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HUMANOS

Tom Phillips  

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Excerto

Há muito, muito tempo, quando a luz do Sol desceu sobre os grandes vales e planícies dos rios da Etiópia, uma jovem macaca estava a descansar numa árvore.

Não temos como saber em que estava a pensar ou o que estava a fazer naquele dia. É muito provável que estivesse a pensar em procurar alguma coisa para comer, ou em encontrar um parceiro para acasalar, ou talvez a espreitar para a árvore ao lado para ver se era melhor do que a sua. Com certeza não sabia que os acontecimentos daquele dia a transformariam no membro mais famoso de todo o sempre da sua espécie – e, mesmo que pudéssemos arranjar uma forma de lhe dizer, o conceito de fama não faria qualquer sentido para ela. Também não sabia que estava na Etiópia, porque isso aconteceu milhões de anos antes de alguém ter a brilhante ideia de traçar linhas num mapa e dar às formas nomes que dariam origem a guerras.

Ela e a sua família eram ligeiramente diferentes dos outros macacos que viviam na mesma época: as suas ancas e pernas tinham alguma coisa invulgar que lhes permitia movimentarem-se de uma nova forma. Estes macacos estavam a começar a descer das árvores e a andar direitos pelas savanas: a mudança inicial que, a seu tempo, levaria a si e a mim e a todas as pessoas deste planeta. A macaca não sabia, mas estava a viver no limiar do começo de uma das histórias mais notáveis de sempre. Era o início da grande jornada humana.

Depois, caiu da árvore e morreu.

Aproximadamente 3,2 milhões de anos mais tarde, um grupo diferente de macacos – alguns dos quais possuem agora doutoramentos – desenterraria os seus ossos fossilizados. Como estávamos na década de 1960, e os cientistas estavam a ouvir uma canção de um grupo de Liverpool que estava muito na moda naquela época, decidiram chamar-lhe Lucy. Ela era uma espécie novinha em folha – a que chamamos agora Australipithecus a­farensis – e foi aclamada como o «elo que faltava» entre os seres humanos e os macacos. A descoberta de Lucy cativaria o mundo: ela tornou-se muito popular, o seu esqueleto foi exibido numa viagem de muitos anos pelos Estados Unidos e agora é a atracção principal do Museu Nacional em Adis Abeba.

E, no entanto, só conhecemos a sua existência porque, para falar sem rodeios, ela lixou tudo. O que, em retrospectiva, estabeleceu um modelo muito claro de como as coisas aconteceriam daquele momento em diante.

Este livro é sobre os seres humanos e a nossa notável tendência para lixar as coisas. Sobre porque é que, por cada

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