Loading...

LUANDA, LISBOA, PARAíSO

Djaimilia Pereira de Almeida  

0


Excerto

Capítulo I

Se uma história se parece com o corpo de um animal, então pode começar por um calcanhar.

O calcanhar esquerdo do filho mais novo de Cartola de Sousa nasceu malformado. O pai deu-lhe um nome helénico, tentando resolver o destino com a tradição. «Vale mais nascer grego em terra de troianos do que nascer gazela em terra de leões», alvitrou ao erguer o menino no dia em que Aquiles foi baptizado. Com dois dedos na boca, a criança fungou como se lhe desse consentimento. Os convivas ergueram os copos de cerveja e gritaram «Avante!». O pai, com o menino apoiado na anca, agarrou no calcanhar com a mão para que não se visse. Comeu-se e bebeu-se como se faria se o calcanhar do bebé fosse perfeito. Cartola era um parteiro adiantado na carreira, no Hospital Maria Pia, em Luanda. Administrava vacinas e antibióticos à família como um ditador temperamental, mas não conseguia disfarçar que a enfermidade de Aquiles era mais um aguilhão cravado na cauda da vida. Depois de uma juventude promissora em que chegara a chefe de banco do Hospital Provincial de Moçâmedes, a família mudara-se para Luanda, decisão que ele sentiu como uma derrota.

Para disfarçar, falava do filho aos amigos afectando uns jeitos de cerimónia, uma azia petulante que lhe fazia lançar olhares oblíquos. Ao ver o bebé gatinhar, o pai reconhecia nele um adulto antecipado em cujos ombros estava agora a linhagem dos audazes Cartola, conhecidos por caminharem sobre a água doce e sobre o fogo e por matarem feras com as próprias mãos. Diante dos passos hesitantes da criança, se se apanhavam sozinhos, não continha a consternação perante um mal que envelheceu Aquiles assim que ele pisou o soalho do corredor.

Se o filho lhe sorria da porta da sala, precisava de refrear o impulso para bater continência à figurinha barriguda que passeava de fralda pelo apartamento com ganas de quem queria crescer depressa e deixar-se engolir de uma vez pela vida, coisa antiga e dolorosa em vista do seu corpo falhado. Aquiles inspirava-lhe dentro de casa a solenidade do trato público. Parecia carregar uma sabedoria que não tinha como caber dentro de um corpo que ele ainda hidratava com óleo de coco depois do banho. Quer lhe aparecesse ao pé dos fetos do hall ou debaixo da mesa do telefone à entrada da cozinha, surgia ao pai como um lapso a quem o trem da vida e da guerra esmagaria. Diante dos cuidados das primas e da irmã mais velha com o benjamim da família, olhando-o comovido quando o levavam a Glória, afligia-o que o filho não pudesse ser um príncipe nem por quatro meses nem na Primavera da vida — meu Deus — nem até aprender a gramática impiedosa da Língua Portuguesa.

O erro abria o menino a um mistério que o excluía. Se nem a respeito do seu passado pode um homem ter certezas, muito menos podia tê-las Cartola, um pobre escultor fintado, sobre a sua criação. O mal podia ser congénito, mas a intimação que lhe fazia era concreta. Se vinha com defeito, então o filho não era seu, embora o tivesse originado. Pertencia-lhe um futuro no qual nem o pai nem a mãe doente tinham lugar, história em que eram somente os destinatários atrapalhados de um pacote incógnito.

À varanda, envolto numa humidade pegajosa, Cartola perguntava-se onde teria errado. A memória não o ajudava. Talvez Deus lhe quisesse dizer alguma coisa ao enviar uma encomenda avariada. Aquiles dormia no sofá de barriga ao léu. Acabrunhado, o pai ponderava se o filho seria um fruto doutras vidas chegado para o assombrar.

Do outro lado do largo — via Cartola enquanto fumava —, mulheres com turbantes vendiam peixe dentro de alguidares de gelo ensanguentado, eh, carapau, eh, carapau, eh, carapau. Miúdos de joelhos sujos subiam a rua aparentando não saber para onde iam, as suas pernas desamparadas como se não lhes pertencessem. Abaixo, de dentro de um apartamento do prédio, ecoava uma canção de amor dominicana sob o apito de uma panela de pressão a cozer feijão catarino. O céu enevoado daquela manhã de Luanda não lhe enviava sequer uma mosca com a qual partilhar a atmosfera macambúzia. Talvez não fosse ele quem tivesse de se entregar ao cuidado de Aquiles como quem ampara ao colo um ponto d

Seja o primeiro a receber histórias como esta