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HISTóRIAS DE ADORMECER PARA RAPARIGAS REBELDES

Elena Favilli   Francesca Cavallo  

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Excerto

PREFÁCIO

Este livro será sempre especial para nós por muitas razões. Algumas bastante evidentes: o apoio financeiro que recebemos e que quebrou todos os recordes deste tipo de iniciativa (mais de um milhão de dólares! Histórias de adormecer para raparigas rebeldes é o livro que mais apoio obteve em toda a história do crowdfunding), o número estonteante de apoiantes em mais de setenta países e o privilégio de trabalhar com dezenas de ilustradoras incrivelmente talentosas de todo o planeta.

Mas há outras razões, talvez menos óbvias: as mensagens de homens e mulheres prestes a serem pais que nos disseram que foi este o primeiro livro que compraram para as filhas. Uma amiga de uma amiga que nos confessou que esta campanha lhe deu confiança para começar a trabalhar num projeto que lhe era muito caro e que deixara de lado durante demasiado tempo, por medo de falhar. O email de uma mãe felicíssima por ter um livro que a ajudaria a partilhar a sua visão do mundo com os filhos rapazes, como mãe e como mulher. Acima de tudo, pela profunda confiança de quem nos apoiou.

Seja o primeiro a receber histórias como esta

Não é todos os dias que as mulheres recebem tanto incentivo. E isso só nos faz dar-lhes mais valor. Como poderia ser de outra maneira? A maior parte das mulheres extraordinárias de que este livro fala nunca sentiram esse estímulo. Por muito importantes que tenham sido as suas descobertas, por muito audazes que tenham sido as suas aventuras, por muito geniais que elas próprias tenham sido — foram constantemente menosprezadas, esquecidas e, nalguns casos, quase apagadas da História.

É importante que as raparigas percebam os obstáculos que têm pela frente. E é ainda mais importante que saibam que esses obstáculos não são inultrapassáveis. Que não só podem encontrar maneira de os superar como podem mesmo removê-los do caminho para quem vier depois, como fizeram todas estas grandes mulheres.

Cada uma das cem histórias deste livro é prova do poder revolucionário de um coração cheio de confiança.

Que estas pioneiras corajosas vos inspirem. Que os seus retratos transmitam às vossas filhas a crença inabalável de que a beleza se manifesta sob as mais variadas formas e cores, e em todas as idades. Que cada pessoa que ler este livro saiba que a grande vitória é viver uma vida plena de paixão, curiosidade e generosidade. E que todos nos lembremos, todos os dias, que temos o direito de ser felizes e de explorar sem limites.

Agora, que têm este livro na mão, só nos podemos sentir esperançosas e entusiasmadas pelo mundo que estamos a construir em conjunto. Um mundo em que o género não define o tamanho dos nossos sonhos nem até onde vamos. Um mundo em que cada um de nós possa dizer, com confiança: «Sou livre.»

Gratas por fazerem parte desta viagem.

Elena Favilli

Francesca Cavallo

ADA LOVELACE

MATEMÁTICA

Era uma vez uma menina chamada Ada que adorava máquinas. Também adorava a ideia de voar.

Ada estudava os movimentos dos pássaros para tentar perceber qual seria o equilíbrio perfeito entre o tamanho das asas e o peso do corpo. Testou materiais e experimentou os mais variados desenhos. Nunca conseguiu voar como um pássaro, mas criou um lindíssimo livro ilustrado chamado A Ciência do Voo, onde registou todas as suas observações.

Certa noite, Ada foi a um baile. Nesse baile conheceu um matemático velho e rezingão chamado Charles Babbage. Ada também era matemática, e muito inteligente, e os dois tornaram-se grandes amigos. Charles convidou Ada para ver um aparelho que tinha inventado, a que chamara Máquina Diferencial; somava e subtraía números automaticamente, coisa que nunca tinha sido feita.

Ada ficou maravilhada.

«E se construíssemos uma máquina capaz de fazer cálculos mais complicados?», disse ela. Charles e Ada deitaram mãos à obra, cheios de entusiasmo. A máquina era gigantesca e precisava de um enorme motor a vapor para funcionar.

Ada queria ir mais longe: «E se esta máquina conseguisse reproduzir música e apresentar letras, para além de números?»

Estava a descrever um computador, muito antes da invenção dos computadores modernos!

Ada escreveu o primeiro programa informático da História.

10 DE DEZEMBRO DE 1815 – 27 DE NOVEMBRO DE 1852

REINO UNIDO

ALEK WEK

SUPERMODELO

Era uma vez uma menina chamada Alek que, ao voltar para casa da escola, costumava parar numa mangueira para colher o lanche.

Na aldeia onde vivia não havia água corrente nem eletricidade. Tinha de ir ao poço buscar água potável, mas ela e a família tinham uma vida simples e feliz.

Até que rebentou uma guerra terrível e a vida dela nunca mais foi igual. Quando as sirenes soaram na sua aldeia, Alek e a sua família tiveram de fugir dos confrontos armados.

Era a época das chuvas. O rio transbordara, as pontes estavam submersas, e Alek não sabia nadar. Tinha imenso medo de se afogar, mas com a ajuda da mãe conseguiu chegar à outra margem. Pelo caminho, a mãe foi trocando pacotes de sal por comida e por passaportes, porque não tinham dinheiro nenhum. Conseguiram fugir à guerra e encaminharam-se para Londres.

Um dia, Alek estava num parque quando um recrutador de uma famosa agência de modelos foi ter com ela. Queria que Alek começasse a trabalhar como modelo. A mãe opôs-se tenazmente à ideia. Mas o agente insistiu, e ela acabou por concordar.

Alek era tão diferente de todas as outras modelos que causou sensação desde logo.

Alek quer que todas as raparigas do planeta saibam o seguinte: «Somos todas lindas. Não há problema em ser exótica e não há mal nenhum em ser tímida. Não temos de ser todas iguais.»

16 DE ABRIL DE 1977

SUDÃO

ALFONSINA STRADA

CICLISTA

Era uma vez uma miúda que conseguia andar tão rápido de bicicleta que, quando passava, as pessoas mal conseguiam vê-la. «Não andes tão depressa, Alfonsina!», gritavam-lhe os pais. Mas nunca iam a tempo — num abrir e fechar de olhos, já ela tinha disparado para longe.

Quando se casou, a família de Alfonsina teve esperança de que ela desistisse daquela ideia maluca de se tornar ciclista. Mas a verdade é que foi ao contrário. No dia do casamento, o marido ofereceu-lhe uma bicicleta de corrida novinha em folha. Foram os dois viver para Milão e Alfonsina começou a treinar como profissional.

Era tão rápida e tão forte que, poucos anos depois, participou no Giro d’Italia, uma das corridas mais duras do mundo. Foi a primeira mulher a concorrer. «Ela não vai conseguir», dizia-se. Mas ninguém conseguia parar Alfonsina.

A prova foi longa e extenuante, vinte e uma etapas de um dia a percorrer algumas das estradas de montanha mais íngremes da Europa. Dos noventa ciclistas que começaram a corrida, só trinta chegaram à meta: entre esses trinta, estava Alfonsina. Foi recebida como uma heroína.

No ano seguinte foi impedida de concorrer. «O Giro d’Italia é uma prova masculina», declararam os oficiais. Mas isso também não a travou.

Concorreu na mesma e estabeleceu um recorde de velocidade que só foi quebrado vinte e seis anos mais tarde, embora ela o tenha alcançado com uma bicicleta que pesava vinte quilos, e sem mudanças!

Alfonsina ficaria certamente muito feliz por saber que, entretanto, as coisas mudaram bastante. Nos dias que correm, o ciclismo feminino é um desporto de grande sucesso. Até é uma modalidade olímpica.

16 DE MARÇO DE 1891 — 13 DE SETEMBRO DE 1959

ITÁLIA

ALICIA ALONSO

BAILARINA

Era uma vez uma menina cega que se tornou uma grande bailarina. Chamava-se Alicia.

Durante a infância, Alicia conseguia ver. Era já uma bailarina maravilhosa, com uma carreira promissora pela frente, quando adoeceu. E a sua visão deteriorava-se de dia para dia. Teve de ficar de cama durante meses a fio, sem se mexer, mas não sabia viver sem dançar — foi dançando da única forma que conseguia: «Dançava na minha cabeça. Cega, sem me mexer, de barriga para cima, aprendi sozinha a dançar o Giselle.»

Um dia, a prima ballerina do Ballet de Nova Iorque lesionou-se e chamaram Alicia para ocupar o lugar dela. Já estava parcialmente cega, mas como podia dizer que não? O bailado era Giselle!

Assim que começou a dançar, a plateia apaixonou-se por ela.

Alicia dançou com graciosidade e confiança, embora mal conseguisse ver. Ensaiou com os companheiros para estarem exatamente onde precisava que estivessem, na altura exata.

O estilo dela era tão singular que foi convidada a dançar com a companhia por todo o mundo. Mas o seu sonho era trazer o ballet clássico para Cuba, o país onde nasceu.

Regressada das suas viagens, começou a ensinar ballet clássico a dançarinos cubanos. Fundou a Companhia de Ballet Alicia Alonzo, que veio a dar origem ao Ballet Nacional De Cuba.

21 DE DEZEMBRO DE 1921

CUBA

AMEENAH GURIB-FAKIM

PRESIDENTE E CIENTISTA

Nas Maurícias, em pleno oceano Índico, vivia uma menina que queria saber tudo sobre as plantas. Chamava-se Ameenah.

Ameenah estudava a biodiversidade.

Analisou centenas de flores e ervas aromáticas e medicinais. Estudou as propriedades de todas estas plantas e visitou aldeias rurais para aprender com os curandeiros tradicionais como as usavam nos seus rituais.

Para ela, as plantas eram como amigos.

A sua favorita era a árvore-do-pão, por ser tão útil: guarda reservas de água no tronco, as folhas ajudam a curar infeções e os seus frutos, chamados fruta-pão, têm mais proteínas do que o leite humano.

Ameenah acreditava que as plantas tinham muito para ensinar. Como o benjoeiro, por exemplo: «As folhas do benjoeiro têm diferentes tamanhos e formas. Os animais não comem plantas que não saibam reconhecer. Por isso tendem a deixar estas plantas em paz. Bem pensado, não?»

Ameenah via as plantas como laboratórios biológicos vivos, cheios de informação essencial para os seres humanos e para todas as outras espécies. «Sempre que uma floresta é destruída, perdemos todo um laboratório. Um laboratório que nunca mais conseguiremos recriar.»

Ameenah Furib foi eleita presidente da República das Maurícias e todos os dias luta pelos habitantes do seu país: pessoas, animais... e plantas, claro.

17 DE OUTUBRO DE 1959

ILHAS MAURÍCIAS

AMELIA EARHART

AVIADORA

Certo dia, uma rapariga chamada Amelia conseguiu, finalmente, poupar o dinheiro suficiente para comprar um avião amarelo.

Chamou-lhe O Canário.

Poucos anos depois, tornou-se a primeira mulher a sobrevoar o oceano Atlântico sozinha. Foi uma viagem perigosa. O seu aviãozinho minúsculo foi sacudido por ventos fortes e por tempestades geladas. Amelia aguentou-se com uma lata de sumo de tomate, que ia bebendo por uma palhinha. Quase quinze horas depois, aterrou num campo na Irlanda do Norte, para grande surpresa das vacas. «Veio de muito longe?», perguntou-lhe um agricultor. «Vim do lado de lá do oceano, da América!», respondeu ela, a rir.

Adorava voar e adorava fazer coisas que nunca ninguém tinha feito.

O maior desafio a que se propôs foi ser a primeira mulher a dar a volta ao mundo de avião.

Só podia levar uma mala muito pequena, já que todo o espaço do avião tinha de ser usado para o combustível. O longo voo até começou bem. Tinha planeado aterrar na pequena ilha de Howland, mas nunca lá chegou. Na última transmissão, Amelia comunicou que estava a atravessar nuvens e a ficar com pouco combustível. O avião desapareceu algures acima do oceano Pacífico e nunca chegou a ser encontrado.

Antes de partir em viagem, escreveu: «Tenho perfeita consciência do risco que estou a correr. Quero fazer isto, porque é isto que quero fazer. As mulheres têm de tentar fazer as mesmas coisas que os homens. E, se falharem, o seu fracasso tem de ser encarado como um desafio para quem vier depois.»

24 DE JULHO DE 1897 – C. JULHO DE 1937

ESTADOS UNIDOS DA AMÉRICA

AMNA AL HADDAD

HALTEROFILISTA

Era uma vez uma jornalista chamada Amna que andava infeliz. Tinha peso a mais e não estava em forma. Certo dia, disse para consigo: «Podias estar muito melhor. Faz qualquer coisa. Vai andar a pé.»

E assim fez.

Aqueles passeios a pé souberam-lhe tão bem que quis fazer mais. Começou a correr grandes distâncias. A fazer sprints. Depois, decidiu fazer exercício no ginásio. Quando descobriu o halterofilismo, percebeu que tinha encontrado a sua verdadeira paixão.

A vida da Amna mudou quando a Federação Internacional de Halterofilismo permitiu que as mulheres muçulmanas competissem com um fato justo, de uma só peça, a cobrir toda a pele. Começou a participar em torneios na Europa e na América e tornou-se um símbolo para muitas meninas muçulmanas em todo o mundo.

«Gosto de ser forte», afirma. «Lá porque somos raparigas, não significa que não possamos ser tão fortes como os rapazes, ou mais fortes ainda!»

Gostava tanto de praticar halterofilismo que resolveu treinar para participar nos Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro.

Amna acredita que é importante encontrar uma modalidade de que se goste e praticá-la. «Qualquer que seja a nossa idade, religião ou etnia, o desporto faz bem a toda a gente», declara. «Gera paz e une as diferentes nações.»

«Por muitos desafios que surjam, nunca des ...