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IMPACTO

Norberto Amaral  

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Excerto

Prefácio

Tenho uma boa e uma má notícia. A má é que, embora a maioria das pessoas ache que tem algo para dizer, não o sabe fazer em palco. E o pior é que não tem noção disso porque o comentador que se apodera de nós nas redes sociais faz-nos acreditar piamente que sim. Mas a verdade é que fazê-lo atrás de um teclado está a um buraco negro de distância — sim, a comparação que faço é com um sítio onde cabem seis mil milhões de sois — do que é necessário para subir a um palco e enfrentar uma plateia.

E a verdade é que vivemos numa era em que saber comunicar é mais importante que a mensagem que temos (frase contrariada pela eleição de Donald Trump, mas apenas porque no caso dele não tem qualquer uma das duas).

O modo como usamos a oratória, seja para fazer uma palestra, ganhar eleições ou engatar uma rapariga — porque não quero já estar a discriminar as pessoas que vão ler este livro, cada uma terá as suas razões e quem sou eu para as julgar —, é muitas vezes o que faz a diferença entre o sucesso e o fracasso.

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Já não tenho dedos para contar as vezes que vi pessoas brutais, com ideias fora de série, com trabalhos científicos de um nível inacreditável, não conseguirem segurar uma plateia porque não possuíam as técnicas certas para falar em público. Dou várias vezes o exemplo da reação da plateia em relação ao trabalho do matemático do MIT que, no TEDxPorto 2011, falou-nos das teorias de Einstein e das teses sobre a quinta dimensão em contraponto com o Johnson Semedo, que contou que traficou droga, esteve preso e criou uma associação para ajudar os jovens da Cova da Moura e que acabou com uma ovação em pé. Conclusão? O indivíduo do MIT devia ter estado preso e traficado droga. Óbvio.

Mentira. Precisava apenas e só de ter a mesma eloquência, garra e energia. Tal como caril num prato de caril, a energia é o que faz toda a diferença. Falar em público não é apenas ter um bom Powerpoint. Há que saber fazer o prato completo (e prometo que não uso mais comparações gastronómicas).

O brasileiro Marcos Piangers é um bom exemplo de como a forma conta. Se não sabem quem é, pesquisem que foi para isso que o Larry Page e o outro — nunca sei o nome — inventaram o (__________) — escreva o caro leitor o nome da empresa que a vida não é só facilidades.

E para os impacientes que estão cheios de vontade de começar a ler o livro e já se estão a questionar sobre a boa notícia que referi acima, aqui vai ela: a boa notícia é que falar em público aprende-se. Assim como muitos bons cantores têm aulas de canto, muitos CEO, administradores de empresas e até oradores profissionais procuram ajuda para melhorar a forma de se apresentarem em público (não é o segredo de Fátima, e pode até ser um nadinha previsível para quem já comprou o livro, mas foi a revelação possível dentro deste tema).

E se é verdade que muitas vezes ouvimos aquela «voz interior que nos manda abaixo», de que o Norberto fala aqui no livro, a verdade é que, como já alguém disse, «só sabemos quão grande é a pessoa pela sua coragem de arriscar». Mas essa coragem não tem de ser na lógica do forcado que, embora seja a mais romântica — salta-se para a arena e espera-se que o touro venha para o agarrar de frente —, vai dar o dobro das nódoas negras e da desilusão.

Isto para dizer que é preferível ouvir e aprender com quem já fez de forcado, porque quis a vida, o Manuel Forjaz, e o próprio, que o Norberto tivesse de aprender a ser orador. Quis também a vida que tivéssemos partilhado tantas vezes essa grande arena que é o TEDxPorto, onde assisti na primeira fila ao progresso do Norberto. Nos primeiros anos tímido e com medo do público. Hoje a dominar os tempos, o humor, o palco e a plateia (nem Darwin previu esta evolução).

E se é verdade que houve um lado empírico, houve acima de tudo vontade de aprender e perceber como fazer melhor. E se, de um modo altruísta e até pouco normal neste meio, todos os anos partilha essa sabedoria com os outros oradores, reparte-a agora também neste livro com quem quiser. Aproveitem que eu não o faria por vocês. E se o fizesse, cobrava o dobro.

NILTON

Introdução

Uma má apresentação é uma oportunidade perdida.

Oradores que não querem sobressair.

A minha história.

Falar em público não é natural e a grande maioria das pessoas tem muita dificuldade em fazê-lo. Muitas pessoas acreditam que não nasceram para falar em público e nem sequer consideram preparar-se por crerem ser inútil e que nunca irão conseguir aprender nem ultrapassar esta dificuldade. E quando veem uma pessoa que admiram por o conseguir, acreditam que nasceu para falar em público e que não precisa de esforço nem de preparação.

No entanto, isto não passa de uma racionalização para justificarem o seu pouco à-vontade em palco e não terem de realizar o esforço necessário para fazerem algo que sentem que não lhes é fácil nem natural. Mas falar em público não é um talento que se tem ou não. É uma qualificação que pode ser aprendida e trabalhada e, para nos capacitarmos, precisamos de trabalhar este modo de pensamento e atuação.

Por isso, não é novidade para ninguém que a grande maioria das apresentações a que assistimos é demasiado insatis­fatória. De início sentimos interesse e curiosidade mas, à medida que a apresentação avança, o tédio apodera-se de nós e perdemos o entusiasmo. Procuramos distrações que ajudem a passar o tempo (a verdadeira razão da popularidade dos smartphones) e ansiamos por um fim rápido e indolor!

Não existe uma causa para este fenómeno mas a origem é comum: os oradores. Estes têm a oportunidade, interesse e obrigação de prepararem e realizarem apresentações arrebatadoras, com conteúdos e argumentos simultaneamente sólidos e impactantes, mas na maior parte dos casos não o fazem. Em vez disso, jogam pelo seguro e refugiam-se em pensamentos fatalistas como «Eu não sou assim, não sou capaz», «Não nasci para isto», «Os outros são muito bons, é um talento que nunca terei» ou, ainda, «Isso é muito teatro». É uma promessa não cumprida, aos outros e a si próprios, e deve-se precisamente à falta de interesse em, usando as palavras de Alvin Toffler, escritor, pensador e futurista norte-americano, desaprenderem e voltarem a aprender tudo o que sabem acerca de comunicar em público.

«Os analfabetos do século XXI não serão aqueles que não sabem ler nem escrever, mas aqueles que não aprendem, desaprendem e voltam a aprender.»

ALVIN TOFFLER, em Powershift

Tenho-me interrogado com frequência acerca da razão desta falta de preparação e creio não estar longe da verdade na conclusão a que cheguei: a maioria das pessoas tem uma excelente intenção ao transmitir a sua mensagem mas prefere não demonstrar entusiasmo por receio de não parecer ser séria perante o público, quer seja constituído pelos seus clientes, pares, chefias ou desconhecidos.

Com um foco quase exclusivo na mensagem, praticamente todos os outros aspetos das apresentações são descurados. Contentamo-nos com o quanto baste no modo como falamos e compensamos com um dilúvio de informação, que achamos por bem transmitir, em vez de nos preocuparmos com a receção dessa informação por parte de quem nos ouve. E, em vez de imprimir um tom mais entusiasmante e marcante à apresentação, dando maior vivacidade à voz e criando slides visualmente fortes, a maioria dos oradores prefere o tom monocórdico e aborrecido. A sua credibilidade está em jogo porque não podem correr o risco de parecerem palhaços aos olhos do público!

Existem inúmeras razões para comunicar em público:

•progredir na carreira;

•perceção e posição de autoridade nos temas do seu interesse;

•aumentar a credibilidade e a visibilidade;

•distinguir-se dos concorrentes;

•vender mais os seus produtos, serviços, ideias e conceitos;

•melhorar as apresentações técnicas ou de negócio;

•melhorar a comunicação da empresa ou instituição, interna e externamente;

•assumir a liderança de uma equipa ou tema;

•inspirar e motivar os colaboradores;

•apresentar o resultado de um trabalho escolar ou aca­démico;

•ter confiança para realizar um exame oral a uma dis­ciplina;

•aumentar a probabilidade de ser convidado para eventos sociais;

•ser convidado a fazer um brinde numa ocasião familiar importante, por exemplo um casamento.

Quais são as suas? Se estiver sempre consciente delas, saberá preparar-se melhor para o desafio de criar apresentações impactantes.

De facto, é a credibilidade do orador que está em jogo, mas não como a maioria das pessoas julga. Quando uma apresentação não associa paixão e entusiasmo ao conteúdo, quem sofre as repercussões é o orador — sempre depois do público, esse sofre sempre em primeiro lugar. As ideias do orador não serão tão bem recebidas. A proposta para aquele projeto, no qual tantos recursos foram despendidos para ver a luz do dia, não sairá do mundo virtual de um ficheiro do computador. Quando somado à escala da empresa e do país, o impacto económico é gigantesco, quanto mais não seja porque as decisões que as apresentações pretendem incentivar são adiadas em vez de serem tomadas com maior rapidez — é o chamado custo de oportunidade. Isto tem um grave impacto na reputação profissional do orador, nas organizações, na produtividade.

Neste livro, apresento uma metodologia de trabalho para todos aqueles que têm necessidade de fazer apresentações e de falar em público em geral, quer seja perante duas ou mil pessoas. Os conteúdos que encontrará neste livro advêm da minha experiência de vários anos como managing partner da Cultiv, uma empresa de consultoria, formação e coaching de comunicação, como organizador do TEDxPorto, como Toastmaster, como organizador de eventos Ignite e organizador, moderador e orador em mais de uma centena de eventos. Por si só, nenhuma destas atividades seria suficiente para escrever este livro mas, juntas, representam uma experiência única, rica e plena de estrutura e recheada de exemplos que poderão ajudar qualquer pessoa com vontade de dominar a comunicação em público. A isto soma-se a leitura de inúmeras fontes de informação: livros de reputados consultores de comunicação, blogues e websites e vídeos de apresentações, entre muitos outros conteúdos, incluindo conversas com oradores experientes e a experiência adquirida em inúmeros workshops que dou no âmbito das minhas funções na Cultiv.

Foi no TEDxPorto que começou a minha aventura na comunicação em público. O TEDxPorto é uma conferência anual, inspirada nas conferências TED, e é organizada por uma equipa local e independente formada por voluntários, que reúne pessoas em redor da partilha de conceitos, ideias e experiências entusiasmantes e que incentivam a intervenção humana na comunidade do Porto. Realiza-se anualmente desde 2010 e já é um evento de relevo nacional.

Entrei para a equipa da organização no final de 2010, com o objetivo de levarmos a cabo a segunda edição, em 2011, na Casa da Música. Foram meses e meses de trabalho com uma equipa muito diversa, formada por pessoas com os mais variados interesses, capacidades e formações, uma realidade muito diferente do meu trabalho profissional.

No dia do evento, e depois de até aí ter estado ocupado a tratar de imensos assuntos, por fim chegou, já pela tarde, a tão esperada oportunidade de me sentar e ouvir alguns oradores. Sentei-me na última fila, mesmo à frente da régie, e deixei-me inundar pelo que se passava no palco. Diverti-me a ouvir Tiago Pereira, criador do projeto «A Música Portuguesa a Gostar dela Própria», para o qual recolhe cantares de Portugal, e que se referia insistentemente «às suas velhinhas»; comovi-me com GMB Akash, fotógrafo do Bangladesh que alia o seu trabalho ao empreendedorismo social, e fiquei hipnotizado ao ouvir Mark Boyle (também conhecido como «O Homem sem Dinheiro»). E, no entanto, foi Bento Amaral quem me deitou por terra.

Aos vinte e cinco anos, Bento Amaral bateu com a cabeça no fundo do mar quando se lançava a uma onda com a sua prancha. Ficou imediatamente tetraplégico, e desde então está confinado a uma cadeira de rodas. No entanto, isso não o impediu de continuar a viver. Conseguiu realizar os seus sonhos e até praticar esqui na neve e vela.

Perto do final da talk, partilha uma pergunta incómoda que lhe fazem com regularidade: «Se pudesse voltar ao dia do acidente, o que faria?» À qual responde: «Eu só dou graças a Deus não poder voltar ao dia do acidente porque provavelmente tomaria a decisão errada. A minha vida tem sido bastante rica depois de ter tido o acidente.» E ainda: «Aprendam a serem felizes com o que têm ao vosso alcance.» Vi outros rostos em lágrimas, pessoas com um nó na garganta e a engolirem em seco. Seguiu-se uma estrondosa ovação de pé. Bento Amaral tinha tocado num ponto sensível para todos nós. O modo como falou foi simples, autêntico, com imenso humor e desarmante.

Entretanto, Bento Amaral terminou a talk, saiu do palco e recordo-me do que se seguiu como se fosse ontem. Manuel Forjaz, fundador do TEDxPorto, estava no palco a apresentar o orador seguinte e fiquei hipnotizado com a sua presença, o seu carisma, mas em grande parte também com a associação ao que tinha acabado de acontecer. Dei comigo a pensar como gostava de estar naquele lugar a fazer exatamente o mesmo. Foi então que ouvi uma voz, claramente interior mas como se tivesse um corpo exterior, a dizer-me: «Esquece, Norberto. Isso nunca vai acontecer. Nunca vais ser capaz de estar ali, à frente de mais de mil pessoas. Nunca vais ser capaz de liderar uma equipa assim. E nunca, mas nunca, serás capaz de organizar um evento deste calibre. Esquece.»

O que aconteceu ao longo dos meses e anos seguintes ignorou, anulou e ultrapassou por completo essa voz.

Alguns meses depois propus ao Manuel Forjaz liderar a equipa e ele poderia focar-se na curadoria de oradores e apresentar a edição seguinte. Ainda hoje desconheço como tive coragem para abrir a boca e dizer tais palavras.

Assumi a coorganização e, na edição seguinte, foquei-me totalmente na produção, sem sequer ver uma talk completa. O evento como um todo correu muito bem e à noite, durante o jantar que se seguiu, Manuel chamou-me Norberto «O Alemão» Amaral. Apesar do momento que vivíamos então em Portugal, encarei o epíteto com bom humor e como um elogio!

Em 2013 fui o host do evento. Foi um dia maravilhoso, a maior edição do TEDxPorto até então, que encheu a Sala do Arquivo do Centro de Congres ...