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MANUAL DE SOBREVIVêNCIA PARA ESCRITORES OU O POUCO QUE SEI SOBRE AQUI QUE FAçO

João Tordo  

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Excerto

Prefácio

Este «manual» não nasceu de uma ideia. É a consequência de milhares de horas passadas sentado a uma secretária, a tentar — palavra após palavra, uma página de cada vez — escrever um livro. Um livro. Singular. Não livros, ou uma obra literária. Milhares de horas a tentar aprender um ofício que, devido à sua natureza volátil, me foge diariamente por entre os dedos das mãos.

Serve, assim, este prefácio para te convidar a fazer uma pequena viagem pelos meandros desse ofício. Se aceitares o convite, então parto do princípio de que queres ser escritor, ou já o és, ou talvez guardes, em segredo, no fundo de uma gaveta, textos que nunca ninguém leu. Na verdade, também podes ser apenas um leitor curioso; estás convidado na mesma. Parece-me que estes ensaios podem ser tão úteis ao jovem escritor como ao escritor experimentado, pois eles nascem das dúvidas, alegrias, fracassos e conquistas de alguém que, não sendo mais um jovem escritor, ainda não tem grandes certezas; tendo em conta que aqueles que apenas gostam de ler também se mostram, por norma, curiosos acerca deste estranho e fascinante processo que é a escrita, talvez até esses possam encontrar interesse nestas páginas.

Quando eu era miúdo, sonhava com a vida de escritor. Imaginava o seguinte cenário: eu, sentado a uma velha mesa de madeira, num quarto com uma janela que dava para uma floresta, em frente da velha máquina Royal que havia na casa onde morava com a minha família no princípio dos anos 80, a primeira máquina que usei, onde aprendi a posição das teclas — a seguir à qual jurei que nunca escreveria à mão. (Nunca escrevo à mão. Detesto caligrafia. A minha caligrafia, claro: adoro caligrafias bonitas. Infelizmente, não é o meu caso.) Aos sete ou oito anos, era este o meu sonho. De vez em quando, alguém vinha trazer-me torradas e um copo de leite. E eu escrevia, nada mais.

Vinte anos passados, li, num livro de Stephen King dedicado à escrita, que «a vida não é o sistema de suporte da arte, mas sim o contrário». A princípio, não entendi o significado da frase. Ele tornou-se mais claro com a passagem do tempo: quanto mais vezes eu tentei subjugar a vida à arte — ou ao ofício —, maior se tornou a distância entre mim e aquilo que eu fazia.

Aquele quarto artificial, imaginado na infância, não existe.

Estamos ligados à existência de modo visceral; a arte é uma fabricação que, embora, por vezes, supere a vida no âmbito do sentido (do significado), não se pode substituir a esta. É preciso viver, e viver bem — ainda que isto signifique a mais dolorosa solidão, ou uma casa cheia de gente. Falarei disto mais adiante.

Este livro nasceu, assim, das coisas que estão aí, daquilo que existe no mundo. Embora seja mais elegante afirmar o contrário, a verdade é que não vivo para escrever; escrevo porque estou vivo. A escrita é consequência de inúmeras causas e condições que estão para além da minha finita capacidade de compreensão. Com cada livro — com cada palavra e cada parágrafo —, vou construindo esse sistema de suporte, que me dá alento e ao qual também me encosto quando a vida se torna particularmente difícil.

E a vida de um escritor pode tornar-se difícil. Acredita em mim.

*

Portanto, tu queres ser escritor. Ou talvez já o sejas, não sei; escrevi este livro para ti. Ele surge deste (des)entendimento entre Arte e Vida — desta complexa negociação entre a nossa razão de ser e o que esse processo implica. A vida torna-nos hábeis, mas a Arte torna-nos humanos. Sem ela, existimos. Com ela, vivemos: tornamo-nos mais conscientes de nós mesmos.

O escritor tende a ser uma criatura volátil, fragilizada pelo seu próprio talento. Facilmente se perde dentro de si próprio, rapidamente volta costas ao mundo que o criou, que fez dele alguém: alguém que escreve. King ditou a sentença da página anterior depois de anos de adicção ao álcool e às drogas, que

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