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HIPNOSE

Paulo Moura  

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Excerto

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No dia em que terminou o doutoramento em Relações Internacionais, Gloria decidiu pôr o mundo em ordem.

A sua fama de aluna genial em Georgetown espalhara-se pelos círculos políticos de Washington e não lhe faltaram convites para trabalhar em prestigiados think tanks da capital, e até no staff de alguns candidatos bem posicionados.

Recusara todos, incluindo o do CEEC, Centro de Estudos Estratégicos Complexos, o mais influente gabinete de investigação política de tendência republicana. De momento, pretendia entregar-se a um projecto de diplomacia pessoal.

Após anos de estudo, enfiada em arquivos e bibliotecas, desenvolvera uma teoria sobre a paz no Médio Oriente. Considerava que o Iraque era a chave do problema.

Saddam Hussein, a braços com o embargo económico e a rebelião curda, depois de ter sido, há um ano, expulso do Kuwait pelas forças americanas, via-se aflito para se manter no poder.

Mas era um líder competente, laico, sem ligações aos fundamentalistas islâmicos e que havia abandonado o programa nuclear.

Nada o impedia, portanto, de abrir e democratizar o regime e estabelecer com os Estados Unidos uma aliança económica e militar que tornasse o Iraque a maior potência regional, sob o controlo americano.

Isso significaria a paz no Médio Oriente, neutralizando as ambições sauditas e iranianas e garantindo o livre fluxo do petróleo para o Ocidente.

Era uma espécie de ovo de Colombo da política mundial, e, já que ninguém parecia tê-lo percebido, ela, Gloria Frankowitz, ia passar à acção, por conta própria.

Não disse isto a ninguém, excepto a um antigo colega do Secundário com quem, por acaso, se encontrou numa esplanada da frente ribeirinha (junto ao hotel Watergate) e cuja actividade em nada se relacionava com a política.

«Acho que foste apanhada pela síndrome de Washington», comentou o amigo, com uma gargalhada. «É uma espécie de síndrome de Jerusalém ao contrário. Uma pessoa convence-se de que é Deus e pode, com um gesto, mudar o mundo. Foi isso que te deu. E deu-te com força.»

Dito por uma pessoa que não percebe nada de geopolítica, pensou Gloria. Portanto, teria o seu mérito sentimental, mas, de valor prático, nada.

Não havia tempo a perder, pelo que pôs o plano em marcha logo na festa de fim de curso da Universidade.

É costume, na cerimónia de entrega de diplomas de doutoramento em Relações Internacionais, ter como convidados membros do Corpo Diplomático acreditado na capital. Para não correr riscos, Gloria confirmou, junto dos organizadores, a presença de um representante do Iraque.

E foi conversar com ele, logo após os actos solenes da sessão. Não era o embaixador, mas o segundo secretário da Embaixada, Haider Hussein, um tipo corpulento, semelhante ao seu presidente no que respeitava ao apelido e ao bigode, mas não ao carisma.

Gloria expôs-lhe o plano e pediu uma audiência privada com Saddam Hussein. Ele ouviu atentamente, os olhos a coruscar do Chardonnai da Virgínia prodigamente servido no beberete, e não disse nem que sim nem que não.

Falou de outras coisas, perguntou se ela era casada, onde morava e se gostava de sair.

Ficou com o contacto e, dias depois, telefonou-lhe, às 11 da noite. Disse que tinha informações urgentes e combinaram um encontro para daí a uma hora, num wine bar manhoso de Georgetown.

— Consegui uma reunião com o ministro dos Negócios Estrangeiros, o Sr. Tareq Aziz. E, em princípio, repito, em princípio, a carecer ainda de confirmação superior, um encontro com o senhor presidente, Saddam Hussein. Expliquei que é uma circunstância muito séria, muito especial.

— Fico-lhe tão, tão, tão agradecida — rejubilou Gloria. — Garanto-lhe que isto vai produzir frutos sublimes, para si também.

— Sim, espero que produza frutos sublimes para todos nós — retorquiu, dengoso, o segundo secretário. Pediu mais dois copos de bourbon para celebrar e prosseguiu com as instruções específicas da viagem enquanto se chegava abusivamente a Gloria e lhe pousava a mão na coxa.

— Está tudo tratado, amanhã de manhã envio a confirmação para Bagdade. Ficará alojada no palácio presidencial durante uma semana. A reunião com o senhor ministro será logo no segundo dia. Com o senhor presidente ocorrerá no final, mas terá os pormenores quando estiver no Iraque.

— Muito obrigada — repetia Gloria, resignada a capitalizar a motivação carnal do segundo secretário. Se ele fazia isto porque lhe queria saltar em cima, então que se esforçasse. Obteria o seu prémio só no fim, se tivesse sorte. Até lá, indulgência, com limites.

— Tem de compreender, Miss Gloria, a vida no palácio presidencial é muito intensa. Terá de estar preparada para jantares e festas grandiosas todas as noites. Por isso lhe peço que compre sete bonitos vestidos de gala, para usar em cada um dos jantares. E também sete pares de sapatos de salto alto. Seria considerado grosseiro repetir o traje. Se levar alguns presentes, isso será apreciado. No Iraque, estes pequenos gestos contam. É uma cultura muito antiga.

3

O African Dream não tinha nenhum cliente africano, como é normal. O homem provou a sopa e não gostou. Chamou o empregado.

Amanda contava a Sibel o caso de uma amiga que esteve sete meses grávida sem saber.

— Ela não fazia ideia. Até aceitou um emprego no estrangeiro.

— Estás a gozar. Isso é impossível.

O empregado de mesa do restaurante africano falou com o empregado do balcão, voltou com outra sopa, e o homem, desta vez, zangou-se mesmo. Amanda e Sibel interromperam a conversa para observar o que se passava na outra mesa. Era um casal branco, na casa dos trinta, e mostrava-se idilicamente de acordo quanto à sopa de peixe: não prestava. O empregado voltou à mesa do casal com uma travessa de batatas fritas e ketchup.

— De repente, começou a sentir-se mal e foi ao médico. Fez análises e… estava grávida de sete meses. Mas não tinha barriga, o período vinha-lhe todos os meses. A partir daí, não veio mais, a barriga cresceu rapidamente. Aos nove meses, nasceu uma menina, linda e saudável.

— Tens a certeza de que isso é verdade?

— Então? Eu conheço esta miúda. Encontrei-me com ela várias vezes nessa altura. Garanto-te: não tinha barriga. Foi uma coisa psicológica, como a mente dela não estava preparada para a situação, ocultou os sintomas.

— Quer dizer, o corpo fazia uma coisa, mas contava outra à cabeça.

— Exactamente, o corpo mentia. Andou a trabalhar naquela gravidez clandestinamente. Acho que há uma explicação científica: os músculos contraíam a barriga, que crescia para dentro.

— E o sangue menstrual?

— Eram só umas gotinhas, que o organismo expelia para manter as aparências.

— Estás a gozar comigo, Amanda.

Sibel chamou o empregado para escolher a sobremesa.

— Não estava fácil, a vida daquele lado — comentou, apontando disfarçadamente para a mesa do incidente da sopa.

— Devia ter-me formado em Psicologia — brincou o empregado, um jovem alto e ossudo, de olhar distante.

Sibel riu. Reparou com deleite na etiqueta com o nome, que ele usava na lapela da farda.

— O cliente não gostou da sopa?

— Diz que cheira a peixe podre.

— E cheira?

— Não sei. A cozinheira diz que está óptima. Mas ela é nova aqui, chegou esta semana do Senegal. Ainda não aprendeu a fazer sopa africana à maneira americana.

— Ah, pensei que a sopa africana era feita à maneira africana — observou Amanda.

— Isso é a sopa que se come em África. Mas a forma de cozer o peixe e as especiarias usadas dão-lhe um sabor e um cheiro a que não estamos habituados.

— Se a sopa de peixe africana for uma sopa de peixe mesmo africana, os clientes acham que cheira a peixe podre — concluiu Sibel.

— Receio que sim. Acho que, se lhes trouxermos uma sopa de ostras francesa e pusermos ali a tocar um disco de tambores do Quénia, pensarão estar a comer uma deliciosa sopa de peixe africana.

Amanda riu. Sibel não, mas achou graça.

— O cheiro a peixe podre pode estar na cabeça deles.

— Olha, eu nasci num bairro pobre da cidade do México — contou o empregado. — Vivíamos por baixo de uma nuvem onde, por efeito de vários fenómenos atmosféricos, se concentra toda a poluição da área. Chamamos-lhe la contaminación. É uma nuvem esverdeada e muito malcheirosa, que o vento arrasta de um lado para o outro da cidade. De manhã pode pairar sobre o centro, depois voa para uma zona residencial chique, a seguir faz um percurso que depende dos ciclos das altas e baixas pressões, mas acaba sempre por cima do meu bairro. E lá fica, toda a tarde e toda a noite.

— Estranho. Porquê exactamente sobre o bairro mais pobre? — perguntou Sibel.

— O bairro é pobre devido à contaminación. Ninguém quer viver ali, por causa do cheiro, portanto, os preços são baixos e atraíram os pobres. Mas eu pensava sempre que era a própria contaminación que escolhia ir para Chalco, por achar que os indigentes seriam mais tolerantes ao seu pivete e mau aspecto. Num bairro onde não havia electricidade nem esgotos ou ruas asfaltadas, quem iria preocupar-se com uma nuvem fedorenta?

— Ninguém, excepto tu, claro — adivinhou Sibel.

— Ainda hoje, sempre que me sinto em baixo, ou quando alguém tenta rebaixar-me, pôr-me «no meu lugar», vem-me ao nariz aquele fedor de gasolina com mijo.

Os clientes da sopa voltaram a chamar. Pagaram e saíram, deixando as duas raparigas s

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