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GAMBITO DE DAMA

Walter Tevis  

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Excerto

UM

Beth soube da morte da mãe por uma mulher com uma prancheta. No dia seguinte, a sua fotografia apareceu no Herald-Leader. A imagem, captada no alpendre da casa cinzenta em Maplewood Drive, mostrava Beth num vestido simples de algodão. Já nessa altura era claramente vulgar. A legenda da fotografia dizia: «Tornada órfã pelo choque em cadeia ocorrido ontem na New Circle Road, Elizabeth Harmon tem pela frente um futuro difícil. Elizabeth, de oito anos, ficou sem família devido ao acidente, no qual morreram duas pessoas e várias outras ficaram feridas. Elizabeth estava sozinha em casa quando tudo aconteceu, tendo sabido do sucedido pouco antes de a fotografia ser tirada. Segundo as autoridades, receberá o apoio necessário.»

*

Na Instituição Methuen, em Mount Sterling, no Kentucky, era-lhe dado um calmante duas vezes ao dia. O mesmo acontecia a todas as outras crianças, de modo a «estabilizar a sua disposição». A disposição de Beth era boa, tanto quanto se conseguia perceber, mas ela não se importava nada de receber o pequeno comprimido verde. Aliviava-lhe qualquer coisa dentro do estômago e ajudava-a a alhear-se das horas tensas passadas no orfanato.

Os comprimidos eram-lhes dados dentro de um pequeno copo de papel pelo senhor Fergussen. Além do verde, que estabilizava a disposição, havia também comprimidos cor de laranja e castanhos, para a formação de um corpo forte. As crianças tinham de formar uma fila para os receberem.

A rapariga mais alta era a negra, Jolene. Tinha 12 anos. Beth ficou atrás dela na Fila das Vitaminas, ao segundo dia, e Jolene voltou-se, olhando-a de cima com um ar desconfiado.

— És uma órfã a sério ou uma bastarda?

Beth não soube o que dizer. Sentia-se assustada. Estavam no final da fila, e ela tinha de ficar à espera até poder dirigir-se ao postigo onde se encontrava o senhor Fergussen. Beth já tinha ouvido a mãe chamar «bastardo» ao pai, mas não sabia o que isso queria dizer.

— Como é que te chamas, rapariga? — perguntou Jolene.

— Beth.

— A tua mãe está morta? E o teu pai?

Beth ficou a olhar para ela. As palavras «mãe» e «morta» eram-lhe insuportáveis. Queria fugir, mas não havia para onde.

— Os teus familiares — perguntou Jolene num tom que não era antipático — estão mortos?

Beth não conseguiu encontrar o que dizer ou fazer. Ficou quieta, apavorada, à espera dos comprimidos.

*

— Vocês não passam de um bando de chupa-pilas!

Foi Ralph quem gritou aquilo, na Ala dos Rapazes. Ela ouviu porque estava na biblioteca, onde havia uma janela virada para essa ala. Não tinha uma imagem mental para «chupa-pilas», e a palavra era estranha. Mas, a julgar pelo som, de certeza que era o suficiente para lhe lavarem a língua com sabão. Tinham-lhe feito isso por causa de um «caraças» — e a sua mãe dizia «caraças» constantemente.

*

O barbeiro fê-la ficar absolutamente imóvel na cadeira.

— Se te mexeres, podes ficar sem uma orelha.

Não havia nada de jovial na sua voz. Beth permaneceu o mais quieta que conseguiu, mas era impossível ficar completamente imóvel. Cortar-lhe o cabelo e fazer-lhe a franja que todas elas usavam demorou uma eternidade. Beth tentou entreter-se a pensar naquela palavra, «chupa-pilas». Lembrava-lhe «papilas», mas tinha a sensação de que não devia ter que ver com isso.

*

O zelador era mais gordo de um lado do que do outro. Chamava-se Shaibel. Senhor Shaibel. Um dia, disseram-lhe para ir à cave limpar os apagadores dos quadros de ardósia, batendo-os uns nos outros, e ela encontrou-o sentado num banco de metal ao pé da caldeira, a encarar um tabuleiro de xadrez verde e branco com uma expressão carregada. Mas, no lugar das peças, estavam umas coisas de plástico, pequenas, com formas estranhas. Umas eram maiores do que as outras. O zelador levantou o olhar. Ela saiu em silêncio.

À sexta-feira, todos comiam peixe, fossem católicos ou não. Vinha aos cubos, panado numa crosta escura, castanha e seca, e coberto por um espesso molho cor de laranja, a fazer lembrar molho cocktail. O molho era doce e horrível, mas o peixe que se escondia por baixo conseguia ser pior. O seu sabor quase fez Beth engasgar-se. Mas era preciso comer tudo até ao fim; caso contrário, contavam à senhora Deardorff e não se era adoptado.

Algumas crianças eram adoptadas depressa. Uma menina de seis anos, chamada Alice, entrou um mês depois de Beth e em três semanas tinha ido com uma família de pessoas bonitas com sotaque. Atravessaram a ala no dia em que vieram buscar Alice. Beth teve vontade de os abraçar, pareciam-lhe ser felizes, mas virou-lhes as costas e foi-se embora quando olharam para si. Outras crianças já lá estavam havia muito tempo e sabiam que nunca se iriam embora. Auto-intitulavam-se «condenados». Beth ficava a pensar se seria uma condenada.

*

Ginástica era mau e voleibol era o pior. Beth nunca conseguia acertar na bola como devia ser. Ou lhe batia de mão aberta com toda a força ou a empurrava com os dedos hirtos. Numa das vezes, aleijou o dedo de tal maneira que acabou por inchar. A maioria das raparigas ria-se ou gritava enquanto jogava, mas Beth nunca o fez.

Jolene era, de longe, a melhor jogadora. Não se tratava apenas de ser mais velha e mais alta: sabia sempre o que fazer, e quando a bola era batida por cima da rede em altura, ela conseguia posicionar-se debaixo dela sem ter de gritar às outras raparigas que saíssem da frente, e então saltava e disparava-a para o campo oposto com um longo e suave movimento de braço. A equipa que tivesse Jolene ganhava sempre.

Na semana após Beth ter magoado o dedo, Jolene interceptou-a no final da aula de ginástica, enquanto as outras raparigas corriam para os balneários.

— Deixa-me mostrar-te uma coisa — disse ela.

Mostrou as mãos, abrindo os seus longos dedos e mantendo-os ligeiramente flectidos.

— Faz assim.

Dobrou os cotovelos e subiu as mãos suavemente, impulsionando uma bola imaginária.

— Experimenta.

Beth experimentou, a medo, inicialmente. Jolene voltou a mostrar-lhe como se fazia, rindo-se. Beth tentou mais algumas vezes, com melhores resultados. Depois, Jolene pegou na bola e fez com que Beth a apanhasse com as pontas dos dedos. Após algumas tentativas, tornou-se fácil.

— Continua a praticar isso, ouviste? — disse Jolene, correndo para o balneário.

Beth continuou a praticar na semana seguinte, e depois disso já não se importava nada de jogar voleibol. Não se tornou boa jogadora, mas o jogo deixou de a assustar.

*

Todas as terças-feiras, a menina Graham mandava Beth limpar os apagadores depois da aula de Aritmética. Era considerado um privilégio, e Beth era a melhor aluna da sua turma, apesar de ser a mais nova. Não gostava da cave. Cheirava a mofo, e ela tinha medo do senhor Shaibel. Mas queria saber mais acerca do jogo que ele jogava naquele tabuleiro, sem companhia.

Certo dia, aproximou-se e ficou de pé junto a ele, à espera de que movesse uma peça. Estava a tocar numa com uma pequena cabeça de cavalo sobre um pedestal. Passado um momento, ele ergueu a cabeça e olhou-a com uma expressão irritada.

— O que é que queres, criança? — inquiriu.

Regra geral, ela fugia de qualquer contacto humano, especialmente com adultos, mas desta vez não se afastou.

— Como é que se chama esse jogo? — perguntou.

Ele fixou-a.

— Devias estar lá em cima com as outras crianças.

Ela olhou para ele tranquilamente; havia algo naquele homem e na segurança com que jogava o seu jogo misterioso que a ajudava a não abrir mão daquilo que queria.

— Não quero estar com as outras crianças — disse ela. — Quero saber que jogo é esse.

Ele observou-a com mais atenção. Depois encolheu os ombros.

— Chama-se xadrez.

*

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