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LENINE, O DITADOR

Victor Sebestyen  

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Excerto

INTRODUÇÃO

Num dos lados da Praça Vermelha, em Moscovo, permanece um cenário familiar para todo aquele que conheceu os derradeiros anos de comunismo na União Soviética. A cada dia, filas intermináveis de gente aguardam pacientemente por um bilhete para visitar o mausoléu de Lenine, instalado num gigantesco plinto de mármore construído no final da década de 1920. A espera pode prolongar-se por uma eternidade; a visita em si dura apenas alguns instantes. Os visitantes entram numa cave e percorrem alguns metros de um corredor despojado, em sinistra semiobscuridade, até chegarem à urna. Luzes potentes iluminam o corpo embalsamado que jaz naquela envolvência de sumptuoso veludo vermelho há cerca noventa anos. É tal a pressão de corpos que a cada pessoa se concede somente um máximo de cinco minutos para prestar homenagem – ou ficar apenas a olhar embasbacado. Alguns dos visitantes são estrangeiros. No entanto, a grande maioria é composta por russos.

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É um lugar macabro para fazer turismo no século XXI, independentemente de quem lá está sepultado. Porém, volvidas duas décadas e meia do desmembramento da URSS, parece o mais estranho dos anacronismos que Vladimir Ilitch Lenine possa continuar a arrastar tamanhas multidões. Toda a gente conhece a devastação por ele provocada; poucos acreditam actualmente na fé que ele abraçou. Todavia, continua a atrair a atenção – e até afeição – na Rússia.

O actual líder comunista, Vladimir Putin, não tenciona desfazer-se do sepulcro. Pelo contrário, autorizou em 2011 uma despesa avultada para reparações no mausoléu, quando havia o perigo de desabar. O Culto de Lenine persiste, ainda que de modo diferente. O avô de Putin, Spiridon, foi cozinheiro de Lenine depois da Revolução Russa, mas não são as razões sentimentais da família do actual presidente que deixam inamovíveis os restos mortais de Lenine. O sinal claro é a manifestação da continuidade histórica, a ideia de que a Rússia ainda carece – como sempre careceu – de um líder dominador, impiedoso e autocrático, um patrão, o que em russo se chama Vojd. O túmulo de Lenine simbolizou em tempos uma ideologia internacionalista, o comunismo mundial. Tornou-se agora altar do nacionalismo russo ressuscitado.

Não foi apenas o corpo de Lenine a ser embalsamado. O carácter dele também foi «posto em conserva»; a sua personalidade, a sua motivação e intenções raramente foram reavaliadas na vigência da última geração, mesmo à luz de vastíssima informação nova acerca dele desde que começaram a ser abertos os arquivos relativos à antiga União Soviética. Na URSS, todas as biografias de Lenine eram hagiografias, leitura obrigatória nas escolas russas, onde as crianças eram ensinadas a referir-se ao fundador do Estado soviético como «Dieduska» (avô) Lenine. Até mesmo o último líder do Partido Comunista, Mikhail Gorbachev, costumava designá-lo como «génio especial» e citava-o com frequência. Lenine era, em todos os sentidos, o esteio da rectidão bolchevique.

No campo adversário, verdadeiro era o contrário. O princípio tendia a ser que ele poderá não ter sido tão mau como Estaline, mas criou ainda assim uma das tiranias mais cruéis da história e um modelo de estado que a dado momento era copiado por quase metade do mundo. As mais das vezes – com algumas excepções notáveis –, os biógrafos situavam-se de um lado ou do outro de uma linha divisória ideológica, numa altura em que a Guerra Fria era importante. Essas disputas teóricas ficaram obsoletas a partir do momento em que o Muro de Berlim foi derrubado e a União Soviética desabou. Agora já podemos ser mais imparciais.

O mundo comunista que Lenine constituiu, em grande medida à sua própria imagem ascética, poderá ter ido parar ao caixote de lixo da história. No entanto, ele é hoje extremamente relevante. No final da Guerra Fria, o neoliberalismo triunfou, a par da ideia de democracia. O socialismo e as suas variantes caíram no descrédito total. Não parecia existir alternativa às soluções políticas e económicas propostas pelos mercados globalizados. Contudo, o mundo apresentou-se como um lugar diferente depois da crise bancária e da recessão de 2007-2008. Verificou-se uma perda de confiança em grande parte do próprio processo democrático. Para milhões de pessoas, as certezas que duas gerações aceitaram como premissas básicas, como factos da vida, parecem agora menos inabaláveis. Lenine teria provavelmente olhado para o mundo de 2017 como estando à beira de um momento revolucionário. Ele é hoje relevante não pelas suas soluções imperfeitas, sangrentas e criminosamente mal orientadas, mas porque partiu das mesmas interrogações que hoje formulamos a respeito de problemas análogos.

Neste tempo, milhões de pessoas, e alguns perigosos líderes populistas à esquerda e à direita, duvidam que a democracia liberal haja sido bem-sucedida na criação de uma sociedade justa, com liberdade e prosperidade sustentadas, ou que seja capaz de lidar com a desigualdade e a injustiça profundas. As expressões «elite global» e «os um por cento» adquiriram agora um timbre decididamente leninista. É improvável que as soluções de Lenine voltem a ser adoptadas nalgum lugar. Todavia, as questões de Lenine são constantemente formuladas hoje e poderão ser respondidas mediante métodos igualmente sanguinários.

Lenine adquiriu o poder através de um golpe, mas não actuou integralmente com recurso ao terror. Em muitos aspectos, foi um fenómeno político totalmente moderno – o tipo de demagogo que nos é familiar nas democracias ocidentais, bem como nas ditaduras. Na sua demanda do poder, prometeu tudo e mais alguma coisa ao povo. Propôs soluções simples para problemas complexos. Mentiu desavergonhadamente. Identificou um bode expiatório que posteriormente pôde designar como «inimigos do povo». Justificou-se com a ideia de que vencer é o que importa: os fins justificam os meios. Qualquer pessoa que tenha tido a experiência de eleições nas culturas políticas consideradas sofisticadas do Ocidente poderá reconhecê-lo. Lenine foi o padrinho do que os comentadores hoje chamam «política da pós-verdade».

Lenine considerava-se a si mesmo um idealista. Não era um monstro, um sádico ou sequer pessoalmente perverso. No relacionamento pessoal, era invariavelmente amável e comportava-se como fora criado, à maneira de um cavalheiro de classe média-alta. Não era frívolo. Era capaz de se rir – por vezes, até de si mesmo. Não era cruel: ao contrário de Estaline, Mao Tsé-Tung ou Hitler, nunca pedia pormenores das mortes das suas vítimas para saborear o momento. De qualquer modo, para ele as mortes eram teóricas, simples números. Nunca vestia uniformes ou túnicas de estilo militar, como foi do agrado de outros ditadores. Contudo, nos seus anos de litígio com outros revolucionários, e depois, quando tinha o poder bem firmado, nunca deu provas de generosidade para com um adversário derrotado nem teve um gesto humanitário, a menos que fosse politicamente vantajoso.

Lenine construiu um sistema baseado na ideia de que o terror político dirigido contra os opositores se justificava por um fim mais elevado. Foi aperfeiçoado por Estaline, mas as ideias foram de Lenine. Nem sempre foi um homem mau, mas fez coisas terríveis. Angelica Balabanova, uma das suas antigas camaradas que o admirou durante muitos anos, mas que acabou por o temer e detestar, afirmou com discernimento que «a tragédia [de Lenine] foi que, nas palavras de Goethe, desejou o bem […] mas criou o mal.» O pior dos seus malefícios foi deixar um homem como Estaline na posição de liderar a Rússia depois dele. Esse foi um crime histórico.

Lenine é muitas vezes mostrado como um ideólogo rígido, um fanático comunista, e isso é verdade até certo ponto. Debitava constantemente a teoria marxista – «sem teoria não pode haver partido revolucionário», terá celebremente dito. Contudo, é frequente ignorar-se a frase que muitas vezes se seguia: «A teoria é um guia, não a Sagrada Escritura.» Quando a ideologia colidia com o oportunismo, ele optava invariavelmente pela via táctica em detrimento da pureza doutrinal. Podia mudar totalmente de opinião se isso o aproximasse do seu objectivo. Impulsionava-o tanto a emoção quanto a ideologia. A sede de vingança depois de o irmão mais velho ter sido executado, após ter sido condenado por conspirar para assassinar o czar, foi para Lenine uma motivação tão forte como a sua crença na teoria das mais-valias de Marx.

Ele queria poder e queria mudar o mundo. Deteve pessoalmente o poder por pouco mais de quatro anos até que a saúde debilitada o deixou física e mentalmente incapacitado. Contudo, como vaticinara, a revolução bolchevique de 1917 «virou o mundo do avesso». Nem a Rússia nem muitos lugares da Ásia à América do Sul recuperaram desde então.

No entanto, para um biógrafo, o que é político é pessoal, como também Lenine teria dito algumas vezes. Lenine foi um produto do seu tempo e lugar: uma Rússia violenta, tirânica e corrupta. O Estado revolucionário que ele criou foi menos a utopia socialista que ele sonhou do que uma imagem refiectida da autocracia dos Romanov. O facto de Lenine ser russo é tão significativo como a sua fé marxista.

Lenine como pessoa raramente pôde transparecer nas versões da sua vida criadas no tempo da Guerra Fria. Nenhum dos lados queria que ele parecesse humano, pois isso não se enquadraria de forma harmoniosa na sua bagagem ideológica. Ele não foi a figura glacial, lógica e unidimensional que se vê em tantas descrições. Era extremamente emotivo e tinha acessos de cólera que quase o tolhiam.

Escreveu um número desmesurado de textos acerca da filosofia e da economia marxistas, muitos deles hoje ininteligíveis. Porém, adorava montanhas quase tanto como adorava fazer a revolução, e escreveu com lirismo sobre caminhar nos Alpes e atravessar espaços campestres. Adorava a natureza, caçar, praticar tiro ao alvo e pescar. Sabia identificar centenas de espécies de plantas. As suas «notas naturalistas» e as cartas para a família revelam uma parte de Lenine que surpreenderá aqueles que o imaginavam como alguém distante e insensível.

Uma das surpresas da investigação para este livro foi a descoberta de que quase todos os relacionamentos importantes na vida de Lenine foram com mulheres. Mostrar-se-á outra faceta pouco conhecida dele: Lenine apaixonado. A mulher dele, Nadejda, deixou um relato comedido da vida conjunta deles, mas recorrendo a algum material novo e reconstruindo a narrativa a partir de outras fontes, houve nela muito mais do que a serviçal/secretária doméstica que normalmente se retrata. Lenine nunca teria chegado onde chegou sem ela. Ao longo de uma década, Lenine teve um caso amoroso intermitente com uma mulher encantadora, inteligente e bela, Inessa Armand. O ménage à trois deles está entretecido em quase metade deste livro, ocupando um lugar tão central na vida emocional de Lenine – e no de Nadia. Trata-se de um exemplo raro de triângulo romântico em que os três protagonistas parecem ter-se comportado de forma civilizada. A única vez que Lenine soçobrou visivelmente em público foi no funeral de Inessa, quatro anos antes do seu.

Nos tempos da URSS, quando estava em serviço em Moscovo como jornalista, levaram-me em visita privada ao escritório e quartos outrora ocupados por Lenine no Kremlin. Conservavam-se tal como haviam sido no tempo dele, ou pelo menos foi isso que me garantiu o alto funcionário do Partido Comunista que me serviu de cicerone. Espantou-me como eram vulgares aqueles aposentos, verdadeiramente banais e burgueses e – sem tacto diplomático – foi exactamente isso que exclamei ali mesmo. Singularmente, pois era raro os servidores do Partido darem voz a pensamentos heréticos nesses tempos, ele disse: «Sim, interroguei-me sempre como poderá ele ter feito coisas tão extraordinárias.» Nunca me esqueci dessa conversa. Esta é uma tentativa de lhe responder.

VICTOR SEBESTYEN, Londres, Outubro de 2016

Prólogo

O GOLPE DE ESTADO

«A insurreição é tanto uma arte quanto a guerra.»

KARL MARX, Revolução e Contra-Revolução na Alemanha, 1852

«Há décadas em que nada acontece. E há semanas em que acontecem décadas.»

VLADIMIR ILITCH LENINE, As Principais Tarefas do Nosso Tempo,

Março de 1918

Debatia-se com a peruca, uma grenha de cabelo grisalho que não deixava de lhe escorregar pelo cocuruto e ameaçava arruinar-lhe o disfarce. Vladimir Ilitch Ulianov – mais conhecido pelo pseudónimo Lenine – lutara durante toda a sua vida de adulto por este momento. Estava prestes a conquistar o poder absoluto na Rússia e a desencadear uma revolução que mudaria o mundo. Contudo, ali estava ele agarrado àquela cabeleira ridícula, enfiado num apartamento acanhado de segundo andar num subúrbio proletário de Petrogrado, enquanto era feita história por outros a poucos quilómetros dali, no centro da cidade.

Já não conseguia suportar a frustração e a incerteza. Lenine sabia que ele e o seu pequeno grupo de socialistas fanáticos, os bolcheviques, gozavam de popularidade muito restrita na capital da Rússia e de ainda menos no resto do país. A única oportunidade que tinham de grandeza residia agora em «apropriar-se do poder da rua», através de uma insurreição contra um governo fraco que ainda gozava de menos apoio. A escolha do momento certo era crucial, como costumava dizer Lenine com uma regularidade monótona. Determinara que o golpe devia ter lugar na quarta-feira, 25 de Outubro de 1917, ou os seus inimigos aproveitariam o momento deles para o frustrar. Tinha 47 anos, já não estava no melhor da saúde e, se falhasse, a sua oportunidade poderia não voltar a apresentar-se.

Chegara o fim do dia 24, terça-feira, e Vladimir Ilitch não fazia ideia se alguns dos planos elaborados pelos seus camaradas para a insurreição estavam realmente a ser implementados. Era um líder sem contacto com o seu estado-maior e as suas tropas. Nomeara um «Comité Revolucionário Militar» para conceber os pormenores tácticos do golpe. Contudo, o comité montara base no lado oposto da cidade, no quartel-general dos bolcheviques no Instituto Smolny, um edifício imponente que fora antes uma escola feminina para as filhas da nobreza.

Por razões de segurança, os camaradas de Lenine haviam insistido que ele permanecesse na casa de refúgio que lhe fora destinada na zona de Vyborg. Ficou escondido no apartamento de Margarita Fofanova, uma trabalhadora leal ao Partido que recebeu ordens para não deixar Lenine sair para a rua. Passara a maior parte do dia a andar de um lado para o outro na sala, cada vez mais irascível. Quase não recebera visitantes e não tivera notícias da sublevação iminente até cerca das seis da tarde, quando Fofanova regressou e lhe contou que não parecia haver em lado algum da cidade sinal das tropas de assalto dos bolcheviques, a Guarda Vermelha. «Não os percebo», disse ele. «De que raio têm medo? Pergunto-me se não haverá uma centena de soldados ou Guardas Vermelhos dignos de confiança e com espingardas. É só do que preciso.»

Impaciente, afiigia-o que o seu comité militar, em que poucos membros tinham qualquer experiência de combate, arruinasse o golpe. Pior ainda, imaginava que os seus camaradas civis tinham, na sua ausência, abortado completamente a insurreição. Sabia que muitos, mesmo entre o seu círculo mais próximo, duvidavam que os bolcheviques pudessem conquistar o poder e muito menos conservá-lo. Alguns temiam ser «enforcados nos candeeiros públicos» se o tentassem. Lenine impusera-lhes a sua vontade, como sempre arranjara maneira de fazer nas quase duas décadas de liderança do movimento revolucionário clandestino. Intimidara-os, lisonjeara-os e, por fim, chantageara-os com a ameaça de se demitir, deixando os bolcheviques à deriva. Finalmente, quinze dias antes, conseguira que uma maioria das principais figuras do Partido lhe desse o seu apoio. Todavia, podiam ainda mudar de ideias e cancelar a revolta. O poder ainda podia fugir-lhe.

Lenine escrevinhou apressadamente um apelo de exortação aos seus camaradas. «É perfeitamente óbvio que protelar a sublevação seria verdadeiramente fatal», escreveu. «Neste momento está tudo por um fio. Não devemos esperar. Temos de agir a qualquer preço esta noite, ou podemos perder tudo. A história não perdoará o adiamento a revolucionários que poderiam hoje ser vitoriosos (e serão certamente vitoriosos hoje), quando arriscam tudo perder amanhã. O governo cambaleia. Tem de receber impreterivelmente o golpe fatal.»

Disse a Fofanova que levasse aquela nota à sede local do Partido em Vyborg, muito perto dali, e que a entregasse à mulher dele, Nadejda Konstantinovna Krupskaia, «e a mais ninguém». Ela garantiria que chegava aos mais altos responsáveis do Partido.

Lenine estava desesperado para ir para Smolny. O líder devia estar a comandar, não escondido. Havia, porém, um mandado de prisão em nome dele que o deixava em perigo. Vivera na clandestinidade desde o princípio de Julho, primeiro na Finlândia e nas últimas três semanas em Petrogrado. A princípio, as autoridades haviam levado a cabo tentativas pouco esforçadas para o capturar. Mas dias antes os bolcheviques tinham sido avisados de que agora o governo estava mais determinado em localizá-lo. Outro risco era que a lei e a ordem já não vigoravam em Petrogrado e a violência ocasional de criminosos desgarrados interditava certos sectores da cidade. «Os assaltos tinham-se generalizado a tal ponto que era perigoso andar por ruas secundárias», escreveu um jornalista. «Certa tarde, na Sadovaia [uma rua principal próxima da Estação de Finlândia], vi uma turba de várias centenas de pessoas espancar e espezinhar mortalmente um soldado apanhado a roubar.»[1]

Pouco depois das nove da noite, o guarda-costas de Lenine, Eino Rakhia, compareceu no apartamento. Era um bolchevique finlandês que se tornara chegado a Lenine nos muitos anos de exílio. Informou que o governo dera ordens para que todas as pontes sobre o rio Neva fossem levantadas. Se assim acontecesse, Vyborg ficaria isolado do centro da cidade e, se mobilizassem soldados suficientes, as forças leais ao governo podiam dominar Petrogrado bairro a bairro, separando as unidades da Guarda Vermelha e interrompendo as comunicações.

«Nesse caso, vamos para Smolny», disse Lenine.

Rakhia advertiu-o de que não havia transporte e teriam de ir a pé. «Pode levar horas… e é muito arriscado.» Nenhum deles tinha salvo-conduto que lhes desse acesso às zonas centrais da capital.

Lenine insistiu que, nesse caso, era melhor meterem-se imediatamente a caminho. Arranjou algum papel e deixou uma mensagem para Fofanova. «Fui para onde não querias que fosse. Adeus. Ilitch.»

Lenine pôs então o disfarce – as roupas velhas de operário, um par de óculos e a peruca que se recusava a permanecer no lugar, mesmo quando lhe assentou o boné de trabalhador que se tornaria familiar nos anos vindouros. Rapara a característica barba arruivada no Verão anterior. Amarrou um lenço sujo em volta do rosto. Se alguém o fizesse parar, o plano era dizer que estava com uma dor de dentes.

Saíram então para a noite ventosa e glacial. Lenine pensava que ia chover e tinha galochas calçadas por cima dos sapatos. Caminharam algumas centenas de metros, mas tiveram sorte quando apareceu um eléctrico quase vazio. Levou-os por vários quilómetros até à esquina dos Jardins Botânicos de Petrogrado, perto da Estação de Finlândia, o fim da linha. Em muitas histórias soviéticas posteriores, diz-se que Lenine teve uma conversa com a condutora do eléctrico, que lhe perguntara: «De onde veio você? Não sabe que vai haver uma revolução? Vamos expulsar os patrões!» Supõe-se que Lenine se riu de boa vontade e explicou à mulher como acontecem as revoluções – para grande contrariedade de Rakhia, que receava que Lenine se denunciasse.

O eléctrico parou junto à Ponte Liteiny, prestes a soar a meia-noite. Foi aí que a viagem se tornou mais difícil e perigosa. Um extremo da ponte estava dominado pelos Guardas Vermelhos, que acreditaram que aqueles dois eram realmente proletários e lhes fez sinal para prosseguirem. O outro lado continuava nas mãos das tropas governamentais, que verificavam os salvo-condutos. Precisamente nesse momento, um grupo de trabalhadores discutia com os soldados e os dois homens aproveitaram a oportunidade e esgueiraram-se sem dar nas vistas.

Desceram a Avenida Liteiny – junto ao Smolny –, mas depararam com dois cadetes do exército, jovens oficiais, que lhes pediram documentos de identificação. Rakhia ia armado com dois revólveres e decidiu que, se fosse necessário, estava preparado para lutar com eles. Depois teve uma ideia melhor. Sussurrou para Lenine: «Eu ocupo-me destes soldados, vai andando», e Lenine afastou-se. Rakhia começou a distrair os guardas discutindo com eles, vacilando sobre as pernas e arrastando a voz. Os cadetes levaram as mãos às pistolas, mas decidiram não fazer nada. Deixaram-nos passar, julgando que se tratava apenas de dois bêbedos inofensivos. Não é de presumir que marxistas acreditem na sorte, no acidental ou no acaso, mas antes que expliquem a vida através de forças históricas abrangentes. No entanto, o segundo mais infiuente líder bolchevique em 1917, Leon Trotski, declarou simplesmente que se Lenine tivesse sido preso, abatido a tiro ou não estivesse em Petrogrado, «não teria existido a Revolução de Outubro».

Chegaram ao «grande Smolny», um edifício desagradável de cor ocre cuja fachada se estendia por mais de 150 metros. Era ali a «arena interior da Revolução». Nessa noite estava «cheio de luz e parecia, à distância, um transatlântico no mar nocturno.» Mais de perto, «zunia como uma colmeia gigante.» Jovens Guardas Vermelhos permaneciam no exterior, «um grupo amontoado de rapazes em trajes de operários, armados de espingardas com baionetas, a conversar nervosamente» e a aquecer as mãos em redor de fogueiras. Lenine não foi reconhecido, mas os seus problemas não tinham acabado. Tanto ele como Rakhia tinham livres-trânsitos caducados – brancos em vez dos agora válidos, emitidos nessa manhã, que eram vermelhos. «Isto é ridículo, que trapalhada», gritou Rakhia. «Estão a recusar a entrada a um membro do soviete de Petrogrado.» Quando aquilo não resultou, também Lenine começou a discutir com os guardas. Foi só quando gente que estava atrás deles na fila protestou com a demora e começou a empurrar que os guardas os deixaram entrar. «Lenine entrou a rir», recordou mais tarde um homem que estava na multidão. Quando tirou o boné virado para os guardas, a peruca caiu.

Lenine nunca estivera antes no edifício e não sabia para onde ir. Havia já semanas que o Smolny estava superlotado de soldados a dormir pelos corredores, políticos revolucionários a conspirar no edifício de cerca de 120 divisões e jornalistas a testemunhar o desenrolar da história da Revolução Russa. O fedor era acabrunhante. «Havia uma atmosfera densa de fumo de cigarro. Os pavimentos estavam repletos de lixo e sentia-se por todo o lado o odor de urina. Tinham sido afixados nas paredes letreiros inúteis: “Camaradas, conservem o espaço limpo, por favor.”» Rakhia conduziu-o ao segundo andar, com Lenine ainda preocupado em ocultar a identidade. Ali, estava no meio de tanto opositores como amigos.

Ao cimo das escadas encontrou Trotski, chefe do Comité Revolucionário Militar, o homem encarregado do planeamento do golpe. Ao saudarem-se – «Vladimir Ilitch disfarçado era uma visão bizarra», disse Trotski mais tarde –, dois membros destacados de um grupo socialista opositor examinaram atentamente Lenine, sorriram e trocaram um olhar significativo. «Raios, os patifes reconheceram-me», resmoneou ele.

Lenine foi metido na sala 10, onde o Comité Revolucionário Militar estava em sessão permanente havia já vários dias. «Vimo-nos na presença de um homenzinho grisalho e de idade, com lunetas encavalitadas no nariz», recordou Vladimir Antonov-Ovseenko, que em breve se tornaria um dos homens para todo o serviço mais impiedosos dos bolcheviques. «Podia-se confundi-lo com um mestre-escola ou um alfarrabista. Tirou a peruca […] e reconhecemos-lhe então os olhos, a cintilarem de boa disposição, como de costume. “Há notícias?”, perguntou.»

No esconderijo, Lenine pouco soubera dos pormenores do golpe. O artista da insurreição foi posto ao corrente em traços largos. Via agora mapas da cidade desdobrados nas mesas e foi-lhe explicado como os principais bastiões de Petrogrado estariam em mãos bolcheviques pela manhã. Estavam disponíveis na região 25 mil Guardas Vermelhos armados, mas só seria necessária uma parte deles, disse Trotski. Os revolucionários tomariam o poder sem disparar um tiro.

Puseram alguns cobertores e almofadas num canto da divisão e eles deitaram-se. Porém, nenhum conseguiu dormir. Às duas da manhã, Trotski olhou para o relógio e disse: «Começou.» Lenine respondeu. «Sinto-me tonto. É desta corrida para o poder supremo… é de mais». E, segundo Trotski, persignou-se[*][2].

Persistiu o mito de que a Revolução foi uma operação irrepreensivelmente organizada, levada a cabo por um grupo de conspiradores disciplinados em alto grau que sabiam exactamente o que faziam a cada momento. É uma versão dos acontecimentos conveniente para ambos os lados. Os historiadores soviéticos nas décadas que se seguiram apresentaram o «Outubro glorioso» como um levantamento de massas, dirigido de forma brilhante pelo mestre da oportunidade e da táctica, V. I. Lenine, e os seus destros e heróicos tenentes do Partido Bolchevique, que se ativeram a uma programação estrita da insurreição.

Os «Brancos» derrotados, como em breve seriam chamados, também adoptaram um mito reconfortante: de que perderam o poder numa conquista militar calibrada com precisão, engendrada por um génio diabólico cujos planos, perversos como eram, se apropriaram com astúcia do caos nas ruas de Petrogrado. Não teria impressionado os apoiantes do governo – ou sequer apaziguado o seu amor-próprio ferido – se se pusesse a circular que tinham sido derrotados por um grupo de conjurados que quase deram cabo da sua própria revolução. Os bolcheviques podiam ter facilmente fracassado se, em determinados momentos, encontrassem resistência, mesmo que ligeira.

Na verdade, o «plano» foi o segredo mais mal guardado da história. Toda a gente em Petrogrado ouvira dizer que os bolcheviques estavam a preparar um golpe iminente. Era algo que andava a ser discutido na imprensa nos últimos dez dias. O Rech (Discurso), principal jornal de direita, chegara a revelar a data, 25 de Outubro, e a publicação esquerdista Novaia Jizn (Nova Vida), dirigida pelo escritor Máximo Gorki, admoestara os bolcheviques contra o uso de violência e o «derramamento de mais sangue na Rússia». A coordenação temporal pretensamente perfeita da insurreição foi tão vaga que ninguém pôde determinar com exactidão quando principiou a revolta. Em determinado momento, o prefeito de Petrogrado enviou uma delegação aos participantes de ambos os lados a perguntar se a insurreição já principiara. Não conseguiu uma resposta precisa. Os bolcheviques tinham pouca experiência militar. Aleksandr Genevski, um dos principais comandantes deles no terreno, fora brevemente tenente no exército czarista e declarado inapto depois de ter sido gaseado logo no princípio da Primeira Guerra Mundial. Foi-lhe pedido que se tornasse «general» das forças rebeldes. As ordens dele eram manter actualizados os planeadores militares em Smolny, dando-lhes conta dos acontecimentos através de telefone para um número que lhe fora dito que estaria sempre disponível, 148-11. Das poucas vezes que não estava avariado, estava ocupado. Os bolcheviques não conseguiram dominar o sistema telefónico de Petrogrado e tiveram de enviar estafetas pelas ruas da cidade. A força crucial de marinheiros da base naval de Kronstadt – apoiantes fiáveis dos bolcheviques – chegou com um dia de atraso a Petrogrado.

Venceram porque o outro lado, o Governo Provisório e os seus apoiantes – uma coligação do centro direita, liberais e socialistas moderados – foi ainda mais incompetente e dividido, e porque não levaram os bolcheviques a sério até ser demasiado tarde. A causa principal, porém, foi que a maioria das pessoas não queria saber que lado ganhava. De facto, poucas pessoas tomaram consciência de que acontecera algo de significativo até se ter dado o desfecho[3].

No Smolny, Lenine não conseguiu repousar durante a noite. Debruçava-se continuamente sobre os mapas e aguardava ansiosamente por notícias. Estava muito emotivo e sempre a pedir informação mais concreta e acções mais rápidas, insistindo na aceleração do pronunciamento. «Trabalhava a uma velocidade furiosa, enviando constantemente mensageiros ofegantes e despachando ajudantes […] entre o zumbir de telégrafos.» Preparava freneticamente as declarações e os decretos que emitiria quando o poder estivesse assegurado. Deslocava-se entre a Sala 10, onde se reunia o Comité Revolucionário Militar, e a Sala 36, ao fundo de um extenso corredor, no qual os odores humanos se mesclavam com o cheiro de couve cozida do refeitório no piso térreo do edifício. Era ali que a restante liderança bolchevique do Comité Central do Partido se encontrava, «numa divisão minúscula, em torno de uma mesa mal iluminada, com os sobretudos arremessados para o chão. Havia gente a bater constantemente à porta com notícias.»

Em determinado momento, logo a seguir à alvorada, os camaradas começaram a discutir a composição do novo governo. Lenine interrogava-se como deveria designar-se.

«Não devemos chamar ministros aos membros», declarou. «É uma palavra repulsiva e banal.»

«Porque não comissários», sugeriu Trotski, «só que já há demasiados comissários. Que tal Comissários do Povo?»

«Comissários do Povo. Gosto disso. E como chamaremos ao governo?»

«Conselho [Soviete] dos Comissários do Povo.»

«Maravilhoso», exclamou Lenine. «Cheira a revolução.»[*]

Seguiu-se uma farsa de modéstia entre os revolucionários, que dentro de poucas horas seriam oligarcas supremos a exercer um poder tremendo sobre as vidas e mortes de milhões de pessoas.

Lenine propôs que Trotski fosse chefe do governo, enquanto ele próprio permanecia como líder do Partido Bolchevique. Ninguém sabe se era realmente essa a sua intenção, mas mostrou-se pouco surpreendido quando Trotski recusou. «Sabes muito bem que um judeu não pode ser chefe de governo na Rússia», disse ele. «Além disso, tens discordado constantemente de mim. O líder és tu. Tens de ser tu.» A decisão foi unânime[4].

De um dia para o outro, pequenos grupos de Guardas Vermelhos apoderaram-se das posições estratégicas de comando da cidade. Ocuparam todas as pontes sobre o Neva antes de amanhecer – com excepção da Ponte Nikolai, junto ao Palácio de Inverno. Antes tinham tomado a Fortaleza de Pedro e Paulo, directamente do lado oposto do rio, cujos canhões tinham uma posição dominante sobre o palácio onde residia o primeiro-ministro Aleksandr Kerenski e se reunia o Governo Provisório. Ouvia-se o estampido ocasional de armas de fogo, mas não houve combates. «Aquilo aconteceu enquanto a cidade estava em sono profundo», registou Nikolai Sukhanov, cujo relato em primeira mão da revolução continua a ser um dos melhores relatos dos acontecimentos. «Foi mais como um render da guarda do que uma insurreição.»

Às seis da manhã, o Banco Estatal caiu, uma hora depois a Central Telefónica, o principal posto dos Correios e o Edifício da Telegrafia. Às oito horas, os rebeldes tinham tomado todas as estações ferroviárias. Os bolcheviques controlavam as comunicações em toda a Petrogrado e mal haviam disparado um tiro. Não houve baixas. Em teoria, o governo podia pôr em acção a guarnição militar da cidade, cerca de 35 mil efectivos. Porém, como vaticinara Trotski, mesmo que a maioria dos soldados não tomasse activamente o partido dos bolcheviques, também não estava preparada para lutar contra eles.

A escolha do momento para a insurreição foi crucial para a estratégia política de Lenine que acompanhou a tomada militar do poder pelos bolcheviques. Desde que o czar caíra nove meses antes, o poder fora instavelmente partilhado entre uma sucessão de governos de coligação, que se haviam tornado cada vez mais fracos, e os sovietes. Esta palavra significa simplesmente «conselho» em russo e aqueles foram eleitos apressadamente como delegados de trabalhadores e soldados, que afirmavam haver sido eles quem instigara e dirigira a revolução de Fevereiro que apeara a autocracia Romanov.

Lenine não deixara que os bolcheviques participassem do governo, mas no último mês eles detinham uma escassa maioria no Soviete de Petrogrado. O plano de Lenine era derrubar o governo e declarar que actuava em nome dos sovietes. O verdadeiro poder residiria nele e nos bolcheviques, mas manter a associação aos sovietes proporcionava-lhe uma espécie de cobertura política e uma aparência de apoio popular. Havia, contudo, um grande obstáculo. O Congresso dos Sovietes devia reunir-se nesse dia, no esplêndido salão de baile branco e dourado do Smolny, mesmo por baixo do labirinto de pontos de reunião onde os bolcheviques andavam a planear o golpe. Esperava-se que, quando o Congresso se reunisse ao meio-dia, Lenine apresentasse a tomada do poder como um facto consumado e declarasse a vitória da Revolução. No entanto, o governo ainda se mantinha e o Palácio de Inverno – símbolo do poder na Rússia desde o tempo de Catarina, a Grande – não caíra.

Lenine ouvira do seu comité militar que conquistar o palácio seria um processo fácil e se concluiria em cinco ou seis horas. Todavia, seriam precisas mais de quinze horas, entre uma panóplia de erros que pareceriam burlescos se o que estava em jogo não fosse de tão grande importância.

Às nove da manhã, Lenine exigiu a rendição do governo. Não teve resposta. O primeiro-ministro Kerenski saíra logo a seguir à alvorada para o quartel-general do exército, na tentativa de mobilizar algumas tropas leais para derrotar a rebelião. Os bolcheviques não procuraram detê-lo, não obstante a sua evasão não ter sido isenta de dificuldades. Estavam trinta automóveis estacionados aos portões do palácio, mas nenhum funcionava em condições. Nem sequer se conseguiu arranjar um táxi para o levar. Foi enviado um oficial subalterno para tentar requisitar um carro que andasse. A embaixada britânica recusou-o, mas ele conseguiu convencer um funcionário da delegação norte-americana a deixar Kerenski usar a sua própria viatura, um Renault, desde que fosse devolvida[*]. Outro funcionário conseguiu desencantar um luxuoso Pierce-Arrow descapotável e algum combustível. Kerenski foi levado pela praça do palácio e através das ruas de Petrogrado com o tejadilho descido, sendo facilmente reconhecível.

Quando os ministros se reuniram na Sala de Malaquite no Palácio de Inverno, por volta do meio-dia, recusaram capitular e decidiram resistir enquanto pudessem. «Povo condenado, solitário e abandonado, contornámos a enorme ratoeira», escreveu no seu diário o ministro da Justiça Pavel Maliantovich.

Lenine era dado a acessos de fúria imoderada, como tantas vezes contou a sua mulher, Nadia. Tornaram-se mais frequentes à medida que a saúde dele se debilitava e as insónias e dores de cabeça que o haviam atormentado ao longo dos anos se agravavam. Esteve a maior parte desse dia encolerizado, parecendo-lhe que os seus estrategas militares estavam a estragar tudo. Coibiu-se de comparecer no Congresso dos Sovietes entre o meio-dia e as três da tarde, mas se tivesse de protelar muito mais, toda a sua estratégia política poderia gorar-se. Era vital que o golpe fosse apresentado como um êxito total, um trabalho bem feito.

Na Sala 10 do Smolny, gritava ordens para os seus colaboradores e para os comandantes da Guarda Vermelha e distribuía dezenas de recados a pedir uma acção mais célere para que o palácio fosse tomado. Os pedidos depressa se transformaram em exigências e depois em ameaças. Circulava pela sala em grandes passadas «como um leão enjaulado», recordou Nikolai Podvoiski, um dos oficiais mais antigos do Comité Militar Revolucionário. «Vladimir Ilitch resmungava e gritava. Precisava do palácio a qualquer preço. Disse que estava pronto a fuzilar-nos.»[5]

Os ministros resistiam no amplo, mas sombrio, símbolo da Rússia Imperial que fora sede do Governo Provisório desde Julho. Grande parte da história imperial czarista decorrera entre as 1500 divisões do palácio, distribuídas pelos mais de 400 metros de comprimento do edifício sobranceiro ao Neva. Kerenski instalara-se na suite do terceiro andar que em tempos pertencera ao imperador, com janelas panorâmicas viradas para o pináculo do Almirantado. A maior parte do edifício era agora usada como hospital militar para feridos de guerra. Havia cerca de 500 pacientes nesse dia. No enorme pátio das traseiras do edifício estavam centenas de cavalos pertencentes às duas companhias de cossacos encarregadas de defender o governo. O cheiro não era agradável. A par dos cossacos, encontravam-se lá cerca de 220 cadetes da escola militar de Oranienbaum, 40 membros do esquadrão ciclista da guarnição de Petrogrado e 200 mulheres do Batalhão de Choque da Morte[*]. De umas forças armadas de nove milhões de russos, aquilo era tudo o que o Governo Provisório conseguira concentrar para proteger a capital… e a si próprio.

O «assalto ao Palácio de Inverno» – corolário da Revolução Russa – foi tão desastrado que os jornalistas norte-americanos John Reed e a sua mulher Louise Bryant deram um passeio pelo interior do edifício a meio da tarde sem encontrarem obstáculos. Criados do palácio, com os seus uniformes czaristas azuis, receberam-lhes os casacos e alguns dos cadetes da escola militar mostraram-lhes o espaço. No rés-do-chão, «ao fundo do corredor, havia uma grande sala ornamentada com cornijas douradas e pujantes lustres de cristal», escreveu Reed. «De ambos os lados do chão em parquet viam-se longas filas de colchões e cobertores encardidos, sobre os quais alguns soldados repousavam; por todo lado havia montes de beatas de cigarros, bocados de pão, roupas e garrafas vazias com rótulos franceses de bebidas caras. Os soldados andavam por ali numa atmosfera cediça de fumo de tabaco e humanidade privada de banho. Um trazia uma garrafa de Borgonha branco, obviamente furtada às caves do palácio. Todo o lugar era uma imensa caserna.»

Às três da tarde, Lenine já não podia adiar mais. Apresentou-se perante o Congresso dos Sovietes no Smolny e declarou descaradamente a vitória, não obstante o governo ainda não ter caído, os ministros não estarem presos nem o Palácio de Inverno nas mãos dos bolcheviques. Aquela foi a primeira grande mentira do regime soviético. Leu uma declaração que preparara logo pela manhã, quando julgava que o triunfo do golpe já fora obtido.

«Aos Cidadãos da Rússia. O Governo Provisório foi deposto. O poder do Estado passou para as mãos do órgão do Soviete dos Deputados dos Trabalhadores e Soldados de Petrogrado, o Comité Militar Revolucionário, que encabeça o proletariado e a guarnição de Petrogrado.

«A causa pela qual o povo lutou – a da proposta imediata de uma paz democrática, a abolição da propriedade latifundiária, o controlo da produção pelos trabalhadores e o estabelecimento do poder soviético – foi assegurada.

«Viva a revolução de soldados, operários e camponeses!»

Declarar que os bolcheviques haviam tomado o poder era tão importante para o seu plano que ele estava preparado para inventá-lo[6].

Quando regressou ao andar de cima, Lenine não conseguiu conter a fúria. Ordenou que o palácio fosse bombardeado da Fortaleza de Pedro e Paulo, mas a tragicomédia e o absurdo do cerco só estavam a principiar. A programação ao minuto do golpe foi resvalando cada vez mais e, com o decorrer do dia, deixaram de existir quaisquer prazos. Os artilheiros bolcheviques eram perfeitos incompetentes. Havia cinco armas pesadas na fortaleza, mas eram peças de museu que não eram disparadas havia anos e não tinham sido limpas nos últimos meses. Encontraram-se algumas armas mais ligeiras de treino e foram levadas para as posições, mas ninguém conseguiu encontrar as adequadas munições de três polegadas que requeriam. Verificou-se depois que as armas não tinham miras. Ao fim da tarde, os comissários perceberam que afinal os canhões originais só precisavam de ser limpos.

As coisas tornaram-se mais surreais para os revoltosos. Até mesmo a tarefa óbvia de içar uma lanterna vermelha para o topo do mastro da fortaleza – o sinal para o bombardeamento e início do ataque no terreno – ultrapassava as capacidades deles. Não conseguiram arranjar nenhuma lanterna vermelha. O comandante bolchevique da fortaleza, Georgi Blagonravov, saiu da cidade para procurar uma lanterna adequada, mas perdeu-se e atolou-se num pantanal. Voltou, embora com uma lanterna roxa que não conseguiu fixar no mastro da bandeira. Os rebeldes abandonaram qualquer ideia de dar o sinal.

Às seis e meia da tarde, os bolcheviques, que dominavam a base naval próxima de Krondstadt desde havia já alguns dias, deram ordens aos cruzadores Aurora e Amur que subissem o rio e parassem em frente do Palácio de Inverno. Dez minutos depois, enviaram um ultimato: «O governo e as tropas têm de se render. Este ultimato termina às sete horas e dez minutos, após o que abriremos fogo de imediato.»

Os ministros rejeitaram o ultimato. Às seis e cinquenta sentaram-se para jantar – sopa de beterraba, peixe cozido a vapor e alcachofra. Nessa altura, os defensores estavam prontos para desistir e curvar-se ao inevitável. «Os soldados só queriam fumar, embriagar-se e vituperar a sua situação sem esperança», recordou um dos oficiais. Grande parte deles desapareceu com o avançar da noite. A maioria dos cadetes partiu à procura de jantar e alguns elementos do batalhão das mulheres também saiu para a rua. Os cossacos, os únicos que tinham alguma preparação militar efectiva, foram-se embora «indignados por haver judeus e raparigas lá dentro». Ficaram menos de 250. Os Guardas Vermelhos podiam ter entrado facilmente em qualquer momento.

O «Governo» continuou a proclamar edictos, remodelou os postos governamentais e o ministro deixado a presidir decidiu, ao começo da manhã, que tinham de discutir a nomeação de um «ditador» para a Rússia. Ditador sobre quê, para lá da Sala de Malaquite e das suas grandes colunas, das lareiras ornamentadas e dos gigantescos centros de mesa, foi algo que ele nunca esclareceu. Optaram por uma atitude de bravata durante tanto tempo quanto possível, dando como justificação que quando os bolcheviques os derrubassem pela força, estes ficariam condenados[7].

A maioria da população de Petrogrado não sabia que havia uma revolução em curso. Os bancos e as lojas estiveram abertos o dia todo e os eléctricos circulavam. Todas as fábricas laboravam como habitualmente – os trabalhadores não faziam ideia de que Lenine estava prestes a libertá-los da exploração capitalista. Nessa noite, Chaliapin protagonizava o Don Carlos perante uma casa cheia no Narodny Dom e A Morte de Ivan o Terrível, de Alexei Tolstoi, era representado no Teatro Alexandrinski. Clubes nocturnos e salas de concertos estavam a funcionar. As prostitutas andavam em busca de negócio nas ruas secundárias em torno da Avenida Nevski, como em qualquer noite normal de quarta-feira. Os restaurantes estavam à cunha. John Reed e um grupo de outros jornalistas norte-americanos e britânicos jantavam no Hotel de France, perto da praça do palácio. Regressaram para assistir à Revolução depois do prato principal.

Na mitologia soviética das décadas que se seguiram, a Revolução era retratada como uma sublevação popular de massas. Nada podia estar mais longe da verdade. Fotógrafos da época mostram alguns pontos isolados em torno da cidade em que um punhado de Guardas Vermelhos vagueava sem propósito. Não houve vastas multidões em lado algum, barricadas ou combates de rua. É impossível saber quantas pessoas intervieram nos poucos sectores isolados da cidade que tiveram importância durante a insurreição. Trotski calculou que «não foram mais» do que 25 mil, mas referia-se ao número de Guardas Vermelhos que podia ter mobilizado. O verdadeiro número foi bastante mais reduzido: provavelmente uns 10 mil, numa cidade com quase dois milhões de habitantes.

Não houve um «assalto» ao palácio, como é retratado no épico de Sergei Eisenstein, o filme Outubro de 1927, cinematograficamente brilhante, mas em grande parte fictício. Houve muito mais pessoas recrutadas como figurantes para o realizar do que as que participaram no acontecimento real[*][8].

Por fim, às nove e quarenta da noite, foi dado o sinal para iniciar o bombardeamento com tiros de salva do Aurora, que ancorara no Aterro Inglês, fronteiro ao palácio. Os ministros atiraram-se ao chão; toda a companhia feminina do Batalhão de Choque ficou tão assustada que teve de ser levada para uma sala nas traseiras do edifício, para que as raparigas se acalmassem.

Vinte minutos depois, as armas da Fortaleza de Pedro e Paulo começaram a disparar com fogo real. Foram disparadas barragens de três dúzias de tiros, mas só dois atingiram o palácio, lascando algumas cornijas. Um projéctil conseguiu falhar completamente o alvo descomunal de 1500 divisões, passando centenas de metros ao lado[*]. Podvoisky e Antonov-Ovseenko, que Lenine ameaçara fuzilar algumas horas antes, encabeçaram um pequeno grupo de marinheiros e Guardas Vermelhos que penetrou no edifício e depressa se apercebeu, ao iniciar a revista de cada sala, que não enfrentavam praticamente oposição nenhuma. Na Sala de Malaquite, «o medo invadiu-nos como a investida de uma atmosfera envenenada», contou mais tarde o ministro da Justiça Maliantovich. «Era óbvio que o fim estava à vista.»

Por volta das duas horas da manhã, um homenzinho com cabelo comprido arruivado, chapéu de aba larga e papillon vermelho irrompeu na sala, e «atrás dele vinha uma turba armada». Não parecia militar, mas gritou numa voz desagradavelmente estridente: «Sou Antonov-Ovseenko, representante do Comité Militar Revolucionário. Informo-vos, como membros do Governo Provisório, que estão presos.»

Foram levados a pé para a Fortaleza de Pedro e Paulo, entre grupos de Guardas Vermelhos que os empurravam e gritavam «Passem-nos à espada» e «Atirem-nos ao rio». Antonov avisou que se alguém tentasse agredi-los seria fuzilado. Ao longo do dia, o número de baixas foi de meia dúzia de mortos e menos de vinte feridos, todos apanhados em fogo cruzado.

O problema do Comité Revolucionário Militar era agora controlar as suas próprias tropas bolcheviques. Uma a uma, as salas do palácio encheram-se de caixas de transporte contendo alguns dos tesouros do antigo czar, prestes a serem enviadas para Moscovo onde ficariam guardadas em segurança. Os Guardas Vermelhos tinham ideias diferentes. «Um homem andava a pavonear-se com um relógio de bronze encarrapitado no ombro», contou Reed, que os acompanhou. «Outro encontrou uma pluma de penas de avestruz, que espetou no chapéu. A pilhagem estava mesmo a começar quando alguém gritou: “Camaradas! Não tirem nada! Isto é propriedade do Povo! Parem! Voltem a pôr tudo onde estava.”» Muitas mãos se atiraram aos saqueadores. Tecidos de damasco e tapeçarias foram arrancados aos braços daqueles que os tinham; dois homens levaram o relógio de bronze. As coisas voltaram a ser metidas nas caixas de forma apressada e brusca. Pelos corredores e pelas escadas acima, o grito foi ouvido cada vez mais esbatido com a distância: «Disciplina revolucionária. Propriedade do Povo.»

Outros foram direitos às caves e à adega do czar, uma das mais bem abastecidas do mundo. Continha caixas de vinho Tokay da época de Catarina, a Grande, e de Chateau d’Yquem 1847, o favorito de Nicolau II. «A questão do vinho […] tornou-se crítica», recordou Antonov. «Enviámos guardas de unidades escolhidas. Embriagaram-se. Colocámos guardas de Comités Regimentais. Também sucumbiram. Seguiu-se uma orgia violenta.»

Ele chamou o corpo de bombeiros de Petrogrado para inundar a adega com água, «mas, em lugar disso, os bombeiros […] embriagaram-se.»[9]

O verdadeiro drama estava a acontecer no Smolny. Foi aí que a Revolução saiu vitoriosa. O Congresso dos Sovietes voltou a reunir-se às dez e meia da noite e havia uma irritação buliçosa no salão de baile enevoado pelo fumo. A esperança de Lenine era de que o golpe fosse sancionado, mas muitos delegados denunciaram-no. Até um pequeno número de bolcheviques objectou. Contudo, os adversários de Lenine acabaram por lhe fazer um favor. Os outros grupos socialistas disseram que «não queriam ter nada que ver com esta tomada criminosa do poder» e saíram do Soviete, nunca mais regressando a qualquer posição de infiuência na Rússia. Poderiam ter dificultado a posição de Lenine se tivessem permanecido como força de oposição vigorosa unida contra os bolcheviques. Poderiam até ter impedido Lenine de organizar a sua ditadura. Abandonar a câmara foi um erro fatal, como muitos admitiram pouco depois. «Tornámos os bolcheviques senhores da situação», disse Sukhanov, um opositor de Lenine. «Ao abandonarmos o Congresso, demos-lhes um monopólio sobre os Sovietes. As nossas próprias decisões irracionais garantiram a vitória de Lenine.»

Por volta das cinco da manhã, com a oposição prestes a protagonizar a sua partida para o esquecimento, o orador mais arrebatador dos bolcheviques, o brilhante, presunçoso e impiedoso Trotski, proferiu um dos discursos mais famosos do século XX. A revolta «não carece de justificação», disse ele. «O que aconteceu foi uma insurreição, não uma conspiração […] As massas populares seguiram o nosso estandarte. Porém, que têm eles [e apontava para os outros socialistas] para nos oferecer? É-nos dito: renunciem à vossa vitória, façam concessões, estabeleçam compromissos. Com quem?, pergunto. Àqueles que nos abandonaram, temos de dizer: vocês são uns fracassados miseráveis, o vosso papel chegou ao fim. Vão para onde têm de ir, para o caixote de lixo da história.»

Duas horas depois, Lenine apareceu no Congresso. Já convicto da vitória, e libertado do disfarce, estava radiante. Para ele, não havia fioreados retóricos. Leu o Decreto da Paz que redigira nessa manhã, a prometer um fim para a guerra e o Decreto da Terra, a garantir que seriam expropriadas as quintas dos latifundiários. Foi saudado com aplausos tumultuosos. Alguns bolcheviques mais velhos, homens e mulheres endurecidos que nunca haviam acreditado que chegaria aquele momento, choravam. Para aqueles que o viam pela primeira vez, ele não parecia um revolucionário que criaria um novo tipo de sociedade e transformaria a história. «Era uma figura de baixa estatura e entroncada, com uma grande cabeça enterrada nos ombros, calvo e com olhinhos protuberantes, um nariz achatado, boca larga e generosa e um queixo robusto. Trajava roupas coçadas e as calças eram demasiado compridas para ele. Nada cativante para ser ídolo de uma multidão […] Um líder popular estranho – líder pela pura virtude do seu intelecto; cinzentão, desprovido de sentido de humor, intransigente e distanciado, sem idiossincrasias pitorescas –, mas com a capacidade de explicar ideias profundas em termos simples. E, combinada com a astúcia, a máxima audácia intelectual.»

Pouco tempo depois do «Outubro glorioso», Lenine declarou que tomar o poder fora uma coisa simples, «tão fácil como arrancar uma pena». Estava a ser malicioso e enganador. Na verdade, fora um caminho longo e árduo[10].

1

UM NINHO DE GENTE FINA

«Este homem, Lenine […] não é perigoso.»

PRÍNCIPE GEORGI LVOV, primeiro primeiro-ministro

pós-imperial da Rússia.

Todas as mais importantes relações pessoais na vida de Lenine foram com mulheres. Teve muito poucos amigos íntimos masculinos e, quase sem excepção, perdeu aqueles que fez ou, por causa da política, foram ficando pelo caminho. Os homens tinham de estar de acordo com ele e vergar-se à sua vontade ou seriam excluídos do seu círculo pessoal. Como recordou um confidente de muitos anos no exílio: «Comecei por me dissociar do movimento revolucionário […] e por isso deixei completamente de existir para Vladimir Ilitch.» Quando chegou aos 33 anos, o único homem a quem aplicava o íntimo tratamento russo «ty», em lugar do formal «vy», era Dmitri, o seu irmão mais novo[1].

Durante a maior parte da sua vida, Lenine esteve rodeado por mulheres – a mãe, irmãs, a mulher de um quarto de século, Nadia Konstantinovna Krupskaia, e uma amante glamorosa com quem teve uma ligação romântica intrincada, bem como um estreito relacionamento com altos e baixos de intensidade ao longo de muitos anos. Durante a década e meia de exílio, em diversas residências pela Europa, viveu numa atmosfera de familiaridade fácil com a sogra, uma mulher de opiniões fortes que divergiam acentuadamente das suas.

Invariavelmente, as mulheres de Lenine têm sido descartadas como simples serviçais que se ocupavam da lide doméstica para ele, ou a quem era consentido tratar de tarefas políticas mundanas e relativamente simples. Isto é enganador. Lenine tinha ideias mais progressistas e avançadas sobre o papel das mulheres do que muitos dos homens seus contemporâneos no movimento revolucionário – embora seja verdade que isso não chega para elevar muito a fasquia.

Em muitos aspectos, Lenine, o grande radical, foi um burguês russo convencional de final do século XIX, de modo algum um feminista no sentido actual do termo. Tinha a expectativa de que as mulheres que lhe eram próximas o mimassem, estivessem atentas e cuidassem dele, o que faziam. Todavia, escutava-as e levava-as tão a sério em questões políticas como fazia com os homens.

A mulher Nadia é muitas vezes retratada como pouco mais do que sua secretária, uma amanuense sem opiniões próprias. No entanto, ela era muito mais do que isso. Era uma revolucionária convicta quando o conheceu, estivera presa e exilada na Sibéria antes de casar com ele e desempenhara com ele um papel crucial na rede conspiratória clandestina que conservou acesa a chama da revolução na Rússia antes de 1917. Não escreveu livros sobre o marxismo ou filosofia, raramente falou de táctica ou orientação política e raramente o contradisse, mas Lenine apoiava-se nas aptidões práticas e no seu bom senso. Ela «dirigiu» dezenas de agentes secretos bolcheviques por todo o império russo e conhecia todas as vertentes da organização do Partido. Acima de tudo, Nadia controlava o temperamento e o estado de espírito instável do marido, o que exigia com frequência um tacto extremo.

Inessa Armand foi outra mulher cujo papel na vida de Lenine tem sido mal compreendido – ou, no caso das autoridades soviéticas após a morte dele, deliberadamente ignorado. Durante dez anos, até à morte dela em 1920, eles envolveram-se amorosamente de forma intermitente. Inessa foi decisiva na vida emocional dele. Estava também entre uma das socialistas mais conhecidas da sua geração, uma das colaboradoras mais próximas de Lenine, a quem confiava as tarefas mais confidenciais. Ela representou-o muitas vezes em encontros internacionais de revolucionários, uma responsabilidade que ele delegava em muito pouca gente. Exerceu cargos ao lado de Lenine em Moscovo, depois da revolução. Era frequente discordar dele e dizia-lho com franqueza, e, contudo, continuaram inseparáveis. Todos os que a conheciam – incluindo a mulher de Lenine, que se tornou grande amiga dela num relacionamento triangular curiosamente comovedor e dedicado – compreendiam como ela foi importante para ele. Contudo, depois da morte dele, foi desenvolvido pelos sucessores de Lenine um culto que encorajava a sua veneração como ícone secular que representava o pilar da rectidão bolchevique, e ela foi completamente eliminada dos livros de história soviética. Nos cinco anos que precederam 1917, ele escreveu muito mais cartas a Inessa Armand – versando sobre assuntos pessoais e políticos – do que a qualquer outra pessoa. A correspondência entre eles e os diários dela foram censurados durante quase setenta anos, até que o Estado comunista fundado por Lenine desabou.

Duas das irmãs de Lenine sobreviveram para lá da adolescência e trabalharam estreitamente com ele no movimento revolucionário clandestino. Anna Ilinichna Ulianova, nascida em 1864, era seis anos mais velha do que ele; Maria, oito anos mais nova. Ambas foram repetidamente encarceradas ou exiladas por actividades subversivas sob o regime czarista, ajudaram a fazer entrar e sair agentes secretos na Rússia e a difundir literatura socialista, e, depois da revolução, ocuparam cargos de responsabilidade no regime soviético. Durante muitos anos de exílio na Europa, uma delas ou ambas – mais habitualmente Maria – partilharam a casa com Nadia e a sogra de Lenine[*].

Ao longo de toda a sua vida, Lenine dependeu de uma rede de mulheres que lhe eram completamente leais – e, na sua maioria, à causa revolucionária dele. Fizeram grandes sacrifícios pela carreira dele correram por vezes enormes riscos pessoais em nome dele – a revolução era uma actividade perigosa. Ele podia dar como garantida a lealdade delas – e fê-lo por vezes. No entanto, os compromissos eram nos dois sentidos.

Muitos homens cruéis e cínicos são sentimentais a respeito das mães. Lenine costumava dizer à família e aos camaradas: «A mãe […] bem, é simplesmente uma santa», e não obstante o seu ateísmo, parecia acreditar nisso. Viu-a raramente nos últimos vinte anos da vida dela – morreu em 1916, estando ele no exílio suíço –, mas foi um correspondente dedicado, não somente por dever. Onde quer que estivesse nas suas andanças pela Europa, Lenine escrevia-lhe com regularidade. As cartas raramente abordavam política ou o seu trabalho literário e jornalístico, mas expunham, muitas vezes ao mais ínfimo pormenor, a organização doméstica dele, o seu estado de saúde e as suas viagens. Muitas apresentam-se como uma espécie de «notas de naturalista» relativas aos seus passeios de caça ou às excursões pelos Alpes. Uma das grandes paixões de Lenine era caminhar pelas montanhas e pelos campos bravios. As cartas para a família são invariavelmente dirigidas à «Querida Mãe» ou à «Mamouska mais adorada». A última, poucas semanas antes da morte dela, termina assim: «Abraço-te calorosamente, minha querida, e desejo-te ânimo.» Petulante, com mau feitio, irascível, sobretudo à medida que envelhecia, a única pessoa de quem Lenine nunca se queixou a ninguém foi a sua própria mãe, a única a quem sempre manifestou um amor incondicional.

Maria Alexandrovna Blank nasceu em 1835 em São Petersburgo. O pai dela era um homem excêntrico, austero e – facto conservado no mais estrito segredo pelas autoridades soviéticas depois da morte de Lenine – judeu. Foi baptizado à nascença, em Odessa, como Sril (palavra iídiche para Israel) Moiseievich (Moisés) Blank, mas quando estudou medicina converteu-se à ortodoxia e mudou o primeiro nome e o patronímico para Aleksandr Dimitrievich. Viajou extensamente pela Europa depois de se formar como médico e casou com a filha de um abastado comerciante alemão, Anna Groschopf. Ela era protestante. Segundo as estritas leis religiosas da Rússia czarista, era exigido à mulher que se convertesse à fé ortodoxa, mas ela recusou e educou os seus seis filhos como luteranos[*].

Aleksandr Blank começou por ser cirurgião no exército, depois médico da polícia e, finalmente, inspector de hospitais em Zlatovst, na vasta província de Chelyabinsk, na região ocidental da Sibéria. Isso conferiu-lhe a patente de «conselheiro de Estado» na função pública, o que lhe permitia reclamar o estatuto de nobre. Quando se aposentou com cinquenta e poucos anos, registou-se como membro da nobreza de Kazan e comprou uma propriedade, Kokushkino, a cerca de 30 quilómetros para nordeste da cidade, com uma bela casa senhorial e 40 servos que trabalhavam a terra[2].

A mãe de Maria Alexandrovna morreu quando ela tinha três anos. O pai passou a viver com a irmã da falecida mulher, Ekaterina von Essen, também ela viúva. Era um arranjo escandaloso para a época e Blank queria fazer da cunhada uma mulher honesta. Tentou desposá-la, mas o casamento era ilegal aos olhos da Igreja e foi recusada a autorização ao casal. O dinheiro dela ajudou a comprar a propriedade de Kokushkino e permaneceram juntos até à morte dela em 1863[*].

A mãe de Lenine era uma mulher tranquila, com grande força de vontade e introvertida. Tinha cabelo castanho-escuro, compleição magra e trajava com elegância, ainda que raramente ao sabor da moda. Não havia beijos nem abraços lá em casa e Maria Alexandrovna desencorajava manifestações emocionais. Era a figura dominante no lar, profundamente respeitada, venerada por todos os filhos. «Contava com o nosso amor e obediência», recordou mais tarde a filha Ulianov mais velha, Anna. «Nunca elevava a voz e quase nunca recorria a castigos.»[3]

Sofreu por um longo período e protegeu sempre os filhos das circunstâncias de pobreza por que passariam na sequência de mortes na família e da atenção constante da polícia secreta. Ela era frugal, mas nunca mesquinha. Inteligente e com uma boa educação, nunca apoiou – e geralmente não compreendia – as políticas radicais dos filhos. Decerto que não era marxista nem revolucionária de espécie alguma. Porém, sabia que não adiantava discutir questões políticas com os filhos ou fazer demasiadas perguntas acerca das actividades ilegais deles – fossem quais fossem as penas que as convicções deles lhes trouxessem. Chegaram-nos poucas das cartas dela para o filho Vladimir, mas nessas ela quase não refere política sequer de passagem. Para Maria Alexandrovna, a família vinha primeiro.

Em diversos momentos, todos os seus filhos já adultos foram encarcerados ou exilados, em certas ocasiões vários deles em simultâneo. Ela mudava-se sempre para perto da prisão onde estavam ou de uma cidade tão próxima quanto possível do lugar de exílio deles. Humilhava-se com frequência a suplicar às autoridades que libertassem uma das filhas ou filhos, ou para que os tratassem com mais brandura. Embora nunca tenha sido rica, levou uma vida desafogada e todos eles dependeram financeiramente dela por períodos prolongados. Ela enviava-lhes dinheiro, vestuário, livros, víveres e nunca pareceu queixar-se por lho pedirem. Lenine pediria ajuda mais do que qualquer dos irmãos e irmãs, apesar de receber por vezes fundos avultados de outras proveniências. Durante alguns anos, atribuiu a si mesmo um salário do Partido Bolchevique por ele fundado, mas ganhava pouco com os seus livros e o jornalismo. A vida como revolucionário profissional podia ser precária e, por vezes, faltava-lhe dinheiro vivo. Já com quarenta e muitos anos, Lenine não poderia ter sobrevivido sem fundos regulares dispensados pela mãe.

O filho Vladimir carecia das qualidades de serenidade e paciência que costumavam enfatizar aqueles que conheciam Maria Alexandrovna Ulianova. Contudo, ele herdou outros traços da personalidade dela. «Logo que vim a conhecer a mãe dele, descobri o segredo do encanto de Vladimir Ilitch», declarou Ivan Baranov, um camarada dos primeiros anos revolucionários de Lenine[4].

A ascendência do pai era tão problemática como a da mãe para os historiadores soviéticos. A última biografia oficial de Lenine publicada na URSS, na década de 1950, estabelecia que o pai dele, Ilia Nikolaievich Ulianov, vinha de «gente pobre de classe média-baixa de Astracã», o que oculta mais do que revela. A avó paterna de Lenine, Anna Alexeievna Smirnov, era uma calmuca analfabeta com raízes na Ásia Central e exibia as feições típicas da sua origem étnica. A maioria das descrições físicas de Lenine refere os seus «olhos mongóis» e ossos das faces proeminentes, mas os soviéticos abafaram sistematicamente a informação relativa aos avós. Não se teriam enquadrado harmoniosamente na imagem oficial, meticulosamente polida, do fundador do bolchevismo, que tinha de ser apresentado como um Grande Russo da cabeça aos pés[*].

Ilia nasceu em 1831 e ambos os seus progenitores morreram jovens. Foi criado e contemplado com uma boa educação pelo seu tio Vassili, alfaiate e comerciante próspero que geriu negócios bem-sucedidos em Astracã, uma cidade piscatória de odores fortes à beira do delta em que o Volga se dilui no Mar Cáspio. Obteve habilitação para ser professor de ciências e leccionou numa sucessão de escolas secundárias em cidades de província da Rússia meridional. Casou-se em 1863, ensinou em Nijni Novgorod até 1869, altura em que lhe foi concedida uma importante promoção a Inspector de Escolas da região de Simbirsk – uma função que lhe valera o estatuto de nobreza hereditária.

De toda a prole Ulianov, Vladimir era o que se parecia mais com o pai. Ilia Ulianov tinha olhos obliquados que relampejavam em tons de âmbar, testa ampla e arredondada, cabelo arruivado que começou a perder com vinte e poucos anos. Como o filho, não conseguia pronunciar devidamente os «érres» e por vezes parecia cecear. Era mais dado a sair de casa do que a mulher e gostava de companhia. Andava por fora a maior parte do tempo, em circuitos de inspecção às inúmeras escolas da região que supervisionava. A mãe de Lenine era de denominação luterana, mas raramente ia à igreja. O pai era religioso e assegurou-se de que as crianças eram criadas nos costumes da Igreja Ortodoxa e da tradição russa.

Era um homem perfeitamente decente, com ideias liberais e uma crença na reforma gradual e na mudança evolutiva através da educação – o tipo de burguês bem-intencionado que o filho viria a desprezar com maior azedume do que a um reaccionário obstinado. Ilia venerava Alexandre II, o «Czar Libertador» que emancipara os servos em 1861 e desencadeara uma sucessão de outras medidas mais modestas para modernizar a autocracia Romanov. Depois de o soberano ser assassinado em 1868 por terroristas do grupo revolucionário Vontade do Povo, Ilia Ulianov chorou durante dias. Em uniforme integral da função pública, esteve presente na cerimónia fúnebre realizada na Catedral da Santíssima Trindade em Simbirsk. Sentia orgulho em pertencer à estrutura social dominante. Tanto quanto permitem saber os registos, apenas teve contacto com um único «subversivo» conhecido – o médico da família Ulianov, Aleksandr Kadian, que fora enviado para exílio interno pela polícia secreta e estava obrigado, pelo articulado da sentença, a não sair da cidade. Contudo, o relacionamento era exclusivamente profissional.

«O nosso pai nunca foi revolucionário», escreveu Anna na sua breve história da família. «Nesses anos, na casa dos quarenta e como chefe de família, queria salvaguardar-nos – a nós, seus filhos – dessa maneira de pensar.» A irmã dela, Maria, concordava. «O pai era completamente leal ao regime czarista, não era decerto um revolucionário», disse ela a um camarada mais jovem. «Na verdade, não sabemos o suficiente para determinar quais eram as atitudes dele para com as actividades radicais dos jovens.»

O próprio Lenine nunca tentou esconder ou forjar as suas raízes, não obstante os soviéticos terem criado mais tarde o mito de que o fundador do primeiro Estado proletário do mundo «era oriundo do povo» e de «origens sociais modestas». Para muitos daqueles que o conheciam, a sua atitude e porte eram reveladores. Máximo Gorki, socialista convicto que nascera em pobreza profunda e vinha verdadeiramente do povo, afirmou que «Vladimir Ilitch tem o convencimento de um “líder”, de um nobre russo não isento de algumas características psicológicas dessa classe.»[5]

2

INFÂNCIA IDÍLICA

«Os homens fazem a sua própria história, mas não a fazem exactamente como querem; não a fazem em circunstâncias escolhidas por si mesmos, mas em circunstâncias encontradas, dadas e transmitidas pelo passado. A tradição de todas as gerações que já morreram impõe-se como um pesadelo sobre os vivos.»

KARL MARX, O 18 de Brumário de Luís Bonaparte, 1852

Nada na infância ou primeira adolescência de Vladimir Ulianov dava a entender que se viria a tornar num dos grandes rebeldes da história. Cresceu num lar feliz, entre uma família afectuosa e num sólido conforto burguês, ainda que não em opulência pomposa. Foram-lhe ensinados – e mostrados pelo exemplo dos pais – os valores da diligência, da parcimónia, do trabalho árduo e a importância da educação.

Nasceu a 10 de Abril de 1870 na pequena cidade provinciana de Simbirsk, junto ao vagaroso rio Volga, a cerca de 900 quilómetros para sudeste de Moscovo. Seis dias depois foi baptizado na igreja ortodoxa de São Nicolau, onde prestava culto ao domingo a classe média-alta da cidade.

Anna, a irmã dele, seis anos mais velha, recordou que ao nascer «Volodia» era desproporcionado, tinha uma grande cabeça e um corpo atarracado e franzino. Tombava amiúde e tinha dificuldade em levantar-se, o que muitas vezes o fazia gritar de frustração. «Era muito barulhento, dado a grandes birras, com olhos pequeninos e combativos em tom de avelã», contou Anna. «Começou a caminhar quase ao mesmo tempo que a irmã Olia [Olga], que era um ano e meio mais nova do que ele. Ela deu os primeiros passos muito cedo e sem que se apercebessem os que a rodeavam. Volodia […] aprendeu a andar tardiamente – e se a irmã tropeçava silenciosamente e se levantava de forma autónoma, apoiando as mãos no chão, ele batia inevitavelmente com a cabeça e lançava berros desesperados que se propagavam por toda a casa.»

Ele continuou a bater com a cabeça em tapetes e soalhos, e durante algum tempo a mãe afiigiu-se com a possibilidade de ele ser «atrasado mental». A parteira que o trouxe ao mundo declarou pouco depois do nascimento que «ele virá a ser muito inteligente ou muito estúpido». Era a mais ruidosa de todas as crianças Ulianov «e de trato difícil ao longo de toda a infância», no testemunho de Anna.

Como muitas crianças, tinha uma propensão para destruir. Sempre que lhe davam um brinquedo novo, começava a desmanchá-lo. Num aniversário, a ama Varvara Grigorievna Sarbatova – uma servidora que permaneceu durante vinte anos com os Ulianov e fazia parte da família – ofereceu-lhe um trenó com os respectivos cavalos em papier-mâché. Ele desapareceu para brincar sozinho com o presente. «Fomos à procura dele e encontrámo-lo atrás de uma porta. Estava ali de pé, profundamente concentrado, a torcer as pernas dos cavalos até que acabou por arrancá-las uma a uma.» Apesar deste mau trato infiigido ao seu presente, Sarbatova defendia-o sempre. Disse ela que todas as crianças Ulianov «eram tesouros […] mas o meu Voloden’ka é um diamante.»

Era o filho mais barulhento e mais malcomportado de uma família disciplinada. Quando se portava mal, como dizia Sarbatova, «pelo menos assumia-o e não fazia as coisas às escondidas.» Excepto por uma vez, numa visita à tia em Kazan, em que partiu acidentalmente um vaso quando estava sozinho numa das salas de estar da casa. Negou que soubesse alguma coisa do acidente e aquilo foi esquecido. Contudo, decorridos alguns meses, de novo em Simbirsk, não conseguia dormir uma noite e a mãe encontrou-o a chorar no quarto. Tentou consolá-lo e perguntou-lhe o que se passava. «Menti à Tia Ania», confessou. «Disse-lhe que não fui eu quem partiu o vaso, mas fui.»

Se era mais chegado à irmã Olga, o seu herói de infância era o irmão Aleksandr, quatro anos mais velho, um rapazinho solene e um pouco melancólico que, com um olhar fulminante, conseguia conter o temperamento por vezes efervescente de Volodia. «A princípio, Vladimir começou a imitar o irmão, e depois passou a refrear conscientemente o seu feitio irascível», segundo Anna. Os dois rapazes ocupavam quartos adjacentes, trabalhavam juntos e brincavam no jardim, passeavam pelas margens do Volga e nadavam muitas vezes num afiuente, o Sviaga. «O que quer que se perguntasse a Vladimir – a que queria brincar, se queria ir dar um passeio, se queria leite ou manteiga com as papas de aveia –, ele olhava invariavelmente para Sasha antes de responder. Este demorava propositadamente a responder e olhava para o irmão com um fulgor no olhar. «Eu quero o que o Sasha quiser», acabava por responder.»[1]

A casa deles era um edifício de vulto na Rua de Moskva, mais para o alto da colina, na zona elegante de Simbirsk onde altos funcionários, alguns oficiais do exército, médicos e advogados levavam vidas decentes, ainda que não luxuosas.

Fundada na margem mais elevada do Volga em 1648, Simbirsk teve durante algum tempo importância como guarnição militar de defesa contra incursões de nómadas. Com o passar dos séculos, tornou-se um lugar atrasado de província. No final do século XIX, contava com 30 mil habitantes, mas ainda não dispunha de ferrovia. Algumas estradas de má qualidade ligavam-na ao resto da Rússia, e o Volga punha em contacto Simbirsk com outras cidades igualmente adormecidas ao longo do seu trajecto até Astracã, na foz do rio e quase a mil quilómetros para sul. Nos meses de Inverno, as gentes de Simbirsk queixavam-se de que se sentiam isoladas, como se vivessem no meio do nada. Por outro lado, havia a beleza natural. Pomares de maçãs e cerejas cobriam grande parte do campo num raio de muitos quilómetros. À noite, ouviam-se milhares de rouxinóis a cantar. Durante pelo menos século e meio não mudou grande coisa em Simbirsk. Tinha uma catedral impressionante, com cúpula em forma de cebola, duas boas bibliotecas e – em grande medida graças ao educador de espírito liberal Ilia Ulianov – duas excelentes escolas (secundárias, ou Gimnasium). Vivia lá um número considerável das minorias chuvaques e tártaras, trabalhando a maior parte nas embarcações do rio[*].

O filho mais famoso de Simbirsk depois de Lenine foi o romancista Ivan Goncharov, um quase contemporâneo, cuja obra prima, Oblomov, era muito admirada pelo futuro líder bolchevique. «A aparência exterior da minha terra não ia além de um quadro de modorra e estagnação», escreveu ele. «Sente-se sono ao olhar para esta calmaria, para as janelas apáticas e persianas descidas, para a fisionomia letárgica das pessoas […] Sobre a cidade paira o torpor da paz […] a calma da generosa vida rural e urbana russa.»[*]

A confortável casa de dois andares em madeira dos Ulianov era típica do estatuto da família na cidade. Dispunha de amplos espaços para receber visitas e de estar, de uma biblioteca repleta dos clássicos da literatura russa, de Pushkine a Tolstoi, e ficção dos melhores autores estrangeiros. Todas as crianças eram encorajadas por ambos os pais a ler extensamente, de uma forma permissiva que teria chocado os colegas mais conservadores de Ilia Ulianov na função pública. Durante a maior parte do princípio da sua adolescência, o livro favorito de Volodia era A Cabana do Pai Tomás, de Harriet Beecher Stowe, uma infiuência que precedeu nele Marx ou os radicais russos da tradição revolucionária conhecida por populismo. Conservou o romance na mesa-de-cabeceira durante muitos anos.

A casa tinha uma extensa e larga varanda sobranceira ao jardim onde abundavam macieiras, ameixoeiras e cerejeiras, bem como lilases a ladearem um relvado bem conservado. Toda a família era entusiasta do críquete e os torneios costumavam ser extremamente competitivos. Dentro de casa, as crianças, incluindo as mais velhas, adoravam brincar com soldadinhos. Volodia escolhia sempre ficar com o lado americano e assumia o papel de Abraham Lincoln ou dos generais da União Grant e Sherman. Os irmãos, Sasha e Dmitri (quatro anos mais novo que ele), eram geralmente os italianos, e as irmãs soldados espanhóis que combatiam Napoleão.

No entanto, o jogo que Lenine adorou toda a sua vida foi o xadrez. Fora-lhe ensinado pelo pai desde tenra idade, com peças que ele esculpira afectuosamente para os filhos. O pére Ulianov não era um jogador mediano, mas um dos melhores de Simbirsk. O filho Volodia depressa o vencia com regularidade, e também ao irmão mais velho. Tornou-se um jogador de respeito, capaz de proporcionar uma partida decente aos nomes mais famosos do xadrez russo[*][2].

Os verões eram passados em Kokushkino, a propriedade comprada por Aleksandr Blank que, após a sua morte, foi herdada pelos cinco filhos. Lenine recordar-se-ia toda a sua vida de Kokushkino como um lugar mágico onde ele sempre fora feliz. Encontrou ali paz e tranquilidade, «onde o aroma de minhonete, goivos, ervilha-de-cheiro e tabaco, capuchinha, gerânios e rosa-marinha enchiam o jardim.»

Nas suas memórias, Anna, a irmã de Lenine que se tornou bolchevique devota, falou com a voz autêntica das classes médias russas quando discorreu sobre Kokushkino e a sua graciosa casa de campo rodeada em três lados por uma varanda virada sobre jardins – uma casa ao fundo de uma extensa vereda ladeada de árvores. «Começávamos a sonhar com a nossa ida para Kokushkino a cada ano e fazíamos planos para isso com muita antecipação. Achávamos que não havia nada melhor ou mais bonito do que Kokushkino, um lugarzinho campestre muito pitoresco. Penso que herdámos o nosso amor por Kokushkino, e júbilo que sentíamos cada vez que o revíamos, da nossa mãe, que ali passara os seus melhores anos. A alegria da vida no campo e os espaços abertos eram extremamente atraentes para nós. Sobretudo depois da agonia das nossas […] escolas secundárias que mais pareciam prisões e da tortura dos exames de Maio, os Verões em Kokushkino pareciam ditosamente para lá de qualquer comparação.» Lenine banhava-se no rio, passeava de barco, deambulava pela fioresta a colher bagas e cogumelos. Lançava papagaios de papel e faziam piqueniques[3].

A educação era de suma importância para os pais Ulianov. Todos os filhos se distinguiam na escola, mas Vladimir era de longe o mais competitivo. Abundava em encanto quando optava por exercê-lo e, em adolescente, possuía um grande sentido de humor. Também podia ser insuportavelmente pretensioso e desprovido de tacto. Era excepcionalmente inteligente e fazia com que todos o soubessem. Mais para o fim do período no Gimnasium, quando eram atribuídas as classificações, ele ia para casa e gritava as notas que obtivera ao passar pelo gabinete do pai: «Grego – cinco [a nota máxima, claro]; Latim – cinco; Alemão – cinco; Álgebra – cinco; e por aí em diante», recordou a irmã Anna. «Ainda visualizo claramente a cena: estou sentada no gabinete do meu pai e vislumbro o sorriso de satisfação que o pai e a mãe trocam, a seguirem com os olhos a figurinha entroncada de uniforme, com o cabelo arruivado a escapar-se de dentro do boné.» No entanto, a facilidade com que ele atravessou a escola suscitou alguma preocupação nos pais. Afiigia-os por vezes que aquilo o levasse a acreditar que a vida era demasiado fácil e que ele se tornasse desmedidamente arrogante. Todavia, não se atormentaram por muito tempo[*].

O currículo era duro, mas restrito. Havia muita matéria para decorar. Quase metade das aulas era sobre os clássicos e a maioria das restantes tratava de matemáticas e ciências naturais. No regime autocrático russo, em que não era permitida qualquer actividade política, os governantes tinham pavor de que as crianças russas lessem algumas das obras-primas da literatura russa. Ensinava-se muito pouca poesia. Os alunos eram desencorajados de ler a maioria dos grandes escritores russos modernos – Tolstoi, Dostoievski, Turguenev, Pushkine, Lermontov, Gogol –, porque num ou noutro momento todos haviam tido problemas com os censores czaristas. Eram ensinados o alemão, o francês e o inglês, mas pela gramática e pela língua. Os estudantes eram proibidos de ler os escritores e pensadores europeus do Iluminismo e do movimento romântico: Goethe, Voltaire e Rousseau, por exemplo. Os alunos do Gimnasium Clássico de Simbirsk não estavam autorizados a frequentar a Biblioteca Karamzin, a principal da cidade, que disponibilizava alguns volumes considerados demasiado subversivos para olhos jovens.

A disciplina na escola era severa, mas Vladimir raramente se queixava ou dava quaisquer sinais de espírito rebelde. Viu-se em apuros apenas uma vez e só por uma infracção menor, quando um monitor da escola o ouviu imitar o professor de Francês, que considerava não estar à altura do que seria exigível. A disciplina era só um pouco mais fiexível em casa, pelo menos durante os períodos lectivos. Ilia era um superintendente duro. Era imposto silêncio rigoroso durante as horas dos trabalhos de casa e reservado tempo diário para leitura séria. Os transgressores que infringiam a regra do «não falar» eram enviados para a «poltrona preta» do gabinete de Ilia, para se acalmarem e refiectirem sobre o mau comportamento. Certa vez, Vladimir foi lá encontrado a dormir[4].

Aleksandr Naumov partilhava a secretária de Vladimir no Gimnasium. Na maior parte dos anos, ele tinha o segundo lugar no pódio da escola, no encalço de Ulianov, que obtinha invariavelmente o primeiro. «Vladimir Ilitch era bastante baixo, mas de compleição forte, com ombros ligeiramente subidos e uma grande cabeça, algo comprimida dos lados […] exibia feições irregulares e, diria mesmo, desgraciosas: orelhas pequenas, ossos das faces proeminentes, nariz curto, largo e um pouco achatado, e ainda uma boca larga com dentes amarelos e muito espaçados. Sem sobrancelhas na cara sardenta, Ulianov tinha cabelo comprido, loiro, macio e um pouco encaracolado que penteava todo para trás. Contudo, estas irregularidades eram compensadas pela sua testa alta, sob a qual brilhavam dois ferozes olhinhos castanhos. A aparência desajeitada dele era facilmente esquecida quando em conversa, por efeito daqueles olhos pequenos, mas invulgares, que cintilavam com uma inteligência e energia extraordinárias […] Ele distinguia-se consideravelmente de todos nós. Nem nas classes caloiras nem mais tarde, ele participou alguma vez nas brincadeiras e travessuras infantis e juvenis, permanecendo sempre reservado, embrenhado nos seus estudos ou em algum outro trabalho escrito. Até quando caminhava entre as aulas, o Ulianov atinha-se aos livros, sempre a ler quando, pelas janelas, o víamos passar para cá e para lá. A única coisa de que ele gostava como entretenimento era jogar xadrez, um jogo em que saía geralmente vencedor, mesmo quando jogava contra vários adversários em simultâneo.»

Outro colega de escola descreveu o jovem Lenine como «uma enciclopédia ambulante, extremamente útil para os seus camaradas – logo que aparecia na sala de aula, Ulianov era cercado pelos colegas que lhe pediam uma tradução ou uma solução para um problema. Ele ajudava-os a todos de boa vontade, mas parecia-me que se ressentia de que alguns tentassem viver e fazer os seus trabalhos escolares às custas do labor e intelecto de outro. O Ulianov tinha um temperamento genericamente jovial e regular, mas era extremamente reservado e frio nas relações com os companheiros. Não tinha verdadeiros amigos. Usava um «você» com toda a gente (as crianças tratavam-se invariavelmente entre si por «tu») e não me recordo de uma única vez em que ele se descontraísse e se permitisse falar com toda a sinceridade e intimidade. No conjunto, inspirava respeito e exibia uma autoridade concreta, mas não se podia dizer que gostavam dele, antes que o estimavam.»[5]

Em momento algum do seu crescimento revelou qualquer interesse por política. Tinha uma paixão pela natureza, adorava subir às colinas próximas e caminhar por elas, gostava de xadrez e de ficção clássica russa. «O Volodia nunca o teria ocultado […] em suma, naquela altura ele não tinha convicções políticas. Surpreendeu-nos que ele pudesse ler e reler Turguenev várias vezes, nos meses em partilhou um quarto com Sasha, que estudava diligentemente obras de economia política.»[6]

A infância idílica de Vladimir e os seus anos de adolescência foram subitamente abalados apenas três meses antes de fazer 16 anos. O pai fizera segredo da saúde debilitada, mas havia algum tempo que sofria de terríveis cãibras abdominais e do que seria então diagnosticado como hipertensão grave. Em Janeiro de 1886, morreu de trombose.

A tensão arterial elevada não se coadunava com a grande pressão da sua vida profissional. Ilia Ulianov fora um funcionário público consciencioso e exemplar ao longo de um quarto de século. Supervisionara a abertura de quase 400 escolas primárias e secundárias na região de Simbirsk e acreditava sinceramente que a Rússia atrasada só podia ser modernizada e prosperar através de uma melhor educação para todos. Era um ponto de vista partilhado pelo «Czar Libertador» Alexandre II, que iniciou uma série de reformas e orientou a expansão da rede escolar da Rússia. Todavia, depois de ele ter sido assassinado, as reformas pararam e instalou-se um período de terrível retrocesso.

A autocracia sentiu-se ameaçada e reagiu à previsível maneira Romanov. A censura endureceu, a polícia secreta foi investida com novos e abrangentes poderes para deter e prender, e foi proibida a actividade política de praticamente qualquer tipo. Alguns meses depois de subir ao trono, o novo czar, Alexandre III, entregou a educação nas mãos de um novo ministro, Ivan Delianov, cuja ideia de escolaridade, como ele próprio declarou ao tomar posse, era que «os filhos dos cocheiros, dos criados, cozinheiros, lavadeiras, pequenos lojistas e outros do mesmo nível não deveriam ser encorajados a elevar-se acima da esfera em que nasceram.» O programa de abertura de escolas nas aldeias para os pobres foi interrompido. Em substituição, abriram algumas escolas eclesiásticas concebidas para preparar crianças para o sacerdócio ortodoxo.

O novo ministério concedeu galardões e medalhas a Ulianov, mas em breve o aposentou. O seu activismo liberal não sintonizava com o novo regime forte que estava determinado a recuar para o passado. Os apoiantes de Ulianov conseguiram protelar indefinidamente a aposentação dele e ele foi reconduzido, mas a sua vida de trabalho chegara ao fim de forma infeliz.

O Inverno russo de 1885-1886 foi um dos mais frios por muitos anos e Ilia sofreu com tosse intensa e cãibras abdominais. Como era típico, continuou a trabalhar ao seu ritmo habitual. A 12 de Janeiro de 1886, queixou-se a Maria Alexandrovna de que não se estava a sentir bem, mas teve ainda assim uma reunião no seu gabinete com dois inspectores da sua equipa até perto das duas horas da tarde. No que era raro, não se juntou à restante família para almoçar. Apareceu por um instante à porta da sala de refeições, mas regressou ao gabinete. «Olhou para nós como se tivesse ido ali para se despedir», recordou anos depois a filha Maria.

Depois do almoço, a mulher foi à procura dele. Estava deitado num sofá, a tremer e incapaz de falar. Ela chamou um médico e juntou os filhos para verem o pai. Ele estava em agonia, teve várias convulsões violentas e morreu antes da chegada do médico. Tinha 54 anos, um ano mais do que a idade com que morreria o seu filho Vladimir.

Foi sepultado no dia seguinte e a maioria da classe média de Simbirsk compareceu no funeral. Sasha estava longe, a estudar na Universidade de São Petersburgo, e teria levado vários dias a chegar a casa. Vladimir, com 15 anos, foi o principal carregador do caixão; os outros eram importantes dignitários da cidade.

A morte de Ilia Ulianov numa idade relativamente jovem foi um golpe terrível para a família. Em breve, porém, um outro golpe, mais grave, se abateria sobre a viúva e os filhos: uma tragédia que lançaria Vladimir no caminho para se tornar o revolucionário Lenine[7].

3

O ENFORCADO

«O revolucionário é um homem dedicado. Não tem interesses pessoais, negócios privados, emoções, ligações afectivas, propriedade ou nome. Tudo nele está subordinado a um único pensamento, uma única paixão: a Revolução.»

SERGEI NECHAEV, Catecismo do Revolucionário, 1869

Ao final do dia 4 de Maio de 1887, cinco homens jovens, todos com vinte e poucos anos, foram acorrentados e algemados nas suas celas da Fortaleza de Pedro e Paulo, em São Petersburgo, mais conhecida pela «Bastilha» da Rússia. Levaram-nos a pé até um navio a vapor atracado na margem próxima do Neva e navegaram 25 quilómetros até outro símbolo sinistro do poder da autocracia czarista: o feio e inexpugnável forte de Shlisselburg, construído quase duzentos anos antes por Pedro, o Grande, na margem sudoeste do Lago Ladoga. Os jovens só foram desacorrentados depois de introduzidos em segurança nas novas celas húmidas.

Nas três noites que se seguiram, sem conhecimento dos cinco prisioneiros que não ouviam qualquer som através das espessas paredes, carpinteiros afadigaram-se a erguer patíbulos e forcas no terreiro da fortaleza. Às três e meia da manhã do dia 8 de Maio, foram acordados por guardas da prisão, novamente algemados e acorrentados, e informados de que, em cumprimento das sentenças que lhes haviam sido impostas numa sessão especial do Senado Estatal realizada três semanas antes, seriam enforcados em seguida. O crime deles: uma tentativa de assassínio do czar. Reclusos disseram posteriormente que os cinco jovens, todos estudantes em São Petersburgo, estavam invulgarmente calmos enquanto se vestiam e se preparavam para morrer.

Cerca das quatro da manhã foram conduzidos pelas escadarias de pedra da fortaleza para o pátio. Só tinham sido construídos três cadafalsos, pelo que dois dos jovens tinham de esperar e ver os seus camaradas serem enforcados antes que também eles morressem. Os primeiros a serem executados foram Vasili Generalov, de 20 anos, estudante do segundo ano de uma família cossaca de classe média do Don; Pakhomi Andreushkin, de 21 anos, um aluno brilhante de Física de uma família próspera de Kuban; e Vasili Osipanov, de 26 anos, filho de um soldado que prestava serviço em Tomsk e a estudar na faculdade de Direito. Todos os três recusaram a extrema-unção, mas beijaram a Cruz. Quando lhes foram enfiados capuzes pretos nas cabeças e subiram ao cadafalso, gritaram tão alto e distintamente quanto foram capazes «Vida longa ao Narodnaia Volia». Para todos eles, a última palavra que pronunciaram foi o nome do grupo revolucionário a que pertenciam: Vontade do Povo.

Os corpos balouçaram livremente durante vários minutos enquanto os outros dois camaradas permaneciam lá em baixo. Quando foram conduzidos ao cadafalso, um deles recusou iradamente com um aceno de mão a Cruz que o sacerdote lhe oferecia; era Piotr Shevirev, de 23 anos, filho de um comerciante rico de Carcóvia. O outro beijou calmamente a Cruz antes de seguir para a sua morte, decorridas somente seis semanas do seu vigésimo primeiro aniversário. Era Aleksandr Ilitch Ulianov[*][1].

O irmão mais novo de Sasha, Vladimir, então com 17 anos, tinha exame de Geometria no dia do enforcamento[†]. Ninguém foi informado das execuções antes de uma hora já tardia do dia seguinte. A mãe, Maria Alexandrovna, acreditava que a sentença de morte seria comutada até ao último momento para prisão perpétua, na pior das hipóteses.

Como a restante família, Vladimir não fazia ideia que o empenhado Sasha, cujo interesse principal se julgava ser as ciências naturais e que parecia destinado a uma carreira académica fulgurante, estava tão profundamente envolvido na política radical. A mãe e a irmã mais velha, Anna, sabiam que ele fazia leituras sérias sobre história económica e política, mas não que ele estava implicado como activista – ou que ele tinha quaisquer activistas por amigos.

O virtuoso Sasha quase era endeusado pelos irmãos. Tinha uma aparência sonhadora e romântica, um rosto fino e delicado e era propenso à melancolia. Enfadonhamente bem-comportado, era discreto e reservado até mesmo em criança. Estudava tão arduamente que dificilmente se conseguia separar dos seus livros durante as refeições. No seu último ano no Gimnasium, transformou o quarto num laboratório. Quando andava no campo, tratava de recolher espécimes de insectos – encantava-se com os vermes. Há algo de terrivelmente pedante e hipócrita no fervor dele para ser visto como bom. Parecia não ter sentido de humor, muito menos a ironia manifestada em abundância pelo seu irmão Vladimir. Questionado por uma das irmãs acerca de qual era o seu ideal de beleza feminina, Sasha respondeu, com cara de pau: «Oh, assim como a nossa mãe.»

Vladimir adorava Sasha em criança, mas à medida que cresceu a relação tornou-se mais complexa. Não eram consentidas críticas, nem sequer veladas, a Sasha, mas Vladimir parecia por vezes ressentir-se da maneira como o seu irmão mais velho pregava a todos sem excepção o que estava certo e era bom. «Quando Volodia chegou àquela idade de transição em que os jovens são particularmente incisivos e confiituosos, era deveras desabrido e autoconfiante, ainda mais depois da morte do nosso pai», escreveu Anna muitos anos depois. Aleksandr era intolerante com as faltas, erros ou estados de irritação mais ínfimos entre os seus irmãos e irmãs. Certo dia, em casa, os dois rapazes estavam a jogar xadrez. Maria Alexandrovna pediu a Vladimir que lhe fosse buscar algo na sala ao lado. Vladimir respondeu de forma petulante que talvez ela pudesse esperar até o jogo acabar. Ela voltou a pedir – e a resposta dele foi completamente rude. Aleksandr elevou a voz, algo que raramente fazia. «Volodia. Ou vais de imediato e fazes o que a Mãe pediu ou não jogo mais contigo.» Envergonhado, Vladimir fez o que lhe era dito.

«A natureza diferenciada dos dois irmãos já se tinha manifestado na infância», disse Anna. «Assim, nunca poderiam ser amigos muito chegados, não obstante o respeito e admiração ilimitados que Volodia tinha por Sasha […] Era absolutamente claro que cada um tinha a sua própria natureza e que eram indivíduos completamente diferentes.»

Por seu lado, Sasha era frio para com Vladimir. Certo dia, poucos meses antes de Aleksandr ser executado, Anna, que também estudava em São Petersburgo, perguntou-lhe: «Que achas do nosso Volodia?» Respondeu ele: «Sem dúvida que é uma pessoa muito talentosa, mas não nos damos muito bem e não somos muito chegados. Na verdade, não somos mesmo nada chegados.»[2]

O plano de assassínio era de um amadorismo ridículo. A surpresa foi os conspiradores terem estado tão próximos de serem bem-sucedidos. Vários meses a planear, quinze pessoas envolvidas – um número insensatamente elevado, se um dos objectivos era o secretismo – e percebeu-se depois que muitos deles haviam falado daquilo com simpatizantes. Todavia, a polícia política, a muito temida e considerada omnisciente Ocrana, não soube da trama até poucos dias antes do atentado, e mesmo assim só por um golpe de sorte. Um dos conspiradores, Vasili Generalov, foi detido sob suspeita de algo totalmente diferente, descobrindo a polícia que ele tinha em sua posse equipamento explosivo e algumas cartas incri ...