Introdução
Paris, nos primeiros dias do mês de Junho de 2010,
um quarto de hotel a meio da tarde
Nunca pertenci à quela categoria de mulheres que afirmam que todos os quartos de hotel são parecidos, que não passam de um único e mesmo espaço anónimo, sem estilo nem personalidade. Uma espécie de túnel frio, com um design uniforme, que oferece o conforto habitual até ao dia seguinte. Seguramente, essas mulheres não fizeram outra coisa a não ser dormir entre dois comboios ou dois aviões, cansadas do desgaste provocado pelos transportes. É preciso frequentar um quarto de hotel durante o dia, quando o resto do estabelecimento está vazio, ou quase, para apreciar o que ele tem de singular, de único. É preciso vibrar ali, fazer falar os sentidos, um por um, para experimentar os vestÃgios das pessoas que, antes de si, ali puderam rir, chorar, amar ou atingir o orgasmo. Nos últimos meses descobri que o que se recebe no hotel é mais do que aquilo que se traz cá para fora. Se não se fizer nada a não ser entregar-se ao sono, ao aborrecimento ou à melancolia, não se captará nada a não ser o reflexo da vossa própria tristeza ou da vossa inacção. E sair-se-á de lá como se entrou, infelizmente inalterado.
Se nos dermos ao trabalho de escutar o que um quarto de hotel tem para nos dizer, ouvimos mil histórias, mil confissões, mil suspiros aos quais ansiamos, então, por juntar os nossos. Por vezes, os mais curiosos até se sentem possuÃdos pelos ocupantes anteriores. Um perfume agarrado aos cortinados ou à colcha. Uma pequena nódoa que sobreviveu. As manchas num espelho que desenham uma sombra, quase uma silhueta. Estes pormenores entram em vós, infundem-se e incitam-vos a viver a história que vos espera.
É o que me preparo para fazer em seguida, nua, com os pulsos amarrados à cabeceira da cama. Escrever as páginas novas de um relato iniciado muito antes deste dia, muito antes de mim. Como a maior parte dos quartos do Hotel dos Encantos, o Josefina dispõe de um espelho enorme no tecto. Assim, enquanto espero que as coisas sérias comecem, tenho todo o vagar para me contemplar. Eu, Annabelle Barlet, nascida Lorand, 23 anos, casada há quase um ano, pronta para me entregar sem reservas ao homem que se prepara na casa de banho contÃgua. Quem será? Ainda não sei nada sobre ele. A única certeza que tenho é que não é o meu marido. Se fosse ele, estarÃamos aqui? Francamente, estarÃamos a fazer isto?
Chamam-me Elle. Desde sempre e em todas as circunstâncias. Sem dúvida, porque Belle teria sido um fardo demasiado grande para eu carregar. Porém, acreditem que Elle é ainda pior. Elle, como se fosse resumir apenas em mim todas as mulheres! Concentrar em mim todos os seus encantos. Cristalizar todos os seus desejos. Fundir em mim todas as fantasias, estas naturezas brutas de que são feitos os homens.
Quando a porta da casa de banho chia por fim, solto vários gritinhos de surpresa, curtos. Talvez um pouco agudos de mais. Sem dúvida, eu acabara por acreditar que a sua presença não passava de um sonho. O desconhecido pára, hesita em aproximar-se. Imagino a sua mão crispada na maçaneta, a respiração suspensa.
— Minha senhora? Sr.ª Barlet, está tudo do seu agrado?
A voz que se ouve não é a dele. Vem do corredor. Nos bastidores, preocupam-se comigo. Cuidam de tudo para que eu esteja satisfeita. A senhora é uma cliente habitual. A senhora é uma privilegiada nestes meios. O meu homem deu-lhes instruções. Aqui, ele é dos que ouvem, ouvem e obedecem.
— Sim, Sr. Jacques… Não se preocupe, está tudo bem.
Não fui tratada com tanta deferência a primeira vez que fiquei neste quarto, há um ano. Também não estava tão segura de mim. Os grandes espelhos devolviam-me uma imagem completamente diferente. Eu já tinha as mesmas formas pesadas, a mesma redondeza à laia de promessa, mas ainda ignorava o poder delas, e ainda mais como as poderia usar. Eu não desfrutava do outro, e ainda menos de ser eu.
Que é que te dá prazer, Elle?
Diz, que é que te dá prazer?
Será que só eu sei? Afinal, qual é o truque capaz de me fazer derreter o fundo do ventre?
De me dissolver sem mesmo me tocar, apenas com o pensamento? O corpo de um homem nu? O seu cheiro? A visão de um sexo anónimo, erecto para mim?
Contra mim? Em mim…
(Nota manuscrita em 05/06/2010, redigida pelo meu próprio punho.)
Não, há um ano eu não sabia que cada quarto é uma bolha de amor onde cada mulher se confronta e aprende por fim a ser ela própria. Eu não estava amarrada como estou neste momento e, no entanto, estava muito mais prisioneira do que agora. Hoje, não se enganem, sou eu a amante, e não apenas a deste homem que treme atrás da porta. A minha entrega é total, mas nunca ao ponto de não estar em condições de controlar o curso dos acontecimentos.
Há um ano, eu ainda era apenas eu, Elle. Todas as mulheres menos ela própria. Toda a mulher que eu ainda tinha de fazer nascer…
CapÃtulo 1
Um ano antes, 3 de Junho de 2009, no mesmo quarto de hotel
Nesse dia, eu tinha os movimentos livres, enroscada nos lençóis desfeitos do Josefina. Livre e, no entanto tão acanhada. Só conhecia o homem que ia partilhar a minha cama há três horas; quatro, no máximo. Escusado será dizer que não sabia muito sobre ele a não ser o seu estado civil, o tamanho da sua carteira — e, em breve, mais uma coisa. Durante o serão que tinha precedido este preciso momento, eu não escutara uma única palavra da conversa dele com os nossos companheiros de mesa. Só participara com sorrisos e dóceis acenos de cabeça. Um belo adereço, como se esperava de mim. O que é que ele fazia na vida, ao certo? Banca? Importação-exportação? Ou seria eleito por algum lado, presidente honorário de alguma coisa? Em todo o caso, era bastante importante para impor respeito — e, por vezes, até o silêncio — dos outros convivas.
— Tens alguma preferência pela posição? — perguntou-me ele enquanto me ajudava a desapertar o vestido branco, leve, com fecho nas costas.
Engraçado! Há apenas alguns minutos, inclinados sobre o nosso prato de foie gras escalfado com mirtilos, tratávamo-nos por você. Transposta a porta do quarto, ele tinha passado imediatamente para o «tu», intimidade enganadora dos corpos que se desnudam demasiado depressa.
— Como? — Engasguei-me entre dois goles de água com gás.
Jamais um ser a vibrar por vós com um desejo sincero, de quem esperam febrilmente galanteios, se preocuparia com aquelas considerações técnicas. O vosso corpo, com a sua entrega, dar-lhe-ia a resposta. Não seria necessária qualquer palavra. Tudo seria apenas música, e a harmonia dos vossos sentidos seria o sinal.
— Quer dizer… Há posições que sejam um problema para ti? Coisas que não fazes?
Eu virei-me e observei-o mais atentamente do que até então. Ele era um tipo bastante atraente, um quadragenário ligeiramente grisalho, do tipo atlético, sem dúvida muito desportivo, e provavelmente era por essa razão que eu estava naquele quarto. Sem isso, eu nunca teria considerado a possibilidade de terminar desta forma o enfadonho jantar que acabávamos de suportar. Teria recorrido à opção básica. No entanto, era apenas a terceira vez que eu aceitava «continuar» assim, segundo a expressão consagrada. Feitas as contas, em oito meses de actividade, era muito pouco.
Esta falta de jeito, esta forma fria de me consultar sobre as minhas preferências, fez-me adivinhar que ele não tinha mais experiência do que eu. Talvez eu fosse a sua primeira acompanhante. Contive-me e não lho perguntei, para não dissipar este resto de mistério que persistia entre nós.
— Não… não especialmente — menti com um sorriso que esperava ser sedutor.
— Está bem… — aprovou ele com um aceno, visivelmente tranquilizado. — É preferÃvel saber antes de começar.
Os meus pensamentos estavam muito longe…
A canzana incomoda-me porque é animalesca. E por esse motivo só posso praticá-la com homens que conheço.
A canzana faz-me gozar mais do que as outras posições… precisamente porque é animalesca!
E, por esse motivo, sonho praticá-la com um desconhecido, de preferência com o rosto escondido atrás de uma máscara.
(Nota anónima manuscrita em 03/06/2009, introduzida na minha caixa do correio, sem eu saber.)
Pensei nos bilhetes que começara a receber há algumas semanas, desde que tinha encontrado na minha mala um pequeno caderno com argolas, capa prateada, um caderno virgem que uma mão anónima tinha depositado nela, aproveitando uma confusão no metro. Colado no interior, o bilhete enigmático e com uma caligrafia desconhecida devia ter-me alertado:
Um estudo estabeleceu que os homens pensam em sexo cerca de dezanove vezes por dia. As mulheres, não mais de dez. E você, quantas vezes se deixa invadir diariamente por este género de pensamentos?
Passaram-se vários dias até que descobri, enfiada na minha caixa do correio, sem selo nem franquia, uma folha solta, perfurada, cujos furos correspondiam aos anéis metálicos do meu caderno. O autor sentia um prazer evidente em imaginar quais podiam ser as minhas fantasias. Escrevera na primeira pessoa, como se fosse eu.
Estive quase a deitar a página manuscrita para o lixo, sem a ler. Até pensei apresentar queixa na polÃcia por assédio. Porém, a minha curiosidade de estudante de jornalismo levou a melhor, e eu guardei cuidadosamente a folha na minha pasta em miniatura, sem desconfiar ainda de que esta seria a primeira de uma longa série. Pois a mão sem rosto não pararia por ali… Oh, não.
— Não me oponho a nada — acabei por responder ao meu cliente.
Afinal, ele não era pior do que o pequeno punhado de homens que eu tinha deixado possuir-me depois de alguns serões demasiado regados ou de vários restaurantes medÃocres. E se pensasse na minha primeira vez nos braços de Fred, a minha história mais séria até este dia, era preciso reconhecer que esta tinha uma grande falta de encanto. Pensando bem, na noite em que acabámos por fazer amor, eu cedi porque se proporcionou, porque o curso natural do serão assim o exigia… não por verdadeira vontade. Então, qual era o problema de aproveitar hoje a totalidade de uma discreta transacção comercial? Eu não valia mais do que metade de uma pizza e dois copos de vinho tinto?
Pelo menos este era rico, educado, um belo homem e, ainda por cima, elegante no seu casaco com dois botões, feito por medida, em que era visÃvel o requinte dos acabamentos, o forro de seda fúcsia e os pespontos a condizer nas botoeiras. Graças a ele, eu ia ganhar mais numa noite do que alguma vez ganharia numa semana de biscates na indústria alimentar, na caixa de um restaurante de fast-food ou outra coisa do género.
Resumindo, eu motivava-me como podia. O champanhe que tÃnhamos bebido ao serão começava a dissipar-se, e eu precisava de lastro, de outra efervescência para além das bolhas desaparecidas da minha taça.
Apesar da carta branca que eu acabava de lhe dar, o senhor-por-medida, devidamente forrado com látex, penetrou-me sem preliminares, ou quase, e, sobretudo, sem uma única palavra, numa posição de missionário ofegante. A ausência de habilidade que as pessoas supostamente bem-educadas têm para fazer sexo é uma coisa que nunca deixará de me surpreender. Provavelmente, é a única aprendizagem que não se ensina, para a qual não existe nem curso particular nem explicador.
— Está tudo bem? Não te estou a magoar?
Não, nem a magoar nem nada mais. Estranha ausência de sensações. Toda a parte de baixo do meu corpo parecia anestesiada. Eu sabia que era um problema meu, do meu sexo, de uma penetração, de um divertimento que não podia ser mais real mas em que eu não conseguia sentir-me envolvida. No entanto, com as mãos pousadas nas nágedas dele, acompanhei o seu vai-e-vem dentro de mim com doçura.
— Está tudo bem. — Esforcei-me por encorajá-lo.
A minha própria inexperiência impedia as iniciativas que ele devia esperar legitimamente de mim. Devia eu suspirar, arquejar, murmurar-lhe exortações obscenas ao ouvido? Até que ponto é que devia fingir? Isso fazia parte do desempenho?
— E para ti, está bom?
Foi tudo o que me ocorreu naquele momento. Eu sei que foi muito fraco. Ele limitou-se a arfar um sim que prefigurava um fim próximo. Então, preocupado em rentabilizar este momento precioso, como homem de negócios sensato, imobilizou-se uns 15 segundos e depois voltou à carga, tão regular como um metrónomo suÃço.
Apesar de estar um pouco ausente, não senti nem constrangimento nem repulsa e muito menos cólera. A mão que passava nas costas dele, acariciando lentamente toda a superfÃcie, desde a espinha dorsal até à zona lombar, estava cheia de boa vontade, de desejo de lhe dar prazer. Aceitei, como prova da sua satisfação, os gemidos que se foram intensificando. Francamente, esta relação não era pior do que muitos exercÃcios de ginástica horizontal que eu já tinha feito. E depois, vejam, o interesse de um coito sem paixão está no facto de nos dar tempo para apreciar a decoração. A dos quartos do Hotel dos Encantos merecia que lhe dedicássemos algum. Além do enorme espelho preso no tecto, uma das raras concessões do estabelecimento à s exigências da nossa época, todo o resto da disposição apresentava-se aqui como uma réplica fiel do quarto ocupado pela Sr.ª de Beauharnais, esposa de Bonaparte, no seu castelo de Malmaison. O conjunto do quarto circular parecia a mais luxuosa das tendas de campanha, sustentada por uma série de finos pilares dourados e ligados entre si a toda a volta por grandes tapeçarias vermelhas, à s quais o drapeado antigo conferia um volume e um movimento extremamente graciosos. A vasta cama de dossel, com uma águia de asas abertas, pronta para levantar voo, tinha bordados na cabeceira dois cisnes dourados e nos pés duas cornucópias. Todo o resto do mobiliário, incluindo as poltronas e uma espreguiçadeira comprida, dispostas na outra extremidade do quarto, recuperavam os tons dominantes, ouro e sangue, bem como os motivos florais já presentes no forro e nas colunas laterais do sommier.
A ilusão era perfeita, e não era preciso forçar a imaginação para recuar dois séculos. Napoleão atacaria a sua Josefina com esta mesma precisão mecânica ou, pelo contrário, variaria o ritmo? Eu estava distraÃda nas minhas adivinhações estéticas, ou histórico-sexuais, quando o senhor-por-medida me mimoseou com um último golpe de ancas e um arquejo conclusivo. Não tinha demorado mais de três ou quatro minutos, talvez impressionado com a majestade do lugar ou, muito simplesmente, enfartado com a refeição, enfraquecido pelo álcool.
Logo que se veio, rebolou para o lado, com o flanco quase a tocar o meu, e fez um pequeno elogio, cheio de gratidão pós-orgasmo:
— Sabes… és muito bonita.
— Obrigada.
Que outra coisa podemos responder, principalmente quando estamos convencidas do contrário? Aquela que eu via no tecto não me agradava. Nunca me tinha agradado. E eu sabia que este tipo de sessões não me reconciliaria tão cedo com ela. Demasiado redonda, demasiado isto, demasiado aquilo. Eu era assim mesmo: mais uma jovem bronca do que uma mulher fatal. Numa palavra, imperfeita.
— Não me agradam as raparigas magras — confiou-me ele. — Tenho medo de parti-las… e também de me picar nos ossos delas.
Uma maneira de dizer que as minhas curvas não lhe tinham desagradado. Pelo menos um de nós estava contente com a ementa que eu tinha para oferecer. Abundância a todos os nÃveis. E nada de ângulos salientes. Parecia que, por enquanto, ele estava saciado.
Peguei no pequeno maço de notas que ele deixou na mesinha de centro, em acaju, verificando o valor com um olhar, e aproveitei o momento em que ele foi à casa de banho para desaparecer do quarto, tão muda como os fantasmas que o habitavam. Que poderia eu ter-lhe dito que não soasse a mentira ou a promessa falaciosa: «Foi mesmo fantástico»? «Muito obrigada»? «Até breve, espero»?
Calcei-me no patamarda escada, sentindo as plantas dos pés acariciadas pela suavidade da alcatifa alta, e segui sem demora para o átrio onde se situava a recepção. Ali, atrás do seu balcão brilhante, o Sr. Jacques fez-me um sinal discreto, não obstante um convite explÃcito para que eu me aproximasse.
— Correu tudo bem, Menina?
— Sim, sim — disse eu em voz baixa. — Muito bem.
O porteiro do Hotel dos Encantos inspirava respeito, com a sua libré cintada de lacaio do Grande Século com passamanaria à s riscas douradas e prateadas. Mas, mais ainda que o fato, era a sua aparência fÃsica que me impressionava: o homem idoso não tinha um único pêlo em toda a superfÃcie da cabeça, nem cabelos nem bigode nem barba nem sobrancelhas nem sequer pestanas para orlar os enormes olhos azuis, ligeiramente esbugalhados. Era impossÃvel ser mais imberbe que aquele homem ou ter uma pele mais branca.
Surpreendentemente, a minha mãe não tinha perdido os cabelos grisalhos, apesar das sessões de quimioterapia. Os últimos seis meses de tratamento tinham abalado os músculos e o seu tónus, mas não o crânio, sempre coberto. Maude Lorand resistia. Persistia como sempre tinha feito, com coragem e humildade, sem uma palavra a mais e sem qualquer queixa. Os seus pulmões estavam a desfazer-se, mas a sua dignidade não mexera nem um centÃmetro. Uma estátua de bronze entre as cinzas.
— Acha que vai precisar de um quarto nos próximos dias? Talvez até amanhã?
— Ainda não sei. De qualquer maneira, se precisar… será certamente a última vez.
Ele não pareceu surpreendido ao ouvir esta declaração categórica. Pareceu quase feliz, como indicou sem ambiguidade o seu sorriso aberto. O Sr. Jacques só queria o meu bem. Digamos antes — assim me parecera em cada um dos nossos raros encontros — que ele via o bem em mim. Que, apesar das aparências e das razões objectivas da minha presença no seu estabelecimento, ele percebia o que eu podia fazer de bom, ou melhor. Alguns segundos do seu olhar pousado em mim bastavam para me animar.
Nessa noite, porém, não me demorei em tal fonte salutar. Ele continuava a sorrir-me, apesar de eu já estar lá fora, inspirada pela noite doce e ainda jovem.
CapÃtulo 2
Um pouco mais tarde, no mesmo dia
— Então, opção de base… ou opção de sexo?
A autora deste mau jogo de palavras, que namoriscava permanentemente com a vulgaridade, plenamente consciente de que aumentava o seu encanto canalha, foi Sophia. A minha melhor amiga. Um pouco a única, em boa verdade. Sophia Petrilli, dois anos mais velha do que eu em idade e pelo menos cinco em experiência com homens e sexo. Com caracóis castanhos onde todos os olhares se prendem, seios que chamam desesperadamente as mãos susceptÃveis de abraçar as suas curvas perfeitas, olhos onde todos os homens só querem perder-se. Um dos seus primeiros amantes tinha-lhe chamado Esmeralda, de tal forma a jovem bailarina que ela é manifestava indomável independência e inspirava paixões escaldantes. No dia-a-dia era apenas Sophia, pobre, sem homem sério e sem emprego estável. Mas iso era suficiente para fazer dela o ser mais animado e mais independente que conheço, bem como um apoio de uma fidelidade a toda a prova. Os amigos de infância desapareceram; Sophia ficou sempre.
— Hum… — respondi eu, fugindo à pergunta com um encolher de ombros. — Segunda opção.
— Dito isto, tendo em conta a hora, estava com algumas dúvidas.
Estava combinado que, nas noites em que trabalhávamos as duas, nos encontrávamos no Café des Antiquaires, na Rua de la Grange-Batelière, a dois passos da loja Drouot, em pleno centro do 9.º bairro. A regra era simples: a primeira das duas que despachasse o cliente esperava pela outra. A opção número um raramente nos ocupava para além das onze horas da noite. A número dois prolongava-se mais alegremente até depois da meia-noite.
— E tu, tiveste uma noite boa?
— Pode dizer-se que sim — disse ela, esboçando um pequeno sorriso.
— Cliente com massa?
— Odiosamente com massa, queres dizer. Nunca tinha visto um Rolex tão brilhante. E, ainda por cima, tive direito à grande diversão, suite Pompadour e toda a sua pompa.
Era a outra particularidade do Hotel dos Encantos: cada quarto, invariavelmente alugado à hora, tinha o nome de uma das grandes sedutoras e cortesãs da história da França. Misturavam-se ali favoritas e amantes, rainhas e simples prostitutas passadas à posteridade, bem como um espantoso rol de bailarinas, espias, artistas e mulheres de reputação duvidosa, todas conhecidas pelo extraordinário ascendente que exerciam sobre os homens e pela forma como o tinham usado durante as suas existências conturbadas. Nenhum número estava associado a estes patronÃmicos; aliás, nenhum figurava por cima das portas. Em compensação, como eu tinha podido apreciar pessoalmente um pouco antes, a decoração de cada um destes quartos estava de perfeito acordo com o carácter e a época das ditas aventureiras, tornando o quarto uma preciosidade única. Cada quarto encarnava uma mulher, cada fantasma ganhava forma em cada um destes quartos.
— Nada mal! — aprovei eu, forçando um entusiasmo que não sentia. — Eu fiquei no da Josefina.
— Que grande classe! Nunca tinhas estado lá?
— Não, ainda não.
Sophia frequentava o Hotel dos Encantos muito mais assiduamente do que eu. Talvez duas ou três vezes no mesmo mês, por princÃpio nunca mais de uma vez por semana; estes encontros constituÃam, não obstante, consoante o perÃodo e as suas necessidades, o essencial dos seus rendimentos.
— E depois — perguntou ela, lançando-me um sorriso que não podia ser mais ambÃguo —, como foi? Bom?
— Sophia! — exclamei como um pró-forma. — Tu sabes bem… não posso.
Ela conhecia o regulamento tão bem quanto eu: a agência que nos punha em contacto com os clientes ricos proibia formalmente que falássemos sobre eles depois. Tudo o que tinha acontecido nas preciosas e deliciosamente antiquadas alcovas devia, imperativamente, ficar lá dentro e nunca de lá sair. Alguns dos homens que nós acompanhávamos eram importantes, por vezes até poderosos, e qualquer informação relativa ao seu comportamento na intimidade, especialmente alguns pormenores relativos à s suas preferências sexuais, poderia cair nas mãos dos seus piores inimigos. A confidencialidade era imprescindÃvel e o segredo impunha-se como uma doutrina.
Para ser franca, esta imposição agradava-me bastante. Punha-me a salvo das confissões de Sophia e erigia da minha parte uma barreira salutar. Falar de sexo era para ela um prazer igual, pelo menos, ao do próprio acto. Um prolongamento natural, como se a sua lÃngua fosse um órgão tão eréctil quanto o clÃtoris, estando os dois ligados por um laço secreto. Este tema, que ela considerava universal, era referido por ela a toda a hora, em todos os lugares, com as pessoas que lhe eram próximas e com quem lhe aparecesse à frente. «Afinal, a sério, conheces alguma coisa mais interessante do que o sexo?», perguntava-me ela frequentemente, em tom de provocação. «É claro que não nos vamos pôr a falar de investimentos ou de miúdos, certo? Não temos um tostão no bolso e, manda-me calar se eu estiver enganada, ainda estamos longe de fazer criancinhas. Trinta e um anos é a média de idade em que as mulheres têm o primeiro filho na região de Paris! Trinta e um anos!»
Voltando ao seu tema preferido, ela mostrou-se inesgotável, deleitando-se com pormenores que referia sem pudor, deliciando-se com os que arrancava à força aos seus interlocutores.
— Porque o meu cliente desta noite, devias ver como ele era avantajado! Monstruoso! Uma coisa de doidos! Ainda mais gordo que a sua conta bancária, devo dizer.
— So! — indignei-me, procurando controlar uma enorme vontade de rir.
— O tipo servia para atracção do circo, juro-te.
— Pára!
— Qual é o problema? Não te disse o nome dele! Só estou a falar do seu pénis.
— Genial! — ironizei eu. — Seja! As aventuras de um sexo anónimo.
— Não, mas a sério, era tão grosso que pensei que ia sufocar quando o…
— Ah, sim, tens razão — interrompi-a, para não ouvir mais. — A felação, acima de tudo, nunca devemos prolongá-la de mais. Quando eles se viciam, não querem mais nada.
Era a minha tirada clássica para o seu tsunami de confidências inconvenientes, a única que eu conhecia: limitar-me prudentemente a lugares-comuns e a algumas frases feitas, extraÃdas essencialmente dos artigos mais recentes sobre Sexo que lia nas revistas femininas.
— Dito isto — continuou ela —, não tem comparação com aquele que não me tocava e que exigia que eu me masturbasse diante dele durante duas horas… Ele esgotava-me.
— Sim, mas se te masturbas diante dele estás a ensiná-lo a dar-te prazer. Nem sempre é tempo perdido.
… na Cosmo, especial Sexo, Julho-Agosto de 2007. Aquilo devia vir de lá.
Mas o que sabia eu, exactamente, pessoalmente, eu, Annabelle Lorand? Não sabia grande coisa.
A verdade é que a cláusula da agência era o meu melhor álibi para não lhe contar mais. A maior parte das vezes isto era suficiente para refrear a sua curiosidade, ou para estancar a sua logorreia impudica. Eu podia reservar as minhas confidências para o meu pequeno caderno secreto. Mas outra mão que não a minha guardava-as por mim, na intimidade destas páginas brancas:
É idiota, mas tenho a impressão de que cada sexo também tem a sua alma gémea. Como se cada vagina tivesse apenas um único pénis no mundo, exactamente desenhado e dimensionado para ela. E vice-versa.
Enquanto não a encontra, cada órgão sexual não é capaz de gozar em pleno. É o meu caso, tenho a certeza: o meu sexo ainda nunca esteve na presença da sua alma gémea masculina.
(Nota anónima manuscrita em 02/06/2009, deixada na minha caixa do correio: não deixa de ter razão.)
E, sem que eu pudesse contestar um e outro, o facto de outra mão escrever por mim excitava-me tanto quanto me revoltava. No fim de contas, a ideia devia enlouquecer-me o suficiente para eu a consentir, uma vez que tinha conservado o caderno e ali guardava religiosamente as fantasias inconfessáveis que o meu perseguidor anónimo me enviava, várias por dia. Uma ou duas vezes, fiquei à espreita algumas horas, com o olhar pregado na caixa do correio, mas nunca o surpreendi.
No começo, consegui esconder de Sophia a existência do caderno. Ela é dotada de um radar para este género de segredos. Até ao momento em que, alguns dias mais tarde, entornei o conteúdo da minha bolsa num café, mesmo ao pé da sua cadeira. Ela debruçou-se para as coisas que estavam espalhadas no chão, num movimento reflexo.
— Que raio de coisa é esta?
— Nada… Dá cá!
— Muito chique, este caderno! É o teu repertório de posições à canzana? — gozou.
— Claro que não… Pára…
— Claro que é… estás a corar!
Sem me pedir autorização, abriu-o nas primeiras páginas e começou a ler em voz baixa.
— Eu não corei! E dá-me isso já!
… Depois mais alto.
— «[…] E pergunto a mim mesma que odor e que gosto sente um gajo quando me lambe em baixo…» Uau! Menina Lorand! Tu confessas-te em grande!
— Sophia, dá-me isso, porra!
Ela acabou por aquiescer, mas o mal estava feito.
— Decidiste escrever-nos a Vida Sexual de Annabelle L. ou quê?
— Não fui eu que escrevi isso…
— E eu sou a Branca de Neve!
— Juro-te. Um tipo põe estas folhas na minha caixa do correio, todos os dias. Não sei quem é nem o que quer.
— A sério? E tu limitas-te a arquivá-las aqui dentro?
— Juro-te que é a verdade.
Apanhada na ratoeira, contei-lhe as circunstâncias misteriosas em que o caderno tinha vindo parar à s minhas mãos. Depois, dia após dia, estas páginas de um diário Ãntimo que podia ter sido o meu, mas que outro — outra — escrevia no meu lugar.
Uma anedota que a divertiu mais do que chocou. Eu tinha pensado que Rebecca, a dona da agência, poderia estar na origem deste presente envenenado. Mas, se fosse esse o caso, porque é que eu seria a única destinatária entre todas as acompanhantes de luxo? Senão, Sophia ter-se-ia imediatamente gabado a mim.
— Isto deixa-me passada: entre todas as miúdas de Paris, o tarado que teve esta ideia tinha de tropeçar em ti!
— Porque é que dizes isso?
— Ora, Elle… tens de admitir que a priori isto tem mais a ver comigo do que contigo. Eu teria adorado que um tipo me oferecesse um presente parecido! E posso dizer-te que não teria esperado que ele o escrevesse por mim.
Estendi-lhe o caderno prateado, como se quisesse livrar-me dele.
— Se isto basta para te agradar… ofereço-to.
— Não, deixa-te disso! É teu — replicou ela, subitamente séria.
— Isso é o que tu dizes… Ele podia tê-lo posto na mala de qualquer outra miúda que estava no metro.
— Não — corrigiu-me ela. — Na verdade, pensando bem, acho que não foi um acaso. Ele sentiu que tu precisavas. Tu, mais do que as outras miúdas à volta dele.
«Para te desinibir», devia ter-se coibido de acrescentar. Eu olhei-a com uma expressão de dúvida.
Desde este incidente, e mais ainda desde que David entrara na minha vida, era cada vez difÃcil eu conseguir conter os ataques de curiosidade da minha amiga. Na verdade, o meu companheiro dos últimos três meses não era um cliente. Nunca o tinha sido. As convenções que se aplicavam a estes últimos não tinham razão de ser em relação a ele.
— A propósito, e o David, nunca me disseste…
— Nunca te disse o quê?
— Bom, como é que ele é fornecido? Normal? Tamanho extragrande? Tamanho mini mas que faz o máximo?
— Tem juÃzo! Achas mesmo que eu vou responder a esse tipo de perguntas?!
«Não custa nada tentar», respondeu-me o seu olhar sorridente.
— Vais encontrar-te com ele daqui a pouco?
Ela voltou a considerações mais castas.
— Sim. Enfim, não. Ele deve chegar tarde. Só o vou ver amanhã de manhã. Se o vir…
Além disso, a personalidade e a posição no mÃnimo excepcionais de David faziam convergir nela a costureirinha e a ninfomanÃaca, a sonhadora e a devoradora de homens. O facto de eu ter conseguido caçar tal espécime deixava-a atónita, e, quanto mais não fosse por solidariedade, em nome da nossa amizade e dos nossos anos de confusão sentimental, Sophia considerava que eu estava obrigada a partilhar com ela tudo o que pudesse descobrir de exótico ou excitante sobre ele.
— Não achas bizarro estar com ele depois de um cliente?
— Acabei de te dizer que o mais certo é só voltar a vê-lo amanhã à noite.
— Mesmo assim — insistiu ela. — Não tens medo de que ele perceba alguma coisa?
— E tu, não achas bizarro nunca dormires duas vezes seguidas com o mesmo tipo? — respondi eu ao pé da letra.
Em cheio. Tinha acertado no alvo. O rosto dela ensombrou-se imediatamente.
Sophia desbloqueava o desejo sem esforço, mas esta facilidade, associada ao seu gosto mais do que acentuado por sexo, impedia-a geralmente de se prender a um homem mais do que algumas noites. Quando não enganava o amante do momento com o seguinte, reatava com um velho e terno conhecido, o que de vez em quando dava origem a alguns incidentes pelos quais era a única a pagar o preço. Assim, quando era enganada, ou quando se tinha muito simplesmente cansado de uns ou de outros, passava uma grande parte do seu tempo na companhia dos seus brinquedos sexuais, cuja colecção tinha aumentado muito com o passar dos anos.
— Desculpa…
— Não te preocupes. Tu não estás completamente errada… Vamos apanhar ar?
Nós adorávamos aqueles passeios por Paris depois do anoitecer, pelas ruas desertas, varridas pelos faróis dos táxis, sem outro objectivo a não ser o de vaguear.
Um dos nossos prazeres supremos era contemplar as montras dos antiquários e das lojas de bijuteria que abundavam em volta da Drouot, chegando a haver diversas na mesma rua. Com a certeza de que nenhum destes tesouros — mesmo os mais modestos — estavam ao alcance das nossas magras economias, podÃamos dar livre-curso aos nossos sonhos. Divagar à vontade sobre o «dia em que» a opulência cairia bruscamente em cima de nós, meteorito de felicidade material tombado do céu.
— Fogo! Estás a ver este relógio? — exclamei extasiada, a apontar para um modelo em primeiro plano, quase colado à montra.
— O crono para homem?
Aquela loja, a Antiquités Nativelle, tinha a inteligência de apresentar, ao lado de cada objecto para venda, uma pequena nota explicativa semelhante a um folheto colorido em que se faziam recomendações de leitura em algumas livrarias.
— Sim, repara… É cem por cento mecânico, fabricado em 1969!
— E depois? Andas à procura de um relógio erótico? — ironizou ela gentilmente.
«69, ano erótico», sussurrava Jane Birkin nesse mesmo ano na canção lânguida, e muito, de Serge Gainsbourg.
— 69 é o ano em que o David nasceu. Cinco de Janeiro de 1969.
— Não me digas que estás a pensar oferecer-lhe um presente destes?
— Vontade não me falta. É magnÃfico, não achas?
Sóbrio e elegante, o relógio enchia-me o olho, desde o pequeno estojo de veludo que brilhava na penumbra com toda a magnificência do seu azul-escuro. Reparei em especial no arco subtil do vidro de protecção que certificava, sem qualquer sombra de dúvida, a idade e a autenticidade do exemplar.
— Pouca coisa comparado com o do meu cliente… — Ela fingiu depreciar o objecto. — Mas eu não o desdenharia se mo oferecessem, claro que não.
— Pff… Viste o preço?
— Sim, três mil e duzentos euros. Vais ter de fazer extras, minha querida, se queres mimar o teu nababo!
Sozinha, esta bijuteria de luxo representava mais do que o meu orçamento para sobreviver dois meses inteiros. Sem contar…
— Com os encargos com a minha mãe, nunca conseguiria — suspirei.
O seu seguro de gama baixa estava longe de cobrir todas as despesas com os cuidados de que ela necessitava e, na medida das minhas possibilidades, eu completava a conta e procurava proporcionar-lhe um mÃnimo de conforto, quer em casa quer nos internamentos tão frequentes no hospital. Uma semana de quimioterapia, uma semana para se restabelecer, e, por fim, uma semana para desfrutar de um estado vagamente satisfatório, antes de voltar a ser submetida a sete dias de tratamento intenso. Era este o ritmo infernal que lhe infligiam. Ela tinha feito tanto por mim durante a minha infância, tinha-me dado tanto que, em troca, merecia que eu lhe consagrasse uma parte justa dos meus rendimentos, por muito fracos que estes fossem.
Atrás do relógio que eu cobiçava em silêncio, outro objecto atraiu a minha atenção: um gancho de cabelo em prata «que pertenceu à comediante Menina Mars», especificava o comentário manuscrito. Um esplendor da primeira metade do século XIX, vendido pela bagatela de mil e setecentos euros. Mais uma maravilha que me escaparia.
Sophia puxou-me pelo braço sem aviso prévio, para longe da tentadora montra.
— Vamos, minha linda! O teu prÃncipe encantado não vai desaparecer por tu não lhe ofereceres brinquedos que custam três salários mÃnimos cada vez que se encontram!
— Claro que não…
— Além disso, se é que posso tomar a liberdade, tendo em conta os seus meios, devia ser ele a oferecer-te este género de presentes.
— O problema é esse — comentei. — São os meios dele, não os meus…
Todavia, eu não podia dizer que a minha amiga estava errada. No pequeno jogo das provas sonantes e vacilantes do nosso amor recente, eu era perdedora, desde a linha de partida face a um competidor como David. Quantos ordenados mÃnimos ganharia ele por mês? Estaria no limite das 15 a 20 vezes o salário mÃnimo que certos polÃticos tinham sonhado em tempos impor ao patronato francês? De certa forma, eu preferia não saber. A simplicidade das minhas origens e as condições frugais em que tinha crescido conferiam-me uma forte consciência do que era e do que não era decente em matéria de dinheiro. Ora, comprar um relógio daqueles saÃa largamente daquilo que eu teria admitido em tempos como normal. No entanto, não podia impedir-me de sonhar com ele.
— E depois será que este senhor o merece? — continuou Sophia num tom mais ligeiro. — É verdade, tu estás disposta a partir-te ao meio por ele e nós nem sequer sabemos onde é que ele se situa no palmarés dos teus amantes? Nos cinco melhores? Nos três melhores?
Lá voltava ela aos seus disparates. Ela fingia que era o meu caderno — depressa se acostumaria a chamar-lhe o meu «Dez-vezes-por-dia», como o número de pensamentos eróticos que eu deveria anotar todos os dias — e estava sempre a abrir-se, pronta para conhecer os meus pensamentos mais secretos.
— O David é diferente…
— Diferente de quê? Ele não é insuportável como os outros rapazes? Propõe-te coisas bizarras?
— Eu amo-o.
Eu tinha tentado dizer isto sem balir, sem parecer mais pateta e inconstante do que me sentia interiormente mas, pela careta que a minha tirada fez surgir no rosto de Sophia, percebi que ela não tinha gostado nada do que acabara de ouvir.
— Oh, desculpa, eu tinha esquecido este pormenor… Tu aaaama-lo! Por isso, ele pode fazer amor contigo como um autómato, é indiferente, claro, eu sou uma parva.
— Deixa-te disso… Sabes muito bem que não é isso que quero dizer.
— Ele já te fez sentir um orgasmo ao menos uma vez, o teu milionário?
Bolas. Não me apetecia responder àquilo. Não, a verdade é que, acima de tudo, eu não queria fazer a pergunta a mim mesma. Provavelmente, porque conhecia demasiado bem a resposta.
Limitei-me a encolher os ombros, complementando o movimento com um sorriso que esperei que fosse enigmático. Ela não era parva. Conhecia-me bem de mais.
Para cortar o mal pela raiz, mudei abruptamente de conversa. As placas de vários cabarés ofereceram-me uma oportunidade natural.
— Bom, e tu, a dança… Tens novos espectáculos em vista?
— Népia. «É a crise», dizem-me em todo o lado. Juro-te que tenho a impressão de que não estou a falar com coreógrafos ou produtores, mas com banqueiros!
— E a companhia teatral, em Neuilly?
— Fechou. A penúria é tão grande que até os mais ricos enfiam a viola no saco.
— Tu estás a conseguir safar-te?
— Vou andando, desenrasco-me… — Procurou tranquilizar-me sem convicção.
Eu sabia bem quais eram para ela as consequências desta falta de trabalho.
— És obrigada a aceitar mais, é isso?
— Hum — murmurou ela, deixando o olhar perder-se nos néons multicoloridos.
— Muitos?
— Em média… dois por semana.
Ou seja, além do limite máximo que ela tinha prometido a si mesma que jamais ultrapassaria. Como ia viver com isso? Em que estado sairia desta actividade que a princÃpio era ocasional mas se tinha transformado num trabalho a tempo inteiro?
Eu franzi involuntariamente a testa. Estava preocupada com ela. Sophia não ia deixar a agência tão cedo. Como muitos arranjos arriscados que aceitávamos com o pretexto de que eram temporários, este estava ali para durar. Agora, era a sua vida.
CapÃtulo 3
Paris, Dezembro de 2008, oito meses antes
Não é apenas um efeito da minha discrição natural. Actualmente, não me consigo lembrar bem em que circunstâncias exactas é que Sophia me falou na Belles de Nuit pela primeira vez. Penso que, naquela época, ela ainda não se tinha inscrito. Estava hesitante. Interrogava-se sobre a natureza exacta dos serviços prestados aos clientes pela agência, incomodada com rumores e muitos fantasmas, em parte saÃdos das suas leituras ou dos filmes que tinha visto sobre o tema: Belle de jour, de Luis Buñuel, Les Jours et les nuits de China Blue, de Ken Russell ou, mais recentemente, o muito sombrio Mes chères études, baseado numa história verdadeira.
Como é que ela soubera da existência da agência? Tinham-na aceitado para, por sua vez, ser admitida? E, se sim, quem desempenhara o papel de intermediário?
Mistério.
— Belles de Nuit, acompanhantes… Reconheço que eles não estão muito preocupados com o nome — admitiu ela com o seu sentido crÃtico habitual. — Ao mesmo tempo, não vimos vê-los pela sua criatividade.
TÃnhamos chegado ao pé de um imóvel muito luxuoso, em pleno Marais, numa das ruas que delimitam o sector homossexual da capital. A pequena placa por cima do intercomunicador não especificava a natureza da actividade. A empresa poderia muito bem vender travesseiros ou propor bailarinas ágeis. Belles de Nuit, 5.º andar, frente.
— Acho que é bonito. — Tentei dourar a pÃlula. — Poético.
— Tens a certeza de que queres ir lá?
— Então, não passa de um primeiro encontro. Venho informar-me, nada mais.
— Está bem, está bem… Mas não me vais censurar por te ter obrigado a fazer coisas que tu não querias. Estamos de acordo?
Ergui o olhar para o céu e recorri à voz profunda que tentava fazer durante os treinos de rádio obrigatórios no último semestre do curso de jornalismo. Faltavam quatro ou cinco meses e, com um diploma do CFJ no bolso, eu começaria a abordar as empresas de comunicação social mais prestigiadas do paÃs, pequena Rastignac disposta a tudo para ver a sua assinatura figurar no final de um artigo.
— Tenho 22 anos, está bem? Já sou uma menina crescida.
O elevador era muito estreito e, apesar da nossa pequena estatura, tivemos de nos apertar e suster a respiração.
— Entrem, entrem!
A elegante loura cinquentenária que nos abriu a porta, com um pé pousado no patamar, emanava uma aura de uma extrema sofisticação. De forma alguma, o género de gerente de casa de passe que eu temia.
Ela estendeu uma mão cheia de anéis e de pulseiras largas, como se quisesse esconder as manchas de velhice que apareciam aqui e ali.
— Bom dia. Rebecca Sibony. Sou a directora da Belles de Nuit — apresentou-se com o seu timbre rouco de grande fumadora.
Um rasto de perfume, subtilmente capitoso, atraiu-nos atrás dela até ao grande escritório, mobilado com sobriedade.
— A Annabelle está um pouco… nervosa — disse Sophia sob o meu olhar assassino. — Ela quer que lhe explique o que espera verdadeiramente das raparigas que se comprometem consigo.
Sentada na ponta da minha poltrona, defendi-me com uma falta de jeito infantil.
— Nada disso! Compreendi muito bem!
Com calças de ganga velhas e remendadas por mim, sabrinas coçadas e os cabelos privados de cabeleireiro há algumas luas, eu parecia uma simplória branca sem cheta. A última coisa de que precisava era de ser massacrada por Sophia. Rebecca examinou minuciosamente cada centÃmetro quadrado da minha anatomia e depois entregou-se a um monólogo que devia conhecer de cor.
— Escute, eu não sei o que lhe disseram sobre nós, mas há certamente muitas mentiras. A nossa actividade sofre de inúmeros preconceitos e dá origem a bastante maledicência. Na realidade, o que nós propomos é muito simples e, acima de tudo, não posso deixar de o referir, perfeitamente legal: os nossos clientes são homens ricos, solteiros, que não se podem apresentar decentemente sozinhos em inúmeros compromissos sociais que têm de frequentar ao longo do ano. O seu papel, se passar a trabalhar connosco, será vestir o seu vestido mais bonito, sorrir a noite inteira sem deslocar o maxilar e ser capaz de manter uma conversa se lhe pedirem uma opinião sobre o último filme do Woody Allen. Como vê, não é verdadeiramente uma coisa do outro mundo.
— É o que eu te tinha dito! — afirmou Sophia, levantando eloquentemente a mão.
No entanto, tinha sido ela, a minha amiga, que me tinha descrito um encontro escaldante que a agência tinha organizado para ela algum tempo antes. Uma missão sem o menor álibi social. Um episódio que, aliás, me tinha fornecido alguns argumentos para resistir à sua oferta de cooptação junto de Rebecca Sibony:
«— Um encontro para teres sexo com um desconhecido! Uma loucura!
— Ah, bom? Mas como é que tu…
— Como nos filmes, minha querida. Tive um encontro no Raphaël às três da tarde em ponto, com a instrução de não me atrasar. As portadas e as cortinas do quarto já estavam fechadas. Imagino que ele tinha dado as suas ordens ao pessoal. Em seguida, tinha de me deitar na cama, despida, e apagar a luz.
— E depois?
— Depois, o tipo chegou. Dez minutos mais tarde, acho eu.
— Não percebeste quando ele entrou?
— Não, era uma suÃte com um vestÃbulo. Não se ouve. Mal consegui distinguir a sua silhueta no momento em que ele abriu a porta do quarto.
— Não foi um pouco… sinistro?
— Pelo contrário! — exclamou ela. — Enfim, no inÃcio tive um pouco de frio por estar à espera dele assim, toda nua, sem me mexer, mas ele despiu-se e abraçou-me para me aquecer.
— Fizeram amor imediatamente?
— Não imediatamente. Ficámos vários minutos encostados um ao outro, antes de ele começar a acariciar-me.
— E não te disse nada?
— Absolutamente nada. Tinha apenas mãos super doces. Juro que nunca ninguém me tinha acariciado assim. Fiquei húmida hiper rapidamente.
— Não tentaste ver a cabeça dele? Talvez o tipo fosse o QuasÃmodo!
— Pelo que consegui apalpar do rosto dele, não tive essa impressão. Mas, francamente, pela forma como me tocava podia ser um extraterrestre que eu teria dito que sim.
— A esse ponto?
— Espera, ele deve ter passado pelo menos um quarto de hora a massajar-me o interior do sexo. Com os dedos, com o nariz, com a lÃngua… Eu já não aguentava mais! Estava completamente molhada. Acho que me vim pelo menos duas ou três vezes, assim, antes de ele se vir em mim. E isso foi o aperitivo! Ficámos mais de três horas na cama.
— Duas-três vezes… — repeti eu, pensativa.
— Ainda por cima, cheirava bem, este gajo!
— Bem… como?
— Oh, não sei, uma coisa hiperdoce. E juro que a pila dele tinha um gosto a morango ou framboesa… Podia passar o dia inteiro a comê-la!
— So!
— Que é? Tu não podes imaginar… É como degustar caviar com os olhos vendados. Tudo o que perdes em visão, ganhas nos outros sentidos. Sobretudo no olfacto e no paladar.
— Está bem, está bem, acho que compreendi.»
Rebecca retomou a sua voz rouca, cortando o fio das minhas recordações:
— Claro que a Belles de Nuit tem uma certa reputação. Nós só contratamos e propomos raparigas bonitas, jovens, limpas, que falem um francês impecável e, acima de tudo, cultas. Eu não forneço cabides nem vasos de porcelana, mas, pelo que posso ver e perceber, não preciso de me preocupar consigo.
— E é mesmo tudo? — Ousei pressioná-la.
— Sim. É tudo o que se compromete contratualmente no que nos diz respeito, e tudo o que facturamos aos clientes.
— Bem — aprovei laconicamente.
— Parece decepcionada. O que imaginava?
O seu tom tornou-se mais severo e, de repente, ela tornou-se tão altiva como a Uma Thurman no anúncio de uma bebida gaseificada com um nome equÃvoco. À sua maneira, Rebecca Sibony também devia saber impor respeito no seu mundo.
Depois, um sorriso quase imperceptÃvel, dir-se-ia enigmático, acabou por despontar no seu rosto, e ela acrescentou em voz baixa, acompanhando a conversa com um amplo movimento da mão:
— Depois… se o senhor lhe agradar, a história é outra. É a sua história. É tão adulta como ele. E eu não vou estar lá para a impedir de ceder aos seus apetites, nem ele aos dele.
— É o que eu estou sempre a dizer — completou Sophia num tom sério.
Eu tentei recuperar a imagem da minha amiga, nua naquele quarto de palácio e mergulhada na escuridão, entregue àquele desconhecido com gosto a frutos vermelhos, acariciador emérito de vaginas.
— Eu também só contrato o acompanhamento social na minha empresa para me proteger desse tipo de incidentes!
Ela tinha pontuado esta última palavra com um ligeiro suspiro, como se não acreditasse que isto fosse tão dramático, e depois soltou uma espécie de riso vindo da garganta, muito profundo, a raiar a tosse.
A mensagem foi clara: tÃnhamos a liberdade de fazer sexo com estes cavalheiros no Hotel dos Encantos ou noutro sÃtio qualquer, no fim do serviço que ela lhes tinha vendido, mas ela não queria saber de nada e, ainda menos, cobrar. Essa parte pertencia-nos na totalidade, incluindo tempo, tarifas e lucros. Ao fazermos isto, aceitávamos igualmente os riscos inerentes. Ela alertou-me:
— Eu não posso garantir nada relativamente ao que acontece nesses quartos. A partir do momento em que vocês decidem entrar lá, estamos de acordo que já não estão protegidas.
— E se o cliente se tornar violento?
— Pára de fazer filmes! — interveio a minha companheira. — São deputados, advogados de negócios, directores-gerais… nenhum destes tipos correrá o risco de te agredir, mesmo por jogo.
Ela tinha dito «por jogo»?
— Pouco importa — interrompeu Rebecca. — Repito: a partir do momento em que atravessar a porta de um quarto com o seu cliente, está sozinha. Aconteça o que acontecer lá dentro, eu jamais correria em seu auxÃlio. Estamos entendidas? Jamais.
— Sim — anuÃ.
— E se cometer o erro de me ligar para pedir ajuda ou se mencionar a agência junto de uma terceira pessoa, por exemplo a polÃcia, saiba que eu negarei terminantemente que a conheço. Será imediatamente riscada do meu ficheiro.
A máscara dura que tinha assumido desapareceu no mesmo instante.
— Bom! Então, parabéns!, e seja bem-vinda à Belles de Nuit!
O quarto de hora seguinte foi ocupado pelas diversas papeladas que marcavam a minha integração oficial e imediata na agência, bem como pelas recomendações elementares que Sophia já me tinha explicado: nunca falar das missões fosse a quem fosse, mesmo a uma pessoa Ãntima, mesmo a um familiar ou a outra acompanhante da agência; nunca revelar uma informação ou uma confidência feita por um cliente no âmbito das missões; nunca referir a identidade dos clientes; nunca tentar rever um cliente fora das ordens dadas pela agência.
— A Sophia disse-me que é jornalista? — inquiriu por fim a grande loura, com uma inflexão ligeiramente desconfiada.
— Sim… enfim, ainda não. Estou a terminar o curso.
— Perfeito. Então, nunca encontrarei uma única linha sobre o nosso encontro ou as suas missões na imprensa… Não é verdade?
A sua hipótese soou a ameaça.
— Não. Preciso de dinheiro. Não preciso de problemas.
— Perfeito! — concluiu ela, erguendo as duas mãos para o céu. — Depois de amanhã, ao final da manhã, estará disponÃvel?
Fiquei confusa durante alguns segundos. Seria possÃvel que ela já me tinha arranjado um cliente? Baseada no que Sophia podia ter-lhe dito sobre mim — quase podia ouvir a minha amiga a falar-lhe sobre o que chamava a minha «sensualidade aristocrática», o meu «encanto de boas famÃlias» —, ter-se-ia ela sentido autorizada a vender previamente os meus serviços a um dos seus clientes habituais?
Como eu já franzia o sobrolho, contrariada com o rumo precipitado que estava a tomar a minha estreia na Belles de Nuit, ela acalmou-se de imediato, levantou-se e esboçou um gesto quase maternal, pousando a mão comprida cheia de jóias no meu ombro e tocando na lã reles da minha camisola:
— Vamos tratar de tudo. Eu vou ajudá-la. Vamos fazer compras, as duas. A-do-ro isso!
— Compras? — gaguejei eu.
Na sua cadeira, Sophia sapateou de alegria como uma colegial.
— Sim, vai ver, duas ou três comprinhas de nada e ficará magnÃfica!
MagnÃfica.
Este qualificativo pareceu-me uma vestimenta três tamanhos abaixo da minha. No entanto, ia ter de me acostumar a ela. E depressa.
CapÃtulo 4
Sair de Paris para o subúrbio era sempre um sofrimento intenso, deveria mesmo dizer uma desclassificação. O poder de atracção da capital exercia toda a sua influência sobre a miúda de Nanterre que eu ainda era. Assim, o comboio regional em direcção a oeste, a apanhar na estação de Les Halles, na Opéra ou na Étoile, parecia-me a carroça do condenado. Era com esse espÃrito que eu voltava para casa todos os dias.
O suplÃcio ia estender-se até que eu tivesse em condições para arrendar um apartamento independente, e quanto a isso eu tinha uma ideia muito concreta: mais valia um quarto ranhoso no centro de Paris do que um apartamento muito confortável com dois ou três quartos na periferia. Eu queria estar no centro da grande cidade, no centro da actualidade. No centro do mundo.
Nessa noite, com o contrato da agência no bolso, entrei na composição azul, branca e vermelha do comboio, cuja decoração interior tinha sido recentemente grafitada, incluindo bancos e assentos dobráveis. Quando me sentei, senti vários olhares pousados sobre mim. Masculinos, bem entendido. Por mais que eu estivesse acostumada a isso, o constrangimento que sentia não diminuÃa com os anos. «Não percebo de que é que te queixas!», espantava-se por vezes Sophia. «Espera até teres 50 anos e as mamas a bater nos joelhos. Veremos se não ficas contente se olharem para ti no metro.»
Entretanto, agora cada olhadela insistente crucificava-me. Não sabia o que fazer com o interesse dos homens. Fazia malabarismos com o seu desejo latente como um pinguim com uma sardinha congelada. Ninguém me tinha ensinado as regras daquele jogo. Assim, eu não tinha outra escolha a não ser manter-me prudentemente fora do terreno e sumir na primeira escapatória disponÃvel. Ignorá-los e contemplar a paisagem — o comboio só seguia à superfÃcie a partir da Universidade de Nanterre, a estação antes da minha — não bastava para os dissuadir, nem para dissolver o meu embaraço.
Os meus olhos pousaram então por acaso na primeira página da edição matinal do Monde que o meu vizinho de assento, um trintão de fato e pasta de couro castanho, tinha na mão. Vários tÃtulos em letras garrafais ocupavam a primeira página, mas um em especial atraiu a minha atenção.
— David… David Barlet — murmurei, esticando a mão para o jornal.
O homem à minha esquerda aproveitou a ocasião.
— Eh, não… Eu sou o Bertrand Passadier. E você?
Estendeu-me uma mão mole que eu não apertei, fechando já os dedos sobre o exemplar do seu jornal diário. Sem responder à pergunta, exactamente como se ele tivesse desaparecido da carruagem, comecei a ler as primeiras linhas do artigo consagrado ao patrão do grupo audiovisual privado que tinha o seu nome, o grupo Barlet, proprietário do canal de informação que continua a ser o mais visto em França, a BTV.
Mexendo-se no assento, o meu sedutor tentava desesperadamente um meio de chamar de novo a minha atenção.
— Interessa-se pela televisão?
— Hum… — resmunguei sem erguer o olhar.
— Se estiver interessada, posso aconselhar-lhe três boas colocações na área, sabe? O grupo Barlet não é mau, é um grupo sólido, mas a curto prazo há bem melhor.
Eu não escutei uma única palavra do que ele estava a dizer. Depois de ter percorrido rapidamente o jornal, que pormenorizava a estratégia da BTV para atrair público, não fiz mais nada a não ser contemplar a fotografia de David Barlet. Já o tinha visto na televisão ou nas páginas dos suplementos económicos dos jornais, mas reparei, pela primeira vez, na semelhança perturbadora com o falecido actor Gérard Philipe. Era surpreendente. Tive a sensação de ouvir a sua voz tão bela, tão doce, tão familiar, que me narrava O Pequeno PrÃncipe ou Pedro e o Lobo no velho electrofone da minha mãe, quando eu era criança.
Mas, enquanto o eterno galã do teatro e do cinema francês exprimia alguma fragilidade, tudo em David Barlet traduzia, pelo contrário, a força, a determinação, a vontade indomável de se bater com alguém e a certeza absoluta de que alcançaria os seus fins. Isso devia-se provavelmente ao rosto ligeiramente mais quadrado e ao corpo que não ficaria deslocado numa equipa de râguebi. E também ao olhar que parecia saltar da página e encostar uma pessoa à parede.
— … pouco mais de três ou quatro por cento por ano, bem se pode dizer absolutamente nada… — continuava o meu assediador a falar para o boneco.
BTV. Eis onde eu devia entregar o mais depressa possÃvel o meu currÃculo. O gesto sedutor de Barlet na fotografia da Une estendia-se para mim como um convite, pensei, sonhadoramente.
O guincho exasperante dos travões trouxe-me brutalmente para a realidade e para o painel azul e branco que anunciava no cais, posicionado ao nÃvel da janela: Cidade de Nanterre.
A minha estação.
Saltei sem pensar do meu assento, magoando os joelhos de Bertrand Passadier ao passar, e aterrei finalmente no cais no momento em que as portas se fecharam com um clique seco. No interior, o meu apaixonado do dia decompunha-se, boquiaberto, com a testa colada ao vidro cheio de humidade. Brandindo o jornal que tinha trazido como refém na minha fuga, gratifiquei-o com um sorriso ténue, no fundo não descontente com a minha captura. Na fotografia em três colunas, o olhar intenso de David Barlet felicitou-me por esta atitude conquistadora.
A casa de Maude, a minha mãe, fica a cerca de trezentos ou quatrocentos metros da estação. É uma casa geminada, de tijolos, sem jardim — se não contarmos os poucos metros quadrados de terraço voltado para a rua —, indiscutivelmente mais alta do que larga, com os seus três pisos exÃguos. Desde que me lembro, vivi sempre ali, com ela, as duas e mais ninguém para vir alterar a nossa doce rotina.
Desde o inÃcio da sua doença, eu procurava estar mais presente, dar-lhe todo o apoio, que os meus cursos e os meus trabalhos em restaurantes permitiam, em todas as pequenas coisas do quotidiano que agora eram penosas para ela: limpeza da casa, compras, cozinha, higiene pessoal…
— Como estás, Elle? Estavas nas aulas?
É certo que ela tinha conservado o cabelo, mas a cor era agora grisalha. Uma tez pálida revelava as suas rugas e entorpecia as suas expressões. Continuava a ser ela, e, no entanto, por vezes eu tinha dificuldade em reconhecer a mãe, aos meus olhos tão bela, que tinha feito da minha infância sem pai um casulo caloroso.
Nalguns dias, ela não tirava o seu velho roupão adamascado, pormenor anódino ...
