derrubar, valha-me Deus.

— Cala-te e corre. E deixa Deus sossegado.

Abílio desce as escadas da casa senhorial, atravessa a cozi­nha a toda a velocidade e sai pela porta que dá para as traseiras. Àquela hora, a magra criadagem que serve o senhor Augusto já se recolheu e a alvorada faz-se cedo. O nascimento de uma criança — mais um desgraçado que terá de esgadanhar um futuro, se sobreviver às primeiras maleitas — pouco impressiona as gentes daquele e de outros lugares. Todos têm a sua conta de bocas para alimentar. Todos enterraram filhos no solo duro de Verão, na lama de Inverno. Torna-se um hábito e as preces valem de pouco, ficam só a fazer as vezes de ilusão. Crianças sem conto, como ouriços sem vida caídos dos castanheiros em volta, fontes de dor e mágoa, espinhos a que homens e mulheres se habituam, seja lá qual for o seu estatuto. Na ceifa dos mais pequenos, a encapuzada não considera hierarquias. Mas Abílio mantém esses pensamentos longe. Um dia a sorte vira e os justos vivem, cansa-se de dizê-lo a Ana. Faz um compasso de espera debaixo do alpendre e olha para a própria casa, à direita das árvores de fruto. Daqui a nada serão três a disputar o calor do fogo e o espaço exíguo. À sugestão de modificações e melhoramentos feita pelo senhor Augusto, Abílio respondeu com um não redondo e o orgulho dos ingénuos. Uma e outra vez. Acredita que generosidade a mais é coisa funesta e que é malsão depender de favores. Ali vivem, ali hão-de criar o mais pequeno com os recursos adequados à sua estirpe. E, às acusações de teimosia, responde com indiferença ou com os olhos postos na terra por trabalhar, trajando sem dolo uma superioridade moral manca de nexo. Ana desconhece as ofertas de melhorias, filtradas por Abílio. Vivemos como merecemos e como Deus quer, é a resposta que traz engatilhada, não vá um dia o senhor Augusto resolver partilhar as suas intenções com a mulher, que, neste momento, recupera do trabalho de parto, entre risos de Rosa, mimos da menina Alma e olhares fugidios do pequeno Afonso, que se tem nas pernas há pouco mais de duas semanas mas que traz no olhar um fogo que lavra — e que Ana teme, sem saber muito bem porquê. Antes de se fazer à chuva, Abílio mira o lado oposto do terreno. Ao fundo, o barraco das ferramentas, dentro do qual escavou uma divisão subterrânea, protegida por um alçapão. Graças à ajuda de jor­naleiros e ratinhos de passagem, recompensados às escondidas por Augusto, aquele foi trabalho de apenas quatro dias, entre pás, picaretas e tábuas de escorar. Porque lá queria guardar umas garrafas, longe de tentações, era a versão posta a correr. Porque lá haveria sempre abrigo para Vicente (enxerga de palha, velas, mantas e outros trapos), para que se resguardasse do frio e da humidade e dos olhares indiscretos, foi a versão levada à prática. Em menos de um fósforo, tal abrigo tornou-se imprescindível. Ainda o ano não ia a meio e já Vicente andava nas bocas do mundo, que é como quem diz, da capital. Numa Lisboa minada pela fome, a revolta subia e descia ao sabor de humores e costelas ao léu e noites sem dormir, porque o estômago não dá descanso. Na visão do cunhado de Abílio, nos campos sempre se punha alguma coisa na panela, ao passo que, na cidade, cercada por embargos e disputas, pouco mais havia do que injustiças e pão político, vendido mais caro do que em Londres ou Marselha. O povo num virote e a República incapaz de dar sustento — aqui d’El Rei, que não temos que comer, Vicente carregava nas tintas — e os pobres e os aleijados, os operários e os marçanos, as aguadeiras e os alfaiates e as mães e pais de família a alombarem com os custos de uma guerra e de uma situação que lhes caiu em cima como fogo de artilharia. Era assim que ele descrevia os seus vizinhos, os seus amigos, nas cartas que fazia chegar a Molhos, lidas em voz alta pelo senhor Augusto, em jeito de assembleia. Desconfio que o ministro ainda ganha dinheiro com o pão que nos vende. Do caldo de misérias, uivos e lamentos descritos por Vicente, sairiam pretextos para um futuro apertado por mão de ferro. Os doutores andam a escrever sobre a crise refastelados em cadeirões, enquanto temos de ser nós a revoltar os desgraçados contra os açambarcadores e o governo, que viu o caldo entornado por alturas de Maio, sangrento Maio. «Ao assalto», gritou-se por ruas e vielas, enquanto um exército de necessitados arrombava despensas e armazéns, celeiros e postigos. Detalhes de fogo que Vicente preferia deixar de fora das missivas enviadas à parca família com quem mantinha os laços. Temia que a polícia, a Guarda, os da situação, lhe interceptassem os relatos, pondo em risco os destinatários. No meio dos saques havia comícios de improviso, aos quais o irmão endiabrado de Ana garantia a segurança possível, recorrendo a uma navalha de esgaçar o toucinho e a um pequeno revólver que lhe cabia no bolso das calças esfiapadas. Gritaria e músculo mostrado por sindicalistas de cenho franzido no meio de homens e mulheres que se pelavam por arrebanhar o que podiam em sacas e aventais. Da última vez, ao cair de mais uma noite frenética, Vicente tomava conta da porta das traseiras de um armazém, quase paredes meias com o Depósito do Alviela, que camaradas seus já tinham pensado em sabotar.

— Vamos rebentar com as águas, está decidido.

— Vocês estão doidos! O povo morre à fome e agora que­rem que, por nossa graça, morra também à sede? Quem é que nos vai defender, nessa altura?

— Se não tomamos providências, as coisas não mudam, escusas de te armar em campeão dos pobrezinhos.

No momento de arrombar, o nervoso instalava-se entre os ocupantes do lugar e o desespero dos que deitavam mão a tudo o que podiam tornava a atmosfera ainda mais densa. Apesar da frieza que o caracterizava e que lhe permitia passar por entre os intervalos da chuva revolucionária, Vicente não queria acreditar no que via.

Naquele momento, as batatas tornadas ouro puro, disputado entre cabeçadas, empurrões e ameaças, enquanto a Guarda e a tropa se alinhavam lá fora para pôr cobro à baderna. «Fogo!», gritara-se noutros lugares, dando início à fuzilaria à frente da qual tombava gente aos cachos. Dezenas de mortos, da Rotunda ao Rossio, e nenhum cronista capaz de contar o descalabro. Muito menos Vicente, que preferia esconder a face mais negra daquela sua vida, condenada pela irmã a todo o momento. Um dia trazes o azar de arrasto contigo e depois eu quero ver como é. Aqui ninguém é Jean Valjean nem personagem de cordel e, no entanto, todos deitariam a mão a um pão alheio sem pestanejar, é da natureza do Homem. Acordado do espanto por estampidos de espingarda vindos da frente do edifício, Vicente rapa do revólver. Um mensageiro corre por entre as trevas, carregando notícias da Baixa. Vicente espreita para dentro do armazém, lugar de pânico, e percebe que também ali já há sangue. Num ápice muita gente se põe em fuga pela Lisboa oriental, cujo mato bravio com que partilhava limite serviria para acoitar insurrectos e esfomeados durante uns dias. «São centenas de feridos e mais de 500 presos», sussurram ao ouvido de Vicente, que desapareceu de vista logo após os primeiros tiros. «Foge, que te matam. E desfaz-te da pistola antes que te prendam. Rápido, vai.» A companhia desfaz-se. O mensageiro desfaz-se numa nuvem de poeira e pedras soltas, Vicente arranca num tropel em direcção ao rio e, em poucos minutos, leva a camisa e o colete ensopados, as calças que se escapam pela cintura abaixo, as pernas num vê-se-te-avias, homem em cuidados que corre envolto na penumbra em direcção a ocidente. Avança como se ouvisse vozes de alarme dentro da sua cabeça. Foge, que se te apanham põem-te a cantar o nome daqueles que andaram contigo a incendiar a vontade deste povo sem conserto. Moem-te à coronhada ou pior. Esconde-te num logradouro, num cortiço, debaixo de um portal, bem enrolado em trapos. Acoita-te num vão de escada. Se chegares àquele pátio com vista para as Águas Livres, dá a senha na porta do costume. Ouvida a contra-senha, entra para os fundos e mantém-te de bico calado. O maralhal da colmeia tratará de te encobrir por uns dias, até arranjares via de fuga. Vicente chegou feito água à porta de madeira. Antes, detivera-se por momentos em frente a um bueiro para onde, depois de hesitar uns momentos, lançou o pequeno revólver, desfazendo-se, frustrado, das balas por disparar. No pátio de destino, cá fora, mirones de ocasião bebiam e fumavam com indiferença. Habituaram-se a vê-lo por ali, a manter a boca fechada para evitar problemas. Do que tinham ouvido dizer, Vicente era contra a fome. Isso bastava-lhes. Se matava, se roubava, se desafiava a Guarda e a República, pouco lhes importava. Três pancadas na porta de madeira.

— Quem vem lá?

— O Bom Primo a casa torna.

A porta abre-se, Vicente entra sem mais palavras, sub­traindo-se ao mundo.

Após três dias de rigor monástico — silêncio, pouco pão, expiar de culpas —, Vicente sai pela calada da noite, perante a mesma indiferença do pátio. Todos sabem o que se passa, nada distingue público e privado naquele microcosmos. Mas ninguém abre a matraca, ninguém solta a língua. Com a barba raspada e a roupa trocada, abandona as Águas Livres e ruma às docas, onde reina por fim a acalmia depois de mais um dia de nervos. No cais de Alcântara, encontra o homem de quem lhe fizeram a descrição ao pormenor.

— Sobes comigo a bordo, mas nem um pio.

— Aqui nada tenho para dizer.

Vicente embarca num navio de transporte de tropas, beneficiando do olhar cúmplice das sentinelas de portaló. Pernoita agora num vaso de guerra incapaz de largar o cais por incompe­tências logísticas e lutas de galos entre graduados. Ali dentro, o tédio envenena mais uma fatia do Corpo Expedicionário Português, em câmara ardente por antecipação. Conta-se que um homem de espírito baptizou o agora famoso CEP, orgulho de governo e troça de aliados, como Carne de Exportação Portuguesa.

— Ouve o que te digo, camarada, somos carne para canhão nos lodos da Flandres. A única carne, aliás, de que se ouve falar nesta época de carências.

— Nada impede que as coisas mudem.

— Tudo impede que as coisas mudem. Se duvidas, agarra numa farda e vem ver como as coisas são nas trincheiras. As ideias e teorias pouco arranham quem manda. Nós vamos para lá para matarmos o que pudermos, de preferência inimigos. Isto se metade desta gente souber disparar.

Na noite de 26 de Maio, véspera da partida da carne em direcção à guerra, Vicente, qual saltimbanco, consegue escapar por um cabo de amarração. Fazem-lhe companhia meia dúzia de soldados de infantaria e um telegrafista, mais interessados em regressar a casa nos arrabaldes da capital do que em fazer peito às balas do Kaiser. No momento da descida, planta-se um nevoeiro cerrado por todo o cais e pelas ruas em volta, proporcionando uma fuga em descanso. Espesso como um pez branco, capaz de esconder, de dissimular, de cortar a respiração aos desprevenidos com o seu travo a entranhas daninhas. Um nevoeiro que não ficaria registado para a História, dele não se conhecem relatos nem assentos, como se nunca tivesse descido sobre o porto. Vicente bule com os elementos, era o que se dizia à boca pequena. Tolices. Consumada a fuga, caminhos apartados. Os saloios já despindo partes da farda, Vicente na sua demanda particular, empenhado, mais uma vez, no ritual da senha e contra-senha, depois do aconselhável pousio de uns dias longe da toca do costume. Sabia despistar, mover-se com pouco mais do que a roupa do corpo. A partir daquele momento, sabe que é preciso mover as peças com prudência. A Guarda não foi de modas, alçou fuzis e ceifou os famintos sem piedade, dando por encerrado o capítulo da clemência. E, premido o gatilho, entra-se num caminho sem retorno. Vicente conhece as linhas com que se cosem aquelas batalhas, feitas de avanços e recuos. Pensa rápido mas não se precipita, joga com destreza. À hora a que decide fazer-se ao caminho em direcção a Molhos, munido de farnel e novo revólver recolhidos no pátio, os desertores da fragata, privados de rectaguarda e de lugar seguro onde esconder o medo e o corpo, enfrentam o pelotão invocado pela justiça militar. Dias depois, no momento em que Abílio lhe abre a porta com os olhos arregalados de espanto e preocupação, jazem sete palmos debaixo de terra as carnes que, longe da Flandres, acabaram enfrentando o mesmo destino de chumbo.

Ao toque-senha combinado, Vicente responde com a abertura do alçapão a partir de dentro. Assoma-se ao piso térreo e agarra Abílio pelos ombros.

— Então? Já está?

— Já. Acaba de nascer.

— Rapaz ou moça?

— Rapaz.

— Diacho, temos de comemorar. Cunhado, onde tens as aguardentes? Brindemos ao futuro do homem que há-de pôr o país nos eixos.

— Cala-te com essas conversas e ganha tino, olha que a tua irmã ainda te enfia um varapau na barriga, para não dizer pior.

— Qual quê. É com gente nova que isto muda. Gente do novo século, ainda por cima nascida em noite de borrasca. Bons augúrios, cunhado.

— Que sabes tu de augúrios?

— O suficiente. Escreve o que te digo, fulano… como… que nome é que vão pôr ao gaiato?

— Já está posto. Augusto.

— Que diabo. Um nome de patrão? Enlouqueceste?

— O nome de alguém que pode velar por ele, é o que basta.

— Vê lá, que a coisa ainda se pode emendar.

— O baptismo está consumado.

— Baptismo? Caramba, e boas notícias, não há?

— Nasceu bem e com saúde.

— Pronto, da padralhada hei-de ser eu a livrá-lo. Vamos lá, que quero pôr os olhos no pequeno. E arranja uma garrafa, anda.

E já os dois homens saem para a chuva em passo de cor­rida. Vicente só teve tempo de enfiar as botas, leva camisa e colete abertos e mal dá pela água que lhe escorre pelos cabelos, pela barba. Fura, meio cego, pela tempestade, em ânsias de conhecer o menino que é esperança, e quer abraçá-lo sem dar fé das aguilhoadas de Ana, irmã mais velha que é como se fosse mãe. Pois que lhe censura as fracas maneiras e os deslizes e as atitudes de mata-frades, mas também lhe apara alguns golpes, o que é que uma pessoa há-de fazer, não se escolhe o sangue com que se nasce nem os elos com que nos prendem. Em podendo, Vicente mantém-se ao largo. Há muito tempo que se deixou de idílios em relação a Ana, sabe que do amor de irmãos pouco restaria, se lhe obedecesse aos caprichos. Um homem vergado não tem amor por ninguém. Por vontade dela, ele passaria os dias ali, colhendo fruta das árvores e enrolando cigarros com o cunhado, vendo passar as estações do ano com vagar. Só que o sangue partilhado, esse, ferve-lhe nas veias e não quer saber de amparos suaves, nem do voo daquelas aves, nem da pacatez dos campos. Por isso, corre. Vive em jeito de corrida para a frente, entre censuras escutadas de raspão e ai-jesuses a que faz orelhas moucas, rumo a um destino incerto. Mas corre também tu, Abílio, corre ágil, olha que ficas para trás, tal é a pedalada do homem dos mil duelos e disfarces e das pernas de fazer inveja às lebres. Chegados, arfando, à porta das traseiras, Vicente estaca e põe finalmente os olhos no céu negro que às vezes lhe pertence, tolices, firmamento de que se apartara há dias por dever de recolhimento. Olha-o como se buscasse, ordenasse, algo doce. E eis as nuvens dissipadas, como se.

III

Foi como se Deus estivesse zangado connosco, a sua graça tornada ira durante meses de pânico e inquietação. Pior só se abrissem fendas nos campos, capazes de engolir bestas e homens e mulheres, entre lava cuspida, pedras pelos ares e bafos de enxofre e maldição. As gentes mal tinham memória de tal matança e os padres, ultrapassados em importância pelos caciques e funcionários do Estado, agora donos de todos os favores terrenos, miavam por misericórdia. Depois de toda a sorte de humilhações republicanas, atreviam-se a sair à rua de cabeça levantada, bradando entre temores isto é como nos tempos de Moisés, em terra ímpia e esquecida dos seus deveres é natural que sobrevenha o castigo que há-de limpar as almas e os costumes daqueles que abandonaram o caminho dos justos. Mas e aqueles que não o abandonaram e que caem que nem tordos? Que hão-de pensar esses inocentes, mortos aos magotes no lugar de Milagres, que tanta falta agora fazem, e em Colmeias, na Bajouca e em Pisão, corpos amortalhados e lançados aos ribeiros por quem receia que se contaminem as terras pois se a gente come o que de lá vem, famílias de luto numa extensão de terras a perder de vista, e as almas de Molhos em cuidados com a febre do menino Augusto, as tosses do menino Augusto, as dores de corpo e olhos que mal se abrem e o menino Afonso que segue murmurando entre dentes: «Guto vai ficar bom, Guto vai ficar bom, Guto vai ficar…»

As primeiras semanas da vida do menino foram de paz, apesar do frio cortante e do pouco tempo que os pais lhe podiam dispensar, depois do recolhimento oferecido a Ana. Quarenta dias de barriga untada com azeite e cingida com toalhas, porque tudo deve voltar rapidamente ao lugar com a bênção dos bens e dos regalos a que podemos deitar a mão, sobretudo quando ao menino há quem ponha a mão por baixo. Empenhada em perder peso, pois nunca se imaginou no papel de matrona a deitar os bofes de fora por se agachar na apanha da amêndoa, Ana teve de esperar pelo fim desta quaresma ordenada pelo senhor Augusto, durante a qual foi alimentada a pão frito, ovo, açúcar e canela, dieta à base de descanso e fatias de parida, e ela a sentir a toalha a apertar cada vez mais, pondo em tensão os alfinetes de apoio. Era como se vivesse num eterno repasto, depois de uma grande conquista, quando, no fundo, se tinha cumprido apenas a lei da vida. Veio ao mundo mais uma criança, como antes tinha vindo sua mãe, e também a mãe e o pai de sua mãe, aos quais todos tinham perdido o rasto desde muito cedo.

— Não sou nenhuma rainha para ficar deitada num canapé. A minha sachola?

Rosa ria com vontade perante o barafustar de Ana. E Vicente passava as noites piscando o olho ao cunhado.

— Esta minha irmã saiu-me cá uma megera. Até parece do Ministério Público.

— Cala-te, tu, que muito lhe deves.

— Eu sei, homem. Mas gabo-te a paciência e a coragem de me servires de escudo. Sei bem que, por vontade dela, eu já andava longe.

— Para sempre não hás-de ficar.

— Claro. Ainda tenho muito mundo para virar.

Em breve, para alívio de Ana, Vicente far-se-ia à estrada e à refrega e a vida de trabalho regressaria ao normal. Alma tomava conta dos dois meninos, Afonso e Augusto, separados por um ano e por uma vinda ao mundo marcada por uma fortuna desigual, que o senhor Augusto se esforçava por mitigar, dispensando atenções a Abílio e a Ana.

— Já faz por nós mais do que devia.

— Só estou a dizer que devíamos melhorar o que há para melhorar. Um dia que eu não esteja cá…

— Isso quer dizer que nós também não estaremos. Mas duvido que nos deixe para trás, onde é que vai encontrar mãos tão trabalhadoras?

— Gostas de me provocar, tu. Sabes bem que falo de outra coisa. De quando me for desta vida.

— Haverá sempre o seu filho.

— O meu filho há-de querer outros voos. Nasceu neste regime novo, tal como o teu. Serão outro tipo de pessoas. A não ser que tudo se perca com tanto erro. Agora temos este golpista, feito Sebastião.

— Fale-me de coisas que eu entenda. Ou então vou traba­lhar.

O riso toma conta do diálogo dos homens que se amparam num curioso equilíbrio de forças, Augusto nascido de família de posses e com a República no sangue, que línguas afiadas remontam às loucuras e à guilhotina de Danton; Abílio chegado de um lugar perdido nas Beiras, forçado a migrar desde criança em busca de trabalho. Tornado ratinho aos nove, todos os anos percorria carreiros, montes e vales de ida e volta, entre a manada de homens para toda a obra que se cria chegar ao meio milhão de almas quase penadas. Centenas de milhares de mãos ao serviço dos campos dos outros, distribuídos entre searas, pomares e campos alagados. Milhos e trigos que só podem ser pão se alguém os ceifar, frutas que importa colher antes que caiam de maduras. Abílio chegara a Molhos para apanhar laranjas com a destreza de um macaco. De galho em galho, as suas cabriolas ganharam fama nos lugares por onde passava e, com o passar dos anos, Augusto insistia para que ficasse durante cada vez mais tempo, assumindo outras tarefas na quinta. Via na atitude do rapaz um desembaraço que muito jeito lhe daria quando resolvesse assentar de vez na Quinta do Tojal, ocupando-se dos frutos da terra, bem longe de charlas parlamentares e punhaladas e idos de Março sucessivos na capital.

— Senhor, mas eu preciso de voltar.

— O teu soldo vai ser entregue aos teus pais, eu te garanto. Ficas aqui a ganhar mais uns cobres e voltas na próxima leva. Nessa altura, eu dispenso-te.

Promessa nunca cumprida. Foi em Molhos que Abílio deu fé de já ser homem. E foi lá que conheceu Ana, ao tempo em que o senhor Augusto e a senhora dona Arminda ainda respiravam juventude e optimismos. Hoje, Arminda tomou o caminho da vida eterna, sentença que encheu Augusto de cólera, de tal maneira que assestou uma bofetada de mão pesada no pároco que acabara de a proferir, logo após o enterro da mulher. Incapaz de conter a fúria fermentada pelo desgosto, desfez-se mais tarde em desculpas que nunca apresentou ao visado. Era o que faltava.

— Sei que foi coisa irreflectida, mas há-de nascer o primeiro padre a quem eu mostre arrependimentos. Se lhes dás a mão, ferram-te logo o braço.

— O senhor Augusto lá saberá. Mas a minha Ana…

— A tua Ana tem a sua fé em Deus. Pois que a tenha e que fale com ele sem intermediários. Diria que é coisa mais sã de se fazer.

— Falar com Deus, mal não faz.

— Com certeza. Eu prefiro ter fé nos homens. Prefiro rezar a São Teófilo Braga, santo que veste modestamente, como é obrigação desses mártires, e que até vai de eléctrico para São Bento. O que é que achas? Tão desapegado como o teu Cristo.

— Acho que, se a minha Ana o ouve, condena-o já ao lume dos infernos.

Conversa jogada fora, como tantas outras, dias antes da aflição que chegou cortando a direito. A testa do menino arde em febre e o primeiro aniversário de Augusto foi, assim, passado em cuidados. O médico mandado chamar pelo senhor Augusto orava secretamente a Esculápio e Hipócrates, tentando por todos os meios decepar os tentáculos de uma pneumónica que haveria de somar para cima de 50 milhões de mortos por esse mundo fora, número com que padres e bispos nunca poderiam sonhar, pois a tanta gente seria difícil pôr o carimbo de impiedade merecedora de castigo. Por toda a região de Leiria, ecoava o som das pás de ferro cavando sepulturas.

— É preciso que o menino repouse, que coma e beba bem. Mais não se pode fazer.

— Caramba, doutor, mas que se passa? Fomos de novo tomados pela peste?

— Suspeito que seja coisa desse aparato, sim, senhor Augusto. Muita água, frutas e carnes com fartura. E os pais que rezem todas as orações que souberem.

O menino Afonso, que a todo o momento se escapulia da vigilância dos adultos, entrava a desoras no quarto cedido pelo senhor da casa, onde, há um ano, nascera Augusto, que hoje lutava contra a peçonha da doença, ajudado por pouco mais que tisanas e terços rogados. Tomando a mão do mais pequeno, rilhando os dentes com a ladainha «Guto vai ficar bom, Guto vai ficar bom», os olhos duas labaredas, Afonso esfria temperaturas e suores de Augusto, acalma a respiração daquele irmão de outros pais que tomou para si desde a nascença. Ao nome de baptismo cedido pelo pai, juntou a sua dedicação ainda por confessar. Durante meses, a doença haveria de varrer o país de alto a baixo, desgraçando famílias, futuros. Ali, dias depois das primeiras dores de cabeça e corpo maçado, as nuvens circulam a grande velocidade sobre Molhos, como se aquele pequeno mundo rodasse sobre si próprio e sobre a sua sorte. As laranjeiras e as amendoeiras abanam ao sabor do vento, os cães das redondezas deixaram há muito de uivar, há quem fale de uma imagem de pau-santo caída do seu nicho na igreja. Reza-se, espera-se, sofre-se.

À conta de caldos, preces ou casualidades por explicar, a Quinta do Tojal desperta numa manhã de Dezembro ao som dos tímidos passos do pequeno Augusto no lajedo da cozinha. Vem de mão dada com Afonso. Rosa corre a pegar-lhe ao colo e galga as escadas até ao andar de cima.

— Ana, Ana, olha o teu menino, que já caminha. E foram-se as febres. Ó Ana!

A mãe esfrega os olhos com força, acaba de levantar-se do canapé onde velara toda a noite pela saúde do filho, resgatado daquelas quatro paredes por Afonso, sem que ela desse conta. Abre a boca de espanto e arranca o menino dos braços de Rosa. A expiação da doença está à vista, graças a Deus. Afonso permanece no andar de baixo. Atravessa a cozinha descalço e apoia a mão na ombreira. Espreita pela porta das traseiras, o campo todo à sua mercê. Num repente, imagina Abílio e Augusto, homens de súbito muito leves e em voo na direcção da casa e por cima do arvoredo, vêm como que embalados, os olhos fechados, os azimutes às avessas, trazidos pela ventania e pela boa-nova. Abílio e Augusto acabam de chegar esbaforidos, mas sobre as próprias pernas. Afonso sorri pela primeira vez, aos dois anos de idade.

IV

Cumpriram-se onze voltas da Terra ao Sol desde o entusiasmo contagiante e o fervor sem tréguas que levou à queda de um regime, então substituído por promessas de paz, pão, prosperidade. E três anos desde a febre que quase consumia Augusto, velado em permanência por Afonso. Por esta altura, os rapazes cresciam saudáveis, e os mais velhos, ali e mais longe, alguns deles heróis da varanda da Praça do Município, encolhiam agora os ombros e navegavam no cepticismo de quem assistiu a mais de uma década de azedume num país aos coices.

— A monarquia andava com os bofes de fora, o povo faminto sem bofes para amostra, e o rei chamou piolheira à nossa terra. Alguma coisa tinha de ser feita, mas, caramba, o que a gente vive também é fraca colheita.

— O senhor chegou a disparar algum canhão na Rotunda?

— Eu não, mas olha que estive bem envolvido na coisa. Não penses que me desmereces.

— Nem tal coisa me passaria pela cabeça. O que eu digo é que temos de continuar a amanhar a terra e a lavrar entre as desilusões.

— Oh, diabo, queres ver que me calhou um caseiro poeta? Ou pior, um caseiro filósofo? Qualquer dia trocas pá e enxada por tinteiro e pena.

— Agora já vou tarde e os campos precisam da minha atenção. Já há poetas e filósofos que cheguem em Lisboa.

— E líricos. Muitos líricos. Nisso tens razão.

Neste Outubro de 1921, Abílio e Augusto ignoram as ruas da capital pejadas de corpos ao abandono, vidas sacrificadas ao tifo e embrulhadas em lençóis desde há dias, à espera de recolha e de umas palavras de misericórdia. Vicente serpenteia por entre cadáveres nas idas e vindas das suas missões a coberto da noite. Parece que andamos amaldiçoados, a saltar de uma praga para a outra. O pátio das Águas Livres onde costuma acoitar-se está praticamente selado e os que sucumbem são amortalhados e deixados ao largo, servindo de pasto aos ratos e aos pássaros de má rês. A morte ronda Vicente, zomba da sua vida de vaivém. Na semana anterior, escapara por pouco a um atentado preparado pela sua própria gente. A falta de perícia no manejo do engenho deixou dois camaradas feitos em pedaços, ao passo que Vicente se safou com pouco mais que um lenho aberto na testa por um estilhaço. Tem a sorte de um protegido do Belzebu, diz-se. Tem um pacto com o tinhoso. Engraxa as botas de Samael. Se te tem apanhado uma das fontes, oh valha-me Deus, diria Ana mais tarde. Dias depois, na noite de 19 para 20 de Outubro, novo perigo tornado concreto. Vicente fazia por andar bem informado e sabia que seria desaconselhável sair de casa nesse entardecer e depressa correria a notícia de vítimas por recolher do chão frio. Outra vez. Dentro dos limites do pátio, enrolou um cigarro, enquanto o senhorio de conveniência lhe falava das figuras ilustres da Revolução que se esvaíram em sangue às mãos da Marinha e da Guarda Republicana, sedentas de uma justiça qualquer.

— Ninguém sabe bem as razões, mas também pouco importa. Temos de andar de olho vivo. E tu, mantém-te discreto, nunca se sabe se a balança pende para um lado ou para o outro.

— A balança já não tem controlo, é a espada que fala mais alto.

— Estás a falar de quê, homem?

Vicente sabia melhor que ninguém que a sanha poderia ser estendida além do que era suposto. Graças às suas fontes, soube por antecipação aquilo que se preparava, mas convém desconfiar da sorte que nos bafeja em permanência. Após o banho de sangue que ensopou gente de gabarito, tingindo de luto novas casas, achou por bem afastar-se por uns dias. Arrumou a trouxa e deixou o pátio já depois de jantar, à hora a que três vizinhos golpeavam sem piedade uma garrafa de bagaço destilado ali mesmo. Não ficou para a prova. Ainda se afiavam facas e aviavam arcabuzes em Lisboa quando partiu, uma vez mais, em direcção a Molhos, para nova temporada de discrição. O luar, forte, alumiava-lhe o caminho e rapidamente se afastou da zona de fogo, mantendo sempre a mão do revólver por perto. Deixaria a primeira montaria ao cuidado de um camarada nos arredores da Batalha e faria o restante caminho a pé, à luz do dia. Com vagar. Chegou a Molhos ao entardecer do dia 21 e entrou descontraidamente na Quinta do Tojal, cofiando a barba e chamando pelo sobrinho em voz alta.

— Augusto. Eh, rapaz. Onde estás?

O primeiro rosto que lhe saiu ao caminho foi o da irmã, Ana, tomada de azeites e responsos por entregar.

— Que é lá isso? Tu outra vez? Em que bolandas andas metido agora? Que é isso na tua testa?

— Minha querida irmã, que gosto tenho…

— Deixa-te de fitas, Deus te livre de algum dia trazeres um problema que seja agarrado a ti. Coisa que nos prejudique. Nem que saiba que te…

E já o cunhado Abílio aparece em modo soldado da paz, interpondo-se entre a mulher e este Proudhon de escassos recursos, que, no entanto, carrega a mesma febre demolidora do francês, uma flama que mais cedo que tarde poderá trazer dissabores.

— Bons olhos te vejam. Quer dizer, espero eu.

— Bons olhos, sim. Já morria de saudades da canalha. E da minha querida irmã.

— Não me tentes, deixa-nos em paz, mais às tuas patifarias.

— Patifarias? Eu? Pois se ainda há dias li numa gazeta a odisseia de desfalques desse tal Manuel dos Santos.

— Quero lá saber de gazetas.

— Juro pela minha saúde, um Manuel que agora anda pedindo às alminhas, aos juízes e à Guarda que o soltem, que tem a mulher grávida e uma casa honesta por sustentar…

— Mas que raio de conversa sem préstimo é essa?

— E é cá da zona dos pinheiros, de Leiria, onde dizem que só há gente da mais pura. Afinal…

— Sei lá do que falas, homem.

— … Pura, cristalina, mas amigada de cheques bancários feitos à sorrelfa num qualquer pasquim, em nome do nosso querido Brasil. Li eu com estes que a terra há-de comer. Desfalque gordo com direito a cadeia. Hein, que me dizes, querida irmã? Podes, porventura, ser menos severa comigo? É que por aqui também há malandros que valha-me Santo António.

— Larga-me, que já tenho consumições que bastem.

— Então e tu o que é que contas, cunhado? Já vi que a minha mana está como sempre, feita varunca.

— É ela que manda, sabes como param as modas. Tens fome? E sede? Uns compinchas do senhor Augusto vieram tra­zer-nos há dias umas garrafas de vinho novo, só para entreter a espera. É coisa rija, aviso-te já.

— Oh, diabo, traz lá isso, se tenho fama de traste, ao menos que tenha também o proveito.

Antes que Abílio arrede pé rumo ao néctar por fermentar, Augusto e Afonso dobram a esquina da casa principal e correm na sua direcção, aos tropeções na poeira. Tio Vicente para lá, tio Vicente para cá. Puxam-lhe a barba e o cabelo cada vez mais comprido, tentam arrancar-lhe aventuras de chorar por mais e Vicente mente com desenvoltura. O perigo sem consequências, nobre, é uma espécie de fábula, um engodo para entreter o desejo de ver e saber o mundo dos mais pequenos. Neste momento, Augusto, soberano da casa, junta-se ao magote que Ana deixou para trás, entre impropérios e desabafos de mãe por empréstimo agastada com as audácias do irmão mais novo. Tem mais que fazer do que consumir o dia em farpas lançadas a um caçula sem conserto. Pouco lhe importam as greves e as lutas e a inflação a 2000%, palavras que nada lhe dizem, quando por ali há tanto que sachar. Só teme que sobre eles caia algum infortúnio, ou que Vicente capture as vontades do pequeno Augusto. E eis que Augusto adulto toma a palavra.

— Outra vez por cá? Que é que foi agora? Mandaram prender a Carbonária? Caiu o governo nas mãos dos talassas? Mataram o Granjo?

— Para quem vive no campo, vossemecê está muito bem informado.

— Chama-se instinto, caro amigo. E você cuide do seu, oiça o que lhe digo. Mire tudo à sua volta, aprenda a ler nos olhos dos outros. Às vezes não basta dominar as chuvas e os ventos.

— Que chuvas? Que ventos? Homessa!

— Não se faça de Inês. Olhe que um morto tem a graça de aparecer nos obituários dessas gazetas que vossemecê lê.

V

Afonso e Augusto pelavam-se pelo Verão. Por terem os dias mais longos, cheios, prenhes de mundos por explorar. Por poderem aproveitar o tempo ao máximo, correndo pelos campos, trepando às árvores, fugindo à tirania do tutor pago a peso de ouro pelo senhor Augusto, empenhado em dar-lhes uma educação à prova de bala. A ambos. Ao filho, Afonso, privado de mãe desde a nascença. Ao afilhado, Augusto, um ano mais novo, desembaraço igual. Ana e Abílio viam a instrução graciosa do filho a contragosto, fizeram frente às vontades pedagógicas do patrão até ao limite das suas forças, pois que nunca estaria ao seu alcance tal tratamento de excepção. As mãos do pequeno seriam até mais úteis no acto de debulhar, de colher, do que de folhear, de escrever, com a caligrafia quase ilegível de que Afonso faz troça.

— Escreves como um aleijadinho, tu. Que cartas de amor contas enviar às moças? «Ai, como eu tremo por ti»?

— Cala-te e faz os teus deveres. Eu estou quase a acabar, mandrião. Depois não te queixes, quando o mestre te tratar a chumbo grosso.

— Livra, que ainda és pior do que ele. Te arrenego, Satanás. Se te apanhas de arma na mão, fujam todos, que dali vem morte de homem.

Augusto sorria e fazia pouco caso das provocações de Afonso, moço empenhado em sabotar as ordens do tutor, os conselhos do pai, o bom senso de toda a gente. Os rapazes cresceram juntos, unha com carne, paredes meias, mas funcionavam como espelhos. Afonso, o temerário, o desafiador, de olhos em fogo a provocar calafrios em Ana, braços e pernas sem repouso, o disparate prestes a acontecer a qualquer momento. Augusto, o reservado, firme na senda de Afonso mas sem dar braço ou personalidade a torcer. Amigo da prudência e da observação atenta, que lhe permitia conhecer antes de agir.

— Anda, despacha-te, que o Sol está quase a pôr-se. Ainda quero ir dar um mergulho antes que a minha mãe apareça a pregar comigo por qualquer coisa que eu não fiz, sabes que ela aproveita todas as oportunidades para me zurzir.

— Mas tu és um santo, nosso Senhor te proteja.

— Se te ouve dizer essas coisas, pior ainda. Encomenda uma coça ao teu pai.

— Pois terá fraca sorte, o meu pai gosta pouco de anjos, deuses e santinhos. E tu também não gostas, finges que sim para poupares a tua mãe a desgostos, mas eu sei que um dia vais libertar-te da fera.

— Deixa-te de profecias e despacha-te, que já oiço a água a chamar.

Honrados os compromissos, o dia de Verão terminava no ribeiro que marcava a fronteira entre Molhos e Colmeias. Augusto e Afonso corriam como quem foge da danação e assomavam a um calhau aguçado e em forma de proa que permitia vistas largas e mergulhos de grande efeito, apontados a um fundão que lhes amparava os saltos de cabeça. Afonso abusava do espalhafato e repetia incansavelmente o percurso água-terra-penedo, até ficar a arfar e a pedir forças a Niké. Augusto, por sua vez, entregava todas as suas preces a Atena, cuja estampa tinham ambos admirado num livro guardado na prateleira das religiões, para desespero do tutor, avesso a paganismos. Augusto gostava da pose serena da deusa ...